Aviso ao leitor
O texto frequentemente chamado de - Martinho Lutero — “Um Comentário sobre a Epístola de São Paulo aos Gálatas”) é apresentado aqui como literatura teológica e exegética da Reforma Protestante (séc. XVI), composta para interpretar a carta canônica de Paulo aos Gálatas a partir das ênfases reformadoras sobre fé, graça, justificação, Lei, Evangelho e liberdade cristã. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa, nem deve ser tratado como Escritura ou como comentário normativo universal. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa, ajudando a compreender como Lutero leu Paulo e articulou temas centrais da Reforma, sem implicar canonização nem equiparação de autoridade às Escrituras reconhecidas por qualquer tradição cristã.
ATENÇÃO
O escrito de Martinho Lutero, conhecido como Um Comentário sobre a Epístola de São Paulo aos Gálatas, deve ser lido com atenção crítica especial, pois é uma obra exegética, teológica, polêmica e confessional, profundamente marcada pelo contexto da Reforma Protestante e pela centralidade que Lutero atribuiu à doutrina da justificação pela fé.
Sua leitura exige cuidado porque o comentário interpreta Gálatas como texto-chave contra qualquer forma de confiança humana em obras, méritos, observâncias religiosas ou sistemas de justificação exterior. Essa ênfase possui grande força teológica, mas também pode conduzir a tensões se for lida sem discernimento, especialmente em temas como lei, graça, obras, obediência, Israel, tradição, autoridade e vida moral cristã. Além disso, por estar situado em ambiente de conflito com a teologia medieval e com adversários da Reforma, o texto pode apresentar linguagem combativa, contrastes fortes e formulações que precisam ser avaliadas à luz da escritura e não recebidas automaticamente como medida final da fé.
Sua preservação nesta biblioteca se dá por alto valor histórico, teológico, exegético e crítico, especialmente para compreender a leitura reformadora de Paulo, a controvérsia sobre justificação, a distinção entre lei e evangelho e os fundamentos da teologia luterana. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre exposição bíblica de Gálatas, ênfase reformadora na graça, polemização confessional luterana e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
CAPÍTULO V
[1] Neste capítulo, o apóstolo Paulo apresenta a doutrina da liberdade cristã em um esforço final para persuadir os gálatas a abandonarem a doutrina perversa dos falsos apóstolos. Para alcançar esse propósito, ele apresenta ameaças e promessas, procurando, de todas as maneiras possíveis, conservá-los na liberdade que Cristo adquiriu para eles.[2] Versículo 1. “Permanecei, portanto, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou.” (Gálatas 5:1)[3] “Permanecei firmes, não sejais descuidados. Não vos deiteis para dormir, mas levantai-vos. Vigiai. Conservai firmemente a liberdade com que Cristo vos libertou.” Aqueles que permanecem indolentes não conseguem conservar essa liberdade. Satanás odeia a luz do Evangelho. Quando ela começa a brilhar, ainda que um pouco, ele luta contra ela com todas as suas forças.[4] De que liberdade Paulo está falando? Não da liberdade civil — pela qual devemos agradecer ao governo —, mas da liberdade que Cristo conquistou para nós.[5] Em certa época, o imperador foi obrigado a conceder ao bispo de Roma determinadas imunidades e privilégios. Isso é liberdade civil. Essa liberdade isenta o clero de certas obrigações públicas. Existe também outra espécie de “liberdade”, na qual as pessoas não obedecem nem às leis de Deus nem às leis dos homens, mas fazem aquilo que desejam. Essa é a liberdade carnal que as pessoas querem em nossos dias. Não estamos falando agora dessa liberdade, nem da liberdade civil.[6] Paulo fala de uma liberdade muito superior: a liberdade “com que Cristo nos libertou”; não de correntes materiais, não do cativeiro babilônico, não da tirania dos turcos, mas da ira eterna de Deus.[7] Onde se encontra essa liberdade?[8] Na consciência.[9] Nossa consciência é livre e tranquila porque já não precisa temer a ira de Deus. Essa é a verdadeira liberdade, em comparação com a qual todas as demais espécies de liberdade nem sequer merecem ser mencionadas. Quem consegue expressar adequadamente o benefício recebido pela pessoa que possui no coração a certeza de que Deus jamais voltará a se irar contra ela, mas será para sempre misericordioso por causa de Cristo? Esta é, de fato, uma liberdade maravilhosa: possuir o Deus soberano como nosso Amigo e Pai, que nos defenderá, sustentará e salvará nesta vida e na vida futura.[10] Como consequência dessa liberdade, somos ao mesmo tempo libertos da Lei, do pecado, da morte, do poder do diabo, do inferno e de todos os males semelhantes. Visto que a ira de Deus foi apaziguada por Cristo, nenhuma Lei, pecado ou morte pode agora nos acusar e condenar. Esses inimigos continuarão a nos assustar, mas não poderão nos vencer. O valor de nossa liberdade cristã jamais poderá ser exagerado.[11] Nossa consciência precisa ser treinada para recorrer à liberdade comprada por Cristo. Embora o temor da Lei, os terrores do pecado e o horror da morte nos ataquem ocasionalmente, sabemos que esses sentimentos não permanecerão, porque o profeta apresenta Deus dizendo: “Num ímpeto de indignação escondi de ti a minha face por um momento; mas com misericórdia eterna me compadecerei de ti.” (Isaías 54:8)[12] Apreciaremos ainda mais essa liberdade quando nos lembrarmos de que foi Jesus Cristo, o Filho de Deus, quem a comprou com seu próprio sangue. Portanto, a liberdade de Cristo não nos é concedida pela Lei nem em razão de nossa própria justiça, mas gratuitamente, por causa de Cristo. No oitavo capítulo do Evangelho de João, Jesus declara: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (João 8:36) Somente ele se coloca entre nós e os males que nos perturbam e afligem e que ele venceu por nós.[13] A razão não consegue avaliar corretamente esse dom. Quem pode apreciar plenamente a bênção do perdão dos pecados e da vida eterna? Nossos adversários afirmam que também possuem essa liberdade. Não a possuem, porém. Quando são colocados à prova, toda a sua autoconfiança desaparece. O que mais poderiam esperar, visto que confiam nas obras, e não na Palavra de Deus?[14] Nossa liberdade está fundamentada no próprio Cristo, que está assentado à direita de Deus e intercede por nós. (Romanos 8:34) Por isso, nossa liberdade permanece segura e válida enquanto cremos em Cristo. Enquanto nos apegamos a ele com fé firme, possuímos seus dons inestimáveis. Se, porém, nos tornarmos descuidados e indiferentes, perderemos esses dons. Não é sem razão que Paulo nos exorta a vigiar e permanecer firmes. Ele sabia que o diabo se deleita em tirar de nós essa liberdade.[15] Versículo 1. “E não vos submetais novamente ao jugo da escravidão.” (Gálatas 5:1)[16] Como a razão prefere a justiça da Lei à justiça da fé, Paulo chama a Lei de jugo, um jugo de escravidão. Pedro também a chama de jugo: “Agora, pois, por que tentais a Deus, colocando sobre o pescoço dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?” (Atos 15:10)[17] Nesta passagem, Paulo volta a desprezar a opinião perniciosa, profundamente enraizada na razão humana, de que a Lei é capaz de tornar os homens justos diante de Deus. Toda a humanidade está tão envolvida por essa ideia que é difícil arrancá-la das pessoas. Paulo compara aqueles que procuram ser justificados pela Lei a bois presos ao jugo. Assim como os bois trabalham sob o jugo durante todo o dia, à noite são soltos para pastar junto à estrada empoeirada e, por fim, quando já não conseguem carregar o fardo, são destinados ao abate, assim também aqueles que procuram ser justificados pela Lei ficam “presos ao jugo da escravidão”. Depois de envelhecerem e se desgastarem a serviço da Lei, recebem como recompensa permanente a ira de Deus e o tormento eterno.[18] Não estamos tratando de uma questão sem importância. Trata-se de liberdade eterna ou escravidão eterna. Assim como a libertação da ira de Deus, realizada pelo bondoso ofício de Cristo, não é um benefício passageiro, mas uma bênção permanente, também o jugo da Lei não é uma aflição temporária, mas eterna.[19] Com razão os praticantes da Lei são chamados de mártires do diabo. Eles se esforçam mais para conquistar o inferno do que os mártires de Cristo se esforçaram para alcançar o céu. Sua desgraça é dupla. Primeiramente, torturam-se na terra com penitências impostas por eles mesmos; por fim, quando morrem, recebem a recompensa da condenação eterna.[20] Versículo 2. “Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará.” (Gálatas 5:2)[21] Paulo fica indignado ao pensar na tirania da Lei. Sua oposição à Lei é para ele uma questão pessoal. “Eis que eu, Paulo”, diz ele, “eu que recebi o Evangelho não de homens, mas pela revelação de Jesus Cristo; eu que fui comissionado do alto para pregar o Evangelho a vós; eu, Paulo, vos digo: se vos submeterdes à circuncisão, Cristo de nada vos aproveitará.” Paulo declara enfaticamente que, se os gálatas fossem circuncidados, perderiam os benefícios do sofrimento e da morte de Cristo.[22] Esta passagem pode servir como critério para avaliar todas as religiões. Ensinar que, além da fé em Cristo, outros meios — como obras, observância de regras, tradições ou cerimônias — são necessários para alcançar a justiça e a vida eterna significa tornar Cristo e sua salvação inúteis para todos.[23] Esta passagem constitui uma acusação contra todo o papado. Todos os sacerdotes, monges e freiras — e falo agora dos melhores entre eles — que depositam a esperança de salvação em suas próprias obras, e não em Cristo, a quem imaginam ser um juiz irado, ouvem contra si esta sentença: Cristo de nada lhes aproveitará.[24] Se alguém consegue conquistar o perdão dos pecados e a vida eterna por seus próprios esforços, com que propósito Cristo nasceu? Qual foi o propósito de seu sofrimento e de sua morte, de sua ressurreição e de sua vitória sobre o pecado, a morte e o diabo, se os homens podem vencer esses males por seu próprio esforço? A língua não consegue expressar nem o coração conceber quão terrível é tornar Cristo inútil.[25] A pessoa que, diante dessas considerações, não é levada a abandonar a Lei e a confiança em sua própria justiça para buscar a liberdade em Cristo possui um coração mais duro do que pedra e ferro.[26] Paulo não condena a circuncisão em si mesma. A circuncisão não prejudica a pessoa que não lhe atribui importância especial. As obras também não são prejudiciais, desde que a pessoa não lhes atribua valor salvador. O apóstolo não afirma que as obras são condenáveis, mas que fundamentar nelas a esperança de justiça é desastroso, pois isso torna Cristo inútil.[27] Conservemos isso em mente quando o diabo acusar nossa consciência. Quando esse dragão nos acusar de não termos feito bem algum, mas somente o mal, digamos-lhe: “Tu me perturbas com a lembrança de meus pecados passados; recordas-me que não fiz bem algum. Isso, porém, não me perturba, porque, se eu confiasse em minhas boas obras ou desesperasse por não ter realizado boas obras, Cristo não me aproveitaria em nenhum dos casos. Não tornarei Cristo inútil para mim. Eu faria isso se presumisse comprar para mim o favor de Deus e a vida eterna por minhas boas obras, ou se desesperasse de minha salvação por causa de meus pecados.”