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PARTE I — João Batista e a preparação do caminho

MATEUS 3:1
[PRECEITO]
Naqueles dias [naquele período, naquele tempo], aparece [vem, apresenta-se, chega] João, o Batista [João, aquele que batiza; Yohanan, o Imersor], proclamando [anunciando publicamente, pregando] no deserto [região erma, território pouco habitado] da Judeia [de Judá].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Naqueles dias apresenta-se João Batista, proclamando no deserto da Judeia.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Naqueles dias veio João, o Batista, pregando no deserto da Judeia.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Naqueles dias veio João Batista, pregando no deserto da Judeia.
[PESHITTA SIRÍACA]
Naqueles dias veio Yohanan, o Batizador, proclamando no deserto de Judá.

O grego παραγίνεται é presente narrativo, literalmente “aparece, apresenta-se, vem”. João é chamado ὁ βαπτιστής, o Batizador. Ἔρημος designa região erma, não necessariamente uma extensão inteiramente arenosa ou desprovida de vida. O texto não especifica em qual dia João iniciou sua proclamação.

MATEUS 3:2
[PRECEITO]
E dizendo [proclamando; sem o “e” inicial em uma edição crítica]: Transformai vosso entendimento e vossa orientação de vida [mudai de mente e direção, arrependei-vos, convertei-vos, praticai metanoia], pois [porque] o Reino [reinado, soberania, governo] dos Céus [de Deus, em interpretação contextual] aproximou-se [está próximo, chegou perto, tornou-se iminente].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E dizendo: Arrependei-vos [mudai vosso entendimento e direção], porque o Reino dos Céus se aproximou.
[EDIÇÃO WESTCOTT–HORT — GREGO]
Dizendo: Mudai de entendimento e orientação, porque o Reino dos Céus está próximo.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E dizendo: Arrependei-vos, pois o Reino dos Céus chegou perto.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E dizendo: Praticai penitência [arrependei-vos], pois o Reino dos Céus se aproximou.
[PESHITTA SIRÍACA]
E dizia: Arrependei-vos, pois o Reino dos Céus se aproximou.
O verbo μετανοεῖτε, metanoeíte, corresponde ao imperativo de metanoéō. Seu sentido abrange mudança de entendimento, reorientação e arrependimento; não se limita a sentir remorso. A Vulgata utiliza poenitentiam agite, expressão historicamente relacionada à penitência. O SBLGNT inclui καί, “e”, no início; Westcott–Hort o omite. Já ἤγγικεν é perfeito verbal de aproximar-se, com resultado presente. O grego traz literalmente “Reino dos Céus”, expressão que devemos conservar mesmo ao explorar suas relações teológicas com o Reino de Deus.

MATEUS 3:3
[PRECEITO]
Pois este [João] é aquele de quem foi dito [anunciado, falado] por meio [através, pela boca; por] do profeta Isaías, dizendo: Voz [um clamor, alguém que clama] daquele que proclama [grita, chama em voz alta] no deserto [na região erma]: Preparai [disponde, tornai pronto] o caminho [a estrada, a via] do Senhor [do Soberano]; fazei retas [endireitai, tornai direitas] as suas veredas [trilhas, caminhos, passagens].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Pois este é aquele de quem foi falado por meio do profeta Isaías: Voz de quem clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai as suas veredas.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
Pois este é aquele de quem foi dito pelo profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor e fazei retas as suas trilhas.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Pois este é aquele anunciado pelo profeta Isaías, dizendo: Voz de quem clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Pois este é aquele de quem falou Isaías, o profeta: Voz de quem clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; fazei retas as suas veredas.
[PESHITTA SIRÍACA]
Pois este é aquele de quem falou Isaías, o profeta: A voz que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor e tornai planos [direitos] os seus caminhos.

