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[1] Os platônicos perturbam essas conclusões mais por sutileza do que por verdade.

[2] Todo corpo, dizem eles, tem necessariamente ou natureza animada ou inanimada.

[3] Se possui natureza inanimada, recebe movimento de fora para dentro; se animada, de dentro para fora.

[4] Ora, a alma não recebe movimento nem externamente nem internamente: não externamente, porque não tem natureza inanimada; nem internamente, porque ela mesma é, antes, a que dá movimento ao corpo.

[5] Portanto, é evidente que ela não é uma substância corpórea, visto que não recebe movimento de nenhuma dessas duas maneiras, segundo a natureza e a lei das substâncias corpóreas.

[6] O que primeiro nos surpreende aqui é a inadequação de uma definição que apela para objetos que não têm afinidade alguma com a alma.

[7] Pois é impossível que a alma seja chamada de corpo animado ou de corpo inanimado, uma vez que é a própria alma que torna o corpo animado, se estiver presente nele, ou inanimado, se dele estiver ausente.

[8] Logo, aquilo que produz um resultado não pode ser ele próprio o resultado, a ponto de receber a designação de coisa animada ou inanimada.

[9] A alma assim se chama em relação à sua própria substância.

[10] Se, então, aquilo que é a alma não admite ser chamado de corpo animado nem de corpo inanimado, como pode exigir comparação com a natureza e a lei dos corpos animados e inanimados?

[11] Além disso, visto que é característico de um corpo ser movido externamente por algo diverso, e como já mostramos que a alma recebe movimento de outra coisa quando é impelida — de fora, naturalmente, por algo alheio — por influência profética ou por loucura, então devo estar correto ao considerar corpórea aquela substância que, segundo os exemplos citados, é movida externamente por outro objeto.

[12] Ora, se receber movimento de outra coisa é próprio de um corpo, quanto mais o será transmitir movimento a outra coisa!

[13] Mas a alma move o corpo, cujos atos se manifestam externamente e para fora.

[14] É a alma que dá movimento aos pés para andar, às mãos para tocar, aos olhos para ver e à língua para falar — uma espécie de imagem interior que move e anima a superfície.

[15] De onde poderia vir tal poder à alma, se ela fosse incorpórea?

[16] Como algo sem substância poderia impelir objetos sólidos?

[17] Mas de que modo, no homem, os sentidos parecem dividir-se em classes corpóreas e intelectuais?

[18] Eles nos dizem que as qualidades das coisas corpóreas, como terra e fogo, são percebidas pelos sentidos do corpo — o tato e a visão; ao passo que as qualidades das coisas incorpóreas — por exemplo, benevolência e maldade — são descobertas pelas faculdades intelectuais.

[19] E disso deduzem o que para eles é a conclusão evidente: que a alma é incorpórea, porque suas propriedades são compreendidas não pela percepção dos órgãos do corpo, mas pelas faculdades intelectuais.

[20] Pois bem, eu me admiraria muito se não arrancasse de imediato o próprio fundamento sobre o qual esse argumento deles se apoia.

[21] Porque eu lhes mostro como coisas incorpóreas costumam ser submetidas aos sentidos corporais — o som, por exemplo, ao órgão da audição; a cor, ao órgão da visão; o cheiro, ao órgão do olfato.

[22] E, assim como nesses casos, a alma também tem contato com o corpo; sem falar que objetos incorpóreos nos são comunicados por meio dos órgãos corporais precisamente porque entram em contato com tais órgãos.

[23] Sendo, portanto, evidente que até mesmo objetos incorpóreos são abrangidos e compreendidos por meios corpóreos, por que a alma, que é corpórea, não poderia igualmente ser compreendida e entendida por faculdades incorpóreas?

[24] Assim, fica claro que o argumento deles falha.

[25] Entre os argumentos mais notáveis deles encontra-se este: segundo o seu juízo, toda substância corpórea é alimentada por substâncias corpóreas; ao passo que a alma, sendo uma essência incorpórea, seria alimentada por alimentos incorpóreos — por exemplo, os estudos da sabedoria.

[26] Mas até esse fundamento não tem estabilidade alguma, pois Sorano, autoridade consumada na ciência médica, nos responde afirmando que a alma é, sim, alimentada por alimentos corpóreos; e que, de fato, quando está abatida e fraca, muitas vezes é restaurada pela comida.

[27] Com efeito, quando privada de todo alimento, a alma não se retira inteiramente do corpo?

