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[1] Tendo, nos três livros precedentes, exposto plenamente aquilo que nos ocorreu em resposta ao tratado de Celso, nós agora, venerável Ambrósio, com oração a Deus por meio de Cristo, oferecemos este quarto livro como resposta ao que se segue.

[2] E rogamos que nos sejam dadas palavras, como está escrito no livro de Jeremias, onde o Senhor disse ao profeta: Eis que pus as Minhas palavras em tua boca como fogo.

[3] Vê: constituí-te hoje sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e derribar, destruir e arruinar, edificar e plantar.

[4] Pois agora necessitamos de palavras que arranquem de toda alma ferida os insultos lançados contra a verdade por este tratado de Celso, ou que procedem de opiniões semelhantes às dele.

[5] E necessitamos também de pensamentos que derrubem todos os edifícios erguidos sobre falsas opiniões, e especialmente o edifício levantado por Celso em sua obra, que se assemelha à construção daqueles que disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo alcance os céus.

[6] Sim, precisamos ainda de uma sabedoria que abata todas as alturas que se levantam contra o conhecimento de Deus, e especialmente aquela altura de arrogância que Celso manifesta contra nós.

[7] E, em seguida, como não devemos parar em arrancar e derribar os impedimentos que acabamos de mencionar, mas devemos, no lugar do que foi arrancado, plantar as plantas da lavoura de Deus, e no lugar do que foi derrubado, levantar o edifício de Deus e o templo da Sua glória, por essa razão devemos também orar ao Senhor, que concedeu os dons mencionados no livro de Jeremias, para que Ele nos conceda palavras apropriadas tanto para a edificação do templo de Cristo quanto para o plantio da lei espiritual e das palavras proféticas a ela referentes.

[8] E, acima de tudo, é necessário demonstrar, contra as afirmações de Celso que se seguem às que ele já apresentou, que as profecias a respeito de Cristo são predições verdadeiras.

[9] Pois, colocando-se ao mesmo tempo contra ambas as partes — contra os judeus, de um lado, que negam que a vinda de Cristo já tenha acontecido, mas a esperam como futura, e contra os cristãos, de outro, que reconhecem que Jesus é o Cristo anunciado na profecia — ele faz a seguinte declaração: Mas que certos cristãos e todos os judeus sustentem, os primeiros que já desceu, os segundos que descerá, sobre a terra um certo Deus, ou Filho de Deus, que tornará justos os habitantes da terra, é uma afirmação extremamente desavergonhada, cuja refutação não exige muitas palavras.

[10] Aqui ele parece falar corretamente, não a respeito de certos judeus, mas de todos eles, ao dizer que imaginam que há um certo Deus que descerá sobre a terra; e, quanto aos cristãos, que alguns dentre eles dizem que Ele já desceu.

[11] Pois ele se refere àqueles que provam, a partir das escrituras judaicas, que a vinda de Cristo já ocorreu, e parece saber que há certas seitas heréticas que negam que Cristo Jesus tenha sido anunciado pelos profetas.

[12] Nas páginas precedentes, porém, já discutimos, da melhor maneira que nos foi possível, a questão de Cristo ter sido objeto de profecia; por isso, para evitar tautologia, não repetimos muito do que poderia ser dito sobre esse ponto.

[13] Observa agora que, se ele quisesse, com algum aparente vigor, subverter a fé nas escrituras proféticas, quer em relação à vinda futura, quer à passada de Cristo, deveria ter exposto as próprias profecias que nós, cristãos, e os judeus citamos em nossas discussões uns com os outros.

[14] Pois assim ele pareceria desviar aqueles que, segundo ele pensa, são levados pelo caráter plausível das declarações proféticas, de assentirem à sua verdade e de crerem, por causa dessas profecias, que Jesus é o Cristo; ao passo que agora, incapaz de responder às profecias relativas a Cristo, ou então ignorando completamente quais são as profecias relativas a Ele, não apresenta nenhuma declaração profética, embora existam inúmeras que se referem a Cristo.

[15] Ainda assim, imagina que lança uma acusação contra as escrituras proféticas, quando sequer expõe aquilo que ele próprio chamaria de seu caráter plausível.

[16] Ele não percebe, porém, que não são absolutamente os judeus que dizem que Cristo descerá como Deus, ou como Filho de Deus, como mostramos nas páginas anteriores.

[17] E, quando afirma que nós dizemos que Ele já veio, mas que os judeus dizem que Sua vinda como Messias ainda é futura, parece, pela própria acusação, censurar a nossa declaração como sendo extremamente desavergonhada e que não necessita de longa refutação.

[18] E ele prossegue: Qual é o sentido de tal descida da parte de Deus?

[19] Não percebe que, segundo o nosso ensino, o sentido da descida é, acima de tudo, converter aquilo que no Evangelho é chamado de as ovelhas perdidas da casa de Israel; e, em segundo lugar, retirar deles, por causa de sua desobediência, aquilo que é chamado o reino de Deus, e dá-lo a outros lavradores que não os antigos judeus, isto é, aos cristãos, que renderão a Deus os frutos do Seu reino no tempo devido, sendo cada ação um fruto do reino.

[20] Escolheremos, portanto, dentre um número maior, algumas observações para responder à pergunta de Celso quando ele diz: Qual é o sentido de tal descida da parte de Deus?

[21] E aqui Celso dá a si mesmo uma resposta que nem os judeus nem nós teríamos dado, quando pergunta: Foi para aprender o que se passa entre os homens?

[22] Pois nenhum de nós afirma que Cristo entrou nesta vida para aprender o que se passa entre os homens.

[23] Logo depois, porém, como se alguém respondesse que foi para aprender o que se passa entre os homens, ele formula esta objeção à sua própria fala: Ele não sabe todas as coisas?

[24] Então, como se fôssemos responder que Ele sabe, levanta uma nova questão, dizendo: Então sabe, mas não torna os homens melhores, nem lhe é possível, por seu poder divino, torná-los melhores.

[25] Ora, tudo isso da parte dele é fala tola; pois Deus, por meio da Sua Palavra, que continuamente passa de geração em geração para almas santas, tornando-as amigas de Deus e profetas, melhora aqueles que escutam Suas palavras; e, com a vinda de Cristo, melhora, por meio da doutrina do cristianismo, não os que não querem, mas os que escolheram a vida melhor e a que agrada a Deus.

[26] Não sei, além disso, que espécie de melhora Celso desejava quando levantou a objeção, perguntando: Não seria então possível a Ele, por meio de Seu poder divino, tornar os homens melhores, sem enviar alguém para esse propósito especial?

[27] Desejaria ele, então, que a melhora se realizasse pelo fato de Deus encher as mentes dos homens com novas ideias, removendo de uma vez a maldade inerente e implantando a virtude em seu lugar?

[28] Outra pessoa poderia agora perguntar se isso não seria inconsistente ou impossível na própria natureza das coisas; nós, porém, diríamos: concedamos que seja assim e que seja possível.

[29] Onde, então, fica o nosso livre-arbítrio?

[30] E que mérito há em assentir à verdade?

[31] Ou como seria louvável rejeitar o que é falso?

[32] Mas, ainda que fosse concedido uma vez que tal curso não apenas é possível, mas poderia ser realizado convenientemente por Deus, por que não perguntar antes, formulando uma questão como a de Celso, por que não foi possível a Deus, por meio do Seu poder divino, criar homens que não necessitassem de melhora, mas que fossem por si mesmos virtuosos e perfeitos, não existindo de modo algum o mal?

[33] Tais questões podem confundir indivíduos ignorantes e insensatos, mas não aquele que vê a natureza das coisas; pois, se tiras a espontaneidade da virtude, destróis a sua essência.

[34] Mas seria necessário um tratado inteiro para discutir estas matérias; e sobre este assunto os gregos se estenderam longamente em suas obras sobre a providência.

[35] Eles, de fato, jamais diriam o que Celso expressou em palavras: que Deus sabe todas as coisas, mas não torna os homens melhores, nem é capaz de fazê-lo por Seu poder divino.

[36] Nós mesmos falamos em muitos lugares de nossos escritos sobre esses pontos, da melhor forma que pudemos, e as Escrituras Sagradas confirmaram o mesmo àqueles que são capazes de compreendê-las.

[37] O argumento que Celso emprega contra nós e contra os judeus pode ser voltado contra ele mesmo desta forma: Meu bom senhor, o Deus que está sobre todas as coisas sabe o que acontece entre os homens, ou não sabe?

