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O QUARTO [QUINTO] MANDAMENTO

“Honrarás teu pai e tua mãe” — Êxodo 20:12; Deuteronômio 5:16.

I

[1] Por meio desse mandamento aprendemos que, depois das excelentes obras dos três primeiros mandamentos, não existem obras melhores do que obedecer e servir a todos aqueles que foram colocados acima de nós como superiores.

[2] Por essa razão, a desobediência também é um pecado maior do que o homicídio, a impureza, o furto, a desonestidade e tudo aquilo que esses pecados possam incluir.

[3] Não podemos aprender a distinguir melhor entre os pecados maiores e menores senão observando a ordem dos mandamentos de Deus, embora também existam distinções entre as obras pertencentes a cada mandamento.

[4] Quem não sabe que amaldiçoar é pecado maior do que irar-se; que ferir alguém é pior do que amaldiçoá-lo; e que ferir o próprio pai ou a própria mãe é pior do que ferir qualquer outra pessoa?

[5] Assim, esses sete mandamentos ensinam-nos como devemos exercitar-nos nas boas obras para com os homens e, primeiramente, para com nossos superiores.

[6] A primeira obra é honrarmos nosso próprio pai e nossa própria mãe. Essa honra não consiste somente em um comportamento respeitoso, mas também em lhes obedecermos, reverenciarmos, estimarmos e considerarmos suas palavras e seus exemplos; aceitarmos aquilo que dizem; permanecermos em silêncio e suportarmos a maneira como nos tratam, enquanto isso não contrariar os três primeiros mandamentos.

[7] Além disso, quando necessitarem, devemos provê-los com alimento, vestimentas e abrigo.

[8] Deus não disse sem razão: “Honrarás teu pai e tua mãe.” Ele não disse simplesmente: “Amarás teu pai e tua mãe”, embora isso também deva ser feito.

[9] A honra é mais elevada do que o simples amor e inclui certo temor que se une ao amor, fazendo com que a pessoa tema ofender os pais mais do que teme o castigo.

[10] É semelhante ao temor existente na honra que prestamos a um santuário: não fugimos dele como fugimos de um castigo, mas nos aproximamos dele ainda mais.

[11] Esse temor misturado ao amor constitui a verdadeira honra. O outro temor, no qual não existe amor, é aquele que sentimos diante das coisas que desprezamos ou das quais fugimos, como tememos o carrasco ou o castigo.

[12] Nesse último temor não existe honra, pois ele está separado de todo amor e encontra-se misturado ao ódio e à inimizade.

[13] A esse respeito existe uma palavra de São Jerônimo: “Aquilo que tememos também odiamos.”

[14] Deus não deseja ser temido ou honrado dessa maneira, nem deseja que honremos assim nossos pais. Quer que sejam honrados com o primeiro temor, aquele que está misturado ao amor e à confiança.

II

[15] Essa obra parece fácil, mas poucos a consideram corretamente.

[16] Quando os pais são verdadeiramente piedosos e amam seus filhos não segundo a carne, mas, como devem fazer, instruem-nos e dirigem-nos por palavras e obras para que sirvam a Deus conforme os três primeiros mandamentos, a vontade própria da criança é continuamente contrariada.

[17] A criança precisa fazer, deixar de fazer e suportar aquilo que sua natureza desejaria realizar de maneira diferente. Desse modo, encontra ocasião para desprezar os pais, murmurar contra eles ou praticar coisas ainda piores.

[18] Nesse momento, o amor e o temor desaparecem, a menos que a criança possua a graça de Deus.

[19] Da mesma maneira, quando os pais castigam e corrigem os filhos, como devem fazer — às vezes até mesmo injustamente, embora isso não prejudique a salvação da alma —, nossa natureza perversa se revolta contra a correção.

[20] Além disso, existem pessoas tão perversas que se envergonham dos próprios pais por causa da pobreza, da origem humilde, de alguma deformidade ou da desonra deles.

[21] Permitem que essas coisas as influenciem mais do que o elevado mandamento de Deus, que está acima de todas as coisas e que, com uma intenção bondosa, lhes concedeu justamente aqueles pais para exercitá-las e prová-las no cumprimento de seu mandamento.

[22] A situação torna-se ainda pior quando o filho possui seus próprios filhos. Nesse momento, seu amor desce até eles e diminui consideravelmente o amor e a honra devidos aos pais.

[23] Aquilo que foi dito e ordenado acerca dos pais também deve ser compreendido a respeito daqueles que ocupam o lugar deles quando estão mortos ou ausentes, tais como parentes, padrinhos, tutores, senhores temporais e pais espirituais.

[24] Toda pessoa precisa ser governada e estar sujeita a outras pessoas.

[25] Vemos novamente quantas boas obras são ensinadas nesse mandamento, pois, por meio dele, toda a nossa vida é colocada sob a autoridade de outras pessoas. Por isso, a obediência é tão grandemente louvada, e todas as virtudes e boas obras estão incluídas nela.

III

[26] Existe outra maneira de desonrar os pais, muito mais perigosa e sutil do que a primeira. Ela se enfeita e passa por verdadeira honra: ocorre quando o filho faz tudo aquilo que deseja e os pais, por causa do amor natural, permitem-lhe agir assim.

[27] Nesse caso, parece existir honra mútua e amor mútuo. Por todos os lados, tudo parece precioso: os pais e os filhos encontram prazer uns nos outros.

[28] Essa doença é tão comum que raramente são encontrados exemplos da primeira forma de desonra.

[29] Isso acontece porque os pais estão cegos e não conhecem nem honram a Deus segundo os três primeiros mandamentos. Consequentemente, também não conseguem perceber aquilo que falta aos filhos nem como deveriam ensiná-los e educá-los.

[30] Por essa razão, educam-nos para as honras do mundo, para os prazeres e para as riquezas, a fim de que agradem aos homens de todas as maneiras e alcancem posições elevadas.

[31] Os filhos gostam dessa educação e obedecem com grande disposição, sem oferecer resistência.

