[1] Contudo, visto que a conduta conforme a regra divina é colocada em risco não apenas por obras, mas também por palavras — pois, assim como está escrito: “Eis o homem e as suas obras”, e também: “Pelas tuas palavras serás justificado” — devemos lembrar que, também nas palavras, a investida da idolatria deve ser cuidadosamente evitada, quer por força do costume, quer por timidez.
[2] A Lei proíbe que os deuses das nações sejam nomeados; não, é claro, no sentido de que não possamos pronunciar seus nomes, o que o convívio comum por vezes nos obriga a fazer.
[3] Pois frequentemente se diz: “Você o encontrará no templo de Esculápio”; e: “Eu moro na Rua Ísis”; e: “Ele foi feito sacerdote de Júpiter”; e muitas outras coisas desse tipo, já que até mesmo aos homens são dados nomes dessa espécie.
[4] Eu não honro Saturno se chamo assim um homem, pelo seu próprio nome.
[5] Não o honro mais do que honro Marcos, se chamo um homem de Marcos.
[6] Mas está escrito: “Não façais menção do nome de outros deuses, nem se ouça isso da vossa boca”.
[7] O preceito que isso estabelece é este: que não os chamemos de deuses.
[8] Pois também na primeira parte da Lei Ele diz: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão”, isto é, aplicando-o a um ídolo.
[9] Portanto, quem honra um ídolo com o nome de Deus caiu em idolatria.
[10] Mas, se eu falar deles como deuses, algo deve ser acrescentado para deixar claro que eu não os chamo de deuses em sentido verdadeiro.
[11] Pois até a própria Escritura os chama de deuses, mas acrescenta a qualificação: “das nações”.
[12] Assim faz Davi, quando, depois de ter mencionado deuses, diz: “Mas os deuses das nações são demônios”.
[13] Contudo, estabeleci isso mais como fundamento para as observações que seguem.
[14] Entretanto, é um vício de costume dizer: “Por Hércules” ou “Assim me ajude o deus da fidelidade”; e a esse costume se ajunta a ignorância de alguns, que não sabem que isso constitui um juramento por Hércules.
[15] Além disso, o que será um juramento em nome de deuses que vós já renegastes, senão uma cumplicidade da fé com a idolatria?
[16] Pois quem é que não honra aqueles em cujo nome jura?