[38] Ora, se admites a existência de um Deus e de uma providência, como teu tratado indica, Ele necessariamente sabe.

[39] E, se sabe, por que não torna os homens melhores?

[40] É, então, obrigatório para nós defender o procedimento de Deus por não tornar os homens melhores, embora conheça a condição deles, e não igualmente obrigatório para ti, que não mostras claramente em teu tratado que és epicurista, mas finges reconhecer uma providência, explicar por que Deus, embora sabendo tudo o que acontece entre os homens, não os torna melhores, nem por poder divino liberta todos os homens do mal?

[41] Nós, porém, não nos envergonhamos de dizer que Deus constantemente envia instrutores para tornar os homens melhores; pois entre os homens podem ser encontrados raciocínios dados por Deus que os exortam a entrar numa vida melhor.

[42] Mas há muitas diversidades entre aqueles que servem a Deus, e poucos são os perfeitos e puros embaixadores da verdade, os quais produzem uma reforma completa, como fizeram Moisés e os profetas.

[43] Mas acima de todos estes, grande foi a reforma efetuada por Jesus, que desejou curar não apenas os que viviam num canto do mundo, mas, até onde estava nEle, os homens de toda terra, pois Ele veio como o Salvador de todos os homens.

[44] O ilustre Celso, aproveitando-se não sei de quê, em seguida levanta outra objeção contra nós, como se afirmássemos que o próprio Deus desceria aos homens.

[45] Ele imagina também que disso se seguiria que Deus deixou a Sua própria morada; pois ignora o poder de Deus, e que o Espírito do Senhor enche o mundo, e que Aquele que sustenta todas as coisas conhece a voz.

[46] Nem é capaz de compreender as palavras: Não encho Eu os céus e a terra? diz o Senhor.

[47] Tampouco vê que, segundo a doutrina do cristianismo, todos nós nEle vivemos, nos movemos e existimos, como também Paulo ensinou em seu discurso aos atenienses.

[48] Portanto, ainda que o Deus do universo desça, por Seu próprio poder, com Jesus à vida dos homens, e ainda que a Palavra que no princípio estava com Deus, e que é também o próprio Deus, venha até nós, Ele não abandona o Seu lugar nem desocupa a Sua própria sede, de modo que um lugar fique vazio dEle e outro, que antes não O continha, passe a ser preenchido.

[49] Antes, o poder e a divindade de Deus vêm por meio daquele que Deus escolhe e residem naquele em quem encontram lugar, sem mudar de posição, sem deixar vazio o Seu próprio lugar e preencher outro; pois, ao falar de Seu deixar um lugar e ocupar outro, não queremos que tais expressões sejam tomadas em sentido local.

[50] Dizemos, porém, que a alma do homem mau, daquele que está submerso na maldade, é abandonada por Deus; ao passo que a alma daquele que deseja viver virtuosamente, ou daquele que progride na vida virtuosa, ou que já vive de modo conforme a ela, é cheia do Espírito Divino ou se torna participante dEle.

[51] Não é necessário, portanto, para a descida de Cristo, ou para a vinda de Deus aos homens, que Ele abandone uma sede maior e que as coisas da terra sejam mudadas, como Celso imagina quando diz: Se mudasses uma só coisa, ainda que a menor, das coisas da terra, todas seriam transtornadas e desapareceriam.

[52] E, se devemos falar de uma mudança em alguém pela aparição do poder de Deus e pela entrada da palavra entre os homens, não hesitaremos em falar de uma mudança do perverso ao virtuoso, do dissoluto ao moderado, e do supersticioso ao religioso, naquele que permitiu que a palavra de Deus encontrasse entrada em sua alma.

[53] Mas, se queres que enfrentemos as mais ridículas dentre as acusações de Celso, ouve-o quando diz: Deus, sendo desconhecido entre os homens e julgando, por isso, receber menos do que lhe é devido, desejaria fazer-se conhecido e experimentar tanto os que creem nEle quanto os que não creem, como fazem aqueles homens que recentemente chegaram à posse de riquezas e fazem ostentação delas; e assim dariam testemunho de uma ambição excessiva, mas muito mortal, da parte de Deus.

[54] Respondemos, então, que Deus, não sendo conhecido pelos homens maus, deseja fazer-Se conhecido, não porque pense receber menos do que Lhe é devido, mas porque o conhecimento dEle libertará seu possuidor da infelicidade.

[55] Além disso, nem mesmo com o desejo de provar os que creem ou não creem nEle, Ele, por Seu inefável e divino poder, passa Ele mesmo a habitar em certos indivíduos, ou envia o Seu Cristo; mas faz isso para libertar de todas as suas misérias aqueles que de fato creem nEle e aceitam Sua divindade, e para que os que não creem já não tenham isso como desculpa, isto é, que sua incredulidade seja consequência de não terem ouvido a palavra de instrução.

[56] Que argumento, então, prova que decorre de nossas opiniões que Deus, segundo nossas representações, é semelhante àqueles homens que recentemente entraram na posse de riquezas e fazem ostentação delas?

[57] Pois Deus não faz ostentação diante de nós, desejando que compreendamos e consideremos Sua preeminência; antes, desejando que a bem-aventurança resultante do fato de ser conhecido por nós seja implantada em nossas almas, Ele faz isso por meio de Cristo e de Sua palavra que habita continuamente, para que cheguemos a uma íntima comunhão com Ele.

[58] Não é, pois, a doutrina cristã que testemunha haver em Deus qualquer ambição mortal.

[59] Não sei como, depois das tolas observações que fez sobre o assunto que acabamos de discutir, ele ainda acrescenta o seguinte: que Deus não deseja fazer-se conhecido por causa de si mesmo, mas porque quer conceder-nos o conhecimento de si mesmo em favor da nossa salvação, a fim de que os que o aceitam se tornem virtuosos e sejam salvos, enquanto os que não o aceitam sejam demonstrados ímpios e punidos.

[60] E ainda assim, depois de fazer tal declaração, levanta uma nova objeção, dizendo: Foi então somente depois de tão longo tempo que Deus se lembrou de fazer os homens viverem retamente, e antes negligenciou fazê-lo?

[61] Ao que respondemos que nunca houve tempo em que Deus não quisesse fazer os homens viverem retamente; mas Ele manifestou continuamente Seu cuidado pelo aperfeiçoamento do animal racional, oferecendo-lhe ocasiões para o exercício da virtude.

[62] Pois em cada geração a sabedoria de Deus, passando para aquelas almas que reconhece como santas, as transforma em amigas e profetas de Deus.

[63] E pode-se encontrar no livro sagrado os nomes daqueles que, em cada geração, foram santos, receptores do Espírito Divino, e que se esforçaram para converter seus contemporâneos até onde lhes era possível.

[64] E não é de admirar que em certas gerações tenham existido profetas que, ao receberem a influência divina, superaram, por meio de uma vida religiosa mais forte e poderosa, outros profetas que lhes eram contemporâneos, e também outros que viveram antes e depois deles.

[65] Assim, não é de modo algum maravilhoso que também tenha havido um tempo em que algo de excelência superior tenha feito morada entre a raça humana, distinguindo-se acima de tudo o que a precedeu ou mesmo do que a seguiu.

[66] Mas há, no relato destas coisas, um elemento de profundo mistério, incapaz de ser recebido pelo entendimento popular.

[67] E, para que estas dificuldades sejam removidas, e para que as objeções levantadas contra a vinda de Cristo sejam respondidas — isto é, que, depois de tão longo tempo, Deus somente então Se lembrou de fazer os homens viverem retamente, e antes deixou de fazê-lo — é necessário tocar na narrativa das divisões das nações e tornar evidente por que, quando o Altíssimo dividiu as nações, quando separou os filhos de Adão, estabeleceu os limites das nações segundo o número dos anjos de Deus, e a porção do Senhor foi o Seu povo Jacó, Israel a corda da Sua herança.

[68] E será necessário declarar a razão pela qual o nascimento de cada homem ocorreu dentro de cada limite particular, sob aquele que obteve o limite por sorte, e como aconteceu de modo justo que a porção do Senhor fosse o Seu povo Jacó, e Israel a corda da Sua herança, e por que outrora a porção do Senhor foi o Seu povo Jacó, e Israel a corda da Sua herança.