O SBLGNT utiliza διά, “por meio de Isaías”, enquanto a tradição bizantina apresenta ὑπό, “por Isaías”. A passagem retoma Isaías 40:3. Na redação hebraica de Isaías, o deserto pode ser associado à ordem de preparar o caminho; na apresentação de Mateus, a expressão também caracteriza a voz daquele que clama. Essa articulação entre o profeta e João pertence à interpretação revelacional do evangelista.

MATEUS 3:4
[PRECEITO]
O próprio João [João mesmo], porém, tinha [usava, possuía] sua veste [roupa, vestimenta] feita de pelos [fios, fibras] de camelo, e um cinturão [cinto, faixa] de couro [pele] em torno de sua cintura [lombos, região dos quadris]; e seu alimento [sustento, comida] era [consistia em] gafanhotos [locustas, insetos da família dos gafanhotos] e mel silvestre [mel do campo, mel encontrado na natureza].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
O próprio João possuía uma veste de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno da cintura; sua comida eram gafanhotos e mel silvestre.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — GREGO]
João usava roupas feitas de pelos de camelo, com um cinto de couro ao redor dos lombos; e sua alimentação consistia em gafanhotos e mel silvestre.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
O próprio João vestia roupa de pelos de camelo, e um cinturão de couro ao redor de sua cintura; seu alimento era composto de gafanhotos e mel silvestre.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
O próprio João tinha uma veste de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos lombos; sua alimentação era de gafanhotos e mel silvestre.
[PESHITTA SIRÍACA]
Este Yohanan vestia roupa de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno da cintura; sua comida era de gafanhotos e mel do deserto.

O grego ἀκρίδες normalmente significa gafanhotos, insetos, e μέλι ἄγριον corresponde a mel silvestre. Não há base suficiente neste versículo para substituir “gafanhotos” por alfarrobas ou por uma planta determinada. A descrição da roupa evoca o perfil de Elias em 2 Reis 1:8, relação literária que poderá ser investigada em conjunto com Mateus 11:14 e 17:10–13. Há uma diferença de ordem entre “era seu alimento” e “seu alimento era” nas edições gregas.

MATEUS 3:5
[PRECEITO]
Então [naquele tempo] saía [vinha, dirigia-se] até ele Jerusalém [o povo de Jerusalém] e toda a Judeia [a região da Judeia, seus habitantes] e toda a região ao redor [território circundante, vizinhança] do Jordão.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Então saía para encontrar João Jerusalém, e toda a Judeia, e toda a região ao redor do Jordão.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Então Jerusalém ia até ele, juntamente com toda a Judeia e toda a região vizinha do Jordão.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Então saía até ele Jerusalém, e toda a Judeia, e toda a região em torno do Jordão.
[PESHITTA SIRÍACA]
Então Jerusalém e toda a Judeia, e toda a região ao redor do Jordão, saíam para encontrá-lo.

O evangelista personifica geograficamente Jerusalém, usando o nome da cidade para se referir à população que se deslocava. “Toda” funciona na descrição da amplitude do movimento popular e não fornece um censo demonstrando a presença de cada habitante. O imperfeito ἐξεπορεύετο sugere movimento repetido ou prolongado.

PARTE II — O batismo de João, a confissão e a exigência de frutos

MATEUS 3:6
[PRECEITO]
E eram batizados [imersos, submetidos ao batismo] no Jordão [no rio Jordão] por ele [por João; sem “por ele” na primeira mão do Sinaítico], confessando [reconhecendo, admitindo, declarando] os seus pecados [faltas, transgressões, desvios].
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
E eram batizados no rio Jordão, confessando seus pecados. [Sem “por ele”.][CÓDICE VATICANO — GREGO]
E eram batizados por ele no rio Jordão, reconhecendo suas transgressões.
[CÓDICE EPHRAEMI — GREGO]
E recebiam o batismo de João no rio Jordão, confessando os próprios pecados.
[CÓDICE BEZA — GREGO]
E eram batizados por ele no Jordão, declarando seus pecados. [Sem a palavra “rio”.][TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E eram batizados por ele no Jordão, confessando seus pecados.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E eram batizados por ele no Jordão, confessando seus pecados.
[PESHITTA SIRÍACA]
E eram batizados por Yohanan no rio Jordão, enquanto confessavam seus pecados.

