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[1] No primeiro livro de nossa resposta à obra de Celso, que ele intitulou com arrogância de Discurso Verdadeiro, percorremos, conforme me pediste, meu fiel Ambrósio, e na medida de nossa capacidade, o prefácio e as partes imediatamente seguintes, examinando uma a uma suas afirmações ao longo do caminho, até concluirmos a diatribe daquele judeu fictício que ele fez falar contra Jesus. E no segundo livro enfrentamos, como melhor pudemos, todas as acusações contidas na invectiva desse mesmo judeu, dirigidas contra nós, que cremos em Deus por meio de Cristo; agora, porém, entramos nesta terceira parte de nosso discurso, cujo objetivo é refutar as alegações que Celso faz em seu próprio nome. Ele dá como parecer que a controvérsia entre judeus e cristãos é das mais insensatas, e afirma que as discussões que temos entre nós acerca de Cristo em nada diferem do que o provérbio chama de “luta pela sombra de um asno”; e pensa que nada há de importante nas investigações de judeus e cristãos, pois ambos creem que o Espírito Divino predisse que viria alguém como Salvador da raça humana, embora ainda não concordem quanto a saber se a pessoa predita já veio ou não. Nós, cristãos, de fato, cremos em Jesus como aquele que veio segundo as predições dos profetas. Mas a maior parte dos judeus está tão longe de crer nele que os que viveram no tempo de sua vinda conspiraram contra ele; e os de agora, aprovando o que os judeus de outrora ousaram fazer contra ele, falam mal dele, afirmando que foi por feitiçaria que ele se fez passar por aquele que os profetas predisseram como o que havia de vir, e que, segundo as tradições dos judeus, era chamado o Cristo.

[2] Mas que Celso, e os que concordam com suas acusações, nos digam se é realmente algo comparável à sombra de um asno o fato de os profetas judeus terem predito o lugar de nascimento daquele que haveria de governar os que viveram retamente e que são chamados herança de Deus; e que Emanuel seria concebido por uma virgem; e que sinais e maravilhas seriam realizados por aquele que era o assunto da profecia; e que sua palavra correria com tamanha rapidez que a voz de seus apóstolos sairia por toda a terra; e que ele sofreria certos padecimentos depois de sua condenação pelos judeus; e que ressuscitaria dentre os mortos. Acaso foi por simples acaso que os profetas anunciaram tais coisas, sem convicção alguma da verdade em sua mente, de modo que isso não apenas os movesse a falar, mas também a considerar tais anúncios dignos de serem postos por escrito? E teria uma nação tão grande como a dos judeus, que havia recebido havia muito um país próprio para habitar, reconhecido certos homens como profetas e rejeitado outros como anunciadores de falsas predições, sem qualquer convicção da solidez dessa distinção? E não teria havido motivo algum que os levasse a colocar, ao lado dos livros de Moisés, tidos como sagrados, as palavras daqueles que depois foram considerados profetas? E poderão aqueles que acusam judeus e cristãos de insensatez nos mostrar como a nação judaica poderia ter continuado a existir se entre eles não houvesse promessa alguma de conhecimento de eventos futuros? E como, enquanto cada uma das nações vizinhas cria, segundo suas antigas instituições, que recebia oráculos e predições daqueles a quem tinha por deuses, esse povo sozinho, instruído a desprezar todos os que os pagãos chamavam de deuses, por não serem deuses, mas demônios, conforme a declaração dos profetas — “pois todos os deuses das nações são demônios” —, não teria entre si ninguém que se dissesse profeta e que pudesse conter aqueles que, por desejo de conhecer o futuro, estavam prontos a desertar para os demônios de outras nações? Julga, então, se não era necessário que, tendo toda a nação sido ensinada a desprezar as divindades de outras terras, possuísse abundância de profetas, que anunciassem acontecimentos de importância muito maior em si mesmos e superiores aos oráculos de todos os demais países.

[3] Além disso, milagres foram realizados em todos os países, ou pelo menos em muitos deles, como o próprio Celso admite, citando o caso de Esculápio, que concedeu benefícios a muitos e predisse acontecimentos futuros a cidades inteiras que lhe eram dedicadas, como Trica, Epidauro, Cós e Pérgamo; e, juntamente com Esculápio, ele menciona Aristeas de Proconeso, certo homem de Clazômenas e Cleômedes de Astipaleia. Mas somente entre os judeus, que dizem ser dedicados ao Deus de todas as coisas, não teria sido operado milagre ou sinal algum que ajudasse a confirmar sua fé no Criador de todas as coisas e fortalecesse sua esperança de outra vida, melhor! Como podem sequer imaginar tal estado de coisas? Pois eles teriam passado imediatamente ao culto daqueles demônios que davam oráculos e realizavam curas, abandonando o Deus que, ao menos em palavras, se cria assisti-los, mas que nunca lhes manifestava sua presença visível. Mas se isso não aconteceu, e se, ao contrário, sofreram incontáveis calamidades antes de renunciar ao judaísmo e à sua lei, tendo sido cruelmente tratados ora na Assíria, ora na Pérsia, ora sob Antíoco, não é mais conforme à probabilidade que os que não concedem crédito às suas histórias milagrosas e profecias suponham que tais fatos não puderam ser invenções, mas que certo Espírito divino, presente nas almas santas dos profetas, como em homens que suportaram todo tipo de esforço por causa da virtude, moveu-os a profetizar algumas coisas relativas aos seus contemporâneos e outras à posteridade, mas principalmente a respeito de certa personagem que viria como Salvador da raça humana?

[4] E se assim é o estado da questão, como poderiam judeus e cristãos estar procurando a sombra de um asno ao procurar saber, a partir das profecias que ambos creem em comum, se aquele que foi predito já veio ou se ainda não chegou e continua sendo objeto de expectativa? Mas, ainda que se conceda a Celso que não foi Jesus aquele anunciado pelos profetas, mesmo nessa hipótese a investigação do sentido dos escritos proféticos não é uma busca pela sombra de um asno, se aquele de quem se falou pode ser claramente apontado, e se se pode mostrar tanto que tipo de pessoa se predisse que ele seria quanto o que ele deveria fazer e, se possível, quando deveria chegar. Nas páginas anteriores já tratamos da questão de ser Jesus o indivíduo predito para ser o Cristo, citando algumas profecias dentre um número muito maior. Nem judeus nem cristãos, portanto, erram ao sustentar que os profetas falaram sob influência divina; erram, sim, os que formam opiniões falsas a respeito daquele que os profetas esperavam que viesse, e cuja pessoa e caráter foram dados a conhecer em seus verdadeiros discursos.

[5] Logo depois desses pontos, Celso, imaginando que os judeus descendem dos egípcios e abandonaram o Egito após se revoltarem contra o Estado egípcio e desprezarem os costumes daquele povo em matéria de culto, diz que eles sofreram da parte dos seguidores de Jesus, que creram nele como o Cristo, o mesmo tratamento que haviam infligido aos egípcios; e que, em ambos os casos, a causa da nova situação foi a rebelião contra o Estado. Observemos, então, o que Celso fez aqui. Os antigos egípcios, depois de praticarem muitas crueldades contra a raça hebreia, que se estabelecera no Egito por causa de uma fome que surgira na Judeia, sofreram, em consequência de sua injustiça para com estrangeiros e suplicantes, o castigo que a Providência divina decretara cair sobre toda a nação, por terem se unido contra um povo inteiro que era seu hóspede e que nenhum mal lhes fizera; e, depois de serem feridos por pragas vindas de Deus, permitiram-lhes com dificuldade, e após breve tempo, ir para onde quisessem, pois os mantinham injustamente em escravidão. Porque, pois, eram um povo egoísta, que honrava muito mais os que lhes eram aparentados do que estrangeiros de vida melhor, não deixaram de levantar nenhuma acusação contra Moisés e os hebreus — não negando totalmente, na verdade, os milagres e maravilhas feitos por ele, mas alegando que foram realizados por feitiçaria, e não por poder divino. Moisés, porém, não como mágico, mas como homem piedoso, consagrado ao Deus de todas as coisas e participante do Espírito divino, tanto promulgou leis para os hebreus segundo as sugestões da Divindade como registrou os acontecimentos com perfeita fidelidade, tal como se deram.

[6] Celso, portanto, sem investigar os fatos com espírito imparcial — sendo os egípcios a relatá-los de uma forma e os hebreus de outra —, mas, por assim dizer, enfeitiçado em favor dos primeiros, aceitou como verdadeiras as declarações daqueles que haviam oprimido os estrangeiros e afirmou que os hebreus, injustamente maltratados, saíram do Egito depois de se revoltarem contra os egípcios; sem perceber quão impossível seria que tão grande multidão de egípcios revoltosos se tornasse uma nação que, tendo sua origem nessa revolta, mudasse de língua no momento da rebelião, de modo que os que até então usavam a língua egípcia adotassem de uma só vez, e por completo, a língua dos hebreus. Conceda-se, porém, segundo sua hipótese, que ao abandonar o Egito tenham concebido ódio também por sua língua materna: como aconteceu então que, em vez de preferirem o sírio ou o fenício, adotaram o hebraico, que difere de ambos? A razão me parece demonstrar que é falsa a afirmação que faz daqueles que eram egípcios por raça homens que se revoltaram contra os egípcios, deixaram o país, foram para a Palestina e ocuparam a terra agora chamada Judeia. Pois o hebraico era a língua de seus pais antes de sua descida ao Egito; e as letras hebraicas, usadas por Moisés na redação daqueles cinco livros tidos como sagrados pelos judeus, eram diferentes das dos egípcios.

[7] Do mesmo modo que é falsa a afirmação de que os hebreus, sendo originalmente egípcios, datavam o começo de sua existência política do tempo de sua revolta, também é falsa a ideia de que, nos dias de Jesus, outros judeus se revoltaram contra o Estado judaico e se tornaram seus seguidores; pois nem Celso nem os que pensam como ele podem apontar qualquer ato dos cristãos que tenha sabor de rebelião. E, no entanto, se uma revolta tivesse levado à formação da comunidade cristã, de modo que ela derivasse sua existência da dos judeus, que tinham permissão para pegar em armas em defesa dos membros de suas famílias e matar seus inimigos, o Legislador cristão não teria proibido de todo que se matasse homens; e, contudo, em parte alguma ele ensina que seja correto que seus próprios discípulos usem violência contra qualquer pessoa, por mais má que seja. Ele não julgou compatível com leis como as suas, provenientes de fonte divina, permitir a morte de qualquer indivíduo. Nem os cristãos, se devessem sua origem a uma rebelião, teriam adotado leis de caráter tão extraordinariamente manso, que não lhes permitem, quando o destino lhes é serem mortos como ovelhas, resistir de modo algum aos perseguidores. E, se olharmos um pouco mais profundamente para as coisas, poderemos dizer acerca do êxodo do Egito que seria um milagre uma nação inteira adotar de uma vez a língua chamada hebraica, como se fosse dom do céu, quando um de seus próprios profetas disse: “Ao saírem do Egito, ouviram uma língua que não entendiam”.

[8] Também pelo seguinte podemos concluir que os que saíram do Egito com Moisés não eram egípcios: se tivessem sido, seus nomes também seriam egípcios, porque em toda língua as designações de pessoas e coisas têm afinidade com a própria língua. Mas se é certo, pelos nomes serem hebraicos, que o povo não era egípcio — e as Escrituras estão cheias de nomes hebraicos, dados inclusive a seus filhos enquanto estavam no Egito —, fica claro que é falsa a narrativa egípcia que diz que eles eram egípcios e saíram do Egito com Moisés. É absolutamente certo que, descendendo, como registra a história mosaica, de antepassados hebreus, empregavam uma língua da qual também tiravam os nomes que davam a seus filhos. Quanto aos cristãos, porque foram ensinados a não se vingar de seus inimigos e assim observaram leis mansas e filantrópicas, e porque não teriam feito guerra ainda que tivessem recebido autoridade para fazê-lo, obtiveram esta recompensa de Deus: ele sempre combateu em seu favor e, em certas ocasiões, conteve os que se levantaram contra eles e quiseram destruí-los. Pois, a fim de lembrar a outros, para que ao verem poucos lutando por sua religião se tornassem também eles mais aptos a desprezar a morte, alguns, em ocasiões especiais — e esses indivíduos podem ser facilmente contados —, suportaram a morte por causa do cristianismo, Deus não permitindo que toda a nação fosse exterminada, mas querendo que ela continuasse e que o mundo inteiro fosse cheio desta doutrina salutar e religiosa. E, por outro lado, para que os de ânimo mais fraco recuperassem a coragem e se elevassem acima do temor da morte, Deus interveio por sua providência em favor dos crentes, dispersando por um ato de sua vontade todas as conspirações formadas contra eles, de modo que nem reis, nem governantes, nem o povo pudessem enfurecer-se contra eles além de certo limite. Tal é, portanto, nossa resposta à alegação de Celso de que uma revolta foi o começo original do antigo Estado judaico e, depois, do cristianismo.

[9] Mas, como ele é manifestamente culpado de falsidade nas afirmações seguintes, examinemos sua declaração quando diz: “Se todos os homens quisessem tornar-se cristãos, os cristãos não desejariam tal resultado”. Ora, que essa afirmação é falsa fica claro pelo fato de que os cristãos não deixam de tomar, na medida em que depende deles, providências para espalhar sua doutrina por todo o mundo. Alguns deles, por conseguinte, fizeram disso seu ofício, percorrendo não apenas cidades, mas também aldeias e casas de campo, para fazer convertidos a Deus. E ninguém sustentará que fazem isso por amor ao ganho, quando às vezes não aceitavam sequer o sustento necessário; ou, se em algum momento eram pressionados por necessidade desse tipo, contentavam-se com a mera provisão do que precisavam, embora muitos estivessem dispostos a repartir com eles sua abundância e a ajudá-los muito acima do necessário. Nos dias de hoje, de fato, quando, por causa da multidão de crentes cristãos, não apenas homens ricos, mas pessoas de posição, e damas delicadas e de alta linhagem recebem os mestres do cristianismo, talvez alguns ousem dizer que certos indivíduos assumem o ofício de instrutores cristãos por um pouco de glória. É impossível, porém, suspeitar disso de modo racional quanto ao cristianismo em seus primórdios, quando o perigo assumido, sobretudo por seus mestres, era grande; enquanto hoje o descrédito ligado a ele entre o restante da humanidade é maior que qualquer suposta honra desfrutada entre os que professam a mesma fé, especialmente porque tal honra nem sequer é compartilhada por todos. É falso, então, pela própria natureza da coisa, dizer que, se todos os homens quisessem tornar-se cristãos, os cristãos não desejariam isso.

[10] Mas veja o que ele apresenta como prova dessa afirmação: “Os cristãos, no início, eram poucos em número e sustentavam as mesmas opiniões; mas, quando cresceram e se tornaram grande multidão, dividiram-se e separaram-se, cada qual desejando ter seu próprio partido: pois esse era seu objetivo desde o princípio.” Que os cristãos, no começo, eram poucos em número em comparação com as multidões que depois se tornaram cristãs, é fora de dúvida; e, no entanto, considerando-se tudo, não eram tão poucos assim. Pois o que despertou a inveja dos judeus contra Jesus e os levou a conspirar contra ele foi a grande quantidade daqueles que o seguiram ao deserto — cinco mil homens numa ocasião, e quatro mil em outra, sem contar mulheres e crianças. Tal era o encanto das palavras de Jesus que não somente homens se dispunham a segui-lo ao deserto, mas também mulheres, esquecendo a fraqueza de seu sexo e o cuidado com a decência exterior ao seguir seu Mestre a lugares desertos. Também as crianças, inteiramente livres de tais considerações, quer seguindo os pais, quer talvez atraídas também por sua divindade, para que ela fosse implantada nelas, tornaram-se suas seguidoras juntamente com os pais. Mas, ainda que se conceda que os cristãos fossem poucos no princípio, como isso ajudaria a provar que os cristãos não desejariam levar todos os homens a crer na doutrina do evangelho?

[11] Ele acrescenta que todos os cristãos eram de um só parecer, sem perceber, nem mesmo nesse ponto, que desde o princípio houve divergências entre os crentes quanto ao sentido dos livros tidos por divinos. Enquanto os apóstolos ainda pregavam, e enquanto testemunhas oculares das obras de Jesus ainda ensinavam sua doutrina, não foi pequena a discussão entre os convertidos vindos do judaísmo a respeito dos crentes gentios: se deveriam observar costumes judaicos ou rejeitar o encargo das carnes limpas e imundas, como não sendo obrigatório para os que haviam abandonado os costumes ancestrais dos gentios e se tornado crentes em Jesus. Mais ainda: nas epístolas de Paulo, contemporâneo daqueles que viram Jesus, acham-se mencionados alguns pontos como tendo sido objeto de disputa — por exemplo, quanto à ressurreição e se ela já havia passado, e quanto ao dia do Senhor, se estava próximo ou não. Sim, a própria exortação a evitar “profanas e vãs contendas” e “oposições da ciência falsamente chamada”, que alguns professando “se desviaram da fé”, basta para mostrar que desde o próprio início, quando, como Celso imagina, os crentes eram poucos, havia certas doutrinas interpretadas de modos diferentes.