[32] Assim, o mandamento de Deus é secretamente reduzido a nada, embora exteriormente tudo pareça bom.

[33] Cumpre-se aquilo que os profetas Isaías e Jeremias denunciaram: os próprios pais conduzem seus filhos à destruição, entregando-os aos ídolos e ao fogo — Isaías 57:5; Jeremias 7:31; 32:35.

[34] Eles agem como o rei Manassés, que fez seu próprio filho passar pelo fogo — 2 Reis 21:6.

[35] Que outra coisa significa sacrificar o próprio filho a um ídolo e queimá-lo, senão educá-lo mais no caminho do mundo do que no caminho de Deus?

[36] Os pais permitem que os filhos sigam seu próprio caminho e sejam consumidos pelos prazeres do mundo, pelo amor mundano, pelas diversões, pelas riquezas e pelas honras, enquanto o amor e a honra de Deus e o desejo pelas bênçãos eternas são apagados dentro deles.

[37] Quão perigoso é ser pai ou mãe quando a carne e o sangue governam!

[38] O conhecimento e o cumprimento dos três primeiros e dos últimos seis mandamentos dependem inteiramente desse mandamento, pois os pais receberam a ordem de ensiná-los aos filhos.

[39] Assim diz o Salmo: “Ele estabeleceu um testemunho em Jacó e instituiu uma lei em Israel, ordenando aos nossos pais que a ensinassem aos seus filhos, para que a geração seguinte a conhecesse, e também os filhos que ainda nasceriam, a fim de que estes se levantassem e a contassem aos seus próprios filhos” — Salmo 78:5–6.

[40] Essa também é a razão pela qual Deus nos ordena honrar nossos pais, isto é, amá-los com temor. O outro amor não possui temor e, por isso, constitui mais desonra do que honra.

[41] Veja agora se todos não possuem boas obras suficientes para realizar, sejam pais ou filhos. Contudo, nós, homens cegos, deixamos essas obras intocadas e procuramos toda espécie de outras obras que não foram ordenadas.

IV

[42] Quando os pais são insensatos e educam seus filhos conforme o modo do mundo, os filhos não devem obedecer-lhes nessas coisas, pois Deus, segundo os três primeiros mandamentos, deve ser considerado mais importante do que os pais.

[43] Chamo de educação segundo o mundo aquela em que os pais ensinam os filhos a procurar apenas os prazeres, as honras, as riquezas e o poder deste mundo.

[44] Usar roupas decentes e procurar um meio honesto de sustento são necessidades, e não pecados.

[45] Contudo, o coração da criança deve ser ensinado a lamentar o fato de que esta miserável vida terrena dificilmente pode ser vivida ou iniciada sem a procura de mais adornos e riquezas do que aqueles estritamente necessários para proteger o corpo do frio e fornecer-lhe alimento.

[46] Assim, a criança deve ser ensinada a lamentar que, contra sua própria vontade, precise seguir a vontade do mundo, representar seu papel juntamente com os demais homens e suportar esse mal por causa de alguma coisa melhor e para evitar alguma coisa pior.

[47] A rainha Ester usava sua coroa real, mas dizia a Deus: “Tu conheces minha necessidade; sabes que detesto o sinal de minha elevada posição, que está sobre minha cabeça nos dias em que preciso aparecer publicamente. Detesto-o como um pano menstrual e não o uso quando estou sozinha” — Ester 14:16.

[48] O coração que possui essa disposição utiliza os adornos sem perigo. Ele os usa e, ao mesmo tempo, não os usa; dança e não dança; vive confortavelmente e, ao mesmo tempo, não vive confortavelmente.

[49] Essas são as almas secretas, as noivas ocultas de Cristo. Contudo, são raras, pois é difícil não encontrar prazer nos grandes adornos e nas ostentações.

[50] Da mesma maneira, Santa Cecília usava vestimentas de ouro por ordem dos pais, mas, por baixo delas e contra seu corpo, usava uma veste de pelos.

[51] Algumas pessoas dizem: “Como poderei introduzir meus filhos na sociedade e fazê-los casar-se honrosamente? Preciso realizar alguma ostentação.”

[52] Diga-me: essas não são palavras de um coração que perdeu a esperança em Deus e confia mais em suas próprias provisões do que no cuidado divino?

[53] São Pedro ensina: “Lançai sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele cuida de vós” — 1 Pedro 5:7.

[54] Isso demonstra que tais pais nunca agradeceram verdadeiramente a Deus pelos filhos, nunca oraram corretamente por eles e nunca os confiaram a Deus.

[55] Caso tivessem feito isso, saberiam por experiência que também devem pedir a Deus aquilo que os filhos necessitam para o casamento e esperar que ele o conceda.

[56] Por isso, Deus permite que sigam seu caminho, cercados por preocupações e ansiedades, e, mesmo assim, alcancem pouco sucesso.

V

[57] É verdadeiro aquilo que se costuma dizer: ainda que os pais não tivessem nenhuma outra coisa para fazer, poderiam alcançar a salvação educando corretamente seus próprios filhos.

[58] Caso os eduquem corretamente para o serviço de Deus, terão verdadeiramente as duas mãos cheias de boas obras.

[59] Quem são, dentro de sua casa, os famintos, os sedentos, os nus, os prisioneiros, os enfermos e os estrangeiros, senão as almas de seus próprios filhos? — Mateus 25:35–36.

[60] Com essas almas, Deus transforma sua casa em um hospital e coloca você sobre elas como enfermeiro-chefe, para que as sirva e lhes dê boas palavras e boas obras como alimento e bebida.

[61] Você deve ensiná-las a confiar, crer e temer a Deus; a depositar nele sua esperança; a honrar seu nome; a não jurar nem amaldiçoar; a mortificar a si mesmas por meio da oração, do jejum, da vigília e do trabalho; a participar do culto e ouvir a Palavra de Deus; e a guardar o sábado.

[62] Dessa maneira, aprenderão a desprezar as coisas temporais, suportar tranquilamente os infortúnios, não temer a morte e não amar excessivamente esta vida.

