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PARTE I — Herodes e a morte de João Batista

MATEUS 14:1
[PRECEITO]
Naquele tempo [naquela ocasião, naquele período], Herodes, o tetrarca [governante de uma tetrarquia, dirigente territorial], ouviu [recebeu notícia, tomou conhecimento de] a fama [o relato, a notícia, o que se dizia] de Jesus.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Naquele tempo, Herodes, o tetrarca, ouviu a notícia a respeito de Jesus.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Naquele período, Herodes, o tetrarca, ouviu falar da fama de Jesus.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Naquele tempo, Herodes, o tetrarca, ouviu a fama de Jesus.
[PESHITTA SIRÍACA]
Naquele tempo, Herodes, o tetrarca, ouviu o relato [a fama] sobre Jesus.

O grego utiliza ἀκοή, palavra relacionada à audição, ao relato e à notícia recebida. Tetrarca é um título de governo; não deve ser substituído silenciosamente por “rei”, título que aparecerá no versículo 9.

MATEUS 14:2
[PRECEITO]
E disse aos seus paîdes [servos, servidores, auxiliares, rapazes]: Este é João, o Batista [aquele que batiza]; ele próprio foi levantado [ressuscitado, erguido] dentre os mortos [da região dos mortos], e por isso os poderes [atos de poder, forças, obras poderosas] atuam [operam, estão em ação] nele [por meio dele].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E disse aos seus servos: Este é João Batista; ele foi levantado dentre os mortos, e por isso os poderes atuam nele.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E disse aos seus servidores: Este é João Batista; ele ressuscitou dentre os mortos, e por isso as obras poderosas operam nele.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E disse aos seus servos: Este é João Batista; ele próprio ressuscitou dentre os mortos, e por isso os poderes operam nele.
[PESHITTA SIRÍACA]
E disse aos seus servidores: Este é João, o Batista; ele se levantou da morada dos mortos, e por isso obras de poder são realizadas por ele.

O substantivo παῖς, aqui no plural, é o mesmo que analisamos em Mateus 8:6 e 8:13. Neste contexto, “servidores” ou “auxiliares” é particularmente adequado. A declaração de que João ressuscitou pertence à fala de Herodes, não é apresentada como uma identificação verdadeira de Jesus pelo narrador. Δυνάμεις significa literalmente “poderes” ou “atos poderosos”.

MATEUS 14:3
[PRECEITO]
Pois Herodes, tendo prendido [capturado, detido] João, amarrou-o [atou-o, pô-lo em correntes] [amarrou] e o colocou [encerrou, lançou] na prisão [cárcere, lugar de detenção], por causa de Herodias, a mulher [esposa] de Filipe [sem o nome Filipe, em determinados testemunhos], seu irmão.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Pois Herodes, tendo prendido João, amarrou-o e o colocou na prisão, por causa de Herodias, esposa de Filipe, seu irmão.
[CÓDICE VATICANO — GREGO, PRIMEIRA MÃO]
Pois Herodes prendeu João, amarrou-o e o encerrou na prisão por causa de Herodias, esposa de Filipe, irmão dele.
A primeira mão do Vaticano não apresenta o pronome expresso “o” imediatamente depois de “amarrou”, embora a referência continue sendo João.
[CÓDICE BEZA — GREGO]
Pois Herodes prendeu João, amarrou-o e o manteve na prisão por causa de Herodias, esposa de seu irmão. [Sem o nome “Filipe”.][TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
Pois Herodes, tendo prendido João, amarrou-o e o colocou na prisão por causa de Herodias, esposa de Filipe, seu irmão.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Pois Herodes havia prendido João e o amarrado, e o colocara na prisão por causa de Herodias, esposa de seu irmão. [Sem “Filipe”.][PESHITTA SIRÍACA]
Pois Herodes havia capturado João, prendido-o e lançado-o na casa dos prisioneiros, por causa de Herodias, esposa de Filipe, seu irmão.

Há diferenças documentais reais na posição e presença de pronomes e na construção para colocar João na prisão. Mais importante: “Filipe” está presente no texto grego crítico e na Peshitta, mas ausente do Beza e da Vulgata Clementina consultada. Não é adequado acrescentar o nome ao texto latino como se ele aparecesse nessa edição.

MATEUS 14:4
[PRECEITO]
Pois João lhe dizia [continuava dizendo, havia dito]: Não te é permitido [não é lícito, não tens autorização] tê-la [mantê-la] como mulher [esposa, tua mulher].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Pois João lhe dizia: Não te é permitido tê-la.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Porque João lhe dizia: Não te é lícito tê-la.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Pois João lhe dizia: Não te é permitido tê-la.
[PESHITTA SIRÍACA]
Pois João havia dito a ele: Não é permitido que ela seja tua esposa.

O imperfeito grego ἔλεγεν permite “dizia” ou “vinha dizendo”; o texto não obriga a reduzir a repreensão a uma única ocasião. A Peshitta explicita o vínculo matrimonial, apresentando “ser tua esposa”, onde o grego expressa literalmente “tê-la”.

MATEUS 14:5
[PRECEITO]
E, querendo [desejando, tendo intenção de] matá-lo [dar-lhe a morte], temeu [teve medo de] a multidão [o povo], porque o consideravam [tinham-no, reconheciam-no] como profeta [porta-voz profético].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E, querendo matá-lo, teve medo da multidão, porque o consideravam profeta.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E, desejando matá-lo, temeu o povo, pois o tinham por profeta.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E, querendo dar-lhe a morte, temeu o povo, porque o consideravam profeta.
[PESHITTA SIRÍACA]
Ele desejava matá-lo, mas temia as pessoas, pois o reconheciam como profeta.
O texto atribui a Herodes a intenção de matar João e o medo da reação popular. O grego utiliza ὄχλος, “multidão”, e προφήτης, “profeta”. O versículo não informa que Herodes tenha abandonado definitivamente sua intenção.