[28] Sorano, portanto, depois de discorrer amplamente sobre a alma, enchendo quatro volumes com suas dissertações, e depois de pesar cuidadosamente todas as opiniões dos filósofos, defende a corporeidade da alma, embora nesse processo tenha lhe roubado a imortalidade.

[29] Pois nem a todos os homens é dado crer na verdade que os cristãos têm o privilégio de possuir.

[30] Assim, portanto, como Sorano nos mostrou pelos fatos que a alma é alimentada por alimentos corpóreos, que o filósofo adote método semelhante de prova e mostre que ela é sustentada por alimento incorpóreo.

[31] Mas o fato é que ninguém jamais conseguiu extinguir as dúvidas e dificuldades desse homem acerca da condição da alma com a água melada da sutil eloquência de Platão, nem saciá-las com as migalhas dos minúsculos remédios de Aristóteles.

[32] Mas que dizer das almas de todos aqueles bárbaros robustos, que não tiveram o sustento do saber filosófico e, no entanto, são fortes numa sabedoria prática não ensinada, e que, embora famintas de filosofia, sem vossas academias e pórticos atenienses, e até sem a prisão de Sócrates, ainda assim conseguem viver?

[33] Pois não é a substância real da alma que é beneficiada pelo alimento do estudo erudito, mas apenas sua conduta e disciplina; tal alimento nada contribui para aumentar seu volume, mas apenas para realçar sua graça.

[34] Além disso, é uma circunstância favorável que os estoicos afirmem que até as artes possuem corporeidade; pois, nesse caso, a alma também deve ser corpórea, já que costuma ser considerada nutrida pelas artes.

[35] Tão enorme, porém, é a pré-ocupação da mente filosófica, que em geral ela não consegue ver reto diante de si.

[36] Daí a história de Tales caindo no poço.

[37] Muito frequentemente também, por não entender sequer suas próprias opiniões, ela suspeita de uma falha em sua própria saúde.

[38] Daí a história de Crisipo e o eléboro.

[39] Alguma alucinação desse tipo, suponho eu, deve ter acontecido com ele quando afirmou que dois corpos não poderiam de modo algum estar contidos em um só; ele deve ter esquecido, deixando fora da mente e da vista, o caso das mulheres grávidas que, dia após dia, carregam dentro do abraço de um único ventre não um só corpo, mas até dois e três de cada vez.

[40] Encontra-se também, nos registros do direito civil, o caso de certa mulher grega que deu à luz cinco filhos, mãe de todos eles num só parto, múltipla genitora de uma única prole, produção fecunda de um único ventre, que, guardada por tantos corpos — eu quase diria, por um povo — não era ela própria menos que a sexta pessoa!

[41] Toda a criação dá testemunho de que os corpos que por natureza estão destinados a sair de corpos já se acham incluídos naquele de que procedem.

[42] Ora, o que procede de outra coisa deve necessariamente ser posterior a ela.

[43] Nada, porém, procede de outra coisa senão por geração; e então são duas coisas.

[44] No que diz respeito aos filósofos, já dissemos o suficiente.

[45] Quanto aos nossos próprios mestres, na verdade, referir-nos a eles é ex abundanti — um excesso de autoridade; pois no próprio Evangelho se encontrará a evidência mais clara da natureza corpórea da alma.

[46] No inferno, a alma de certo homem está em tormento, castigada nas chamas, sofrendo sede extrema e implorando, do dedo de uma alma mais feliz, o alívio de uma gota de água para a sua língua.

[47] Lucas 16:23-24.

[48] Supondes que o fim daquele pobre bem-aventurado e daquele rico miserável seja apenas imaginário?

[49] Então por que o nome de Lázaro nessa narrativa, se a circunstância não pertence à categoria de um acontecimento real?

[50] Mas, ainda que deva ser considerada imaginária, mesmo assim será testemunho da verdade e da realidade.

[51] Pois, se a alma não possuísse corporeidade, a imagem de uma alma jamais poderia conter um dedo de substância corpórea; nem a Escritura fingiria uma afirmação acerca dos membros de um corpo, se estes não existissem.

[52] Mas o que é aquilo que é levado ao Hades após a separação do corpo, ali é detido, ali é reservado até o dia do juízo, e ao qual também Cristo, ao morrer, desceu?

[53] Imagino que sejam as almas dos patriarcas.

[54] Mas para que tudo isso, se a alma nada é em sua morada subterrânea?

[55] Pois certamente nada é, se não for substância corpórea.

