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[1] Os discípulos desses homens, quando percebem que as doutrinas dos hereges são como o oceano quando é lançado em ondas pela violência dos ventos, devem navegar além delas em busca do porto tranquilo.

[2] Pois um mar dessa espécie é tanto infestado por feras quanto difícil de navegar, como, por assim dizer, o mar da Sicília, no qual a lenda relata haver os Ciclopes, Caríbdis, Cila e a rocha das Sereias.

[3] Ora, os poetas gregos afirmam que Ulisses navegou por esse estreito, usando com habilidade, em seu próprio benefício, o terror desses monstros estranhos.

[4] Porque a crueldade selvagem deles para com os que por ali navegavam era notável.

[5] As Sereias, porém, cantando doce e harmonicamente, enganavam os viajantes, atraindo, por causa de sua voz melodiosa, aqueles que a ouviam a dirigir seus navios para o promontório.

[6] Os poetas relatam que Ulisses, ao tomar conhecimento disso, untou com cera os ouvidos de seus companheiros e, amarrando-se ao mastro, navegou em segurança para além das Sereias, ouvindo distintamente o seu canto.

[7] E meu conselho aos meus leitores é que adotem expediente semelhante, isto é, ou por causa de sua fraqueza tapem os ouvidos com cera e naveguem diretamente através dos ensinos dos hereges, nem sequer ouvindo doutrinas que facilmente são capazes de seduzi-los ao prazer, como o canto delicioso das Sereias, ou, prendendo-se à Cruz de Cristo e ouvindo com fidelidade as suas palavras, não se deixem distrair, visto que depositaram sua confiança naquele a quem antes se ligaram firmemente, e perseverem com constância nessa fé.

[8] Portanto, visto que nos seis livros anteriores explicamos as opiniões heréticas precedentes, agora parece apropriado não silenciar a respeito das doutrinas de Basilides, que são os princípios de Aristóteles, o estagirita, e não de Cristo.

[9] E embora em ocasião anterior as opiniões formuladas por Aristóteles já tenham sido elucidadas, nem por isso hesitaremos agora em expô-las previamente em forma de síntese, a fim de capacitar meus leitores, por meio de uma comparação mais próxima entre os dois sistemas, a perceber com facilidade que as doutrinas propostas por Basilides são, na realidade, as engenhosas sutilezas de Aristóteles.

[10] Aristóteles, então, faz uma tripla divisão da substância.

[11] Pois uma parte dela é um certo gênero, outra uma certa espécie, como esse filósofo expressa, e uma terceira um certo indivíduo.

[12] O que é individual, porém, o é não por alguma pequenez de corpo, mas porque por natureza não admite divisão alguma.

[13] O gênero, por outro lado, é uma espécie de agregado, composto de muitos e diferentes germes.

[14] E desse gênero, como de um certo monte, todas as espécies dos seres existentes derivam suas distinções.

[15] E o gênero constitui uma causa suficiente para a produção de todos os entes gerados.

[16] Para que, contudo, a afirmação precedente fique clara, provarei meu ponto por meio de um exemplo.

[17] E por meio dele será possível refazer todo o caminho da especulação do sábio peripatético.

[18] Afirmamos a existência do animal em absoluto, e não de algum animal em particular.

[19] E esse animal não é boi, nem cavalo, nem homem, nem deus.

[20] Nem sequer designa qualquer um desses, mas é o animal em absoluto.

[21] Desse animal as espécies de todos os animais particulares derivam sua subsistência.

[22] E essa animalidade, sendo ela mesma o gênero supremo, constitui o princípio originante de todos os animais produzidos nessas espécies particulares, e, ainda assim, não é ela mesma nenhuma das coisas geradas.

[23] Pois o homem é um animal que deriva seu princípio de existência dessa animalidade, e o cavalo é um animal que deriva seu princípio de existência dessa animalidade.

[24] O cavalo, o boi, o cão e cada um dos demais animais derivam seu princípio de existência do animal absoluto, ao passo que a própria animalidade não é nenhum deles.