[28] Versículo 3. “E novamente testifico a todo homem que se deixa circuncidar que está obrigado a cumprir toda a Lei.” (Gálatas 5:3)[29] O primeiro defeito da circuncisão é tornar Cristo inútil. O segundo é obrigar aqueles que são circuncidados a observar toda a Lei. Paulo trata essa questão com tanta seriedade que a confirma mediante juramento. “Testifico”, diz ele, “juro pelo Deus vivo.”[30] A declaração de Paulo também pode ser explicada negativamente: “Testifico a todo homem que se deixa circuncidar que ele não consegue cumprir a Lei em ponto algum. No próprio ato de se circuncidar, ele não está verdadeiramente circuncidado; e, no próprio ato de cumprir a Lei, não a cumpre.” Esse parece ser o sentido simples da afirmação de Paulo.[31] Mais adiante, no sexto capítulo, ele afirma expressamente: “Nem mesmo os que se deixam circuncidar guardam a Lei.” (Gálatas 6:13) O fato de seres circuncidado não significa que és justo e livre da Lei. A verdade é que, pela circuncisão, tornaste-te devedor e servo da Lei. Quanto mais te esforçares para cumprir a Lei, mais te enredarás em seu jugo.[32] Experimentei em mim mesmo e em outras pessoas a verdade disso. Vi muitos se desgastarem até os ossos em seu esforço desesperado por obter paz de consciência. Quanto mais tentavam, mais se preocupavam. Especialmente diante da morte, ficavam tão inquietos que vi assassinos morrerem com maior serenidade e coragem.[33] Isso também é verdadeiro quanto às normas eclesiásticas. Quando eu era monge, esforçava-me ao máximo para viver segundo as regras rigorosas de minha ordem. Costumava fazer uma lista de meus pecados e estava sempre a caminho da confissão; cumpria religiosamente todas as penitências que me eram impostas. Apesar de tudo, minha consciência permanecia em constante febre de dúvida. Quanto mais procurava ajudar minha pobre consciência ferida, pior ela ficava. Quanto mais atenção prestava às regras, mais as transgredia.[34] Por isso, aqueles que procuram ser justificados pela Lei estão muito mais distantes da justiça da vida do que os publicanos, pecadores e prostitutas. Estes sabem que não devem confiar em suas próprias obras. Sabem que jamais poderão esperar obter perdão por meio de seus pecados.[35] A declaração de Paulo neste versículo também pode significar que aqueles que se submetem à circuncisão se submetem, por esse mesmo ato, a toda a Lei. Obedecer a Moisés em um ponto exige obedecer-lhe em todos os pontos. Não adianta afirmar que somente a circuncisão é necessária, e não o restante das leis de Moisés. As mesmas razões que obrigam uma pessoa a aceitar a circuncisão também a obrigam a aceitar toda a Lei.[36] Reconhecer a Lei dessa maneira equivale a declarar que Cristo ainda não veio. Se Cristo ainda não veio, todas as cerimônias judaicas e todas as leis relativas a alimentos, lugares e tempos continuam em vigor, e Cristo ainda deve ser esperado como alguém que há de vir. Toda a Escritura, porém, testemunha que Cristo veio, que por sua morte aboliu a Lei e que cumpriu tudo aquilo que os profetas predisseram a seu respeito.[37] Alguns gostariam de nos sujeitar a determinadas partes da Lei de Moisés. Isso não deve ser permitido em circunstância alguma. Se permitirmos que Moisés governe sobre nós em uma única coisa, precisaremos obedecer-lhe em todas as coisas.[38] Versículo 4. “Separados estais de Cristo, vós que procurais ser justificados pela Lei; da graça caístes.” (Gálatas 5:4)[39] Neste versículo, Paulo revela que não está falando tanto da circuncisão em si, mas da confiança que os homens depositam no ato exterior. Podemos ouvi-lo dizer: “Não condeno a Lei em si mesma. Condeno o fato de os homens procurarem ser justificados pela Lei, como se Cristo ainda estivesse por vir ou como se ele sozinho fosse incapaz de justificar os pecadores.”[40] “É isso que condeno, porque torna Cristo sem efeito. Isso vos separa de Cristo, de modo que Cristo já não está em vós, nem podeis participar de seu conhecimento, de seu Espírito, de sua comunhão, de sua liberdade, de sua vida ou de suas realizações. Ficais completamente separados dele, a tal ponto que ele já não possui relação alguma convosco nem vós com ele.”[41] Poderia ser dita alguma coisa pior contra a Lei? Se pensas que Cristo e a Lei podem habitar juntos em teu coração, podes ter certeza de que Cristo não habita nele. Se Cristo está em teu coração, ele não te condena nem ordena que confies em tuas próprias boas obras.[42] Se conheces Cristo, sabes que as boas obras não servem para a justificação, assim como as obras más não constituem a base final da condenação daquele que está em Cristo. Não desejo retirar das boas obras o louvor que lhes é devido nem encorajar as obras más. Quando, porém, se trata da justificação, precisamos nos concentrar somente em Cristo, ou o tornaremos sem efeito.[43] Precisas escolher entre Cristo e a justiça da Lei. Se escolheres Cristo, serás justo diante de Deus. Se te apegares à Lei, Cristo não te aproveitará.[44] Versículo 4. “Da graça caístes.” (Gálatas 5:4)[45] Isso significa que já não estais no Reino nem na condição da graça. Quando uma pessoa cai de um navio no mar e se afoga, não importa de qual extremidade ou de qual lado do navio ela caiu. Aqueles que caem da graça perecem, independentemente da maneira pela qual caem.[46] Os que procuram ser justificados pela Lei caíram da graça e se encontram em grave perigo de morte eterna. Se isso é verdadeiro no caso daqueles que procuram ser justificados pela Lei moral, o que acontecerá, pergunto, com aqueles que procuram ser justificados por suas próprias regras e votos? Cairão até o fundo do inferno.[47] “Não”, dizem eles, “voaremos diretamente para o céu. Se viverdes segundo as regras de São Francisco, São Domingos ou São Bento, obtereis a paz e a misericórdia de Deus. Se cumprirdes os votos de castidade, obediência e outros semelhantes, sereis recompensados com a vida eterna.” Que esses brinquedos do diabo retornem ao lugar de onde vieram e ouçam o que Paulo diz neste versículo, de acordo com o ensinamento do próprio Cristo: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem, porém, rejeita o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.” (João 3:36)[48] As palavras “da graça caístes” não devem ser tratadas levianamente. São palavras importantes. Cair da graça significa perder a expiação, o perdão dos pecados, a justiça, a liberdade e a vida que Jesus conquistou para nós por sua morte e ressurreição. Perder a graça de Deus significa receber a ira e o julgamento de Deus, a morte, a escravidão do diabo e a condenação eterna.[49] Versículo 5. “Porque nós, pelo Espírito, aguardamos pela fé a esperança da justiça.” (Gálatas 5:5)[50] Paulo conclui toda a questão com essa declaração. “Vós quereis ser justificados pela Lei, pela circuncisão e pelas obras. Nós não reconhecemos semelhante justificação. Ser justificado por esses meios tornaria Cristo sem valor para nós e nos obrigaria a cumprir toda a Lei. Nós, porém, pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça.” O apóstolo não se satisfaz em dizer “justificados pela fé”. Ele acrescenta a esperança à fé.[51] A Sagrada Escritura fala da esperança de duas maneiras: como o objeto esperado e como a própria disposição de esperar. No primeiro capítulo da Epístola aos Colossenses encontramos um exemplo do primeiro uso: “Por causa da esperança que vos está reservada nos céus”, isto é, a coisa esperada. (Colossenses 1:5) No sentido da disposição interior, citamos a passagem do oitavo capítulo de Romanos: “Porque em esperança fomos salvos.” (Romanos 8:24)[52] Como Paulo emprega aqui o termo “esperança”, podemos entendê-lo em qualquer um desses dois sentidos. Podemos compreender que ele diz: “No Espírito, mediante a fé, aguardamos a justiça que esperamos e que, no tempo determinado, nos será revelada.” Ou podemos compreender: “No Espírito, pela fé, aguardamos a justiça com grande esperança e desejo.”[53] É verdade que somos justos, mas nossa justiça ainda não foi plenamente revelada. Enquanto vivermos aqui, o pecado permanece conosco, sem esquecer a lei existente em nossos membros, que luta contra a lei de nossa mente. (Romanos 7:23) Quando o pecado se enfurece em nosso corpo e nós, pelo Espírito, lutamos contra ele, temos motivo para esperar. Ainda não somos perfeitamente justos. A justiça perfeita ainda será alcançada. Por isso, esperamos por ela.[54] Este é um doce consolo para nós, e devemos empregá-lo para consolar os aflitos. Devemos dizer-lhes: “Irmão, desejas sentir o favor de Deus tão claramente quanto sentes teu pecado. Estás, porém, exigindo demais. Tua justiça repousa sobre algo muito melhor do que os sentimentos. Espera com esperança até que ela te seja revelada no tempo do Senhor. Não te orientes por teus sentimentos, mas pela doutrina da fé, que te assegura Cristo.”[55] Surge a pergunta: qual é a diferença entre fé e esperança? É difícil perceber qualquer diferença. Fé e esperança estão tão intimamente ligadas que não podem ser separadas. Ainda assim, existe diferença entre elas.[56] Primeiramente, esperança e fé diferem quanto à sua origem. A fé se origina no entendimento, enquanto a esperança surge na vontade.[57] Em segundo lugar, diferem quanto às suas funções. A fé afirma aquilo que deve ser feito. A fé ensina, descreve e orienta. A esperança exorta a mente a permanecer forte e corajosa.[58] Em terceiro lugar, diferem quanto aos seus objetos. A fé se concentra na verdade. A esperança olha para a bondade de Deus.[59] Em quarto lugar, diferem quanto à sequência. A fé é o começo da vida antes da tribulação, conforme Hebreus 11. A esperança vem depois e nasce da tribulação. (Romanos 5:3–5)[60] Em quinto lugar, diferem quanto aos seus efeitos. A fé é juíza: julga os erros. A esperança é soldado: luta contra as tribulações, a cruz, o desânimo e o desespero e, em meio aos males, aguarda coisas melhores.[61] Sem esperança, a fé não consegue perseverar. Por outro lado, a esperança sem fé é temeridade e arrogância cegas, porque carece de conhecimento. Antes de qualquer coisa, o cristão precisa possuir o discernimento da fé, para que o intelecto conheça a direção a seguir no dia da aflição e o coração espere coisas melhores. Pela fé começamos; pela esperança continuamos.[62] Esta passagem contém excelente doutrina e grande consolo. Declara que somos justificados não por obras, sacrifícios ou cerimônias, mas somente por Cristo. O mundo pode considerar determinadas coisas extremamente boas; sem Cristo, todas elas estão erradas. A circuncisão, a Lei e as boas obras são carnais quando colocadas no lugar da justificação.[63] “Nós”, diz Paulo, “estamos acima dessas coisas. Possuímos Cristo pela fé e, em meio às nossas aflições, aguardamos com esperança a consumação de nossa justiça.”[64] Talvez digas: “O problema é que não me sinto justo.” Não deves sentir, mas crer. A menos que creias que és justo, cometes grande injustiça contra Cristo, pois ele te purificou pelo lavar da regeneração e morreu por ti para que, por meio dele, obtenhas a justiça e a vida eterna. (Tito 3:5–7)[65] Versículo 6. “Porque, em Jesus Cristo, nem a circuncisão nem a incircuncisão possuem valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Gálatas 5:6)[66] Evidentemente, a fé precisa ser sincera. Precisa ser uma fé que produz boas obras por meio do amor. Se a fé não possui amor, não é verdadeira fé. Assim, o apóstolo fecha por todos os lados o caminho dos hipócritas para o Reino de Cristo.