[1] Até aqui seguimos este princípio: nada que seja derivado de outra coisa, por mais diferente que possa parecer daquilo de que foi derivado, é tão diferente a ponto de não sugerir a fonte de onde veio.
[2] Nenhuma substância material existe sem trazer em si o testemunho de sua própria origem, por maior que tenha sido a mudança que sofreu ao adquirir novas propriedades.
[3] Há este nosso próprio corpo, cuja formação a partir do pó da terra é uma verdade que até mesmo encontrou eco em fábulas gentílicas; e ele certamente dá testemunho de sua origem a partir de dois elementos, terra e água — da primeira, por sua carne; da segunda, por seu sangue.
[4] Ora, embora haja diferença na aparência das qualidades — isto é, aquilo que procede de outra coisa se desenvolve de modo diverso —, afinal, o que é o sangue senão líquido vermelho?
[5] O que é a carne senão terra numa forma especial?
[6] Considera as qualidades respectivas: os músculos, como torrões; os ossos, como pedras; as glândulas mamárias, como uma espécie de seixos.
[7] Observa as estreitas junções dos nervos como prolongamentos de raízes; os ramificados cursos das veias como ribeiros sinuosos; a penugem que nos cobre como musgo; os cabelos como relva; e os próprios tesouros de medula dentro de nossos ossos como minérios da carne.
[8] Todos esses sinais da origem terrena estavam em Cristo; e eram justamente eles que o encobriam como Filho de Deus, pois Ele era tido por homem, e por nenhuma outra razão senão porque existia na substância corpórea de um homem.
[9] Ou então mostra-nos nele alguma substância celeste furtada da Ursa, das Plêiades e das Híades.
[10] Pois bem, as características que enumeramos são tantas provas de que sua carne era terrena, como a nossa; mas eu não descubro nela nada de novo nem de estranho.
[11] Na verdade, foi somente por suas palavras e ações, apenas por seu ensino e seus milagres, que os homens, ainda que admirados, reconheceram em Cristo um homem.
[12] Mas, se houvesse nele algum novo tipo de carne, miraculosamente obtido das estrelas, isso certamente teria sido bem conhecido.
[13] Entretanto, sendo esse o caso, foi precisamente a condição comum de sua carne terrena que tornou todas as demais coisas a seu respeito maravilhosas, como quando diziam: “De onde lhe vêm a este homem esta sabedoria e estes poderes miraculosos?” (Mateus 13:54).
[14] Assim falavam até mesmo aqueles que desprezavam sua aparência exterior.
[15] Seu corpo não alcançava sequer a beleza humana, para não falar de glória celestial.
[16] Ainda que os profetas não nos tivessem dado informação alguma sobre sua aparência sem nobreza, seus próprios sofrimentos e a afronta que suportou já o demonstrariam plenamente.
[17] Os sofrimentos atestavam sua carne humana; a afronta provava sua condição humilde e abatida.
[18] Teria algum homem ousado tocar, ainda que com a ponta do dedo mínimo, o corpo de Cristo, se ele fosse de natureza incomum?
[19] Ou teria alguém lhe cuspido no rosto, se este não convidasse a isso por sua condição desprezível?
[20] Por que falar de uma carne celestial, quando não tendes base alguma para nos oferecer em favor dessa teoria celeste?
[21] Por que negar que ela era terrena, quando tendes as melhores razões para saber que era terrena?
[22] Ele teve fome sob a tentação do diabo.
[23] Ele teve sede com a mulher samaritana.
[24] Ele chorou por Lázaro.
[25] Ele estremece diante da morte, pois, como Ele mesmo diz, “a carne é fraca” (Mateus 26:41).
[26] Por fim, Ele derrama seu sangue.
[27] São esses, suponho, sinais celestiais?
[28] Mas como, pergunto eu, poderia Ele ter incorrido no desprezo e no sofrimento da maneira que descrevi, se tivesse brilhado em sua carne algo de excelência celestial?
[29] Temos, portanto, nisso uma prova convincente de que nela não havia nada do céu, porque ela precisava ser capaz de desprezo e de sofrimento.