[12] Em seguida, como ele nos censura pela existência de heresias no cristianismo, tomando isso como fundamento de acusação, ao dizer que, quando os cristãos se multiplicaram muito, dividiram-se e se cindiram em facções, cada indivíduo desejando ter seu próprio partido; e ainda que, assim separados por causa do seu número, refutam-se mutuamente, conservando, por assim dizer, apenas um nome em comum, se é que ainda o conservam, e que esta é a única coisa que ainda se envergonham de abandonar, ao passo que todas as demais matérias são decididas de maneira diversa pelas várias seitas; em resposta, diremos que heresias de vários tipos nunca se originaram em matéria alguma na qual o princípio envolvido não fosse importante e útil à vida humana. Como a medicina é útil e necessária ao gênero humano, e há muitas disputas dentro dela sobre o modo de curar os corpos, encontram-se, por essa razão, numerosas heresias reconhecidamente presentes na ciência médica entre os gregos, e também, ao que suponho, entre aquelas nações bárbaras que professam exercer a medicina. E, além disso, como a filosofia faz profissão da verdade e promete conhecimento das coisas existentes com vistas à regulação da vida, esforçando-se por ensinar o que é vantajoso para nossa raça, e como a investigação desses assuntos vem acompanhada de grandes divergências de opinião, surgiram consequentemente inúmeras heresias também na filosofia, umas mais célebres do que outras. O próprio judaísmo forneceu pretexto para o surgimento de heresias, pela diversidade de acepções dadas aos escritos de Moisés e aos dos profetas. Sendo assim, já que o cristianismo apareceu aos homens como objeto de veneração, não apenas à classe mais servil, como Celso supõe, mas também a muitos entre os gregos dedicados às letras, surgiram necessariamente heresias — não, porém, como resultado de facção e discórdia, mas do sério desejo de muitos homens instruídos de conhecer as doutrinas do cristianismo. Em consequência disso, tomando em acepções diversas os discursos que todos criam ser divinos, surgiram heresias que receberam os nomes daqueles indivíduos que, admirando a origem do cristianismo, foram levados, por razões plausíveis de algum tipo, a opiniões discordantes. E, no entanto, ninguém agiria racionalmente evitando a medicina por causa de suas heresias; nem quem busca o que é digno alimentaria ódio contra a filosofia e usaria suas muitas heresias como pretexto para tal aversão. Assim também os livros sagrados de Moisés e dos profetas não devem ser condenados por causa das heresias no judaísmo.

[13] Ora, se esses argumentos são válidos, por que não defenderíamos do mesmo modo a existência de heresias no cristianismo? E a respeito delas, Paulo me parece falar de modo muito notável quando diz: “Porque importa que haja entre vós heresias, para que os aprovados se manifestem entre vós.” Pois assim como é aprovado em medicina aquele que, pela experiência em várias heresias médicas e pelo exame honesto da maior parte delas, escolheu o sistema preferível, e assim como o grande proficiente em filosofia é o que, depois de conhecer experimentalmente as diversas opiniões, aderiu à melhor, assim eu diria que o cristão mais sábio é o que estudou cuidadosamente as heresias tanto do judaísmo quanto do cristianismo. Já aquele que culpa o cristianismo por causa de suas heresias culparia também o ensino de Sócrates, de cuja escola saíram muitos outros de opiniões discordantes. Mais ainda: as opiniões de Platão poderiam ser acusadas de erro, pelo fato de Aristóteles ter-se separado de sua escola e fundado outra — assunto sobre o qual já observamos no livro precedente. Mas me parece que Celso tomou conhecimento de certas heresias que nem sequer possuem em comum conosco o nome de Jesus. Talvez tenha ouvido falar das seitas chamadas ofitas e cainitas, ou de outras semelhantes, que se afastaram em todos os pontos do ensino de Jesus. E certamente isso não oferece base alguma para acusar a doutrina cristã.

[14] Depois disso ele prossegue: “Sua união é tanto mais admirável quanto mais se pode mostrar que não está baseada em razão substancial alguma. E, no entanto, a rebelião é uma razão substancial, assim como as vantagens que dela procedem e o medo de inimigos externos. Tais são as causas que dão firmeza à sua fé.” Respondemos a isso que nossa união repousa sim sobre uma razão — ou melhor, não sobre uma razão meramente humana, mas sobre a operação divina —, de modo que seu começo foi o próprio ensino de Deus aos homens, nos escritos proféticos, para que esperassem a vinda de Cristo, que seria o Salvador da humanidade. Pois, na medida em que este ponto não foi realmente refutado, embora possa parecer sê-lo aos incrédulos, nessa mesma medida a doutrina é recomendada como doutrina de Deus e Jesus é mostrado como o Filho de Deus tanto antes como depois de sua encarnação. Sustento, além disso, que mesmo depois de sua encarnação ele é sempre encontrado por aqueles que possuem a visão espiritual mais aguda como sumamente semelhante a Deus, e como tendo realmente descido até nós da parte de Deus, e como não tendo derivado sua origem ou desenvolvimento subsequente da sabedoria humana, mas da manifestação de Deus nele, o qual por sua multiforme sabedoria e milagres estabeleceu primeiro o judaísmo e depois o cristianismo. Assim, a afirmação de que a rebelião e as vantagens dela decorrentes foram as causas originárias de uma doutrina que converteu e melhorou tantos homens já foi eficazmente refutada.

[15] E, de novo, que não é o medo de inimigos externos que fortalece nossa união fica claro pelo fato de que essa causa, por vontade de Deus, já deixou de existir há considerável tempo. E é provável que a existência segura, no que diz respeito ao mundo, de que os crentes hoje desfrutam, chegue ao fim, uma vez que aqueles que caluniam o cristianismo de toda maneira voltam a atribuir a atual frequência de rebeliões à multidão dos crentes e ao fato de não serem perseguidos pelas autoridades como nos tempos antigos. Pois aprendemos no evangelho nem a relaxar nossos esforços em dias de paz e a entregar-nos ao repouso, nem, quando o mundo nos faz guerra, a tornar-nos covardes e apostatar do amor ao Deus de todas as coisas que há em Jesus Cristo. E manifestamos claramente a nobreza de nossa origem, sem a ocultar, como imagina Celso, quando gravamos na mente de nossos primeiros convertidos o desprezo por ídolos e imagens de toda espécie, e quando, além disso, elevamos seus pensamentos acima do culto das coisas criadas em vez de Deus e os erguemos até o Criador universal, mostrando claramente que ele é o tema da profecia, tanto pelas predições a seu respeito — que são muitas — quanto pelas tradições cuidadosamente examinadas pelos que são capazes de entender inteligentemente os evangelhos e as declarações dos apóstolos.

[16] Quanto às “lendas de toda espécie” que reunimos, ou aos “terrores” que inventamos, como Celso afirma sem prova, quem quiser que mostre. Eu, na verdade, não sei o que ele quer dizer com inventar terrores, a não ser que se refira à nossa doutrina de Deus como Juiz e da condenação dos homens por suas obras, com as várias provas tiradas em parte da Escritura e em parte de raciocínios prováveis. E, no entanto — pois a verdade é preciosa —, Celso diz ao final: “Longe de mim, ou destes, ou de qualquer outro homem, rejeitar a doutrina do castigo futuro dos maus e da recompensa dos bons!” Que terrores, então, exceto a doutrina do castigo, inventamos e impomos à humanidade? E se ele responder que tecemos opiniões errôneas tiradas de fontes antigas e as proclamamos em alta voz diante dos homens, como os sacerdotes de Cibele chocam seus címbalos aos ouvidos dos que estão sendo iniciados em seus mistérios, nós lhe perguntaremos em resposta: opiniões errôneas tiradas de que fontes antigas? Pois, quer ele se refira aos relatos gregos, que ensinavam a existência de tribunais sob a terra, quer aos relatos judaicos, que, entre outras coisas, predisseram a vida que se segue à presente, ele não poderá mostrar que nós, que procuramos crer com base em razões e regular nossa vida de conformidade com tais doutrinas, tenhamos deixado de discernir corretamente a verdade.

[17] Ele quer, de fato, comparar os artigos de nossa fé com os dos egípcios, entre os quais, ao aproximar-se de seus edifícios sagrados, veem-se recintos esplêndidos, bosques, grandes e belos portões, templos maravilhosos e magníficas tendas ao redor, além de cerimônias de culto cheias de superstição e mistério; mas, quando se entra e se passa para dentro, o objeto do culto se revela ser um gato, um macaco, um crocodilo, uma cabra ou um cão. Ora, que semelhança há entre nós e os esplendores do culto egípcio visíveis aos que se aproximam de seus templos? E onde está a semelhança com os animais irracionais adorados no interior, depois de se atravessarem os portões magníficos? Seriam nossas profecias, o Deus de todas as coisas, as proibições contra imagens e Jesus Cristo crucificado, na visão de Celso, o equivalente ao culto de um animal irracional? Mas, se ele afirmar isso — e não creio que sustentará outra coisa —, responderemos que, nas páginas precedentes, falamos mais longamente em defesa dessas acusações relativas a Jesus, mostrando que o que pareceu acontecer-lhe na condição de sua natureza humana foi repleto de benefício para todos os homens e de salvação para o mundo inteiro.

[18] Em seguida, referindo-se às declarações dos egípcios, que falam exaltadamente acerca de animais irracionais e afirmam que eles são espécie de símbolos de Deus, ou qualquer outra coisa que seus assim chamados profetas costumam chamá-los, Celso diz que isso produz impressão na mente daqueles que aprenderam tais coisas, de modo que não foram iniciados em vão; ao passo que, quanto às verdades ensinadas em nossos escritos àqueles que progrediram no estudo do cristianismo — mediante aquilo que Paulo chama de “dom da palavra de sabedoria pelo Espírito” e “da palavra de conhecimento segundo o Espírito” —, Celso parece não ter sequer formado uma ideia, não apenas pelo que já disse, mas também pelo que mais adiante acrescenta em seu ataque ao sistema cristão, ao afirmar que os cristãos afastam de sua doutrina todo homem sábio e convidam apenas os ignorantes e vulgares; sobre essas afirmações falaremos em seu devido lugar, quando chegarmos a elas.

[19] Ele diz, com efeito, que ridicularizamos os egípcios, embora eles apresentem muitos mistérios dignos de consideração, ao ensinar que tais ritos são atos de culto oferecidos a ideias eternas, e não, como pensa a multidão, a animais passageiros; e que somos tolos, porque não introduzimos em nossas narrativas acerca de Jesus nada mais nobre do que as cabras e os cães do culto egípcio. A isso respondemos: bom senhor, supondo que tenhas razão ao elogiar o fato de os egípcios apresentarem muitos mistérios dignos de consideração e explicações obscuras sobre os animais que adoram, ainda assim não ages de modo coerente ao acusar-nos como se nada tivéssemos a declarar que mereça consideração, como se todas as nossas doutrinas fossem desprezíveis e sem valor, quando nós expomos as narrativas a respeito de Jesus segundo a “sabedoria da palavra” àqueles que são “perfeitos” no cristianismo. A respeito destes, como sendo capazes de compreender a sabedoria que há no cristianismo, Paulo diz: “Falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, a sabedoria oculta, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu.”

[20] E dizemos aos que têm opiniões semelhantes às de Celso: Paulo, então, segundo se deve supor, não tinha diante de si ideia alguma de sabedoria eminente quando professou falar sabedoria entre os perfeitos? Ora, como ele falou com sua costumeira ousadia ao fazer tal profissão, não diremos em resposta que era desprovido de sabedoria; antes, diremos: examinai primeiro as epístolas daquele que profere essas palavras e observai cuidadosamente o sentido de cada expressão nelas — digo, naquelas aos efésios, colossenses, tessalonicenses, filipenses e romanos —, e mostrai duas coisas: tanto que entendeis as palavras de Paulo quanto que sois capazes de demonstrar que qualquer uma delas é tola ou absurda. Pois, se alguém se entregar a uma leitura atenta delas, estou muito seguro de que ou ficará admirado com a inteligência de um homem capaz de revestir grandes ideias com linguagem comum, ou, se não se admirar, apenas se tornará ridículo, quer simplesmente exponha o sentido do autor como se o tivesse compreendido, quer tente contradizer e refutar o que apenas imaginou ter entendido.

[21] E ainda nem falei da observância de tudo quanto está escrito nos evangelhos, cada um dos quais contém muita doutrina difícil de entender, não apenas para a multidão, mas até para alguns dos mais inteligentes, incluindo uma explicação profundíssima das parábolas que Jesus dirigia aos que estavam de fora, reservando a exposição de seu pleno sentido para aqueles que haviam ultrapassado o estágio do ensino exotérico e iam ter com ele em particular, em casa. E, quando alguém chega a compreendê-lo, admirará a razão pela qual uns são chamados de “de fora” e outros de “os de casa”. E, além disso, quem não se encheria de assombro, se for capaz de compreender os movimentos de Jesus, que ora sobe a um monte para proferir certos discursos, ou realizar certos milagres, ou para sua própria transfiguração, e ora desce novamente para curar os enfermos e os que não podiam segui-lo para onde seus discípulos iam? Mas não é o momento apropriado para descrever agora o conteúdo verdadeiramente venerável e divino dos evangelhos, nem a mente de Cristo — isto é, a sabedoria e o verbo — contida nos escritos de Paulo. O que já dissemos, porém, basta como resposta às zombarias nada filosóficas de Celso, que compara os mistérios interiores da Igreja de Deus aos gatos, macacos, crocodilos, cabras e cães do Egito.

[22] Mas esse bufão vulgar, Celso, não omitindo nenhuma espécie de escárnio e ridículo que possa ser usada contra nós, menciona em seu tratado os Dioscuros, Hércules, Esculápio e Dioniso, que os gregos creem terem se tornado deuses depois de terem sido homens, e diz que não suportamos chamar tais seres de deuses porque primeiro foram homens, embora tenham manifestado muitas qualidades nobres, mostradas para benefício da humanidade, ao passo que afirmamos que Jesus foi visto depois de sua morte por seus próprios seguidores; e ele ainda nos lança uma acusação adicional, como se disséssemos que ele foi visto, sim, mas apenas como sombra. A isso respondemos que Celso procedeu com muita astúcia ao não indicar claramente aqui que ele próprio não considerava tais seres como deuses, pois temia a opinião dos que porventura lessem seu tratado e viessem a supô-lo ateu; ao passo que, se respeitasse o que lhe parecia ser a verdade, não teria fingido considerá-los deuses. Ora, a qualquer uma das alternativas estamos prontos a responder. Aos que não os consideram deuses, diremos o seguinte: então esses seres não são de modo algum deuses; mas, segundo a opinião daqueles que pensam que a alma do homem perece imediatamente após a morte, as almas desses homens também pereceram; ou, segundo a opinião dos que dizem que a alma continua a subsistir ou é imortal, esses homens continuam existindo ou são imortais, e não são deuses, mas heróis — ou nem sequer heróis, mas simplesmente almas. Se, portanto, por um lado supondes que eles não existem, teremos de provar a doutrina da imortalidade da alma, que para nós é uma doutrina da mais alta importância; se, por outro lado, eles existem, ainda teremos de provar a doutrina da imortalidade, não apenas pelo que os gregos disseram tão bem a seu respeito, mas também de modo conforme ao ensino da santa Escritura. E demonstraremos que é impossível que aqueles que durante sua vida foram politeístas obtenham depois de sua partida deste mundo uma pátria e posição melhores, citando as histórias contadas a seu respeito, nas quais se registra a grande dissolução de Hércules, sua servidão afeminada com Ônfale e também as declarações acerca de Esculápio, de que Zeus o feriu com um raio. E dos Dioscuros se dirá que morrem frequentemente: “Ora vivem em dias alternados, ora morrem, e recebem honra igual à dos deuses.” Como, então, podem imaginar razoavelmente que qualquer um deles deva ser considerado deus ou herói?

[23] Nós, porém, ao provarmos os fatos narrados acerca de nosso Jesus a partir das Escrituras proféticas e ao compararmos depois sua história com elas, demonstramos que nenhuma dissolução se registra de sua parte. Pois até mesmo os que conspiraram contra ele e buscaram falsas testemunhas para ajudá-los não encontraram sequer fundamento plausível para apresentar acusação falsa contra ele, de modo a incriminá-lo de libertinagem; mas sua morte foi, sim, resultado de uma conspiração, e em nada se assemelhou à morte de Esculápio por raio. E que há de venerável no louco Dioniso e em suas vestes femininas, para que seja adorado como deus? E, se os que pretendem defender tais seres recorrem a interpretações alegóricas, devemos examinar cada caso individualmente e averiguar se a interpretação é bem fundada, e também se esses seres podem realmente existir e merecem respeito e culto, eles que foram despedaçados pelos Titãs e lançados abaixo de seu trono celeste. Já nosso Jesus, que apareceu aos membros de sua própria companhia — pois usarei a palavra que Celso emprega —, realmente apareceu; e Celso faz acusação falsa contra o evangelho ao dizer que o que apareceu foi uma sombra. Que as narrativas de suas histórias e a de Jesus sejam comparadas cuidadosamente entre si. Quererá Celso que as primeiras sejam verdadeiras, mas a segunda, embora registrada por testemunhas oculares que mostraram por seus atos que entendiam claramente a natureza daquilo que haviam visto e que manifestaram seu estado de espírito pelo que sofreram alegremente por causa do evangelho dele, seja invenção? Ora, quem, desejando agir sempre em conformidade com a reta razão, daria assentimento ao acaso ao que se conta de uns, mas se lançaria à história de Jesus e, sem exame, recusaria crer no que dela foi registrado?

