[1] Há, com certeza, outras coisas igualmente tão insensatas quanto o nascimento de Cristo, que dizem respeito às humilhações e aos sofrimentos de Deus.
[2] Ou então, que chamem de sabedoria um Deus crucificado.
[3] Mas Marcião também aplicará a faca a essa doutrina, e até com maior razão.
[4] Pois o que é mais indigno de Deus, o que mais provavelmente faria corar de vergonha: que Deus nasça ou que morra?
[5] Que carregue a carne ou a cruz?
[6] Que seja circuncidado ou crucificado?
[7] Que seja colocado no berço ou no caixão?
[8] Que seja posto numa manjedoura ou num túmulo?
[9] Falais de sabedoria!
[10] Mostrareis mais dela se vos recusardes a crer também nisso.
[11] Mas, afinal, não sereis sábios, a menos que vos torneis loucos para o mundo, crendo nas loucuras de Deus.
[12] Então, eliminaste de Cristo todos os sofrimentos, sob a alegação de que, sendo Ele um mero fantasma, era incapaz de experimentá-los?
[13] Já dissemos acima que talvez Ele pudesse ter passado pelas irrealidades de um nascimento e de uma infância imaginários.
[14] Mas responde-me de imediato, tu que assassinas a verdade: não foi Deus realmente crucificado?
[15] E, tendo sido realmente crucificado, não morreu Ele realmente?
[16] E, tendo de fato realmente morrido, não ressuscitou verdadeiramente?
[17] Falsamente, então, Paulo decidiu nada saber entre nós, senão a Jesus Cristo e este crucificado.
[18] Falsamente também nos inculcou que Ele foi sepultado.
[19] Falsamente ensinou que ressuscitou.
[20] Falsa, portanto, é também a nossa fé.
[21] E tudo aquilo que esperamos de Cristo será um fantasma.
[22] Ó homens infamíssimos, vós que absolveis de toda culpa os assassinos de Deus!
[23] Pois Cristo nada sofreu da parte deles, se na verdade não sofreu absolutamente nada.
[24] Poupa a única esperança de todo o mundo, tu que estás destruindo a desonra indispensável da nossa fé.
[25] Tudo quanto é indigno de Deus me é proveitoso.
[26] Estou seguro, se não me envergonho do meu Senhor.
[27] “Qualquer que de mim se envergonhar”, diz Ele, “dele também eu me envergonharei”.
[28] Não encontro outras matérias de vergonha que possam provar-me sem vergonha em bom sentido e felizmente insensato, por meu próprio desprezo da vergonha.
[29] O Filho de Deus foi crucificado; não me envergonho, justamente porque os homens necessariamente se envergonham disso.
[30] E o Filho de Deus morreu; isso deve ser crido de todas as maneiras, porque é absurdo.
[31] E foi sepultado e ressuscitou; o fato é certo, porque é impossível.
[32] Mas como tudo isso será verdadeiro nele, se Ele próprio não era verdadeiro?
[33] Como seria verdadeiro, se realmente não tivesse em si mesmo aquilo que pudesse ser crucificado, morrer, ser sepultado e ressuscitar?
[34] Refiro-me a esta carne banhada em sangue, estruturada com ossos, entrelaçada com nervos, envolvida por veias, uma carne que sabia nascer e sabia morrer, humana sem dúvida, porque nascida de um ser humano.
[35] Portanto, ela será mortal em Cristo, porque Cristo é homem e Filho do homem.
[36] De outro modo, por que Cristo é homem e Filho do homem, se nada possui do homem e nada recebe do homem?
[37] A menos que o homem seja algo diferente de carne, ou que a carne do homem venha de outra origem que não o próprio homem, ou que Maria seja algo diferente de um ser humano, ou que o homem de Marcião seja como o deus de Marcião.
[38] De outro modo, Cristo não poderia ser descrito como homem sem carne, nem como Filho do homem sem qualquer progenitor humano; assim como Ele não é Deus sem o Espírito de Deus, nem Filho de Deus sem ter Deus por Pai.
[39] Assim, a natureza das duas substâncias O manifestou como homem e como Deus: em um aspecto, nascido; em outro, não nascido; em um aspecto, carnal; em outro, espiritual; em um sentido, fraco; em outro, sobremodo forte; em um sentido, morrendo; em outro, vivendo.
[40] Essa propriedade dos dois estados — o divino e o humano — é afirmada de modo claro, com igual verdade para ambas as naturezas, com a mesma fé, tanto a respeito do Espírito quanto da carne.
[41] Os poderes do Espírito provavam que Ele era Deus; seus sofrimentos atestavam a carne do homem.
[42] Se os seus poderes não existiam sem o Espírito, do mesmo modo seus sofrimentos não existiam sem a carne.
[43] Se sua carne com seus sofrimentos era fictícia, pela mesma razão também era falso o Espírito com todos os seus poderes.
[44] Portanto, por que dividir Cristo com uma mentira?
[45] Ele era inteiramente a verdade.
[46] Crê em mim: Ele preferiu nascer a fingir em qualquer parte — e isso, na verdade, em seu próprio prejuízo — que trazia uma carne endurecida sem ossos, sólida sem músculos, sangrenta sem sangue, revestida sem a túnica da pele, faminta sem apetite, comendo sem dentes, falando sem língua, de modo que sua palavra fosse para os ouvidos um fantasma por meio de uma voz imaginária.
[47] Fantasma também teria sido, é claro, após a ressurreição, quando, mostrando as mãos e os pés para que os discípulos os examinassem, disse: “Vede e reconhecei que sou eu mesmo, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho”.
[48] Sem dúvida, mãos, pés e ossos não são atributos de um espírito, mas somente da carne.
[49] Como interpretas esta declaração, Marcião, tu que nos dizes que Jesus procede apenas do Deus excelentíssimo, que é ao mesmo tempo simples e bom?
[50] Vê como, ao contrário, Ele engana, ilude e ludibria os olhos de todos, os sentidos de todos, bem como o acesso a Ele e o contato com Ele!
[51] Deverias antes ter feito Cristo descer, não do céu, mas de algum bando de saltimbancos; não como Deus além de homem, mas simplesmente como homem, um mágico;
[52] não como o Sumo Sacerdote da nossa salvação, mas como um ilusionista de espetáculo;
[53] não como aquele que ressuscita os mortos, mas como o enganador dos vivos —
[54] exceto que, se Ele fosse um mágico, teria de ter tido um nascimento!

