Aviso ao leitor
Este livro - Tertuliano — “Contra Marcião” / Adversus Marcionem - é apresentado aqui como literatura patrística e polêmica da Igreja antiga (início do séc. III), escrita no contexto do debate contra Marcião, que defendia uma ruptura radical entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus revelado em Cristo, além de propor um cânon reduzido. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa, útil para compreender como a Igreja antiga defendeu a unidade da revelação e respondeu a disputas que influenciaram a formação do pensamento cristão e da percepção do cânon.
[1] O publicano que foi escolhido pelo Senhor, ele apresenta como prova que foi escolhido como alguém estranho à lei e não iniciado no judaísmo, por alguém que era adversário da lei. O caso de Pedro escapou à sua memória, pois, embora fosse homem da lei, não apenas foi escolhido pelo Senhor, como também recebeu o testemunho de possuir um conhecimento que lhe foi dado pelo Pai.[2] Ele em nenhum lugar leu que Cristo havia sido anunciado como a luz, a esperança e a expectativa dos gentios! Antes, falou dos judeus de maneira favorável quando disse: “Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes.”[3] Pois, ao entender que pelos doentes se referia aos gentios e publicanos, que ele estava escolhendo, afirmou que os judeus estavam sãos, para os quais disse que não era necessário médico.[4] Sendo assim, ele erra ao dizer que Cristo veio destruir a lei como se fosse para remediar uma condição doente, pois aqueles que viviam sob a lei estavam sãos e não necessitavam de médico.[5] Como, além disso, ele propõe a comparação de um médico, se não a confirma? Pois, assim como ninguém usa médico para pessoas saudáveis, também ninguém o faz para estranhos, já que cada um pertence ao seu próprio criador e preservador, tendo em seu Cristo um médico especialmente bom.[6] Essa comparação determina que um médico é normalmente provido por aquele a quem pertencem os doentes.[7] De onde surge João? Cristo aparece de repente; e, igualmente de repente, João![8] Assim acontecem todas as coisas no sistema de Marcião.[9] Elas, porém, têm seu curso próprio e completo na dispensação do Criador.[10] Quanto a João, o que mais tenho a dizer será tratado em outra passagem.[11] Aos pontos que agora se apresentam, deve-se dar resposta.[12] Portanto, cuidarei de demonstrar que João é adequado a Cristo e Cristo a João.[13] João, como profeta do Criador, e Cristo como o Cristo do Criador.[14] Assim o herege deveria se envergonhar de frustrar, para sua própria frustração, a missão de João Batista.[15] Pois, se não houvesse ministério algum de João — a voz que clama no deserto, preparando os caminhos do Senhor por meio da denúncia e da recomendação de arrependimento —, e se ele não tivesse batizado o próprio Cristo juntamente com outros, ninguém poderia comparar os discípulos de Cristo com os de João.[16] Isso porque os discípulos de João jejuavam e oravam constantemente, enquanto os de Cristo comiam e bebiam.[17] Se houvesse diversidade real entre Cristo e João, não haveria base para comparação.[18] Ninguém se surpreenderia nem ficaria perplexo se fossem de divindades diferentes.[19] Portanto, Cristo pertencia a João, e João a Cristo.[20] E ambos pertenciam ao Criador, sendo da lei e dos profetas, pregadores e mestres.[21] Caso contrário, Cristo teria rejeitado a disciplina de João como sendo de um deus rival.[22] Mas, ao contrário, Ele a reconheceu, explicando que os discípulos não jejuavam porque o noivo estava com eles.[23] Prometeu, porém, que jejuariam quando o noivo lhes fosse tirado.[24] Assim, não rejeitou a disciplina de João, mas a confirmou.[25] Ele a aplicou ao tempo certo, inclusive ao Seu próprio tempo.[26] Portanto, Ele não veio rejeitar, mas cumprir.[27] Eu sustento também que Cristo é o noivo de quem o salmo fala: “Ele é como o noivo que sai do seu aposento.”[28] Por meio de Isaías, Ele também declara: “Regozijar-me-ei no Senhor, pois Ele me vestiu com vestes de salvação, como um noivo.”[29] Ele também toma para si a igreja como esposa, conforme o Espírito diz: “Tu te vestirás deles como adorno nupcial.”[30] E ainda a convida, como em Cantares: “Vem comigo do Líbano, minha esposa.”[31] Ele menciona o Líbano de forma elegante, pois representa o incenso, indicando que chamou a igreja da idolatria.[32] Negue agora, ó Marcião, tua loucura, se podes![33] Tu mesmo contradizes a lei do teu deus.[34] Pois ele não une homem e mulher em matrimônio, nem permite tal união.[35] Só batiza solteiros ou eunucos.[36] Reserva o batismo até a morte ou divórcio.[37] Então, por que chamas o seu Cristo de noivo?[38] Esse título pertence Àquele que une homem e mulher, não ao que os separa.