[63] Veja quão grandes são essas lições e quantas boas obras você possui diante de si, dentro de sua própria casa, junto ao filho que necessita de todas essas coisas como uma alma faminta, sedenta, nua, pobre, aprisionada e enferma.

[64] Quão abençoado seria o casamento e a casa onde fossem encontrados pais assim! Seria verdadeiramente uma igreja, um mosteiro escolhido e até mesmo um paraíso.

[65] Acerca disso diz o Salmo: “Bem-aventurado aquele que teme o Senhor e anda em seus caminhos. Comerás do trabalho de tuas mãos; serás feliz, e tudo te irá bem. Tua mulher será como videira frutífera dentro de tua casa; teus filhos serão como brotos de oliveira ao redor de tua mesa. Assim será abençoado o homem que teme o Senhor” — Salmo 128:1–4.

[66] Onde estão esses pais? Onde estão aqueles que perguntam pelas boas obras? Ninguém deseja aproximar-se dessa obra.

[67] Por quê? Porque Deus a ordenou, enquanto o diabo, a carne e o sangue procuram afastar-nos dela. Ela não produz ostentação e, por isso, é considerada sem valor.

[68] Este marido corre para Santiago; aquela esposa promete uma peregrinação a Nossa Senhora. Ninguém promete governar e ensinar corretamente a si mesmo e aos seus filhos para a honra de Deus.

[69] A pessoa abandona aqueles que Deus lhe ordenou guardar no corpo e na alma e deseja servir a Deus em algum outro lugar que não lhe foi ordenado.

[70] Nenhum bispo proíbe essa perversidade e nenhum pregador a corrige. Pelo contrário, por causa da cobiça, confirmam-na e inventam diariamente novas peregrinações, exaltações de santos e feiras de indulgências.

[71] Que Deus tenha misericórdia de tamanha cegueira!

VI

[72] Por outro lado, os pais não podem conquistar mais facilmente o castigo eterno do que negligenciando os próprios filhos dentro de casa e deixando de ensinar-lhes aquilo de que falamos anteriormente.

[73] De que lhes adiantará matarem a si mesmos com jejuns, orações e peregrinações e realizarem toda espécie de boas obras?

[74] Na morte e no dia do juízo, Deus não lhes perguntará primeiramente acerca dessas coisas, mas exigirá deles os filhos que lhes confiou.

[75] Isso é demonstrado pelas palavras de Cristo: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós mesmas e por vossos filhos. Pois virão dias em que dirão: ‘Bem-aventuradas as estéreis, os ventres que não geraram e os seios que não amamentaram’” — Lucas 23:28–29.

[76] Por que lamentarão, senão porque sua condenação procederá dos próprios filhos? Caso não tivessem filhos, talvez pudessem ter sido salvas.

[77] Essas palavras deveriam verdadeiramente abrir os olhos dos pais para que cuidassem das almas dos filhos.

[78] Os pobres filhos não devem ser enganados pelo amor falso e carnal de seus pais, como se honrassem corretamente seus pais apenas porque estes não estão irados contra eles ou porque lhes obedecem nas questões mundanas que fortalecem sua vontade própria.

[79] O mandamento coloca os pais em posição de honra justamente para que a vontade própria dos filhos seja quebrada e eles se tornem humildes e mansos.

[80] Assim como foi dito acerca dos outros mandamentos que devem ser cumpridos dentro da obra principal da fé, também aqui ninguém deve imaginar que educar e ensinar os filhos seja suficiente por si mesmo.

[81] Essa obra deve ser realizada na confiança do favor divino, sem que a pessoa duvide de que agrada a Deus ao praticá-la.

[82] Todas essas obras devem ser consideradas exortações e exercícios da fé, por meio dos quais a pessoa confia em Deus e espera dele as bênçãos e a vontade graciosa.

[83] Sem essa fé, nenhuma obra vive ou é boa e aceitável. Muitos pagãos educaram belamente seus filhos, mas tudo isso se perdeu por causa da incredulidade.

VII

[84] A segunda obra desse mandamento é honrar e obedecer à mãe espiritual, a santa Igreja cristã e a autoridade espiritual.

[85] Devemos conformar-nos àquilo que ela ordena, proíbe, estabelece, determina, liga e desliga. Devemos honrar, temer e amar a autoridade espiritual como honramos, amamos e tememos nossos pais naturais, cedendo-lhe em tudo aquilo que não contrarie os três primeiros mandamentos.

[86] Contudo, em relação a essa obra, as coisas estão quase piores do que em relação à primeira.

[87] A autoridade espiritual deveria castigar o pecado por meio da excomunhão e das leis e constranger seus filhos espirituais a fazer o bem, para que tivessem ocasião de realizar essa obra e exercitar-se em obedecer-lhe e honrá-la.

[88] Atualmente não se vê semelhante zelo. As autoridades espirituais comportam-se para com seus súditos como as mães que abandonam seus filhos e correm atrás de seus amantes, como diz Oseias — Oseias 2:5.

[89] Não pregam, não ensinam, não impedem o mal nem o castigam. Não resta praticamente nenhum governo espiritual na cristandade.

[90] O que poderei dizer acerca dessa obra? Restaram alguns dias de jejum e de festas, e seria melhor que até mesmo esses fossem eliminados.

[91] Ninguém se preocupa com isso. Nada resta além da excomunhão por causa de dívidas, e isso não deveria acontecer.

[92] A autoridade espiritual deveria cuidar para que o adultério, a impureza, a usura, a glutonaria, a ostentação mundana, o excesso de adornos e outros pecados e vergonhas públicos fossem severamente castigados e corrigidos.

[93] Também deveria administrar corretamente as fundações, os mosteiros, as paróquias e as escolas, mantendo seriamente o culto divino nesses lugares.

[94] Deveria cuidar dos jovens, meninos e meninas, nas escolas e nos mosteiros, providenciando-lhes homens instruídos e piedosos como professores, para que todos fossem corretamente educados.

[95] Dessa maneira, os mais velhos ofereceriam um bom exemplo, e a cristandade seria preenchida e ornamentada por uma excelente juventude.