[56] Porque tudo quanto é incorpóreo é incapaz de ser conservado e guardado de qualquer modo; está também isento tanto de castigo quanto de refrigério.

[57] Aquilo que pode experimentar castigo e refrigério deve ser um corpo.

[58] Tratarei disso mais amplamente em lugar mais apropriado.

[59] Portanto, qualquer que seja a medida de castigo ou de refrigério que a alma prove no Hades, em sua prisão ou habitação, no fogo ou no seio de Abraão, ela assim dá prova de sua própria corporeidade.

[60] Pois uma coisa incorpórea nada sofre, por não possuir aquilo que a torna capaz de sofrer; mas, se possui tal capacidade, então deve ser uma substância corpórea.

[61] Porque, na mesma medida em que toda coisa corpórea é capaz de sofrer, nessa mesma medida aquilo que é capaz de sofrer também é corpóreo.

[62] Além disso, seria um procedimento duro e absurdo excluir algo da classe dos seres corpóreos sob o pretexto de que não é exatamente igual aos outros componentes dessa classe.

[63] E quando criaturas individuais possuem propriedades diversas, essa variedade em obras de uma mesma classe não indica a grandeza do Criador, ao fazê-las ao mesmo tempo diferentes e semelhantes, amigas e rivais?

[64] De fato, os próprios filósofos concordam em dizer que o universo consiste em oposições harmônicas, segundo a teoria de Empédocles sobre amizade e inimizade.

[65] Assim, embora as essências corpóreas se oponham às incorpóreas, ainda assim diferem entre si de tal modo que ampliam sua espécie por sua variedade, sem mudar seu gênero, permanecendo todas igualmente corpóreas.

[66] Elas contribuem para a glória de Deus em sua existência múltipla por causa de sua variedade; são tão variadas por suas diferenças; tão diversas, porque algumas possuem um tipo de percepção, outras outro; algumas se alimentam de um tipo de alimento, outras de outro; algumas, ainda, possuem visibilidade, enquanto outras são invisíveis; algumas são pesadas, outras leves.

[67] Costumam dizer que a alma deve ser declarada incorpórea por esta razão: os corpos dos mortos, depois que ela parte deles, tornam-se mais pesados, quando deveriam ser mais leves, por terem sido privados do peso de um corpo — se é que a alma é uma substância corpórea.

[68] Mas que diria Sorano, em resposta a esse argumento, se homens negassem que o mar é uma substância corpórea, porque um navio fora d’água se torna uma massa pesada e imóvel?

[69] Quanto mais verdadeira e mais forte, então, é a essência corpórea da alma, que transporta o corpo e que, afinal, assume tão grande peso com o mais ágil movimento!

[70] Além disso, ainda que a alma seja invisível, isso ocorre em estrita conformidade com a condição de sua própria corporeidade, e de modo adequado à propriedade de sua própria essência, assim como à natureza daqueles seres para os quais seu destino a tornou invisível.

[71] Os olhos da coruja não suportam o sol, enquanto a águia consegue encarar tão bem o seu esplendor, que o nobre caráter de seus filhotes é determinado pela força inabalável do olhar; mas o filhote que desvia os olhos do raio solar é expulso do ninho como criatura degenerada!

[72] Tão verdadeiro é, portanto, que para um olho um objeto é invisível, enquanto para outro pode ser visto com toda clareza — sem que isso implique qualquer incorporeidade naquilo que não é dotado de igual força de visão.

[73] O sol é certamente uma substância corpórea, porque é composto de fogo; no entanto, o objeto cuja existência o filhote de águia prontamente admite, a coruja nega, sem que isso traga qualquer prejuízo ao testemunho da águia.

[74] Há a mesma diferença no que diz respeito à corporeidade da alma, que talvez seja invisível à carne, mas é perfeitamente visível ao espírito.

[75] Assim João, estando no Espírito de Deus, viu claramente as almas dos mártires.

[76] Apocalipse 1:10; 6:9.

[77] Quando afirmamos que a alma tem um corpo de qualidade e espécie peculiares a si mesma, nessa sua condição especial já teremos uma resposta acerca de todos os demais acidentes de sua corporeidade.

[78] Mostraremos como esses acidentes lhe pertencem porque demonstramos que ela é um corpo, mas também que eles mesmos possuem uma qualidade própria, proporcional à natureza especial do corpo ao qual pertencem.

