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[1] O célebre Alexandre também, movido por seu amor à controvérsia, no verdadeiro estilo do temperamento herético, levantou-se contra nós; ele quer que se diga que Cristo revestiu-se de carne de origem terrena, para que, em sua própria pessoa, abolisse a carne pecaminosa.

[2] Ora, ainda que de fato afirmássemos isso como nossa opinião, poderíamos defendê-la de tal modo que evitaríamos completamente a extravagante insensatez que ele nos atribui, como se supuséssemos que a própria carne de Cristo tivesse sido abolida nele mesmo por ser pecaminosa; pois professamos publicamente nossa fé de que ela está assentada à direita do Pai nos céus.

[3] E além disso declaramos que ela tornará a vir de lá em toda a pompa da glória do Pai; portanto, é tão impossível para nós dizer que ela foi abolida quanto sustentar que ela era pecaminosa e, por isso, anulada, visto que nela não houve falta alguma.

[4] Sustentamos, ademais, que o que foi abolido em Cristo não foi carnem peccati, isto é, a carne pecaminosa, mas peccatum carnis, isto é, o pecado na carne — não a realidade material, mas a sua condição; não a substância, mas a sua falha.

[5] E isso afirmamos com a autoridade do apóstolo, que diz: “Ele aboliu o pecado na carne”.

[6] Ora, em outra sentença, ele diz que Cristo veio em semelhança de carne pecaminosa, não, porém, como se tivesse assumido apenas a semelhança da carne, no sentido de mera aparência de corpo em vez de sua realidade.

[7] Antes, ele quer que entendamos semelhança com a carne que pecou, porque a carne de Cristo, que não cometeu pecado algum, assemelhava-se àquela que havia pecado — assemelhava-se a ela em sua natureza, mas não na corrupção que recebera de Adão.

[8] Daí também afirmarmos que em Cristo havia a mesma carne daquela cuja natureza, no homem, é pecaminosa.

[9] Portanto, dizemos que, na carne, o pecado foi abolido, porque em Cristo essa mesma carne foi conservada sem pecado, ao passo que no homem não foi conservada sem pecado.

[10] Ora, não contribuiria para o propósito de Cristo abolir o pecado na carne se ele não o abolisse naquela carne em que se encontrava a natureza do pecado; nem isso redundaria para a sua glória.

[11] Pois certamente nada haveria de extraordinário se ele removesse a mancha do pecado em uma carne melhor, e que possuísse uma natureza diferente, até mesmo sem pecado.

[12] Então, dizes tu: se ele tomou a nossa carne, a carne de Cristo era pecaminosa.

[13] Contudo, não aprisiones em mistério um sentido que é perfeitamente inteligível.

[14] Pois, ao revestir-se da nossa carne, ele a fez sua; e, ao fazê-la sua, tornou-a sem pecado.

[15] Entretanto, uma advertência deve ser dirigida a todos os que se recusam a crer que a nossa carne esteve em Cristo sob a alegação de que ela não veio da semente de um pai humano: lembrem-se de que o próprio Adão recebeu esta nossa carne sem a semente de um pai humano.

[16] Assim como a terra foi convertida nesta nossa carne sem a semente de um pai humano, também era plenamente possível que o Filho de Deus tomasse para si a substância desta mesma carne, sem a intervenção de um pai humano.

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