[96] São Paulo ensina ao seu discípulo Tito que deveria instruir e governar corretamente todas as classes: jovens e idosos, homens e mulheres — Tito 2:1–8.

[97] Agora, porém, vai à escola quem deseja. Recebe ensino aquele que consegue governar e ensinar a si mesmo.

[98] Infelizmente, chegamos ao ponto em que os lugares nos quais o bem deveria ser ensinado se transformaram em escolas de perversidade, e ninguém se preocupa com a juventude indisciplinada.

VIII

[99] Caso a ordem descrita anteriormente estivesse em vigor, poderíamos explicar como a autoridade espiritual deveria ser honrada e obedecida.

[100] Atualmente, porém, a situação é semelhante àquela dos pais naturais que permitem que seus filhos façam tudo o que desejam.

[101] A autoridade espiritual ameaça, concede dispensas, recebe dinheiro e perdoa mais do que possui poder para perdoar.

[102] Evitarei falar mais sobre isso, pois vemos muito mais do que seria desejável. A cobiça segura as rédeas, e justamente aquilo que deveria ser proibido é ensinado.

[103] Vê-se claramente que o estado espiritual é, em todas as coisas, mais mundano do que o próprio estado secular.

[104] Enquanto isso, a cristandade precisa ser arruinada, e esse mandamento perece.

[105] Caso existisse um bispo que cuidasse zelosamente de todas essas classes, supervisionasse, realizasse visitações e permanecesse fiel como deveria, uma única cidade seria verdadeiramente trabalho demais para ele.

[106] No tempo dos apóstolos, quando a cristandade se encontrava em sua melhor condição, cada cidade possuía um bispo, embora somente uma pequena parte de seus habitantes fosse cristã.

[107] Como poderão as coisas funcionar quando um bispo deseja possuir uma extensão tão grande, outro deseja ainda mais, um terceiro pretende governar o mundo inteiro, e outro, a quarta parte dele?

[108] É tempo de pedirmos misericórdia a Deus.

[109] Possuímos muito poder espiritual, mas nenhum governo espiritual, ou apenas uma pequena parte dele.

[110] Enquanto isso, que cada pessoa ajude como puder para que as fundações, os mosteiros, as paróquias e as escolas sejam corretamente estabelecidos e administrados.

[111] Também seria obra da autoridade espiritual diminuir o número de fundações, mosteiros e escolas onde não seja possível cuidar corretamente deles.

[112] É muito melhor que não exista um mosteiro ou uma fundação do que existir um governo perverso dentro deles, pelo qual Deus seja ainda mais provocado à ira.

IX

[113] Uma vez que as autoridades negligenciam completamente sua obra e se encontram pervertidas, necessariamente se segue que utilizarão mal seu poder e assumirão outras obras perversas, assim como os pais fazem quando ordenam alguma coisa contrária a Deus.

[114] Precisamos agir com sabedoria nessa questão, pois o apóstolo afirmou que viriam tempos perigosos em que semelhantes autoridades governariam — 2 Timóteo 3:1.

[115] Parece que resistimos ao poder delas quando não fazemos ou deixamos de fazer tudo aquilo que determinam.

[116] Portanto, devemos apegar-nos aos três primeiros mandamentos e à Primeira Tábua e estar certos de que nenhum homem — nem bispo, nem papa, nem anjo — pode ordenar ou estabelecer coisa alguma que contrarie ou impeça esses três mandamentos ou que não contribua para seu cumprimento.

[117] Caso tentem fazer isso, sua ordem não é válida e nada significa. Também pecamos caso sigamos, obedeçamos ou mesmo toleremos semelhantes ações.

[118] A partir disso é fácil compreender que os mandamentos de jejum não incluem os enfermos, as mulheres grávidas ou aqueles que, por outras razões, não podem jejuar sem sofrer algum prejuízo.

[119] Para tratar de uma questão ainda mais elevada: em nosso tempo, nada chega de Roma além de uma feira de mercadorias espirituais, compradas e vendidas aberta e vergonhosamente.

[120] Vendem-se indulgências, paróquias, mosteiros, bispados, reitorias, benefícios e tudo aquilo que foi estabelecido em toda parte para o serviço de Deus.

[121] Por meio disso, não somente todo o dinheiro e as riquezas do mundo são atraídos e conduzidos para Roma — e esse seria o menor dos males —, mas as paróquias, os bispados e as prelazias são despedaçados, abandonados e devastados.

[122] O povo é negligenciado, a Palavra de Deus, o nome e a honra de Deus são reduzidos a nada, e a fé é destruída.

[123] Finalmente, essas instituições e funções caem não apenas nas mãos de homens ignorantes e incapazes, mas, em sua maioria, nas mãos dos romanos mais perversos do mundo.

[124] Assim, aquilo que foi estabelecido para o serviço de Deus e para a instrução, o governo e o aperfeiçoamento do povo precisa agora sustentar cavalariços, condutores de mulas e, para não utilizar palavras ainda mais claras, prostitutas e canalhas romanos.

[125] Apesar disso, não recebemos outro agradecimento além de sermos ridicularizados por eles como insensatos.

X

[126] Se todos esses abusos insuportáveis são realizados em nome de Deus e de São Pedro, como se o nome de Deus e o poder espiritual tivessem sido instituídos para blasfemar contra a honra de Deus e destruir a cristandade no corpo e na alma, somos obrigados a resistir corretamente, na medida de nossas possibilidades.

[127] Devemos agir como filhos piedosos cujos pais perderam a razão.

[128] Primeiramente, devemos examinar por qual direito aquilo que foi estabelecido para o serviço de Deus em nossas terras ou destinado ao sustento e à educação de nossos filhos deve ser obrigado a realizar sua obra em Roma, enquanto perece aqui, onde deveria servir.

[129] Como podemos ser tão insensatos?

[130] Uma vez que os bispos e os prelados espirituais permanecem ociosos nessa matéria, não oferecem resistência ou estão com medo, permitindo assim que a cristandade pereça, nosso primeiro dever é invocar humildemente a ajuda de Deus para impedir isso.