[69] Mas, quanto aos que vêm depois, é dito ao Salvador pelo Pai: Pede-Me, e Eu te darei as nações por herança, e os confins da terra por tua possessão.

[70] Pois há certas razões ligadas e relacionadas, concernentes ao tratamento diverso das almas humanas, que são difíceis de expor e investigar.

[71] Veio, então, embora Celso talvez não queira admitir, depois dos numerosos profetas que foram os reformadores daquele conhecido Israel, o Cristo, o Reformador do mundo inteiro, que não precisou empregar contra os homens chicotes, correntes e torturas, como acontecia na economia anterior.

[72] Pois, quando o semeador saiu a semear, a doutrina bastou para semear a palavra em toda parte.

[73] Mas, se está chegando um tempo que necessariamente limitará a duração do mundo, em razão de ele ter tido um começo, e se haverá um fim do mundo, e depois do fim um justo juízo de todas as coisas, caberá àquele que trata filosoficamente as declarações dos Evangelhos estabelecer estas doutrinas por argumentos de toda espécie, não apenas derivados diretamente das Escrituras Sagradas, mas também por inferências dedutíveis delas; enquanto a classe mais numerosa e mais simples dos crentes, e aqueles que não conseguem compreender os muitos e variados aspectos da sabedoria divina, devem confiar-se a Deus e ao Salvador da nossa raça, contentando-se com o Seu próprio dizer, em vez desta ou de qualquer outra demonstração.

[74] Em seguida, Celso, como é seu costume, sem ter provado nem estabelecido nada, passa a dizer, como se falássemos de Deus de modo que não fosse santo nem piedoso, que é perfeitamente manifesto que eles tagarelam sobre Deus de uma maneira que não é nem santa nem reverente.

[75] E imagina que fazemos isso para provocar o espanto dos ignorantes, e que não falamos a verdade quanto à necessidade dos castigos para aqueles que pecaram.

[76] Por conseguinte, nos compara àqueles que, nos mistérios báquicos, introduzem fantasmas e objetos de terror.

[77] Quanto aos mistérios de Baco, se há algum relato digno de confiança sobre eles, ou se não há nenhum que o seja, que os gregos o digam, e que Celso e seus companheiros de banquete escutem.

[78] Nós, porém, defendemos nosso próprio procedimento quando dizemos que nosso objetivo é reformar a raça humana, quer pelas ameaças de castigos, os quais estamos persuadidos serem necessários para o mundo inteiro, e que talvez não sejam sem utilidade para aqueles que os suportarão, quer pelas promessas feitas aos que viveram vidas virtuosas, nas quais estão contidas as declarações a respeito do fim bem-aventurado que se encontra no reino de Deus, reservado aos que são dignos de se tornarem Seus súditos.

[79] Depois disso, querendo mostrar que não há nada de maravilhoso nem de novo no que dizemos acerca de dilúvios ou conflagrações, mas que, por termos compreendido mal os relatos dessas coisas correntes entre gregos e bárbaros, demos crédito às nossas próprias Escrituras ao tratar delas, ele escreve o seguinte: Espalhou-se entre eles a crença, por causa de um mal-entendido dos relatos desses acontecimentos, de que, após longos ciclos de tempo, e com os retornos e conjunções dos planetas, costumam ocorrer conflagrações e dilúvios; e, porque depois do último dilúvio, ocorrido no tempo de Deucalião, o decurso do tempo, segundo a vicissitude de todas as coisas, exige uma conflagração, isso os levou a emitir a opinião errônea de que Deus descerá trazendo fogo como um carrasco.

[80] A isso respondemos que não compreendo como Celso, que leu tanto e mostra ter percorrido muitas histórias, não foi detido pela antiguidade de Moisés, que certos historiadores gregos situam por volta do tempo de Ínaco, filho de Foroneu, e que é reconhecido pelos egípcios como homem de grande antiguidade, bem como por aqueles que estudaram a história dos fenícios.

[81] E quem quiser pode ler os dois livros de Flávio Josefo sobre as antiguidades dos judeus, para ver de que modo Moisés foi mais antigo do que aqueles que afirmaram que dilúvios e conflagrações acontecem no mundo após longos intervalos de tempo; afirmação esta que Celso diz que judeus e cristãos compreenderam mal e, por não entenderem o que era dito sobre uma conflagração, declararam que Deus desceria trazendo fogo como um carrasco.

[82] Se, então, existem ciclos de tempo, e dilúvios ou conflagrações que ocorrem periodicamente ou não, e se a Escritura tem ciência disso, não apenas em muitos lugares, mas especialmente onde Salomão diz: O que foi é o que será; e o que se fez, isso se tornará a fazer, não pertence à presente ocasião discutir.

[83] Basta apenas observar que Moisés e certos profetas, sendo homens de grande antiguidade, não receberam de outros as afirmações relativas à futura conflagração do mundo; antes, ao contrário, se devemos levar em conta a questão do tempo, foram os outros que, compreendendo-os mal e não investigando com exatidão suas declarações, inventaram a ficção de que os mesmos acontecimentos retornam em certos intervalos, sem diferir nem em suas qualidades essenciais nem nas acidentais.

[84] Nós, porém, não referimos nem o dilúvio nem a conflagração a ciclos e períodos planetários; antes, declaramos que sua causa é a vasta prevalência da maldade e sua consequente remoção por um dilúvio ou por uma conflagração.

[85] E, se as vozes dos profetas dizem que Deus desce, Aquele que disse: Não encho Eu os céus e a terra?, a expressão é usada em sentido figurado.

[86] Pois Deus desce de Sua própria altura e grandeza quando ordena os assuntos dos homens, especialmente os dos maus.

[87] E, assim como o costume leva os homens a dizer que os mestres se abaixam até as crianças, e os sábios até os jovens que acabam de se dedicar à filosofia, não por descerem corporalmente; assim também, se em algum lugar das Sagradas Escrituras se diz que Deus desce, entende-se que isso é dito conforme o uso comum que assim emprega a palavra, e do mesmo modo também a expressão subir.

[88] Mas, como é em escárnio que Celso diz que falamos de Deus descendo como um carrasco portando fogo, e assim nos obriga de modo inoportuno a investigar palavras de significado mais profundo, faremos algumas observações, suficientes para permitir a nossos ouvintes formar uma ideia da defesa que desfaz o ridículo de Celso contra nós, e então passaremos ao que segue.

[89] A palavra divina diz que o nosso Deus é fogo consumidor e que faz correr diante de Si rios de fogo; mais ainda, que entra como fogo do fundidor e como erva de lavandeiro, para purificar o Seu próprio povo.

[90] Mas, quando se diz que Ele é fogo consumidor, perguntamos quais são as coisas adequadas a serem consumidas por Deus.

[91] E afirmamos que são a maldade e as obras que dela resultam, as quais, sendo figuradamente chamadas madeira, feno e palha, Deus consome como fogo.

[92] O homem ímpio, assim, é dito edificar sobre o fundamento já lançado da razão, madeira, feno e palha.

[93] Se, então, alguém puder mostrar que essas palavras foram entendidas de outro modo pelo escritor e provar que o homem ímpio edifica literalmente madeira, ou feno, ou palha, é evidente que o fogo deve ser entendido como material e sensível.

[94] Mas se, ao contrário, as obras do homem ímpio são ditas figuradamente sob os nomes de madeira, feno ou palha, por que não ocorre imediatamente perguntar em que sentido a palavra fogo deve ser tomada, para que uma madeira desse tipo seja consumida?

[95] Pois a Escritura diz: O fogo provará a obra de cada um, qual seja.

[96] Se a obra de alguém permanecer, ele receberá galardão.

[97] Se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda.

[98] Mas que obra pode ser dita queimada nessas palavras, senão tudo aquilo que resulta da maldade?

[99] Portanto, nosso Deus é fogo consumidor no sentido em que tomamos a palavra; e assim Ele entra como fogo do fundidor, para refinar a natureza racional, que foi enchida com o chumbo da maldade, e libertá-la dos outros materiais impuros que adulteram, por assim dizer, o ouro ou a prata naturais da alma.

[100] E, de modo semelhante, diz-se que há rios de fogo diante de Deus, o qual limpará completamente o mal que está misturado por toda a alma.

[101] Essas observações bastam em resposta à afirmação de que, assim, fomos levados a expressar a opinião errônea de que Deus descerá trazendo fogo como um carrasco.

