[1] Volto-me agora para outra classe, igualmente sábia aos próprios olhos. Eles afirmam que a carne de Cristo é composta de alma; que a sua alma se tornou carne, de modo que a sua carne é alma; e, assim como a sua carne procede da alma, também a sua alma procede da carne.
[2] Mas, aqui novamente, exijo razões. Se, para salvar a alma, Cristo tomou em si uma alma, porque ela não poderia ser salva a não ser por Ele assumindo-a em si mesmo, não vejo motivo algum para que, ao revestir-se de carne, tivesse feito dessa carne uma substância de alma, como se não pudesse salvar a alma de outro modo senão fazendo dela carne.
[3] Pois, ao mesmo tempo em que Ele salva as nossas almas — que não apenas não são de carne, mas até se distinguem da carne —, quanto mais poderia assegurar a salvação daquela alma que Ele próprio assumiu, sendo ela também não carnal?
[4] Além disso, visto que eles sustentam como princípio central que Cristo veio não para libertar a carne, mas somente a nossa alma, quão absurdo é, antes de tudo, que, tendo a intenção de salvar apenas a alma, Ele a transformasse justamente naquele tipo de substância corporal que não pretendia salvar!
[5] E, em segundo lugar, se Ele tivesse empreendido salvar as nossas almas por meio daquilo que carregava, convinha que, na alma que carregava, tivesse carregado a nossa alma, isto é, uma da mesma condição que a nossa; e qualquer que seja a condição da nossa alma em sua natureza secreta, certamente ela não é carnal.
[6] Contudo, não foi a nossa alma que Ele salvou, se a alma dele era de carne; pois a nossa não é de carne.
[7] Ora, se Ele não salvou a nossa alma, sob o argumento de que foi uma alma carnal a que salvou, então Ele nada representa para nós, porque não salvou a nossa alma.
[8] Nem, de fato, essa alma teria necessidade de salvação, porque não era verdadeiramente a nossa alma, visto que era, segundo essa suposição, uma alma de carne.
[9] Mas é evidente que ela foi salva.
[10] Portanto, ela não era composta de carne, e era nossa; pois foi a nossa alma que foi salva, já que era ela que corria perigo de condenação.
[11] Concluímos, então, que, assim como em Cristo a alma não era de carne, também a sua carne não poderia, de modo algum, ter sido composta de alma.