[131] Em seguida, devemos colocar as mãos na obra com a mesma finalidade.

[132] Devemos dispensar os cortesãos e aqueles que trazem cartas de Roma e informá-los, de maneira razoável e gentil, de que, se desejam cuidar corretamente de suas paróquias, devem viver nelas e melhorar o povo por meio da pregação e do bom exemplo.

[133] Caso não queiram fazer isso, mas vivam em Roma ou em outros lugares, devastando e corrompendo as igrejas, então que sejam sustentados pelo papa, a quem servem.

[134] Não é correto que sustentemos os servos do papa, seus homens, seus canalhas e suas prostitutas para a destruição e o prejuízo de nossas almas.

[135] Eis os verdadeiros turcos que reis, príncipes e nobres deveriam combater primeiro, não buscando o próprio benefício, mas somente o aperfeiçoamento da cristandade e a prevenção da blasfêmia e da desonra contra o nome divino.

[136] Deveriam tratar o clero como tratariam um pai que perdeu a razão e o entendimento e que, caso não fosse contido e enfrentado — embora com toda humildade e honra —, poderia destruir os filhos, os herdeiros e todas as outras pessoas.

[137] Assim, devemos honrar a autoridade romana como nosso pai mais elevado. Contudo, visto que perdeu a razão e o entendimento, não devemos permitir que realize tudo aquilo que pretende, para que a cristandade não seja destruída.

XI

[138] Alguns consideram que essa questão deveria ser encaminhada a um concílio geral. A isso respondo: não!

[139] Tivemos muitos concílios nos quais essa questão foi apresentada, como os de Constança, Basileia e o último concílio de Roma. Contudo, nada foi realizado, e as coisas se tornaram cada vez piores.

[140] Além disso, tais concílios são completamente inúteis, porque a sabedoria romana inventou o artifício de obrigar reis e príncipes a jurarem previamente que permitirão aos romanos permanecerem como são e conservarem aquilo que possuem.

[141] Dessa maneira, levantou-se uma barreira contra toda reforma, conservando proteção e liberdade para todas as perversidades romanas.

[142] Esse juramento é exigido, forçado e realizado contra Deus e contra o direito. Por meio dele, fecham-se as portas ao Espírito Santo, que deveria governar os concílios.

[143] O melhor e único remédio restante seria que os próprios reis, príncipes, nobres, cidades e comunidades iniciassem e abrissem o caminho para a reforma.

[144] Assim, os bispos e o clero que atualmente estão com medo teriam motivos para acompanhá-los.

[145] Nessa questão, nada deve ser considerado além dos três primeiros mandamentos de Deus, contra os quais nem Roma, nem o céu, nem a terra podem ordenar ou proibir coisa alguma.

[146] A excomunhão ou ameaça com a qual imaginam poder impedir essa reforma nada significa, assim como nada significa a ameaça severa de um pai insano contra o filho que o contém ou o mantém preso.

XII

[147] A terceira obra desse mandamento consiste em obedecer à autoridade temporal, como ensina São Paulo — Romanos 13:1–7; Tito 3:1 — e São Pedro: “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados por ele” — 1 Pedro 2:13–14.

[148] A obra do poder temporal consiste em proteger seus súditos e castigar o furto, o roubo, o adultério e outros crimes.

[149] São Paulo diz: “A autoridade não traz a espada sem motivo, pois é serva de Deus, vingadora para castigar aquele que pratica o mal” — Romanos 13:4.

[150] Nessa matéria, os homens pecam de duas maneiras.

[151] Primeiramente, quando mentem ao governo, enganam-no, agem com deslealdade, não lhe obedecem nem realizam aquilo que ordenou e determinou, seja com seus corpos, seja com seus bens.

[152] Mesmo que o governo pratique injustiça, como fez o rei da Babilônia contra o povo de Israel, Deus deseja que seja obedecido sem traição ou engano — Jeremias 27:8–12; 29:4–7.

[153] Em segundo lugar, pecam quando falam mal do governo e o amaldiçoam e, não podendo vingar-se, atacam-no com murmurações e palavras perversas, pública ou secretamente.

[154] Em tudo isso devemos considerar aquilo que São Pedro nos ensina: o poder temporal, quer aja corretamente, quer pratique injustiça, não pode prejudicar a alma, mas somente o corpo e os bens.

[155] A exceção acontece quando procura obrigar-nos abertamente a praticar alguma coisa contrária a Deus ou ao próximo, como acontecia antigamente, quando os magistrados ainda não eram cristãos, e como se diz que fazem atualmente os turcos.

[156] Sofrer injustiça não destrói a alma de ninguém; pelo contrário, aperfeiçoa-a, embora cause prejuízo ao corpo e aos bens.

[157] Praticar injustiça, porém, destrói a alma, mesmo que a pessoa conquiste todas as riquezas do mundo.

XIII

[158] Essa também é a razão pela qual não existe perigo tão grande no poder temporal quando ele pratica injustiça quanto existe no poder espiritual.

[159] O poder temporal não pode causar dano à fé, pois não é responsável pela pregação, pela fé e pelos três primeiros mandamentos.

[160] O poder espiritual, porém, causa dano não apenas quando pratica injustiça, mas também quando negligencia seu dever e se ocupa de outras coisas, ainda que fossem melhores do que as melhores obras do poder temporal.

[161] Portanto, devemos resistir ao poder espiritual quando ele não cumpre corretamente seu dever, enquanto não devemos resistir ao poder temporal simplesmente porque pratique injustiça.

[162] O povo simples crê e age de acordo com aquilo que vê o poder espiritual crendo e fazendo.

[163] Caso não lhe seja apresentado um exemplo e não receba ensino, também não crerá nem realizará coisa alguma, pois o poder espiritual foi instituído unicamente para conduzir o povo a Deus por meio da fé.

[164] Isso não acontece com o poder temporal. Ele pode realizar ou deixar de realizar aquilo que desejar, mas minha fé em Deus continua seguindo seu caminho e realizando suas obras, pois não preciso crer naquilo em que o governo crê.