[102] Mas vejamos o que Celso, com grande ostentação, anuncia em seguida da seguinte maneira: E, novamente, diz ele, retomemos o assunto desde o princípio, com uma série maior de provas.

[103] E eu não digo nada de novo, mas afirmo aquilo que há muito está estabelecido.

[104] Deus é bom, belo e bem-aventurado, e isso no grau melhor e mais belo.

[105] Mas, se Ele desce entre os homens, precisa sofrer uma mudança: uma mudança do bem para o mal, da virtude para o vício, da felicidade para a miséria, e do melhor para o pior.

[106] Quem, então, escolheria tal mudança?

[107] É da natureza de um mortal, de fato, sofrer mudança e remodelação; mas a do imortal é permanecer o mesmo e inalterado.

[108] Deus, então, não poderia admitir tal mudança.

[109] Ora, parece-me que a resposta adequada a essas objeções já foi dada quando relatei o que na Escritura é chamado de condescendência de Deus aos assuntos humanos; para isso Ele não precisou sofrer uma transformação, como Celso pensa que afirmamos, nem uma mudança do bem para o mal, nem da virtude para o vício, nem da felicidade para a miséria, nem do melhor para o pior.

[110] Pois, permanecendo imutável em Sua essência, Ele condescende aos assuntos humanos pela economia de Sua providência.

[111] Mostramos, portanto, que as Escrituras Sagradas representam Deus como imutável, tanto por palavras como: Tu és o mesmo, e: Eu não mudo; ao passo que os deuses de Epicuro, sendo compostos de átomos e, quanto à sua estrutura, passíveis de dissolução, procuram lançar fora os átomos que contêm os elementos de destruição.

[112] Mais ainda, até mesmo o deus dos estoicos, por ser corpóreo, em certo momento tem toda a sua essência composta do princípio diretor quando ocorre a conflagração do mundo; e em outro, quando se dá uma nova disposição das coisas, torna-se novamente parcialmente material.

[113] Pois nem mesmo os estoicos foram capazes de compreender claramente a ideia natural de Deus como um ser totalmente incorruptível, simples, não composto e indivisível.

[114] E, quanto ao fato de Ele ter descido entre os homens, anteriormente estava na forma de Deus; e, por benevolência, despojou-Se de Sua glória, para tornar-Se capaz de ser recebido pelos homens.

[115] Mas não sofreu, penso eu, nenhuma mudança do bem para o mal, pois não cometeu pecado; nem da virtude para o vício, pois não conheceu pecado.

[116] Nem passou da felicidade para a miséria, mas humilhou-Se, e apesar disso continuou bem-aventurado, mesmo quando Sua humilhação foi assumida em benefício da nossa raça.

[117] Nem houve nEle mudança do melhor para o pior, pois como podem a bondade e a benevolência ser o pior?

[118] Convém dizer do médico, que contempla cenas terríveis e manuseia coisas repulsivas para curar os que sofrem, que ele passa do bem para o mal, ou da virtude para o vício, ou da felicidade para a miséria?

[119] E, no entanto, o médico, ao olhar cenas terríveis e tocar coisas desagradáveis, não escapa totalmente da possibilidade de envolver-se na mesma sorte.

[120] Mas Aquele que cura as feridas de nossas almas, por meio da palavra de Deus que está nEle, é incapaz de admitir qualquer maldade.

[121] E, se o Deus imortal — a Palavra — assumindo um corpo mortal e uma alma humana, parece a Celso sofrer mudança e transformação, aprenda ele que a Palavra, permanecendo essencialmente a Palavra, não sofre nenhuma das coisas que são sofridas pelo corpo ou pela alma; mas, condescendendo ocasionalmente à fraqueza daquele que não consegue contemplar os esplendores e o brilho da Divindade, torna-Se, por assim dizer, carne, falando com voz literal, até que aquele que O recebeu dessa forma seja capaz, por ter sido elevado em algum pequeno grau pelo ensino da Palavra, de contemplar aquilo que é, por assim dizer, Sua aparência real e preeminente.

[122] Pois há, por assim dizer, diferentes aparências da Palavra, conforme Ela Se mostra a cada um dos que vêm à Sua doutrina; e isso de modo correspondente à condição daquele que está apenas começando a tornar-se discípulo, ou daquele que já fez algum pequeno progresso, ou daquele que avançou mais, ou daquele que já quase atingiu a virtude, ou mesmo daquele que já a atingiu.

[123] Por isso, não é o caso, como Celso e os que são como ele gostariam, de que o nosso Deus foi transformado e, subindo o alto monte, mostrou que Sua verdadeira aparência era algo diferente e muito mais excelente do que aquilo que viam os que permaneceram abaixo, incapazes de segui-Lo ao alto.

[124] Pois os que estavam abaixo não possuíam olhos capazes de ver a transformação da Palavra em Sua condição gloriosa e mais divina.

[125] Com dificuldade, porém, conseguiram recebê-Lo tal como era; de modo que pôde ser dito a respeito dEle por aqueles que não conseguiam contemplar Sua natureza mais excelente: Nós O vimos, e Ele não tinha forma nem beleza; antes, Sua aparência era humilde e inferior à dos filhos dos homens.

[126] E que essas observações sirvam de resposta às suposições de Celso, que não compreende as mudanças ou transformações de Jesus, como relatadas nas narrativas, nem Sua natureza mortal e imortal.

[127] Não parecerão essas narrativas, especialmente quando compreendidas em seu sentido próprio, muito mais dignas de respeito do que a história de que Dioniso foi enganado pelos Titãs, expulso do trono de Júpiter, despedaçado por eles e, tendo depois seus restos reunidos outra vez, retornou como que à vida e ascendeu ao céu?

[128] Ou os gregos têm liberdade para referir tais histórias à doutrina da alma e interpretá-las figuradamente, enquanto a nós se fecha a porta de uma explicação coerente, em toda parte concorde e harmoniosa com os escritos do Espírito Divino, que fez morada em almas puras?

[129] Celso, então, é completamente ignorante do propósito dos nossos escritos, e por isso lança descrédito sobre a compreensão dele mesmo a respeito deles, e não sobre o verdadeiro significado deles.

[130] Pois, se tivesse refletido sobre o que convém a uma alma destinada a desfrutar de vida eterna, e sobre a opinião que devemos formar de sua essência e princípios, não teria ridicularizado tanto assim a entrada do imortal em um corpo mortal, o que aconteceu não segundo a metempsicose de Platão, mas de acordo com outra visão, mais elevada.

[131] E teria observado uma única descida, distinta por sua grande benevolência, empreendida para converter, como a Escritura os chama misticamente, as ovelhas perdidas da casa de Israel, que haviam descido errantes das montanhas, e às quais o Pastor, em certas parábolas, é dito ter descido, deixando nas montanhas aquelas que não se haviam perdido.

[132] Mas Celso, demorando-se em questões que não compreende, leva-nos a incorrer em tautologia, pois não queremos deixar sem exame, nem sequer na aparência, qualquer uma de suas objeções.

[133] Ele prossegue, portanto, assim: Deus ou realmente se muda, como estes afirmam, em um corpo mortal — e a impossibilidade disso já foi declarada —, ou então não sofre mudança, mas apenas faz com que os espectadores assim imaginem, enganando-os e tornando-Se culpado de falsidade.

[134] Ora, engano e falsidade nada são senão males, e só seriam usados como remédio, quer no caso de amigos enfermos e loucos, com vistas à sua cura, quer no caso de inimigos, quando se tomam medidas para escapar de perigo.

[135] Mas nenhum homem enfermo ou louco é amigo de Deus, nem Deus teme alguém a ponto de fugir do perigo conduzindo-o ao erro.

[136] A resposta a essas afirmações poderia dizer respeito, em parte, à natureza da Palavra Divina, que é Deus, e em parte à alma de Jesus.

[137] Quanto à natureza da Palavra, do mesmo modo que a qualidade do alimento se transforma no seio da nutriz em leite de acordo com a natureza da criança, ou é disposta pelo médico visando ao bem da saúde de um doente, ou especialmente preparada para um homem mais forte porque possui maior vigor, assim também Deus adapta, no caso de cada indivíduo, o poder da Palavra, ao qual pertence a propriedade natural de nutrir a alma humana.

[138] E a um é dado, como a Escritura o chama, o leite puro da palavra; a outro, que é mais fraco, por assim dizer, ervas; e a outro, já adulto, alimento sólido.