[25] Se, porém, essa animalidade não é nenhuma dessas espécies, então a subsistência, segundo Aristóteles, das coisas geradas deriva sua realidade de entidades não existentes.

[26] Pois a animalidade, da qual cada uma dessas deriva separadamente, não é nenhuma delas.

[27] E embora não seja nenhuma delas, ainda assim tornou-se um certo princípio originante das coisas existentes.

[28] Mas quem foi que estabeleceu essa substância como causa originante do que é posteriormente produzido, declararemos quando chegarmos ao lugar apropriado para tratar dessa discussão.

[29] Visto, porém, que, como eu disse, a substância é tríplice, a saber, gênero, espécie e indivíduo, e que estabelecemos a animalidade como sendo o gênero, e o homem como sendo a espécie, já distinta da maioria dos animais, mas ainda assim identificável com os animais de sua própria espécie, por ainda não ter sido moldado como espécie de substância realizada, quando dou forma sob um nome a um homem derivado do gênero, chamo-o Sócrates, Diógenes ou algum dos muitos nomes em uso.

[30] E visto que assim compreendo sob um nome o homem que constitui uma espécie gerada do gênero, denomino uma substância desse tipo de indivíduo.

[31] Pois o gênero foi dividido em espécies, e a espécie em indivíduo.

[32] Mas quanto ao indivíduo, como foi compreendido sob um nome, não é possível que, de acordo com sua própria natureza, possa ser dividido em qualquer outra coisa, como fizemos com cada um dos mencionados anteriormente, gênero e espécie.

[33] Aristóteles, primária, especial e eminentemente, chama isso de substância, visto que não pode nem ser predicado de um sujeito nem existir em um sujeito.

[34] Ele, porém, predica do sujeito, assim como no caso do gênero, aquilo que eu disse constituir a animalidade, e que é predicado por meio de um nome comum de todos os animais particulares, como boi, cavalo e os demais que estão colocados sob esse gênero.

[35] Pois é verdadeiro dizer que o homem é um animal, e o cavalo um animal, e que o boi é um animal, e o mesmo quanto a cada um dos demais.

[36] Ora, o sentido da expressão “predicado de um sujeito” é este: que, sendo uma só coisa, pode ser predicada do mesmo modo de muitos particulares, embora estes sejam diversificados em espécies.

[37] Pois nem o cavalo nem o boi diferem do homem na medida em que ele é animal, porque a definição de animal convém igualmente a todos os animais.

[38] Pois o que é um animal?

[39] Se o definirmos, uma definição geral abrangerá todos os animais.

[40] Porque animal é uma substância animada dotada de sensação.

[41] Assim são o boi, o homem, o cavalo e cada um dos demais do reino animal.

[42] Mas o sentido da expressão “em um sujeito” é este: que aquilo que é inerente a algo, não como parte, é impossível existir separadamente daquilo em que está.

[43] Mas isso constitui cada um dos acidentes residentes na substância, e é o que se chama qualidade.

[44] Ora, segundo isso, dizemos que certas pessoas são de tal qualidade, por exemplo, brancas, grisalhas, negras, justas, injustas, temperantes e outras características semelhantes a essas.

[45] Mas é impossível que qualquer uma dessas subsista por si mesma; deve, antes, inerir em alguma outra coisa.

[46] Se, contudo, nem o animal, que predico de todos os animais individuais, nem os acidentes, que se descobrem em todas as coisas das quais são qualidades não essenciais, podem subsistir por si mesmos, e se, ainda assim, os indivíduos são formados a partir deles, segue-se, portanto, que a substância tripartidamente dividida, que não é composta a partir de outras coisas, consiste de não-entes.

[47] Se, então, aquilo que é primária, eminentemente e particularmente denominado substância consiste nessas coisas, deriva sua existência de não-entes, segundo Aristóteles.

[48] Mas quanto à substância, bastará o que foi dito até agora.

[49] Contudo, não apenas a substância é chamada gênero, espécie e indivíduo, mas também matéria, forma e privação.