MATEUS 14:6
[PRECEITO]
Mas, durante [quando acontecia, ao ser celebrado] o aniversário [a celebração do nascimento] de Herodes, a filha de Herodias dançou [realizou uma dança] no meio [diante dos presentes, entre os convidados] e agradou [deu prazer, satisfez] a Herodes.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Mas, quando aconteceu a celebração do aniversário de Herodes, a filha de Herodias dançou no meio dos presentes e agradou a Herodes.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
Mas, enquanto era celebrado o aniversário de Herodes, a filha de Herodias dançou diante dos presentes e agradou a Herodes.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Mas, no dia do aniversário de Herodes, a filha de Herodias dançou no meio dos presentes e agradou a Herodes.
[PESHITTA SIRÍACA]
Quando chegou o aniversário de Herodes, a filha de Herodias dançou diante dos convidados reclinados à mesa e agradou a Herodes.

O grego crítico utiliza uma construção equivalente a “quando aconteciam as celebrações de aniversário”, enquanto a tradição bizantina emprega uma construção relativa à celebração em andamento. A Peshitta explicita os convidados reclinados, de acordo com o ambiente do banquete. Mateus não nomeia a filha de Herodias neste versículo; o nome Salomé provém de outras fontes históricas.

MATEUS 14:7
[PRECEITO]
Por isso [em consequência disso], mediante juramento [sob juramento, com promessa juramentada], prometeu-lhe [comprometeu-se a] dar tudo o que [aquilo que, qualquer coisa que] ela pedisse [solicitasse].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Por isso, mediante juramento, prometeu-lhe dar aquilo que ela pedisse.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Por essa razão, com um juramento, comprometeu-se a dar-lhe qualquer coisa que solicitasse.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Por isso, com juramento, prometeu dar-lhe tudo o que ela pedisse.
[PESHITTA SIRÍACA]
Por esse motivo, jurou-lhe que lhe daria qualquer coisa que pedisse.

O verbo ὁμολογέω aqui possui o sentido de assumir um compromisso ou declarar uma promessa. O texto não estabelece expressamente um limite monetário para o pedido. Ὅρκος significa juramento.

MATEUS 14:8
[PRECEITO]
Ela, porém, tendo sido instruída [orientada, induzida, influenciada] por sua mãe, disse: Dá-me aqui [entrega-me neste lugar], sobre um prato [travessa, bandeja], a cabeça de João, o Batista.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Ela, tendo sido orientada por sua mãe, disse: Dá-me aqui, sobre um prato, a cabeça de João Batista.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Ela, instruída previamente por sua mãe, disse: Dá-me aqui, numa travessa, a cabeça de João, o Batista.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Ela, advertida [instruída previamente] por sua mãe, disse: Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista.
[PESHITTA SIRÍACA]
Mas ela, por ter sido instruída por sua mãe, disse: Dá-me aqui, numa travessa, a cabeça de João Batista.

Προβιβάζω, na forma passiva utilizada, expressa orientar antecipadamente ou instruir. A frase identifica expressamente a influência de Herodias na formulação do pedido. Πίναξ pode designar prato, travessa ou bandeja.

MATEUS 14:9
[PRECEITO]
E o rei [governante chamado rei no relato], entristecido [afligido, pesaroso], por causa dos juramentos [do juramento] e dos que estavam reclinados com ele [convidados à mesa, participantes do banquete], ordenou [mandou] que fosse dado [que lhe fosse entregue o que pedira].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E o rei, entristecido, por causa dos juramentos e dos que estavam reclinados à mesa com ele, ordenou que lhe fosse dado.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
E o rei ficou entristecido; contudo, por causa dos juramentos e dos convidados à mesa, mandou que fosse entregue.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E o rei ficou entristecido; mas, por causa do juramento e daqueles que estavam reclinados com ele, ordenou que fosse dado.
[PESHITTA SIRÍACA]
E o rei ficou profundamente perturbado [entristecido]; porém, por causa do juramento e dos convidados, ordenou que lhe fosse concedido o pedido.

O grego crítico utiliza λυπηθείς, particípio passivo, “tendo ficado entristecido”, e ὅρκους, plural, “juramentos”. A tradição bizantina utiliza uma forma verbal finita para o pesar, e a Vulgata Clementina apresenta o juramento no singular. A tristeza narrada não equivale, por si só, a arrependimento ou abandono da decisão.

MATEUS 14:10
[PRECEITO]
E, tendo enviado [mandado alguém, expedido uma ordem], decapitou [fez decapitar, mandou cortar a cabeça de] João na prisão [no cárcere, no lugar de detenção].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E, tendo mandado alguém, fez decapitar João na prisão.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E mandou que João fosse decapitado na prisão.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E enviou [deu ordem] e decapitou João na prisão.
[PESHITTA SIRÍACA]
E enviou uma ordem para que a cabeça de João fosse cortada na casa dos prisioneiros.

O grego ἀπεκεφάλισεν é verbo ativo: literalmente, “decapitou”. Como o texto identifica Herodes como autoridade responsável, “mandou decapitar” esclarece o funcionamento narrativo de uma execução ordenada. Não devemos deduzir que Herodes tenha empunhado pessoalmente a arma.