[67] De um lado, declara: “Em Cristo Jesus, a circuncisão nada vale”, isto é, as obras nada valem para a justificação; somente a fé, sem mérito algum, possui valor diante de Deus. De outro lado, o apóstolo declara que uma fé sem frutos não possui utilidade. Pensar: “Se a fé justifica sem obras, então não façamos obra alguma” significa desprezar a graça de Deus. A fé ociosa não é fé justificadora.[68] Dessa maneira resumida, Paulo apresenta toda a vida do cristão. Interiormente, ela consiste na fé dirigida a Deus; exteriormente, no amor dirigido ao próximo.[69] Versículo 7. “Corríeis bem; quem vos impediu de obedecer à verdade?” (Gálatas 5:7)[70] Essas são palavras claras. Paulo afirma que agora ensina a mesma verdade que sempre ensinou e que os gálatas corriam bem enquanto obedeciam à verdade. Agora, porém, enganados pelos falsos apóstolos, já não correm.[71] Ele compara a vida cristã a uma corrida. Quando todas as coisas prosseguiam favoravelmente, os hebreus falavam delas como uma corrida. “Corríeis bem” significa que tudo transcorria de maneira boa e feliz com os gálatas. Eles viviam uma vida cristã e estavam no caminho correto para a vida eterna.[72] As palavras “corríeis bem” são realmente encorajadoras. Muitas vezes, nossa vida parece rastejar em vez de correr. Entretanto, se permanecemos na verdadeira doutrina e andamos no Espírito, não temos motivo para preocupação. Deus julga nossa vida de maneira diferente. Aquilo que nos parece um desenvolvimento cristão lento pode parecer a Deus um rápido avanço na graça.[73] Versículo 7. “Quem vos impediu de obedecer à verdade?” (Gálatas 5:7)[74] Os gálatas foram impedidos de prosseguir na vida cristã quando se voltaram da fé e da graça para a Lei. Discretamente, o apóstolo culpa os falsos apóstolos por impedirem o progresso cristão dos gálatas.[75] Os falsos apóstolos persuadiram os gálatas de que estavam no erro e de que haviam realizado pouco ou nenhum progresso sob a influência de Paulo. Sob a influência destrutiva dos falsos apóstolos, os gálatas pensavam estar em boa situação e avançando rapidamente no conhecimento e na vida cristã.[76] Versículo 8. “Essa persuasão não procede daquele que vos chama.” (Gálatas 5:8)[77] Paulo explica como aqueles que foram enganados por falsos mestres podem ser restaurados à saúde espiritual. Os falsos apóstolos eram homens agradáveis. Aparentemente, superavam Paulo em conhecimento e piedade. Os gálatas foram facilmente enganados pelas aparências exteriores. Supunham estar sendo ensinados pelo próprio Cristo.[78] Paulo demonstrou que a nova doutrina deles não procedia de Cristo, mas do diabo. Dessa maneira, conseguiu recuperar muitos. Também podemos reconduzir muitos dos erros aos quais foram seduzidos, mostrando-lhes que suas crenças são imaginárias, perversas e contrárias à Palavra de Deus.[79] O diabo é um persuasor astuto. Sabe transformar o menor pecado em uma montanha, até pensarmos que cometemos o pior crime já praticado na terra. Consciências assim feridas precisam ser consoladas e corrigidas, como Paulo corrigiu os gálatas, mostrando-lhes que sua opinião não procede de Cristo, porque contradiz o Evangelho, que descreve Cristo como Salvador manso e misericordioso.[80] Satanás contornará o Evangelho e apresentará Cristo segundo sua própria interpretação diabólica: “É verdade que Cristo é manso, bondoso e misericordioso, mas somente para aqueles que são santos e justos. Se és pecador, não possuis esperança alguma. Cristo não disse que os incrédulos já estão condenados? (João 3:18) Cristo não realizou muitas boas obras e suportou pacientemente muitos males, ordenando-nos que seguíssemos seu exemplo? Não pretendes dizer que tua vida está de acordo com os mandamentos ou com o exemplo de Cristo, pretendes? És pecador. Não possuis bem algum.”[81] Devemos responder a Satanás da seguinte maneira: as Escrituras apresentam Cristo sob dois aspectos.[82] Primeiramente, como dom: “Por iniciativa de Deus, Cristo Jesus se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção.” (1 Coríntios 1:30) Portanto, meus numerosos e graves pecados são anulados quando creio nele.[83] Em segundo lugar, as Escrituras apresentam Cristo como nosso exemplo. Como exemplo, ele deve ser colocado diante de mim somente em determinados momentos: em tempos de alegria e tranquilidade, para que eu o tenha como espelho no qual percebo minhas deficiências. No dia da aflição, porém, terei Cristo somente como dom. Não ouvirei coisa alguma além disto: Cristo morreu por meus pecados.[84] Àqueles que estão abatidos por causa de seus pecados, Cristo deve ser apresentado como Salvador e Dom, e não como exemplo. Aos pecadores que vivem em falsa segurança, porém, Cristo deve ser apresentado como exemplo. As declarações severas das Escrituras e os terríveis juízos de Deus contra o pecado precisam ser gravados neles.[85] Desafia Satanás nos momentos de desespero. Dize: “Ó Satanás maldito, escolheste um excelente momento para falar comigo sobre fazer e trabalhar, quando sabes muito bem que estou atribulado por causa de meus pecados. Não te ouvirei. Ouvirei Cristo, que afirma ter vindo ao mundo para salvar os pecadores. (1 Timóteo 1:15) Este é o verdadeiro Cristo, e não existe outro.”[86] “Posso encontrar numerosos exemplos de vida santa em Abraão, Isaías, João Batista, Paulo e outros santos. Eles, porém, não podem perdoar meus pecados. Não podem me salvar nem obter para mim a vida eterna. Portanto, não te aceitarei como meu mestre, ó Satanás.”[87] Versículo 9. “Um pouco de fermento leveda toda a massa.” (Gálatas 5:9)[88] A preocupação de Paulo nada significava para alguns dos gálatas. Muitos o haviam rejeitado como mestre e passado para o lado dos falsos apóstolos. Sem dúvida, estes aproveitavam todas as oportunidades para difamar Paulo como homem obstinado e desprezível, disposto a perturbar a unidade das igrejas apenas por orgulho egoísta e ciúme.[89] Talvez outros gálatas não percebessem mal algum em se afastar um pouco da doutrina da justificação e da fé. Ao notarem que Paulo fazia tanto alarde acerca de algo que lhes parecia de pouca importância, levantavam as sobrancelhas e pensavam: “Que mal existe em nos desviarmos um pouco da doutrina de Paulo? Que mal existe em possuirmos alguma culpa? Ele deveria ignorar toda a questão e não transformá-la em tamanho problema, para que a unidade das igrejas não seja perturbada.”[90] A isso Paulo responde: “Um pouco de fermento leveda toda a massa.”[91] Nossos adversários apresentam contra nós as mesmas reclamações. Chamam-nos de homens contenciosos, mal-humorados e sempre dispostos a encontrar defeitos. Essas, porém, são manobras astutas do diabo, pelas quais procura destruir nossa fé. Respondemos com Paulo: “Um pouco de fermento leveda toda a massa.”[92] Pequenos erros crescem e se transformam em grandes erros. Tolerar um erro aparentemente insignificante conduz inevitavelmente a uma heresia grosseira. A doutrina da Bíblia não nos pertence, para que a tratemos como desejamos ou permitamos liberdades em relação a ela. Não possuímos o direito de alterar sequer um traço dela.[93] Quanto à vida, estamos dispostos a fazer, sofrer e perdoar tudo aquilo que nossos adversários exigirem, desde que a fé e a doutrina permaneçam puras e incorruptas.[94] O apóstolo Tiago diz: “Qualquer que guardar toda a Lei, mas tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.” (Tiago 2:10) Essa passagem nos apoia contra nossos críticos, que afirmam que desprezamos todo amor, causando grande dano às igrejas.[95] Protestamos que nada desejamos mais do que a paz com todos os homens. Se apenas nos permitissem conservar nossa doutrina da fé! A doutrina pura possui prioridade sobre o amor, sobre os apóstolos e até sobre um anjo do céu.[96] Que outros elevem o amor e a concórdia até os céus; nós engrandecemos a autoridade da Palavra e da fé. O amor pode, em determinados momentos, ser negligenciado sem perigo; a Palavra e a fé, não.[97] O amor suporta todas as coisas e cede. A fé nada suporta e jamais cede. O amor é muitas vezes enganado, mas nunca é destruído, pois nada possui a perder; continua fazendo o bem até mesmo aos ingratos.[98] Quando, porém, se trata da fé e da salvação em meio a mentiras e erros que se apresentam como verdade e enganam muitas pessoas, o amor não possui voz nem voto. Não sejamos influenciados pelo clamor popular em favor do amor e da unidade. Se não amamos a Deus e sua Palavra, que diferença faz amarmos qualquer outra coisa?[99] Paulo, portanto, adverte tanto os mestres quanto os ouvintes a não tratarem levianamente a doutrina da fé, como se fosse um brinquedo com o qual pudessem se divertir durante as horas ociosas.[100] Versículo 10. “Tenho confiança em vós, no Senhor.” (Gálatas 5:10)[101] “Já vos ensinei, adverti e repreendi o suficiente. Espero de vós o melhor.”[102] Surge a pergunta se Paulo agiu corretamente ao confiar nos gálatas. A Sagrada Escritura não nos proíbe de confiar nos homens? A fé confia em Deus e jamais se engana. O amor confia nos homens e muitas vezes se engana.[103] Essa confiança caridosa no ser humano é necessária para a vida. Sem ela, a vida no mundo seria impossível. Que espécie de vida teríamos se ninguém pudesse confiar em outra pessoa? Os verdadeiros cristãos estão mais dispostos a acreditar nos homens do que os filhos deste mundo. Essa confiança caridosa é fruto do Espírito.[104] Paulo possuía semelhante confiança nos gálatas, embora tivessem abandonado sua doutrina. Confia neles “no Senhor”, na medida em que estavam em Cristo e Cristo neles. Se abandonassem Cristo completamente, o apóstolo já não confiaria nos gálatas.[105] Versículo 10. “Que não pensareis de outra maneira.” (Gálatas 5:10)[106] “Não pensareis de maneira diferente daquilo que vos ensinei. Em outras palavras, confio que não aceitareis doutrina alguma contrária àquela que aprendestes de mim.”[107] Versículo 10. “Mas aquele que vos perturba sofrerá a condenação, seja ele quem for.” (Gálatas 5:10)[108] Paulo assume o papel de juiz e condena os falsos apóstolos como perturbadores dos gálatas. Com seus juízos severos contra eles, deseja assustar os gálatas, para que evitem a falsa doutrina como uma doença contagiosa.[109] Podemos ouvi-lo dizer: “Por que dais ouvidos, em primeiro lugar, a esses homens pestilentos? Eles apenas vos perturbam. A doutrina que apresentam somente traz perturbação à vossa consciência.”[110] A expressão “seja ele quem for” parece indicar que os falsos apóstolos, pelo menos exteriormente, eram homens muito bons e piedosos. Talvez existisse entre eles algum discípulo destacado dos apóstolos, homem de fama e autoridade. O apóstolo deve ter enfrentado exatamente essa situação; de outro modo, sua veemência seria desnecessária.[111] Sem dúvida, muitos gálatas ficaram desconcertados com a veemência do apóstolo. Talvez pensassem: “Por que ele é tão obstinado em questões tão pequenas? Por que pronuncia tão rapidamente a condenação contra seus irmãos no ministério?”