[1] Seguindo o curso do meu tratado original, cuja perda estamos progressivamente reparando, chegamos agora, na ordem do assunto, a tratar de Cristo, embora isto seja uma obra de superabundância, depois da demonstração que já percorremos de que há um só Deus.
[2] Pois sem dúvida já ficou suficientemente decidido, com plena clareza, que Cristo deve ser considerado como pertencente a nenhum outro Deus senão ao Criador, uma vez que foi determinado que nenhum outro Deus além do Criador deve ser objeto da nossa fé.
[3] Foi a Ele que Cristo pregou de modo tão expresso, enquanto os apóstolos, um após outro, também afirmaram com tanta clareza que Cristo não pertencia a nenhum outro Deus senão Àquele que Ele mesmo pregou — isto é, o Criador —, que nenhuma menção de um segundo deus (e, por conseguinte, de um segundo cristo) jamais foi levantada antes do escândalo de Marcião.
[4] Isto se prova com a maior facilidade mediante o exame tanto das igrejas apostólicas quanto das heréticas, pelas quais somos forçados a declarar que, sem dúvida, há subversão da regra da fé quando se encontra alguma opinião de data posterior — ponto que inseri em meu primeiro livro.
[5] Uma discussão sobre isso, sem dúvida, teria valor ainda agora, quando estamos prestes a fazer um exame separado sobre Cristo.
[6] Pois, ao provarmos que Cristo é o Filho do Criador, estamos efetivamente excluindo o deus de Marcião.
[7] A verdade deve empregar todos os recursos de que dispõe, e não de modo vacilante.
[8] Em nossas regras abreviadas de fé, porém, ela já tem tudo plenamente em seu favor.
[9] Mas resolvi, como homem zeloso, enfrentar meu adversário de toda maneira e em toda parte na loucura de sua heresia, que é tão grande que lhe foi mais fácil supor que veio aquele Cristo de quem nunca se ouvira falar do que Aquele que sempre foi predito.
[10] Indo, pois, diretamente ao ponto, tenho de enfrentar a questão: Cristo deveria ter vindo tão subitamente?
[11] Eu respondo: não.
[12] Primeiro, porque Ele era o Filho de Deus, seu Pai.
[13] Pois este era um ponto de ordem: que o Pai anunciasse o Filho antes que o Filho anunciasse o Pai, e que o Pai desse testemunho do Filho antes que o Filho desse testemunho do Pai.
[14] Em segundo lugar, porque, além do título de Filho, Ele era o Enviado.
[15] Portanto, a autoridade daquele que envia precisava necessariamente aparecer primeiro em um testemunho acerca do Enviado.
[16] Porque ninguém que vem na autoridade de outro a estabelece por si mesmo com base em sua própria afirmação; antes, procura proteção nela, porque primeiro vem o apoio daquele que lhe dá sua autoridade.
[17] Ora, Cristo não será reconhecido como Filho se o Pai nunca o nomeou, nem será crido como o Enviado se nenhum Remetente lhe deu comissão.
[18] O Pai, se é de fato Pai, o nomeia de propósito; e o Remetente, se é de fato Remetente, o comissiona de propósito.
[19] Tudo será suspeito quando transgride uma regra.
[20] Ora, a ordem primária de todas as coisas não permite que o Pai venha a ser reconhecido depois do Filho, nem o Remetente depois do Enviado, nem Deus depois de Cristo.
[21] Nada pode preceder seu próprio princípio no reconhecimento, nem do mesmo modo em sua ordenação.
[22] De repente, um Filho; de repente, um Enviado; e de repente, Cristo!
[23] Pelo contrário, eu diria que, da parte de Deus, nada vem subitamente, porque nada há que não seja ordenado e disposto por Deus.
[24] E se é ordenado, por que não também predito, para que se prove, pela predição, que foi ordenado, e, pela ordenação, que é divino?
[25] E de fato, uma obra tão grande, que seguramente exigia preparação por ser para a salvação do homem, não poderia, justamente por isso, ser algo súbito, porque seria por meio da fé que haveria de ter eficácia.
[26] Portanto, sendo necessário crer nela para que fosse útil, ela tanto mais requeria, para assegurar essa fé, uma preparação construída sobre os fundamentos de pré-ordenação e anúncio antecipado.
[27] Uma fé assim instruída por esse processo poderia justamente ser requerida do homem por Deus, e pelo homem depositada em Deus.
[28] Pois, depois que o conhecimento tornou isso possível, torna-se dever crer naquilo que o homem aprendeu precisamente a crer por meio do anúncio prévio.