MATEUS 14:11
[PRECEITO]
E a cabeça dele foi trazida [transportada, apresentada] sobre um prato [travessa, bandeja] e entregue [dada] à menina [moça, jovem garota]; e ela a levou [transportou, entregou] à sua mãe.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E sua cabeça foi trazida sobre uma travessa e entregue à menina, e ela a levou à sua mãe.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E a cabeça dele foi apresentada num prato e dada à jovem, que a entregou à mãe.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E sua cabeça foi trazida num prato e entregue à garota, e ela a levou à mãe.
[PESHITTA SIRÍACA]
E a cabeça dele foi trazida numa travessa e entregue à menina, e ela própria a levou até sua mãe.

O substantivo grego κοράσιον designa menina ou moça jovem. A frase não informa uma idade exata. A Peshitta explicita a participação pessoal da filha ao levar o prato à mãe, mas não acrescenta o nome da jovem.

MATEUS 14:12
Este versículo apresenta uma diferença real entre cadáver e corpo nas tradições gregas.
[PRECEITO]
E, aproximando-se [tendo chegado], os discípulos dele [de João] levaram [retiraram, recolheram] o cadáver [corpo sem vida; corpo] e o sepultaram [enterraram]; e, tendo ido [partido], anunciaram [relataram, comunicaram] a Jesus.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E os discípulos de João aproximaram-se, levaram o cadáver e o sepultaram; depois foram e relataram a Jesus.
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
E, vindo os seus discípulos, recolheram o cadáver e o sepultaram; depois foram e anunciaram a Jesus.
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
E seus discípulos aproximaram-se, levaram o cadáver e o sepultaram; tendo ido, contaram a Jesus.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
E os discípulos dele vieram, tomaram o corpo e o sepultaram; depois foram e deram a notícia a Jesus.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E, aproximando-se os discípulos dele, levaram seu corpo e o sepultaram; depois foram anunciar a Jesus.
[PESHITTA SIRÍACA]
Os discípulos de João aproximaram-se, recolheram seu cadáver, sepultaram-no e foram contar o ocorrido a Jesus.

O Sinaítico, o Vaticano e o texto crítico apresentam πτῶμα, cadáver; a tradição bizantina traz σῶμα, corpo. Outra diferença é o pronome final do sepultamento: algumas edições apresentam uma forma equivalente a “sepultaram-no”, outras se referem diretamente ao cadáver como objeto neutro.

PARTE II — A compaixão de Jesus e a alimentação das multidões

MATEUS 14:13
[PRECEITO]
E Jesus, tendo ouvido [ao ouvir, depois de tomar conhecimento], retirou-se [afastou-se, partiu] dali em um barco [numa embarcação], para um lugar deserto [isolado, pouco habitado], à parte [sozinho, em particular]; e as multidões [os grupos de pessoas], tendo ouvido [tomado conhecimento], seguiram-no [foram atrás dele] a pé [por terra, pelo caminho terrestre], partindo das cidades.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Quando Jesus ouviu, retirou-se dali de barco para um lugar deserto, à parte; e as multidões, ao tomarem conhecimento, o seguiram a pé, vindas das cidades.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E Jesus, tendo ouvido, afastou-se daquele lugar numa embarcação para uma região deserta, em particular; e as multidões, sabendo disso, foram atrás dele por terra, desde as cidades.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Tendo ouvido isso, Jesus retirou-se dali numa pequena embarcação para um lugar deserto, separado dos demais; mas as multidões, quando ouviram, seguiram-no a pé desde as cidades.
[PESHITTA SIRÍACA]
Jesus, ao ouvir, retirou-se daquele lugar de barco, sozinho, para uma região deserta. As multidões souberam e foram atrás dele por terra, saindo das cidades.

O grego ἔρημος τόπος indica lugar ermo ou deserto; não exige que fosse um deserto arenoso. A expressão κατ’ ἰδίαν indica separação ou privacidade. O versículo não explicita exatamente qual informação Jesus ouviu; a relação com a morte de João é estabelecida pela sequência narrativa.

MATEUS 14:14
[PRECEITO]
E, tendo saído [vindo para fora, desembarcado], [Jesus] viu uma grande multidão [numerosas pessoas], e compadeceu-se [sentiu profunda compaixão, foi movido interiormente] deles, e curou [tratou, restabeleceu] os enfermos [doentes, debilitados] dentre eles.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E, tendo saído, viu uma grande multidão, compadeceu-se deles e curou seus enfermos.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
E Jesus, tendo saído, viu uma grande multidão, teve compaixão deles e curou seus doentes.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E, saindo, viu uma multidão numerosa, compadeceu-se deles e curou os que estavam debilitados.
[PESHITTA SIRÍACA]
E Jesus saiu, viu numerosas multidões, sentiu compaixão por elas e curou suas enfermidades [seus enfermos].

O texto crítico não repete “Jesus” imediatamente depois de “tendo saído”, enquanto a tradição bizantina e a Peshitta o explicitam. O verbo σπλαγχνίζομαι descreve compaixão profunda. O texto fala dos enfermos da multidão; não especifica quais doenças estavam presentes.