[112] Não consigo repetir vezes suficientes que precisamos distinguir cuidadosamente entre doutrina e vida. A doutrina é uma porção do céu; a vida é uma porção da terra. Na vida existem pecado, erro, impureza e miséria, e o amor precisa suportar, crer, esperar e sofrer todas as coisas. O perdão dos pecados precisa ser contínuo, para que o pecado e o erro não sejam defendidos e sustentados.[113] Na doutrina, porém, não pode existir erro nem necessidade de perdão. Não existe comparação entre doutrina e vida. O menor ponto da doutrina possui importância maior do que o céu e a terra. Portanto, não podemos permitir que o menor traço da doutrina seja corrompido.[114] Podemos ignorar ofensas e erros da vida, pois diariamente pecamos muito. Até mesmo os santos pecam, como confessam na Oração do Senhor e no Credo. Nossa doutrina, porém — graças a Deus —, é pura, porque todos os artigos de nossa fé estão fundamentados nas Sagradas Escrituras.[115] Versículo 11. “E eu, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Nesse caso, teria sido removido o escândalo da cruz.” (Gálatas 5:11)[116] Em seu grande desejo de reconduzir os gálatas, Paulo introduz a si mesmo no argumento. Ele diz: “Porque me recuso a reconhecer a circuncisão como fator de nossa salvação, atraí sobre mim o ódio e a perseguição de toda a minha nação.”[117] “Se eu reconhecesse a circuncisão, os judeus deixariam de me perseguir; na verdade, me amariam e elogiariam. Como, porém, prego o Evangelho de Cristo e a justiça da fé, preciso sofrer perseguição.”[118] “Os falsos apóstolos sabem evitar a cruz e o ódio mortal da nação judaica. Pregam a circuncisão e, desse modo, conservam o favor dos judeus. Se prevalecessem, ignorariam todas as diferenças doutrinárias e preservariam a unidade a qualquer preço.”[119] “Seus sonhos de união, porém, não podem ser realizados sem que se perca a doutrina pura da cruz. Seria uma desgraça se o escândalo da cruz fosse removido.” Aos coríntios, Paulo expressou a mesma convicção: “Cristo me enviou […] para pregar o Evangelho, não com sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo não se torne inútil.” (1 Coríntios 1:17)[120] Alguém pode ser tentado a chamar os cristãos de loucos. Buscar deliberadamente o perigo ao pregar e confessar a verdade e, assim, atrair sobre nós o ódio e a inimizade do mundo inteiro: isso não seria loucura?[121] Paulo, porém, não se importa com a inimizade do mundo. Ela o tornava ainda mais corajoso para confessar Cristo. Em sua avaliação, a inimizade do mundo era um bom presságio para o sucesso e o crescimento da Igreja, que se encontra em sua melhor condição nos tempos de perseguição.[122] Quando o escândalo da cruz desaparece, quando diminui a fúria dos inimigos da cruz e tudo permanece tranquilo, é sinal de que o diabo se tornou porteiro da Igreja e de que a doutrina pura da Palavra de Deus foi perdida.[123] São Bernardo observou que a Igreja se encontra em sua melhor condição quando Satanás a ataca por todos os lados, mediante engano e violência, e em sua pior condição quando está em paz. Em apoio à sua afirmação, cita a passagem do cântico de Ezequias: “Eis que, para minha paz, tive grande amargura.” (Isaías 38:17) Paulo olha com desconfiança para qualquer doutrina que não provoque oposição.[124] A perseguição sempre segue os passos da Palavra de Deus, como experimentou o salmista: “Cri, por isso falei; fui grandemente afligido.” (Salmos 116:10)[125] Os cristãos são acusados e caluniados sem misericórdia. Assassinos e ladrões recebem tratamento melhor do que os cristãos. O mundo considera os verdadeiros cristãos os piores criminosos, para os quais nenhum castigo seria suficientemente severo.[126] O mundo odeia os cristãos com brutalidade espantosa e, sem remorso, entrega-os à morte mais vergonhosa, congratulando-se por haver prestado a Deus e à causa da paz um serviço distinto ao livrar o mundo da presença indesejada desses cristãos.[127] Não devemos permitir que semelhante tratamento nos faça vacilar em nossa adesão a Cristo. Enquanto experimentamos essas perseguições, sabemos que tudo está bem com o Evangelho.[128] Jesus ofereceu o mesmo consolo aos discípulos no quinto capítulo de Mateus: “Bem-aventurados sois quando vos insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque grande é a vossa recompensa nos céus.” (Mateus 5:11–12)[129] A Igreja não pode ser privada dessa alegria. Eu não desejaria estar em paz com o papa, os bispos, os príncipes e os sectários, a menos que concordassem com nossa doutrina. A união com eles seria um sinal inequívoco de que perdemos a verdadeira doutrina.[130] Resumindo: enquanto a Igreja proclamar a doutrina, precisará sofrer perseguição, porque o Evangelho anuncia a misericórdia e a glória de Deus. Isso, por sua vez, provoca o diabo, porque o Evangelho o revela como aquilo que ele é: o diabo, e não Deus.[131] Portanto, enquanto o Evangelho prevalecer, a perseguição o acompanhará; caso contrário, alguma coisa estará errada com o diabo. Quando ele for atingido, sabereis disso pela destruição que levanta por toda parte.[132] Não vos surpreendais nem vos escandalizeis quando o inferno se soltar. Considerai isso uma indicação feliz de que tudo está bem com o Evangelho da cruz.[133] Deus não permita que o escândalo da cruz seja removido. Isso aconteceria se pregássemos aquilo que o príncipe deste mundo e seus seguidores teriam grande prazer em ouvir: a justiça das obras. Jamais imaginaríeis que o diabo pudesse ser tão gentil, o mundo tão agradável, o papa tão bondoso e os príncipes tão encantadores. Como, porém, procuramos o benefício e a honra de Cristo, eles nos perseguem por todos os lados.[134] Versículo 12. “Quem dera até se mutilassem aqueles que vos perturbam!” (Gálatas 5:12)[135] Parece pouco apropriado a um apóstolo não apenas denunciar os falsos apóstolos como perturbadores da Igreja e entregá-los ao diabo, mas também desejar que fossem completamente cortados. Como poderíamos chamar isso, senão de verdadeira maldição?[136] Suponho que Paulo esteja fazendo alusão ao rito da circuncisão, como se dissesse aos gálatas: “Os falsos apóstolos vos obrigam a cortar o prepúcio de vossa carne. Pois bem, desejo que eles próprios sejam inteiramente cortados pela raiz.”[137] Convém responder imediatamente à pergunta se é correto que os cristãos amaldiçoem. Certamente não em todas as ocasiões nem por qualquer causa pequena. Quando, porém, as coisas chegam ao ponto de Deus e sua Palavra serem abertamente blasfemados, precisamos dizer: “Benditos sejam Deus e sua Palavra, e maldito seja tudo aquilo que se opõe a Deus e à sua Palavra, ainda que seja um apóstolo ou um anjo do céu.” (Gálatas 1:8–9)[138] Isso demonstra novamente quanta importância Paulo atribuía aos menores pontos da doutrina cristã, pois ousou amaldiçoar os falsos apóstolos, evidentemente homens de grande popularidade e influência.[139] Que direito possuímos, então, de tratar a doutrina como coisa pequena? Por mais secundário que um ponto doutrinário pareça, se for desprezado, poderá provocar a desintegração gradual das verdades de nossa salvação.[140] Façamos tudo para promover a glória e a autoridade da Palavra de Deus. Cada traço dela é maior do que o céu e a terra. O amor e a unidade cristãos não possuem autoridade para modificar a Palavra de Deus. Ousamos amaldiçoar e condenar todos os homens que corrompem a Palavra de Deus no menor ponto, “porque um pouco de fermento leveda toda a massa”. (Gálatas 5:9)[141] Paulo age corretamente ao amaldiçoar os perturbadores dos gálatas, desejando que sejam cortados e arrancados da Igreja de Deus e que sua doutrina desapareça para sempre. Semelhante maldição é dom do Espírito Santo.[142] Assim Pedro amaldiçoou Simão, o mágico: “O teu dinheiro seja contigo para perdição.” (Atos 8:20) Muitos exemplos dessa santa maldição são registrados nas Sagradas Escrituras, especialmente nos Salmos, como: “A morte os assalte, e desçam vivos à sepultura.” (Salmos 55:15)A DOUTRINA DAS BOAS OBRAS
[143] Agora seguem diversas advertências e diversos preceitos. Era costume dos apóstolos, depois de ensinarem a fé e instruírem a consciência, acrescentar exortações às boas obras, para que os crentes manifestassem uns para com os outros os deveres do amor.[144] Para evitar a aparência de que o cristianismo combate as boas obras ou se opõe ao governo civil, o apóstolo também nos exorta a nos dedicarmos às boas obras, a levarmos uma vida honesta e a conservarmos a fé e o amor uns para com os outros.[145] Isso desmentirá as acusações do mundo de que nós, cristãos, somos inimigos da decência e da paz pública. Na verdade, nós, cristãos, sabemos melhor do que todos os filósofos e legisladores do mundo o que constitui uma obra verdadeiramente boa, porque unimos o crer ao fazer.[146] Versículo 13. “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; não useis, porém, a liberdade como ocasião para a carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor.” (Gálatas 5:13)[147] Em outras palavras: “Alcançastes a liberdade por meio de Cristo, isto é, no que diz respeito à consciência, estais acima de todas as leis. Estais salvos. Cristo é vossa liberdade e vossa vida. Portanto, a Lei, o pecado e a morte não podem vos ferir nem vos conduzir ao desespero. Esta é a natureza de vossa liberdade inestimável. Cuidai, porém, para não usardes essa maravilhosa liberdade como ocasião para a carne.”[148] Satanás gosta de transformar em libertinagem a liberdade que Cristo conquistou para nós. Já em seus dias o apóstolo Judas se queixava: “Introduziram-se secretamente certos homens […] que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus.” (Judas 4)[149] A carne argumenta: “Se estamos sem a Lei, podemos satisfazer nossos desejos. Por que fazer o bem? Por que dar esmolas? Por que suportar o mal, se não existe Lei alguma que nos obrigue a fazer essas coisas?”[150] Essa atitude é bastante comum. As pessoas falam sobre liberdade cristã e depois se entregam aos desejos da avareza, do prazer, do orgulho, da inveja e de outros vícios. Ninguém deseja cumprir seus deveres. Ninguém deseja ajudar um irmão em aflição.[151] Isso às vezes me torna tão impaciente que desejo que os porcos que pisoteiam as pérolas preciosas fossem novamente colocados sob a tirania do papa. Não se consegue despertar o povo de Gomorra com o Evangelho da paz.[152] Até nós, criaturas do mundo, não cumprimos nossos deveres com tanto zelo à luz do Evangelho quanto cumpríamos anteriormente nas trevas da ignorância. Quanto mais seguros estamos da liberdade comprada por Cristo, mais negligenciamos a Palavra, a oração, a prática do bem e o sofrimento.[153] Se Satanás não nos perturbasse continuamente com provações, com a perseguição de nossos inimigos e com a ingratidão de nossos irmãos, nos tornaríamos tão descuidados e indiferentes às boas obras que, com o tempo, perderíamos nossa fé em Cristo, abandonaríamos o ministério da Palavra e procuraríamos uma vida mais fácil.[154] Muitos de nossos ministros estão começando a fazer exatamente isso. Reclamam do ministério, afirmam que não conseguem viver de seus salários e lamentam o tratamento miserável recebido daqueles que libertaram da escravidão da Lei mediante a pregação do Evangelho.[155] Esses ministros abandonam nosso pobre e difamado Cristo, envolvem-se nos negócios do mundo e buscam vantagens para si, e não para Cristo. Logo descobrirão quais serão os resultados.