[29] Dizes tu que tal procedimento não era necessário, porque Ele provaria imediatamente, por meio da evidência de suas obras maravilhosas, que era de fato o Filho, o Enviado e o Cristo de Deus.
[30] Da minha parte, porém, tenho de negar que evidência apenas desse tipo fosse suficiente como testemunho a favor dEle.
[31] O próprio Cristo depois privou esse tipo de evidência de sua autoridade.
[32] Pois, quando declarou que muitos viriam e fariam grandes sinais e prodígios, de modo a desviar até os eleitos, e ainda assim não deveriam ser recebidos, mostrou quão temerária era a fé em sinais e prodígios, coisas tão fáceis de serem realizadas até mesmo por falsos cristos.
[33] Do contrário, como se explica que, se Ele queria ser aprovado, compreendido e recebido com base numa evidência certa — quero dizer, a dos milagres —, tenha proibido o reconhecimento daqueles outros que apresentariam exatamente o mesmo tipo de prova, e cuja vinda seria igualmente súbita e sem anúncio de qualquer autoridade?
[34] Se, porque veio antes deles e os antecedeu em mostrar os sinais de seus feitos poderosos, reivindicou por isso o primeiro direito à fé dos homens — assim como os que chegam primeiro ocupam o primeiro lugar nos banhos — e assim se antecipou a todos os que viessem depois nesse direito, cuide para que Ele também não seja apanhado na condição dos que chegaram depois, se for encontrado atrasado em relação ao Criador.
[35] Pois o Criador já havia sido conhecido, já havia operado milagres como os dEle e, como Ele, já havia advertido os homens para não crerem em outros, mesmo naqueles que viessem depois dEle.
[36] Se, portanto, ter vindo primeiro e ter pronunciado essa advertência é o que limita e determina a fé, então Ele próprio terá de ser condenado, porque foi posterior em ser reconhecido.
[37] E a autoridade para prescrever tal regra sobre os que vêm depois pertencerá somente ao Criador, que não poderia ser posterior a ninguém.
[38] E agora, quando estou prestes a provar que o Criador às vezes mostrou por meio de seus antigos servos, e em outros casos reservou para o seu Cristo mostrar, os mesmos milagres que reivindicais como devidos exclusivamente à fé em vosso Cristo, posso justamente sustentar, até com base nisso, que havia tanto mais razão para que Cristo não fosse crido simplesmente por causa de seus milagres.
[39] Pois esses milagres o mostrariam como pertencente a nenhum outro Deus senão ao Criador, uma vez que correspondem aos feitos poderosos do Criador, tanto os realizados por seus servos quanto os reservados para o seu Cristo.
[40] Ainda que em vosso Cristo se encontrassem algumas outras provas — isto é, novas —, mais prontamente creríamos que elas também pertencem ao mesmo Deus a quem pertencem as antigas, do que àquele que não tem senão provas novas, carentes dos testemunhos daquela antiguidade que conquista o assentimento da fé.
[41] Assim, mesmo por esse motivo, ele deveria ter vindo anunciado tanto por profecias suas, que edificassem a fé nele, quanto por milagres.
[42] Especialmente em oposição ao Cristo do Criador, que havia de vir fortalecido por seus próprios sinais e por seus próprios profetas, a fim de que pudesse resplandecer como rival de Cristo com auxílio de provas de tipos diferentes.
[43] Mas como o seu cristo haveria de ser predito por um deus que ele próprio nunca foi predito?
[44] Portanto, esta é a inferência inevitável: nem o vosso deus nem o vosso cristo são objeto de fé, porque Deus não deveria ter sido desconhecido, e Cristo deveria ter sido dado a conhecer por meio de Deus.
[45] Ele desdenhou, suponho, imitar a ordem do nosso Deus, como alguém que lhe era desagradável e que devia, de todo modo, ser vencido.
[46] Quis vir, como um ser novo, de um modo novo: um filho antes do anúncio de seu pai, um enviado antes da autoridade de quem o enviou.
[47] Assim, ele mesmo propagaria uma fé monstruosíssima, pela qual se chegaria a crer que Cristo veio antes que se soubesse que Ele existia.
[48] Aqui me convém tratar daquele outro ponto: por que ele não veio depois de Cristo?
[49] Pois quando observo que, por tão longo tempo, seu senhor suportou com a maior paciência o muito cruel Criador, que durante todo esse tempo anunciava seu Cristo aos homens, digo que qualquer que tenha sido a razão que o impeliu a agir assim, adiando, por isso, sua própria revelação e intervenção, essa mesma razão lhe impunha o dever de continuar suportando o Criador.