MATEUS 14:15
[PRECEITO]
Mas, tendo chegado a tarde [ao entardecer, quando anoitecia], os discípulos [seus discípulos] aproximaram-se dele, dizendo: Este lugar é deserto [isolado, pouco habitado], e a hora [o tempo, o momento] já passou [já está avançada]; despede [dispensa, deixa ir] as multidões, para que partam [vão] às aldeias [vilas, povoados] e comprem [adquiram] alimentos [comida, provisões] para si.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Ao chegar a tarde, os discípulos aproximaram-se dele e disseram: O lugar é deserto, e a hora já passou; despede as multidões para que vão às aldeias e comprem comida para si.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
Quando chegou a tarde, seus discípulos vieram até ele e disseram: Este lugar é deserto, e o tempo já passou; despede as multidões para que partam aos povoados e comprem alimentos.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Tendo chegado a tarde, seus discípulos aproximaram-se dele, dizendo: O lugar é deserto, e o tempo já passou; dispensa as multidões, para que vão às aldeias e comprem comida para si.
[PESHITTA SIRÍACA]
Quando já era tarde, seus discípulos aproximaram-se e disseram: O lugar é deserto, e a hora passou; despede estas multidões para que se dirijam aos povoados e comprem seu alimento.

O texto grego crítico apresenta “os discípulos”; a tradição bizantina e a Vulgata explicitam “seus discípulos”. Βρώματα são alimentos ou coisas de comer. O versículo não determina quantas aldeias havia nas proximidades.

MATEUS 14:16
[PRECEITO]
Jesus, porém, lhes disse: Eles não têm necessidade [não precisam] de ir [partir, sair daqui]; dai-lhes vós [vós mesmos dai-lhes] de comer [alimento para comer].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Jesus lhes disse: Eles não precisam partir; dai-lhes vós mesmos de comer.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Jesus, porém, respondeu: Não têm necessidade de ir embora; dai-lhes vós de comer.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Mas Jesus lhes disse: Não precisam ir; dai-lhes vós mesmos de comer.
[PESHITTA SIRÍACA]
Ele lhes disse: Não é necessário que saiam; dai-lhes vós de comer.

O pronome grego ὑμεῖς, “vós”, é expresso e enfático. Deve ser preservado, pois transfere aos discípulos a responsabilidade imediata de alimentar as pessoas.

MATEUS 14:17
[PRECEITO]
Eles, porém, lhe dizem [responderam]: Não temos aqui [neste lugar] senão [exceto, além de] cinco pães [cinco porções de pão] e dois peixes.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Eles lhe dizem: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Eles responderam: Aqui não temos mais que cinco pães e dois peixes.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Responderam-lhe: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.
[PESHITTA SIRÍACA]
Disseram-lhe: Nada temos aqui além de cinco pães [bolos de pão] e dois peixes.

Ἄρτοι significa pães, sem especificar tamanho ou formato. A Peshitta, nas traduções históricas consultadas, pode ser apresentada como “pães” ou “bolos de pão”. Os números cinco e dois são explícitos e devem ser conservados.

MATEUS 14:18
[PRECEITO]
Ele, porém, disse: Trazei-mos [trazei-os a mim, apresentai-os a mim] aqui [para este lugar].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Ele disse: Trazei-os aqui a mim.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
Ele lhes disse: Trazei-os a mim aqui.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Ele lhes disse: Trazei-os até mim, aqui.
[PESHITTA SIRÍACA]
Jesus lhes disse: Trazei-os aqui para mim.

Há uma diferença de ordem entre “aqui” e “os” nas edições gregas: ὧδε αὐτούς e αὐτοὺς ὧδε. O referente dos pronomes são os cinco pães e os dois peixes. A Peshitta explicita o nome Jesus nesta frase.

MATEUS 14:19
[PRECEITO]
E, tendo ordenado [mandado] às multidões que se reclinassem [se acomodassem, tomassem lugar] sobre a relva [erva, grama; plantas, ervas; no chão], tomou [pegou] os cinco pães e os dois peixes; e, tendo levantado os olhos [olhando para cima] em direção ao céu, abençoou [pronunciou uma bênção] e partiu [quebrou, dividiu] os pães, e os deu [entregou] aos discípulos; os discípulos, por sua vez, às multidões.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E, tendo ordenado às multidões que se reclinassem sobre a relva, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou, partiu os pães e os deu aos discípulos; os discípulos os deram às multidões.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
E, tendo mandado que as multidões se acomodassem sobre as ervas, tomou os cinco pães e os dois peixes, olhou para o céu, abençoou, partiu os pães e os entregou aos discípulos; os discípulos, às multidões.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E, tendo ordenado à multidão que se reclinasse sobre a relva, tomou os cinco pães e os dois peixes; olhando para o céu, abençoou, partiu e entregou os pães aos discípulos, e os discípulos às multidões.
[PESHITTA SIRÍACA]
Ele ordenou às multidões que se reclinassem no chão; tomou os cinco pães e os dois peixes, olhou para o céu, abençoou, partiu e entregou aos seus discípulos, e os discípulos os colocaram diante das multidões.

O grego crítico usa τοῦ χόρτου, singular coletivo, “a relva”; a tradição bizantina apresenta o plural “as ervas”. A Peshitta, segundo as traduções consultadas, refere-se ao chão. O verbo εὐλογέω significa abençoar; o texto não transcreve uma fórmula verbal específica pronunciada por Jesus.

MATEUS 14:20
[PRECEITO]
E todos comeram [alimentaram-se] e ficaram saciados [satisfeitos, fartos]; e recolheram [ajuntaram, levantaram] o que sobrava [o excedente, a abundância] dos pedaços partidos [fragmentos], doze cestos [cestas, recipientes] cheios [completamente preenchidos].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E todos comeram e ficaram saciados; e recolheram o que sobrava dos fragmentos, doze cestos cheios.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E comeram todos e ficaram fartos; depois ajuntaram o excedente dos pedaços, doze cestos cheios.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E todos comeram e ficaram saciados; e recolheram as sobras, doze cestos cheios de fragmentos.
[PESHITTA SIRÍACA]
E todos comeram e ficaram satisfeitos; recolheram a abundância dos fragmentos, enchendo doze cestos.