[156] Como o diabo arma ciladas especialmente contra aqueles que odeiam o mundo e procura nos privar da liberdade do Espírito ou transformá-la brutalmente em liberdade da carne, suplicamos aos irmãos, à maneira de Paulo, que jamais usem a liberdade do Espírito, comprada por Cristo, como desculpa para uma vida carnal ou, conforme a expressão de Pedro, “como cobertura para a malícia”. (1 Pedro 2:16)[157] Para que os cristãos não abusem de sua liberdade, o apóstolo os coloca sob a regra do amor mútuo: devem servir uns aos outros pelo amor. Que cada pessoa desempenhe diligentemente os deveres de sua posição e vocação e ajude o próximo até o limite de sua capacidade.[158] Os cristãos se alegram em ouvir e obedecer a esse ensino acerca do amor. Quando outros ouvem falar de nossa liberdade cristã, imediatamente concluem: “Se sou livre, posso fazer aquilo que desejar. Se a salvação não depende de fazer, por que deveríamos fazer alguma coisa pelos pobres?”[159] Dessa maneira grosseira, transformam a liberdade do Espírito em devassidão e libertinagem. Queremos, porém, que saibam que, se usam a vida e os bens segundo seus próprios prazeres, se não ajudam os pobres, se enganam o próximo nos negócios e procuram, por qualquer meio, agarrar e acumular tudo aquilo em que conseguem pôr as mãos, não são livres, por mais que pensem ser.[160] São escravos imundos do diabo e estão sete vezes piores do que estavam quando eram escravos do papa.[161] Quanto a nós, somos obrigados a pregar o Evangelho, que oferece a todos os homens liberdade da Lei, do pecado, da morte e da ira de Deus. Não possuímos o direito de ocultar ou revogar essa liberdade proclamada pelo Evangelho.[162] Assim, nada podemos fazer com os porcos que mergulham de cabeça na imundície da libertinagem. Fazemos aquilo que podemos: advertimo-los diligentemente a amar e ajudar o próximo. Se nossas advertências não produzem fruto, deixamo-los com Deus, que, no tempo apropriado, cuidará desses desprezadores de sua bondade.[163] Enquanto isso, consolamo-nos com o pensamento de que nosso trabalho não é desperdiçado nos verdadeiros crentes. Eles apreciam essa liberdade espiritual e estão preparados para servir aos outros por amor. Embora sejam poucos, a satisfação que nos proporcionam supera em muito o desânimo que recebemos do grande número daqueles que abusam dessa liberdade.[164] Paulo não pode ser mal interpretado, pois diz: “Irmãos, fostes chamados à liberdade.” Para que ninguém confundisse a liberdade da qual fala com a liberdade da carne, o apóstolo acrescenta a explicação: “Não useis a liberdade como ocasião para a carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor.”[165] Agora Paulo explica, com base nos Dez Mandamentos, o que significa servir uns aos outros pelo amor.[166] Versículo 14. “Porque toda a Lei se cumpre em uma só palavra, nesta: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Gálatas 5:14; Levítico 19:18)[167] Paulo costuma apresentar primeiramente o fundamento doutrinário e depois construir sobre ele o ouro, a prata e as pedras preciosas das boas obras. Não existe outro fundamento além de Jesus Cristo. (1 Coríntios 3:11–12) Sobre esse fundamento, o apóstolo levanta a estrutura das boas obras, que define nesta única sentença: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”[168] Ao acrescentar esses preceitos de amor, o apóstolo causa grande constrangimento aos falsos apóstolos, como se dissesse aos gálatas: “Já vos descrevi o que é a vida espiritual. Agora também vos ensinarei quais são as obras verdadeiramente boas. Faço isso para que compreendais que as cerimônias insensatas, tão exaltadas pelos falsos apóstolos, são muito inferiores às obras do amor cristão.”[169] Esta é a marca de todos os falsos mestres: não apenas pervertem a doutrina pura, mas também fracassam na prática do bem. Como seu fundamento está corrompido, somente podem construir madeira, feno e palha. (1 Coríntios 3:12)[170] É estranho que os falsos apóstolos, campeões tão zelosos das boas obras, jamais exigissem a obra do amor, como o amor cristão e a caridade prática de uma língua, de uma mão e de um coração dispostos a ajudar. Sua única exigência era a observância da circuncisão, dos dias, dos meses, dos anos e das épocas. Não conseguiam imaginar outras boas obras.[171] O apóstolo exorta todos os cristãos a praticarem boas obras depois de receberem a doutrina pura da fé, porque, embora tenham sido justificados, ainda possuem a velha carne, que os impede de fazer o bem.[172] Torna-se necessário, portanto, que os pregadores sinceros cultivem a doutrina das boas obras com a mesma diligência com que cultivam a doutrina da fé, pois Satanás é inimigo mortal de ambas. Contudo, a fé precisa vir primeiro, porque sem fé é impossível saber o que é uma obra agradável a Deus.[173] Ninguém pense conhecer completamente este mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Ele parece curto e fácil, mas mostrai-me o homem que consegue ensinar, aprender e cumprir perfeitamente esse mandamento.[174] Nenhum de nós presta a devida atenção a ele, insiste nele ou o pratica corretamente. Embora a consciência doa quando deixamos de cumprir esse mandamento em todos os aspectos, não ficamos esmagados por nosso fracasso em dedicar ao próximo amor sincero e fraternal.[175] As palavras “toda a Lei se cumpre em uma só palavra” contêm uma crítica aos gálatas. “Estais tão ocupados com vossas superstições e cerimônias inúteis que negligenciais a coisa mais importante: o amor.”[176] São Jerônimo afirma: “Desgastamos nosso corpo em vigílias, jejuns e trabalhos e negligenciamos o amor, a rainha de todas as boas obras.” Observai os monges, que jejuam, vigiam e realizam outras práticas com extremo cuidado. Deixar de cumprir a menor exigência de sua ordem seria para eles um crime da maior gravidade.[177] Ao mesmo tempo, ignoram tranquilamente os deveres do amor e odeiam uns aos outros até a morte. Isso, segundo pensam, não é pecado.[178] O Antigo Testamento está repleto de exemplos que mostram quanto Deus valoriza o amor. Quando Davi e seus companheiros não possuíam alimento para satisfazer a fome, comeram os pães da proposição, que eram proibidos aos leigos. (1 Samuel 21:1–6)[179] Os discípulos de Cristo quebraram a lei do sábado quando colheram espigas. (Mateus 12:1–8) O próprio Cristo, segundo a acusação dos judeus, quebrou o sábado ao curar enfermos nesse dia. (João 5:8–18) Esses acontecimentos indicam que o amor deve receber consideração acima de todas as leis e cerimônias.[180] Versículo 14. “Porque toda a Lei se cumpre em uma só palavra.” (Gálatas 5:14)[181] Podemos imaginar o apóstolo dizendo aos gálatas: “Por que ficais tão agitados por causa de cerimônias, alimentos, dias, lugares e coisas semelhantes? Abandonai essa insensatez e ouvi-me. Toda a Lei está compreendida nesta única sentença: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo.’”[182] “Deus não está particularmente interessado em cerimônias nem necessita delas. A única coisa que exige de vós é que creiais em Cristo, a quem ele enviou. Se, além da fé — que vem primeiro como o serviço mais aceitável a Deus —, desejais acrescentar leis, precisais saber que todas as leis estão compreendidas neste breve mandamento: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo.’”[183] Paulo sabe explicar a Lei de Deus. Condensa todas as leis de Moisés em uma breve sentença. A razão se escandaliza com a brevidade com que Paulo trata a Lei. Por isso, despreza a doutrina da fé e suas obras verdadeiramente boas.[184] Servir uns aos outros pelo amor significa instruir os que estão no erro, consolar os aflitos, levantar os que caíram, ajudar o próximo de todas as maneiras possíveis, suportar suas fraquezas e enfrentar dificuldades, trabalho e ingratidão na Igreja e no mundo.[185] Significa também obedecer ao governo, honrar os pais, ser paciente em casa com uma esposa que reclama e com uma família indisciplinada. Essas coisas não são consideradas boas obras. Na realidade, são obras tão excelentes que o mundo não consegue avaliá-las segundo seu verdadeiro valor.[186] A expressão é breve: “Ama o teu próximo como a ti mesmo.” O que mais precisa ser dito? Não podes encontrar exemplo melhor nem mais próximo do que tu mesmo.[187] Se desejas saber como deves amar teu próximo, pergunta a ti mesmo quanto amas a ti mesmo. Se estivesses em aflição ou perigo, ficarias feliz em receber o amor e a ajuda de todos os homens. Não necessitas de livro algum de instruções para te ensinar a amar o próximo. Basta olhar para teu próprio coração, e ele te dirá como deves amar o próximo como a ti mesmo.[188] Meu próximo é toda pessoa, especialmente aquela que necessita de minha ajuda, como Cristo explicou no décimo capítulo de Lucas. (Lucas 10:25–37) Mesmo que alguém tenha cometido algum mal contra mim ou me ferido de alguma maneira, continua sendo um ser humano de carne e sangue. Enquanto permanecer humano, deve continuar sendo objeto de nosso amor.[189] Paulo, portanto, exorta seus gálatas e, por consequência, todos os crentes a servirem uns aos outros pelo amor. “Vós, gálatas, não precisais aceitar a circuncisão. Se estais tão ansiosos por fazer boas obras, direi em uma só palavra como podeis cumprir todas as leis: ‘Pelo amor, servi-vos uns aos outros.’”[190] “Jamais vos faltarão pessoas a quem podereis fazer o bem. O mundo está cheio de pessoas que necessitam de vossa ajuda.”[191] Versículo 15. “Se, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidai para que não sejais consumidos uns pelos outros.” (Gálatas 5:15)[192] Quando a fé em Cristo é derrubada, a paz e a unidade chegam ao fim na Igreja. Surgem opiniões diferentes e dissensões acerca da doutrina e da vida, e um membro morde e devora o outro, isto é, condenam-se mutuamente até serem consumidos.[193] As Escrituras e a experiência de todas as épocas testemunham isso. As numerosas seitas atualmente existentes surgiram porque uma seita condena a outra. Quando se perde a unidade do Espírito, não pode existir acordo na doutrina ou na vida. Novos erros precisam aparecer sem medida e sem fim.[194] Para evitar a discórdia, Paulo estabelece este princípio: “Que cada pessoa cumpra seu dever na posição para a qual Deus a chamou. Ninguém se exalte acima dos outros nem critique os esforços alheios enquanto enaltece os seus próprios. Que todos sirvam pelo amor.”[195] Não é fácil ensinar a fé sem obras e, ao mesmo tempo, exigir obras. Se os ministros de Cristo não forem sábios no tratamento dos mistérios de Deus e não dividirem corretamente a Palavra, a fé e as boas obras poderão ser facilmente confundidas.[196] Tanto a doutrina da fé quanto a doutrina das boas obras precisam ser ensinadas diligentemente, mas de tal maneira que cada uma permaneça na esfera que Deus lhe concedeu. Se ensinarmos somente as obras, como fazem nossos adversários, perderemos a fé. Se ensinarmos somente a fé, as pessoas pensarão que as boas obras são desnecessárias.[197] Versículo 16. “Digo, porém: andai no Espírito e não cumprireis o desejo da carne.” (Gálatas 5:16)[198] “Não me esqueci daquilo que vos disse sobre a fé na primeira parte de minha carta. Porque vos exorto ao amor mútuo, não deveis pensar que voltei atrás em meu ensino acerca da justificação somente pela fé. Continuo possuindo a mesma opinião.”