[50] Não há, entretanto, no que diz respeito à substância, diferença alguma entre essas coisas, mesmo que a divisão seja admitida.

[51] Ora, visto que a substância é dessa natureza, a disposição do mundo ocorreu segundo algum plano como o seguinte.

[52] O mundo é dividido, segundo Aristóteles, em partes muitíssimo numerosas e diversificadas.

[53] A porção do mundo que se estende da terra até a lua é desprovida de providência, sem direção, e está sob o domínio apenas da natureza que lhe pertence.

[54] Mas outra parte do mundo, que está além da lua e se estende até a superfície do céu, é organizada no meio de toda ordem, providência e governo.

[55] Ora, a superfície celeste constitui uma certa quinta substância, e está afastada de todos aqueles elementos naturais dos quais o sistema cósmico deriva sua consistência.

[56] E esta é, segundo Aristóteles, uma certa quinta substância, como que uma essência supramundana.

[57] E essa essência se tornou uma necessidade lógica em seu sistema, para concordar com a divisão peripatética do mundo.

[58] E o tema dessa quinta natureza constitui uma investigação distinta na filosofia.

[59] Pois existe uma certa dissertação intitulada “Lição sobre os Fenômenos Físicos”, na qual ele tratou detalhadamente das operações conduzidas pela natureza e não pela providência, na região do espaço que vai da terra até a lua.

[60] E existe também outro tratado peculiar dele sobre os princípios das coisas na região além da lua, que traz o título “Metafísica”.

[61] E outra dissertação particular foi escrita por ele, intitulada “Sobre uma Quinta Substância”, e nessa obra Aristóteles desenvolve suas opiniões teológicas.

[62] Existe, pois, tal divisão do universo como tentamos agora delinear em resumo, e a ela corresponde a divisão da filosofia aristotélica.

[63] Sua obra, porém, intitulada “Sobre a Alma”, é obscura.

[64] Porque em todos os três livros em que trata desse assunto não é possível dizer claramente qual é a opinião de Aristóteles acerca da alma.

[65] Pois, quanto à definição que ele fornece da alma, é suficientemente fácil enunciá-la, mas o que essa definição significa é difícil de descobrir.

[66] Pois a alma, diz ele, é uma enteléquia de um corpo natural orgânico.

[67] Mas explicar o que isso realmente é exigiria muitíssimos argumentos e uma investigação prolongada.

[68] Quanto à divindade, a causa originadora de todos os gloriosos objetos da criação, a natureza dessa causa primeira é ainda mais difícil de conhecer do que a própria alma, mesmo para alguém que conduza sua investigação com mais extensão do que a que se faz sobre a alma.

[69] A definição, contudo, que Aristóteles fornece da divindade não é difícil de identificar, mas é impossível compreender seu significado.

[70] Pois ele diz que a divindade é pensamento de pensamento.

[71] Mas isso é, ao todo, uma entidade inexistente.

[72] O mundo, porém, segundo Aristóteles, é incorruptível e eterno.

[73] Pois não tem em si nada de defeituoso, visto que é dirigido pela providência e pela natureza.

[74] E Aristóteles estabeleceu doutrinas não apenas acerca da natureza, do sistema cósmico, da providência e de Deus, mas escreveu mais do que isso.

[75] Pois também existe dele um certo tratado sobre assuntos éticos, e esses ele intitula “Livros de Ética”.

[76] Mas em todos eles ele visa tornar excelentes os hábitos de seus ouvintes, em vez de vis.

[77] Quando, portanto, se descobre que Basilides, não apenas em espírito, mas também nas próprias expressões e nomes, transfere os princípios de Aristóteles para nossa doutrina evangélica e salvadora, o que resta senão, restaurando aquilo que ele se apropriou de outros, provar aos discípulos desse herege que Cristo de modo algum lhes aproveitará, visto que são pagãos em suas ideias?

[78] Basilides, portanto, e Isidoro, o verdadeiro filho e discípulo de Basilides, dizem que Matias lhes comunicou discursos secretos, que ele, sendo especialmente instruído, ouviu do Salvador.