[24] E ainda, quando se diz de Esculápio que grande multidão, tanto de gregos quanto de bárbaros, reconhece que muitas vezes o viu — e ainda o vê — não como mero fantasma, mas o próprio Esculápio, curando, fazendo o bem e predizendo o futuro, Celso exige que creiamos nisso e não encontra falta nos que creem em Jesus quando exprimimos fé em tais relatos; mas, quando damos assentimento aos discípulos e testemunhas oculares dos milagres de Jesus, os quais manifestam claramente a sinceridade de sua convicção — porque vemos sua singeleza, tanto quanto é possível perceber a consciência revelada por escrito —, somos por ele chamados de um bando de tolos, embora não consiga demonstrar que um número incalculável, como afirma, de gregos e bárbaros reconheça a existência de Esculápio; ao passo que nós, se julgarmos isso importante, podemos mostrar claramente multidão incontável de gregos e bárbaros que reconhece a existência de Jesus. E alguns dão prova de haver recebido por meio dessa fé um poder admirável, pelas curas que realizam, não invocando sobre os necessitados de ajuda outro nome senão o do Deus de todas as coisas e o de Jesus, junto com a menção de sua história. Por esses meios também nós vimos muitas pessoas libertas de calamidades graves, de perturbações da mente, de loucura e de inúmeros outros males que não podiam ser curados nem por homens nem por demônios.

[25] Ora, para conceder que realmente tenha existido um espírito curador chamado Esculápio, que costumava curar os corpos dos homens, eu diria àqueles que se maravilham com tal ocorrência, ou com o conhecimento profético de Apolo, que, visto que a cura dos corpos é coisa indiferente e acessível não apenas aos bons, mas também aos maus, e como a presciência do futuro também é coisa indiferente — pois aquele que possui presciência não manifesta por isso necessariamente a posse da virtude —, é preciso mostrar que os que praticam a cura ou predizem o futuro não são em nada maus, mas exibem um modelo perfeito de virtude e não estão longe de ser considerados deuses. Mas não poderão mostrar que são virtuosos os que exercem a arte de curar ou possuem o dom da presciência, uma vez que se conta que muitos indignos de viver foram curados — e, além disso, pessoas que, levando vida imprópria, nenhum médico sábio desejaria curar. E nas respostas do oráculo pítico também se podem encontrar algumas ordens que não estão de acordo com a razão; duas delas citaremos agora: quando ordenou que Cleômedes — suponho, o pugilista — fosse honrado com honras divinas, como se houvesse alguma grande importância ligada à sua habilidade no pugilismo, mas não concedeu nem a Pitágoras nem a Sócrates as honras que concedeu ao pugilismo; e também quando chamou Arquíloco servo das Musas — um homem que empregou seus talentos poéticos em temas dos mais perversos e licenciosos, e cuja vida pública foi dissoluta e impura — e o denominou piedoso por ser servo das Musas, que são consideradas deusas. Ora, estou inclinado a pensar que ninguém afirmaria ser piedoso um homem não adornado com toda moderação e virtude, nem que um homem decoroso pronunciaria expressões como as que se contêm nos iambos indecorosos de Arquíloco. E, se nada de divino em si mesmo se mostra pertencer nem à arte curativa de Esculápio nem ao poder profético de Apolo, como poderia alguém, ainda que eu concedesse que os fatos sejam como se alega, adorá-los racionalmente como divindades puras? — especialmente quando o espírito profético de Apolo, puro de qualquer corpo terrestre, entra secretamente pelas partes íntimas daquela que é chamada sacerdotisa, enquanto ela se assenta à boca da caverna pítica! Já quanto a Jesus e seu poder, não temos semelhante noção; pois o corpo nascido da Virgem era composto de matéria humana, e capaz de receber feridas e morte humanas.

[26] Vejamos o que Celso diz em seguida, quando aduz da história acontecimentos maravilhosos, que em si mesmos parecem inacreditáveis, mas que, pelo menos a julgar por suas palavras, ele não desacredita. E, em primeiro lugar, quanto a Aristeas de Proconeso, de quem fala assim: “Quanto a Aristeas de Proconeso, que desapareceu do meio dos homens de modo tão indicativo de intervenção divina, e que se mostrou novamente de forma tão inequívoca, e em muitas ocasiões posteriores visitou muitas partes do mundo e anunciou acontecimentos maravilhosos, e a quem Apolo ordenou que os habitantes de Metaponto considerassem um deus, ninguém o considera deus.” Parece ter tomado esse relato de Píndaro e Heródoto. Será suficiente, por ora, citar a declaração deste último, do quarto livro de suas Histórias, que diz assim: “De que país era Aristeas, que compôs esses versos, já foi mencionado, e agora contarei o que ouvi a seu respeito em Proconeso e Cízico. Dizem que Aristeas, que não era inferior a nenhum dos cidadãos por nascimento, entrando numa oficina de um pisoeiro em Proconeso, morreu subitamente; e que o pisoeiro, tendo fechado sua oficina, foi informar os parentes do morto. Espalhando-se pela cidade a notícia de que Aristeas havia morrido, certo homem de Cízico, vindo de Artace, entrou em discussão com os que divulgavam a notícia, afirmando que o encontrara e falara com ele a caminho de Cízico, e contestou energicamente a veracidade do relato; mas os parentes do morto foram à oficina do pisoeiro levando consigo o necessário para levar o corpo, e, quando a casa foi aberta, Aristeas não foi visto, nem morto nem vivo. Dizem que depois, no sétimo ano, ele apareceu em Proconeso, compôs os versos que os gregos agora chamam Arimaspeia, e, depois de compô-los, desapareceu uma segunda vez. Tal é a história corrente nessas cidades. Mas sei que entre os metapontinos, na Itália, aconteceram estas coisas trezentos e quarenta anos após o segundo desaparecimento de Aristeas, como descobri por cálculo em Proconeso e Metaponto. Os metapontinos dizem que o próprio Aristeas, tendo aparecido em sua terra, exortou-os a erguer um altar a Apolo e a colocar perto dele uma estátua com o nome de Aristeas, o Proconésio; pois dizia que Apolo visitara sua terra somente entre todos os italianos, e que ele próprio, que agora era Aristeas, o acompanhara; e que, quando acompanhava o deus, era um corvo; e, depois de dizer isso, desapareceu. E os metapontinos dizem que enviaram a Delfos para consultar o deus acerca do significado da aparição daquele homem; mas a Pítia mandou que obedecessem à aparição, e que, se obedecessem, isso lhes traria benefício. Tendo recebido tal resposta, cumpriram a ordem. E agora uma estátua com o nome de Aristeas está colocada perto da imagem de Apolo, e loureiros estão plantados ao redor; a imagem fica na praça pública. Isto basta quanto a Aristeas.”

[27] Em resposta a esse relato de Aristeas, temos a dizer que, se Celso o tivesse aduzido como história, sem indicar sua própria adesão à sua veracidade, de outro modo teríamos tratado seu argumento. Mas, como ele afirma que Aristeas desapareceu por intervenção da divindade, mostrou-se novamente de modo inequívoco, visitou muitas partes do mundo e fez anúncios maravilhosos, e, além disso, que houve um oráculo de Apolo ordenando aos metapontinos que tratassem Aristeas como deus, ele apresenta as narrativas concernentes a ele como se fossem de sua própria autoridade e com pleno assentimento. Sendo assim, perguntamos: como é possível que, ao mesmo tempo em que supões completamente fictícios os prodígios relatados pelos discípulos de Jesus a respeito de seu Mestre e censuras os que creem neles, não consideres essas tuas histórias produtos de embuste ou invenções? E como, ao acusar os outros de crença irracional nos prodígios registrados de Jesus, mostras-te justificado em dar crédito a declarações como essas, sem produzir alguma prova ou evidência de que os fatos realmente aconteceram? Ou será que Heródoto e Píndaro te parecem falar a verdade, enquanto aqueles que se preocuparam em morrer pela doutrina de Jesus e deixaram a seus sucessores escritos tão notáveis acerca das verdades em que criam teriam entrado, por causa de ficções, mitos e embustes, numa luta que implica vida perigosa e morte violenta? Coloca-te, então, como parte neutra, entre o que se diz de Aristeas e o que se registra acerca de Jesus, e vê se, pelo resultado, e pelos benefícios que daí advieram para a reforma dos costumes e para o culto do Deus que está acima de todas as coisas, não se conclui legitimamente que os fatos registrados acerca de Jesus não aconteceram sem intervenção divina, ao passo que não foi esse o caso da história de Aristeas de Proconeso.

[28] Pois com que finalidade a Providência realizou os prodígios que se narram de Aristeas? E que benefício para a raça humana adveio de acontecimentos tão notáveis, como tu os consideras? Não podes responder. Nós, porém, quando narramos os acontecimentos da história de Jesus, temos defesa nada comum para sua ocorrência: a saber, que Deus quis recomendar a doutrina de Jesus como doutrina destinada a salvar a humanidade, e que estava fundada, de fato, sobre os apóstolos como fundamentos do edifício ascendente do cristianismo, mas que também cresceu em grandeza nos séculos seguintes, nos quais não poucas curas são operadas em nome de Jesus e certas outras manifestações de não pequena importância têm acontecido. Que espécie de ser é, então, esse Apolo, que ordenou aos metapontinos tratar Aristeas como deus? E com que objetivo o fez? E que vantagem procurava para os metapontinos com esse culto divino, se deviam considerar como deus alguém que há pouco era mortal? E, contudo, as recomendações de Apolo — que nós vemos como um demônio que obteve a honra de libações e odores sacrificiais — a respeito desse Aristeas te parecem dignas de consideração; ao passo que as do Deus de todas as coisas e de seus santos anjos, tornadas conhecidas de antemão por meio dos profetas — não depois do nascimento de Jesus, mas antes que ele aparecesse entre os homens —, não te despertam admiração, não apenas pelos profetas que receberam o Espírito Divino, mas também por aquele que foi o objeto de suas predições, cuja entrada na vida foi tão claramente anunciada muitos anos antes por numerosos profetas que todo o povo judeu, suspenso na expectativa da vinda daquele que era esperado, caiu, depois da vinda de Jesus, em acesa disputa entre si; de modo que grande multidão deles reconheceu Cristo e creu ser ele o objeto da profecia, enquanto outros não creram, e, desprezando a mansidão daqueles que, por causa do ensino de Jesus, não queriam causar sequer a mais leve sedição, ousaram infligir a Jesus aquelas crueldades que seus discípulos registraram de forma tão verdadeira e franca, sem ocultar em sua história maravilhosa dele aquilo que à multidão parece trazer desonra à doutrina cristã. Mas tanto o próprio Jesus quanto seus discípulos quiseram que seus seguidores cressem não somente em sua divindade e em seus milagres, como se ele não houvesse também participado da natureza humana e assumido a carne humana que luta contra o Espírito; eles viram também que o poder que descera à natureza humana, ao meio das misérias humanas, e assumira alma e corpo humanos, contribuía, por meio da fé e juntamente com seus elementos divinos, para a salvação dos crentes, quando estes percebem que nele teve início a união do divino com a natureza humana, para que o humano, pela comunhão com o divino, se elevasse a ser divino — não em Jesus somente, mas em todos os que não apenas creem, mas entram na vida que Jesus ensinou, a qual eleva à amizade com Deus e à comunhão com ele todo aquele que vive segundo os preceitos de Jesus.

[29] Segundo Celso, então, Apolo quis que os metapontinos tratassem Aristeas como um deus. Mas, como os metapontinos consideraram mais forte a evidência em favor de Aristeas ser um homem — e provavelmente não um homem virtuoso — do que a declaração do oráculo de que era um deus ou digno de honras divinas, por essa razão não obedeceram a Apolo, e, consequentemente, ninguém considerou Aristeas um deus. Quanto a Jesus, porém, diríamos que, sendo vantajoso para a raça humana aceitá-lo como Filho de Deus — Deus vindo em alma e corpo humanos —, e como isso não parecia vantajoso aos apetites vorazes dos demônios que amam corpos e daqueles que os têm por deuses por essa razão, os demônios da terra, supostos deuses por aqueles que não são instruídos sobre a natureza dos demônios, bem como seus adoradores, desejaram impedir a propagação da doutrina de Jesus; pois viam que as libações e os perfumes de que avidamente se deleitavam estavam sendo varridos pelo avanço dos ensinamentos de Jesus. Mas o Deus que enviou Jesus dissipou todas as conspirações dos demônios e fez prevalecer o evangelho de Jesus por todo o mundo para a conversão e reforma dos homens, e fez com que igrejas fossem estabelecidas por toda parte em oposição às assembleias de homens supersticiosos, licenciosos e perversos; pois tal é o caráter das multidões que constituem os cidadãos nas assembleias das várias cidades. Ao passo que as Igrejas de Deus, instruídas por Cristo, quando cuidadosamente comparadas com as assembleias dos distritos em que se situam, são como faróis no mundo; pois quem não admitiria que até os membros inferiores da Igreja, e aqueles que, em comparação com os melhores, são menos dignos, ainda assim são superiores a muitos dos que pertencem às assembleias dos diferentes distritos?

[30] Pois a Igreja de Deus, por exemplo, que está em Atenas, é um corpo manso e estável, por desejar agradar a Deus, que está acima de todas as coisas; ao passo que a assembleia dos atenienses é dada à sedição e em nada pode ser comparada à Igreja de Deus naquela cidade. E o mesmo se pode dizer da Igreja de Deus em Corinto e da assembleia do povo coríntio; e também da Igreja de Deus em Alexandria e da assembleia do povo de Alexandria. E, se quem ouve isso for homem sincero, alguém que investiga as coisas com desejo de averiguar a verdade, ficará cheio de admiração por aquele que não somente concebeu esse desígnio, mas também foi capaz de assegurar em toda parte o estabelecimento de Igrejas de Deus lado a lado com as assembleias do povo em cada cidade. De modo semelhante, ao comparar o conselho da Igreja de Deus com o conselho de qualquer cidade, encontrarás que certos conselheiros da Igreja são dignos de governar na cidade de Deus, se é que existe alguma cidade assim em todo o mundo; ao passo que os conselheiros de todos os outros lugares não exibem em seu caráter qualidade alguma digna da superioridade convencional que parecem desfrutar sobre seus concidadãos. E assim também deves comparar o dirigente da Igreja em cada cidade com o dirigente do povo da cidade, para observar que mesmo entre aqueles conselheiros e governantes da Igreja de Deus que ficam muito aquém do seu dever e levam vida mais indolente do que outros mais enérgicos, ainda assim é possível descobrir, no que diz respeito ao progresso na virtude, uma superioridade geral sobre o caráter dos conselheiros e governantes das várias cidades.

[31] Ora, se assim é, por que não seria conforme à razão sustentar, a respeito de Jesus, que foi capaz de produzir resultados tão grandes, que habitava nele não uma divindade comum? Ao passo que não sucedia o mesmo nem com Aristeas de Proconeso, embora Apolo quisesse que fosse considerado um deus, nem com os outros indivíduos enumerados por Celso quando diz: “Ninguém considera Abaris, o hiperbóreo, um deus, embora tivesse poder tal que era levado como flecha disparada de um arco.” Pois com que objetivo a divindade que concedeu a esse hiperbóreo Abaris o poder de ser transportado como flecha lhe conferiu tal dom? Foi para benefício da raça humana, ou ele mesmo obteve alguma vantagem ao possuí-lo? — sempre supondo que se conceda que essas declarações não sejam pura invenção, mas que o fato realmente aconteceu mediante cooperação de algum demônio. Mas, se está registrado que meu Jesus foi recebido na glória, eu percebo aí o arranjo divino, a saber: porque Deus, que fez isso acontecer, recomenda desse modo o Mestre àqueles que o testemunharam, para que, como homens que não contendem por doutrina humana, mas por ensino divino, se entreguem, tanto quanto possível, ao Deus que está acima de todos, e façam tudo a fim de agradá-lo, como aqueles que haverão de receber no juízo divino a recompensa pelo bem ou pelo mal que tiverem praticado nesta vida.

