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[1] Epicuro, porém, apresentou uma opinião quase contrária a todas as demais.

[2] Ele supôs, como princípios originários de todas as coisas, os átomos e o vazio.

[3] Considerava o vazio como o lugar que conteria as coisas que viriam a existir.

[4] E os átomos como a matéria a partir da qual todas as coisas poderiam ser formadas.

[5] E que, da confluência dos átomos, derivaram existência tanto a divindade como todos os elementos e todas as coisas inerentes a eles, bem como os animais e as demais criaturas.

[6] De modo que nada era gerado ou existia, a não ser a partir dos átomos.

[7] E afirmava que esses átomos eram compostos de partículas extremamente pequenas, nas quais não poderia existir nem ponto, nem sinal, nem divisão alguma.

[8] Por isso também os chamou de átomos.

[9] Reconhecendo a divindade como eterna e incorruptível, diz que Deus não exerce cuidado providencial sobre coisa alguma.

[10] E que não existe absolutamente nada como providência ou destino.

[11] Mas que todas as coisas são feitas pelo acaso.

[12] Pois afirmava que a divindade repousava nos espaços intermúndios, assim chamados por ele.

[13] Porque, fora do mundo, ele determinava haver uma certa morada de Deus, denominada os espaços intermúndios.

[14] E que a divindade se entregava ao prazer e ao repouso no meio da suprema felicidade.

[15] E que ela não tinha quaisquer ocupações, nem lhes dedicava sua atenção.

[16] Como consequência dessas opiniões, também propôs sua teoria acerca dos sábios, afirmando que o fim da sabedoria é o prazer.

[17] Diferentes pessoas, porém, entenderam o termo prazer em sentidos diferentes.

[18] Pois alguns, entre os gentios, entendiam as paixões.

[19] Mas outros, a satisfação resultante da virtude.

[20] E concluiu que as almas dos homens se dissolvem juntamente com seus corpos.

[21] Assim como também foram produzidas juntamente com eles.

[22] Pois afirmava que elas são sangue.

[23] E que, quando este se esvai ou se altera, o homem inteiro perece.

[24] E, em conformidade com esse princípio, Epicuro sustentava que não há provações no Hades nem tribunais de justiça.

[25] De modo que, qualquer coisa que alguém pratique nesta vida, contanto que escape à detecção, fica totalmente livre de qualquer responsabilidade de julgamento em um estado futuro.

[26] Dessa maneira, então, Epicuro também formou suas opiniões.

[27] E uma outra opinião dos filósofos foi chamada a dos Acadêmicos.

[28] Isso por causa daqueles que conduziam suas discussões na Academia.

[29] Dentre eles, Pirro, de quem foram chamados filósofos pirrônicos, foi o primeiro a introduzir a noção da incompreensibilidade de todas as coisas.

[30] De tal modo que se estava pronto para tentar um argumento de ambos os lados de uma questão.

[31] Mas sem afirmar coisa alguma com certeza.

[32] Pois sustentava que nada do que é inteligível ou sensível é verdadeiro.

[33] Mas que as coisas apenas parecem assim aos homens.

[34] E que toda substância está em estado de fluxo e mudança.

[35] E nunca continua na mesma condição.

[36] Alguns seguidores dos Acadêmicos, então, dizem que não se deve declarar opinião sobre o princípio de coisa alguma.

[37] Mas apenas, tendo tentado, abandoná-la.

[38] Ao passo que outros acrescentaram a fórmula “não mais isto do que aquilo”.

[39] Dizendo que o fogo não é mais fogo do que qualquer outra coisa.

[40] Mas eles não declaravam o que isso é.

[41] E sim de que espécie é.

[42] Há também entre os indianos uma seita composta por aqueles que filosofam entre os brâmanes.

[43] Eles levam uma vida contente.

[44] Abstêm-se tanto de criaturas vivas quanto de todo alimento cozido.

[45] Satisfazem-se com frutos.

[46] E não os colhem das árvores.

[47] Mas recolhem os que caíram sobre a terra.

[48] Alimentam-se deles, bebendo a água do rio Tazabena.

[49] E passam a vida nus.

[50] Afirmam que o corpo foi constituído pela divindade como cobertura para a alma.

[51] Estes afirmam que Deus é luz.

[52] Não como a luz que se vê.

[53] Nem como o sol e o fogo.

[54] Mas, para eles, a divindade é discurso.

[55] Não aquele que encontra expressão em sons articulados.

[56] Mas o do conhecimento por meio do qual os mistérios secretos da natureza são percebidos pelos sábios.

[57] E essa luz que dizem ser discurso, seu deus, eles afirmam que somente os brâmanes conhecem.

[58] Isso porque apenas eles rejeitam toda vaidade de opinião, que é a cobertura final da alma.

[59] Estes desprezam a morte.

[60] E sempre, em sua própria língua peculiar, chamam Deus pelo nome que mencionamos anteriormente.

[61] E elevam hinos a Ele.

[62] Mas entre eles também não há mulheres.

[63] Nem geram filhos.

[64] Porém, aqueles que aspiram a uma vida semelhante à desses, depois de atravessarem para a região do outro lado do rio, continuam a residir ali, sem jamais retornar.

[65] E esses também são chamados brâmanes.

[66] Mas eles não passam a vida da mesma maneira.

[67] Pois naquele lugar também há mulheres.

[68] E os que ali habitam nascem delas.

[69] E, por sua vez, geram filhos.

[70] E esse discurso, ao qual chamam Deus, afirmam ser corpóreo.

[71] E envolto por um corpo fora de si mesmo.

[72] Como se alguém estivesse usando uma pele de ovelha.

[73] Mas que, ao despir-se do corpo, apareceria claro aos olhos.