[79] Vejamos, então, quão claramente Basilides, juntamente com Isidoro e toda a turma desses hereges, não apenas desmente totalmente a Matias, mas até ao próprio Salvador.

[80] Houve um tempo, diz Basilides, em que não havia nada.

[81] Nem mesmo esse nada, contudo, constituía qualquer coisa dentre as coisas existentes.

[82] Mas, para me expressar sem disfarce, francamente e sem sofisma, isso era absolutamente nada.

[83] Mas quando, diz ele, emprego a expressão “havia”, não digo que de fato havia, mas falo assim para indicar o sentido do que quero esclarecer.

[84] Afirmo, então, diz ele, que era absolutamente nada.

[85] Pois aquilo que é nomeado não é absolutamente inefável, embora sem dúvida chamemos isso de inefável, mas aquilo que é não-inefável.

[86] Porque aquilo que é não-inefável não é denominado inefável, mas está, diz ele, acima de todo nome que é nomeado.

[87] Pois, diz ele, de modo algum esses nomes são suficientes para o mundo, mas tão múltiplas são as suas divisões que há falta de nomes.

[88] E eu não tomo para mim, diz ele, a tarefa de descobrir denominações próprias para todas as coisas.

[89] Sem dúvida, porém, convém conceber mentalmente, e não por meio de nomes, de maneira inefável, as peculiaridades das coisas assim denominadas.

[90] Pois uma terminologia equívoca, quando empregada por mestres, criou para seus discípulos confusão e fonte de erro acerca dos objetos.

[91] Os basilidianos, em primeiro lugar, apropriando-se dessa doutrina tomada de empréstimo e furtivamente derivada do sábio peripatético, brincam com a tolice daqueles que andam reunidos com eles.

[92] Pois Aristóteles, nascido muitas gerações antes de Basilides, foi o primeiro a estabelecer, em “As Categorias”, um sistema acerca de palavras homônimas.

[93] E esses hereges trazem isso à luz como se fosse peculiarmente deles, como se fosse alguma doutrina nova e alguma revelação secreta dos discursos de Matias.

[94] Visto, portanto, que nada existia, isto é, nem matéria, nem substância, nem o que é insubstancial, nem o que é simples, nem o que é composto, nem o que é concebível, nem o que é inconcebível, nem o que é sensível, nem o que é privado de sentidos, nem homem, nem anjo, nem deus, nem, em resumo, qualquer das coisas que têm nomes, ou que são apreendidas pelos sentidos, ou conhecidas pelo intelecto, mas, com ainda maior exatidão, todas as coisas tendo sido completamente removidas, desde que, digo eu, nada existia, Deus, não-existente, a quem Aristóteles chama “pensamento de pensamento”, mas a quem estes basilidianos chamam “não-existente”, de modo inconcebível, insensível, indeterminado, involuntário, impassível e sem ser movido por desejo, quis criar um mundo.

[95] Ora, emprego, diz ele, a expressão “quis” com o propósito de indicar que o fez involuntária, inconcebível e insensivelmente.

[96] E pela expressão “mundo” não entendo aquilo que depois foi formado segundo extensão e divisão, e que permaneceu separado.

[97] De modo nenhum.

[98] Pois entendo o germe de um mundo.

[99] O germe do mundo, porém, tinha todas as coisas em si.

[100] Assim como o grão de mostarda compreende simultaneamente todas as coisas, mantendo-as reunidas no menor espaço, isto é, raízes, haste, ramos, folhas e inúmeros grãos que são produzidos pela planta, como sementes, por sua vez, de outras plantas, e muitas vezes de outras ainda, produzidas a partir delas.

[101] Dessa maneira, o Deus não-existente fez o mundo a partir de não-entes, lançando e depositando uma semente que continha em si uma aglomeração dos germes do mundo.

[102] Mas, para tornar mais claro o que esses hereges afirmam, mencionarei a seguinte ilustração deles.