Duas diferenças verificadas: Sinaítico, Vaticano e Ephraemi possuem ποταμῷ, “rio”; o Beza e o Texto Recebido apresentam apenas “Jordão”. O Sinaítico omite ὑπ’ αὐτοῦ, “por ele”, presente nos demais testemunhos principais. O verbo ἐξομολογέω refere-se a confessar ou reconhecer expressamente. O texto não define um formulário de confissão nem informa que cada participante tenha contado publicamente todos os detalhes de suas faltas.

MATEUS 3:7
[PRECEITO]
Mas, ao ver [tendo visto, percebendo] muitos dos fariseus e saduceus [membros desses grupos religiosos] vindo [aproximando-se] ao seu batismo [para receber o batismo; ao batismo, sem “seu”], disse-lhes: Descendência de víboras [filhos de serpentes venenosas, geração de víboras]! Quem vos mostrou [indicou, ensinou, advertiu] a fugir [escapar, afastar-vos] da ira [indignação, julgamento anunciado] que está por vir [iminente, vindoura]?
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO, PRIMEIRA MÃO]
Vendo muitos fariseus e saduceus aproximarem-se do batismo, disse-lhes: Descendência de víboras! Quem vos indicou como fugir da ira vindoura?
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO, CORREÇÃO]
Vendo muitos fariseus e saduceus virem ao seu batismo, disse-lhes: Geração de víboras! Quem vos mostrou como escapar da indignação que está por vir?
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
Mas, tendo visto muitos dos fariseus e saduceus aproximarem-se do batismo, disse-lhes: Descendência de víboras! Quem vos advertiu a fugir da ira iminente?
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Vendo muitos dos fariseus e saduceus virem ao seu batismo, disse-lhes: Geração de víboras! Quem vos ensinou a escapar da ira futura?
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Vendo muitos fariseus e saduceus aproximarem-se de seu batismo, disse-lhes: Descendência de víboras! Quem vos mostrou como fugir da ira que virá?
[PESHITTA SIRÍACA]
Quando viu muitos fariseus e saduceus vindo para serem batizados, disse-lhes: Geração de víboras! Quem vos mostrou como escapar da ira que vem?

A primeira mão do Sinaítico e o Vaticano não apresentam o possessivo “seu” depois de batismo; um corretor do Sinaítico o acrescentou. A Peshitta exprime a aproximação como vinda para serem batizados, leitura contextual que não comprova, por si só, que todos efetivamente receberam o batismo. Γεννήματα ἐχιδνῶν é uma expressão de denúncia profética, não uma descrição biológica dessas pessoas.

MATEUS 3:8
[PRECEITO]
Produzi [fazei, apresentai, praticai] portanto [pois, então] fruto [frutos, resultados, ações concretas] digno [correspondente, apropriado, coerente] da metanoia [mudança interior de entendimento e direção, arrependimento, conversão].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Produzi, portanto, fruto digno do arrependimento.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Fazei, pois, fruto correspondente à conversão.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Produzi, portanto, fruto digno de penitência [de arrependimento].
[PESHITTA SIRÍACA]
Praticai, portanto, frutos adequados ao arrependimento.

O grego apresenta καρπόν, singular, “fruto”, enquanto Etheridge traduz a Peshitta por “frutos”, plural. A expressão estabelece uma relação entre a mudança interior e aquilo que dela resulta. O arrependimento proclamado por João não se esgota numa declaração verbal, pois deve corresponder a uma conduta observável.