[32] E, como Celso menciona em seguida o caso do homem de Clazômenas, acrescentando ao relato o comentário: “Não dizem que sua alma frequentemente deixava o corpo e vagueava em forma incorpórea? E, no entanto, os homens não o tiveram por deus”, temos de responder que provavelmente certos demônios maus tramaram que tais relatos fossem postos por escrito — pois não creio que tenham feito com que tal coisa realmente ocorresse — a fim de que as predições a respeito de Jesus e os discursos por ele proferidos fossem ou difamados como invenções semelhantes a estas, ou não causassem surpresa, por não serem mais notáveis do que outros acontecimentos. Mas meu Jesus disse a respeito de sua própria alma, separada do corpo não por necessidade humana, mas pelo poder miraculoso que lhe fora dado também para esse fim: “Ninguém tira minha vida de mim; eu de mim mesmo a dou. Tenho poder para a dar e tenho poder para a retomar.” Assim como tinha poder para entregá-la, entregou-a quando disse: “Pai, por que me abandonaste?” E, tendo clamado em alta voz, entregou o espírito, antecipando-se aos executores públicos dos crucificados, que quebravam as pernas das vítimas para que o castigo não se prolongasse mais. E retomou sua vida quando se manifestou aos discípulos, tendo antes, na presença deles, predito aos judeus incrédulos: “Destruí este templo, e em três dias o levantarei”; e isso dizia do templo do seu corpo; além disso, os profetas haviam predito tal desfecho em muitas outras passagens de seus escritos, e também nesta: “Minha carne repousará em esperança, porque não deixarás minha alma no Hades, nem permitirás que teu Santo veja corrupção.”

[33] Celso, no entanto, mostra que leu bastante história grega quando cita ainda o que se conta de Cleômedes de Astipaleia, o qual, segundo ele relata, entrou numa arca e, embora encerrado nela, não foi ali encontrado, mas, por algum arranjo da divindade, voou para fora quando algumas pessoas haviam aberto a arca a fim de prendê-lo. Ora, essa história, se invenção, como parece ser, não pode ser comparada com o que se narra de Jesus, pois na vida de tais homens não se encontra sinal algum de possuírem a divindade que lhes é atribuída; ao passo que a divindade de Jesus se estabelece tanto pela existência das Igrejas dos salvos quanto pelas profecias pronunciadas a seu respeito, pelas curas operadas em seu nome, pela sabedoria e pelo conhecimento que há nele e pelas verdades mais profundas descobertas por aqueles que sabem subir de uma fé simples e investigar o sentido que está nas divinas Escrituras, de acordo com as ordens de Jesus, que disse: “Examinai as Escrituras”, e com o desejo de Paulo, que ensinou que devemos saber responder a todo homem; e também daquele que disse: “Estai sempre prontos para responder a todo aquele que vos pedir a razão da fé que há em vós.” Se Celso quiser, contudo, que se lhe conceda que a história não é ficção, então que mostre com que finalidade esse poder sobrenatural fez que ele, por algum arranjo da divindade, fugisse da arca. Pois, se ele apresentar alguma razão digna de consideração e indicar algum propósito digno de Deus ao conceder tal poder a Cleômedes, decidiremos qual resposta devemos dar; mas, se não disser nada convincente sobre o assunto, claramente porque nenhuma razão pode ser encontrada, então ou falaremos com desprezo da história aos que não a aceitaram e a acusaremos de falsa, ou diremos que algum poder demoníaco, lançando ilusão sobre os olhos, produziu no caso do astipaleano um resultado semelhante ao que é produzido pelos prestidigitadores, enquanto Celso pensa que, a respeito dele, falou como um oráculo, ao dizer que por algum arranjo divino ele voou para fora da arca.

[34] Sou, porém, de opinião que esses são os únicos exemplos que Celso conhecia. E, no entanto, para parecer que deixava de lado voluntariamente outros casos semelhantes, diz: “E poder-se-iam citar muitos outros do mesmo tipo.” Conceda-se, então, que tenham existido muitos desses indivíduos, sem que beneficiassem em nada o gênero humano: o que viria a ser cada um de seus atos em comparação com a obra de Jesus e com os milagres narrados a seu respeito, dos quais já falamos largamente? Em seguida ele imagina que, ao adorarmos aquele que, segundo ele, foi preso e morto, agimos como os getas que adoram Zalmoxis, os cilícios que adoram Mopso, os acarnânios que prestam honras divinas a Anfíloco, os tebanos que fazem o mesmo a Anfiarau, e os lebadeus a Trofônio. Ora, nesses casos mostraremos que ele nos comparou sem razão com os indivíduos mencionados. Pois essas diferentes tribos ergueram templos e estátuas àqueles homens; nós, porém, nos abstivemos de prestar honra à Divindade por tais meios — vendo que eles são adaptados antes a demônios, que de algum modo se fixam em certo lugar preferindo-o a qualquer outro, ou que tomam ali morada, por assim dizer, depois de serem removidos de um lugar para outro por certos ritos e encantamentos —, e contemplamos Jesus com reverente admiração, ele que chamou de volta nossa mente para longe de todas as coisas sensíveis, por serem não somente corruptíveis, mas destinadas à corrupção, e a elevou para honrar o Deus que está acima de todos com orações e vida justa, que lhe oferecemos como intermediário entre a natureza incriada e a de todas as coisas criadas, e que nos concede os benefícios provenientes do Pai.

[35] Mas eu gostaria, em resposta àquele que, por algum motivo desconhecido, apresenta declarações como essas, de fazer em tom de conversa algumas observações como as seguintes, que não me parecem impróprias a seu caso. São, então, nulidades essas pessoas que mencionaste, e não há poder algum em Lebadeia ligado a Trofônio, nem em Tebas no templo de Anfiarau, nem na Acarnânia com Anfíloco, nem na Cilícia com Mopso? Ou há nesses personagens algum ser, seja demônio, herói ou até mesmo deus, operando obras acima do alcance do homem? Pois, se ele responder que nada há nesses indivíduos de demoníaco ou divino mais do que nos demais, então que logo deixe clara sua própria opinião, mostrando-se epicurista, alguém que não compartilha das mesmas convicções dos gregos e que não reconhece demônios nem cultua deuses como os gregos fazem; e que se mostre ter sido em vão que ele adduziu os exemplos anteriormente enumerados, como se os tivesse por verdadeiros, juntamente com os que acrescenta nas páginas seguintes. Mas, se afirmar que as pessoas de quem se fala são demônios, heróis ou mesmo deuses, repare que estabelecerá por aquilo que admitiu um resultado que não deseja, a saber: que Jesus também era algum ser dessa ordem; e por essa razão foi capaz de demonstrar a não poucos que descera da parte de Deus para visitar a raça humana. E, se uma vez admitir isso, veja se não será forçado a confessar que ele é mais poderoso do que aqueles indivíduos com os quais o classificou, visto que nenhum deles proíbe que se prestem honras aos demais; enquanto ele, confiando em si mesmo, porque é mais forte do que todos os outros, proíbe que sejam recebidos como divinos, por serem demônios maus que tomaram posse de lugares na terra, por incapacidade de subir à região mais pura e mais divina, onde a grosseria da terra e seus inúmeros males não podem alcançar.

[36] E, como em seguida introduz o caso do favorito de Adriano — refiro-me às histórias sobre o jovem Antínoo e às honras que lhe prestavam os habitantes da cidade de Antínoo, no Egito —, e imagina que a honra dada a ele pouco fica aquém daquela que rendemos a Jesus, mostremos em que espírito de hostilidade essa declaração é feita. Pois que há em comum entre uma vida levada entre os favoritos de Adriano, por alguém que não se abstinha sequer de desejos contrários à natureza, e a do venerável Jesus, contra quem até mesmo aqueles que levantaram inúmeras outras acusações e contaram tantas falsidades não puderam alegar que ele manifestasse, mesmo no menor grau, qualquer inclinação ao que é licencioso? Mais ainda: se alguém investigasse, em espírito de verdade e imparcialidade, as histórias relativas a Antínoo, descobriria que se devia às artes mágicas e aos ritos dos egípcios que sequer houvesse a aparência de ele realizar algo de maravilhoso na cidade que leva seu nome, e isso somente após sua morte — efeito que se diz ter sido produzido por egípcios também em outros templos e por aqueles que são peritos nas artes que praticam. Pois eles estabelecem em certos lugares demônios que reivindicam poder profético ou curador, e que frequentemente atormentam aqueles que parecem ter cometido algum erro quanto a tipos ordinários de alimento ou quanto ao toque no cadáver de um homem, para que tenham a aparência de amedrontar a multidão ignorante. Dessa natureza é o ser que se considera um deus em Antinoópolis, no Egito, cujas virtudes reputadas são invenções mentirosas de alguns que vivem do lucro daí derivado; enquanto outros, enganados pelo demônio ali colocado, e outros ainda convencidos por uma consciência fraca, realmente pensam estar sofrendo uma pena divina infligida por Antínoo. Dessa mesma natureza são também os mistérios que ali realizam e as aparentes predições que proferem. Bem diferentes são as coisas relativas a Jesus. Pois não foi um grupo de feiticeiros, cortejando um rei ou governante por ordem dele, que pareceu tê-lo feito um deus; foi o próprio Arquiteto do universo que, em conformidade com o poder maravilhosamente persuasivo de suas palavras, o recomendou como digno de honra, não apenas aos homens bem dispostos, mas também aos demônios e a outros poderes invisíveis, que até no presente mostram que ou temem o nome de Jesus como o de um ser de poder superior, ou o reconhecem com reverência como seu governador legítimo. Pois, se tal recomendação não lhe tivesse sido dada por Deus, os demônios não se retirariam daqueles a quem haviam assaltado em obediência à simples menção de seu nome.

[37] Os egípcios, então, tendo sido ensinados a adorar Antínoo, se o comparares com Apolo ou Zeus, suportarão tal comparação, sendo Antínoo engrandecido aos seus olhos por ser colocado ao lado dessas divindades; pois Celso é claramente convencido de falsidade quando diz que eles não suportariam vê-lo comparado com Apolo ou Zeus. Os cristãos, porém — que aprenderam que sua vida eterna consiste em conhecer o único Deus verdadeiro, que está acima de todas as coisas, e Jesus Cristo, a quem ele enviou; e que também aprenderam que todos os deuses dos pagãos são demônios ávidos, que adejam em torno de sacrifícios, sangue e seus acompanhamentos, a fim de enganar aqueles que não se refugiaram no Deus que está acima de todos; mas que os santos anjos de Deus são de natureza e vontade diferentes de todos os demônios da terra, e que são conhecidos por aqueles pouquíssimos que investigaram essas questões com cuidado e inteligência —, esses cristãos não suportarão que se faça comparação entre Jesus e Apolo ou Zeus, ou qualquer ser adorado com cheiro, sangue e sacrifícios; alguns deles agindo assim por sua extrema simplicidade, sem poder dar razão de sua conduta, mas observando sinceramente os preceitos que receberam; outros, porém, por razões nada leves, antes profundas e, como diria um grego, tiradas da própria natureza íntima das coisas. Entre estes últimos Deus é frequente assunto de conversa, bem como aqueles que são honrados por Deus, por meio de seu Verbo unigênito, com participação em sua divindade e, por isso, também em seu nome. Falam muito também acerca dos anjos de Deus e daqueles que se opõem à verdade, mas foram enganados; e que, por terem sido enganados, chamam esses seres de deuses, ou anjos de Deus, ou bons demônios, ou heróis que assim se tornaram pela transferência para eles de uma boa alma humana. E tais cristãos mostrarão ainda que, assim como na filosofia muitos parecem possuir a verdade, mas se enganaram por argumentos plausíveis ou por aderirem precipitadamente ao que foi apresentado e descoberto por outros, assim também entre as almas que existem separadas dos corpos, anjos e demônios, há alguns que foram levados por razões verossímeis a declarar-se deuses. E, porque era impossível que as razões de tais coisas fossem descobertas pelos homens com perfeita exatidão, julgou-se seguro que nenhum mortal se entregasse a algum ser como a Deus, com exceção de Jesus Cristo, que é, por assim dizer, o Governante de todas as coisas e que tanto viu esses segredos graves como os tornou conhecidos a poucos.

[38] A crença, então, em Antínoo, ou em qualquer outra pessoa semelhante, seja entre os egípcios, seja entre os gregos, é, por assim dizer, infeliz; ao passo que a fé em Jesus pareceria ser ou uma feliz, ou o resultado de investigação cuidadosa, tendo a aparência da primeira para a multidão e da segunda para pouquíssimos. E, quando digo que certa crença é, como a multidão diria, infeliz, refiro nesse caso a causa a Deus, que conhece as razões dos diversos destinos atribuídos a cada um que entra na vida humana. Os gregos, além disso, admitirã o que mesmo entre aqueles que são considerados os mais largamente dotados de sabedoria a boa fortuna teve grande parte, por exemplo na escolha de um tipo de mestres em vez de outro, no encontro com instrutores melhores — havendo mestres que ensinam doutrinas completamente opostas — e no fato de serem criados em circunstâncias mais favoráveis; pois a criação de muitos se deu em ambientes tais que foram impedidos de receber alguma vez ideia de coisas melhores, e passaram toda a vida, desde a mais tenra juventude, quer como favoritos de homens licenciosos, quer de tiranos, quer em alguma outra condição miserável que proibia a alma de olhar para cima. As causas dessas sortes variadas, ao que tudo indica, devem ser encontradas nas razões da providência, embora não seja fácil aos homens descobri-las; mas disse isso como digressão do corpo principal de meu assunto, por causa do provérbio segundo o qual tal é o poder da fé, que se apodera daquilo que primeiro se apresenta. Era necessário, por causa dos diversos modos de educação, falar das diferenças de crença entre os homens, alguns dos quais são mais afortunados, outros menos, em sua crença; e, a partir daí, mostrar que o que se chama boa ou má fortuna pareceria contribuir, mesmo no caso dos mais talentosos, para que eles pareçam mais plenamente dotados de razão e deem assentimento, com base em razões, à maior parte das opiniões humanas. Mas basta sobre esses pontos.

[39] Devemos notar as observações que Celso faz em seguida, quando nos diz que a fé, ao tomar posse de nossa mente, nos leva a dar o assentimento que damos à doutrina de Jesus; pois, na verdade, é a fé que produz tal assentimento. Observa, porém, se essa fé não manifesta por si mesma algo digno de louvor, já que nos confiamos ao Deus que está acima de todos, reconhecendo nossa gratidão àquele que nos conduziu a tal fé e declarando que ele não poderia ter intentado nem realizado tal resultado sem o auxílio divino. Temos confiança também nas intenções dos escritores dos evangelhos, ao observarmos sua piedade e escrúpulo moral manifestos em seus escritos, que nada contêm de espúrio, enganoso, falso ou ardiloso; pois nos é evidente que almas alheias àquelas artes ensinadas pela sofística habilidosa dos gregos — caracterizada por grande plausibilidade e agudeza —, e ao gênero de retórica em uso nos tribunais, não teriam sido capazes de inventar por si mesmas acontecimentos aptos a conduzir à fé e a uma vida conforme à fé. E sou de opinião que foi por essa razão que Jesus quis empregar tais pessoas como mestres de suas doutrinas: para que não houvesse motivo algum para suspeita de sofística persuasiva, mas para que ficasse claro a todos os que fossem capazes de entender que o propósito singelo dos escritores, marcado, por assim dizer, por grande simplicidade, foi considerado digno de ser acompanhado por um poder mais divino, o qual realizou muito mais do que pareceria possível por meio de perífrases, de tecedura de frases e de todas as distinções da arte grega.

[40] Observa ainda se os princípios de nossa fé, em harmonia com as ideias gerais implantadas em nossa mente desde o nascimento, não produzem transformação naqueles que escutam com sinceridade suas declarações; pois, embora uma visão pervertida das coisas, ajudada por muita instrução do mesmo teor, tenha conseguido implantar na mente da multidão a crença de que imagens são deuses, e de que coisas feitas de ouro, prata, marfim e pedra são dignas de culto, o bom senso proíbe supor que Deus seja de algum modo um pedaço de matéria corruptível, ou que seja honrado quando homens o fazem assumir uma forma incorporada em matéria morta, moldada segundo alguma imagem ou símbolo de sua aparência. Por isso, dizemos de imediato acerca das imagens que não são deuses, e acerca dessas produções de arte que não podem ser comparadas ao Criador, mas são pequenas em contraste com o Deus que está acima de todos, que criou, sustenta e governa o universo. E a alma racional, reconhecendo, por assim dizer, seu parentesco com o divino, rejeita de pronto o que por algum tempo supôs serem deuses, e retoma seu amor natural por seu Criador; e, por causa de seu afeto para com ele, acolhe também aquele que primeiro apresentou essas verdades a todas as nações por meio dos discípulos que havia escolhido e enviado, providos de poder e autoridade divinos, para proclamar a doutrina acerca de Deus e de seu reino.

[41] Mas, visto que ele já nos acusou, não sei quantas vezes, de considerarmos como Deus esse Jesus que possuía apenas um corpo mortal, e de supormos que agimos piedosamente assim, é supérfluo dizer ainda mais em resposta, porque muito já foi dito nas páginas anteriores. Contudo, que os que fazem essa acusação entendam que aquele a quem consideramos e cremos ser desde o princípio Deus e Filho de Deus é o próprio Logos, a própria Sabedoria e a própria Verdade; e, quanto ao seu corpo mortal e à alma humana que ele continha, afirmamos que não apenas por sua comunhão com ele, mas por sua unidade e mistura com ele, receberam os mais altos poderes e, depois de participarem de sua divindade, foram transformados em Deus. E, se alguém sentir dificuldade ao ouvir-nos dizer isso do corpo dele, considere o que os gregos dizem sobre a matéria: que, propriamente falando, sendo sem qualidades, recebe aquelas de que o Criador deseja revesti-la, e frequentemente se despe das que possuía antes e assume outras diferentes e mais elevadas. Se essas opiniões são corretas, que há de admirável em que a qualidade mortal do corpo de Jesus, se a providência de Deus assim o quis, tenha sido mudada em qualidade etérea e divina?