[103] Assim como um ovo de alguma ave de plumagem variada e multicolorida, por exemplo o pavão, ou alguma outra ave ainda mais variada e multicolorida, sendo um só na realidade, contém em si numerosas formas de substâncias múltiplas, multicoloridas e muito compostas, assim também, diz ele, a semente não-existente do mundo, depositada pelo Deus não-existente, constitui ao mesmo tempo o germe de uma multidão de formas e de uma multidão de substâncias.

[104] Todas as coisas, portanto, tudo quanto é possível declarar, e tudo quanto, por ainda não ter sido descoberto, é preciso omitir, estavam destinadas a receber adaptação ao mundo que estava para ser gerado a partir da semente.

[105] E essa semente, nas épocas oportunas, cresce em tamanho de uma maneira peculiar, segundo acréscimo, como por instrumentalidade de uma divindade tão grande e de tal natureza.

[106] Mas essa divindade a criatura não pode nem exprimir nem apreender pela percepção.

[107] Ora, todas essas coisas estavam inerentes e guardadas na semente, assim como depois observamos em uma criança recém-nascida o crescimento dos dentes, a substância paterna, o intelecto e tudo quanto, embora antes não existisse, vai se acrescentando ao homem, crescendo pouco a pouco desde a juventude.

[108] Mas, visto que seria absurdo dizer que alguma projeção de um Deus não-existente se tornou alguma coisa existente, pois Basilides evita e teme completamente a noção de substâncias geradas por via de projeção, porque, pergunta ele, de que tipo de projeção haveria necessidade, ou de que tipo de matéria deveríamos supor a existência prévia, para que Deus construísse um mundo, como a aranha constrói sua teia, ou como um homem mortal toma um pedaço de bronze, madeira ou alguma outra matéria para com ela trabalhar?

[109] Portanto, estando a projeção fora de questão, certamente, diz Basilides, Deus falou a palavra, e isso foi levado a efeito.

[110] E isto, como afirmam esses homens, é o que foi dito por Moisés: “Haja luz”, e houve luz.

[111] De onde, pergunta ele, veio a luz?

[112] Do nada.

[113] Pois não está escrito, diz ele, de onde ela veio, mas somente isto, que veio da voz daquele que pronunciou a palavra.

[114] E aquele que pronunciou a palavra, diz ele, era não-existente, e também não existia aquilo que estava sendo produzido.

[115] A semente do sistema cósmico foi gerada, diz ele, a partir de não-entes.

[116] E por semente entendo a palavra que foi pronunciada: “Haja luz”.

[117] E isto, diz ele, é o que foi dito nos Evangelhos: “Ele era a verdadeira luz, que ilumina a todo homem que vem ao mundo”.

[118] Ele deriva seus princípios originários daquela semente e obtém da mesma fonte seu poder iluminador.

[119] Essa é a semente que tem em si toda a aglomeração dos germes.

[120] E Aristóteles afirma que isso é o gênero, e por ele é distribuído em espécies infinitas, assim como do animal, que não é nenhum ser particular, se separam boi, cavalo e homem.

[121] Quando, portanto, a semente cósmica se torna a base de um desenvolvimento posterior, esses hereges afirmam, para citar as próprias palavras de Basilides: “Tudo quanto digo ter sido feito depois disso, não perguntes de onde veio”.

[122] Pois a semente tinha todos os germes guardados e repousando em si, como entidades não existentes, e que estavam destinadas a ser produzidas por uma divindade não-existente.

[123] Vejamos, então, o que eles dizem ser o primeiro, o segundo e o terceiro elemento no desenvolvimento do que foi gerado a partir da semente cósmica.

[124] Existia, diz ele, na própria semente, uma Filiação, tripla, em todos os aspectos da mesma substância que o Deus não-existente, gerada a partir de não-entes.

[125] Dessa Filiação, envolvendo assim uma divisão tríplice, uma parte era refinada, outra grosseira, e outra necessitada de purificação.

[126] A porção refinada, portanto, em primeiro lugar, simultaneamente com a primeira deposição da semente pelo não-existente, irrompeu imediatamente e subiu apressadamente de baixo para cima, usando uma espécie de rapidez descrita pela poesia como “rápida como asa ou pensamento”, e alcançou, diz ele, aquele que é não-existente.

