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[1] Retorno agora aos vários pontos pelos quais ele pensou que a Matéria estava sendo indicada. E, primeiro, investigarei os termos. Pois lemos apenas um deles, Terra; o outro, isto é, Matéria, não encontramos. Pergunto, então: já que Matéria não é mencionada na Escritura, como o termo terra pode ser aplicado a ela, se esse termo marca uma substância de outro tipo?

[2] Há ainda maior razão para que também se tivesse feito menção de Matéria, caso esta tivesse adquirido igualmente o sentido de Terra, para que eu pudesse ter certeza de que Terra é um e o mesmo nome que Matéria, e assim não reivindicar essa designação apenas para uma única substância, como seu nome próprio, pelo qual é mais conhecida; ou então não ficar livre, caso me incline a isso, para aplicá-la a alguma espécie particular de Matéria, em vez de tomá-la como termo comum de toda Matéria.

[3] Pois, quando não existe um nome próprio para aquilo a que se atribui um termo comum, quanto menos evidente for o objeto ao qual esse termo pode ser atribuído, tanto mais facilmente ele poderá ser aplicado a qualquer outro objeto. Portanto, ainda que Hermógenes pudesse nos mostrar o nome Matéria, ele está obrigado a provar-nos além disso que o mesmo objeto também tem o sobrenome Terra, para que possa reivindicar para ele ambas as designações de igual modo.

[4] Assim, ele sustenta que há duas terras postas diante de nós na passagem em questão: uma, que Deus fez no princípio; a outra sendo a Matéria da qual Deus fez o mundo, e acerca da qual se diz: “E a terra era sem forma e vazia” (Gênesis 1:2).

[5] Certamente, se eu perguntasse a qual dessas duas terras o nome terra se ajusta melhor, me será dito que a terra que foi feita recebeu a denominação daquela de que foi feita, com base em que é mais provável que o descendente receba o nome da origem do que a origem o receba do descendente.

[6] Sendo assim, surge outra questão: se é correto e apropriado que esta terra que Deus fez tenha recebido seu nome daquilo de que Ele a fez. Pois verifico, por Hermógenes e pelos demais hereges materialistas, que, enquanto a uma terra faltavam forma e plenitude, esta nossa recebeu de Deus, em igual medida, forma, beleza e simetria; e, portanto, que a terra criada era coisa diferente daquela de que foi criada.

[7] Ora, tendo-se tornado coisa diferente, ela de modo algum poderia ter partilhado com a outra do mesmo nome, depois de haver se afastado de sua condição anterior. Se terra era o nome próprio da Matéria original, este nosso mundo, que não é Matéria, porque se tornou outra coisa, não é apto para portar o nome terra, visto que esse nome pertence a outra realidade e é estranho à sua natureza.

[8] “Mas”, dirás tu, “a Matéria que sofreu criação, isto é, a nossa terra, tinha com sua origem uma comunidade não menor de nome do que de natureza”. De modo nenhum. Pois, embora o jarro seja formado do barro, eu já não o chamarei barro, mas jarro; do mesmo modo, embora o eletro seja composto de ouro e prata, eu não o chamarei nem ouro nem prata, mas eletro.

[9] Quando há afastamento da natureza de algo, há igualmente abandono do seu nome — e isso com propriedade, exigida tanto pela designação quanto pela condição. Quão grande mudança, de fato, sobreveio a esta nossa terra em relação àquela terra que seria Matéria, é claro até pelo fato de que esta recebeu em Gênesis o testemunho de sua bondade: “E Deus viu que era bom” (Gênesis 1:31); enquanto a outra, segundo Hermógenes, é considerada a origem e a causa de todos os males.

[10] Por fim, se uma é Terra porque a outra também o é, por que também a primeira não é Matéria, como a outra é? Na verdade, por essa regra, tanto o céu quanto todas as criaturas deveriam ter recebido os nomes de Terra e Matéria, visto que todas consistem de Matéria. Já falei o suficiente acerca da designação Terra, pela qual ele quer que se entenda Matéria.