[39] Também erraste ao interpretar as palavras de Cristo sobre coisas novas e antigas.[40] Estás confuso com vinho novo e odres velhos.[41] E assim costuraste tua heresia nova ao evangelho antigo.[42] Pergunto: em que o Criador é inconsistente?[43] Quando por Jeremias diz: “Lavrai para vós novos campos”, não aponta para mudança?[44] E quando por Isaías declara que as coisas antigas passaram e todas se fazem novas?[45] Logo, o novo e o antigo pertencem ao mesmo Deus.[46] O vinho novo não é colocado em odres velhos senão por quem possui ambos.[47] E ninguém remenda roupa velha sem possuir a antiga.[48] Assim, Cristo separa o evangelho da lei, mas não como algo estranho.[49] É diferente, mas não contrário.[50] Como o fruto se separa da semente, mas procede dela.[51] Assim também o evangelho procede da lei.[52] Cristo não trouxe discurso novo.[53] Suas parábolas já estavam no salmo: “Abrirei a boca em parábolas.”[54] Se alguém quisesse provar origem diferente, usaria a linguagem.[55] Quanto ao sábado, essa questão não existiria se Cristo não fosse o Senhor do sábado.[56] Nem haveria debate se Ele tivesse direito de anulá-lo.[57] O espanto surgiu porque Ele proclamava o Deus Criador e ao mesmo tempo parecia contrariar o sábado.[58] Mas a novidade não prova outro deus.[59] Pois o próprio Criador já havia anunciado coisas novas.[60] Um novo deus deveria primeiro ser revelado, depois sua disciplina.[61] Mas Marcião fez o contrário: criou a doutrina antes do deus.[62] Quanto ao sábado, se Cristo interferiu nele, agiu como o Criador.[63] Pois em Jericó o sábado foi “quebrado” por ordem do próprio Deus.[64] Assim também Josué agiu.[65] Mesmo que Cristo parecesse opor-se ao sábado, seguia o Criador.[66] Pois Isaías diz: “Vossas luas novas e sábados a minha alma odeia.”[67] Isso se refere à prática corrupta, não à instituição.[68] Cristo não aboliu o sábado.[69] Ele o interpretou corretamente.[70] Os discípulos colheram espigas por fome.[71] Cristo os defendeu com o exemplo de Davi.[72] O próprio Deus permitiu alimento antes do sábado para evitar jejum.[73] Portanto, o sábado não era para opressão.[74] Cristo não o destruiu, mas o confirmou.[75] Ele mostrou que fazer o bem é permitido no sábado.[76] Curar é obra divina, não humana.[77] Por isso perguntou: “É lícito fazer o bem no sábado?”[78] Assim ensinou a verdadeira interpretação da lei.[79] Ele é Senhor do sábado porque o instituiu.[80] E não o destruiu, mas o santificou ainda mais.[81] Ele realizou obras de vida, não de destruição.[82] Como também Eliseu fez ao ressuscitar um morto no sábado.[83] Logo, Cristo não trouxe novidade contrária.[84] Ele cumpriu o que o Criador já havia mostrado.[85] Assim, fortaleceu as mãos fracas, como disse Isaías.[86] Ele anunciou boas novas a Sião e paz a Jerusalém.[87] Subiu ao monte e orou à noite, sendo ouvido pelo Pai.[88] Tudo isso já estava nos profetas.[89] Ele ensinava com autoridade.[90] O povo se maravilhava.[91] O profeta já havia dito: “Meu povo conhecerá meu nome.”[92] Esse nome é Cristo.[93] Ele é a Palavra que falava nos profetas.[94] Ele é aquele que anuncia boas novas.[95] Os profetas já descreveram sua missão.[96] Até sua oração noturna estava prevista.[97] Ele escolheu doze apóstolos.[98] Esse número já era simbólico no Antigo Testamento.[99] Doze fontes, doze pedras, doze gemas.[100] Eles seriam como rios que irrigariam o mundo.[101] Do mesmo modo, eles seriam como pedras firmes na fé, retiradas do Jordão e colocadas no santuário da aliança.[102] Assim, o número dos apóstolos já estava prefigurado na dispensação do Criador.[103] Como, então, o Cristo de Marcião pode justificar esse número?[104] Nada pode ser mostrado como feito por ele sem conexão prévia que não tenha sido preparado antes pelo Cristo do Criador.[105] Pois aquilo que se cumpre pertence àquele em quem se encontra sua preparação.[106] Ele também mudou o nome de Simão para Pedro.[107] Assim como o Criador mudou os nomes de Abrão, Sarai e Oséias (para Josué).[108] Mas por que “Pedro”?[109] Se foi por causa da firmeza da fé, muitos elementos fortes poderiam servir de nome.[110] Foi porque Cristo é chamado pedra e rocha.[111] Como está escrito: pedra de tropeço e rocha de escândalo.[112] Portanto, Ele deu ao discípulo um nome derivado de sua própria figura.[113] Isso mostra coerência simbólica com as Escrituras.[114] Multidões vieram até Ele de Tiro e de regiões distantes.[115] Isso também havia sido previsto no salmo: povos estrangeiros e Tiro estavam presentes.[116] E ainda: “Sião é minha mãe, nela nasceu um homem.”[117] Isso aponta para o Deus-homem que edificaria a igreja.[118] Assim também Isaías diz que povos viriam de longe.[119] E que todos se reuniriam.[120] E que se perguntaria: “Quem gerou estes?”