[42] Celso, então, não fala como bom raciocinador quando compara a carne mortal de Jesus ao ouro, à prata e à pedra, afirmando que a primeira é mais sujeita à corrupção do que estas últimas. Pois, falando corretamente, aquilo que é incorruptível não está mais livre de corrupção do que outra coisa incorruptível, nem o que é corruptível é mais sujeito à corrupção do que outro corruptível. Mas, admitindo-se que haja graus de corruptibilidade, podemos responder que, se é possível à matéria subjacente a todas as qualidades trocar algumas delas, por que seria impossível que também a carne de Jesus trocasse qualidades e se tornasse tal como convinha que fosse um corpo destinado a habitar no éter e nas regiões acima dele, não possuindo mais as enfermidades próprias da carne e aquelas propriedades que Celso chama de impurezas, e ao chamá-las assim fala diferentemente de um filósofo? Pois aquilo que é propriamente impuro o é por causa de sua maldade. Ora, a natureza do corpo não é impura, porque, enquanto é natureza corpórea, não possui vício, que é o princípio gerador da impureza. Mas, como suspeitava da resposta que daríamos, ele diz a respeito da mudança do corpo de Jesus: “Muito bem, depois de ter deixado de lado essas qualidades, ele será um deus; e, se assim é, por que não antes Esculápio, Dioniso e Hércules?” Ao que respondemos: que grande feito realizou Esculápio, ou Dioniso, ou Hércules? E que pessoas poderão apontar como tendo sido melhoradas em caráter e tornadas melhores por suas palavras e vidas, para fundamentar a pretensão de que são deuses? Leiamos as muitas narrativas a seu respeito e vejamos se estavam livres de licenciosidade, injustiça, insensatez ou covardia. Se nada disso se encontrar neles, o argumento de Celso, que põe esses nomes em igualdade com Jesus, poderia ter alguma força. Mas, se é certo que, embora algumas coisas honrosas sejam contadas deles, registra-se também que praticaram inúmeras ações contrárias à reta razão, como ainda poderias dizer, com alguma aparência de razão, que esses homens, ao deixarem seu corpo mortal, se tornaram deuses mais do que Jesus?

[43] Em seguida ele diz de nós que ridicularizamos os que adoram Júpiter porque se aponta seu túmulo na ilha de Creta; e, contudo, adoramos aquele que saiu do túmulo, embora ignoremos em que fundamentos os cretenses observam tal costume. Vê agora que ele assim toma a defesa dos cretenses, de Júpiter e de seu túmulo, aludindo obscuramente às noções alegóricas segundo as quais se diz ter sido inventado o mito acerca de Júpiter; ao passo que nos ataca, a nós que reconhecemos que nosso Jesus de fato foi sepultado, mas sustentamos também que ressuscitou do túmulo — afirmação que os cretenses ainda não fizeram a respeito de Júpiter. Mas, visto que ele parece admitir que o túmulo de Júpiter está em Creta, ao dizer que ignoramos as razões pelas quais os cretenses observam tal costume, respondemos que Calímaco de Cirene, que havia lido inumeráveis composições poéticas e quase toda a história grega, não conhecia nenhum significado alegórico contido nas histórias sobre Júpiter e seu túmulo; e, por isso, acusa os cretenses em seu hino a Júpiter com as palavras: “Os cretenses são sempre mentirosos; teu túmulo, ó rei, os cretenses ergueram; mas tu não morreste, porque vives para sempre.” Ora, aquele que disse “tu não morreste, porque vives para sempre”, negando que o túmulo de Júpiter estivesse em Creta, registra, no entanto, que em Júpiter houve um começo de morte. Pois o nascimento na terra é começo de morte. E suas palavras prosseguem: “E Réia te deu à luz entre os parrásios”; quando deveria ter percebido que, depois de negar que o nascimento de Júpiter tivesse ocorrido em Creta por causa de seu túmulo, era plenamente coerente com seu nascimento na Arcádia que aquele que nasceu também morresse. E assim fala Calímaco dessas coisas: “Ó Júpiter, uns dizem que nasceste nos montes Ida, outros na Arcádia. Quais deles, ó pai, mentiram? Os cretenses são sempre mentirosos”, etc. Foi Celso quem nos obrigou a tratar desses temas, pela maneira injusta como procede com Jesus, dando assentimento ao que se narra de sua morte e sepultamento, mas considerando invenção sua ressurreição dentre os mortos, embora ela tenha sido não só predita por inúmeros profetas, como também confirmada por muitas provas de sua aparição após a morte.

[44] Depois disso, Celso cita algumas objeções contra a doutrina de Jesus feitas por pouquíssimos indivíduos considerados cristãos, não dos mais inteligentes, como supõe, mas da classe mais ignorante, e afirma que tais são as regras por eles estabelecidas: “Ninguém venha a nós se for instruído, sábio ou prudente — pois tais qualidades são tidas por nós como males; mas, se houver algum ignorante, sem entendimento, sem instrução ou tolo, venha com confiança.” Com essas palavras, reconhecendo que tais indivíduos são dignos de seu Deus, mostram claramente que desejam e são capazes de conquistar apenas os simplórios, os vis, os estúpidos, as mulheres e as crianças. Em resposta, dizemos que, assim como, se enquanto Jesus ensina a continência e diz: “Todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar já adulterou com ela em seu coração”, alguém visse alguns tidos por cristãos vivendo licenciosamente, com toda justiça os culparia por viverem contrariamente ao ensino de Jesus, mas agiria de modo sumamente irrazoável se atribuísse ao evangelho a má conduta deles; assim também, se perceber que a doutrina dos cristãos convida os homens à sabedoria, a culpa deve permanecer com aqueles que descansam em sua própria ignorância e dizem não o que Celso relata — pois, embora alguns sejam simples e ignorantes, não falam com o despudor que ele lhes atribui —, mas outras coisas muito menos graves, que, no entanto, servem para desviar os homens da prática da sabedoria.

[45] Que o objetivo do cristianismo é tornar-nos sábios pode ser provado não apenas pelos antigos escritos judaicos, que também usamos, mas especialmente pelos que foram compostos depois do tempo de Jesus e são tidos como divinos entre as Igrejas. No salmo cinquenta, por exemplo, Davi é descrito como dizendo em oração a Deus: “As coisas ocultas e secretas da tua sabedoria me deste a conhecer.” Também Salomão, por ter pedido sabedoria, a recebeu; e, se alguém percorresse os salmos, encontraria o livro cheio de máximas de sabedoria. As evidências de sua sabedoria podem ainda ser vistas em seus tratados, que contêm grande quantidade de sabedoria expressa em poucas palavras, e nos quais se encontram muitos louvores à sabedoria e incentivos para obtê-la. Tão sábio, além disso, foi Salomão, que a rainha de Sabá, tendo ouvido falar de seu nome e do nome do Senhor, veio prová-lo com perguntas difíceis e lhe falou tudo quanto tinha no coração; e Salomão respondeu a todas as suas perguntas. Nenhuma questão foi omitida pelo rei, sem que a respondesse. E a rainha de Sabá viu toda a sabedoria de Salomão e as riquezas que possuía, e nela não restou mais espírito. E disse ao rei: “É verdadeira a notícia que ouvi em minha terra a teu respeito e acerca de tua sabedoria; eu não cria nos que me contavam, até que vim e meus olhos viram; e eis que não me haviam dito nem a metade. Em sabedoria e riquezas superaste o relato que ouvi.” Também está registrado a seu respeito que Deus deu a Salomão sabedoria e entendimento em mui grande medida e largueza de coração como a areia da praia do mar. E a sabedoria que havia em Salomão excedia grandemente a de todos os antigos e a de todos os sábios do Egito; ele foi mais sábio do que todos os homens, mais do que Etã, o ezraíta, e Emã, Calcol e Darda, filhos de Maol. E seu nome era célebre entre todas as nações ao redor. Salomão proferiu três mil provérbios, e seus cânticos foram cinco mil. Falou das árvores, desde o cedro do Líbano até o hissopo que brota do muro; falou também dos peixes e dos animais. E todas as nações vinham ouvir a sabedoria de Salomão, e de todos os reis da terra que haviam ouvido a fama de sua sabedoria. E a tal ponto o evangelho deseja que haja homens sábios entre os crentes que, para exercitar o entendimento de seus ouvintes, falou certas verdades em enigmas, outras no que se chama provérbios obscuros, outras em parábolas e outras em problemas. E um dos profetas, Oseias, diz ao fim de suas profecias: “Quem é sábio para entender estas coisas? Prudente, para as conhecer?” Daniel, além disso, e seus companheiros de cativeiro, avançaram tanto no saber cultivado pelos sábios ao redor do rei da Babilônia que mostraram exceder a todos eles em dez vezes. E no livro de Ezequiel se diz ao rei de Tiro, que muito se gloriava de sua sabedoria: “És mais sábio que Daniel? Nenhum segredo te foi escondido.”

[46] E, se vieres aos livros escritos depois do tempo de Jesus, encontrarás que aquelas multidões de crentes que ouvem as parábolas estão, por assim dizer, de fora e são dignas apenas de doutrinas exotéricas, enquanto os discípulos aprendem em particular a explicação das parábolas. Pois Jesus, em particular, explicava tudo aos seus próprios discípulos, dando mais apreço do que às multidões àqueles que desejavam conhecer sua sabedoria. E promete aos que creem nele enviar-lhes homens sábios e escribas, dizendo: “Eis que eu vos envio sábios e escribas, e a alguns deles matareis e crucificareis.” Também Paulo, no catálogo dos carismas concedidos por Deus, colocou em primeiro lugar a palavra de sabedoria, em segundo a palavra de conhecimento, como inferior àquela, e em terceiro, abaixo dessas, a fé. E, porque considerava a palavra superior aos poderes milagrosos, colocou por essa razão as operações de milagres e os dons de curas abaixo dos dons da palavra. E, nos Atos dos Apóstolos, Estêvão dá testemunho do grande saber de Moisés, adquirido inteiramente de escritos antigos inacessíveis à multidão. Pois ele diz: “Moisés foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios.” E, por isso, quanto aos seus milagres, suspeitou-se que talvez os realizasse não por declarar vir da parte de Deus, mas por meio de seu conhecimento egípcio, no qual era muito versado. Pois o rei, alimentando tal suspeita, convocou os magos, sábios e encantadores do Egito, que se mostraram de nenhum proveito contra a sabedoria de Moisés, a qual se revelou superior a toda a sabedoria dos egípcios.

[47] É provável que aquilo que Paulo escreveu na primeira epístola aos coríntios, dirigida a gregos que muito se orgulhavam de sua sabedoria grega, tenha levado alguns a crer que não era objetivo do evangelho ganhar homens sábios. Mas que o homem dessa opinião entenda que o evangelho, ao censurar os maus, diz deles que são sábios não nas coisas relativas ao entendimento, invisíveis e eternas, mas que, por se ocuparem apenas das coisas dos sentidos e considerá-las como de suprema importância, são sábios deste mundo. Pois, havendo muitas opiniões existentes, algumas delas defendendo a matéria e os corpos e afirmando que tudo o que possui existência substancial é corpóreo, e que além disso nada mais existe, quer se lhe chame invisível quer incorpóreo, ele diz também que isso constitui a sabedoria do mundo, que perece e se desvanece, e pertence apenas a este século; ao passo que aquelas opiniões que elevam a alma das coisas daqui para a bem-aventurança junto de Deus e para o seu reino, e ensinam os homens a desprezar todas as coisas sensíveis e visíveis como existindo apenas por um tempo e a correr para as invisíveis, tendo em vista as que não se veem — essas, diz ele, constituem a sabedoria de Deus. Paulo, como amante da verdade, diz também de certos sábios entre os gregos, quando suas declarações são verdadeiras, que, “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”. E testemunha que conheceram a Deus, e diz ainda que isso não lhes sucedeu sem permissão divina, nestas palavras: “Porque Deus lho manifestou”; aludindo, creio, àqueles que sobem das coisas sensíveis às inteligíveis, quando acrescenta: “Porque as coisas invisíveis de Deus, desde a criação do mundo, são claramente vistas, sendo percebidas por meio das coisas criadas, tanto o seu eterno poder quanto a sua divindade; de modo que são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças.”

[48] E talvez também, por causa das palavras: “Vede, irmãos, a vossa vocação: não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres; mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar as sábias; e as coisas vis do mundo, e as desprezadas, escolheu Deus, e as que não são, para reduzir a nada as que são, a fim de que nenhuma carne se glorie na sua presença”, alguns tenham sido levados a supor que ninguém instruído, sábio ou prudente abraça o evangelho. A tal pessoa responderíamos que não foi dito “nenhum sábio segundo a carne”, mas “não muitos sábios segundo a carne são chamados”. Além disso, é manifesto que, entre as qualificações características daqueles a quem se chama bispos, Paulo, ao descrever que tipo de homem deve ser o bispo, estabelece como requisito que ele seja também apto para ensinar, dizendo que deve ser capaz de convencer os contradizentes, para que, pela sabedoria que nele há, feche a boca dos faladores vãos e enganadores. E, assim como escolhe para o episcopado um homem casado uma única vez e não duas, um homem irrepreensível e não um censurável, um sóbrio e não um intemperante, um prudente e não um imprudente, um de comportamento decente e não alguém exposto sequer à mínima indecência, assim também deseja que o escolhido de preferência para o ofício de bispo seja apto para ensinar e capaz de convencer os contradizentes. Como, então, pode Celso acusar-nos justamente de dizer: “Ninguém venha a nós se for instruído, sábio ou prudente”? Pelo contrário, venha a nós quem quiser, instruído, sábio e prudente; e igualmente, se alguém for ignorante, sem entendimento, sem instrução ou tolo, venha também: pois é a estes que o evangelho promete curar, ao fazê-los, quando vêm, todos dignos de Deus.

[49] Também é falsa a afirmação de que são apenas indivíduos tolos e baixos, destituídos de percepção, escravos, mulheres e crianças que os mestres da palavra divina querem converter. É verdade que o evangelho convida tais pessoas, para torná-las melhores; mas convida também outras muito diferentes destas, pois Cristo é o Salvador de todos os homens, e especialmente dos que creem, sejam inteligentes ou simples; e ele é a propiciação junto ao Pai por nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. Depois disso, é supérfluo querermos responder a declarações de Celso como as seguintes: “Por que seria mau ter sido educado, ter estudado as melhores opiniões e ter tanto a realidade quanto a aparência de sabedoria? Que impedimento isso oferece ao conhecimento de Deus? Por que não seria antes auxílio e meio pelo qual se pode chegar melhor à verdade?” Na verdade, não é um mal ter sido educado, porque a educação é caminho para a virtude; mas contar entre os educados aqueles que sustentam opiniões errôneas é algo que nem mesmo os sábios entre os gregos fariam. Por outro lado, quem não admitiria que ter estudado as melhores opiniões é uma bênção? Mas que chamaremos de melhores, senão aquelas que são verdadeiras e incitam os homens à virtude? Além disso, é excelente que um homem seja sábio, e não apenas o pareça, como Celso diz. E não é impedimento ao conhecimento de Deus, mas ajuda, ter sido educado, ter estudado as melhores opiniões e ser sábio. E convém mais a nós do que a Celso dizê-lo, sobretudo se ficar demonstrado que ele é epicurista.

[50] Mas vejamos as declarações seguintes dele, nestas palavras: “Vemos, na verdade, que até aqueles indivíduos que nas praças fazem os truques mais vergonhosos e reúnem multidões ao redor de si jamais se aproximariam de uma assembleia de homens sábios, nem ousariam exibir suas artes entre eles; mas onde quer que vejam jovens, uma multidão de escravos e um ajuntamento de pessoas sem entendimento, ali se insinuam e se mostram.” Observa agora como ele nos difama nessas palavras, comparando-nos àqueles que nas praças realizam os expedientes mais vergonhosos e ajuntam multidões ao seu redor. Que truques vergonhosos, peço, realizamos nós? Ou o que há em nossa conduta que se assemelhe à deles, visto que, por meio de leituras e explicações das coisas lidas, conduzimos os homens ao culto do Deus do universo e às virtudes aparentadas com esse culto, e os afastamos do desprezo à Divindade e de tudo quanto é contrário à reta razão? Os filósofos, em verdade, desejariam reunir ouvintes para seus discursos que exortam os homens à virtude — prática seguida especialmente por certos cínicos, que conversam publicamente com aqueles que encontram. Sustentarão eles, então, que esses, que não reúnem apenas pessoas consideradas instruídas, mas convidam e ajuntam ouvintes na via pública, se assemelham aos que nas praças realizam os mais vergonhosos expedientes e ajuntam multidões ao redor de si? Nem Celso, nem qualquer outro que pense do mesmo modo, culpará os que, conforme o que consideram filantropia, dirigem seus argumentos ao povo ignorante.