[139] E a Palavra, creio eu, não é infiel à Sua própria natureza ao contribuir com alimento para cada um conforme é capaz de recebê-La.

[140] Tampouco engana nem é falsa.

[141] Mas, se alguém quisesse tomar a mudança como referente à alma de Jesus depois que entrou no corpo, nós perguntaríamos em que sentido se usa o termo mudança.

[142] Pois, se se pretende aplicá-lo à sua essência, tal suposição é inadmissível, não apenas em relação à alma de Jesus, mas também em relação à alma racional de qualquer outro ser.

[143] E, se se alegar que ela sofre algo por causa do corpo com o qual está unida, ou por causa do lugar aonde chegou, então que inconveniente pode suceder à Palavra que, em grande benevolência, trouxe um Salvador à raça humana?

[144] Nenhum dos que antigamente professaram curar conseguiu realizar tanto quanto aquela alma demonstrou poder fazer pelo que realizou, descendo voluntariamente ao nível dos destinos humanos em benefício da nossa raça.

[145] E a Palavra Divina, sabendo bem disso, fala assim em muitos trechos da Escritura; embora, no presente, baste citar um testemunho de Paulo: Haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-Se a Si mesmo, tomando forma de servo, tornando-Se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até a morte, e morte de cruz.

[146] Pelo que também Deus O exaltou soberanamente e Lhe deu o nome que está acima de todo nome.

[147] Outros, então, podem conceder a Celso que Deus não sofre mudança, mas leva os espectadores a imaginar que sofre; ao passo que nós, persuadidos de que a vinda de Jesus entre os homens não foi mera aparência, mas manifestação real, não somos afetados por essa acusação de Celso.

[148] Ainda assim tentaremos uma resposta, porque tu afirmas, Celso, não é? que às vezes é permitido empregar engano e falsidade como remédio.

[149] Onde, então, está o absurdo, se um resultado salvador devesse ser alcançado, em que alguns acontecimentos desse tipo tivessem ocorrido?

[150] Pois certas palavras, quando têm sabor de falsidade, produzem em tais pessoas um efeito corretivo, como declarações semelhantes dos médicos a seus pacientes, mais do que se faladas em espírito de verdade.

[151] Esta, porém, deve ser a nossa defesa contra outros adversários.

[152] Pois não há absurdo em que Aquele que curou amigos enfermos cure a querida raça humana por meios que não empregaria de preferência, mas apenas conforme as circunstâncias.

[153] A raça humana, ademais, quando se encontrava em estado de alienação mental, precisava ser curada por métodos que a Palavra viu que ajudariam a reconduzir os assim aflitos a um estado são de mente.

[154] Mas Celso também diz que se age assim com inimigos ao tomar medidas para escapar de perigo.

[155] Deus, porém, não teme ninguém, de modo que escape de perigo induzindo ao erro aqueles que conspiram contra Ele.

[156] Ora, é inteiramente desnecessário e absurdo responder a uma acusação que ninguém apresenta contra o nosso Salvador.

[157] E já respondemos, ao tratar de outras acusações, à afirmação de que ninguém que esteja em estado de doença ou alienação mental é amigo de Deus.

[158] Pois a resposta é que tais disposições foram feitas não por causa daqueles que, sendo já amigos, depois adoeceram ou enlouqueceram, mas a fim de que aqueles que ainda eram inimigos por enfermidade da alma e alienação da razão natural pudessem tornar-se amigos de Deus.

[159] Pois está claramente declarado que Jesus suportou todas as coisas em favor dos pecadores, para libertá-los do pecado e convertê-los à justiça.

[160] Além disso, como ele representa os judeus explicando à sua maneira peculiar por que creem que a vinda de Cristo entre eles ainda está no futuro, e os cristãos sustentando, do seu modo, que a vinda do Filho de Deus à vida dos homens já aconteceu, consideremos brevemente, na medida do possível, esses pontos.

[161] Segundo Celso, os judeus dizem que a vida humana, estando cheia de toda maldade, precisava de alguém enviado por Deus, para que os maus fossem punidos e todas as coisas purificadas de modo análogo ao primeiro dilúvio que ocorreu.

[162] E, como se diz que os cristãos acrescentam afirmações a isso, é evidente que ele alega que também admitem essas coisas.

[163] Ora, onde está o absurdo na vinda de alguém que, por causa da inundação prevalecente de maldade, vem purificar o mundo e tratar cada um segundo os seus merecimentos?

[164] Pois não convém ao caráter de Deus que a difusão da maldade não cesse e que todas as coisas não sejam renovadas.

[165] Os gregos, ademais, sabem da purificação da terra, em certos tempos, por um dilúvio ou por um fogo, como também Platão diz em algum lugar: E quando os deuses submergem a terra, purificando-a com água, alguns deles sobre as montanhas etc.

[166] Deve-se dizer, então, que, se os gregos fazem tais afirmações, devem ser considerados dignos de respeito e consideração, mas, se nós também sustentamos certas dessas opiniões, aprovadas pelos próprios gregos, elas deixam de ser honrosas?

[167] E, no entanto, aqueles que se importam em atender à conexão e à verdade de todos os nossos registros procurarão estabelecer não apenas a antiguidade dos escritores, mas também a venerável natureza de seus escritos e a consistência de suas várias partes.

[168] Mas eu não compreendo como ele pode imaginar que a derrubada da torre, isto é, a de Babel, tenha ocorrido com finalidade semelhante à do dilúvio, que efetuou uma purificação da terra, segundo os relatos tanto dos judeus quanto dos cristãos.

[169] Pois, para que a narrativa contida em Gênesis a respeito da torre seja considerada como não trazendo nenhum sentido oculto, mas, como Celso supõe, devendo ser tomada ao pé da letra, então, sob esse ponto de vista, o acontecimento não parece ter ocorrido para a purificação da terra, a não ser, é claro, que ele imagine que a chamada confusão das línguas seja um processo purificador dessa natureza.

[170] Mas, quanto a esse ponto, quem tiver oportunidade tratará dele de modo mais apropriado, quando seu objetivo for mostrar não somente qual é o sentido da narrativa em sua conexão histórica, mas também qual sentido metafórico pode ser deduzido dela.

[171] Contudo, visto que ele imagina que Moisés, que escreveu o relato da torre e da confusão das línguas, perverteu a história dos filhos de Aloeu e a aplicou à torre, devemos observar que não creio que alguém anterior ao tempo de Homero tenha mencionado os filhos de Aloeu, ao passo que estou persuadido de que o que se relata sobre a torre foi registrado por Moisés como sendo muito mais antigo não apenas que Homero, mas até mesmo que a invenção das letras entre os gregos.

[172] Quem são, então, os que pervertem as narrativas uns dos outros?

[173] São aqueles que contam a história dos Aloídas que pervertem a antiga história, ou é aquele que escreveu o relato da torre e da confusão das línguas que perverteu a história dos Aloídas?

[174] Ora, para ouvintes imparciais, Moisés parece ser mais antigo que Homero.

[175] Além disso, a destruição pelo fogo de Sodoma e Gomorra por causa de seus pecados, relatada por Moisés em Gênesis, é comparada por Celso à história de Faetonte, e todas essas suas afirmações procedem de um só erro: não atentar para a maior antiguidade de Moisés.

[176] Pois aqueles que contam a história de Faetonte parecem ser ainda mais recentes que Homero, e Homero, por sua vez, é muito mais recente que Moisés.

[177] Não negamos, então, que o fogo purificador e a destruição do mundo tenham ocorrido para que o mal fosse removido e todas as coisas fossem renovadas, pois afirmamos que aprendemos isso nos livros sagrados dos profetas.

[178] Mas, uma vez que, como dissemos nas páginas anteriores, os profetas, ao proferirem muitas predições acerca de eventos futuros, demonstram ter falado a verdade sobre muitas coisas passadas, e assim dão prova da habitação do Espírito divino, é manifesto que, quanto às coisas ainda futuras, devemos depositar fé neles, ou melhor, no Espírito divino que neles habita.

[179] Mas, segundo Celso, os cristãos, acrescentando certas afirmações às dos judeus, sustentam que o Filho de Deus já foi enviado por causa dos pecados dos judeus, e que os judeus, tendo castigado Jesus e dado a Ele fel para beber, atraíram sobre si a ira divina.