[50] Pois o Criador também tinha, em seu Cristo, suas próprias dispensações a cumprir.
[51] Assim, depois da conclusão e realização de todo o plano do deus rival e do cristo rival, ele então poderia sobrepor sua própria dispensação.
[52] Mas cansou-se de tão longa tolerância e, assim, não esperou até o fim do curso do Criador.
[53] De nada lhe adiantou suportar que seu cristo fosse predito, quando recusou permitir que ele fosse manifestado.
[54] Ou interrompeu sem justa causa o curso completo do tempo de seu rival, ou sem justa causa se absteve por tanto tempo de interrompê-lo.
[55] O que o deteve no início?
[56] Ou o que o perturbou no fim?
[57] Como agora está o caso, ele se comprometeu quanto a ambas as coisas: revelou-se tão tardiamente depois do Criador e tão apressadamente antes do Cristo dEle.
[58] Quando, na verdade, já há muito deveria ter enfrentado o primeiro com uma refutação, e ao segundo ainda deveria ter deixado de enfrentar.
[59] Não deveria ter suportado por tanto tempo a hostilidade cruel do primeiro, nem perturbado o segundo, que até então permanecia quieto.
[60] Em ambos os casos, ao privá-los do título de serem considerados o Deus sumamente bom, mostrou-se ao menos caprichoso e inconstante.
[61] Morno em seu ressentimento contra o Criador, mas ardente contra o Cristo dEle, e impotente diante de ambos.
[62] Pois não conteve o Criador, nem resistiu ao Cristo dEle.
[63] O Criador continua sendo aquilo que realmente é.
[64] E o Cristo dEle também virá, exatamente como está escrito a seu respeito.
[65] Por que ele veio depois do Criador, se foi incapaz de corrigi-lo por meio de castigo?
[66] Por que se revelou antes de Cristo, a quem não podia impedir de aparecer?
[67] Se, pelo contrário, castigou o Criador, então revelou-se depois dEle, suponho, para que primeiro surgissem as coisas que precisavam de correção.
[68] Pelo mesmo motivo, naturalmente, também deveria ter esperado que Cristo aparecesse primeiro, a quem pretendia castigar do mesmo modo.
[69] Então viria depois dEle como seu punidor, assim como fizera no caso do Criador.
[70] Há ainda outra consideração.
[71] Visto que em sua segunda vinda ele virá depois dEle, para que, assim como na primeira vinda procedeu hostilmente contra o Criador, destruindo a lei e os profetas, que eram dEle, assim também, certamente, em sua segunda vinda proceda em oposição a Cristo, derrubando o seu reino.
[72] Então, sem dúvida, ele terminaria seu curso e, então, se é que em algum momento, seria digno de fé.
[73] Pois, de outro modo, se sua obra já foi aperfeiçoada, seria inútil que viesse, porque nada haveria que ainda pudesse realizar.
[74] Estas observações preliminares ousei fazer neste primeiro passo da discussão e enquanto o conflito está, por assim dizer, ainda à distância.
[75] Mas, visto que daqui em diante terei de travar luta com meu adversário sobre uma questão definida e em combate próximo, percebo que devo antecipar aqui algumas linhas nas quais a batalha terá de ser travada.
[76] Essas linhas são as Escrituras do Criador.
[77] Pois, como terei de provar, a partir delas, que Cristo procede do Criador, e como essas Escrituras foram depois cumpridas no Cristo do Criador, considero necessário expor a forma e, por assim dizer, a própria natureza dessas Escrituras.
[78] Faço isso para que elas não desviem a atenção do leitor ao serem trazidas à controvérsia no momento de sua aplicação aos temas em debate, e para que a prova delas não se confunda com a prova dos próprios assuntos.
[79] Ora, há duas condições do anúncio profético que apresento como exigindo o assentimento de nossos adversários nas etapas futuras da discussão.
[80] A primeira é que acontecimentos futuros às vezes são anunciados como se já tivessem acontecido.
[81] Pois é próprio da Divindade considerar como fatos consumados tudo quanto determinou, porque não há diferença de tempo para Aquele em quem a própria eternidade estabelece uma condição uniforme das estações.
[82] E é, de fato, ainda mais natural à visão profética representar como visto e já realizado, enquanto ainda o prevê, aquilo que prevê.
[83] Em outras palavras, aquilo que é de toda maneira futuro.
[84] Como, por exemplo, em Isaías: “Ofereci minhas costas aos que me feriam, e minhas faces às suas mãos. Não escondi meu rosto da vergonha e dos escarros”.