[121] Logo, esse Cristo é claramente o dos profetas.[122] Não há espaço para outro Cristo.[123] Agora, passo aos ensinamentos mais diretos.[124] “Bem-aventurados os necessitados, porque deles é o reino dos céus.”[125] O próprio fato de começar com bem-aventuranças é típico do Criador.[126] Pois Ele sempre falou em bênção desde o princípio.[127] Ele ama, consola e protege o pobre e o humilde.[128] Portanto, essa misericórdia de Cristo vem das fontes do Criador.[129] Os salmos dizem: “Defende o órfão e o necessitado.”[130] E também: “Julgará os pobres com justiça.”[131] Todas as nações servirão a Ele.[132] Isso não se aplica a Davi, mas a Cristo.[133] Ele assumiu a condição dos pobres.[134] Ele livra o necessitado do opressor.[135] Ele honra os humildes.[136] O ímpio será lançado no inferno.[137] Mas o necessitado não será esquecido.[138] Deus exalta o pobre do pó.[139] E o coloca entre príncipes.[140] Ana também declarou isso.[141] Isaías denuncia os opressores dos pobres.[142] “Por que esmagais o meu povo?”[143] E condena leis injustas contra os necessitados.[144] Deus exige justiça para órfãos e viúvas.[145] Portanto, o reino prometido por Cristo pertence ao Criador.[146] Mesmo que alguém diga que as promessas antigas eram terrenas.[147] O céu também pertence ao Criador.[148] “Bem-aventurados os que têm fome, porque serão saciados.”[149] Isso já havia sido prometido por Isaías.[150] Ele disse que os seus servos não terão fome.[151] Mas os outros terão.[152] Logo, a promessa de saciedade vem do Criador.[153] “Bem-aventurados os que choram, porque rirão.”[154] Isaías também disse que seus servos se alegrariam.[155] Enquanto outros chorariam.[156] O salmo afirma: quem semeia com lágrimas colherá com alegria.[157] Assim, o Criador já havia prometido isso.[158] Cristo apenas confirma.[159] Ele cumpre Isaías 61.[160] Ele anuncia boas novas aos pobres.[161] Cura os quebrantados.[162] Consola os que choram.[163] Dá alegria em lugar de tristeza.[164] Logo, Ele é aquele anunciado.[165] “Bem-aventurados quando vos odiarem por causa do Filho do Homem.”[166] Isso ensina paciência.[167] Isaías também disse: “Não temais o desprezo dos homens.”[168] Esse desprezo viria por causa do Filho do Homem.[169] O mesmo que seria rejeitado.[170] E cuja vida seria entregue.[171] Portanto, o ódio já estava previsto.[172] E Cristo o cumpre.[173] “Assim fizeram com os profetas.”[174] Aqui Marcião se contradiz.[175] Pois Cristo defende os profetas.[176] O que não faria se viesse destruí-los.[177] O Criador é quem condena os perseguidores dos profetas.[178] E Cristo faz o mesmo.[179] Logo, Ele pertence ao Criador.[180] Ele também pronuncia “ai”.[181] Isso demonstra juízo.[182] E não apenas bondade.[183] O Criador já havia dito: “Coloquei diante de vocês bênção e maldição.”[184] Cristo segue esse padrão.[185] “Ai de vós, ricos.”[186] Isso também vem do Criador.[187] Pois Ele advertiu contra a riqueza.[188] Moisés disse que a riqueza pode levar ao esquecimento de Deus.[189] Isaías condenou o orgulho dos ricos.[190] Jeremias disse para não se gloriar nas riquezas.[191] Amós condenou os ricos indulgentes.[192] Portanto, o “ai” de Cristo não é novo.[193] Ele também diz que os cheios terão fome.[194] E os que riem chorarão.[195] Isso corresponde às promessas anteriores.[196] “Ai de vós quando todos falarem bem de vós.”[197] Isaías também advertiu contra elogios humanos.[198] Jeremias disse: “Maldito o homem que confia no homem.”[199] Assim, Cristo repete o ensino do Criador.[200] “Amai os vossos inimigos.”[201] “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos caluniam.”[202] Esses mandamentos já estavam contidos no ensino do Criador por meio de Isaías.[203] Pois Ele disse: “Dizei: sois nossos irmãos, aos que vos odeiam.”[204] Se devemos chamar de irmãos aqueles que nos odeiam, então devemos abençoá-los e orar por eles.[205] Assim, Cristo não introduz algo totalmente novo, mas amplia o que já estava implícito.[206] No entanto, Cristo parece ir além ao proibir a retribuição: “olho por olho, dente por dente.”[207] E ordena oferecer a outra face e dar também a capa.[208] Isso não contradiz o Criador, mas aperfeiçoa Seu ensino.[209] Devemos perguntar: o Criador ensina a paciência?[210] Sim, pois por Zacarias disse: “Ninguém pense mal contra o seu irmão.”[211] E também: “Não penseis mal no coração contra o próximo.”[212] Aquele que ensina a esquecer a ofensa ensina ainda mais a suportá-la.[213] Quando disse: “A vingança é minha”, ensinou que a justiça pertence a Deus.[214] Portanto, a lei não incentivava vingança, mas limitava o mal.[215] “Olho por olho” servia para conter a violência.[216] Era uma barreira contra excessos, não um incentivo à vingança.