[180] E qualquer pessoa que queira pode convencer essa afirmação de falsidade, caso não seja verdade que toda a nação judaica foi derrubada dentro de uma única geração, depois de Jesus haver sofrido essas coisas às mãos deles.

[181] Pois, creio eu, quarenta e dois anos após a crucificação de Jesus ocorreu a destruição de Jerusalém.

[182] Ora, desde que a nação judaica começou a existir, nunca se registrou que ela tenha sido expulsa por tão longo período de seu venerável culto e serviço no templo, e escravizada por nações mais poderosas; pois, se em algum tempo pareceu abandonada por causa de seus pecados, ainda assim foi visitada por Deus, voltou à sua terra, recuperou seus bens e realizou sem impedimento as observâncias de sua lei.

[183] Um fato, então, que prova que Jesus era algo divino e sagrado é este: que os judeus tenham sofrido por causa dEle, por tão longo tempo, calamidades de tamanha severidade.

[184] E dizemos com confiança que eles nunca serão restaurados à sua condição anterior.

[185] Pois cometeram um crime extremamente profano, ao conspirarem contra o Salvador da raça humana naquela cidade em que ofereciam a Deus um culto contendo os símbolos de grandes mistérios.

[186] Assim, convinha que a cidade onde Jesus padeceu essas coisas perecesse por completo, que a nação judaica fosse derrubada, e que o convite à bem-aventurança que lhes fora oferecido por Deus passasse a outros, refiro-me aos cristãos, aos quais veio a doutrina de um culto puro e santo, e que receberam novas leis, em harmonia com a ordem estabelecida em todos os países, visto que aquelas que antes haviam sido impostas, como a uma única nação governada por príncipes de sua própria raça e de costumes semelhantes, já não podiam agora ser observadas em toda a sua integridade.

[187] Em seguida, zombando, como de costume, da raça dos judeus e dos cristãos, ele compara todos eles a um bando de morcegos, ou a um enxame de formigas saindo do formigueiro, ou a rãs reunidas em conselho num pântano, ou a vermes rastejando juntos no canto de um monturo, brigando entre si sobre quais deles seriam os maiores pecadores, e afirmando que Deus nos mostra e nos anuncia tudo de antemão; e que, abandonando o mundo inteiro, as regiões do céu e esta grande terra, Ele se torna cidadão entre nós somente, e somente a nós faz Suas comunicações, e não cessa de enviar mensagens e indagar de que modo poderemos estar associados a Ele para sempre.

[188] E, em sua representação fictícia, ele nos compara a vermes que afirmam que existe um Deus, e que, logo depois dEle, nós, que fomos feitos por Ele, somos totalmente semelhantes a Deus, e que todas as coisas nos foram sujeitas, terra, água, ar e estrelas, e que tudo existe por nossa causa e foi ordenado para estar sujeito a nós.

[189] E, segundo sua representação, os vermes, isto é, nós mesmos, dizem que agora, visto que alguns entre nós cometem pecado, Deus virá ou enviará Seu Filho para consumir os ímpios com fogo, para que o restante de nós tenha com Ele a vida eterna.

[190] E a tudo isso ele acrescenta a observação de que tais contendas seriam mais toleráveis entre vermes e rãs do que entre judeus e cristãos.

[191] Em resposta a essas coisas, perguntamos aos que aceitam tais insultos espalhados contra nós: considerais todos os homens um ajuntamento de morcegos, ou de rãs, ou de vermes, por causa da preeminência de Deus, ou não incluís o restante da humanidade nessa comparação proposta, mas, por causa da posse da razão e das leis estabelecidas, os tratais como homens, enquanto desprezais cristãos e judeus, porque suas opiniões vos são desagradáveis, e os comparais aos animais acima mencionados?

[192] E qualquer que seja a resposta que derdes à nossa pergunta, replicaremos procurando mostrar que tais afirmações são totalmente indecorosas, quer sejam ditas de todos os homens em geral, quer de nós em particular.

[193] Pois, suponhamos que digais com justiça que todos os homens, comparados com Deus, são corretamente comparados a esses animais desprezíveis, já que sua pequenez de modo algum pode ser comparada com a superioridade de Deus; que quereis dizer, então, com pequenez?

[194] Respondei-me, senhores.

[195] Se vos referis à pequenez do corpo, sabei que superioridade e inferioridade, se a verdade deve julgar, não são determinadas por um padrão corporal.

[196] Pois, nesse caso, os abutres e os elefantes seriam superiores a nós, homens, já que são maiores, mais fortes e vivem mais do que nós.

[197] Mas nenhuma pessoa sensata sustentaria que criaturas irracionais são superiores aos seres racionais apenas por causa de seus corpos, pois a posse da razão eleva um ser racional a uma vasta superioridade sobre todas as criaturas irracionais.

[198] Até mesmo a raça dos seres virtuosos e bem-aventurados admitiria isso, sejam eles, como dizeis, bons demônios, sejam, como estamos acostumados a chamá-los, os anjos de Deus, ou quaisquer outras naturezas superiores à do homem, uma vez que a faculdade racional neles foi aperfeiçoada e adornada com todas as qualidades virtuosas.

[199] Mas, se deprecias a pequenez do homem não por causa de seu corpo, e sim de sua alma, considerando-a inferior à de outros seres racionais, e sobretudo à daqueles que são virtuosos, e inferior porque o mal habita nela, por que razão os que entre os cristãos são maus, e os que entre os judeus levam vida pecaminosa, deveriam ser chamados de um ajuntamento de morcegos, ou de formigas, ou de vermes, ou de rãs, em vez daqueles indivíduos dentre as outras nações que são culpados de maldade?

[200] Pois, sob esse aspecto, qualquer indivíduo, especialmente se arrastado pela torrente do mal, é, em comparação com o restante da humanidade, um morcego, um verme, uma rã e uma formiga.

[201] E, embora um homem possa ser orador como Demóstenes, se estiver manchado de maldade como ele e for culpado de atos que procedem, como os dele, de uma natureza perversa; ou se for um Antifonte, também considerado de fato um orador, mas que destruiu a doutrina da providência em seus escritos intitulados Sobre a Verdade, como faz também o discurso de Celso, tais indivíduos não deixam de ser vermes, revolvendo-se num canto do monturo da estupidez e da ignorância.

[202] De fato, qualquer que seja a natureza da faculdade racional, ela não poderia razoavelmente ser comparada a um verme, porque possui capacidade para a virtude.

[203] Pois esses esboços e prenúncios da virtude não permitem que aqueles que possuem o poder de adquiri-la, e que são incapazes de perder totalmente suas sementes, sejam comparados a um verme.

[204] Parece, portanto, que nem os homens em geral podem ser considerados vermes em comparação com Deus.

[205] Pois a razão, tendo seu princípio na razão de Deus, não permite que o animal racional seja considerado totalmente alheio à Divindade.

[206] Nem aqueles entre os cristãos e os judeus que são maus, e que, na verdade, não são nem cristãos nem judeus, podem ser comparados, mais do que outros homens maus, a vermes revolvendo-se no canto de um monturo.

[207] E, se a natureza da razão não permite tais comparações, é manifesto que não devemos caluniar a natureza humana, que foi formada para a virtude, mesmo que ela venha a pecar por ignorância, nem compará-la a animais do tipo descrito.

[208] Mas, se é por causa daquelas opiniões dos cristãos e dos judeus que desagradam a Celso, e que ele de modo algum parece compreender, que eles devem ser considerados vermes e formigas, enquanto o restante da humanidade é tido como diferente, examinemos as opiniões reconhecidas de cristãos e judeus e comparemo-las com as do restante da humanidade, para ver se não parecerá àqueles que uma vez admitiram que certos homens são vermes e formigas que, na verdade, vermes, formigas e rãs são os que se afastaram de concepções sadias de Deus e, sob uma aparência vã de piedade, adoram animais irracionais, ou imagens, ou outros objetos, obras das mãos dos homens; ao passo que, a partir da beleza dessas coisas, deveriam admirar o seu Criador e adorá-Lo.

[209] Enquanto isso, são de fato homens, e mais honráveis do que homens, se é que existe algo assim, aqueles que, em obediência à razão, são capazes de elevar-se acima de troncos e pedras, e até daquilo que se considera a mais preciosa de todas as matérias, prata e ouro; e que também se elevam das coisas belas do mundo ao Criador de todas, confiando-se Àquele que sozinho é capaz de satisfazer todas as coisas existentes, de perscrutar os pensamentos de todos e de ouvir as orações de todos.