[127] Pois toda natureza deseja esse não-existente por causa de uma superabundância de beleza e esplendor.

[128] Cada natureza, porém, o deseja de modo diferente.

[129] A porção mais grosseira da Filiação, porém, permanecendo ainda na semente e sendo uma espécie de princípio imitativo, não pôde apressar-se para cima.

[130] Pois essa porção era muito mais deficiente no refinamento que a Filiação possuía, a qual por si mesma se elevou, e assim a parte mais grosseira ficou para trás.

[131] Portanto, a Filiação mais grosseira equipou-se com alguma espécie de asa tal como Platão, mestre de Aristóteles, atribui à alma no “Fedro”.

[132] E Basilides chama isso, não de asa, mas de Espírito Santo.

[133] E a Filiação, revestida desse Espírito, confere benefícios e também os recebe em troca.

[134] Confere benefícios porque, assim como a asa de um pássaro, se removida do pássaro, não subiria por si mesma ao alto, e, por outro lado, um pássaro, se despojado de sua asa, jamais subiria ao alto, do mesmo modo a Filiação mantinha certa relação com o Espírito Santo, e o Espírito com a Filiação.

[135] Pois a Filiação, sendo levada para cima pelo Espírito como por uma asa, eleva por sua vez sua própria pena, isto é, o Espírito.

[136] E ela se aproxima da Filiação refinada e do Deus não-existente, isto é, daquele que fabricou o mundo a partir de não-entes.

[137] Contudo, ela não pôde manter esse Espírito consigo na própria Filiação, porque ele não era da mesma substância, nem tinha qualquer natureza em comum com a Filiação.

[138] Mas assim como o ar puro e seco é contrário à natureza dos peixes e destrutivo para eles, assim também aquele lugar da divindade não-existente e da Filiação era contrário à natureza do Espírito Santo, um lugar mais inefável do que as coisas inefáveis e mais elevado do que todos os nomes.

[139] A Filiação, portanto, deixou esse Espírito perto daquele lugar bendito, que não pode ser concebido nem representado por expressão alguma.

[140] Não o deixou, contudo, totalmente abandonado ou separado da Filiação.

[141] Longe disso.

[142] Pois é como quando se coloca um unguento muito perfumado em um vaso, e ainda que o vaso seja esvaziado dele com o máximo cuidado, permanece mesmo assim algum odor do unguento, e esse odor fica para trás, mesmo depois de o unguento ter sido separado do vaso.

[143] E o vaso retém o cheiro do unguento, embora não contenha mais o unguento em si.

[144] Assim também o Espírito Santo permaneceu sem participar da Filiação e separado dela, e tem em si, do mesmo modo que o unguento, seu próprio poder, um aroma de Filiação.

[145] E isso é o que foi declarado: “Como o óleo sobre a cabeça, que desceu para a barba de Arão”.

[146] Esse é o aroma vindo do Espírito Santo e trazido de cima até a informidade e ao intervalo de espaço próximo do nosso mundo.

[147] E a partir disso o Filho começou a subir, sustentado, por assim dizer, diz Basilides, sobre asas de águias e sobre o dorso.

[148] Pois, diz ele, todas as entidades se apressam de baixo para cima, das inferiores para as superiores.

[149] Pois nenhuma das coisas que estão entre as superiores é tão tola a ponto de descer para baixo.

[150] A terceira Filiação, porém, aquela que necessita de purificação, permaneceu, diz ele, na vasta aglomeração de todos os germes, conferindo benefícios e recebendo-os.

[151] Mas de que maneira essa terceira Filiação recebe benefícios e os confere, declararemos depois, quando chegarmos ao lugar apropriado para discutir essa questão.

[152] Quando, portanto, ocorreu uma primeira e uma segunda ascensão da Filiação, e o próprio Espírito Santo permaneceu também do modo mencionado, o firmamento foi colocado entre as regiões supramundanas e o mundo.