[217] Cristo revela o sentido pleno: eliminar até o desejo de retribuição.[218] Assim, Ele aperfeiçoa a lei.[219] Ele não a destrói, mas a leva ao seu objetivo.[220] A paciência só faz sentido se Deus julga.[221] Caso contrário, seria inútil suportar injustiças.[222] Pois sem juízo, o mal prevaleceria.[223] Portanto, a paciência depende do juízo divino.[224] “Dai a todo aquele que vos pede.”[225] Isso também está na lei.[226] Deuteronômio ordena não negar ao necessitado.[227] “Abrirás a tua mão ao teu irmão pobre.”[228] O empréstimo também já era ensinado.[229] A lei preparava o caminho para o evangelho.[230] Primeiro ensinava a não cobrar juros.[231] Depois ensinava a perdoar dívidas.[232] Isso forma o coração para dar sem esperar retorno.[233] Assim, Cristo apenas leva ao nível mais alto.[234] “Fazei aos outros como quereis que vos façam.”[235] Esse princípio já estava implícito na lei.[236] Ao proibir homicídio, adultério e roubo.[237] Pois ensina a não fazer ao outro o que não queremos para nós.[238] O Criador já havia estruturado esse princípio.[239] Cristo o resume de forma clara.[240] Ele transforma em uma fórmula direta.[241] Sem isso, o homem seguiria apenas sua própria vontade.[242] E viveria sem direção.[243] Mas Deus já havia ensinado o que é bom.[244] “Reparte o teu pão com o faminto.”[245] “Cobre o nu.”[246] “Acolhe o desamparado.”[247] Assim, o Criador já ensinava o amor prático.[248] “Se emprestais esperando receber, que recompensa tereis?”[249] Ezequiel já condenava a usura.[250] O justo não cobra juros.[251] A lei ensinava a devolver o penhor ao pobre.[252] E até perdoar dívidas.[253] Isso mostra que dar sem retorno já era ensinado.[254] “Sereis filhos de Deus.”[255] Como pode alguém ser filho de um deus que não cria?[256] O Criador é Pai porque criou todas as coisas.[257] Ele nos formou e nos deu vida.[258] E também nos chama filhos espiritualmente.[259] “Sede misericordiosos como vosso Pai.”[260] Isso já estava em Isaías.[261] E também em Oséias: “Quero misericórdia, e não sacrifício.”[262] Logo, Cristo não introduz outro deus.[263] Ele revela o mesmo.[264] “Não julgueis e não sereis julgados.”[265] “Perdoai e sereis perdoados.”[266] “Dai e vos será dado.”[267] Isso indica retribuição.[268] Mas de quem vem essa retribuição?[269] Se for dos homens, é apenas humano.[270] Se for de Deus, é o Criador.[271] Se for de outro deus, então ele julga.[272] Mas Marcião nega isso.[273] Logo, a coerência aponta para o Criador.[274] “Cego guiando cego cairá na cova.”[275] O discípulo não é maior que o mestre.[276] Isso se aplica aos hereges.[277] A árvore boa não dá fruto ruim.[278] A verdade não gera heresia.[279] E a heresia não gera verdade.[280] Marcião nada produziu de bom.[281] Nem seus seguidores.[282] Em nenhum lugar Cristo revela outro Deus.[283] Os judeus conheciam apenas o Criador.[284] Quando Cristo diz: “Por que me chamais Senhor?”[285] Refere-se ao Deus já conhecido.[286] Ele também diz: “E não fazeis o que digo.”[287] Isso mostra continuidade com a lei e os profetas.[288] Ele repreende a antiga desobediência.[289] Como já havia sido dito: “Este povo me honra com os lábios.”[290] Portanto, não é um deus novo.[291] Ao elogiar a fé do centurião.[292] Ele diz que não encontrou fé assim em Israel.[293] Isso só faz sentido se Ele fosse o Deus de Israel.[294] Ele veio buscar essa fé.[295] E a confirma.[296] Ele ressuscita o filho da viúva.[297] Milagre já realizado pelos profetas.[298] Portanto, não é novidade.[299] O povo glorifica a Deus.[300] Dizendo: “Deus visitou o seu povo.”[301] Qual Deus eles glorificaram? Certamente aquele de quem eram o povo, o Criador.[302] E Cristo não os corrigiu por isso.[303] Logo, Ele não anunciou outro Deus.[304] Caso contrário, teria corrigido o suposto erro deles.[305] João, porém, se escandaliza ao ouvir sobre os milagres de Cristo.[306] Mas esse escândalo não era por esperar outro Cristo.[307] Era dúvida se Ele era o Cristo esperado.[308] Pois João sabia que só havia um Deus, o Criador.[309] Ele pergunta: “És tu aquele que havia de vir?”[310] Ou devemos esperar outro?[311] Ele não perguntava sobre outro deus.[312] Mas se aquele era o Messias esperado.[313] Cristo responde com seus feitos.[314] Pois os sinais já haviam sido profetizados.[315] Portanto, prova-se como o Cristo do Criador.[316] Ele também chama João de profeta.[317] E mais que profeta.[318] Aplicando a ele a profecia: “Envio o meu mensageiro.”[319] Assim, confirma João como precursor.[320] Logo, cumpre as Escrituras.[321] João é o maior entre os nascidos de mulher.[322] Mas o menor no reino é maior que ele.[323] Isso não implica dois deuses.[324] Mas diferentes estágios no plano do mesmo Deus.[325] Agora, quanto ao perdão dos pecados.[326] A mulher pecadora unge os pés de Cristo.