[210] Eles elevam suas orações a Ele e fazem tudo como na presença dAquele que tudo vê, e têm o cuidado, como na presença do Ouvinte de todas as coisas, de nada dizer que não pudesse, com propriedade, ser levado a Deus.

[211] Acaso uma piedade como essa, que não pode ser vencida nem por trabalhos, nem pelos perigos da morte, nem por plausibilidades lógicas, de nada servirá para impedir que aqueles que a obtiveram continuem sendo comparados a vermes, ainda que o tivessem sido antes de assumir uma piedade tão notável?

[212] Aqueles que dominam aquele feroz desejo pelos prazeres sexuais, que reduziu a alma de muitos a uma condição fraca e debilitada, e o dominam porque estão persuadidos de que não podem ter comunhão com Deus de outro modo, a não ser subindo até Ele por meio da temperança, vos parecerão irmãos de vermes, parentes das formigas e semelhantes às rãs?

[213] Que dizer, então?

[214] A brilhante qualidade da justiça, que preserva invioláveis os direitos comuns de nosso próximo e de nossos parentes, e que observa a equidade, a benevolência e a bondade, de nada vale para salvar daquele que a pratica o ser chamado ave noturna?

[215] E não são vermes que se revolvem na lama aqueles que se afundam na dissolução, como faz a maioria dos homens, e aqueles que se associam promiscuamente com prostitutas comuns, e ensinam que tais práticas não são totalmente contrárias ao decoro?

[216] Sobretudo quando são comparados com aqueles que foram ensinados a não tomar os membros de Cristo e o corpo habitado pelo Verbo para fazê-los membros de uma prostituta, e que já aprenderam que o corpo do ser racional, consagrado ao Deus de todas as coisas, é o templo do Deus que adoram, tornando-se tal pelas concepções puras que têm do Criador, e que também, cuidando para não corromper o templo de Deus por prazer ilícito, praticam a temperança como forma de piedade para com Deus.

[217] E ainda não falei dos outros males que prevalecem entre os homens, dos quais nem mesmo os que têm aparência de filósofos se libertam prontamente, pois, na filosofia, há muitos impostores.

[218] Tampouco digo algo sobre o fato de que muitos desses males se encontram entre aqueles que não são nem judeus nem cristãos.

[219] Na verdade, tais práticas más não prevalecem de modo algum entre os cristãos, se examinardes corretamente o que constitui um cristão.

[220] Ou, se pessoas desse tipo vierem a ser descobertas, ao menos elas não são encontradas entre aquelas que frequentam as assembleias e comparecem às orações públicas sem serem excluídas delas, a não ser que aconteça, e isso raramente, de algum indivíduo com tal caráter escapar despercebido no meio da multidão.

[221] Nós, então, não somos vermes que se reúnem; nós que nos colocamos contra os judeus com base naquelas escrituras que eles creem serem divinas, e mostramos que Aquele de quem se falou na profecia já veio, e que eles foram abandonados por causa da grandeza de seus pecados, e que nós, que aceitamos o Verbo, temos as mais elevadas esperanças em Deus, tanto por causa de nossa fé nEle como por Sua capacidade de nos receber em Sua comunhão puros de todo mal e de toda perversidade de vida.

[222] Se, então, um homem se chamasse judeu ou cristão, não diria sem qualificação que Deus fez o mundo inteiro e a abóbada do céu particularmente para nós.

[223] Mas, se um homem é, como Jesus ensinou, puro de coração, manso e pacífico, e se submete alegremente aos perigos por causa de sua religião, tal pessoa pode razoavelmente ter confiança em Deus e, com plena compreensão da palavra contida nas profecias, pode também dizer isto: todas estas coisas Deus as mostrou de antemão e as anunciou a nós que cremos.

[224] Mas, visto que ele representou aqueles que considera vermes, isto é, os cristãos, como dizendo que Deus, tendo abandonado as regiões celestes e desprezado esta grande terra, fixa Sua morada entre nós somente, e somente a nós faz Seus anúncios, e não cessa de enviar mensagens e de indagar como poderemos ser Seus associados para sempre, temos de responder que ele nos atribui palavras que jamais pronunciamos, uma vez que tanto lemos como sabemos que Deus ama todas as coisas que existem e não odeia nada do que fez, porque nada teria criado por ódio.

[225] Além disso, lemos a declaração: E Tu poupas todas as coisas, porque são Tuas, ó amante das almas.

[226] Pois o Teu Espírito incorruptível está em todas as coisas.

[227] E, por isso, também àqueles que se desviaram por breve tempo Tu repreendes e admoestas, lembrando-lhes os seus pecados.

[228] Como poderíamos afirmar que Deus, deixando as regiões do céu, o mundo inteiro e desprezando esta grande terra, estabelece Sua morada somente entre nós, quando encontramos que todos os homens ponderados devem dizer em suas orações que a terra está cheia da misericórdia do Senhor, e que a misericórdia do Senhor está sobre toda carne, e que Deus, sendo bom, faz nascer o Seu sol sobre maus e bons, e envia a Sua chuva sobre justos e injustos, e que Ele nos incentiva a proceder de modo semelhante para que nos tornemos Seus filhos, ensinando-nos a estender, quanto estiver ao nosso alcance, os benefícios de que desfrutamos a todos os homens?

[229] Pois Ele mesmo é dito ser o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem; e o Seu Cristo, a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro.

[230] E esta, então, é a nossa resposta às acusações de Celso.

[231] Certas outras afirmações, compatíveis com o caráter dos judeus, poderiam talvez ser feitas por alguns daquela nação, mas certamente não pelos cristãos, que foram ensinados que Deus demonstra o Seu amor para conosco pelo fato de que, sendo nós ainda pecadores, Cristo morreu por nós; e que, embora dificilmente alguém morra por um justo, talvez por um bom alguém até ouse morrer.

[232] Mas agora se declara que Jesus veio por causa dos pecadores em todas as partes do mundo, para que abandonem o pecado e se entreguem a Deus, sendo também chamado, conforme um antigo costume dessas escrituras, o Cristo de Deus.

[233] Mas Celso talvez tenha entendido mal alguns daqueles a quem chamou de vermes, quando afirmam que Deus existe e que nós estamos logo abaixo dEle.

[234] E ele age como quem quisesse censurar toda uma escola de filósofos por causa de certas palavras ditas por algum jovem precipitado que, após frequentar por três dias as lições de um filósofo, se exaltasse acima dos demais como se todos lhe fossem inferiores e destituídos de filosofia.

[235] Pois nós sabemos que há muitas criaturas mais honrosas do que o homem; e lemos que Deus está na congregação dos deuses, mas de deuses que não são adorados pelas nações, pois todos os deuses das nações são ídolos.

[236] Lemos também que Deus, estando na congregação dos deuses, julga no meio dos deuses.

[237] Sabemos, ademais, que, embora existam os que são chamados deuses, quer no céu quer na terra, como há muitos deuses e muitos senhores, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e nós nEle; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas, e nós por meio dEle.

[238] E sabemos que, desse modo, os anjos são superiores aos homens, de sorte que os homens, quando aperfeiçoados, tornam-se semelhantes aos anjos.

[239] Pois, na ressurreição, eles não se casam nem se dão em casamento, mas os justos são como os anjos no céu e tornam-se também iguais aos anjos.

[240] Sabemos, além disso, que na ordem do universo existem certos seres chamados tronos, outros dominações, outros poderes e outros principados; e vemos que nós, homens, muito inferiores a eles, podemos alimentar a esperança de que, por uma vida virtuosa e por agir em tudo de acordo com a razão, possamos subir até uma semelhança com todos esses.

[241] E, por fim, porque ainda não se manifestou o que haveremos de ser, mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele e O veremos como Ele é.

[242] E, se alguém sustentasse o que é afirmado por alguns, quer pelos que possuem inteligência, quer pelos que não a possuem, mas compreenderam mal a reta razão, isto é, que Deus existe e que nós estamos logo abaixo dEle, eu interpretaria a palavra nós substituindo-a por: nós que agimos segundo a razão, ou melhor, nós virtuosos, que agimos segundo a razão.

[243] Pois, em nossa opinião, a mesma virtude pertence a todos os bem-aventurados, de modo que a virtude do homem e a de Deus são idênticas.