[85] Pois, quer tenha sido Cristo já então, como sustentamos, quer o profeta, como dizem os judeus, quem pronunciou essas palavras acerca de si mesmo, em qualquer dos casos aquilo que ainda não havia acontecido soava como se já estivesse consumado.
[86] A outra característica é que muitíssimos acontecimentos são preditos figuradamente por meio de enigmas, alegorias e parábolas, e devem ser entendidos em sentido diferente da descrição literal.
[87] Pois lemos que “os montes destilarão vinho novo”, em Joel 3:18, mas não como se alguém devesse esperar mosto saindo das pedras, ou sua decocção jorrando dos rochedos.
[88] Também ouvimos falar de uma terra que mana leite e mel, mas não como se devesses imaginar que algum dia recolherias bolos samienses do chão.
[89] Nem Deus, por certo, oferece seus serviços como aguadeiro ou agricultor quando diz: “Abrirei rios na terra; plantarei no deserto o cedro e o buxo”.
[90] Do mesmo modo, quando, predizendo a conversão dos gentios, diz: “Os animais do campo me honrarão, os dragões e as corujas”, certamente não quis tirar seus bons presságios dos filhotes das aves e das raposas, nem dos cantores do maravilhoso e da fábula.
[91] Mas por que alongar-me sobre tal assunto?
[92] Quando o próprio apóstolo que nossos hereges adotam interpreta a lei que permite que não se amordace a boca do boi que debulha o grão, não a respeito do gado, mas a respeito de nós mesmos, em 1 Coríntios 9:9.
[93] E também afirma que a rocha que seguia os israelitas e lhes dava de beber era Cristo.
[94] Além disso, ensina aos gálatas que as duas narrativas sobre os filhos de Abraão tinham um sentido alegórico em seu desenvolvimento.
[95] E aos efésios dá a entender que, quando foi declarado no princípio que o homem deixaria pai e mãe e se uniria à sua mulher, tornando-se uma só carne com ela, ele aplicou isso a Cristo e à igreja, em Efésios 5:31-32.
[96] Visto, portanto, que existem claramente essas duas características na literatura profética judaica, lembre-se o leitor, sempre que apresentarmos qualquer prova tirada dela, de que, por mútuo consentimento, o ponto da discussão não é a forma da Escritura, mas o assunto que ela é chamada a provar.
[97] Quando, portanto, nossos hereges, em seu delírio, ousaram dizer que veio aquele Cristo que jamais fora anunciado de antemão, seguiu-se que, segundo a suposição deles, ainda não havia aparecido aquele Cristo que sempre fora predito.
[98] Assim, são obrigados a fazer causa comum com o erro judaico e a construir seus argumentos com a ajuda dele, sob o pretexto de que os próprios judeus estavam plenamente certos de que quem veio era algum outro.
[99] Por isso, não somente o rejeitaram como estrangeiro, mas o mataram como inimigo.
[100] Contudo, sem dúvida o teriam reconhecido e o teriam seguido com toda devoção religiosa, se Ele fosse apenas um dos seus.
[101] Nosso piloto, é claro, não tirou sua astúcia náutica da lei de Rodes, mas da do Ponto, a qual o advertiu a não crer que os judeus não tivessem o direito de pecar contra o seu Cristo.
[102] Ao passo que, ainda que nada semelhante à conduta deles tivesse sido predito contra eles, a própria natureza humana, sujeita como é ao erro, bem poderia levá-lo a supor que era totalmente possível aos judeus cometerem tal pecado, considerados simplesmente como homens, sem qualquer preconceito injusto sobre seus sentimentos, já que seu pecado era previamente tão verossímil.
[103] Contudo, como de fato foi predito que eles não reconheceriam Cristo e, por isso, até mesmo o matariam, seguirá então que Ele foi por eles tanto ignorado quanto morto, eles que já antes haviam sido apontados como aqueles que cometeriam tais ofensas contra Ele.
[104] Se requeres uma prova disso, em vez de trazer agora aquelas passagens da Escritura que, ao declararem Cristo capaz de sofrer a morte, afirmam também a possibilidade de sua rejeição — pois, se Ele não tivesse sido rejeitado, não poderia realmente sofrer coisa alguma —, e em vez de reservá-las para o tema de seus sofrimentos, contentar-me-ei no presente momento em apresentar aquelas que simplesmente mostram que havia probabilidade da rejeição de Cristo.
[105] Isto se faz rapidamente, porque as passagens indicam que todo o poder de entendimento foi tirado pelo Criador daquele povo.
