[1] Eles podem, então, tentar apagar o testemunho dos demônios, que proclamavam Jesus como Filho de Davi; porém, por mais que julguem indigno esse testemunho, jamais conseguirão apagar o dos apóstolos.
[2] Há, antes de tudo, Mateus, o mais fiel narrador do Evangelho, por ser companheiro do Senhor; e ele, por nenhuma outra razão senão para nos mostrar claramente a origem carnal de Cristo, começa assim o seu Evangelho: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.” (Mateus 1:1)
[3] Tendo, pois, uma natureza procedente de tais fontes e uma ordem que desce gradualmente até o nascimento de Cristo, que outra coisa se descreve aqui senão a própria carne de Abraão e de Davi, transmitindo-se, passo a passo, até a própria virgem e, por fim, introduzindo Cristo — ou melhor, gerando o próprio Cristo da virgem?
[4] Depois, há também Paulo, que foi ao mesmo tempo discípulo, mestre e testemunha desse mesmo Evangelho; como apóstolo do mesmo Cristo, ele também afirma que Cristo foi feito da descendência de Davi segundo a carne — carne que, portanto, era igualmente a Sua.
[5] Logo, a carne de Cristo procede da descendência de Davi.
[6] E, visto que Ele é da descendência de Davi em razão da carne de Maria, segue-se que Ele é da carne de Maria por causa da descendência de Davi.
[7] Por mais que se force a declaração, o resultado é este: ou Ele é da carne de Maria por causa da descendência de Davi, ou é da descendência de Davi por causa da carne de Maria.
[8] Toda a discussão se encerra com o mesmo apóstolo, quando ele declara que Cristo é a descendência de Abraão.
[9] E, se é de Abraão, quanto mais certamente também de Davi, que é um progenitor mais recente!
[10] Pois, ao desenvolver a bênção prometida a todas as nações na pessoa de Abraão — “Na tua descendência serão benditas todas as nações da terra” — ele acrescenta: “Não diz: ‘e às descendências’, como falando de muitas, mas como de uma só: ‘e à tua descendência’, que é Cristo.” (Gálatas 3:8,16)
[11] Quando lemos e cremos nessas coisas, que tipo de carne devemos, e podemos, reconhecer em Cristo?
[12] Certamente nenhuma outra senão a de Abraão, pois Cristo é a descendência de Abraão.
[13] Nenhuma outra senão a de Jessé, pois Cristo é a flor que brota do tronco de Jessé.
[14] Nenhuma outra senão a de Davi, pois Cristo é o fruto dos lombos de Davi.
[15] Nenhuma outra senão a de Maria, pois Cristo veio do ventre de Maria.
[16] E, indo ainda mais alto, nenhuma outra senão a de Adão, pois Cristo é o segundo Adão.
[17] A consequência, portanto, é que eles terão de sustentar que aqueles antepassados possuíam uma carne espiritual, para que assim pudesse ser transmitida a Cristo a mesma condição de substância; ou então admitir que a carne de Cristo não era espiritual, já que sua origem não procede de uma linhagem espiritual.