[51] E, se eles não são culpados por assim proceder, vejamos se os cristãos não exortam multidões à prática da virtude em grau maior e melhor do que eles. Pois os filósofos que conversam em público não escolhem seus ouvintes: qualquer um que queira fica de pé e escuta. Os cristãos, porém, depois de, tanto quanto possível, provarem as almas daqueles que desejam tornar-se seus ouvintes, e depois de os instruírem previamente em particular, quando parecem, antes de entrar na comunidade, ter demonstrado suficiente desejo de uma vida virtuosa, então os introduzem, e não antes, formando em particular uma classe dos que são iniciantes e estão sendo recebidos, mas ainda não alcançaram a marca da purificação completa, e outra dos que manifestaram, tanto quanto puderam, o propósito de nada desejar além do que é aprovado pelos cristãos. E entre estes há algumas pessoas designadas para investigar a vida e o comportamento dos que se unem a eles, a fim de impedir que aqueles que praticam ações infames entrem em sua assembleia pública; ao passo que recebem de todo o coração os de caráter diferente, para torná-los a cada dia melhores. E assim procedem tanto com os que são pecadores quanto, especialmente, com os que levam vida dissoluta, aos quais excluem da comunidade, embora, segundo Celso, se assemelhem aos que nas praças praticam os expedientes mais vergonhosos. Ora, a venerável escola dos pitagóricos costumava erguer um cenotáfio aos que haviam apostatado de seu sistema filosófico, tratando-os como mortos; mas os cristãos lamentam como mortos os que foram vencidos pela licenciosidade ou por qualquer outro pecado, porque estão perdidos e mortos para Deus; e, se posteriormente manifestam mudança conveniente, recebem-nos de novo, em tempo futuro, como ressuscitados dentre os mortos, e isso somente depois de intervalo maior do que no caso dos admitidos desde o início, sem, contudo, colocá-los em qualquer ofício ou posto de honra na Igreja de Deus, se, depois de terem professado o evangelho, recaíram e caíram.

[52] Observa agora, quanto à seguinte declaração de Celso — “Vemos também aquelas pessoas que, nas praças, fazem os expedientes mais vergonhosos e ajuntam multidões ao redor de si” —, se não foi proferida uma falsidade manifesta, comparando-se coisas sem semelhança. Ele diz que esses indivíduos, aos quais nos compara, que nas praças executam os expedientes mais vergonhosos e reúnem multidões, jamais se aproximariam de uma assembleia de sábios, nem ousariam exibir seus truques diante deles; mas, onde quer que vejam jovens, uma massa de escravos e um ajuntamento de tolos, ali se insinuam e se exibem. Ora, ao falar assim, nada faz senão lançar sobre nós insultos, como as mulheres das ruas públicas, cujo objetivo é caluniar umas às outras; pois fazemos tudo quanto está em nosso poder para que nossas reuniões sejam compostas por homens sábios, e aquelas coisas entre nós especialmente excelentes e divinas, então ousamos apresentá-las publicamente em nossas discussões quando temos abundância de ouvintes inteligentes; enquanto ocultamos e passamos em silêncio as verdades de alcance mais profundo quando vemos que nosso auditório é composto de mentes mais simples, que necessitam daquele ensino que figuradamente se chama leite.

[53] Pois nosso Paulo usa essa palavra ao escrever aos coríntios, que eram gregos e ainda não purificados em seus costumes: “Com leite vos criei, e não com alimento sólido, porque até agora não o podíeis suportar, nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja e contenda, não sois carnais e não andais como homens?” E o mesmo escritor, sabendo que havia certo tipo de alimento mais apropriado para a alma, e que o alimento daqueles jovens admitidos era comparado ao leite, continua: “Tornastes-vos tais que necessitais de leite e não de alimento sólido. Porque todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança; mas o alimento sólido é para os perfeitos, para aqueles que, pelo uso, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem quanto o mal.” Pensariam, então, os que creem serem bem ditas essas palavras, que as nobres doutrinas de nossa fé nunca seriam mencionadas numa assembleia de homens sábios, mas que, onde quer que nossos instrutores vejam jovens, uma turba de escravos e um grupo de indivíduos tolos, ali tragam a público verdades divinas e veneráveis e façam ostentação ao tratá-las diante de tais pessoas? É claro, para quem examina o espírito de todos os nossos escritos, que Celso é movido por um ódio à raça humana semelhante ao da plebe ignorante e profere essas falsidades sem exame algum.

[54] Reconhecemos, contudo, ainda que Celso não o queira, que desejamos instruir todos os homens na palavra de Deus, dando aos jovens as exortações apropriadas a eles e mostrando aos escravos como podem recuperar liberdade de pensamento e ser ennobrecidos pela palavra. E aqueles entre nós que são embaixadores do cristianismo declaram suficientemente que são devedores a gregos e bárbaros, a sábios e insensatos — pois não negam sua obrigação de curar até mesmo as almas dos tolos —, para que, tanto quanto possível, deixem de lado sua ignorância e procurem obter maior prudência, ouvindo também as palavras de Salomão: “Ó tolos, tornai-vos sensatos de coração”; e: “Quem é simples, venha a mim”; e a sabedoria exorta os sem entendimento nas palavras: “Vinde, comei do meu pão e bebei do vinho que misturei para vós. Deixai a tolice e vivereis, e andai pelo caminho do entendimento.” Isto também eu diria, já que toca no ponto, em resposta à declaração de Celso: “Não convidam os filósofos os jovens para suas lições? E não os encorajam a trocar uma vida má por uma melhor? E não desejam que os escravos aprendam filosofia? Devemos, então, censurar os filósofos que exortaram escravos à prática da virtude? Pitágoras, por tê-lo feito com Zalmoxis; Zenão, com Perseu; e aqueles que recentemente encorajaram Epicteto ao estudo da filosofia?” É, de fato, permitido a vós, ó gregos, chamar jovens, escravos e pessoas simples ao estudo da filosofia; mas, se nós o fazemos, não agimos por motivos filantrópicos ao desejar curar toda natureza racional com o remédio da razão e levá-la à comunhão com Deus, o Criador de todas as coisas? Bastem, então, essas observações em resposta ao que são mais calúnias do que acusações da parte de Celso.

[55] Mas, como Celso se deleita em acumular calúnias contra nós e, além das que já proferiu, acrescentou outras, examinemo-las também e vejamos se são os cristãos ou o próprio Celso que têm motivo para se envergonhar do que foi dito. Ele afirma: “Vemos, de fato, em casas particulares, trabalhadores de lã e couro, pisoeiros e pessoas do tipo mais inculto e rústico, que não ousam dizer palavra na presença de seus mais velhos e de seus senhores mais sábios; mas, quando conseguem apanhar em particular as crianças e certas mulheres tão ignorantes quanto eles, derramam discursos admiráveis, dizendo que elas não devem prestar atenção ao pai nem aos mestres, mas obedecer a eles; que aqueles são tolos e estúpidos, e nem sabem nem podem realizar coisa alguma verdadeiramente boa, ocupados como estão com ninharias vazias; que só eles sabem como os homens devem viver, e que, se as crianças lhes obedecerem, elas serão felizes e farão também feliz a casa. E, enquanto assim falam, se veem aproximar-se algum instrutor da juventude, ou alguém de classe mais inteligente, ou até o próprio pai, os mais tímidos se assustam, ao passo que os mais atrevidos incitam as crianças a sacudir o jugo, sussurrando que na presença do pai e dos mestres nem querem nem podem explicar-lhes coisa boa alguma, visto que eles se afastam com aversão da tolice e estupidez de tais pessoas, completamente corrompidas e avançadas na maldade, e que as castigariam; mas, se quiserem aproveitar sua ajuda, devem deixar pai e instrutores e ir com as mulheres e seus companheiros de brincadeira para os aposentos femininos, ou para a oficina do curtidor, ou para a do pisoeiro, a fim de atingir a perfeição” — e, com palavras assim, os conquistam.

[56] Observa agora como, por tais declarações, ele deprecia aqueles entre nós que são mestres da palavra e que se esforçam de toda maneira por elevar a alma ao Criador de todas as coisas, mostrando que devemos desprezar as coisas sensíveis, temporais e visíveis, e fazer o máximo para alcançar comunhão com Deus, contemplação das coisas inteligíveis e invisíveis, e vida bem-aventurada com Deus e com os amigos de Deus; e compara esses mestres a trabalhadores de lã em casas particulares, a cortadores de couro, a pisoeiros e aos homens mais rústicos, que cuidadosamente incitam meninos à maldade e mulheres a deixarem pais e mestres para segui-los. Pois bem, que Celso mostre de que pai sábio ou de que mestres afastamos nós as crianças e as mulheres; e que verifique, por comparação entre essas crianças e mulheres aderentes à nossa doutrina, se alguma das opiniões que antes ouviam é melhor do que as nossas, e de que modo as afastamos de estudos nobres e veneráveis e as incitamos a coisas piores. Mas ele não será capaz de sustentar acusação alguma desse tipo contra nós, visto que, ao contrário, afastamos as mulheres de vida dissoluta, de contendas com aqueles com quem vivem, dos desejos loucos por teatros e danças e da superstição; enquanto habituamos ao domínio próprio os meninos que acabam de chegar à puberdade e sentem desejo de prazeres sexuais, apontando-lhes não apenas a vergonha que acompanha tais pecados, mas também o estado a que a alma do ímpio é reduzida por práticas desse tipo, os juízos que sofrerá e os castigos que lhe serão infligidos.

[57] Mas quem são os mestres a quem chamamos de néscios e tolos, cuja defesa Celso toma sobre si, como se ensinassem coisas melhores? Não sei, a menos que considere bons instrutores de mulheres, e não néscios, aqueles que as convidam à superstição e a espetáculos impuros; e julgue ainda mestres sensatos aqueles que conduzem e arrastam os jovens a todos aqueles desregramentos que sabemos que muitas vezes cometem. Nós, por nossa parte, procuramos afastar estes também, tanto quanto nos é possível, dos dogmas da filosofia para o nosso culto a Deus, manifestando sua excelência e pureza. Mas, como Celso, por suas declarações, afirmou que não fazemos isso, e sim chamamos apenas os tolos, eu lhe diria: se nos tivesses acusado de afastar do estudo da filosofia aqueles que já estavam ocupados com ela, não terias dito a verdade, mas tua acusação ao menos teria alguma aparência de plausibilidade; mas agora, quando dizes que afastamos nossos aderentes de bons mestres, mostra quem são esses outros mestres, senão os mestres de filosofia ou aqueles designados para instruir em algum ramo útil de estudo. Ele, porém, não poderá indicar nenhum; ao passo que nós prometemos, abertamente e não em segredo, que serão felizes os que vivem segundo a palavra de Deus, olham para ele em todas as coisas e fazem tudo como se estivessem na presença de Deus. São essas as instruções de trabalhadores de lã, de curtidores, de pisoeiros e de rústicos sem instrução? Ele não poderá provar tal afirmação.

[58] Mas aqueles que, na opinião de Celso, se assemelham aos trabalhadores de lã em casas particulares, aos curtidores, aos pisoeiros e aos rústicos sem instrução, segundo ele, na presença do pai ou dos mestres não querem falar nem são capazes de explicar aos meninos qualquer coisa boa. Ao que responderíamos: que tipo de pai, meu bom senhor, e que tipo de mestre queres dizer? Se te referes a um que aprova a virtude, afasta do vício e acolhe o que é melhor, sabe então que com a maior ousadia exporemos nossas opiniões às crianças, porque gozaremos de boa reputação diante de tal juiz. Mas, se diante de um pai que odeia a virtude e a bondade nos calamos, bem como diante dos que ensinam o contrário da sã doutrina, não nos culpes por isso, pois nos culparias sem razão. Vós mesmos, afinal, se os pais considerassem os mistérios da filosofia ocupação vã e inútil para seus filhos e para os jovens em geral, não manifestaríeis, ao ensinar filosofia, seus segredos diante de pais depravados; mas, desejando conservar à parte aqueles filhos de pais maus que se voltaram ao estudo da filosofia, observaríeis as ocasiões apropriadas para que as doutrinas filosóficas alcançassem a mente dos jovens. E o mesmo dizemos de nossos mestres. Pois, se afastamos nossos ouvintes daqueles instrutores que ensinam comédias obscenas, jambos licenciosos e muitas outras coisas que não tornam melhor quem fala nem beneficiam os ouvintes — porque estes não sabem ouvir poesia em espírito filosófico, nem aqueles sabem dizer a cada jovem o que lhe é proveitoso —, não nos envergonhamos de confessar que assim procedemos. Mas, se me mostrares mestres que formam os jovens para a filosofia e os exercitam nela, eu não desviarei os jovens deles; antes, procurarei elevá-los, como aqueles que já foram exercitados em todo o círculo de aprendizagem e em matérias filosóficas, à venerável e elevada altura da eloquência escondida à multidão dos cristãos, onde se discutem os assuntos mais importantes e se demonstra e prova que eles foram tratados filosoficamente tanto pelos profetas de Deus quanto pelos apóstolos de Jesus.

[59] Logo depois disso, Celso, percebendo que nos caluniou com excessiva amargura, tenta como que defender-se e se expressa assim: “Que eu não faço acusação mais pesada do que a verdade me obriga, qualquer um poderá ver pelas observações seguintes. Os que convidam à participação em outros mistérios proclamam assim: ‘Todo aquele que tiver mãos limpas e língua prudente’; outros, novamente, assim: ‘Aquele que é puro de toda poluição, cuja alma não está consciente de mal algum, e que viveu bem e justamente.’ Tal é a proclamação dos que prometem purificação dos pecados. Mas ouçamos que tipo de pessoas estes cristãos convidam. ‘Todo aquele’, dizem eles, ‘que é pecador, sem entendimento, criança e, em suma, todo infeliz, o reino de Deus o receberá.’ Não chamas então pecador ao injusto, ao ladrão, ao arrombador, ao envenenador, ao sacrílego e ao roubador de sepulcros? Que outros convidaria um homem, se estivesse fazendo proclamação para uma assembleia de ladrões?” A tais declarações respondemos que não é a mesma coisa convidar os enfermos da alma a serem curados e convidar os que estão sãos ao conhecimento e estudo das coisas divinas. Nós, porém, mantendo ambas essas coisas em vista, primeiro convidamos todos os homens a serem curados e exortamos os pecadores a virem ao exame das doutrinas que ensinam os homens a não pecar, os sem entendimento às que geram sabedoria, as crianças a elevarem em seus pensamentos à maturidade, e os simplesmente desafortunados à boa fortuna — ou, o termo mais apropriado, à bem-aventurança. E, quando aqueles que foram voltados para a virtude progridem e mostram ter sido purificados pela palavra e ter levado, tanto quanto podem, vida melhor, então, e não antes, os convidamos à participação em nossos mistérios. Pois “falamos sabedoria entre os perfeitos”.

[60] E, como ensinamos ainda que a sabedoria não entrará na alma de um homem vil, nem habitará em corpo envolvido em pecado, dizemos: quem tem mãos limpas e, portanto, levanta mãos santas a Deus, e por estar ocupado com coisas elevadas e celestiais pode dizer: “O erguer de minhas mãos seja como o sacrifício da tarde”, venha a nós; e quem tiver língua sábia por meditar na lei do Senhor dia e noite, e, pelo hábito, tiver seus sentidos exercitados para discernir entre o bem e o mal, que não hesite em aproximar-se do alimento forte e racional adequado aos atletas da piedade e de toda virtude. E, visto que a graça de Deus está com todos os que amam com afeição pura o mestre das doutrinas da imortalidade, aquele que é puro não só de toda contaminação, mas também daquilo que se considera transgressões menores, seja ousadamente iniciado nos mistérios de Jesus, que propriamente são dados a conhecer apenas aos santos e puros. O iniciado de Celso, portanto, diz: “Venha aquele cuja alma não tem consciência de mal algum.” Mas aquele que inicia segundo os preceitos de Jesus dirá aos que foram purificados de coração: “Aquele cuja alma, há muito tempo, não tem consciência de mal algum, especialmente desde que se entregou à cura da palavra, ouça esse as doutrinas que Jesus falou em particular a seus discípulos genuínos.” Portanto, na comparação que faz entre o procedimento dos iniciadores nos mistérios gregos e o dos mestres da doutrina de Jesus, ele não conhece a diferença entre convidar os ímpios a serem curados e iniciar nos sagrados mistérios aqueles que já foram purificados.

[61] Não é, então, à participação nos mistérios e à comunhão na sabedoria escondida em mistério, que Deus ordenou antes dos séculos para a glória de seus santos, que convidamos o ímpio, o ladrão, o arrombador, o envenenador, o sacrílego, o saqueador de sepulcros e todos os outros que Celso possa enumerar em seu estilo exagerado; mas é a esses que convidamos a serem curados. Pois há, na divindade da palavra, certos auxílios voltados para a cura dos enfermos, a respeito dos quais a palavra diz: “Os sãos não precisam de médico, mas os doentes”; e há outros que, para os puros de alma e corpo, exibem a revelação do mistério, mantido em segredo desde o princípio do mundo, mas agora manifestado pelas Escrituras dos profetas e pela aparição de nosso Senhor Jesus Cristo, aparição esta manifestada a cada um dos perfeitos e que ilumina a razão no verdadeiro conhecimento das coisas. Mas, como Celso exagera as acusações contra nós, acrescentando, depois de sua lista daqueles indivíduos vis que mencionou, a observação: “Que outras pessoas um ladrão convocaria por proclamação?”, respondemos a tal pergunta dizendo que um ladrão convoca ao seu redor pessoas desse caráter para usar sua maldade contra os homens que deseja matar e saquear. O cristão, ao contrário, ainda que convide aqueles mesmos que o ladrão convocaria, os chama para vocação muito diversa: para ligar essas feridas por sua palavra e aplicar à alma, apodrecida em meio aos males, os remédios obtidos da palavra, análogos ao vinho, ao azeite, aos emplastros e a outros recursos curativos próprios da arte médica.