[165] Consequentemente, o poder temporal é algo pequeno aos olhos de Deus e considerado por ele de importância insuficiente para que, por causa de suas ações corretas ou incorretas, devamos resistir-lhe, tornar-nos desobedientes e criar conflitos.

[166] O poder espiritual, por outro lado, é uma bênção extremamente grandiosa e preciosa aos olhos de Deus.

[167] Por isso, nem mesmo o menor dos cristãos deveria suportar e permanecer em silêncio caso ele se desviasse de seu dever pela largura de um fio de cabelo, quanto menos quando realiza justamente o contrário de seu dever, como vemos acontecer diariamente.

XIV

[168] Também existe muito abuso no poder temporal.

[169] O primeiro acontece quando ele segue os bajuladores. Essa é uma doença comum e especialmente prejudicial desse poder, contra a qual ninguém consegue proteger-se suficientemente.

[170] O governante é conduzido pelo nariz, oprime o povo comum e produz o tipo de governo descrito por um pagão: “As teias de aranha capturam as moscas pequenas, mas deixam passar as pedras de moinho.”

[171] Assim, as leis, as determinações e o governo da mesma autoridade prendem os pequenos, enquanto os grandes permanecem livres.

[172] Onde o próprio príncipe não é suficientemente sábio para dispensar os conselhos alheios ou não possui uma posição que faça os outros temê-lo, existirá necessariamente um governo infantil, a menos que Deus realize algum milagre especial.

[173] Por essa razão, Deus considera os governantes perversos e incapazes uma das maiores calamidades.

[174] Ele ameaça: “Tirarei de Jerusalém e de Judá o valente e o guerreiro, o juiz e o profeta, o prudente e o ancião. Darei meninos como seus príncipes, e crianças governarão sobre eles” — Isaías 3:1–4.

[175] Deus menciona quatro calamidades nas Escrituras: a espada, a fome, os animais selvagens e a peste — Ezequiel 14:21.

[176] A primeira e menor, também escolhida por Davi, foi a peste — 2 Samuel 24:13–15.

[177] Depois vêm a fome e a guerra. A quarta consiste em toda espécie de animais perversos, como leões, lobos, serpentes e dragões, que representam os governantes maus.

[178] Onde esses governantes existem, a terra é destruída não apenas no corpo e nos bens, como ocorre nas demais calamidades, mas também na honra, na disciplina, na virtude e na salvação das almas.

[179] A peste e a fome podem tornar as pessoas melhores e espiritualmente mais ricas. A guerra e os governantes perversos, porém, destroem tudo o que se relaciona aos bens temporais e eternos.

XV

[180] Um príncipe também deve possuir grande sabedoria e não procurar impor sua própria vontade em todas as ocasiões, ainda que possua autoridade e a melhor das causas.

[181] Suportar uma ofensa contra a própria autoridade é uma virtude muito mais nobre do que colocar em risco os bens e a vida das pessoas, quando a tolerância for mais vantajosa aos súditos, pois os direitos mundanos relacionam-se somente aos bens temporais.

[182] Portanto, é uma afirmação extremamente insensata dizer: “Tenho direito a isso; portanto, conquistarei pela força e conservarei, ainda que toda espécie de desgraça aconteça aos outros.”

[183] Lemos acerca do imperador Otaviano que não desejava iniciar uma guerra, por mais justa que fosse sua causa, a menos que existissem sinais seguros de que o benefício seria maior do que o prejuízo ou, pelo menos, de que o dano não seria insuportável.

[184] Ele dizia: “A guerra é semelhante à pesca realizada com uma rede de ouro; o prejuízo arriscado é sempre maior do que aquilo que se pode capturar.”

[185] Aquele que conduz uma carroça precisa caminhar de maneira muito diferente daquele que caminha sozinho.

[186] Quando está sozinho, pode caminhar, saltar e agir conforme desejar. Quando conduz a carroça, porém, deve guiar-se e adaptar-se de maneira que a carroça e os cavalos possam acompanhá-lo, considerando isso mais importante do que sua própria vontade.

[187] Da mesma maneira, um príncipe conduz consigo uma multidão e não deve caminhar e agir conforme sua vontade, mas conforme aquilo que o povo consegue suportar.

[188] Deve considerar as necessidades e as vantagens do povo mais importantes do que sua vontade e seu prazer.

[189] Quando um príncipe governa segundo sua própria vontade insana e segue apenas sua opinião, é semelhante a um condutor enlouquecido que avança diretamente com os cavalos e a carroça por arbustos, espinhos, valas, águas, montes e vales, sem considerar estradas ou pontes.

[190] Ele não conduzirá por muito tempo; tudo terminará destruído.

[191] Por isso, seria extremamente proveitoso que os governantes lessem, ou ouvissem desde a juventude, as histórias contidas tanto nos livros sagrados como nos profanos.

[192] Nessas histórias encontrariam mais exemplos e maior habilidade para governar do que em todos os livros de direito, assim como lemos que faziam os reis da Pérsia — Ester 6:1.

[193] Os exemplos e as histórias beneficiam e ensinam mais do que as leis e os estatutos. Nas histórias, a experiência real ensina; nas leis, encontram-se palavras ainda não experimentadas e incertas.

XVI

[194] Em nossos tempos, todos os governantes poderiam realizar três obras especiais e distintas, particularmente em nossas terras.

[195] A primeira seria acabar com a terrível glutonaria e embriaguez, não somente por causa do excesso, mas também por causa dos gastos.

[196] Por meio de temperos, especiarias e coisas semelhantes, sem as quais os homens poderiam viver muito bem, grandes quantidades de riquezas temporais saíram e continuam diariamente saindo de nossas terras.

[197] Impedir esses dois grandes males daria verdadeiramente trabalho suficiente ao poder temporal, pois os danos causados por eles são amplos e profundos.

[198] De que maneira aqueles que exercem o poder poderiam servir melhor a Deus e, ao mesmo tempo, melhorar sua própria terra?

[199] A segunda obra seria proibir os gastos excessivos com vestimentas, pelos quais tantas riquezas são desperdiçadas para servir somente ao mundo e à carne.