[153] Pois os seres existentes foram distribuídos por Basilides em duas divisões contínuas e principais, e são, segundo ele, denominados em certo sentido mundo, e em certo sentido regiões supramundanas.

[154] Mas o Espírito, linha de demarcação entre o mundo e as regiões supramundanas, é aquilo que é santo e tem em si o aroma da Filiação.

[155] Enquanto, portanto, o firmamento que está acima do céu vinha à existência, irrompeu e foi gerado da semente cósmica e da aglomeração de todos os germes o Grande Arconte e Cabeça do mundo, constituindo uma certa espécie de beleza, grandeza e poder indissolúvel.

[156] Pois, diz ele, ele é mais inefável do que as entidades inefáveis, mais poderoso do que as poderosas, mais sábio do que as sábias e superior a todas as coisas belas que se possa mencionar.

[157] Esse Arconte, ao ser gerado, ergueu-se e voou para cima, sendo levado inteiramente até o firmamento.

[158] E ali parou, supondo que o firmamento fosse o término de sua ascensão e elevação, e considerando que nada existia além dele.

[159] E entre todas as entidades que permaneciam abaixo e eram mundanas, tornou-se mais sábio, mais poderoso, mais belo, mais resplandecente e, de fato, preeminente em beleza acima de quaisquer entidades que se possa nomear, com exceção apenas da Filiação, que ainda permanecia na aglomeração de todos os germes.

[160] Pois ele não sabia que havia uma Filiação mais sábia, mais poderosa e melhor do que ele próprio.

[161] Portanto, imaginando-se Senhor, Governador e sábio Arquiteto, volta-se para a obra de criação de todo objeto no sistema cósmico.

[162] E primeiro julgou conveniente não ficar sozinho, mas fez para si e gerou, a partir das entidades adjacentes, um Filho muito superior a ele mesmo e mais sábio.

[163] Pois todas essas coisas haviam sido previamente determinadas pela divindade não-existente quando lançou a aglomeração de todos os germes.

[164] Ao contemplar, portanto, o Filho, foi tomado de assombro, amou-o e ficou maravilhado.

[165] Pois uma beleza dessa natureza pareceu ao Grande Arconte pertencer ao Filho, e o Arconte fez com que ele se assentasse à sua direita.

[166] Isso é, segundo esses hereges, o que se denomina Ogdóade, onde o Grande Arconte tem seu trono.

[167] Toda a criação celeste, então, isto é, o éter, foi formada por ele mesmo, o grande e sábio Demiurgo.

[168] O Filho, porém, gerado desse Arconte, opera nele e lhe oferece sugestões, sendo dotado de sabedoria muito maior do que a do próprio Demiurgo.

[169] Isto, então, constitui a enteléquia do corpo natural orgânico, segundo Aristóteles, isto é, uma alma operando no corpo, sem a qual o corpo não é capaz de realizar nada que seja maior, mais ilustre, mais poderoso e mais sábio do que o próprio corpo.

[170] A exposição, portanto, que Aristóteles anteriormente forneceu acerca da alma e do corpo, Basilides a aplica ao Grande Arconte e a seu Filho.

[171] Pois o Arconte gerou, segundo Basilides, um filho, e a alma, como operação e consumação, Aristóteles afirma ser uma enteléquia de um corpo natural orgânico.

[172] Assim, portanto, como a enteléquia governa o corpo, o Filho, segundo Basilides, governa o Deus que é mais inefável do que as entidades inefáveis.

[173] Todas as coisas, então, foram providas e governadas pela majestade do Grande Arconte, isto é, todos os objetos que existem na região etérea do espaço até a lua, porque a partir desse ponto o ar se separa do éter.

[174] Quando todas as coisas nas regiões etéreas foram assim ordenadas, novamente da aglomeração de todos os germes subiu outro Arconte, maior, evidentemente, do que todas as entidades abaixo dele, exceto, porém, a Filiação que tinha sido deixada para trás, mas muito inferior ao Primeiro Arconte.

[175] E esse segundo Arconte é chamado por eles de Reto.

[176] E esse lugar é chamado Hebdômada, e esse Arconte é o administrador e fabricante de todas as entidades que estão abaixo.