[11] Como todos sabem, este é o nome de um dos elementos; assim nos ensina primeiro a natureza, e depois a Escritura — a menos que se deva dar crédito àquele Sileno que falou tão confiantemente na presença do rei Midas acerca de outro mundo, segundo o relato de Teopompo. Mas o mesmo autor também nos informa que há vários deuses.

[12] Nós, porém, temos um só Deus, e também uma só terra, que no princípio Deus fez (Gênesis 1:1). A Escritura, que desde o seu início se propõe a percorrer sua ordem, informa-nos primeiro que ela foi criada; em seguida, passa a expor que tipo de terra ela era.

[13] Do mesmo modo em relação ao céu, ela primeiro nos informa de sua criação: “No princípio Deus fez o céu” (Gênesis 1:1); depois passa a apresentar sua ordenação: como Deus separou a água que estava abaixo do firmamento da que estava acima do firmamento (Gênesis 1:7), e chamou ao firmamento céu — precisamente aquilo que havia criado no princípio.

[14] De forma semelhante, trata depois do homem: “E Deus criou o homem; à imagem de Deus o fez” (Gênesis 1:27). Em seguida revela como o fez: “E o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida; e o homem se tornou alma vivente” (Gênesis 2:7).

[15] Ora, este é sem dúvida o modo correto e apropriado de narrar. Primeiro vem a declaração introdutória; depois seguem os detalhes completos. Primeiro o assunto é nomeado; depois é descrito.

[16] Quão absurda é a outra interpretação do relato, quando, antes mesmo de ter feito qualquer menção preliminar ao seu assunto, isto é, à Matéria, sem sequer nos dar o seu nome, ele de repente publica sua forma e condição, descrevendo-nos sua qualidade antes de mencionar sua existência — apontando a figura da coisa formada, mas ocultando seu nome!

[17] Mas quão mais crível é a nossa posição, que sustenta que a Escritura apenas acrescentou a disposição do assunto depois de ter descrito corretamente sua formação e mencionado o seu nome! De fato, quão pleno e completo é o sentido destas palavras: “No princípio Deus criou o céu e a terra; mas a terra era sem forma e vazia” (Gênesis 1:1-2) — sem dúvida a mesma terra que Deus fez, e da qual a Escritura acabara de falar naquele exato momento.

[18] Pois esse próprio “mas” é inserido na narrativa como um fecho, na função de partícula conjuntiva, para ligar as duas sentenças de modo indissolúvel: “Mas a terra”. Essa palavra faz a mente retornar àquela terra de que se acabara de falar e prende o sentido a ela. Retira esse “mas”, e o vínculo se solta; a tal ponto que a passagem “Mas a terra era sem forma e vazia” pode então parecer referir-se a qualquer outra terra.

[19] Mas então tu ergues as sobrancelhas, lanças a cabeça para trás e acenas com o dedo, em teu desprezo característico, dizendo: “Aí está o ‘era’, como se apontasse para uma existência eterna” — tornando seu sujeito, claro, ingênito e não feito, e por isso digno de ser considerado Matéria.

[20] Pois bem, de minha parte, não recorrerei a protestos afetados, mas simplesmente responderei que “era” pode ser predicado de qualquer coisa — até mesmo de algo que foi criado, que nasceu, que outrora não existia, e que não é a tua Matéria.

[21] Pois de tudo o que existe, seja qual for sua origem, quer possua existência com começo, quer sem começo, a palavra “era” pode ser dita pelo simples fato de que existe. Àquilo a que se aplica o presente do verbo para definição, ao mesmo convém a forma posterior do verbo quando se trata de relação. Est (“é”) compõe a parte essencial de uma definição; erat (“era”), a de uma relação.