[79] Ou então, se alguns acidentes de um corpo neste caso se destacam por sua ausência, isso também resulta da peculiaridade da condição da corporeidade da alma, da qual estão ausentes certas qualidades presentes em todos os demais seres corpóreos.

[80] E, apesar de tudo isso, não seremos de modo algum incoerentes se declararmos que as características mais comuns de um corpo, tais como as que invariavelmente acompanham a condição corpórea, pertencem também à alma — como forma e delimitação; e aquela tríade de dimensões — comprimento, largura e altura — pela qual os filósofos medem todos os corpos.

[81] O que nos resta agora senão dar à alma uma figura?

[82] Platão se recusa a fazê-lo, como se isso colocasse em risco a imortalidade da alma.

[83] Pois tudo o que tem figura é, segundo ele, composto e constituído de partes; ao passo que a alma é imortal; e sendo imortal, é portanto indissolúvel; e sendo indissolúvel, não tem figura.

[84] Porque, se pelo contrário tivesse figura, teria uma formação composta e estrutural.

[85] Ele, porém, de outro modo molda para a alma uma efígie de formas intelectuais, bela por sua justa simetria e por suas contemplações filosóficas, mas deformada por algumas qualidades contrárias.

[86] Quanto a nós, de fato, inscrevemos na alma os traços da corporeidade, não somente pela certeza que o raciocínio nos ensinou sobre sua natureza corpórea, mas também pela firme convicção que a graça divina nos imprime por revelação.

[87] Pois, visto que reconhecemos os carismas espirituais, também nós alcançamos o dom profético, embora vindo depois de João Batista.

[88] Temos agora entre nós uma irmã à qual coube ser favorecida com diversos dons de revelação, os quais ela experimenta no Espírito por visão extática durante os cultos sagrados do Dia do Senhor na igreja.

[89] Ela conversa com anjos e às vezes até com o Senhor; ela vê e ouve comunicações misteriosas; compreende o coração de algumas pessoas e distribui remédios àquelas que necessitam.

[90] Quer seja na leitura das Escrituras, quer no canto dos salmos, quer na pregação dos sermões, quer na oferta das orações, em todos esses serviços religiosos lhe são dadas matéria e ocasião para ver visões.

[91] Pode ter acontecido, enquanto essa nossa irmã estava arrebatada no Espírito, que nós tivéssemos discorrido de alguma maneira inefável sobre a alma.

[92] Depois que o povo é despedido ao término dos cultos sagrados, ela tem por hábito regular relatar-nos tudo quanto viu em visão, pois todas as suas comunicações são examinadas com o mais escrupuloso cuidado, para que sua verdade seja provada.

[93] Entre outras coisas, disse ela, foi-me mostrada uma alma em forma corpórea, e um espírito costumava aparecer-me; não, porém, uma ilusão vazia e oca, mas algo que se ofereceria até para ser tocado pela mão, suave, transparente, de cor etérea e, em sua forma, semelhante em tudo a um ser humano.

[94] Essa foi sua visão, e Deus foi sua testemunha; e o apóstolo, com toda certeza, predisse que haveria dons espirituais na igreja.

[95] Agora, podes recusar-te a crer nisso, mesmo que provas indubitáveis em cada ponto estejam disponíveis para tua convicção?

[96] Sendo, então, a alma uma substância corpórea, sem dúvida possui qualidades como as que acabamos de mencionar, entre elas a propriedade da cor, inerente a toda substância corpórea.

[97] E que cor atribuiriam à alma senão uma cor etérea e transparente?

[98] Não que sua substância seja de fato o éter ou o ar, embora essa tenha sido a opinião de Enesidemo, de Anaxímenes e, ao que parece, também de Heráclito, como alguns dizem a respeito dele.

[99] Nem tampouco luz transparente, embora Heráclides do Ponto assim o sustentasse.

[100] As chamadas pedras de raio não são de substância ígnea porque brilham com vermelhidão rubra; nem os berilos são compostos de matéria aquosa porque têm uma brancura pura e ondulante.

[101] Quantas outras coisas, além dessas, existem, que por sua cor pareceriam pertencer à mesma classe, mas que a natureza mantém amplamente separadas!

[102] Visto, porém, que tudo quanto é muito tênue e transparente tem grande semelhança com o ar, assim seria com a alma, já que em sua natureza material ela é vento e sopro, isto é, espírito; razão pela qual a crença em sua qualidade corpórea fica ameaçada por causa da extrema tenuidade e sutileza de sua essência.

