[1] Mas certos discípulos do herege do Ponto, constrangidos a parecer mais sábios do que o seu mestre, concedem a Cristo carne real, sem que isso, contudo, altere a sua negação da natividade d’Ele.
[2] Dizem eles que Ele poderia ter tido uma carne que de modo algum nasceu.
[3] Assim, encontramos uma saída da frigideira, como diz o provérbio, para cair no fogo: de Marcião para Apeles.
[4] Esse homem, tendo primeiro decaído dos princípios de Marcião para o envolvimento com uma mulher, na carne, e depois naufragado no espírito por causa da virgem Filúmene, passou desde então a pregar que o corpo de Cristo era de carne sólida, porém sem ter nascido.
[5] A esse anjo, de fato, de Filúmene, o apóstolo responderá em tons semelhantes àqueles com que já então o predissera, dizendo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregue outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema.”
[6] Quanto, porém, aos argumentos indicados pouco acima, devemos agora mostrar nossa resistência a eles.
[7] Eles admitem que Cristo realmente teve um corpo.
[8] De onde veio a matéria desse corpo, senão do mesmo tipo de substância daquela em que Ele apareceu?
[9] De onde veio o Seu corpo, se o Seu corpo não fosse carne?
[10] De onde veio a Sua carne, se ela não tivesse nascido?
[11] Porque aquilo que nasce deve passar por essa natividade para tornar-se carne.
[12] Dizem eles que Ele tomou Sua carne emprestada das estrelas e das substâncias do mundo superior.
[13] E sustentam como princípio certo que um corpo sem natividade não é coisa de admirar, porque foi concedido também aos anjos aparecerem entre nós em carne sem a intervenção do ventre.
[14] Admitimos, é claro, que tais fatos foram relatados.
[15] Mas então, como acontece que uma fé que se firma em regra diversa toma emprestado o material para seus próprios argumentos da fé que ela impugna?
[16] Que tem ela a ver com Moisés, se rejeitou o Deus de Moisés?
[17] Sendo o Deus outro, tudo o que lhe pertence também deve ser outro.
[18] Mas deixemos que os hereges usem sempre as Escrituras daquele Deus de cujo mundo eles também desfrutam.
[19] Esse fato certamente se voltará contra eles como testemunha para julgá-los: o de sustentarem as próprias blasfêmias com exemplos tirados d’Aquele mesmo Deus.
[20] Mas é tarefa fácil para a verdade prevalecer sem levantar contra eles sequer essa objeção.
[21] Quando, portanto, eles apresentam a carne de Cristo segundo o modelo dos anjos, declarando que ela não nasceu, e ainda assim era carne, eu desejaria que comparassem as causas, tanto no caso de Cristo quanto no dos anjos, pelas quais vieram em carne.
[22] Nenhum anjo jamais desceu com o propósito de ser crucificado, provar a morte e ressuscitar dentre os mortos.
[23] Ora, visto que nunca houve tal razão para os anjos se revestirem de corpo, tens aí a causa de terem assumido carne sem passar pelo nascimento.
[24] Eles não vieram para morrer; portanto, também não vieram para nascer.
[25] Cristo, porém, tendo sido enviado para morrer, necessariamente também teve de nascer, para que fosse capaz de morrer.
[26] Pois nada costuma morrer, senão aquilo que nasceu.
[27] Entre natividade e mortalidade há uma correlação recíproca.
[28] A lei que nos faz morrer é a causa de nascermos.
[29] Ora, visto que Cristo morreu em razão da condição sujeita à morte, e está sujeito à morte aquilo que também nasceu, a consequência foi — antes, foi uma necessidade anterior — que Ele também tivesse nascido, em razão da condição que está sujeita ao nascimento.
[30] Isso porque Ele tinha de morrer em obediência àquela própria condição que, começando com o nascimento, termina na morte.
[31] Não convinha que Ele não nascesse sob o pretexto de que convinha que morresse.
[32] Mas o próprio Senhor, naquele mesmo tempo, apareceu a Abraão entre aqueles anjos sem ter nascido e, ainda assim, sem dúvida em carne, em virtude da diversidade de causa já mencionada.
[33] Vós, porém, não podeis admitir isso, uma vez que não recebeis aquele Cristo que já então ensaiava como conviver com a raça humana, libertá-la e julgá-la, no hábito de uma carne que ainda não havia nascido, porque ainda não estava destinada a morrer, até que tanto sua natividade como sua mortalidade fossem previamente anunciadas por profecia.
[34] Provem-nos, então, que aqueles anjos tiraram sua carne das estrelas.
[35] Se não o provam porque isso não está escrito, tampouco a carne de Cristo terá daí sua origem, já que eles tomaram por empréstimo dos anjos esse precedente.
[36] É claro que os anjos portavam uma carne que não lhes era naturalmente própria; pois sua natureza é de substância espiritual, embora em certo sentido peculiar a eles, corpórea.
[37] Ainda assim, podiam transfigurar-se em forma humana e, por um tempo, aparecer e ter contato com os homens.
[38] Portanto, uma vez que não nos foi dito de onde obtiveram sua carne, resta-nos não duvidar de que é próprio do poder angélico assumir para si forma corpórea sem qualquer substância material.
[39] “Quanto mais”, dizeis vós, “está ao alcance deles assumir um corpo a partir de alguma substância material!”
[40] Isso é verdadeiro o bastante.
[41] Mas não há prova disso, porque a Escritura nada diz.
[42] Além disso, como poderiam aqueles que são capazes de formar-se naquilo que por natureza não são, ser incapazes de fazê-lo sem qualquer substância material?
[43] Se eles se tornam aquilo que não são, por que não poderiam tornar-se assim a partir daquilo que não é?
[44] Mas aquilo que não existe e vem à existência é feito do nada.
[45] É por isso que é desnecessário investigar ou demonstrar o que depois aconteceu com seus corpos.
[46] O que veio do nada, ao nada retornou.
[47] Aqueles que puderam converter-se em carne têm também poder para converter o próprio nada em carne.
[48] É coisa maior mudar uma natureza do que fazer matéria.
[49] Mas, ainda que fosse necessário supor que os anjos derivaram sua carne de alguma substância material, certamente é mais crível que tenha sido de alguma matéria terrena do que de qualquer espécie de substâncias celestiais.
[50] Pois ela era composta de qualidade tão palpavelmente terrena que se alimentava de mantimentos terrestres.
[51] Suponhamos mesmo que, ainda agora, uma carne celestial tivesse se alimentado de alimentos terrestres, embora ela própria não fosse terrena, da mesma forma que a carne terrena de fato se alimentou de alimentos celestiais, embora nada tivesse de natureza celestial.
[52] Pois lemos que o maná serviu de alimento ao povo: “O homem comeu o pão dos anjos”, diz o salmista.
[53] Contudo, isso não infringe de modo algum a condição distinta da carne do Senhor, por causa de Seu destino diferente.
[54] Pois Aquele que haveria de ser verdadeiramente homem, até a morte, precisava estar revestido daquela carne à qual a morte pertence.
[55] Ora, a carne à qual a morte pertence é precedida pelo nascimento.

