[1] Reconhecemos, contudo, que se cumpriu a declaração profética de Simeão, pronunciada sobre o Salvador recém-nascido: “Eis que este menino está posto para queda e elevação de muitos em Israel, e para ser sinal de contradição”. (Lucas 2:34)
[2] O sinal aqui referido é o do nascimento de Cristo, conforme Isaías: “Portanto, o próprio Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho”. (Isaías 7:14)
[3] Descobrimos, então, qual é o sinal que haveria de ser contradito: a concepção e o parto da Virgem Maria, acerca dos quais estes sofistas dizem: “Ela, sendo virgem, e contudo não virgem, deu à luz, e contudo não deu à luz”; como se tal linguagem, se é que deve mesmo ser proferida, não fosse mais apropriada até mesmo para nós mesmos utilizarmos!
[4] Pois ela deu à luz, porque gerou fruto da sua própria carne; e, contudo, não deu à luz, visto que não o gerou a partir da semente de um marido; era virgem no que dizia respeito à abstinência de marido, e, contudo, não virgem no que se refere ao fato de ter gerado um filho.
[5] Não existe, porém, essa equivalência de raciocínio que os hereges pretendem estabelecer; em outras palavras, não se segue que, pelo fato de ela não ter dado à luz no sentido que alegam, aquela que não era virgem fosse, ainda assim, virgem, precisamente porque se tornou mãe sem o fruto ordinário do seu ventre.
[6] Entre nós, porém, não há equívoco, nada torcido em duplo sentido. Luz é luz; e trevas, trevas; sim é sim; e não é não; e o que passar disso procede do mal. (Mateus 5:37)
[7] Aquela que deu à luz, de fato deu à luz; e, embora fosse virgem quando concebeu, era esposa quando trouxe ao mundo seu filho.
[8] Ora, como esposa, ela estava sob a própria lei do abrir do ventre, sendo completamente irrelevante se o nascimento do menino ocorrera ou não mediante a cooperação de um marido; era o mesmo sexo masculino que lhe abriu o ventre.
[9] De fato, é do ventre dela que se trata, por causa do que também está escrito acerca de outras: “Todo varão que abrir o ventre será chamado santo ao Senhor”.
[10] Pois quem é verdadeiramente santo senão o Filho de Deus? E quem propriamente abriu o ventre senão Aquele que abriu um ventre fechado?
[11] Mas é o matrimônio que, em todos os casos, abre o ventre.
[12] O ventre da virgem, portanto, foi de modo especial aberto, porque de modo especial estava fechado.
[13] Na verdade, ela deveria antes ser chamada não virgem do que virgem, tornando-se mãe de um salto, por assim dizer, antes mesmo de ser esposa.
[14] E que mais se deve dizer sobre este ponto?
[15] Pois, uma vez que foi nesse sentido que o apóstolo declarou que o Filho de Deus nasceu não de uma virgem, mas de uma mulher, ele reconheceu nessa afirmação a condição do ventre aberto, que decorre do matrimônio.
[16] Lemos em Ezequiel a respeito de uma novilha que deu à luz e, ainda assim, não deu à luz.
[17] Vede agora se não foi tendo em vista as futuras contendas de vós mesmos acerca do ventre de Maria que, já então, o Espírito Santo vos assinalou nessa passagem; de outro modo, Ele não teria, contrariamente à sua costumeira simplicidade de estilo nesse profeta, proferido uma sentença de sentido tão duvidoso, especialmente quando Isaías diz: “Ela conceberá e dará à luz um filho”. (Isaías 7:14)