MATEUS 3:9
[PRECEITO]
E não suponhais [não penseis, não presumais, não considereis suficiente] dizer dentro de vós mesmos [em vosso interior, entre vós]: Temos Abraão por pai [Abraão é nosso ancestral]! Pois eu vos digo que Deus [o Deus] é capaz [tem poder] de levantar [suscitar, fazer surgir] destas pedras filhos [descendentes, crianças, herdeiros] para Abraão.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
E não penseis dizer em vosso interior: Temos Abraão por pai. Pois vos digo que Deus pode levantar destas pedras filhos para Abraão.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E não presumais dizer dentro de vós: Nosso pai é Abraão. Eu vos digo que Deus tem poder para suscitar, dessas pedras, descendentes para Abraão.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E não queirais dizer dentro de vós: Temos Abraão por pai. Pois vos digo que Deus pode levantar filhos para Abraão destas pedras.
[PESHITTA SIRÍACA]
E não penseis nem digais em vós mesmos que Abraão é nosso pai, pois eu vos digo que Deus pode levantar filhos para Abraão a partir destas pedras.
[SIRÍACO ANTIGO SINAÍTICO]
E não digais: Temos Abraão por pai. Pois vos digo que Deus pode levantar destas pedras filhos para Abraão.

A Peshitta e o grego mencionam expressamente o raciocínio interior; a redação do siríaco antigo sinaítico consultada é mais curta e não apresenta a expressão correspondente a “dentro de vós”. A oposição é entre a confiança exclusiva na descendência ancestral e a ação divina. O texto não afirma que as pessoas descendentes de Abraão tenham menor dignidade, mas questiona a suficiência desse vínculo como justificativa espiritual.

MATEUS 3:10
[PRECEITO]
Já [desde agora, neste momento] está posto [colocado, preparado] o machado [instrumento de corte] junto à raiz [na base, próximo das raízes] das árvores; portanto [assim], toda árvore que não produz [não faz, não dá] fruto bom [belo, saudável, de boa qualidade] é cortada [derrubada, removida] e lançada [atirada] ao fogo.
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
Já o machado está posto junto à raiz das árvores; toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo.
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
O machado já está próximo da raiz das árvores; portanto, toda árvore que não dá fruto bom é cortada e lançada no fogo.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Pois já está também o machado posto junto à raiz das árvores; toda árvore que não produz bom fruto é derrubada e lançada ao fogo.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Pois já o machado foi colocado junto à raiz das árvores; toda árvore que não produz fruto bom será cortada e lançada ao fogo.
[PESHITTA SIRÍACA]
Eis que o machado está posto junto à raiz das árvores; portanto, toda árvore que não dá bom fruto é cortada e cai no fogo.

O Texto Recebido possui καί, “também”, depois de “já”, ausente no Sinaítico, Vaticano e SBLGNT. O grego utiliza καλόν, bom ou de boa qualidade, para o fruto. A imagem apresenta o julgamento sobre árvores infrutíferas; a aplicação a seres humanos pertence à linguagem profética, não a uma ordem para que ouvintes pratiquem violência física contra pessoas.

PARTE III — Aquele que batiza no Espírito Santo e no fogo

MATEUS 3:11
[PRECEITO]
Eu, de minha parte [quanto a mim], vos batizo [mergulho, imerjo] em água [com água] para [em direção a, com vista à] metanoia [arrependimento, transformação do entendimento e da conduta]; mas aquele que vem [está vindo, chegará] depois de mim é mais forte [mais poderoso, mais vigoroso] do que eu; não sou digno [suficiente, merecedor, adequado] de carregar [transportar, levar] as suas sandálias [calçados, correias de calçado]. Ele próprio [ele mesmo] vos batizará [mergulhará, envolverá] no Espírito Santo [com Espírito Santo, no Espírito de santidade] e no fogo [sem “e no fogo” na edição bizantina Robinson–Pierpont de 2005].
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
Pois eu vos batizo em água para o arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso que eu, e não sou digno de levar suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
Eu vos batizo com água para a conversão; mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu, e não sou digno de carregar seus calçados. Ele mesmo vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Eu vos batizo em água para o arrependimento; aquele, porém, que vem depois de mim é mais poderoso que eu, e não sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Eu batizo a vós em água para o arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais forte que eu, e não sou digno de transportar suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
[TRADIÇÃO BIZANTINA — ROBINSON–PIERPONT 2005]
Eu batizo a vós em água para o arrependimento; aquele, porém, que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, e não sou digno de levar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo. [Sem “e no fogo” nesta edição.][VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Eu vos batizo em água para a penitência [conversão], mas aquele que virá depois de mim é mais forte do que eu, e não sou digno de carregar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
[PESHITTA SIRÍACA]
Eu vos batizo em água para o arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, e não sou digno de levar suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito de Santidade e no fogo.