[103] Da mesma forma, quanto à figura da alma humana, pela tua própria concepção podes bem imaginar que ela não é outra senão a forma humana; de fato, nenhuma outra senão a forma daquele corpo que cada alma individual anima e movimenta.

[104] Podemos ser levados a admitir isso imediatamente ao contemplarmos a formação original do homem.

[105] Pois considera com atenção: depois que Deus soprou no rosto do homem o fôlego de vida, e o homem então se tornou alma vivente, certamente esse sopro deve ter passado pelo rosto de uma só vez para a estrutura interior, e ter-se espalhado por todos os espaços do corpo.

[106] E assim que, pela inspiração divina, ele se condensou, deve ter-se impresso em cada traço interno que essa condensação preenchera, e desse modo, por assim dizer, se solidificado em forma.

[107] Daí, por esse processo de densificação, surgiu uma fixação da corporeidade da alma; e, pela impressão, sua figura foi formada e moldada.

[108] Este é o homem interior, diferente do exterior, mas ainda assim um só na dupla condição.

[109] Ele também possui olhos e ouvidos próprios, pelos quais Paulo deve ter ouvido e visto o Senhor.

[110] 2 Coríntios 12:2-4.

[111] Ele possui, além disso, todos os outros membros do corpo, com a ajuda dos quais realiza todos os processos do pensamento e toda atividade nos sonhos.

[112] Assim acontece que o rico no inferno tem língua, o pobre Lázaro tem dedo, e Abraão tem seio.

[113] Lucas 16:23-24.

[114] Por esses traços também as almas dos mártires sob o altar são distinguidas e reconhecidas.

[115] A alma, de fato, que no princípio foi associada ao corpo de Adão, que cresceu com o seu crescimento e foi moldada segundo sua forma, mostrou ser o germe tanto da substância inteira da alma humana como daquela parte da criação.

[116] É essencial para uma fé firme declarar com Platão que a alma é simples; em outras palavras, uniforme e não composta; simples, isto é, no que diz respeito à sua substância.

[117] Não nos importemos com as opiniões e teorias artificiais dos homens, e fora com as fabricações da heresia!

[118] Alguns sustentam que há dentro da alma uma substância natural — o espírito — diferente dela; como se ter vida, função da alma, fosse uma coisa, e exalar o sopro, suposta função do espírito, fosse outra.

[119] Ora, não é em todos os animais que essas duas funções se encontram, porque há muitos que apenas vivem, mas não respiram, no sentido de não possuírem órgãos de respiração — pulmões e traqueias.

[120] Mas de que serve, num exame da alma do homem, tomar provas emprestadas de um mosquito ou de uma formiga, quando o grande Criador, em seus arranjos divinos, atribuiu a cada animal órgãos de vitalidade adequados à sua própria disposição e natureza, de modo que não devemos nos agarrar a conjecturas tiradas de comparações desse tipo?

[121] O homem, de fato, embora organicamente provido de pulmões e traqueias, não será por isso provado como alguém que respira por um processo e vive por outro; nem a formiga, embora sem tais órgãos, poderá por isso ser considerada sem respiração, como se apenas vivesse e nada mais.

[122] Pois quem alcançou discernimento tão claro nas obras de Deus que possa supor faltar esses recursos orgânicos a qualquer ser vivente?

[123] Há aquele Herófilo, o famoso cirurgião, ou quase diria açougueiro, que dilacerou incontáveis pessoas para investigar os segredos da natureza, que tratou seres humanos sem piedade para descobrir sua forma e constituição.

[124] Tenho minhas dúvidas se ele conseguiu explorar claramente todas as partes internas de sua estrutura, visto que a própria morte altera e perturba as funções naturais da vida, especialmente quando a morte não é natural, mas de tal tipo que necessariamente causa irregularidade e erro nos próprios processos da dissecação.

[125] Os filósofos afirmaram como fato certo que mosquitos, formigas e mariposas não possuem órgãos pulmonares ou arteriais.

[126] Pois bem, dize-me, investigador curioso e minucioso desses mistérios: eles têm olhos para ver?

[127] E, no entanto, vão até onde desejam, e evitam e procuram diversos objetos por processos de visão; mostra-me os olhos deles, mostra-me suas pupilas.

[128] As mariposas também roem e comem; demonstra-me suas mandíbulas, revela-me seus dentes.

[129] Além disso, os mosquitos zumbem e sussurram, e nem mesmo no escuro deixam de achar o caminho até nossos ouvidos; mostra-me, então, não apenas o tubo ruidoso, mas a lança picadora daquela boca deles.