[22] Tais são as ninharias e sutilezas dos hereges, que torcem e põem em dúvida o sentido simples das palavras mais comuns. Grande questão, sem dúvida, saber se a terra era, ela que foi feita! O verdadeiro ponto em debate é se “sem forma e vazia” é um estado que convém mais àquilo que foi criado, ou àquilo de que foi criado, de modo que o predicado (“era”) pertença à mesma coisa à qual pertence também o sujeito (“aquilo que era”).

[23] Mas mostraremos não apenas que essa condição convinha a esta nossa terra, mas também que ela não convinha à outra, sustentada por Hermógenes. Pois, uma vez que a Matéria pura subsistia assim com Deus, sem a interposição de qualquer elemento (porque ainda nada existia além dela mesma e de Deus), ela não poderia, naturalmente, ter sido invisível.

[24] Porque, embora Hermógenes sustente que as trevas eram inerentes à substância da Matéria — posição com a qual lidaremos em seu devido lugar —, ainda assim as trevas são visíveis até para um ser humano (pois o próprio fato de haver trevas é algo evidente), quanto mais para Deus.

[25] Se de fato fosse invisível, sua qualidade de modo algum poderia ser descoberta. Como, então, Hermógenes descobriu que aquela substância era sem forma, confusa e desordenada, se, sendo invisível, não era perceptível aos seus sentidos? Se esse mistério lhe foi revelado por Deus, ele deve apresentar-nos sua prova.

[26] Quero saber também se a substância em questão poderia ser descrita como vazia. Certamente é vazia aquilo que é imperfeito. E é igualmente certo que nada pode ser imperfeito senão aquilo que foi feito; é imperfeito quando ainda não foi plenamente feito. Certamente admites isso.

[27] Portanto, a Matéria, que de modo algum foi feita, não poderia ser imperfeita; e o que não era imperfeito não era vazio. Não tendo começo, porque não foi feita, também não estava sujeita a nenhuma condição de vacuidade. Pois essa condição de vazio é um acidente do começo.

[28] A terra, ao contrário, que foi feita, foi corretamente chamada vazia. Pois, assim que foi feita, tinha a condição de ser imperfeita, antes de sua completa consumação.

[29] Deus, de fato, consumou todas as Suas obras em devida ordem; primeiro, por assim dizer, delineou-as em seus elementos ainda não formados, e depois as dispôs em sua beleza acabada.

[30] Pois Ele não inundou de uma só vez a luz com o esplendor do sol, nem de uma só vez suavizou as trevas com o raio apaziguador da lua. Não adornou imediatamente o céu com constelações e estrelas, nem encheu logo os mares com seus monstros fervilhantes.

[31] A própria terra Ele não dotou de uma só vez com sua variada fecundidade; antes, primeiro lhe concedeu o ser, e depois a encheu, para que não fosse feita em vão. Pois assim diz Isaías: “Não a criou em vão; formou-a para ser habitada” (Isaías 45:18).

[32] Portanto, depois de ter sido feita, e enquanto aguardava seu estado perfeito, ela era sem forma e vazia: vazia, de fato, exatamente porque era sem forma (pois ainda não era perfeita à vista, e ao mesmo tempo ainda não estava provida de suas demais qualidades); e sem forma, porque ainda estava coberta pelas águas, como por um muro de sua umidade fecundante, da qual é produzida a nossa carne, em forma afim com a sua.

[33] Pois é nesse sentido que Davi diz: “Ao Senhor pertence a terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam; porque Ele a fundou sobre os mares e a firmou sobre as correntes”.

[34] Foi quando as águas foram recolhidas aos seus abismos profundos que a terra seca se tornou visível, ela que até então estava coberta por seu invólucro aquoso. Então imediatamente ela se torna aparente, quando Deus diz: “Ajuntem-se as águas num só lugar, e apareça a porção seca” (Gênesis 1:9).

[35] “Apareça”, diz Ele, não “seja feita”. Ela já havia sido feita; apenas, em sua condição invisível, aguardava então aparecer. Seca, porque estava prestes a tornar-se tal pela separação da umidade, mas ainda assim terra.