Variantes confirmadas: o Sinaítico acrescenta γάρ, “pois”, após “eu, de minha parte”, enquanto o Vaticano não o possui. O SBLGNT apresenta “vos batizo”, e o Texto Recebido e Robinson–Pierpont apresentam “batizo a vós”, por diferença de ordem das palavras. Mais importante: a edição Robinson–Pierpont 2005 omite “e no fogo”, embora o Texto Recebido, o Vaticano, o Sinaítico e as versões latina e siríaca consultadas a conservem. Essa omissão editorial não deve ser atribuída a todos os manuscritos bizantinos sem exame de sua transmissão. No capítulo seguinte da nossa análise, a presença de fogo como imagem de julgamento já estará no versículo 12; isso não significa que os dois usos precisem receber automaticamente a mesma interpretação.

MATEUS 3:12
[PRECEITO]
A pá de joeirar [instrumento de separar grãos, pá de debulha, ventilabro] está em sua mão [na mão dele], e ele limpará completamente [separará cuidadosamente, purificará] sua eira [terreiro de debulha, área de separação dos grãos]; e recolherá [ajuntará, reunirá] seu trigo [os grãos de trigo] no celeiro [depósito, armazém de grãos; seu celeiro, em determinada edição grega]; mas a palha [casca, resíduo leve, debulho] queimará [consumirá] em fogo inextinguível [que não se apaga, impossível de extinguir].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
A pá de joeirar está em sua mão; ele limpará completamente sua eira e recolherá o trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo que não pode ser apagado.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Ele tem a pá de joeirar na mão, limpará inteiramente sua eira e reunirá seu trigo no celeiro, mas consumirá a palha com fogo inextinguível.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Sua pá de joeirar está na mão dele; limpará completamente sua eira, reunirá seu trigo no celeiro e queimará a palha com fogo que não se apaga.
[PESHITTA SIRÍACA]
Sua pá de joeirar está em sua mão; ele limpará seus terreiros de debulha e ajuntará o trigo em seu depósito, mas queimará a palha num fogo que não será apagado.

O substantivo πτύον refere-se ao instrumento agrícola de separar trigo e palha; ἅλων é a eira, não um templo ou altar. A Peshitta utiliza a formulação que Etheridge traduz no plural, “seus terreiros”. O texto grego crítico não explicita “seu” antes de celeiro, mas algumas edições, como a de Tregelles, apresentam esse possessivo. Ἄσβεστος, “inextinguível”, qualifica o fogo; não informa, isoladamente, a duração ontológica da palha depois de queimada. O significado do julgamento deverá ser examinado pelo conjunto das Escrituras, sem apagar a severidade da imagem.

PARTE IV — Jesus se apresenta a João para ser batizado

MATEUS 3:13
[PRECEITO]
Então [naquele momento, naquela ocasião] Jesus vem [chega, apresenta-se], vindo da Galileia [procedente da região da Galileia], ao Jordão [ao rio Jordão], até João [para encontrar João], a fim de ser batizado [imerso, submetido ao batismo] por ele.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Então Jesus vem da Galileia ao Jordão, até João, para ser batizado por ele.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Naquela ocasião Jesus chega da Galileia ao Jordão, procurando João para receber dele o batismo.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Então Jesus veio da Galileia ao Jordão, até João, para ser batizado por ele.
[PESHITTA SIRÍACA]
Então Jesus veio da Galileia ao Jordão, até Yohanan, para receber dele o batismo.