O verbo χορτάζω expressa saciar ou satisfazer a necessidade de alimento. Κόφινος designa um cesto, sem fornecer capacidade exata. O texto registra doze cestos cheios, mas não descreve um mecanismo físico para a abundância narrada.

MATEUS 14:21
[PRECEITO]
E os que comeram [os participantes da refeição] eram aproximadamente [cerca de] cinco mil homens [adultos do sexo masculino], sem contar [além das, à parte de] mulheres e crianças [meninos e meninas].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E aqueles que comeram eram cerca de cinco mil homens, além das mulheres e crianças.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Os que haviam comido eram aproximadamente cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
O número dos que comiam era de cinco mil homens, excluídas da contagem mulheres e crianças.
[PESHITTA SIRÍACA]
E os homens que haviam comido eram cinco mil, além das mulheres e crianças.

O grego usa ἄνδρες, “homens”, e χωρίς, “sem contar, separadamente de”. Assim, cinco mil é a quantidade aproximada dos homens contabilizados, não o número total comprovado de pessoas presentes. Não temos uma cifra adicional que permita calcular esse total com precisão.

PARTE III — Jesus se retira para orar e o barco enfrenta o vento

MATEUS 14:22
[PRECEITO]
E imediatamente [logo, sem demora; sem “imediatamente” na primeira mão de alguns manuscritos] [Jesus] obrigou [compeliu, insistiu firmemente para que] os discípulos entrassem [subissem] em um barco [no barco] e fossem adiante dele [seguissem antes dele] para a outra margem [o outro lado], enquanto ele dispensaria [despediria] as multidões.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E imediatamente obrigou os discípulos a entrar num barco e seguir adiante dele para a outra margem, enquanto ele dispensaria as multidões.
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO, PRIMEIRA MÃO]
E obrigou os discípulos a entrar num barco e seguir à sua frente para a outra margem, enquanto dispensava as multidões. [Sem “imediatamente”.][CÓDICE VATICANO — GREGO]
E imediatamente fez os discípulos entrarem numa embarcação e seguirem adiante dele para o outro lado, enquanto ele despediria as multidões.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
E imediatamente Jesus obrigou seus discípulos a entrar no barco e partir antes dele para a outra margem, enquanto despediria as multidões.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E imediatamente Jesus compeliu os discípulos a subir numa pequena embarcação e precedê-lo na travessia, até que despedisse as multidões.
[PESHITTA SIRÍACA]
E imediatamente ele fez seus discípulos subirem ao barco e partirem antes dele para a outra margem, enquanto dispensava as multidões.

O verbo grego ἀναγκάζω indica compelir, obrigar ou exercer insistência. A primeira mão do Sinaítico omite “imediatamente”, presente no Vaticano e na tradição bizantina. Esta última explicita também o nome Jesus no início. O texto não esclarece por que foi necessária essa insistência.

MATEUS 14:23
[PRECEITO]
E, tendo despedido [dispensado] as multidões, subiu ao monte [à montanha, a um lugar elevado], à parte [em particular, sozinho], para orar [fazer oração]; e, tendo chegado a tarde [ao anoitecer], estava ali sozinho [sozinho naquele lugar].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E, depois de despedir as multidões, subiu ao monte sozinho para orar; quando chegou a tarde, estava ali só.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E, tendo dispensado as multidões, subiu à montanha em particular para fazer oração; ao anoitecer, estava ali sozinho.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E, tendo despedido a multidão, subiu sozinho ao monte para orar; quando anoiteceu, estava ali sozinho.
[PESHITTA SIRÍACA]
E, depois de dispensar as multidões, subiu sozinho a uma montanha para orar; quando escureceu, permaneceu ali só.

O grego repete duas noções de isolamento: κατ’ ἰδίαν, “à parte”, e μόνος, “sozinho”. Convém preservá-las porque a narrativa distingue o ato de se retirar da condição posterior de permanecer sem companhia. Não se identifica a montanha por nome.

MATEUS 14:24
Este é um dos versículos de maior importância documental do capítulo. Encontramos duas redações geográficas distintas.
[PRECEITO]
Mas o barco [a embarcação] já estava a muitos estádios [a grande distância] da terra [da margem; no meio do mar], sendo atormentado [açoitado, sacudido violentamente, castigado] pelas ondas, pois o vento era contrário [soprava contra ele, opunha-se à travessia].
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
Mas o barco já estava a muitos estádios da terra, sendo sacudido pelas ondas, porque o vento era contrário.
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
Mas o barco já estava no meio do mar, sendo açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
[CÓDICE BEZA — GREGO]
Mas o barco já se encontrava em direção ao meio do mar, castigado pelas ondas, porque o vento soprava contra ele.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Mas a embarcação já estava a muitos estádios de distância da terra, sendo atormentada pelas ondas, porque o vento era contrário.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
Mas o barco já estava no meio do mar, açoitado pelas ondas, porque o vento era contrário.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E o barco já estava no meio do mar, sendo sacudido pelas ondas, pois o vento soprava contra ele.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Mas a pequena embarcação era sacudida pelas ondas no meio do mar, porque o vento era contrário.
[PESHITTA SIRÍACA]
Mas o barco já estava distante da terra muitos estádios, sendo fortemente atingido pelas ondas, porque o vento lhes era contrário.