[106] “Destruirei a sabedoria dos seus sábios, e esconderei o entendimento dos seus prudentes”, diz Ele em Isaías 29:14.
[107] E novamente: “Com os ouvidos ouvireis, e não entendereis; com os olhos vereis, e não percebereis; porque o coração deste povo se tornou insensível, e com os ouvidos ouvem pesadamente, e fecharam os olhos; para que não ouçam com os ouvidos, nem vejam com os olhos, nem entendam com o coração, nem se convertam, e eu os sare”.
[108] Ora, esse embotamento de seus sentidos sadios eles haviam trazido sobre si mesmos, amando a Deus com os lábios, mas mantendo o coração longe dEle.
[109] Portanto, visto que Cristo foi anunciado pelo Criador, aquele que forma o relâmpago, cria o vento e declara ao homem o seu Cristo, como diz o profeta Joel, e visto que toda a esperança dos judeus — para não falar também dos gentios — estava fixada na manifestação de Cristo, ficou demonstrado que eles, por terem sido privados desses poderes de conhecimento e entendimento — sabedoria e prudência — deixariam de conhecer e de compreender precisamente aquilo que fora predito, isto é, Cristo.
[110] Isso ocorreria quando os principais de seus sábios estivessem em erro a respeito dEle — isto é, seus escribas e prudentes, ou fariseus.
[111] E quando o povo, como eles, ouvisse com os ouvidos e não entendesse Cristo enquanto Ele os ensinava.
[112] E visse com os olhos e não percebesse Cristo, embora lhes desse sinais.
[113] De modo semelhante também se diz em outro lugar: “Quem é cego, senão meu servo? Ou surdo, senão aquele que governa sobre eles?”
[114] Também quando, pelo mesmo Isaías, Ele os repreende: “Criei filhos e os engrandeci, mas eles se rebelaram contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento o estábulo do seu senhor; mas Israel não conhece, o meu povo não entende”, em Isaías 1:2-3.
[115] Nós, porém, que sabemos com certeza que Cristo sempre falou nos profetas, como o Espírito do Criador — pois assim diz o profeta: “O personagem do nosso Espírito, Cristo o Senhor”, que desde o princípio era tanto ouvido como visto como representante do Pai em nome de Deus — sabemos muito bem que as palavras que de fato repreendiam Israel eram as mesmas que havia sido predito que Ele denunciaria contra ele.
[116] “Vós abandonastes o Senhor e provocastes à ira o Santo de Israel”, em Isaías 1:4.
[117] Se, porém, preferes referir isto ao próprio Deus, em vez de a Cristo, todo o encargo da ignorância judaica desde o princípio, por não quereres admitir que já antigamente a palavra e o Espírito do Criador — isto é, o seu Cristo — eram desprezados e não reconhecidos por eles, ainda assim serás derrotado até nesse subterfúgio.
[118] Pois, quando não negas que o Filho, o Espírito e a Substância do Criador são também o seu Cristo, precisas necessariamente admitir que aqueles que não reconheceram o Pai também falharam em reconhecer o Filho, por causa da identidade de sua substância natural.
[119] Porque, se a plenitude dessa Substância confundiu o entendimento do homem, muito mais uma porção dela, especialmente por participar da plenitude.
[120] Ora, quando essas coisas são cuidadosamente consideradas, torna-se evidente como os judeus tanto rejeitaram Cristo quanto o mataram.
[121] E não porque o considerassem um Cristo estranho, mas porque não o reconheceram, embora fosse o seu próprio Cristo.
[122] Pois como poderiam ter entendido o Estranho, acerca de quem nada jamais fora anunciado, quando deixaram de entender Aquele a respeito de quem havia uma sucessão contínua de profecias?
[123] Pode ser entendido ou não entendido aquilo que, possuindo uma base substancial para profecia, também terá matéria para conhecimento ou para erro.
[124] Mas aquilo que carece dessa matéria não admite a questão da sabedoria.
[125] Portanto, não foi como se Ele pertencesse a outro deus que conceberam aversão por Cristo e o perseguiram.
[126] Antes, fizeram isso simplesmente como contra um homem que consideravam um taumaturgo enganador e um inimigo em sua doutrina.
[127] Por isso o levaram a julgamento como simples homem, e também como um deles — isto é, um judeu, embora renegado e destruidor do judaísmo.
[128] E o puniram segundo a sua própria lei.
[129] Se Ele fosse de fato um estrangeiro, eles não teriam se assentado para julgá-lo.
[130] Tão longe estão de parecer ter entendido que Ele era um Cristo estranho, que nem sequer o julgaram estranho à própria natureza humana deles.

