[1] O que significa, então, esta passagem: “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”? João 1:13.
[2] Farei ainda maior uso desta passagem depois de refutar aqueles que a adulteraram.
[3] Eles sustentam que foi escrito assim, no plural: “os quais nasceram, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”, como se estivesse designando aqueles antes mencionados como crentes em seu nome, a fim de apontar a existência daquela semente misteriosa dos eleitos e espirituais, a qual eles arrogam para si.
[4] Mas como isso pode ser, quando todos os que creem no nome do Senhor são, em razão do princípio comum da raça humana, nascidos do sangue, da vontade da carne e do homem, assim como o próprio Valentino?
[5] A expressão está no singular, referindo-se ao Senhor: “Ele nasceu de Deus”.
[6] E com muita propriedade, porque Cristo é o Verbo de Deus; e com o Verbo está o Espírito de Deus; e pelo Espírito, o Poder de Deus, e tudo o mais que pertence a Deus.
[7] Contudo, enquanto carne, Ele não é do sangue, nem da vontade da carne, nem do homem, porque foi pela vontade de Deus que o Verbo se fez carne.
[8] É à carne, de fato, e não ao Verbo, que se aplica a negação daquele nascimento natural a todos nós enquanto homens, porque era como carne que Ele assim tinha de nascer, e não como o Verbo.
[9] Ora, se a passagem realmente nega que Ele tenha nascido da vontade da carne, como é que ela também não negou que Ele tenha nascido da substância da carne?
[10] Pois ela não rejeitou a substância da carne ao negar que Ele nasceu do sangue, mas apenas a matéria da semente, que, como todos sabem, é o sangue aquecido e transformado pela ebulição no coágulo do sangue da mulher.
[11] No queijo, é pela coagulação que a substância leitosa adquire aquela consistência, a qual se condensa pela infusão do coalho.
[12] Assim entendemos que o que se nega é o nascimento do Senhor após a relação sexual — como sugere a expressão “a vontade do homem e da carne” —, e não a sua natividade a partir do ventre de uma mulher.
[13] Por que, ainda, se insiste com tão grande acúmulo de ênfase em dizer que Ele não nasceu do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, senão porque sua carne era tal que ninguém poderia ter dúvida de que tivesse nascido de uma relação sexual?
[14] Novamente, embora negando seu nascimento a partir de tal coabitação, a passagem não negou que Ele tenha nascido de carne real; antes, afirmou isso, justamente pelo fato de não ter negado seu nascimento na carne do mesmo modo como negou seu nascimento por relação sexual.
[15] Dize-me, pois: por que o Espírito de Deus desceu ao ventre de uma mulher, se não o fez com o propósito de participar da carne proveniente do ventre?
[16] Pois Ele poderia ter-se tornado carne espiritual sem tal processo — e, de fato, muito mais simplesmente sem o ventre do que nele.
[17] Ele não tinha razão para encerrar-se dentro de um ventre, se nada haveria de trazer dele.
[18] Não foi sem razão, porém, que Ele desceu a um ventre.
[19] Portanto, dele recebeu carne; de outro modo, se nada dele recebesse, sua descida teria sido sem razão, especialmente se pretendia tornar-se uma carne desse tipo que não derivasse de um ventre, isto é, uma carne espiritual.