O Vaticano e o texto grego crítico apresentam σταδίους πολλούς, “muitos estádios”; o Sinaítico e a tradição bizantina possuem μέσον τῆς θαλάσσης, “no meio do mar”. A Vulgata Clementina acompanha a descrição do meio do mar, enquanto a Peshitta preserva a distância em estádios. O Beza contém uma construção própria relacionada ao meio do mar. É inadequado atribuir ao Sinaítico a expressão “muitos estádios da terra” sem registrar a sua leitura efetiva.

PARTE IV — Jesus caminha sobre as águas

MATEUS 14:25
[PRECEITO]
Mas, na quarta vigília [quarto período de guarda] da noite, ele veio [chegou; dirigiu-se] até eles, caminhando [andando, percorrendo a pé] sobre o mar [sobre as águas, sobre a superfície do mar]. [Jesus veio até eles.][TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Na quarta vigília da noite, ele veio até eles, caminhando sobre o mar.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
Mas, durante a quarta vigília da noite, Jesus dirigiu-se a eles, caminhando sobre o mar.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Pois, na quarta vigília da noite, veio até eles, andando sobre o mar.
[PESHITTA SIRÍACA]
Durante a quarta vigília da noite, Jesus chegou até eles, caminhando sobre as águas.

A quarta vigília pertence ao sistema antigo de divisão da noite em períodos de guarda. O verbo περιπατέω significa caminhar ou andar. O grego crítico apresenta ἐπὶ τὴν θάλασσαν, com acusativo, enquanto a tradição bizantina utiliza genitivo, diferença que pode afetar a descrição gramatical do movimento, mas não exige alterar a cena.

MATEUS 14:26
[PRECEITO]
Mas os discípulos, vendo-o [tendo-o visto] caminhar sobre o mar [sobre a superfície das águas], ficaram perturbados [agitados, assustados, alarmados], dizendo: É uma aparição [fantasma, espectro, manifestação aparentemente sobrenatural]! E, por causa do medo [temor, pavor], gritaram [clamaram em voz alta].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Os discípulos, ao vê-lo caminhar sobre o mar, ficaram perturbados, dizendo: É um fantasma! E gritaram de medo.
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO, PRIMEIRA MÃO]
Mas, quando o viram caminhar sobre o mar, ficaram assustados, dizendo: É uma aparição! E gritaram de medo. [Sem repetir explicitamente “os discípulos” na abertura.][CÓDICE VATICANO — GREGO]
Mas os discípulos, tendo-o visto andar sobre o mar, ficaram alarmados e disseram: É um espectro! E, por medo, gritaram.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
E, vendo-o os discípulos caminhar sobre o mar, perturbaram-se, dizendo: É um fantasma! E gritaram de medo.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E, ao vê-lo caminhar sobre o mar, ficaram perturbados, dizendo: É uma aparição! E, por causa do temor, clamaram.
[PESHITTA SIRÍACA]
Quando os discípulos o viram caminhar sobre as águas, ficaram perturbados e disseram: É um espectro! E gritaram de medo.

O substantivo grego é φάντασμα, aparição ou fantasma. Trata-se da interpretação dos discípulos diante do que viam, e não de uma declaração narrativa de que Jesus fosse um espírito desencarnado. A primeira mão do Sinaítico não apresenta expressamente “os discípulos” nessa posição, diferentemente do Vaticano e de outros testemunhos.

MATEUS 14:27
[PRECEITO]
Mas imediatamente [logo, sem demora] [Jesus] falou-lhes [dirigiu-lhes a palavra], dizendo: Tende coragem [animai-vos, fortalecei-vos, confiai]; sou eu [eu sou, eu existo]; não temais [não tenhais medo].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Imediatamente Jesus lhes falou, dizendo: Tende coragem, eu sou; não tenhais medo.
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO, PRIMEIRA MÃO]
Mas imediatamente falou-lhes, dizendo: Tende coragem, eu sou; não tenhais medo. [Sem nomear Jesus novamente.][CÓDICE BEZA — GREGO]
E imediatamente falou-lhes, dizendo: Tende coragem; sou eu, não tenhais medo.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Mas imediatamente Jesus lhes disse: Tende coragem, sou eu; não temais.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E imediatamente Jesus lhes falou, dizendo: Tende confiança; sou eu, não tenhais medo.
[PESHITTA SIRÍACA]
Imediatamente Jesus falou-lhes e disse: Tende coragem, eu sou; não tenhais medo.

O grego apresenta ἐγώ εἰμι, literalmente “eu sou”. A tradução “sou eu” esclarece o contexto imediato de identificação. A expressão também possui possibilidades teológicas mais amplas, mas essas devem ser investigadas em comentário separado, não impostas como tradução única. A primeira mão do Sinaítico e o Beza não repetem “Jesus” nessa posição.

MATEUS 14:28
[PRECEITO]
Mas Pedro [Cefas, Kipha, Pedra], respondendo-lhe [em resposta], disse: Senhor [meu Senhor], se és tu [se tu és esse], ordena-me [manda-me, dá-me ordem] ir [vir, caminhar] até ti sobre as águas [por cima das águas].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Pedro respondeu-lhe: Senhor, se és tu, ordena-me ir até ti sobre as águas.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Mas Pedro, em resposta, disse-lhe: Senhor, se és tu, manda-me vir até ti sobre as águas.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Pedro, porém, respondendo, disse: Senhor, se és tu, ordena-me ir a ti sobre as águas.
[PESHITTA SIRÍACA]
E Kipha [Cefas, Pedro] respondeu-lhe: Meu Senhor, se és tu, ordena-me ir até ti sobre as águas.