[327] Com lágrimas e perfume.[328] Isso prova que Cristo tinha corpo real.[329] Não era um fantasma.[330] E sua fé trouxe perdão.[331] Como o Criador ensina.[332] Pois Ele prefere misericórdia ao sacrifício.[333] Cristo diz: “Tua fé te salvou.”[334] Isso já havia sido dito: “O justo viverá pela fé.”[335] Portanto, continuidade total.[336] Mulheres ricas também o seguiam.[337] Sustentando-o com seus bens.[338] Isso também foi profetizado.[339] Isaías chama mulheres a ouvirem sua voz.[340] E a seguirem com esperança.[341] Sobre parábolas, já se provou que vêm do Criador.[342] “Ouvireis, mas não entendereis.”[343] Isso explica: “Quem tem ouvidos, ouça.”[344] Não é contradição.[345] Mas advertência.[346] O problema não era o ouvido físico.[347] Mas o coração.[348] Cristo diz: “Vede como ouvis.”[349] Isso implica responsabilidade.[350] E julgamento.[351] “A quem tem, será dado.”[352] E ao que não tem, será tirado.[353] Isso envolve juízo.[354] Logo, o Deus de Cristo julga.[355] O que contradiz a ideia de Marcião.[356] Ele também diz que a lâmpada não é escondida.[357] Mas Marcião manteve seu deus oculto.[358] Agora, quanto à frase: “Quem é minha mãe?”[359] Os hereges distorcem isso.[360] Mas Ele tinha mãe e irmãos.[361] Caso contrário, não fariam tal anúncio.[362] Não há indicação de que fosse uma armadilha.[363] E mesmo que fosse, não provaria nada.[364] Ele não nega sua família.[365] Apenas redefine prioridade.[366] Os que fazem a vontade de Deus são sua família.[367] Ele amplia o conceito.[368] Não o destrói.[369] Ele transfere o vínculo para a fé.[370] Mas não nega os laços naturais.[371] Ensina que a Palavra de Deus vem primeiro.[372] Isso não elimina a família.[373] Mas a subordina ao Reino.[374] “Quem é este que manda nos ventos e nas águas?”[375] Não é um deus novo.[376] É o Criador.[377] Pois os elementos obedecem ao seu Senhor.[378] Como obedeceram a Moisés.[379] O mar se abriu.[380] E depois voltou.[381] O Jordão parou.[382] Portanto, Cristo age como o Criador.[383] O salmo já dizia: “O Senhor está sobre as águas.”[384] E os profetas falam de seu poder sobre o mar.[385] Logo, cumprimento direto.[386] Ele enfrenta demônios.[387] Uma legião.[388] Isso mostra batalha espiritual.[389] Como já previsto.[390] O salmo diz: “O Senhor é poderoso na batalha.”[391] Ele vence a morte.[392] E triunfa.[393] Os demônios o reconhecem.[394] Como Filho de Deus.[395] Eles temem o abismo.[396] Que pertence ao Criador.[397] Não pedem a outro deus.[398] Mas a Ele.[399] Portanto, reconhecem o Deus verdadeiro.[400] Isso confirma que Cristo é o Filho do Criador.[401] Agora, observamos um ponto que os hereges tentam explorar: a aparente ignorância de Cristo.[402] A mulher com fluxo de sangue o toca, e Ele pergunta: “Quem me tocou?”[403] Ele insiste, dizendo que alguém o tocou, pois percebeu que poder havia saído dEle.[404] Os hereges perguntam: Ele não sabia?[405] E respondem: Ele fingiu ignorância para testar a fé.[406] Mas isso também ocorreu com o Criador, quando perguntou: “Adão, onde estás?”[407] Portanto, o mesmo princípio se aplica.[408] Assim, Cristo age como o Criador.[409] E não como um deus diferente.[410] A lei proibia tocar uma mulher com fluxo de sangue.[411] Mas Cristo permitiu o toque e a curou.[412] Isso não foi oposição à lei, mas manifestação de misericórdia.[413] Ele disse: “Tua fé te salvou.”[414] Logo, a ação foi baseada na fé.[415] Não em desprezo à lei.[416] A mulher não conhecia outro deus.[417] Sua fé era no Criador.[418] Portanto, sua ação não foi rebelião.[419] Mas confiança na misericórdia divina.[420] Ela entendeu corretamente a lei.[421] Pois a lei tratava de impurezas naturais.[422] Não de enfermidades prolongadas.[423] Ela buscou cura, não transgressão.[424] E reconheceu Deus em Cristo.[425] Por isso o tocou como Deus.[426] Sabendo que Deus não se contamina.[427] Sua fé trouxe entendimento.[428] Como diz o profeta: “Se não crerdes, não entendereis.”[429] Cristo aprovou sua fé.[430] E confirmou que Ele era o objeto dessa fé.[431] Além disso, sua roupa foi tocada.[432] Isso prova que tinha corpo real.[433] Não era aparência ou ilusão.[434] Portanto, Cristo não era um fantasma.[435] Agora, sobre a natureza de Deus.[436] Cristo ensina: “Sede misericordiosos.”[437] Pois Deus é bondoso com ingratos e maus.[438] Isso inclui dar sol e chuva.[439] O Criador já fazia isso.[440] Portanto, Ele é o Deus misericordioso.[441] E Cristo revela esse mesmo Deus.[442] Deus também ensina compaixão.[443] “Dai pão ao faminto.”[444] “Acolhei o necessitado.”[445] “Cobri o nu.”[446] Isso já estava na lei.[447] “Julgai com justiça.”[448] “Defendei o órfão e a viúva.”[449] Portanto, a misericórdia não é novidade.[450] Cristo reafirma o ensino do Criador.