[62] Em seguida, lançando desdém sobre as exortações faladas e escritas dirigidas aos que viveram vida perversa, e que os chamam ao arrependimento e à reforma do coração, ele afirma que dizemos que foi aos pecadores que Deus foi enviado. Ora, essa sua declaração é quase o mesmo que censurar certas pessoas por dizerem que, em favor dos doentes que viviam numa cidade, um médico lhes fora enviado por um monarca muito benevolente. Deus, o Verbo, foi de fato enviado como médico aos pecadores, mas como mestre dos mistérios divinos àqueles que já são puros e não mais pecam. Celso, incapaz de ver essa distinção — pois não desejava ser movido por amor à verdade —, observa: “Por que ele não foi enviado aos que estavam sem pecado? Que mal há em não ter cometido pecado?” Ao que respondemos: se pelos que estão sem pecado ele entende os que não pecam mais, então também a estes nosso Salvador Jesus foi enviado, mas não como médico. Ao passo que, se pelos sem pecado ele entende aqueles que jamais em tempo algum pecaram — pois não fez distinção em sua afirmação —, respondemos que é impossível que um homem esteja assim sem pecado. E isso dizemos, excetuando, é claro, o homem entendido em Cristo Jesus, “que não cometeu pecado”. Com intenção maliciosa, Celso diz de nós que afirmamos que Deus receberá o homem injusto se ele se humilhar por causa de sua maldade, mas não receberá o homem justo, ainda que olhe para ele adornado de virtude desde o princípio. Ora, afirmamos que é impossível a um homem olhar para Deus adornado de virtude desde o começo. Pois a maldade deve necessariamente existir primeiro nos homens. Como Paulo também diz: “Vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.” Além disso, não ensinamos, a respeito do homem injusto, que basta humilhar-se por causa de sua maldade para ser aceito por Deus, mas que Deus o aceitará se, depois de condenar a si mesmo por sua conduta passada, andar humildemente por causa dela e de modo conveniente dali em diante.

[63] Depois disso, não entendendo como foi dito que “todo aquele que se exalta será humilhado”, nem — embora instruído até mesmo por Platão — que o homem bom e virtuoso anda humilde e ordenadamente, e ignorando, além disso, que damos a ordem: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte a seu tempo”, ele diz que aqueles que corretamente presidem a um julgamento fazem cessar os lamentos dos que choram diante deles os seus maus atos, para que suas decisões não sejam determinadas mais pela compaixão do que pela verdade; ao passo que Deus não decide segundo a verdade, mas segundo a bajulação. Ora, que palavras de bajulação e choramingo há nas santas Escrituras quando o pecador diz em suas orações a Deus: “Reconheci o meu pecado, e minha iniquidade não escondi. Disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões”, etc.? É ele capaz de mostrar que tal procedimento não é apropriado à conversão dos pecadores, que em suas orações se humilham sob a mão de Deus? E, confundindo-se em seu esforço de nos acusar, ele se contradiz, parecendo em um momento conhecer um homem sem pecado e um homem justo que pode olhar para Deus adornado de virtude desde o princípio, e em outro aceitar nossa afirmação de que não existe homem totalmente justo nem sem pecado; pois, como se admitisse sua verdade, observa: “Isso é, com efeito, aparentemente verdadeiro: de algum modo a raça humana é naturalmente inclinada ao pecado.” Em seguida, como se nem todos os homens fossem convidados pela palavra, diz: “Todos os homens, então, sem distinção, devem ser convidados, já que todos são pecadores.” E, no entanto, nas páginas anteriores mostramos as palavras de Jesus: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Todos os homens, portanto, cansados e sobrecarregados por causa da natureza do pecado, são convidados ao descanso de que fala a palavra de Deus, pois “Deus enviou a sua palavra, e os curou, e os livrou de suas destruições”.

[64] Mas, visto que ele diz ainda: “Que preferência é essa dada aos pecadores?”, e faz outras observações semelhantes, temos de responder que absolutamente um pecador não é preferido a outro que não o seja; mas que às vezes um pecador, tornado consciente do seu próprio pecado e por isso levado ao arrependimento, humilhando-se por causa de seus pecados, é preferido a alguém tido por menor pecador, mas que não se considera pecador, antes se exalta com base em certas qualidades boas que supõe possuir e se infla grandemente por causa delas. Isso é manifesto aos que quiserem ler os evangelhos em espírito de equidade, pela parábola do publicano, que disse: “Tem misericórdia de mim, pecador”, e do fariseu, que se vangloriava com uma certa perversa autoconfiança, dizendo: “Graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda como este publicano.” Pois Jesus acrescenta à narrativa dos dois: “Este desceu para sua casa justificado, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado.” Não blasfemamos, então, contra Deus, nem somos culpados de falsidade, quando ensinamos que todo homem, seja quem for, é consciente da enfermidade humana em comparação com a grandeza de Deus, e que devemos sempre pedir àquele que sozinho é capaz de suprir nossas faltas aquilo que falta à nossa natureza mortal.

[65] Ele imagina, porém, que fazemos essas exortações para a conversão dos pecadores porque não somos capazes de ganhar ninguém verdadeiramente bom e justo, e por isso abrimos nossas portas aos mais ímpios e depravados. Mas, se alguém observar com imparcialidade nossas assembleias, poderemos apresentar maior número de pessoas convertidas de uma vida não muito perversa do que daqueles que cometeram os pecados mais abomináveis. Pois, naturalmente, os que têm consciência de coisas melhores desejam que sejam verdadeiras as promessas declaradas por Deus acerca da recompensa dos justos, e assim dão assentimento às declarações da Escritura com maior prontidão do que aqueles que levaram vidas muito perversas, e que são impedidos por sua própria consciência de admitir que serão punidos pelo Juiz de todos com o castigo que convém aos que pecaram tanto, e que não seria infligido por esse Juiz contra a reta razão. Às vezes também homens muito depravados, quando querem aceitar a doutrina do castigo futuro por causa da esperança baseada no arrependimento, são impedidos de fazê-lo pelo hábito de pecar, estando continuamente mergulhados e, por assim dizer, tingidos na maldade, e não tendo mais o poder de se voltar facilmente dela para uma vida correta e regulada segundo a reta razão. E, embora Celso perceba isso, contudo, não sei por que, exprime-se nos seguintes termos: “É manifesto a todos que ninguém poderia, pelo castigo, e menos ainda por tratamento benigno, efetuar mudança completa naqueles que são pecadores tanto por natureza quanto por costume; pois mudar a natureza é coisa extremamente difícil. Mas os que estão sem pecado participam de vida melhor.”

[66] Ora, aqui Celso me parece ter cometido grande erro, ao negar aos que são pecadores por natureza e também por hábito a possibilidade de uma transformação completa, alegando que não podem ser curados nem mesmo por castigos. Pois claramente se vê que todos os homens estão inclinados ao pecado por natureza, e alguns não apenas por natureza, mas também pela prática, ao passo que nem todos são incapazes de uma transformação total. Encontram-se, em toda seita filosófica e também na palavra de Deus, pessoas das quais se relata terem sofrido mudança tão grande que podem ser propostas como modelo de excelência de vida. Entre os nomes da idade heroica alguns mencionam Hércules e Ulisses; entre os de tempos posteriores, Sócrates; e entre os de tempos muito recentes, Musônio. Não foi só contra nós, então, que Celso lançou essa calúnia ao dizer que era manifesto a todos que os entregues ao pecado por natureza e hábito não poderiam de modo algum, nem por castigos, ser completamente transformados para melhor, mas também contra os mais nobres nomes da filosofia, que nunca negaram ser possível aos homens recuperar a virtude. Mas, embora não tenha exprimido seu pensamento com exatidão, nós, mesmo dando a suas palavras a interpretação mais favorável, o convenceremos de raciocínio falho. Pois suas palavras foram: “Aqueles que são inclinados ao pecado por natureza e hábito ninguém poderia reformar completamente, nem mesmo por castigo”; e tais palavras, como as entendemos, refutamos o melhor que pudemos.

[67] É provável, porém, que quisesse transmitir mais ou menos o seguinte: que aqueles que eram, tanto por natureza quanto por hábito, inclinados a cometer os pecados praticados pelos homens mais abandonados não poderiam ser completamente transformados nem mesmo por castigos. E, no entanto, isso se mostra falso pela história de certos filósofos. Pois quem não colocaria entre os homens mais depravados aquele indivíduo que de algum modo se submeteu ao seu senhor, quando este o pôs num bordel para que se deixasse contaminar por qualquer pessoa que quisesse? E, no entanto, tal circunstância é narrada a respeito de Fedão. E quem não concordará que aquele que, acompanhado de um tocador de flauta e de um grupo de devassos, seus cúmplices na dissolução, irrompeu na escola do venerável Xenócrates para insultar um homem que era a admiração de seus amigos, não era um dos maiores perversos da humanidade? E, apesar disso, a razão foi suficientemente poderosa para efetuar sua conversão e para permitir-lhes fazer tal progresso na filosofia que um foi julgado por Platão digno de narrar o discurso de Sócrates sobre a imortalidade e de registrar sua firmeza na prisão, quando mostrou seu desprezo pela cicuta e tratou com completa intrepidez e tranquilidade de espírito de assuntos tão numerosos e importantes que é difícil acompanhá-los mesmo para aqueles que lhes prestam máxima atenção e não são perturbados por distração alguma; enquanto Polemon, por outro lado, que de dissoluto se tornou homem de vida muito temperante, sucedeu a Xenócrates em sua escola, tão célebre por seu caráter venerável. Celso, então, não diz a verdade quando afirma que pecadores por natureza e hábito não podem ser completamente reformados nem mesmo por castigos.

[68] Que discursos filosóficos, distinguidos por disposição ordenada e expressão elegante, produzam tais resultados no caso dessas pessoas recém-mencionadas e sobre outras que tenham levado vida perversa, não é de modo algum motivo de admiração. Mas, quando consideramos que aqueles discursos que Celso chama vulgares estão cheios de poder, como se fossem encantamentos, e vemos que convertem imediatamente multidões de uma vida licenciosa para uma de extrema regularidade, de uma vida perversa para outra melhor, e de um estado de covardia ou efeminação para um de tal coragem elevada que leva os homens a desprezar até a própria morte, por causa da piedade que se manifesta neles, por que não deveríamos admirar com justiça o poder que contêm? Pois as palavras daqueles que primeiro assumiram o ofício de embaixadores cristãos e entregaram seus esforços à edificação das Igrejas de Deus — na verdade, sua própria pregação — eram acompanhadas de poder persuasivo, embora não como o que se encontra entre os que professam a filosofia de Platão ou de qualquer outro filósofo meramente humano, que não possui outras qualidades além das humanas. Mas a demonstração que seguia as palavras dos apóstolos de Jesus vinha de Deus e era acreditada pelo Espírito e pelo poder. E, por isso, sua palavra corria rápida e velozmente — ou melhor, a palavra de Deus por meio deles — transformando numerosas pessoas que haviam sido pecadoras tanto por natureza quanto por hábito, as quais ninguém teria podido reformar por castigos, mas que foram mudadas pela palavra, que as moldava e transformava segundo o seu querer.

[69] Celso prossegue à sua maneira habitual, afirmando que mudar inteiramente uma natureza é extremamente difícil. Nós, porém, que conhecemos apenas uma natureza em toda alma racional, e sustentamos que nenhuma foi criada má pelo Autor de todas as coisas, mas que muitas se tornaram perversas por causa da educação, do mau exemplo e das influências ao redor, de tal modo que em alguns indivíduos a maldade se tornou como naturalizada, estamos persuadidos de que para a palavra de Deus mudar uma natureza em que o mal se naturalizou não só não é impossível, mas é obra nem mesmo muito difícil, desde que o homem creia que deve confiar-se ao Deus de todas as coisas e fazer tudo com vistas a agradá-lo, aquele com quem não pode suceder que “o bom e o mau estejam no mesmo apreço” ou que “o ocioso e o que muito trabalhou pereçam do mesmo modo”. Mas, ainda que seja extremamente difícil efetuar uma mudança em alguns, a causa deve ser posta em sua própria vontade, relutante em aceitar a crença de que o Deus sobre todas as coisas é justo Juiz de todas as ações feitas durante a vida. Pois a escolha deliberada e a prática muito contribuem para realizar coisas que parecem muito difíceis e, para falar hiperbólicamente, quase impossíveis. Será que a natureza humana, desejando andar sobre uma corda estendida no ar no meio do teatro e ao mesmo tempo carregar numerosos e pesados pesos, conseguiu tal feito por prática e atenção; e, quando deseja viver segundo a prática da virtude, encontra isso impossível, embora antes pudesse ter sido extremamente perversa? Vê se quem sustenta tal opinião não acusa antes a natureza do Criador do animal racional do que a criatura, se ele formou a natureza humana com forças para alcançar coisas de tamanha dificuldade e de utilidade nenhuma, mas a tornou incapaz de assegurar sua própria bem-aventurança. Mas bastem estas observações em resposta à afirmação de que mudar inteiramente uma natureza é coisa extremamente difícil. Ele alega, em seguida, que os que estão sem pecado participam de vida melhor, sem deixar claro o que quer dizer por “os que estão sem pecado”: se os que o são desde o princípio da vida ou os que assim se tornam por transformação. Dos que o fossem desde o princípio da vida não pode haver nenhum; ao passo que os que o são depois de transformação são poucos em número, sendo os que assim se tornaram depois de darem sua adesão à palavra salvadora. E não eram assim quando lhe deram adesão. Pois, à parte o auxílio da palavra, e da palavra de perfeição, é impossível que um homem se torne livre do pecado.

[70] Em seguida, ele objeta à declaração, como se fosse mantida por nós, de que Deus poderá fazer todas as coisas, sem perceber nem mesmo aqui em que sentido tais palavras são usadas, quais são as “todas as coisas” nelas incluídas e em que sentido se diz que Deus poderá. Mas não é necessário falar agora sobre esses assuntos; pois, embora pudesse, com alguma aparência de razão, opor-se a essa proposição, não o fez. Talvez não tenha entendido os argumentos plausíveis que se poderiam usar contra ela; ou, se os entendeu, viu também as respostas que se poderiam dar. Ora, em nosso juízo, Deus pode fazer tudo o que é possível que faça sem deixar de ser Deus, bom e sábio. Mas Celso afirma — não compreendendo o significado da expressão “Deus pode tudo” — que Deus não desejará fazer algo mau, admitindo que tem poder, mas não vontade, de cometer o mal. Nós, ao contrário, sustentamos que, assim como aquilo que por natureza possui a propriedade de adoçar outras coisas por sua doçura inerente não pode produzir amargor contrário à sua própria natureza, nem aquilo cuja natureza é produzir luz por ser luminoso pode causar trevas, assim também Deus não é capaz de praticar o mal, porque o poder de fazer o mal é contrário à sua divindade e à sua onipotência. Ao passo que, se alguma coisa entre as existentes é capaz de cometer o mal, por estar inclinada a ele por natureza, ela o faz por não ter em sua natureza a capacidade de não praticar o mal.

[71] Em seguida ele supõe algo que não é admitido pela classe mais racional dos crentes, mas que talvez alguns carentes de entendimento considerem verdadeiro: a saber, que Deus, como os que são vencidos pela piedade, sendo ele mesmo vencido, alivia os sofrimentos dos maus por compaixão de seus gemidos e rejeita os bons, que nada disso fazem, o que seria o auge da injustiça. Ora, em nosso entendimento, Deus não alivia o sofrimento de homem mau algum que não tenha abraçado a vida virtuosa, nem rejeita ninguém que já seja bom, nem alivia o sofrimento de alguém simplesmente porque se lamenta ou tem pena de si, usando-se a palavra piedade em seu sentido mais comum. Mas aqueles que pronunciaram severa condenação contra si mesmos por causa de seus pecados e, por essa razão, lamentam e choram sobre si como perdidos no que diz respeito à sua conduta anterior, e que manifestaram mudança satisfatória, são recebidos por Deus por causa de seu arrependimento, como quem sofreu transformação de uma vida de grande perversidade. Pois a virtude, estabelecendo-se na alma dessas pessoas e expulsando a maldade que antes as possuía, produz esquecimento do passado. E, mesmo que a virtude não consiga entrar plenamente, ainda assim, se houver grande progresso na alma, isso basta, na medida em que é progresso, para expulsar e destruir a inundação da maldade, de modo que ela quase deixa de permanecer na alma.