O grego apresenta novamente o presente narrativo παραγίνεται, “vem, apresenta-se”. O infinitivo passivo βαπτισθῆναι indica a finalidade: ser batizado por João. As principais tradições textuais aqui confrontadas não apresentam diferença substancial na sequência do acontecimento. A narrativa não declara que Jesus tenha vindo para confessar pecados pessoais.

MATEUS 3:14
[PRECEITO]
Ele, porém [João, conforme a redação que explicita seu nome], tentava impedi-lo [procurava detê-lo, insistia em não permitir, opunha-se repetidamente], dizendo: Eu [eu próprio] tenho necessidade [preciso] de ser batizado [imerso] por ti [por meio de ti], e tu vens [chegas, te apresentas] a mim?
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
Ele, porém, tentava impedi-lo, dizendo: Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? [Sem repetir o nome João.][CÓDICE VATICANO — GREGO]
Mas ele procurava impedi-lo e dizia: Tenho necessidade de receber de ti o batismo, e tu te apresentas a mim? [Sem o nome João.][CÓDICE EPHRAEMI — GREGO]
João, porém, tentava impedi-lo, dizendo: Eu tenho necessidade de ser batizado por ti, e tu vens a mim?
[CÓDICE WASHINGTONIANO — GREGO]
João procurava detê-lo e dizia: Eu preciso receber o batismo de ti, e tu vens até mim?
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Mas João tentava impedi-lo, dizendo: Eu tenho necessidade de ser batizado por ti, e tu vens a mim?
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
João, porém, procurava impedi-lo, dizendo: Eu devo ser batizado por ti, e tu vens a mim?
[PESHITTA SIRÍACA]
Mas Yohanan procurava impedi-lo e dizia: Eu tenho necessidade de ser batizado por ti, e tu vieste até mim?
[SIRÍACO ANTIGO CURETONIANO]
João tentou impedi-lo e disse: Eu preciso que tu me batizes, e tu vens até mim?
[SIRÍACO ANTIGO SINAÍTICO]
João procurava detê-lo, dizendo: Eu preciso que tu me batizes, e tu vieste a mim?

O Sinaítico e o Vaticano omitem “João” no início, utilizando apenas a expressão “ele, porém”; o Ephraemi, o Washingtoniano e o Texto Recebido explicitam o nome. O verbo grego διακωλύω, no imperfeito, indica esforço de impedir ou tentativa persistente de evitar uma ação. Não se trata simplesmente de João fazendo uma pergunta: ele demonstra resistência a batizar Jesus. A diferença entre “ser batizado por ti” e “que tu me batizes” pertence principalmente à construção da voz verbal.

MATEUS 3:15
[PRECEITO]
Mas Jesus, respondendo [em resposta], lhe disse: Permite [deixa, consente, não impeças] agora [neste momento, por enquanto], pois assim [dessa maneira] é apropriado [convém, corresponde ao que é correto] para nós [a nós dois, em nossa participação] cumprir [completar, realizar plenamente, levar à efetivação] toda a justiça [retidão, aquilo que é justo, o que corresponde à vontade justa de Deus]. Então [naquele momento] ele permitiu [consentiu, deixou que acontecesse].
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Jesus respondeu-lhe: Permite agora, pois desta maneira convém a nós cumprir toda a justiça. Então ele permitiu.
[EDIÇÃO WESTCOTT–HORT — GREGO]
Mas Jesus, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim é apropriado que cumpramos toda a justiça. Então ele consentiu.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
Jesus, porém, respondeu e lhe disse: Permite neste momento, pois assim é conveniente para nós cumprir toda a justiça. Então João o permitiu.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Jesus, respondendo, disse-lhe: Deixa agora, porque assim nos convém completar toda a justiça. Então ele o deixou.
[PESHITTA SIRÍACA]
Mas Jesus lhe respondeu: Permite agora, porque assim nos convém realizar toda a justiça. Então João o permitiu.

