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[1] Argumento 3 — A “explicação” de Erasmo sobre o endurecimento do coração do Faraó.

[2] Você interpreta as palavras: “…eu lhe endurecerei o coração…”, como se elas significassem: “Minha longanimidade, mediante a qual tolero o pecador, e que leva outros ao arrependimento, faz apenas com que Faraó torne-se cada vez mais obstinado em sua impiedade”. Você trata Romanos 9.18 e Isaías 63.17 da mesma maneira.

[3] Entretanto, eu tenho apenas a sua palavra de que essas são as explicações corretas. É verdade que você cita Orígenes e Jerônimo, mas quem pode convencer-me de que eles estavam com a razão?

[4] Em suma, o resultado da sua “explicação” é inverter o sentido desses textos. Deus diz: “Endurecerei o coração de Faraó”. Você faz Deus dizer: “Faraó endurecerá o seu próprio coração”.

[5] E atribui o endurecimento do coração do Faraó à misericórdia divina. Se você continuar assim, terminará por transformar a misericórdia de Deus em ira e a ira de Deus em misericórdia.

[6] Naturalmente, sabemos que a misericórdia de Deus pode produzir o endurecimento do coração de algumas pessoas, assim como a sua ira. Sabemos também que a misericórdia de Deus pode abrandar alguns corações, assim como a sua ira. Todavia, isso não é desculpa para confundirmos a ira e a misericórdia de Deus.

[7] Ele disse que endureceria o coração do Faraó, e então o afligiu e castigou com dez pragas. E você quer transformar essas pragas em atos da misericórdia de Deus!

[8] A misericórdia de Deus se manifestou também quando Ele suspendeu vez após vez cada praga, quando o Faraó parecia ter se arrependido; porém aquelas pragas foram o meio usado por Deus para castigar o Faraó e endurecer seu coração.

[9] Suponhamos que Deus endureça corações quando exerce a sua longanimidade, deixando de dar o imediato castigo. Ainda assim o coração dos homens não será quebrantado senão pelo Espírito de Deus.

[10] Portanto, não importa qual processo seja usado, os corações são endurecidos segundo a vontade de Deus e também são quebrantados por ela.

[11] Você diz: “Assim como sob os mesmos raios de sol a lama é endurecida e a cera derretida… assim também, mediante a mesma longanimidade de Deus, alguns homens são endurecidos, e outros se convertem”.

[12] Entretanto, tal ilustração não confirma sua posição. Você afirma que todas as pessoas são idênticas e possuem “livre-arbítrio”. Porém é a eleição por Deus que estabelece a distinção entre os homens.

[13] Sem a eleição divina, todos estão livres apenas para desafiar a Deus. Você afirma que não há eleição; o resultado disso é um Deus impotente e homens sendo salvos ou condenados sem seu conhecimento.

[14] Você cria duas leituras de “livre-arbítrio”, mas ambas são inúteis. Só fariam sentido se comparássemos o evangelho ao sol e à chuva, e os eleitos à cera e ao terreno fértil, e os não-eleitos à lama e ao solo improdutivo.

[15] O evangelho torna pior a condição dos não-eleitos e aperfeiçoa os eleitos.

[16] Você inventa a explicação de que o Faraó endureceu o próprio coração diante da bondade de Deus, porque seria absurdo um Deus bom fazer isso.

[17] Mas quem diz que isso é absurdo? Somente a razão humana se ofende. E devemos julgar Deus pela razão humana, que é cega, surda e ímpia?

[18] Pela razão humana, toda a fé cristã seria absurda: encarnação, cruz e ressurreição.

[19] Você ainda não explicou como Deus pode exigir do “livre-arbítrio” aquilo que ele não pode fazer, nem como pode acusá-lo de pecado se não pode agir de outra forma.

[20] A atuação do “livre-arbítrio” jamais impede que os corações sejam endurecidos sem a operação do Espírito Santo.

[21] Deus viu tudo o que fez como bom na criação original, mas após a queda toda a humanidade tornou-se corrupta, incluindo o Faraó.

[22] E mesmo aquilo que parece bom ou mau aos homens não é necessariamente assim aos olhos de Deus.

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