[130] Toma qualquer ser vivente, por menor que seja, e necessariamente ele precisa ser alimentado e sustentado por algum alimento; mostra-me, então, os órgãos com que ele introduz, digere e expele o alimento.

[131] O que devemos dizer, portanto?

[132] Se é por tais instrumentos que a vida se mantém, esses meios instrumentais certamente devem existir em todas as coisas que hão de viver, ainda que não sejam visíveis ao olho ou à apreensão, por causa de sua pequenez.

[133] Podes crer nisso com mais facilidade se te lembrares de que Deus manifesta sua grandeza criadora tanto nas coisas pequenas quanto nas muito grandes.

[134] Se, porém, supões que a sabedoria de Deus não tem capacidade de formar corpúsculos tão diminutos, ainda assim podes reconhecer sua grandeza, no fato de ter concedido até aos menores animais as funções da vida, mesmo na ausência de órgãos adequados — assegurando-lhes o poder de ver, mesmo sem olhos; de comer, mesmo sem dentes; e de digerir, mesmo sem estômagos.

[135] Alguns animais também têm a capacidade de mover-se para frente sem pés, como as serpentes, por movimento deslizante; ou como os vermes, por impulsos verticais; ou como os caracóis e lesmas, por seu rastejar viscoso.

[136] Por que, então, não crerias que a respiração também pode efetuar-se sem o fole dos pulmões e sem canais arteriais?

[137] Assim obterias uma forte prova de que o espírito ou sopro é um adjunto da alma humana, precisamente porque algumas criaturas carecem de fôlego, e carecem dele porque não foram dotadas de órgãos de respiração.

[138] Pensas ser possível que uma coisa viva sem respirar; então por que não supor que uma coisa possa respirar sem pulmões?

[139] Dize-me, peço-te, o que é respirar?

[140] Suponho que signifique exalar de ti mesmo o sopro.

[141] E o que é não viver?

[142] Suponho que signifique não exalar de ti mesmo o sopro.

[143] Esta seria a resposta que eu deveria dar, se respirar não fosse a mesma coisa que viver.

[144] Deve, porém, ser característico do homem morto não respirar; logo, respirar é característica do homem vivo.

[145] Mas respirar é igualmente característica do homem que tem fôlego; portanto, também respirar é característica do homem vivo.

[146] Ora, se tanto uma coisa quanto a outra pudessem de algum modo ser realizadas sem a alma, respirar talvez não fosse função da alma, mas apenas viver.

[147] Contudo, viver é respirar, e respirar é viver.

[148] Portanto, todo esse processo, tanto de respirar quanto de viver, pertence àquilo a que pertence o viver — isto é, à alma.

[149] Pois bem, já que separas o espírito ou sopro da alma, separa também suas operações.

[150] Que ambos realizem algum ato separadamente um do outro — a alma separadamente, o espírito separadamente.

[151] Que a alma viva sem o espírito; que o espírito respire sem a alma.

[152] Que um deles saia dos corpos humanos, e o outro permaneça; que a morte e a vida se encontrem e concordem.

[153] Se, de fato, a alma e o espírito são dois, podem ser separados; e assim, pela separação de um que parte daquele que permanece, resultaria a união e o encontro da vida e da morte.

[154] Mas tal união jamais ocorrerá; portanto, não são dois, e não podem ser divididos; poderiam ser divididos, se fossem dois.

[155] Contudo, duas coisas talvez possam crescer juntas.

[156] Mas as duas em questão jamais crescerão juntas, já que viver é uma coisa e respirar é outra.

[157] As substâncias distinguem-se por suas operações.

[158] Quanto fundamento mais sólido tens para crer que a alma e o espírito são um só, já que não lhes atribuis diferença alguma, de modo que a própria alma é o espírito, sendo a respiração a função daquela da qual também é a vida!

[159] E se insistes em supor que o dia é uma coisa e a luz, que é incidental ao dia, é outra, quando na verdade o dia é a própria luz?

[160] Deve haver, sem dúvida, também diferentes espécies de luz, como se vê no ministério dos fogos.

[161] Da mesma forma haverá diferentes espécies de espíritos, conforme procedam de Deus ou do diabo.

[162] Sempre que, porém, a questão disser respeito à alma e ao espírito, entender-se-á que a alma é ela mesma o espírito, assim como o dia é a própria luz.

[163] Pois uma coisa é idêntica àquilo por meio do qual ela própria existe.

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