[200] É terrível pensar que semelhante abuso seja encontrado entre pessoas comprometidas, batizadas e consagradas a Cristo crucificado, que deveriam carregar sua cruz após ele e preparar-se para a vida futura, morrendo diariamente — Lucas 9:23; 1 Coríntios 15:31.

[201] Caso algumas pessoas errassem por ignorância, isso poderia ser tolerado. Contudo, semelhante prática é realizada livremente, sem castigo, vergonha ou impedimento, e as pessoas ainda procuram por meio dela louvor e fama. Isso é verdadeiramente anticristão.

[202] A terceira obra seria eliminar a compra usurária de rendas, que arruína, consome e perturba todas as terras, povos e cidades do mundo por meio de sua forma astuta.

[203] Ela parece não ser usura, quando, na verdade, é pior do que a usura, porque as pessoas não se protegem contra ela como se protegem contra a usura declarada.

[204] Eis os “três judeus”, como se costuma dizer, que sugam o mundo inteiro até deixá-lo seco.

[205] Os príncipes não deveriam dormir nem permanecer ociosos diante dessas questões, caso desejem prestar a Deus uma boa conta de seu cargo.

XVII

[206] Também deve ser mencionada a perversidade praticada pelos *officiales* e por outros oficiais episcopais e espirituais, que excomungam, sobrecarregam, perseguem e oprimem o povo pobre com grandes fardos enquanto ainda lhes resta uma única moeda.

[207] Isso deveria ser impedido pela espada temporal, uma vez que não existe outro auxílio ou remédio.

[208] Quem dera Deus no céu permitisse que algum dia fosse estabelecido um governo que eliminasse os prostíbulos públicos, como acontecia entre o povo de Israel!

[209] É verdadeiramente um espetáculo anticristão que casas públicas de prostituição sejam mantidas entre os cristãos, algo antigamente completamente desconhecido.

[210] Deveria existir uma regra para que rapazes e moças se casassem cedo e esse vício fosse impedido.

[211] Tanto o poder espiritual como o temporal deveriam procurar estabelecer semelhante regra e costume.

[212] Caso isso fosse possível entre os judeus, por que não seria possível entre os cristãos?

[213] Caso seja possível em aldeias, vilas e algumas cidades, como todos podemos observar, por que não seria possível em toda parte?

[214] O problema é que não existe verdadeiro governo no mundo.

[215] Ninguém deseja trabalhar. Por isso, os artesãos precisam dar folga aos seus trabalhadores. Nesse momento, ficam livres, e ninguém consegue controlá-los.

[216] Caso existisse uma determinação segundo a qual precisassem fazer aquilo que lhes fosse ordenado e ninguém lhes oferecesse trabalho em outros lugares, esse mal seria corrigido em grande medida.

[217] Que Deus nos ajude! Temo que, nessa questão, o desejo seja muito maior do que a esperança. Contudo, isso não nos serve de desculpa.

[218] Observe que foram indicadas aqui somente algumas obras dos magistrados. Mesmo assim, são tão boas e numerosas que eles possuem boas obras em abundância para realizar a cada hora e poderiam servir continuamente a Deus.

[219] Essas obras, assim como as demais, também devem ser realizadas na fé e constituir exercícios da fé.

[220] Ninguém deve esperar agradar a Deus por causa das próprias obras. Deve realizá-las confiando no favor divino, unicamente para a honra e o louvor de seu Deus gracioso e para servir e beneficiar o próximo.

XVIII

[221] A quarta obra desse mandamento é a obediência dos servos e trabalhadores para com seus senhores e senhoras, mestres e mestras.

[222] São Paulo diz: “Exorta os servos a serem obedientes aos seus senhores em todas as coisas, procurando agradá-los, sem contradizer nem furtar, mas demonstrando completa fidelidade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador” — Tito 2:9–10.

[223] Devem agir assim para que, por meio deles, a doutrina de Cristo e nossa fé adquiram boa reputação, de maneira que os pagãos não possam queixar-se de nós nem sejam escandalizados.

[224] São Pedro também diz: “Servos, sujeitai-vos com todo temor aos vossos senhores, não somente aos bons e gentis, mas também aos perversos. Pois isto é agradável a Deus: que alguém, por causa da consciência para com Deus, suporte tristezas, padecendo injustamente” — 1 Pedro 2:18–20.

[225] Atualmente existe uma enorme reclamação em todo o mundo acerca dos servos e trabalhadores: são desobedientes, infiéis, mal-educados e enganadores.

[226] Essa é uma calamidade enviada por Deus.

[227] A obediência é verdadeiramente a obra por meio da qual os servos podem ser salvos. Não necessitam realizar peregrinações nem fazer esta ou aquela outra coisa.

[228] Possuem trabalho suficiente caso seu coração esteja disposto a fazer e deixar de fazer com alegria aquilo que sabem agradar aos seus senhores e senhoras.

[229] Devem realizar tudo isso em uma fé simples, não pretendendo conquistar muitos méritos por meio de suas obras, mas confiando no favor divino, no qual todos os verdadeiros méritos são encontrados.

[230] Devem agir gratuitamente, por causa do amor e da boa vontade para com Deus que nascem dessa confiança.

[231] Devem considerar todas essas obras exercícios e exortações pelos quais sua fé e confiança são cada vez mais fortalecidas.

[232] Como já foi frequentemente dito, essa fé torna boas todas as obras. Na verdade, ela precisa realizá-las e ser sua principal artífice.

XIX

[233] Por outro lado, os senhores e as senhoras não devem governar seus servos, suas servas e seus trabalhadores com crueldade.

[234] Não devem examinar rigorosamente todas as coisas, mas ocasionalmente ignorar alguma falha e fazer concessões por causa da paz.

[235] Não é possível que todas as coisas sejam realizadas perfeitamente em todo o tempo por qualquer classe de pessoas, enquanto vivermos na imperfeição desta terra.