[451] “Não julgueis, para não serdes julgados.”[452] Isso implica retribuição.[453] E julgamento futuro.[454] Portanto, Deus julga.[455] O mesmo Deus que recompensa.[456] “Com a medida que medirdes, sereis medidos.”[457] Isso revela justiça proporcional.[458] Logo, Deus é justo juiz.[459] E Cristo confirma isso.[460] “Pode um cego guiar outro cego?”[461] Ambos cairão.[462] Isso se aplica aos hereges.[463] O discípulo não é maior que o mestre.[464] A verdade não gera erro.[465] Nem o erro gera verdade.[466] Marcião e seus seguidores erraram.[467] Pois distorcem a verdade.[468] Cristo não revelou outro Deus.[469] Ele disse: “Por que me chamais Senhor?”[470] Esse Senhor já era conhecido.[471] O Deus de Israel.[472] Ele também disse: “Não fazeis o que digo.”[473] Isso aponta para desobediência antiga.[474] Como já denunciado pelos profetas.[475] Portanto, continuidade total.[476] Ele elogia a fé do centurião.[477] Diz que não encontrou fé igual em Israel.[478] Isso só faz sentido se Ele buscava essa fé.[479] Como Deus de Israel.[480] Ele ressuscita o filho da viúva.[481] Milagre semelhante ao dos profetas.[482] O povo glorifica a Deus.[483] Dizendo: “Deus visitou o seu povo.”[484] Cristo não corrige.[485] Logo, confirma.[486] João se escandaliza.[487] Mas não por crer em outro deus.[488] E sim por dúvida.[489] Ele pergunta: “És tu o que havia de vir?”[490] Cristo responde com obras.[491] Obras já profetizadas.[492] Portanto, Ele é o Cristo esperado.[493] Ele confirma João como precursor.[494] Cumprindo a profecia.[495] João é grande.[496] Mas o Reino é maior.[497] Isso não divide deuses.[498] Mas revela progresso.[499] A mulher pecadora unge os pés de Cristo.[500] E recebe perdão.[501] Esse ato mostra arrependimento verdadeiro.[502] E também mostra que Cristo possuía corpo real.[503] Suas lágrimas, seus beijos, seus cabelos e o perfume tocaram algo concreto.[504] Portanto, não se tratava de uma aparência vazia.[505] O perdão concedido a ela está em harmonia com o pensamento do Criador.[506] Pois Ele prefere misericórdia a sacrifício.[507] E se sua fé moveu seu arrependimento, também sua justificação foi proclamada pela fé.[508] Quando Cristo lhe disse: “A tua fé te salvou.”[509] Isso concorda com a palavra já dita por Habacuque.[510] “O justo viverá pela sua fé.”[511] Portanto, também aqui Cristo não ensina algo alheio ao Criador.[512] Certas mulheres ricas também seguiam Cristo.[513] E o serviam com seus bens.[514] Entre elas estava até a esposa de um oficial do rei.[515] Isso também está ligado à profecia.[516] Isaías convoca as mulheres abastadas a ouvirem a voz do Senhor.[517] Primeiro como discípulas.[518] Depois como cooperadoras e auxiliadoras.[519] Elas o seguiam com esforço e esperança.[520] Sobre as parábolas, basta lembrar que esse modo de falar já fora prometido pelo Criador.[521] Mas há ainda o modo direto de falar ao povo.[522] “Ouvireis e não entendereis.”[523] Isso ajuda a explicar a exortação de Cristo.[524] “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”[525] Não porque Cristo permita um ouvir que o Criador tivesse proibido.[526] Mas porque a exortação vem depois da advertência.[527] Primeiro: “Ouvireis e não entendereis.”[528] Depois: “Quem tem ouvidos, ouça.”[529] Pois eles tinham ouvidos, mas se recusavam a ouvir de coração.[530] Cristo os chama a ouvir com o coração.[531] E esse era exatamente o ponto já indicado pelo Criador.[532] Por isso Ele acrescenta: “Vede, pois, como ouvis.”[533] Ou seja: não apenas escutem, mas escutem da maneira correta.[534] Isso carrega também uma advertência.[535] Pois quem não ouve corretamente incorre em juízo.[536] “Ao que tem, dar-se-lhe-á.”[537] “E ao que não tem, até o que parece ter lhe será tirado.”[538] O que será dado? Maior entendimento, fé ou salvação.[539] O que será tirado? Aquilo que ele julgava possuir.[540] Mas por quem será dada ou tirada essa medida?[541] Se pelo Criador, então o Criador continua sendo o doador e o juiz.[542] Se pelo deus de Marcião, então ele também tira e julga.[543] Mas isso destrói a ideia de um deus que não julga.[544] Portanto, o próprio texto aponta para o Deus justo.[545] Também me admira que ele diga que uma lâmpada não se esconde.[546] Pois Marcião escondeu por longo tempo o seu próprio deus.[547] E Cristo afirma que aquilo que está oculto será manifestado.[548] No entanto, o deus de Marcião teria permanecido oculto até o surgimento de Marcião.[549] Agora chegamos ao argumento mais explorado pelos que negam o nascimento do Senhor.[550] Eles citam a palavra: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?”[551] Com isso querem provar que Cristo não nasceu de fato.[552] Mas os hereges torcem palavras simples para ajustá-las às suas conjecturas.