O grego utiliza o nome Πέτρος, Pedro; a Peshitta preserva Kipha, correspondente ao nome semítico Cefas, associado a pedra ou rocha. O verbo κελεύω significa ordenar ou mandar. Pedro pede uma ordem, não declara por iniciativa própria que já possui capacidade de realizar a ação.

MATEUS 14:29
[PRECEITO]
Ele, porém, disse: Vem [aproxima-te, vem até aqui]. E Pedro, tendo descido [saído para baixo] do barco [da embarcação], caminhou [andou] sobre as águas e veio [chegou] até Jesus [para ir até Jesus, com a intenção de chegar a Jesus].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas e chegou até Jesus.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
Ele disse: Vem. Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas para ir até Jesus.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E ele lhe disse: Vem. Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para chegar até Jesus.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Mas ele disse: Vem. E Pedro, descendo da pequena embarcação, caminhava sobre a água para ir até Jesus.
[PESHITTA SIRÍACA]
Jesus lhe disse: Vem. E Kipha desceu do barco e caminhou sobre as águas para ir até Jesus.

Esta diferença é especialmente importante: a redação crítica apresenta καὶ ἦλθεν, “e veio/chegou”; a tradição bizantina e o Texto Recebido apresentam ἐλθεῖν, “para vir”. A primeira formulação descreve a chegada; a segunda apresenta o objetivo ou direção do movimento. Não devemos transformar ambas automaticamente numa única afirmação de que Pedro completou o percurso sem dificuldade.

MATEUS 14:30
[PRECEITO]
Mas, ao ver [observando] o vento [o vento forte; o vento muito forte], ficou com medo [temeu, assustou-se]; e, começando a afundar [submergir, ir para baixo das águas], gritou [clamou], dizendo: Senhor [meu Senhor], salva-me [livra-me, resgata-me, socorre-me]!
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
Mas, ao ver o vento, ficou com medo; e, começando a afundar, gritou: Senhor, salva-me!
[CÓDICE VATICANO — GREGO, PRIMEIRA MÃO]
Mas, vendo o vento, temeu; e, quando começou a submergir, clamou: Senhor, salva-me!
[CÓDICE VATICANO — GREGO, CORREÇÃO]
Mas, vendo o vento forte, teve medo; e, começando a afundar, gritou: Senhor, salva-me!
[CÓDICE WASHINGTONIANO — GREGO]
Mas, ao ver o vento extremamente forte, ficou assustado; e, começando a submergir, gritou: Senhor, salva-me!
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Mas, vendo o vento forte, teve medo; e, começando a afundar, clamou: Senhor, salva-me!
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Mas, vendo o vento forte, teve medo; e, quando começou a submergir, gritou, dizendo: Senhor, faze-me salvo!
[PESHITTA SIRÍACA]
Mas, vendo o vento furioso [forte], teve medo; e, quando começou a afundar, levantou a voz e disse: Meu Senhor, livra-me!

O Sinaítico e a primeira mão do Vaticano dizem somente “o vento”; uma correção do Vaticano e a tradição bizantina acrescentam “forte”; o Washingtoniano tem uma expressão equivalente a “extremamente forte”. O verbo καταποντίζομαι descreve afundar ou submergir. O pedido é σῶσόν με, literalmente “salva-me”.

MATEUS 14:31
[PRECEITO]
E imediatamente [logo, sem demora] Jesus, tendo estendido [estendendo] a mão, segurou-o [agarrou-o, tomou-o pela mão, sustentou-o] e lhe diz [disse]: Homem de pouca fé [de pequena fé, de confiança limitada], por que duvidaste [hesitaste, vacilaste, dividiste teu entendimento]?
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E imediatamente Jesus estendeu a mão, segurou-o e lhe disse: Homem de pouca fé, por que hesitaste?
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste?
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E imediatamente Jesus, estendendo a mão, agarrou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?
[PESHITTA SIRÍACA]
E imediatamente nosso Senhor estendeu a mão, segurou-o e lhe disse: Tu que tens pouca fé, por que ficaste dividido [em teu entendimento]?

Ὀλιγόπιστος é formado por elementos relacionados a “pouco” e “fé/confiança”. O verbo διστάζω descreve hesitar ou vacilar entre possibilidades. A Peshitta expressa essa hesitação como uma divisão interior, tal como preservado nas traduções siríacas históricas. O texto descreve Jesus segurando Pedro antes de apresentar a pergunta.

MATEUS 14:32
[PRECEITO]
E, quando ambos subiram [tendo subido, entrado] no barco [na embarcação], o vento cessou [parou, acalmou-se, perdeu sua força]. [Quando ele entrou no barco, o vento cessou.][CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
E, quando os dois subiram ao barco, o vento cessou.
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
Quando ambos subiram à embarcação, o vento se acalmou.
[CÓDICE EPHRAEMI — GREGO]
Quando eles entraram no barco, o vento parou.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
E, tendo ambos entrado no barco, o vento cessou.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E, quando subiram ao barco, o vento cessou.
[PESHITTA SIRÍACA]
E, quando eles subiram ao barco, o vento ficou tranquilo [acalmou-se].