[74] Os brâmanes, porém, dizem que há um conflito no corpo que os rodeia.

[75] E consideram que o corpo, para eles, está cheio de combates.

[76] Em oposição a esse corpo, como se estivessem alinhados para batalha contra inimigos, eles lutam, como já explicamos.

[77] E dizem que todos os homens são cativos de suas lutas congênitas.

[78] Isto é, sensualidade e impureza, glutonaria, ira, alegria, tristeza, concupiscência e coisas semelhantes.

[79] E aquele que ergueu um troféu sobre essas paixões, somente ele vai para Deus.

[80] Por isso os brâmanes divinizam Dândamis.

[81] Aquele a quem Alexandre da Macedônia visitou, como alguém que havia demonstrado vitória no conflito corporal.

[82] Mas rebaixam Calano, por ter se afastado impiamente de sua filosofia.

[83] Os brâmanes, porém, ao deporem o corpo, como peixes saltando da água para o ar puro, contemplam o sol.

[84] E os druidas celtas investigaram até o mais alto grau a filosofia pitagórica.

[85] Isso depois que Zamólxis, de nascimento trácio e servo de Pitágoras, tornou-se para eles o originador dessa disciplina.

[86] Depois da morte de Pitágoras, Zamólxis, indo para lá, tornou-se para eles o introdutor dessa filosofia.

[87] Os celtas os estimam como profetas e videntes.

[88] Por causa de predizerem certos acontecimentos mediante cálculos e números pela arte pitagórica.

[89] Quanto aos métodos dessa própria arte, tampouco guardaremos silêncio.

[90] Visto que também a partir dela alguns presumiram introduzir heresias.

[91] Mas os druidas recorrem também a ritos mágicos.

[92] Mas Hesíodo, o poeta, também afirma haver ouvido assim das Musas acerca da natureza.

[93] E que as Musas são filhas de Júpiter.

[94] Pois, quando durante nove noites e dias seguidos Júpiter, em excesso de paixão, havia permanecido continuamente com Mnemósine, Mnemósine concebeu num só ventre aquelas nove Musas.

[95] Tornando-se grávida de uma em cada noite.

[96] Então, depois de convocar as nove Musas desde Piéria, isto é, o Olimpo, ele as exortou a receber instrução.

[97] “Como primeiro foram feitos os deuses e a terra.”

[98] “E os rios, e o profundo sem limites, e a onda do oceano.”

[99] “E as estrelas cintilantes, e o vasto céu acima.”

[100] “Como tomaram a coroa e repartiram a glória.”

[101] “E como, no princípio, ocuparam o Olimpo de muitos vales.”

[102] “Essas coisas, ó Musas, dizei-me”, diz ele.

[103] “Desde o princípio.”

[104] “E depois, qual delas surgiu primeiro.”

[105] Sem dúvida, Caos surgiu primeiro.

[106] Mas depois a Terra de largo seio.

[107] Sempre o firme trono de todos os imortais que ocupam os píncaros do branco Olimpo.

[108] E o ventoso Tártaro no recesso da vasta terra.

[109] E o Amor, o mais belo entre os deuses imortais.

[110] Que afasta o cuidado de todos os deuses e homens.

[111] E domina nos peitos a mente e o sábio conselho.

[112] Mas de Caos surgiram Érebo e a Noite sombria.

[113] E, por sua vez, da Noite nasceram tanto o Ar como o Dia.

[114] Mas a Terra primordial, igual a si mesma em verdade, gerou o céu tempestuoso para cobri-la por todos os lados.

[115] A fim de ser para os deuses bem-aventurados um trono firme para sempre.

[116] E dela também vieram as altas montanhas.

[117] As agradáveis moradas das ninfas que habitam por todas as alturas cobertas de árvores.

[118] E também gerou o mar estéril, a inundação revolta pelas ondas.

[119] E isso sem o doce Amor.

[120] Mas depois, tendo-se unido ao Céu, gerou Oceano de profundos remoinhos.

[121] E Ceu, e Crio, e Hipérion, e Jápeto.

[122] E Teia, e Reia, e Têmis, e Mnemósine.

[123] E Febe de áurea coroa, e a graciosa Tétis.

[124] Mas, depois destes, nasceu por último o astucioso Cronos.

[125] O mais terrível dos filhos.

[126] E ele odiou seu pai florescente.

[127] E, por sua vez, ela também gerou os Ciclopes, de peito selvagem.

[128] E todos os demais gigantes provenientes de Cronos, Hesíodo os enumera.

[129] E em algum ponto depois afirma que Júpiter nasceu de Reia.

[130] Todos estes, então, fizeram as declarações anteriores em sua doutrina a respeito tanto da natureza como da geração do universo.

[131] Mas todos, rebaixando-se abaixo do que é divino, ocuparam-se com a substância dos seres existentes.

[132] Admirando-se da grandeza da criação.

[133] E supondo que ela constituía a divindade.

[134] Cada especulador escolhendo de preferência uma parte diferente do mundo.

[135] Falhando, contudo, em discernir o Deus e Criador dessas coisas.

[136] As opiniões, portanto, daqueles que tentaram formular sistemas de filosofia entre os gregos, considero que já explicamos suficientemente.

[137] E delas os hereges, tomando ocasião, tentaram estabelecer os ensinamentos que dentro de pouco tempo serão expostos.

[138] Parece, contudo, conveniente que, primeiro, explicando os ritos místicos e quaisquer doutrinas imaginárias que alguns laboriosamente formularam a respeito dos astros ou das magnitudes, passemos a declará-las.

[139] Pois também os hereges, tomando ocasião a partir dessas coisas, são considerados pela multidão como pessoas que proferem prodígios.

[140] Em seguida, por ordem, elucidaremos as fracas opiniões sustentadas por eles.

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