[553] Ou interpretam literalmente palavras que exigem sentido condicional.[554] Em primeiro lugar, não teria sido dito a Cristo que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora.[555] A menos que de fato Ele tivesse mãe e irmãos.[556] Quem levou esse recado tinha de conhecê-los.[557] Seja de antes, seja naquele exato momento.[558] Alguns costumam responder: talvez o fizeram para tentá-lo.[559] Mas a Escritura não diz isso.[560] E quando a Escritura quer mostrar tentação, ela o declara claramente.[561] Como no caso do doutor da lei.[562] Ou dos fariseus na questão do tributo.[563] Onde não há menção de tentação, não se deve inventá-la.[564] Mesmo assim, vale perguntar: para que serviria essa tentação?[565] Para descobrir se Ele havia nascido?[566] Mas quem duvidaria disso, vendo diante de si um homem real?[567] Alguém que chamava a si mesmo de Filho do Homem?[568] A dúvida das pessoas era se Ele era Deus ou Filho de Deus.[569] Não se havia nascido como homem.[570] E ainda que quisessem testar seu nascimento, esse método seria fraco.[571] Pois nem todo homem tem mãe viva naquele momento.[572] Nem todos têm irmãos.[573] Alguns têm pai, outros têm irmã, outros não têm parentes presentes.[574] Além disso, havia até registro histórico de recenseamento na Judeia.[575] Isso poderia comprovar família e descendência.[576] Portanto, a ideia de “teste” não se sustenta.[577] Logo, aqueles que estavam do lado de fora eram de fato sua mãe e seus irmãos.[578] Resta então compreender o sentido de suas palavras.[579] Quando Ele pergunta: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?”[580] À primeira vista, parece negar a família.[581] Mas na verdade fala em sentido não literal.[582] E em sentido condicionado pela situação.[583] Ele se indigna, com razão, porque os mais próximos estavam do lado de fora.[584] Enquanto estranhos, no interior, estavam atentos à sua palavra.[585] E ainda queriam interrompê-lo em sua obra solene.[586] Ele não os negou absolutamente.[587] Antes, os desautorizou naquela circunstância.[588] Quando acrescenta: “São minha mãe e meus irmãos os que ouvem a palavra de Deus e a praticam.”[589] Ele transfere o nome de parentesco para outros.[590] Não porque sua família natural deixasse de existir.[591] Mas porque a fé cria um vínculo mais excelente.[592] Ninguém transfere algo senão a partir de quem de fato o possui.[593] Se Ele chama outros de mãe e irmãos.[594] É porque já possuía mãe e irmãos em sentido real.[595] Logo, não negou sua família.[596] Apenas ensinou que a obediência à Palavra é vínculo superior.[597] Assim, mostrou por exemplo próprio.[598] Que quem preferir pai, mãe ou irmãos à Palavra de Deus.[599] Não é discípulo digno dEle.[600] Portanto, ao preferir a fé ao parentesco, Ele não destrói a família, mas estabelece a sua ordem correta.[601] “Que homem é este, que até os ventos e as águas lhe obedecem?”[602] Certamente não porque seja novo senhor dos elementos.[603] Nem porque o Criador tenha sido deposto.[604] Nada disso.[605] Os elementos obedecem ao seu próprio Criador.[606] Assim como já obedeciam aos seus servos.[607] Basta lembrar o Êxodo.[608] O cajado de Moisés diante do mar vermelho.[609] O mar se abre em duas massas.[610] E o povo passa a seco.[611] Depois, ao novo gesto, o mar retorna.[612] E engole a força do Egito.[613] Também os ventos serviram a esse acontecimento.[614] Leia ainda sobre o Jordão.[615] Suas águas pararam quando Josué passou.[616] Assim o rio obedeceu por ordem divina.[617] Que dirás então?[618] Se esse poder é do teu Cristo, ele não é maior que os servos do Criador.[619] Mas eu me contentaria com esses exemplos.[620] Não fosse o fato de haver também profecia sobre sua travessia das águas.[621] Um salmo se cumpre nessa passagem pelo lago.[622] “O Senhor está sobre muitas águas.”[623] Quando Ele dispersa as ondas, cumpre-se também Habacuque.[624] Quando o mar se acalma à sua repreensão, confirma-se Naum.[625] Portanto, a prova do meu Cristo vem dos exemplos e das profecias do Criador.[626] Pensas talvez que Ele foi predito como guerreiro carnal e armado.[627] Mas sua guerra é espiritual.[628] Contra inimigos espirituais.[629] Com armas espirituais.[630] Quando em um só homem encontra uma multidão de demônios chamada Legião.[631] Aprende-se que seu combate é espiritual.[632] E que Ele é o vencedor dos inimigos invisíveis.[633] Assim se cumpre o salmo: “O Senhor é poderoso na batalha.”[634] Ele combate até o último inimigo: a morte.[635] E triunfa pela cruz.[636] Agora, de qual Deus a Legião testemunhou que Jesus era o Filho?[637] Sem dúvida, do Deus cujo tormento e abismo eles conheciam e temiam.[638] É impossível que ignorassem até então um deus recente e desconhecido.