[36] “E Deus chamou à porção seca Terra” (Gênesis 1:10), não Matéria. E assim, quando mais tarde ela atinge sua perfeição, deixa de ser considerada vazia, quando Deus declara: “Produza a terra erva, planta que dê semente segundo a sua espécie e segundo a sua semelhança, e árvore frutífera que dê fruto, cuja semente esteja nela, segundo a sua espécie”.

[37] Novamente: “Produza a terra ser vivente segundo a sua espécie, gado, répteis e feras da terra, segundo a sua espécie”. Assim a divina Escritura cumpriu toda a sua ordem. Pois àquilo que a princípio havia descrito como sem forma (invisível) e vazio, deu tanto visibilidade quanto completude.

[38] Ora, nenhuma outra Matéria era sem forma (invisível) e vazia. Daqui em diante, portanto, a Matéria terá de ser visível e completa. Assim, devo ver a Matéria, já que se tornou visível. Devo igualmente reconhecê-la como coisa consumada, para poder dela colher a erva que dá semente, a árvore que dá fruto, e para que os seres vivos feitos dela sirvam às minhas necessidades.

[39] A Matéria, porém, não está em parte alguma; mas a Terra está aqui, manifesta diante de meus olhos. Eu a vejo, eu a desfruto, desde que deixou de ser sem forma (invisível) e vazia.

[40] Dela, certamente, falou Isaías quando disse: “Assim diz o Senhor, que criou os céus; Ele é o Deus que formou a terra e a fez” (Isaías 45:18). A mesma terra, com certeza, foi a que Ele formou e a que Ele fez.

[41] E como a formou? Evidentemente, dizendo: “Apareça a porção seca” (Gênesis 1:9). Por que ordena que apareça, se antes não era invisível? Seu propósito era também impedir que a tivesse feito em vão, tornando-a visível e assim apta para o uso.

[42] E assim, em toda parte, surgem para nós provas de que esta terra em que habitamos é a mesma que foi criada e formada por Deus, e que nenhuma outra foi sem forma e vazia, senão aquela mesma que havia sido criada e formada. Portanto, segue-se que a sentença “Ora, a terra era sem forma e vazia” aplica-se à mesma terra que Deus mencionou separadamente juntamente com o céu.

[43] As palavras seguintes, do mesmo modo, parecerão à primeira vista corroborar a conjectura de Hermógenes: “E havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a face das águas” (Gênesis 1:2), como se essas substâncias misturadas nos apresentassem argumentos em favor de seu maciço edifício de Matéria.

[44] Ora, uma enumeração tão discriminada de certos elementos distintos, como a que temos nesta passagem, designando separadamente trevas, abismo, Espírito de Deus e águas, proíbe a inferência de que se queira significar algo confuso ou, por causa dessa confusão, incerto.

[45] E ainda mais: ao atribuir a cada um o seu próprio lugar — as trevas sobre a face do abismo, o Espírito sobre a face das águas — Ele rejeitou toda confusão entre as substâncias; e, ao demonstrar a posição separada de cada uma, demonstrou também sua distinção.

[46] Seria, de fato, absurdíssimo que a Matéria, introduzida à nossa vista como sem forma, tivesse sua condição informe mantida por tantas palavras indicativas de forma, sem qualquer indicação do que seja esse corpo confuso que, naturalmente, deveria ser tido como único, já que é sem forma.

[47] Pois aquilo que é sem forma é uniforme; mas até mesmo aquilo que é sem forma, quando se encontra misturado a partir de várias partes componentes, deve necessariamente ter uma única aparência exterior; e não tem aparência alguma até possuir essa aparência una resultante da combinação de muitas partes.

[48] Ora, ou a Matéria tinha essas partes específicas em si mesma — quero dizer, trevas, abismo, Espírito e águas —, a partir de cujas palavras indicativas ela deveria ser entendida, ou não as tinha.

[49] Se as tinha, como é introduzida como sem forma?

[50] Se não as tinha, como se torna conhecida?

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