[199] “Para remover toda possibilidade de mal-entendido, acrescentei esta explicação: ‘Andai no Espírito e não cumprireis o desejo da carne.’”[200] Com esse versículo, Paulo explica como deseja que seja compreendida a sentença: “Pelo amor, servi-vos uns aos outros.” Quando vos ordeno que ameis uns aos outros, isto é aquilo que quero dizer e exigir: “Andai no Espírito.”[201] “Sei muito bem que não cumprireis perfeitamente a Lei, porque continuais sendo pecadores enquanto viverdes. Contudo, deveis procurar andar no Espírito, isto é, lutar contra a carne e seguir a direção do Espírito Santo.”[202] É bastante evidente que Paulo não havia esquecido a doutrina da justificação, pois, ao ordenar que os gálatas andem no Espírito, ao mesmo tempo nega que as boas obras possam justificar.[203] “Quando falo do cumprimento da Lei, não quero dizer que sois justificados pela Lei. Quero apenas dizer que deveis tomar o Espírito como guia e resistir à carne. Isso é o máximo que conseguireis realizar. Obedecei ao Espírito e lutai contra a carne.”[204] Versículo 16. “E não cumprireis o desejo da carne.” (Gálatas 5:16)[205] O desejo da carne não foi completamente extinto em nós. Ele se levanta repetidamente e luta contra o Espírito. Nenhuma carne, nem mesmo a do verdadeiro crente, encontra-se tão completamente sob a influência do Espírito que não venha a morder e devorar ou, pelo menos, negligenciar o mandamento do amor.[206] Diante da menor provocação, a carne se inflama, exige vingança e odeia o próximo como inimigo ou, pelo menos, não o ama tanto quanto deveria.[207] Portanto, o apóstolo estabelece esta regra do amor para os crentes: servi-vos uns aos outros pelo amor. Suportai as fraquezas de vosso irmão. Perdoai-vos mutuamente. Sem esse suportar, ceder, dar e perdoar, não pode existir unidade, porque ofender e ser ofendido são coisas inevitavelmente humanas.[208] Sempre que ficares irado contra teu irmão por qualquer motivo, reprime por meio do Espírito tuas emoções violentas. Suporta sua fraqueza e ama-o. Ele não deixa de ser teu próximo ou irmão por ter te ofendido. Pelo contrário, agora, mais do que antes, necessita de tua atenção amorosa.[209] Os escolásticos entendem o desejo da carne apenas como desejo sexual. É verdade que também os crentes são tentados pelo desejo sexual. Nem mesmo os casados estão livres desses desejos.[210] Os homens atribuem pouco valor àquilo que possuem e cobiçam aquilo que não possuem, como diz o poeta:[211] “Aquilo que mais nos proíbem, sempre desejamos;e aquilo que mais nos negam, procuramos alcançar.”[212] Não nego que o desejo da carne inclua o desejo sexual. Ele, porém, abrange muito mais. Abrange todos os desejos corruptos pelos quais os crentes são, em maior ou menor medida, contaminados: orgulho, ódio, avareza e impaciência.[213] Mais adiante, Paulo inclui entre as obras da carne até mesmo a idolatria e as heresias. O significado do apóstolo é claro:[214] “Quero que vos ameis uns aos outros. Vós, porém, não o fazeis. Na verdade, não conseguis fazê-lo perfeitamente por causa de vossa carne. Portanto, não podemos ser justificados pelas obras do amor.”[215] “Não penseis, nem por um momento, que estou voltando atrás em minha posição quanto à fé. A fé e a esperança precisam permanecer. Pela fé somos justificados; pela esperança perseveramos até o fim.”[216] “Além disso, servimos uns aos outros pelo amor, porque a verdadeira fé não permanece ociosa. Nosso amor, porém, é imperfeito. Ao vos ordenar que andeis no Espírito, indico que nosso amor não é suficiente para nos justificar.”[217] “Também não exijo que vos livreis completamente da carne, mas que a controleis e a sujeiteis.”[218] Versículo 17. “Porque a carne deseja contra o Espírito, e o Espírito contra a carne.” (Gálatas 5:17)[219] Quando Paulo declara que “a carne deseja contra o Espírito, e o Espírito contra a carne”, quer dizer que não devemos pensar, falar ou realizar as coisas às quais a carne nos incita.[220] “Sei”, diz ele, “que a carne procura o pecado. O que precisais fazer é resistir à carne por meio do Espírito. Se, porém, abandonardes a direção do Espírito pela direção da carne, cumprireis o desejo da carne e morrereis em vossos pecados.”[221] Versículo 17. “E estes se opõem um ao outro, para que não façais aquilo que desejais.” (Gálatas 5:17)[222] Esses dois líderes, a carne e o Espírito, são adversários ferozes. Acerca dessa oposição, o apóstolo escreve no sétimo capítulo da Epístola aos Romanos: “Vejo nos meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me leva cativo à lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:23–24)[223] Os escolásticos não conseguem compreender essa confissão de Paulo e se sentem obrigados a preservar sua honra. Parece-lhes inacreditável e absurdo que o vaso escolhido de Cristo possuísse a lei do pecado em seus membros.[224] Eles contornam a declaração clara do apóstolo afirmando que Paulo falava em nome dos perversos. Os perversos, porém, jamais se queixam de conflitos interiores ou do cativeiro do pecado. O pecado possui neles caminho irrestrito. Essa é a queixa pessoal de Paulo e a mesma queixa de todos os crentes.[225] Paulo nunca negou que sentisse o desejo da carne. É provável que, em determinados momentos, sentisse até mesmo os movimentos do desejo sexual, mas não há dúvida de que os reprimia rapidamente. Se em algum momento sentia ira ou impaciência, resistia a esses sentimentos pelo Espírito.[226] Não permaneceremos ociosos enquanto uma declaração tão consoladora é eliminada por interpretações. Os escolásticos, os monges e outros semelhantes lutavam somente contra o desejo sexual e se orgulhavam de uma vitória que jamais alcançaram.[227] Enquanto isso, abrigavam no peito orgulho, ódio, desprezo, confiança em si mesmos, desprezo pela Palavra de Deus, deslealdade, blasfêmia e outros desejos da carne. Contra esses pecados jamais lutavam, porque nunca os consideravam pecados.[228] Somente Cristo pode nos fornecer justiça perfeita. Portanto, precisamos sempre crer e sempre esperar em Cristo. “Todo aquele que nele crê não será envergonhado.” (Romanos 9:33)[229] Não desesperes se sentires a carne lutando contra o Espírito ou se não conseguires obrigá-la a se comportar. É impossível que sigas a direção do Espírito em todas as coisas sem interferência da carne. Estás fazendo tudo aquilo que podes quando resistes à carne e não cumpres suas exigências.[230] Quando eu era monge, pensava estar perdido para sempre sempre que sentia alguma emoção má, desejo sexual, ira, ódio ou inveja. Tentava tranquilizar minha consciência de muitas maneiras, mas nada funcionava, porque o desejo sempre retornava e não me concedia descanso.[231] Eu dizia a mim mesmo: “Permitiste este e aquele pecado, inveja, impaciência e coisas semelhantes. Tua entrada nesta santa ordem foi inútil, e todas as tuas boas obras não possuem valor algum.”[232] Se naquela época eu tivesse compreendido esta passagem — “a carne deseja contra o Espírito, e o Espírito contra a carne” —, teria poupado muitos dias de tormento pessoal. Teria dito a mim mesmo: “Martinho, jamais estarás sem pecado, porque possuis carne. Não desesperes; resiste à carne.”[233] Lembro-me de como o doutor Staupitz costumava me dizer: “Prometi a Deus mil vezes que me tornaria um homem melhor, mas jamais cumpri minha promessa. De agora em diante, não farei novos votos. A experiência me ensinou que não consigo cumpri-los. A menos que Deus seja misericordioso comigo por causa de Cristo e me conceda uma partida bendita, não conseguirei permanecer diante dele.”[234] O desespero de Staupitz era agradável a Deus. Nenhum verdadeiro crente confia em sua própria justiça, mas diz com Davi: “Não entres em juízo com teu servo, porque à tua vista nenhum vivente será justificado.” (Salmos 143:2) E novamente: “Se tu, Senhor, observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá?” (Salmos 130:3)[235] Ninguém deve desesperar da salvação apenas porque está consciente do desejo da carne. Que esteja consciente dele, desde que não se entregue a ele. A força do desejo, da ira e de outros vícios pode abalá-lo, mas não deve derrubá-lo. O pecado pode atacá-lo, mas ele não deve recebê-lo como hóspede.[236] Na verdade, quanto melhor cristão alguém for, mais experimentará o calor do conflito. Isso explica as numerosas expressões de lamento encontradas nos Salmos e em toda a Bíblia.[237] Cada pessoa deve identificar sua fraqueza particular e se proteger contra ela. Vigia e luta no Espírito contra tua fraqueza. Ainda que não consigas vencê-la completamente, ao menos deves lutar contra ela.[238] Segundo essa descrição, o santo não é alguém feito de madeira, que jamais sente desejo ou inclinação alguma da carne. O verdadeiro santo confessa sua justiça recebida de Cristo e ora para que seus pecados sejam perdoados.[239] Toda a Igreja ora pelo perdão dos pecados e confessa que crê no perdão dos pecados. Se nossos adversários lessem as Escrituras, logo descobririam que não conseguem julgar corretamente coisa alguma, seja o pecado, seja a santidade.[240] Versículo 18. “Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da Lei.” (Gálatas 5:18)[241] Alguém pode objetar: “Como não estamos debaixo da Lei? Tu mesmo afirmas, Paulo, que possuímos a carne, que luta contra o Espírito e nos conduz à sujeição.”[242] Paulo, porém, diz que não devemos permitir que isso nos perturbe. Enquanto somos guiados pelo Espírito e desejamos obedecer ao Espírito, que resiste à carne, não estamos debaixo da Lei. Os verdadeiros crentes não estão debaixo da Lei. A Lei não pode condená-los, embora sintam o pecado e o confessem.[243] Grande, portanto, é o poder do Espírito. Quando o crente é guiado pelo Espírito, a Lei não pode condená-lo, ainda que cometa pecado real. Cristo, em quem cremos, é nossa justiça. Ele não possui pecado, e a Lei não pode acusá-lo.[244] Enquanto nos apegamos a Cristo, somos guiados pelo Espírito e estamos livres da Lei. Mesmo ao ensinar as boas obras, o apóstolo não perde de vista a doutrina da justificação, mas demonstra em todos os momentos que é impossível sermos justificados pelas obras.[245] As palavras “se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da Lei” estão repletas de consolo. Às vezes, ira, ódio, impaciência, desejo sexual, medo, tristeza ou algum outro desejo da carne domina tanto uma pessoa que ela não consegue se livrar dele, por mais que tente.[246] O que ela deve fazer? Deve desesperar? De modo algum. Diga a si mesma: “Minha carne parece ter iniciado novamente uma guerra contra o Espírito. Continua, carne, e enfurece-te quanto quiseres. Não conseguirás, porém, fazer prevalecer tua vontade. Sigo a direção do Espírito.”[247] Quando a carne começa a se rebelar, o único remédio é tomar a espada do Espírito, a Palavra da salvação, e lutar contra ela. (Efésios 6:17) Se perderes de vista a Palavra, estarás indefeso contra a carne.[248] Sei disso por experiência. Fui atacado por muitas paixões violentas, mas, assim que me apoderei de alguma passagem das Escrituras, minhas tentações me deixaram. Sem a Palavra, eu não teria conseguido me defender contra a carne.[249] Versículo 19. “Ora, as obras da carne são manifestas, as quais são estas.” (Gálatas 5:19)[250] Paulo está dizendo: “Para que nenhum de vós se esconda atrás da alegação de ignorância, enumerarei primeiramente as obras da carne e, depois, também as obras do Espírito.”