O Sinaítico e o Vaticano apresentam uma forma de ἀναβαίνω, “subir”, enquanto a tradição bizantina apresenta ἐμβαίνω, “entrar numa embarcação”. O minúsculo 1241 e o siríaco curetoniano preservam uma formulação no singular referente à entrada dele no barco. O verbo κοπάζω exprime cessar ou diminuir de intensidade, aqui aplicado ao vento.

MATEUS 14:33
[PRECEITO]
E aqueles que estavam no barco [na embarcação] [aproximando-se dele, tendo vindo] prostraram-se diante dele [prestaram-lhe reverência, adoraram-no], dizendo: Verdadeiramente [realmente, de fato] tu és Filho de Deus [o Filho de Deus].
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
E aqueles que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
Os que estavam na embarcação prestaram-lhe reverência e disseram: De fato, tu és Filho de Deus.
[CÓDICE BEZA — GREGO]
E os que estavam no barco vieram até ele e prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente és Filho de Deus.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
E aqueles que estavam no barco aproximaram-se e adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Então os que estavam no barco vieram e o adoraram, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Mas aqueles que estavam no barco vieram e o adoraram, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.
[PESHITTA SIRÍACA]
E aqueles que estavam no barco vieram e prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente tu és o Filho de Deus.

O Sinaítico e o Vaticano não apresentam o particípio adicional “tendo vindo”, presente no Beza, na tradição bizantina, no Texto Recebido e na Vulgata. O verbo grego προσκυνέω permite “prostrar-se”, “prestar reverência” ou “adorar”, segundo o contexto. Aqui, o gesto é acompanhado da declaração explícita “tu és Filho de Deus”. A redação é especialmente relevante para nossa tradução porque preserva tanto o gesto quanto a confissão dos discípulos.

PARTE V — A chegada a Genesaré e os que tocam a veste de Jesus

MATEUS 14:34
[PRECEITO]
E, tendo atravessado [completado a travessia, passado para o outro lado], chegaram à terra [à região, à margem] de Genesaré [Genesar, Genessaret; chegaram à terra, a Genesaré].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E, tendo atravessado, chegaram à terra, a Genesaré.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E, depois de atravessarem, chegaram à região de Genesaré.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E, tendo atravessado o mar, chegaram à terra de Genesar.
[PESHITTA SIRÍACA]
E, depois de remarem [atravessarem], chegaram à terra de Genesar.

O nome geográfico apresenta diferentes transliterações: Γεννησαρέτ, Genesaré/Genessaret, e Genesar nas versões latina e siríaca consultadas. O grego crítico utiliza uma construção equivalente a “chegaram à terra, a Genesaré”; o Texto Recebido apresenta uma formulação mais direta, “à terra de Genesaré”. A tradução de Etheridge da Peshitta explicita a atividade de remar.

MATEUS 14:35
[PRECEITO]
E os homens [habitantes, moradores] daquele lugar [daquela região], tendo-o reconhecido [identificado, percebido quem era], enviaram [mandaram mensageiros, fizeram comunicar] por toda aquela região ao redor [vizinhança, território circundante; às aldeias ao redor] e lhe trouxeram [apresentaram, levaram até ele] todos os que estavam mal [enfermos, debilitados, sofrendo de enfermidades].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E os homens daquele lugar, tendo-o reconhecido, enviaram mensagens por toda a região ao redor e lhe trouxeram todos os enfermos.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E, quando os habitantes daquele lugar o reconheceram, mandaram avisar por toda a região vizinha e trouxeram-lhe todos os que estavam doentes.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E os homens daquela região, tendo-o conhecido, enviaram notícias por todo aquele território e lhe apresentaram todos os que se encontravam mal.
[PESHITTA SIRÍACA]
E os homens daquela terra o reconheceram, enviaram mensagens a todas as aldeias próximas e lhe trouxeram todos os que sofriam gravemente de enfermidades.

O grego usa ἐπιγινώσκω, reconhecer ou identificar, e κακῶς ἔχοντας, literalmente “os que estavam mal”. A Peshitta, conforme a tradução histórica consultada, destaca as aldeias vizinhas e a gravidade das enfermidades. O texto não fornece a quantidade de pessoas trazidas.

MATEUS 14:36
[PRECEITO]
E suplicavam-lhe [rogavam-lhe, pediam-lhe insistentemente] que pudessem apenas [somente, ao menos] tocar [encostar, alcançar com a mão] a franja [orla, borda, extremidade] de sua veste [manto, roupa]; e todos quantos [todos aqueles que] tocaram [a alcançaram] foram inteiramente salvos [completamente preservados, curados, restabelecidos].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E suplicavam-lhe que apenas tocassem a franja de sua veste; e todos quantos tocaram foram inteiramente salvos [curados].
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E rogavam-lhe que lhes permitisse somente tocar a borda de sua roupa; e todos os que a tocaram foram completamente restabelecidos.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E pediam-lhe que pudessem tocar ao menos a orla de sua veste; e todos quantos a tocaram foram salvos [ficaram curados].
[PESHITTA SIRÍACA]
E suplicavam que lhes fosse permitido apenas tocar a borda de seu manto; e aqueles que tocaram foram curados [restabelecidos].

O grego usa κράσπεδον, franja ou extremidade da roupa, palavra já examinada em Mateus 9:20. O verbo final é διασῴζω, aqui διεσώθησαν, que expressa salvar, preservar completamente ou conduzir a um estado de segurança. No contexto das enfermidades mencionadas no versículo anterior, “foram curados” é uma tradução contextual legítima. É importante conservar a relação com a família lexical de σῴζω, “salvar”, presente em Mateus 9:21–22 e 14:30.

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