O grego usa ἄφες ἄρτι, “permite agora”; πρέπον ἐστίν, “é conveniente/apropriado”; πληρῶσαι, “cumprir/completar”; e πᾶσαν δικαιοσύνην, “toda a justiça”. O Texto Recebido e o SBLGNT apresentam uma construção com “disse para ele”, enquanto Westcott–Hort usa o dativo “disse-lhe”. A diferença não altera a mensagem. A palavra δικαιοσύνη será central em Mateus 5:6, 5:10, 5:20 e 6:33. Aqui, Jesus não declara precisar ser purificado de um pecado: apresenta o batismo como uma ação apropriada para cumprir toda a justiça.

PARTE V — Os céus se abrem, o Espírito desce e a voz declara o Filho amado

MATEUS 3:16
Este é um dos versículos mais importantes do capítulo, pois há diferenças sobre para quem os céus se abriram, sobre a descrição do Espírito e sobre sua permanência sobre Jesus.
[PRECEITO]
Jesus, porém, tendo sido batizado [após receber o batismo, depois de ser imerso], imediatamente [logo, sem demora] subiu [saiu, emergiu] da água [das águas]; e eis [vede] que os céus se abriram [foram abertos; abriram-se para ele], e ele viu [contemplou, percebeu] o Espírito de Deus [Espírito proveniente de Deus, Espírito divino] descendo [baixando, vindo do alto] como [à maneira de, semelhante a] uma pomba [ave da espécie das pombas] e vindo [chegando, pousando, descendo] sobre ele [permanecendo sobre ele, na redação dos siríacos antigos].
[CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
Jesus, tendo recebido o batismo, imediatamente subiu da água. E eis que os céus se abriram, e ele viu Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele.
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
Jesus, depois de ser batizado, logo subiu da água; e os céus se abriram, e ele viu Espírito de Deus descendo como uma pomba e chegando sobre ele.
[CÓDICE EPHRAEMI — GREGO]
Jesus, tendo sido batizado, subiu imediatamente da água; e eis que os céus se abriram para ele, e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo em sua direção.
[CÓDICE WASHINGTONIANO — GREGO]
E, tendo Jesus sido batizado, subiu imediatamente da água. Então os céus se abriram para ele, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele.
[TRADIÇÃO GREGA CRÍTICA — SBLGNT]
Jesus, tendo sido batizado, imediatamente saiu da água; e eis que os céus se abriram, e ele viu Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E Jesus, tendo sido batizado, subiu imediatamente da água; e eis que os céus se abriram para ele, e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
Mas Jesus, depois de receber o batismo, imediatamente saiu da água; e eis que os céus foram abertos para ele, e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre si.
[PESHITTA SIRÍACA]
Quando Jesus foi batizado, imediatamente subiu das águas; e os céus foram abertos para ele, e viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele.
[SIRÍACO ANTIGO CURETONIANO]
Quando Jesus foi batizado, e no momento em que subiu das águas, eis que os céus se abriram; e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e permanecendo sobre ele.
[SIRÍACO ANTIGO SINAÍTICO]
Depois de ser batizado e subir das águas, eis que os céus se abriram; e ele viu o Espírito de Deus descendo na semelhança de uma pomba e permanecendo sobre ele.

Variantes documentais: o Sinaítico e o Vaticano não apresentam αὐτῷ, “para ele”, após o verbo de abrir os céus; o Ephraemi, o Washingtoniano e o Texto Recebido possuem essa expressão. O Sinaítico e o Vaticano apresentam uma forma mais curta para “Espírito de Deus”, sem ambos os artigos explícitos da tradição posterior. A tradição bizantina e o Texto Recebido utilizam “e, tendo sido batizado”, enquanto o texto crítico começa “tendo sido batizado, porém”. Os siríacos antigos apresentam o Espírito permanecendo sobre Jesus, onde o grego predominante diz “vindo sobre ele”. A comparação “como pomba” descreve a manifestação tal como narrada; não identifica o Espírito Santo como sendo, em sua natureza divina, um animal.

