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[1] Mas deparamo-nos com outro argumento deles, quando levantamos a questão de por que Cristo, ao assumir uma carne dotada de alma, pareceria ter tido uma alma feita de carne.

[2] Pois Deus, dizem eles, desejou tornar a alma visível aos homens, revestindo-a de uma natureza corpórea, embora antes fosse invisível; e, de fato, por sua própria natureza, ela era incapaz de ver qualquer coisa, até mesmo a si mesma, por causa do obstáculo desta carne, de modo que era até duvidoso se havia nascido ou não.

[3] Portanto, a alma — continuam eles — foi tornada corpórea em Cristo, para que pudéssemos vê-la ao passar pelo nascimento, pela morte e, mais ainda, pela ressurreição.

[4] Mas como isso seria possível: que, por meio da carne, a alma pudesse manifestar-se a si mesma ou a nós, se de modo algum se poderia comprovar que ela ofereceria esse modo de manifestar-se pela carne, até que viesse à existência aquilo a que isso era desconhecido, isto é, a carne?

[5] Recebeu trevas, ao que parece, para poder brilhar!

[6] Agora, voltemos primeiro nossa atenção para este ponto: se era realmente necessário que a alma se manifestasse da maneira sustentada por eles; e, em seguida, consideremos se a posição anterior deles é que a alma é totalmente invisível, investigando ainda se essa invisibilidade resulta de sua incorporeidade, ou se ela de fato possui algum tipo de corpo próprio e peculiar.

[7] E, no entanto, embora digam que ela é invisível, afirmam que é corpórea, mas possuindo algo invisível.

[8] Pois, se ela nada tem de invisível, como pode ser chamada invisível?

[9] Mas até mesmo sua existência é impossível, a menos que tenha aquilo que serve de instrumento para sua existência.

[10] Visto, porém, que ela existe, necessariamente deve ter algo por meio do qual exista.

[11] Se tem esse algo, isso deve ser o seu corpo.

[12] Tudo o que existe possui uma existência corpórea em seu próprio gênero.

[13] Nada carece de existência corpórea, exceto aquilo que não existe.

[14] Se, então, a alma tem um corpo invisível, Aquele que havia proposto torná-la visível certamente teria realizado melhor Sua obra se tivesse tornado visível aquela parte dela que era considerada invisível; porque então não haveria falsidade nem fraqueza no caso, e nenhum desses defeitos convém a Deus.

[15] Mas, tal como se apresenta essa hipótese, há falsidade, porque Ele mostrou a alma como sendo algo diferente do que realmente é; e há fraqueza, porque não foi capaz de fazê-la parecer ser aquilo que ela é.

[16] Ninguém que queira exibir um homem o cobre com um véu ou uma máscara.

[17] Ora, é precisamente isso que foi feito à alma, se ela foi revestida com uma cobertura pertencente a outra coisa, ao ser convertida em carne.

[18] Mas, ainda que a alma seja, na hipótese deles, considerada incorpórea, de modo que a alma, seja ela o que for, permaneça por alguma força misteriosa da razão inteiramente desconhecida, contanto apenas que não seja um corpo, então, nesse caso, não estaria além do poder de Deus — e, de fato, seria mais coerente com Seu plano — se Ele manifestasse a alma em algum novo tipo de corpo, diferente daquele que todos nós temos em comum.

[19] Seria um corpo do qual formaríamos uma noção inteiramente diversa, poupados da ideia de que Ele decidiu, sem causa suficiente, fazer uma alma visível em vez de uma invisível — um estímulo bastante adequado, sem dúvida, para as perguntas que eles levantam, ao sustentarem para ela uma carne humana.

[20] Cristo, porém, não poderia ter aparecido entre os homens senão como homem.

[21] Restitui, portanto, a Cristo a fé que Lhe é devida; crede que Aquele que quis andar sobre a terra como homem exibiu também uma alma em condição plenamente humana, não a fazendo de carne, mas revestindo-a com carne.

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