[72] Em seguida, falando como se fosse uma espécie de mestre de nossa doutrina, ele se exprime assim: “Os sábios rejeitam o que dizemos, sendo levados ao erro e apanhados por sua sabedoria.” Ao que respondemos que, sendo a sabedoria o conhecimento das coisas divinas e humanas e de suas causas, ou, como a palavra de Deus a define, “o sopro do poder de Deus e pura emanação da glória do Todo-Poderoso; o resplendor da luz eterna, o espelho sem mancha do poder de Deus e imagem de sua bondade”, ninguém que fosse realmente sábio rejeitaria o que diz um cristão familiarizado com os princípios do cristianismo, nem seria por isso induzido ao erro ou enredado. Pois a verdadeira sabedoria não engana; quem engana é a ignorância, enquanto entre as coisas existentes somente o conhecimento é permanente, e a verdade proveniente da sabedoria. Mas, se, contrariamente à definição de sabedoria, chamas sábio a qualquer um que dogmatiza com opiniões sofísticas, respondemos que, conforme aquilo a que chamas sabedoria, tal homem rejeita as palavras de Deus, sendo enganado e enredado por sofismas plausíveis. E, visto que, segundo nossa doutrina, sabedoria não é conhecimento do mal, mas, por assim dizer, o conhecimento do mal está naqueles que sustentam falsas opiniões e são por elas enganados, eu chamaria nisso não de sabedoria, mas antes de ignorância.

[73] Depois disso, ele torna a caluniar o embaixador do cristianismo e espalha que ele conta coisas ridículas, embora não mostre nem aponte claramente quais sejam essas coisas que chama ridículas. E, em suas calúnias, diz que nenhum sábio crê no evangelho, sendo repelido pela multidão que a ele adere. Nisso age como quem dissesse que, por causa da multidão de ignorantes submetidos às leis, nenhum sábio obedeceria, por exemplo, a Sólon, ou Licurgo, ou Zaleuco, ou a qualquer outro legislador, especialmente se por sábio entende alguém sábio por viver em conformidade com a virtude. Pois, assim como, em relação a esses ignorantes, os legisladores, segundo sua ideia de utilidade, fizeram-nos ficar cercados de orientações e leis apropriadas, assim Deus, legislando por meio de Jesus Cristo para os homens em todas as partes do mundo, traz a si até aqueles que não são sábios, do modo em que é possível a tais pessoas serem conduzidas a uma vida melhor. E Deus, sabendo bem disso, como já mostramos nas páginas anteriores, diz nos livros de Moisés: “Provocaram-me à ciúme com aquilo que não é Deus; irritaram-me com seus ídolos; e eu os provocarei à ciúme com o que não é povo; despertá-los-ei à ira com nação insensata.” E Paulo também, sabendo disso, disse: “Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir as sábias”, chamando de modo geral de sábios todos os que parecem ter progredido em conhecimento, mas caíram num politeísmo ateu; pois, “professando-se sábios, tornaram-se tolos e trocaram a glória do Deus incorruptível por imagem semelhante ao homem corruptível, a aves, quadrúpedes e répteis”.

[74] Ele acusa, além disso, o mestre cristão de procurar os sem entendimento. Respondemos perguntando: quem queres dizer com “sem entendimento”? Pois, falando com precisão, todo homem mau é sem entendimento. Se, então, por sem entendimento queres dizer os maus, tu, ao atraíres homens para a filosofia, procuras ganhar os maus ou os virtuosos? Mas é impossível ganhar os virtuosos, porque eles já se entregaram à filosofia. Buscas, então, os maus; mas, se são maus, não são eles também sem entendimento? E muitos tais procuras converter à filosofia; logo, também procuras os sem entendimento. Mas, se eu busco aqueles que assim se chamam sem entendimento, ajo como um médico benevolente, que procura os doentes para os ajudar e curar. Se, porém, por sem entendimento queres dizer pessoas não perspicazes, mas a classe intelectualmente inferior dos homens, responderei que me esforço também por melhorar tais pessoas o melhor que posso, embora não desejasse construir a comunidade cristã a partir apenas desse material. Pois procuro de preferência os mais inteligentes e agudos, porque são capazes de compreender o sentido das palavras difíceis e daquelas passagens da lei, dos profetas e dos evangelhos que são expressas de maneira obscura e que desprezaste como não contendo nada digno de nota, porque não averiguaste o sentido que nelas se acha, nem tentaste penetrar a intenção dos escritores.

[75] Mas, como ele diz depois que o mestre do cristianismo age como alguém que promete restaurar os doentes à saúde do corpo, mas lhes impede consultar médicos hábeis, pelos quais sua ignorância seria desmascarada, perguntaremos em resposta: quais são os médicos a que te referes, de quem afastamos os ignorantes? Pois não supões que exortamos ao evangelho aqueles que já se dedicam à filosofia, de modo que considerarias estes como os médicos de quem afastamos os que convidamos a vir à palavra de Deus. Ele, de fato, não dará resposta alguma, porque não pode nomear esses médicos; ou então será obrigado a recorrer àqueles que são ignorantes e que espontaneamente se entregam servilmente ao culto de muitos deuses e a quaisquer outras opiniões sustentadas por indivíduos ignorantes. Em qualquer dos casos, ficará demonstrado que usou em vão em seu argumento a ilustração de alguém que afasta os outros de médicos habilidosos. Mas, se, para preservar da filosofia de Epicuro e daqueles tidos por médicos segundo seu sistema os que são por eles enganados, nós agimos assim, por que não estaríamos agindo do modo mais razoável ao afastá-los de uma doença perigosa causada pelos médicos de Celso — isto é, aquela que conduz à negação da providência e à introdução do prazer como bem? Mas conceda-se que de fato afastamos daqueles a quem encorajamos a tornar-se nossos discípulos outros médicos-filósofos — por exemplo, os peripatéticos, que negam a existência da providência e a relação da Divindade com o homem —, por que não deveríamos, com piedade, formar e curar os assim encorajados, persuadindo-os a devotar-se ao Deus de todas as coisas e libertando os que nos obedecem das grandes feridas infligidas pelas palavras daqueles tidos por filósofos? Mais ainda: admita-se também que os afastamos dos médicos da seita estoica, que introduzem um deus corruptível e afirmam que sua essência consiste num corpo capaz de mudar e ser alterado em todas as suas partes, e que ainda sustentam que um dia todas as coisas perecerão e só Deus permanecerá; por que não haveríamos, mesmo assim, de emancipar nossos seguidores desses males e conduzi-los, por argumentos piedosos, a devotar-se ao Criador e a admirar o Pai do sistema cristão, que ordenou que uma instrução da mais benévola espécie, apta à conversão das almas, fosse distribuída por todo o gênero humano? Mais ainda, se curamos aqueles que caíram na tolice de crer na transmigração das almas, por ensino desses médicos que pretendem que a natureza racional desce às vezes a toda espécie de animais irracionais e às vezes a um estado incapaz de usar a imaginação, por que não haveríamos de melhorar as almas de nossos ouvintes por meio de uma doutrina que não ensina que um estado de insensibilidade ou irracionalidade é produzido nos maus em lugar do castigo, mas mostra que os trabalhos e castigos infligidos por Deus aos ímpios são uma espécie de remédios que conduzem à conversão? Pois os cristãos inteligentes, tendo isso em vista, tratam os simples como pais tratam crianças muito pequenas. Não vamos, então, a jovens e a rústicos tolos dizendo: “Fugi dos médicos.” Nem dizemos: “Olhai para que nenhum de vós se apegue ao conhecimento”; nem afirmamos que o conhecimento é um mal; nem somos loucos a ponto de dizer que o conhecimento faz os homens perderem o juízo. Nem diríamos sequer que alguém pereceu por causa da sabedoria; e, embora ensinemos, nunca dizemos: “Prestai atenção em mim”, mas: “Prestai atenção ao Deus de todas as coisas e a Jesus, que ensina acerca dele.” E nenhum de nós é tão fanfarrão a ponto de dizer o que Celso pôs na boca de um de nossos mestres a seus conhecidos: “Só eu vos salvarei.” Observa aqui as mentiras que ele profere contra nós! Além disso, não afirmamos que os verdadeiros médicos destroem aqueles a quem prometem curar.

[76] E ele produz uma segunda ilustração em nosso prejuízo, dizendo que nosso mestre age como um homem embriagado que, entrando em companhia de bêbados, acusasse de embriaguez os sóbrios. Mas que mostre, digamos a partir dos escritos de Paulo, que o apóstolo de Jesus entregou-se à embriaguez e que suas palavras não eram de sobriedade; ou, a partir dos escritos de João, que seus pensamentos não respiram espírito de temperança e liberdade da intoxicação do mal. Ninguém, portanto, que esteja em seu juízo e ensine as doutrinas do cristianismo se embriaga com vinho; mas Celso profere essas calúnias contra nós em espírito muito diferente do de um filósofo. Além disso, que Celso diga quem são os sóbrios a quem os embaixadores do cristianismo acusam. Pois, em nosso julgamento, todos estão embriagados os que se dirigem a objetos inanimados como se fossem Deus. E por que digo embriagados? Insanos seria palavra mais apropriada para aqueles que correm aos templos e adoram imagens ou animais como divindades. E não são menos insanos os que pensam que imagens moldadas por homens de caráter vil e às vezes dos mais perversos conferem alguma honra às divindades verdadeiras.

[77] Em seguida ele compara nosso mestre a alguém que sofre de oftalmia, e seus discípulos àqueles que padecem da mesma doença, e diz que tal pessoa, entre um grupo de acometidos de oftalmia, acusa os que têm vista boa de serem cegos. Quem são, então, perguntaríamos, ó gregos, aqueles que em nosso juízo não veem, senão os que não conseguem erguer os olhos da imensa grandeza do mundo e de seu conteúdo, e da beleza das coisas criadas, para perceber que devem adorar, admirar e reverenciar somente aquele que fez essas coisas, e que não convém tratar com reverência nada fabricado pelo homem e aplicado à honra de Deus, quer sem referência ao Criador, quer com ela? Pois comparar com aquela excelência ilimitada, que ultrapassa todo ser criado, coisas que nem sequer deveriam ser postas em comparação com ela é próprio daqueles cujo entendimento está obscurecido. Não dizemos, então, que os de vista aguda sofram de oftalmia ou cegueira; mas afirmamos que aqueles que, em ignorância de Deus, se entregam a templos, imagens e às chamadas épocas sagradas estão cegos em suas mentes, especialmente quando, além de sua impiedade, vivem ainda licenciosamente, sem sequer buscar obra honrosa alguma, mas praticando tudo o que é vergonhoso.

[78] Depois de levantar contra nós acusações de tão grave espécie, ele quer fazer parecer que, embora tenha outras a adduzir, cala-se sobre elas. Suas palavras são: “Estas acusações tenho a fazer contra eles, e outras semelhantes, sem enumerá-las uma a uma; e afirmo que erram e agem insolentemente contra Deus para atrair homens maus por esperanças vazias e persuadi-los a desprezar coisas melhores, dizendo que, se delas se abstiverem, será melhor para eles.” Em resposta, poder-se-ia dizer que, pelo poder que se mostra naqueles que se convertem ao cristianismo, não são de modo algum os perversos que o evangelho ganha, mas antes a classe mais simples de pessoas, ou, como muitos as chamariam, as sem polimento. Pois tais indivíduos, pelo temor dos castigos ameaçados, que os desperta e exorta a se absterem das ações às quais se seguem punições, esforçam-se por entregar-se à religião cristã, sendo influenciados pelo poder da palavra a tal ponto que, por medo do que ela chama castigos eternos, desprezam todos os tormentos inventados contra eles pelos homens — até a própria morte, com incontáveis outros males —, coisa que nenhum homem sábio diria ser atitude de pessoas de mente perversa. Como poderiam a temperança e a sobriedade, ou a benevolência e a liberalidade, ser praticadas por um homem de mente perversa? Mais ainda: nem o temor de Deus pode ser sentido por tal homem; e, porque esse temor é útil para muitos, o evangelho encoraja aqueles que ainda não são capazes de escolher o que deve ser escolhido por si mesmo a escolhê-lo como a maior das bênçãos e a mais excelente das promessas; pois esse princípio não pode ser implantado em quem prefere viver na perversidade.

[79] Mas, se nesses pontos alguém imaginasse que é superstição e não perversidade o que aparece na multidão dos que creem na palavra, e acusasse nossa doutrina de tornar os homens supersticiosos, responderíamos dizendo que, assim como certo legislador respondeu àquele que lhe perguntou se havia dado a seus cidadãos as melhores leis, que não lhes dera absolutamente as melhores em si, mas as melhores que eram capazes de receber, assim também poderia ser dito pelo Pai da doutrina cristã: dei as melhores leis e instrução para a melhoria dos costumes de que a multidão era capaz, não ameaçando os pecadores com trabalhos e castigos imaginários, mas com os reais e necessários para a correção dos que resistem, embora eles não compreendam de modo algum o objetivo daquele que inflige o castigo nem o efeito desses trabalhos. Pois a doutrina do castigo é ao mesmo tempo útil, conforme à verdade e vantajosamente expressa em termos obscuros. Além disso, como, na maior parte dos casos, não são os ímpios que os embaixadores do cristianismo ganham, também não insultamos a Deus. Pois falamos a seu respeito tanto o que é verdadeiro quanto o que parece claro à multidão, embora não tão claro para ela quanto o é para aqueles poucos que investigam filosoficamente as verdades do evangelho.

[80] Visto, porém, que Celso alega que os cristãos são ganhos por nós por meio de esperanças vazias, assim lhe respondemos quando critica nossa doutrina da vida bem-aventurada e da comunhão com Deus: quanto a ti, bom senhor, também são ganhos por esperanças vazias aqueles que aceitaram a doutrina de Pitágoras e de Platão acerca da alma, segundo a qual é sua natureza subir até a abóbada do céu e, no espaço supraceleste, contemplar as visões que os bem-aventurados observadores de cima contemplam. Segundo ti, ó Celso, também os que aceitaram a doutrina da duração da alma após a morte, e que levam vida pela qual se tornam heróis e fazem sua morada com os deuses, são conquistados por esperanças vãs. Provavelmente também aqueles que se persuadem de que a alma vem de fora para o corpo e será retirada do poder da morte, Celso diria que são ganhos por esperanças vazias. Que ele, então, se apresente ao debate, não mais ocultando a seita a que pertence, mas confessando-se epicurista, e enfrente os argumentos, não levianamente sustentados entre gregos e bárbaros, acerca da imortalidade da alma, ou de sua duração após a morte, ou da imortalidade do princípio pensante; e prove que estas são palavras que enganam com esperanças vazias os que lhes dão assentimento, mas que os aderentes de seu sistema filosófico estão livres de esperanças vãs e conduzem realmente a esperanças de bem, ou — o que mais convém às suas opiniões — não dão nascimento a esperança alguma, por causa da destruição imediata e completa da alma após a morte. A menos que, talvez, Celso e os epicuristas neguem que seja esperança vã aquela que entretêm a respeito de seu fim — o prazer —, que, segundo eles, é o sumo bem e consiste na saúde permanente do corpo e na esperança relativa a ela sustentada por Epicuro.

[81] E não suponhas que não convém à religião cristã eu ter aceitado, contra Celso, as opiniões daqueles filósofos que trataram da imortalidade ou da duração da alma após a morte; pois, mantendo certos pontos em comum com eles, estabeleceremos com mais facilidade nossa posição de que a vida futura de bem-aventurança será apenas para aqueles que aceitaram a religião segundo Jesus e aquela devoção ao Criador de todas as coisas que é pura, sincera e não misturada com qualquer coisa criada. E que quem quiser mostre que coisas melhores persuadimos os homens a desprezar, e compare o fim bem-aventurado com Deus em Cristo — isto é, o Verbo, a Sabedoria e toda virtude —, o qual, segundo nosso ponto de vista, será concedido pelo dom de Deus àqueles que viveram vida pura e irrepreensível e que sentiram um amor único e indiviso pelo Deus de todas as coisas, com aquele fim que se seguirá segundo o ensino de cada seita filosófica, seja ela grega ou bárbara, ou segundo as profissões dos mistérios religiosos; e que prove que o fim predito por qualquer dos outros é superior ao que prometemos, e consequentemente que aquele é verdadeiro, e o nosso não condiz nem com o dom de Deus nem com aqueles que viveram vida boa; ou que prove que essas palavras não foram faladas pelo Espírito divino, que encheu a alma dos santos profetas. E que quem quiser mostre que as palavras reconhecidas entre todos os homens como humanas são superiores àquelas provadas como divinas e pronunciadas por inspiração. E quais são as coisas melhores das quais ensinamos os que nos ouvem que seria melhor abster-se? Pois, se não é arrogância dizê-lo, é evidente por si mesmo que nada se pode negar ser melhor do que confiar-se ao Deus de todos, entregar-se à doutrina que nos eleva acima de todas as coisas criadas e nos conduz, por meio do Verbo animado e vivo — que é também Sabedoria viva e Filho de Deus —, até o Deus que está acima de todos. Contudo, como o terceiro livro de nossas respostas ao tratado de Celso já atingiu extensão suficiente, aqui encerraremos nossas presentes observações; e no que segue enfrentaremos o que Celso escreveu depois disso.

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