[177] E ele também fez para si, a partir da aglomeração de todos os germes, um filho mais prudente e sábio do que ele mesmo, semelhantemente ao que foi dito ter acontecido no caso do Primeiro Arconte.

[178] Aquilo que existe nessa região do universo constitui, diz ele, a verdadeira aglomeração e coleção de todas as sementes.

[179] E as coisas geradas são produzidas segundo a natureza, como já foi declarado por aquele que calcula as coisas futuras, quando elas devem existir, que tipo devem ser e como devem ser.

[180] E dessas coisas ninguém é chefe, guardião ou criador.

[181] Pois causa suficiente de existência para elas é aquele cálculo que o Não-Existente formou quando exerceu a função de criar.

[182] Quando, portanto, segundo esses hereges, o mundo inteiro e as entidades supramundanas foram concluídos, e nada mais existe em estado de carência, ainda resta na aglomeração de todos os germes a terceira Filiação, que tinha sido deixada na semente para conferir benefícios e recebê-los.

[183] E é necessário que a Filiação que havia sido deixada para trás também seja revelada e restabelecida acima.

[184] E o seu lugar deve ser acima do Espírito Limítrofe, perto da Filiação refinada e imitativa e do Não-Existente.

[185] Mas isso estaria de acordo com o que foi escrito, diz ele: “A própria criação geme juntamente e juntamente suporta dores de parto, esperando a manifestação dos filhos de Deus”.

[186] Ora, nós, que somos espirituais, somos esses filhos, diz ele, que foram deixados aqui para ordenar, moldar, corrigir e completar as almas que, segundo a natureza, são constituídas para permanecer nesta região do universo.

[187] O pecado, então, reinou desde Adão até Moisés, como está escrito.

[188] Pois o Grande Arconte exercia domínio e possuía um império cujos limites se estendiam até o firmamento.

[189] E ele imagina ser sozinho Deus, e que nada existe acima dele, pela razão de que todas as coisas foram guardadas por uma Silêncio não revelada.

[190] Esse, diz ele, é o mistério que não foi dado a conhecer às gerações anteriores.

[191] Mas naqueles dias o Grande Arconte, a Ogdóade, era rei e senhor, ao que parecia, do universo.

[192] Mas, na realidade, a Hebdômada era rei e senhor desta região do universo, e a Ogdóade é Arrhetus, ao passo que a Hebdômada é Rhetus.

[193] Esse, diz ele, é o Arconte da Hebdômada, aquele que falou a Moisés e disse: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, e não lhes manifestei o nome de Deus”, isto é, o Deus Arrhetus, Arconte da Ogdóade, pois assim querem que estivesse escrito.

[194] Todos os profetas, portanto, que vieram antes do Salvador, proferiram suas profecias, diz ele, a partir dessa fonte de inspiração.

[195] Visto, então, que era necessário, diz ele, que fôssemos revelados como filhos de Deus, aguardando cuja manifestação a criação habitualmente geme e sofre dores, o Evangelho veio ao mundo e passou através de todo principado, poder, domínio e todo nome que se nomeia.

[196] E o Evangelho veio de fato, embora nada tenha descido do alto.

[197] Nem a bendita Filiação se retirou daquele Deus inconcebível, bendito e não-existente.

[198] De modo nenhum.

[199] Pois assim como a nafta indiana, quando acesa meramente a uma longa distância, ainda assim atrai para si o fogo, do mesmo modo, desde baixo, a partir da informidade da aglomeração de todos os germes, os poderes sobem até a Filiação.

[200] Pois, segundo a ilustração da nafta indiana, o Filho do Grande Arconte da Ogdóade, como se fosse uma espécie de nafta, apreende e recebe concepções da Filiação Bendita, cuja morada está situada depois do Espírito Limítrofe.

[201] Porque o poder da Filiação que está no meio do Espírito Santo, isto é, no meio do Espírito Limítrofe, compartilha com o Filho do Grande Arconte os pensamentos que fluem e irrompem da Filiação.

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