[639] Especialmente se o Criador já tivesse percebido sua existência.[640] Pois, se houvesse outro deus operando sob o céu do Criador, isso já seria notório.[641] Tanto ao Criador quanto a suas criaturas.[642] Mas como esse outro deus não existia.[643] Os demônios só conheciam o Cristo do próprio Deus deles.[644] Eles não pedem ao suposto deus estranho.[645] Pedem ao mesmo Senhor cujo abismo temem.[646] Não querem ser lançados no abismo do Criador.[647] E seu pedido lhes é concedido.[648] Seria isso porque mentiram?[649] Ou porque chamaram Jesus de Filho de um deus cruel?[650] Que tipo de deus ajudaria mentirosos contra si mesmo?[651] Não, eles não mentiram.[652] Reconheceram corretamente o Deus do abismo como seu Deus.[653] E Cristo confirmou ser o mesmo que eles reconheciam.[654] Jesus, o Juiz e Filho do Deus vingador.[655] Agora vês em Cristo até mesmo um vislumbre daquilo que os hereges chamariam de fraqueza do Criador.[656] Pois eu, por minha vez, imputarei a Ele ignorância aparente.[657] E o faço para combater o herege.[658] Jesus é tocado pela mulher do fluxo de sangue.[659] E pergunta quem o tocou.[660] Seus discípulos tentam explicar.[661] Mas Ele insiste.[662] “Alguém me tocou.”[663] “Porque percebi que de mim saiu poder.”[664] O que dirá o herege?[665] Que Cristo sabia quem era.[666] E apenas falou como se ignorasse.[667] Por quê?[668] Para provocar a fé dela.[669] E provar seu temor.[670] Exatamente como o Criador fizera com Adão.[671] Quando perguntou como se não soubesse: “Adão, onde estás?”[672] Assim, tens o Criador explicado da mesma forma que Cristo.[673] E Cristo agindo semelhantemente ao Criador.[674] Dirás ainda que aqui Ele agiu contra a lei.[675] Pois a lei proíbe contato com mulher com fluxo.[676] E, no entanto, Ele permitiu que ela o tocasse.[677] Mais do que isso: quis curá-la.[678] Então seria um deus misericordioso apenas por hostilidade à lei?[679] De modo algum.[680] Se o próprio Senhor diz: “A tua fé te salvou.”[681] Então a ação se dá como recompensa da fé.[682] E não como desprezo da lei.[683] Quererás dizer que a fé dela consistia em desprezar a lei?[684] Quem poderia supor isso?[685] Uma mulher que até então não conhecia outro deus.[686] Nem havia sido instruída em nova lei alguma.[687] Como poderia conscientemente violar a lei do Deus ao qual até então estava sujeita?[688] Em que deus ela acreditaria para fazer isso?[689] A quem estaria desprezando?[690] Certamente não ao Criador.[691] Seu toque foi ato de fé.[692] E se foi fé no Criador.[693] Então não podia ser uma rebelião contra Ele.[694] Como harmonizar isso?[695] Ela aparentemente ultrapassa a letra da lei.[696] Mas faz isso confiando na misericórdia do próprio Deus.[697] Sua fé a levava a crer que Deus prefere misericórdia a sacrifício.[698] Ela tinha certeza de que Deus agia em Cristo.[699] Por isso o tocou.[700] Não como quem toca apenas um homem santo.[701] Nem apenas um profeta.[702] Mas como quem toca o próprio Deus.[703] Aquele que não pode ser contaminado por impureza alguma.[704] Portanto, ela interpretou corretamente a lei.[705] Entendeu que se contaminam as coisas suscetíveis de impureza.[706] Mas não Deus, que estava em Cristo.[707] E recordou ainda outro ponto.[708] A proibição legal se referia ao fluxo ordinário.[709] À impureza ligada às funções naturais mensais ou ao parto.[710] Não a um derramamento patológico e prolongado por enfermidade.[711] Seu caso era de doença longa.[712] E precisava do socorro da misericórdia divina.[713] Não do simples curso do tempo.[714] Assim, ela não deve ser vista como quebrando a lei.[715] Mas como discernindo seu verdadeiro sentido.[716] Eis a fé que também dá entendimento.[717] “Se não crerdes, não entendereis.”[718] Quando Cristo aprovou a fé dessa mulher.[719] E essa fé repousava no Criador.[720] Então, ao aprová-la, declarou-se Ele mesmo o objeto divino dessa fé.[721] Não posso deixar de notar também que sua veste, ao ser tocada, confirmou a realidade do seu corpo.[722] Pois era um corpo verdadeiro que a roupa revestia.[723] E não um fantasma.[724] Isso não é o ponto principal agora.[725] Mas ajuda na questão presente.[726] Porque, se não fosse um corpo real.[727] Mas apenas uma aparência.[728] Então não poderia sequer teoricamente receber contaminação.[729] Sendo assim, aquele que por sua própria vacuidade seria incapaz de impureza.[730] Como poderia desejar esse toque como adversário da lei?[731] Sua conduta, se fosse assim, seria enganosa.[732] Pois não estaria exposto a uma contaminação real.[733] Melhor seria dizer que Marcião está sem coração ou sem cérebro.[734] Do que dizer que o seu Cristo está sem corpo.[735] E aqui deve ficar o limite do exame do coração.[736] Ou, melhor ainda, do cérebro do herege do Ponto.