[251] Havia muitos hipócritas entre os gálatas, assim como existem entre nós, que fingem ser cristãos e falam muito acerca do Espírito, mas não andam segundo o Espírito; andam segundo a carne. Paulo pretende mostrar-lhes que não são tão santos quanto desejam que os outros pensem.[252] Cada período da vida possui suas próprias tentações particulares. Não existe verdadeiro crente a quem a carne não incite repetidamente à impaciência, à ira e ao orgulho. Uma coisa, porém, é ser tentado pela carne; outra coisa é se entregar à carne, cumprir suas ordens sem temor ou remorso e continuar no pecado.[253] Os cristãos também caem e praticam os desejos da carne. Davi caiu terrivelmente no adultério. Pedro também caiu gravemente ao negar Cristo. Por maiores que tenham sido esses pecados, não foram praticados para desafiar Deus, mas por fraqueza.[254] Quando seus pecados foram colocados diante deles, esses homens não continuaram obstinadamente no pecado, mas se arrependeram. Aos que pecam por fraqueza não se nega o perdão, desde que se levantem novamente e abandonem o pecado.[255] Nada é pior do que continuar no pecado. Se não se arrependem, mas permanecem obstinadamente cumprindo os desejos da carne, isso é sinal certo de que não são sinceros.[256] Nenhuma pessoa está livre das tentações. Algumas são tentadas de uma maneira; outras, de outra. Uma pessoa é mais facilmente tentada à amargura e à tristeza de espírito, à blasfêmia, à desconfiança e ao desespero. Outra é mais facilmente tentada ao desejo sexual, à ira, à inveja e à avareza.[257] Independentemente dos pecados aos quais somos inclinados, devemos andar no Espírito e resistir à carne. Aqueles que pertencem a Cristo crucificam a carne.[258] Alguns dos antigos santos trabalharam tanto para alcançar a perfeição que perderam a capacidade de sentir qualquer coisa. Quando eu era monge, frequentemente desejava ver um santo. Imaginava-o vivendo no deserto, abstendo-se de carne e bebida e sobrevivendo de raízes, ervas e água fria.[259] Eu havia adquirido dos livros dos escolásticos e dos pais da Igreja essa concepção estranha daqueles santos assustadores. Agora, porém, sabemos pelas Escrituras quem são os verdadeiros santos.[260] Não são aqueles que vivem sem se casar ou que transformam dias, alimentos, roupas e coisas semelhantes em objetos de devoção. Os verdadeiros santos são aqueles que creem que são justificados pela morte de Cristo.[261] Sempre que Paulo escreve aos cristãos de diferentes lugares, chama-os de santos, filhos e herdeiros de Deus. Todos os que creem em Cristo, homens ou mulheres, escravos ou livres, são santos; não em razão de suas próprias obras, mas em razão dos méritos de Deus, dos quais se apropriam pela fé. Sua santidade é dom, e não realização pessoal.[262] Ministros do Evangelho, autoridades públicas, pais, filhos, senhores, servos e outros semelhantes são verdadeiros santos quando recebem Cristo como sua sabedoria, justiça, santificação e redenção e cumprem os deveres de suas respectivas vocações segundo o padrão da Palavra de Deus, reprimindo pelo Espírito os desejos e as inclinações da carne. (1 Coríntios 1:30)[263] Nem todos conseguem resistir às tentações com a mesma facilidade. Imperfeições inevitavelmente aparecerão. Isso, porém, não os impede de serem santos. Suas quedas involuntárias são perdoadas quando se reerguem pela fé em Cristo.[264] Deus não permita que julguemos precipitadamente aqueles que são fracos na fé e na vida, enquanto amam a Palavra de Deus e participam da Ceia do Senhor.[265] Agradeço a Deus porque me permitiu ver aquilo que, como monge, eu desejava tão intensamente contemplar: não apenas um santo, mas muitos santos, multidões inteiras de verdadeiros santos.[266] Não a espécie de santos admirada pelos papistas, mas a espécie de santos desejada por Cristo. Tenho certeza de que sou um dos verdadeiros santos de Cristo. Sou batizado. Creio que Cristo, meu Senhor, me redimiu de todos os meus pecados e me revestiu de sua própria justiça e santidade eternas.[267] Esconder-se em cavernas e covas, possuir um corpo reduzido aos ossos ou usar o cabelo comprido, sob a ideia equivocada de que semelhantes desvios da vida normal conquistarão consideração especial no céu, não constitui vida santa.[268] A vida santa consiste em ser batizado, crer em Cristo e sujeitar a carne pelo Espírito.[269] Sentir os desejos da carne não deixa de ser proveitoso para nós. Isso nos impede de nos tornarmos vaidosos e de nos enchermos da opinião perversa acerca de nossa própria justiça pelas obras.[270] Os monges estavam tão inflados pela opinião de sua própria justiça que pensavam possuir tanta santidade que podiam vender parte dela aos outros, embora seu próprio coração os convencesse de sua falta de santidade.[271] O cristão sente a condição impura de seu coração, e isso o humilha tanto que ele não consegue confiar em suas boas obras. Por isso, dirige-se a Cristo para encontrar justiça perfeita. Isso mantém o cristão humilde.[272] Versículos 19 e 20. “Ora, as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria…” (Gálatas 5:19–20)[273] Paulo não enumera todas as obras da carne, mas apenas algumas. Primeiramente, menciona várias espécies de desejos carnais, como adultério, fornicação, lascívia e outras semelhantes.[274] O desejo sexual, porém, não é a única obra da carne. Por isso, ele também inclui entre as obras da carne a idolatria, a feitiçaria, o ódio e coisas semelhantes. Esses termos são tão conhecidos que não exigem explicações longas.
IDOLATRIA
[275] A melhor religião e a devoção mais fervorosa, sem Cristo, são pura idolatria. Foi considerado ato santo quando os monges, em suas celas, meditavam acerca de Deus e de suas obras e, em êxtase religioso, se ajoelhavam para orar e choravam de alegria. Paulo, porém, chama isso simplesmente de idolatria.[276] Toda religião que adora a Deus ignorando ou desprezando sua Palavra e sua vontade é idolatria. As pessoas podem pensar em Deus, em Cristo e nas coisas celestiais, mas fazem isso segundo sua própria maneira, e não segundo a Palavra de Deus.[277] Imaginam que suas roupas, seu modo de vida e sua conduta são santos e agradáveis a Cristo. Não apenas esperam apaziguar Cristo pelo rigor de sua vida, mas também esperam ser recompensadas por ele por causa de suas boas ações.[278] Consequentemente, seus melhores pensamentos “espirituais” são pensamentos perversos. Toda adoração a Deus e toda religião sem Cristo são idolatria. Somente em Cristo Deus se agrada. (Mateus 3:17)[279] Já disse anteriormente que as obras da carne são manifestas. A idolatria, porém, apresenta aparência tão boa e se comporta de maneira tão espiritual que somente os verdadeiros crentes conseguem reconhecer sua falsidade.FEITIÇARIA
[280] Esse pecado era muito comum antes de aparecer a luz do Evangelho. Quando eu era criança, havia muitas bruxas e feiticeiros que “enfeitiçavam” o gado e as pessoas, especialmente as crianças, e causavam muitos males.[281] Agora que o Evangelho está presente, não se ouve tanto acerca disso, porque o Evangelho expulsa o diabo. Atualmente, ele enfeitiça as pessoas de maneira pior, por meio da feitiçaria espiritual.[282] A feitiçaria é uma forma de idolatria. Assim como antigamente as bruxas enfeitiçavam o gado e os homens, os idólatras — isto é, todos os que confiam em sua própria justiça — procuram enfeitiçar Deus e apresentá-lo como alguém que justifica os homens não pela graça mediante a fé em Cristo, mas pelas obras escolhidas pelos próprios homens.[283] Eles enfeitiçam e enganam a si mesmos. Se permanecerem em seus pensamentos perversos acerca de Deus, morrerão em sua idolatria.SEITAS
[284] Por “seitas”, Paulo entende aqui as heresias. Sempre existiram heresias na Igreja. Que unidade de fé pode existir entre todos os diferentes monges e todas as diferentes ordens? Absolutamente nenhuma.[285] No papado não existe unidade do Espírito nem concordância das mentes, mas grande dissensão. Não existe conformidade na doutrina, na fé e na vida.[286] Entre os cristãos evangélicos, por outro lado, são comuns a todos a Palavra, a fé, a religião, os sacramentos, o culto, Cristo, Deus, o coração e a mente. Essa unidade não é perturbada pelas diferenças exteriores de posição ou ocupação.EMBRIAGUEZ E GLUTONARIA
[287] Paulo não afirma que comer e beber sejam obras da carne, mas a falta de moderação no comer e no beber — vício comum em nossos dias — é obra da carne.[288] Aqueles que se entregam aos excessos precisam saber que não são espirituais, mas carnais. Contra eles é pronunciada a sentença de que não herdarão o Reino dos céus.[289] Paulo deseja que os cristãos evitem a embriaguez e a glutonaria e vivam de maneira moderada e sóbria, para que o corpo não se torne fraco e sensual.[290] Versículo 21. “Acerca das quais vos previno, como já vos preveni anteriormente, que aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus.” (Gálatas 5:21)[291] Essa é uma declaração severa, mas muito necessária para os falsos cristãos e hipócritas que falam muito acerca do Evangelho, da fé e do Espírito, mas vivem segundo a carne.[292] Essa dura sentença é dirigida principalmente aos hereges, que estão cheios de importância própria, para que sejam assustados e comecem a luta do Espírito contra a carne.[293] Versículos 22 e 23. “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio.” (Gálatas 5:22–23)[294] O apóstolo não fala das “obras” do Espírito como falou das obras da carne, mas atribui a essas virtudes cristãs um nome superior. Chama-as de fruto do Espírito.AMOR
[295] Teria sido suficiente mencionar apenas o fruto do amor, pois o amor abrange todos os frutos do Espírito. Em 1 Coríntios 13, Paulo atribui ao amor todos os frutos do Espírito: “O amor é paciente e bondoso”, e assim por diante. (1 Coríntios 13:4–7)[296] Aqui, ele coloca o amor separadamente entre os outros frutos do Espírito para recordar aos cristãos que devem amar uns aos outros, “preferindo-se mutuamente em honra”, e considerar os outros superiores a si mesmos, porque possuem Cristo e o Espírito Santo dentro deles. (Romanos 12:10; Filipenses 2:3)ALEGRIA
[297] Alegria significa doces pensamentos acerca de Cristo, hinos e salmos melodiosos, louvores e ações de graças, pelos quais os cristãos instruem, animam e revigoram a si mesmos.[298] Deus não gosta da dúvida e do abatimento. Odeia a doutrina sombria e os pensamentos tristes e melancólicos. Deus gosta de corações alegres. Não enviou seu Filho para nos encher de tristeza, mas para alegrar nosso coração.[299] Por essa razão, os profetas, os apóstolos e o próprio Cristo nos exortam e até nos ordenam que nos alegremos e exultemos.[300] “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que teu Rei vem a ti.” (Zacarias 9:9) Nos Salmos somos repetidamente exortados a nos alegrarmos no Senhor. Paulo diz: “Alegrai-vos sempre no Senhor.” (Filipenses 4:4) Cristo diz: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão escritos nos céus.” (Lucas 10:20)PAZ
[301] Paz para com Deus e para com os homens. Os cristãos devem ser pacíficos e tranquilos. Não devem ser contenciosos nem odiosos, mas atenciosos e pacientes. Não pode existir paz sem longanimidade; por isso, Paulo apresenta essa virtude em seguida.LONGANIMIDADE