[236] São Paulo diz: “Senhores, tratai vossos servos com justiça e igualdade, sabendo que também tendes um Senhor no céu” — Colossenses 4:1.

[237] Assim como os senhores não desejam que Deus os trate com excessivo rigor, mas que muitas coisas lhes sejam perdoadas pela graça, também devem ser muito mais gentis para com seus servos e ignorar algumas coisas.

[238] Apesar disso, devem cuidar para que os servos façam aquilo que é correto e aprendam a temer a Deus.

[239] Veja quantas boas obras um chefe de família e uma dona de casa podem realizar!

[240] Deus coloca todas as boas obras tão próximas de nós, de maneira tão variada e contínua, que não necessitamos perguntar onde elas estão.

[241] Poderíamos esquecer as obras inventadas pelos homens, distantes e ostensivas, como realizar peregrinações, construir igrejas, procurar indulgências e outras semelhantes.

[242] Aqui eu deveria naturalmente explicar também como a esposa deve obedecer e sujeitar-se ao marido como ao seu superior, ceder-lhe, permanecer em silêncio e submeter-se a ele nas questões que não contrariem os mandamentos de Deus.

[243] Por outro lado, o marido deve amar sua esposa, ignorar algumas falhas e não tratá-la com rigor, assunto acerca do qual São Pedro e São Paulo falaram amplamente — Efésios 5:22–33; 1 Pedro 3:1–7.

[244] Entretanto, essa questão pertence a uma explicação mais extensa dos Dez Mandamentos e pode ser facilmente deduzida dessas passagens.

XX

[245] Tudo aquilo que foi dito acerca dessas obras encontra-se incluído em duas coisas: obediência e consideração.

[246] A obediência é o dever dos súditos. A consideração é o dever dos senhores, para que governem corretamente seus subordinados, tratem-nos com bondade e façam tudo aquilo que possa beneficiá-los e ajudá-los.

[247] Esse é o caminho deles para o céu, e essas são as melhores obras que podem realizar sobre a terra.

[248] Por meio delas, tornam-se mais aceitáveis a Deus do que seriam se, sem essas obras, realizassem unicamente milagres.

[249] São Paulo diz: “Aquele que governa faça-o com diligência” — Romanos 12:8.

[250] É como se dissesse: “Não permita que aquilo que outras pessoas ou classes realizam o desvie. Não observe esta ou aquela obra, seja esplêndida ou obscura. Considere sua própria posição e pense somente em como poderá beneficiar aqueles que estão sujeitos a você.”

[251] “Permaneça nisso e não permita que coisa alguma o afaste, ainda que o céu se abrisse diante de você ou o inferno o perseguisse. Esse é o caminho correto que conduz ao céu.”

[252] Caso uma pessoa considerasse a si mesma e sua posição dessa maneira e cuidasse somente dos deveres que lhe pertencem, em pouco tempo se tornaria rica em boas obras.

[253] Isso aconteceria de maneira tão tranquila e secreta que ninguém perceberia além de Deus.

[254] Atualmente, porém, abandonamos todas essas coisas. Uma pessoa corre para os cartuxos; outra, para este lugar; uma terceira, para outro.

[255] Agimos como se as boas obras e os mandamentos de Deus tivessem sido lançados em cantos escondidos.

[256] Contudo, está escrito que a sabedoria divina clama publicamente nas ruas, nas praças e às portas das cidades — Provérbios 1:20–21.

[257] Isso significa que os mandamentos e as boas obras estão abundantemente presentes em todos os lugares, em todas as condições de vida e em todos os momentos.

[258] Nós, porém, não os enxergamos e, em nossa cegueira, procuramo-los em outros lugares.

[259] Cristo declarou: “Se alguém vos disser: ‘Eis aqui o Cristo!’ ou: ‘Ali está ele!’, não acrediteis. Se disserem: ‘Ele está no deserto’, não saiais; ou: ‘Está nos aposentos interiores’, não acrediteis. Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas” — Mateus 24:23–26.

XXI

[260] Novamente, a obediência é o dever dos súditos.

[261] Devem dirigir toda a sua diligência e esforço para fazer e deixar de fazer aquilo que seus superiores desejam, sem permitir que as obras realizadas por outras pessoas os afastem ou desviem desse dever.

[262] Ninguém deve imaginar que vive corretamente ou pratica boas obras — sejam orações, jejuns ou qualquer outra coisa — caso não se exercite séria e diligentemente nessa obediência.

[263] Contudo, caso aconteça, como frequentemente acontece, que o poder temporal e as autoridades procurem obrigar um súdito a praticar alguma coisa contrária aos mandamentos de Deus ou o impeçam de cumpri-los, nesse ponto termina a obediência, e esse dever é anulado.

[264] A pessoa deve dizer aquilo que São Pedro disse aos governantes dos judeus: “É necessário obedecer antes a Deus do que aos homens” — Atos 5:29.

[265] Ele não disse: “Não devemos obedecer aos homens”, pois isso seria incorreto. Disse: “Devemos obedecer antes a Deus do que aos homens.”

[266] Assim, caso um príncipe deseje iniciar uma guerra e sua causa seja manifestamente injusta, não devemos segui-lo nem ajudá-lo de maneira alguma, pois Deus ordenou que não matássemos nosso próximo nem lhe praticássemos injustiça — Êxodo 20:13.

[267] Da mesma maneira, caso ordene que apresentemos falso testemunho, furtemos, mintamos, enganemos ou pratiquemos coisas semelhantes, não devemos obedecer — Êxodo 20:15–16.

[268] Nesse caso, devemos antes abandonar os bens, a honra, o corpo e a própria vida, para que os mandamentos de Deus permaneçam.

[269] Os quatro mandamentos anteriores realizam suas obras no entendimento. Eles capturam o homem, governam-no e tornam-no sujeito, para que não governe a si mesmo, não aprove a si mesmo nem pense coisas elevadas a seu próprio respeito.

[270] Fazem com que se conheça em humildade e permita ser conduzido, para que o orgulho seja impedido.

[271] Os mandamentos seguintes tratam das paixões e dos desejos humanos, para que também estes sejam mortificados.

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