[1] Em vão nos iludimos acerca das necessidades da manutenção da vida humana se, depois de selada a fé, dizemos: “Não tenho meios para viver”.
[2] Pois aqui responderei agora de modo mais completo àquela objeção abrupta.
[3] Ela é levantada tarde demais.
[4] Porque, à semelhança daquele construtor prudentíssimo, que primeiro calcula o custo da obra juntamente com os próprios recursos, para que, depois de começar, não venha a envergonhar-se ao perceber que já os gastou, a deliberação deveria ter sido feita antes.
[5] Mas ainda agora tens as palavras do Senhor como exemplos que te tiram toda desculpa.
[6] Pois o que dizes?
[7] “Estarei em necessidade.”
[8] Mas o Senhor chama bem-aventurados os necessitados.
[9] “Não terei alimento.”
[10] Mas Ele diz: “Não andeis ansiosos por causa do alimento”; e, como exemplo de vestimenta, temos os lírios.
[11] “Meu trabalho era o meu sustento.”
[12] Não; ao contrário, todas as coisas devem ser vendidas e repartidas com os necessitados.
[13] “Mas é preciso prover para os filhos e para a posteridade.”
[14] Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para a obra.
[15] “Mas eu estava sob contrato.”
[16] Ninguém pode servir a dois senhores.
[17] Se desejas ser discípulo do Senhor, é necessário tomar a tua cruz e seguir o Senhor.
[18] A tua cruz, isto é, as tuas próprias aflições e tormentos, ou mesmo o teu corpo, que tem a forma de uma cruz.
[19] Pais, esposas e filhos terão de ser deixados para trás por amor de Deus.
[20] Hesitas acerca das artes, dos ofícios e também das profissões, por causa dos filhos e dos pais?
[21] Também nisso nos foi demonstrado que tanto os vínculos mais queridos quanto os trabalhos manuais e os ofícios devem ser inteiramente deixados por amor do Senhor.
[22] Pois Tiago e João, chamados pelo Senhor, deixam para trás tanto o pai quanto o barco.
[23] Mateus é arrancado da coletoria.
[24] E até mesmo sepultar o próprio pai foi tarefa lenta demais para a fé.
[25] Nenhum daqueles que o Senhor escolheu para si disse: “Não tenho meios para viver”.
[26] A fé não teme a fome.
[27] Ela sabe também que, por amor de Deus, a fome deve ser por ela desprezada não menos do que qualquer espécie de morte.
[28] Ela aprendeu a não dar valor à própria vida; quanto mais ao alimento.
[29] “Perguntas quantos cumpriram essas condições?”
[30] Mas o que é difícil para os homens é fácil para Deus.
[31] Contudo, consolemo-nos quanto à mansidão e à clemência de Deus de tal maneira que não satisfaçamos as nossas necessidades a ponto de criar afinidades com a idolatria.
[32] Antes, devemos evitar até mesmo de longe qualquer sopro dela, como se evita uma pestilência.
[33] E isso não apenas nos casos antes mencionados, mas em toda a sequência universal da superstição humana.
[34] Quer ela seja atribuída aos seus deuses, quer aos mortos, quer aos reis, por pertencer aos mesmos espíritos imundos.
[35] Às vezes, por meio de sacrifícios e sacerdócios; às vezes, por meio de espetáculos e coisas semelhantes; às vezes, por meio de dias santos.