[302] Longanimidade é a qualidade que capacita uma pessoa a suportar adversidade, ofensa e repreensão e a esperar pacientemente pela melhora daqueles que lhe fizeram mal.[303] Quando o diabo percebe que não consegue vencer determinadas pessoas pela força, procura vencê-las com o passar do tempo. Sabe que somos fracos e não conseguimos suportar coisa alguma durante muito tempo. Por isso, repete sua tentação continuamente até alcançar sucesso.[304] Para resistirmos aos seus ataques constantes, precisamos ser longânimos e esperar pacientemente que o diabo se canse de seu jogo.BENIGNIDADE
[305] Benignidade na conduta e na vida. Os verdadeiros seguidores do Evangelho não devem ser ásperos e amargos, mas benignos, mansos, corteses e suaves ao falar, de modo a encorajar os outros a procurarem sua companhia.[306] A benignidade consegue ignorar as falhas das outras pessoas e cobri-las. Está sempre disposta a ceder aos outros. Consegue conviver com pessoas atrevidas e difíceis, segundo o antigo provérbio pagão: “Deves conhecer os costumes de teus amigos, mas não deves odiá-los.”[307] Nosso Salvador Jesus Cristo era uma pessoa assim benigna, como o Evangelho o apresenta. Acerca de Pedro se registra que chorava sempre que se lembrava da doce benignidade de Cristo em seu contato cotidiano com as pessoas.[308] A benignidade é uma virtude excelente e muito útil em todas as áreas da vida.BONDADE
[309] Uma pessoa é bondosa quando está disposta a ajudar os outros em suas necessidades.FÉ
[310] Ao incluir a fé entre os frutos do Espírito, Paulo evidentemente não se refere aqui à fé em Cristo, mas à fidelidade e confiança nas relações com os homens.[311] Essa fé não suspeita das pessoas, mas acredita no melhor acerca delas. Naturalmente, quem possui semelhante confiança será enganado, mas deixa isso passar. Está disposto a acreditar em todos, embora não confie indiscriminadamente em todos.[312] Onde essa virtude está ausente, os homens são desconfiados, atrevidos e obstinados; não acreditam em coisa alguma nem cedem a ninguém. Não importa quão bem alguém fale ou faça alguma coisa, encontrarão defeito; se não satisfizeres seus caprichos, jamais conseguirás agradá-los.[313] É completamente impossível conviver com pessoas assim. Essa confiança nos homens, portanto, é muito necessária. Que espécie de vida teríamos se uma pessoa não pudesse acreditar em outra?MANSIDÃO
[314] A pessoa é mansa quando não se ira rapidamente. Muitas coisas acontecem diariamente para provocar a ira, mas o cristão vence sua ira pela mansidão.DOMÍNIO PRÓPRIO
[315] Os cristãos devem levar uma vida sóbria e casta. Não devem ser adúlteros, fornicadores ou sensuais. Não devem ser briguentos nem bêbados. Nos capítulos primeiro e segundo da Epístola a Tito, o apóstolo adverte bispos, mulheres jovens e pessoas casadas a serem castos e puros. (Tito 1:7–8; 2:2–6)[316] Versículo 23. “Contra essas coisas não existe Lei.” (Gálatas 5:23)[317] Evidentemente, existe uma Lei, mas ela não se aplica àqueles que produzem esses frutos do Espírito. “A Lei não foi instituída para o justo.” (1 Timóteo 1:9)[318] O verdadeiro cristão conduz a si mesmo de tal maneira que não necessita de Lei alguma para adverti-lo ou restringi-lo. Obedece à Lei sem coerção. A Lei não diz respeito a ele. No que lhe concerne, não precisaria existir Lei alguma.[319] Versículo 24. “E os que pertencem a Cristo crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos.” (Gálatas 5:24)[320] Os verdadeiros crentes não são hipócritas. Crucificam a carne com seus desejos e suas inclinações perversas.[321] Como ainda não se despiram completamente da carne pecaminosa, continuam inclinados ao pecado. Não temem nem amam a Deus como deveriam. Podem ser provocados à ira, à inveja, à impaciência, ao desejo sexual e a outras emoções.[322] Não praticarão, porém, as coisas às quais a carne os incita. Crucificam a carne com seus desejos e inclinações perversas mediante o jejum, o exercício e, acima de tudo, mediante o andar no Espírito.[323] Resistir à carne dessa maneira significa pregá-la na cruz. Embora a carne ainda esteja viva, não consegue facilmente agir segundo seus desejos, porque está amarrada e pregada na cruz.[324] Versículo 25. “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito.” (Gálatas 5:25)[325] Pouco antes, o apóstolo havia condenado aqueles que são invejosos e iniciam heresias e divisões. Como se tivesse esquecido que já os havia censurado, o apóstolo volta a repreender aqueles que provocam e invejam os outros.[326] Uma única referência a eles não seria suficiente? Ele repete sua advertência para enfatizar a perversidade do orgulho que havia causado toda a perturbação nas igrejas da Galácia e sempre causou dificuldades intermináveis à Igreja de Cristo.[327] Em sua Epístola a Tito, o apóstolo afirma que um homem dominado pela vanglória não deve ser ordenado ministro. (Tito 1:7) O orgulho, como observa Santo Agostinho, é a mãe de todas as heresias.[328] A vanglória sempre foi um veneno comum no mundo. Não existe aldeia tão pequena que não contenha alguém que deseje ser considerado mais sábio ou melhor do que os demais. Aqueles que foram mordidos pelo orgulho geralmente se apoiam em sua reputação de conhecimento e sabedoria.[329] A vanglória não é tão prejudicial em uma pessoa particular ou mesmo em uma autoridade quanto em um ministro. Quando o veneno da vanglória entra na Igreja, não se pode imaginar a destruição que causa.[330] Pode-se discutir acerca de conhecimento, arte, dinheiro, países e coisas semelhantes sem provocar dano especial. Não se pode, porém, discutir acerca de salvação e condenação, vida eterna e morte eterna sem causar grave dano à Igreja.[331] Não é de admirar que Paulo exorte todos os ministros da Palavra a se protegerem contra esse veneno. Ele escreve: “Se vivemos no Espírito.” Onde o Espírito está, os homens recebem novas disposições.[332] Aqueles que anteriormente eram vangloriosos, rancorosos e invejosos tornam-se humildes, benignos e pacientes. Esses homens não procuram a própria glória, mas a glória de Deus. Não provocam os outros à ira ou à inveja, mas preferem os outros a si mesmos.[333] Embora esse orgulho abominável seja tão perigoso para a Igreja, nada é mais comum. O problema dos ministros de Satanás é considerarem o ministério um degrau para a fama e a glória. Aí se encontra a semente de todas as espécies de dissensão.[334] Como Paulo sabia que a vanglória dos falsos apóstolos havia causado dificuldades intermináveis às igrejas da Galácia, faz questão de reprimir esse vício abominável.[335] Durante sua ausência, os falsos apóstolos começaram a agir na Galácia. Fingiam ter mantido relações íntimas com os apóstolos, enquanto Paulo jamais havia visto Cristo pessoalmente nem possuído muito contato com os demais apóstolos.[336] Por causa disso, desprezaram Paulo, rejeitaram sua doutrina e exaltaram a própria. Dessa maneira, perturbaram os gálatas e provocaram discussões entre eles, até que começassem a provocar e invejar uns aos outros.[337] Isso demonstra que nem os falsos apóstolos nem os gálatas andavam segundo o Espírito, mas segundo a carne.[338] O Evangelho não existe para nos engrandecer. Existe para engrandecer Cristo e a misericórdia de Deus. Oferece aos homens dons eternos que não são fabricados por nós. Que direito possuímos de receber louvor e glória por dons que não produzimos?[339] Não é de admirar que Deus, em sua graça especial, submeta os ministros do Evangelho a toda espécie de aflição; de outro modo, não conseguiriam enfrentar essa fera repulsiva chamada vanglória.[340] Se nenhuma perseguição, cruz ou repreensão acompanhasse a doutrina do Evangelho, mas apenas louvor e reputação, os ministros do Evangelho seriam sufocados pelo orgulho.[341] Paulo possuía o Espírito de Cristo. Apesar disso, foi-lhe dado um mensageiro de Satanás para esbofeteá-lo, para que não se exaltasse por causa da grandeza de suas revelações. (2 Coríntios 12:7)[342] A opinião de Santo Agostinho é apropriada: “Se um ministro do Evangelho é elogiado, está em perigo; se é desprezado, também está em perigo.”[343] Os ministros do Evangelho devem ser homens que não sejam facilmente afetados pelo louvor ou pela crítica, mas simplesmente proclamem o benefício e a glória de Cristo e procurem a salvação das almas.[344] Sempre que fores elogiado, lembra-te de que não és tu quem está sendo elogiado, mas Cristo, a quem pertence todo louvor. Quando pregas a Palavra de Deus em sua pureza e também vives de acordo com ela, isso não é obra tua, mas obra de Deus.[345] Quando as pessoas te elogiam, na verdade pretendem elogiar Deus em ti. Quando compreendes isso — e deves compreender, porque “que possuis que não tenhas recebido?” —, não te elogiarás a ti mesmo e, por outro lado, não alimentarás o pensamento de abandonar o ministério quando fores insultado, repreendido ou perseguido. (1 Coríntios 4:7)[346] É realmente bondade de Deus enviar em nosso caminho tanta infâmia, repreensão, ódio e maldição, para impedir que nos orgulhemos dos dons de Deus existentes em nós. Precisamos de uma pedra de moinho ao redor do pescoço para nos manter humildes.[347] Existem alguns de nosso lado que nos amam e reverenciam por causa do ministério da Palavra; para cada um deles, porém, existem cem do outro lado que nos odeiam e perseguem.[348] O Senhor é nossa glória. Reconhecemos que os dons que possuímos são dons de Deus, concedidos para o bem da Igreja de Cristo. Portanto, não nos orgulhamos deles.[349] Sabemos que muito será exigido daqueles a quem muito foi dado, e menos daqueles a quem pouco foi dado. (Lucas 12:48) Também sabemos que Deus não faz acepção de pessoas. Um simples trabalhador de fábrica que realiza fielmente seu trabalho agrada a Deus tanto quanto um ministro da Palavra.[350] Versículo 26. “Não sejamos desejosos de vanglória.” (Gálatas 5:26)[351] Desejar vanglória é desejar mentiras, porque, quando uma pessoa elogia outra, conta mentiras. O que existe em qualquer pessoa que mereça louvor?[352] A situação é diferente quando o ministério é elogiado. Não devemos apenas desejar que as pessoas elogiem o ministério do Evangelho, mas também fazer tudo aquilo que pudermos para tornar o ministério digno de louvor, porque isso o tornará mais eficaz.[353] Paulo adverte os romanos a não permitirem que o cristianismo caia em descrédito: “Não seja, pois, blasfemado o vosso bem.” (Romanos 14:16) Também suplicou aos coríntios que não dessem “motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado”. (2 Coríntios 6:3)[354] Quando as pessoas elogiam nosso ministério, não elogiam nossa pessoa, mas Deus.[355] Versículo 26. “Provocando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.” (Gálatas 5:26)[356] Esse é o efeito perverso da vanglória. Aqueles que ensinam erros provocam os outros. Quando os demais desaprovam e rejeitam sua doutrina, os mestres do erro, por sua vez, ficam irados, e então surgem conflitos e perturbações.[357] Os sectários nos odeiam furiosamente porque não aprovamos seus erros. Não os atacamos diretamente. Apenas chamamos a atenção para determinados abusos existentes na Igreja.[358] Eles não gostaram disso e ficaram ressentidos conosco porque seu orgulho foi ferido. Desejam ser os únicos governantes da Igreja.