MATEUS 3:17
Este versículo merece destaque especial: encontramos a declaração celestial em terceira pessoa na tradição grega predominante e em segunda pessoa no Códice Beza e nos antigos siríacos curetoniano e sinaítico.
[PRECEITO]
E eis [vede, observai] uma voz [declaração audível, voz que se manifesta] vinda dos céus [procedente do céu], dizendo:
Este é o meu Filho [o Filho que me pertence], o amado [querido, dileto, objeto do meu amor], em quem me agradei [em quem encontrei prazer, satisfação, contentamento; em quem tenho meu agrado].
[Na leitura do Códice Beza: Tu és o meu Filho amado, em quem me agradei.][Nos antigos siríacos: Tu és meu Filho, meu amado, em ti me agradei.][PAPIRO 101 — GREGO, FRAGMENTÁRIO]
… uma voz dos céus, dizendo: … o Filho … amado … em quem me agradei. [O papiro possui lacunas e não permite reconstruir todas as palavras por leitura direta.][CÓDICE SINAÍTICO — GREGO]
E eis uma voz vinda dos céus, dizendo: Este é o meu Filho amado, em quem me agradei.
[CÓDICE VATICANO — GREGO]
E eis uma voz dos céus que dizia: Este é meu Filho, o amado, em quem encontrei agrado.
[CÓDICE EPHRAEMI — GREGO]
E eis uma voz procedente dos céus, dizendo: Este é o meu Filho amado, em quem me agradei.
[CÓDICE BEZA — GREGO]
E eis uma voz dos céus, dizendo a ele: Tu és meu Filho amado, em quem me agradei.
[CÓDICE WASHINGTONIANO — GREGO]
E eis uma voz vinda do céu, dizendo: Este é o meu Filho amado, em quem me agradei.
[TEXTO RECEBIDO — GREGO]
E eis uma voz dos céus, dizendo: Este é meu Filho amado, em quem me comprazi.
[VULGATA LATINA — CLEMENTINA]
E eis uma voz dos céus, dizendo: Este é meu Filho amado, em quem encontrei agrado.
[PESHITTA SIRÍACA]
E eis uma voz do céu, dizendo: Este é meu Filho, o amado, em quem encontrei prazer.
[SIRÍACO ANTIGO CURETONIANO]
E uma voz foi ouvida do céu, dizendo-lhe: Tu és meu Filho e meu amado; em ti me agradei.
[SIRÍACO ANTIGO SINAÍTICO]
E uma voz foi ouvida do céu, que lhe disse: Tu és meu Filho e meu amado; em ti encontrei agrado.

Variante de grande relevância: Sinaítico, Vaticano, Ephraemi, Washingtoniano, Texto Recebido e Peshitta apresentam οὗτός ἐστιν, “este é”, em terceira pessoa. O Códice Beza utiliza σὺ εἶ, “tu és”, acrescentando πρὸς αὐτόν, “a ele”, como destinatário da voz. Os dois siríacos antigos também conservam a declaração em segunda pessoa. Outra diferença: o Washingtoniano traz “do céu” no singular, enquanto o grego predominante apresenta “dos céus” no plural. Não devemos confundir essa variante documentada em Mateus com outra formulação encontrada na transmissão de Lucas 3:22, “hoje te gerei”; essa frase não consta dos testemunhos de Mateus aqui colacionados.

O adjetivo grego ἀγαπητός, agapētós, significa amado, querido, dileto e pertence à família lexical de ἀγάπη, Ágape. Sua presença na própria declaração celestial é particularmente significativa para nossa investigação sobre Deus Ágape e a identidade do Filho. Já o verbo εὐδοκέω exprime agradar-se, aprovar, ter prazer ou encontrar satisfação. Podemos explorar seu significado teológico sem substituir essa declaração por uma formulação que o manuscrito não contém.

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