[244] E, por isso, somos ensinados a tornar-nos perfeitos como perfeito é o nosso Pai celestial.

[245] Nenhum homem bom e virtuoso, portanto, é um verme revolvendo-se na imundície, nem um homem piedoso é uma formiga, nem um justo é uma rã; tampouco alguém cuja alma foi iluminada pela brilhante luz da verdade poderia ser razoavelmente comparado a uma ave noturna.

[246] Parece-me também que Celso compreendeu mal esta declaração: Façamos o homem à Nossa imagem e semelhança, e por isso representou os vermes como dizendo que, por terem sido criados por Deus, somos totalmente semelhantes a Ele.

[247] Se, porém, ele tivesse conhecido a diferença entre o homem ser criado à imagem de Deus e segundo a Sua semelhança, e que Deus está registrado como tendo dito: Façamos o homem segundo a Nossa imagem e semelhança, mas que fez o homem segundo a imagem de Deus, sem então também fazê-lo segundo a Sua semelhança, não teria nos representado como dizendo que somos totalmente semelhantes a Ele.

[248] Além disso, não afirmamos que as estrelas nos estejam sujeitas, pois a ressurreição que é chamada ressurreição dos justos, e que é compreendida pelos sábios, é comparada ao sol, à lua e às estrelas, por aquele que disse: Uma é a glória do sol, outra a glória da lua e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere de outra estrela em glória; assim também é a ressurreição dos mortos.

[249] Daniel também profetizou há muito tempo acerca dessas coisas.

[250] Celso diz ainda que afirmamos que todas as coisas foram arranjadas para nos serem sujeitas, tendo talvez ouvido alguns dos mais inteligentes entre nós falarem desse modo, e talvez também não compreendendo a palavra de que o maior entre nós é servo de todos.

[251] E, se os gregos dizem: então o sol e a lua são servos de homens mortais, eles aprovam tal afirmação e lhe dão uma explicação de seu sentido; mas, visto que semelhante afirmação ou não é feita de modo algum por nós, ou é expressa de outra maneira, Celso também aqui nos acusa falsamente.

[252] Além disso, nós, que segundo Celso somos vermes, somos por ele representados como dizendo que, visto que alguns entre nós são culpados de pecado, Deus virá a nós, ou enviará Seu próprio Filho, para que consuma os ímpios, e para que nós outros, rãs, desfrutemos com Ele a vida eterna.

[253] Observa como esse venerável filósofo, como um bufão vulgar, transforma em ridículo, zombaria e motivo de riso o anúncio de um juízo divino, da punição dos ímpios e da recompensa dos justos, e acrescenta a tudo isso a observação de que tais declarações seriam mais toleráveis se fossem feitas por vermes e rãs do que por cristãos e judeus que disputam entre si.

[254] Nós, porém, não imitaremos seu exemplo, nem diremos coisas semelhantes a respeito daqueles filósofos que professam conhecer a natureza de todas as coisas e que discutem entre si de que modo todas as coisas foram criadas, como surgiram o céu e a terra e tudo quanto neles há, e como as almas dos homens, sendo ou não geradas e não criadas por Deus, ainda assim são por Ele governadas e passam de um corpo para outro, ou então, tendo sido formadas ao mesmo tempo que o corpo, existem para sempre ou desaparecem.

[255] Pois, em vez de tratar com respeito e acolher a intenção daqueles que se dedicaram à investigação da verdade, alguém poderia, zombando e insultando, dizer que tais homens eram vermes que não se mediam pelo seu canto de monturo nesta vida humana, e que por isso emitiam opiniões sobre assuntos de tamanha importância como se os compreendessem, e afirmavam energicamente ter alcançado a visão de coisas que não podem ser vistas sem uma inspiração mais elevada e um poder mais divino.

[256] Pois ninguém conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está; assim também ninguém conhece as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.

[257] Nós, contudo, não somos loucos, nem comparamos tal sabedoria humana, uso a palavra sabedoria no sentido comum, a qual não se ocupa dos negócios da multidão, mas da investigação da verdade, com as contorções de vermes ou de quaisquer criaturas semelhantes; antes, no espírito da verdade, damos testemunho acerca de certos filósofos gregos de que conheceram a Deus, visto que Ele Se lhes manifestou, embora não O tenham glorificado como Deus, nem Lhe tenham dado graças, mas se tenham tornado vãos em seus raciocínios; e, professando-se sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em imagem semelhante ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis.

[258] Depois disso, querendo provar que não há diferença alguma entre judeus, cristãos e aqueles animais anteriormente enumerados por ele, Celso afirma que os judeus eram fugitivos do Egito, que jamais realizaram coisa alguma digna de nota e nunca gozaram de qualquer reputação ou estima.

[259] Quanto ao fato de não serem fugitivos nem egípcios, mas hebreus que se estabeleceram no Egito, já falamos nas páginas anteriores.

[260] Mas, se pensa provar sua afirmação de que nunca gozaram de reputação ou consideração porque nenhum feito notável de sua história foi registrado pelos gregos, responderemos que, se alguém examinar seu regime político desde o princípio e a disposição de suas leis, encontrará homens que representavam sobre a terra a sombra de uma vida celeste, entre os quais Deus não era reconhecido senão como Aquele que está sobre todas as coisas, e entre os quais nenhum fabricante de imagens podia gozar dos direitos de cidadania.

[261] Pois em seu estado não havia nem pintor nem fazedor de imagens, sendo todos esses expulsos pela lei, para que não houvesse nenhum pretexto para a confecção de imagens, arte que atrai a atenção dos tolos e arrasta os olhos da alma de Deus para a terra.

[262] Havia, portanto, entre eles uma lei do seguinte teor: Não transgridais a lei, fazendo para vós imagem esculpida alguma, semelhança de macho ou de fêmea, nem semelhança de qualquer criatura que esteja sobre a terra, nem de qualquer ave alada que voe debaixo do céu, nem de qualquer réptil que se arraste sobre a terra, nem de qualquer peixe que esteja nas águas debaixo da terra.

[263] A lei, de fato, queria que eles atentassem para a verdade de cada coisa em particular, e não que formassem representações contrárias à realidade, fingindo apenas a aparência do que era verdadeiramente macho ou verdadeiramente fêmea, ou a natureza dos animais, das aves, dos répteis ou dos peixes.

[264] Venerável também e grandiosa era esta sua proibição: Não levantes os teus olhos ao céu, para que, vendo o sol, a lua, as estrelas e todo o exército do céu, não sejas levado a adorá-los e servi-los.

[265] E que disciplina era essa sob a qual toda a nação foi colocada, tornando impossível que qualquer efeminado aparecesse em público; e digna de admiração também era a ordem pela qual as meretrizes, esses incentivos às paixões dos jovens, eram removidas do estado.

[266] Seus tribunais também eram compostos por homens da mais rigorosa integridade, que, depois de por longo tempo haverem dado exemplo de vida irrepreensível, recebiam o encargo de presidir os julgamentos e que, por causa da pureza sobre-humana de seu caráter, eram chamados de deuses, conforme um antigo modo judaico de falar.

[267] Eis aí o espetáculo de uma nação inteira dedicada à filosofia; e, para que houvesse tempo para ouvir suas leis sagradas, foram instituídos os dias chamados sábado e as outras festas que existiam entre eles.

[268] E por que haveria eu de falar das ordens de seus sacerdotes e de seus sacrifícios, os quais contêm inumeráveis indicações de verdades mais profundas para aqueles que desejam investigar o significado das coisas?

[269] Mas, como nada do que pertence à natureza humana é permanente, esse regime também teve necessariamente de corromper-se e mudar gradualmente.

[270] E a Providência, tendo remodelado seu venerável sistema onde precisava ser mudado, para adaptá-lo a homens de todos os países, deu aos crentes de todas as nações, no lugar dos judeus, a venerável religião de Jesus, que, adornado não só de entendimento, mas também de participação na divindade, e havendo derrubado a doutrina acerca dos demônios terrenos, que se deleitam com incenso, sangue e vapores de odores sacrificiais, e que, como os fabulosos Titãs ou Gigantes, arrastam os homens para longe dos pensamentos de Deus, e havendo Ele próprio desprezado suas tramas, dirigidas principalmente contra os melhores homens, estabeleceu leis que asseguram felicidade aos que vivem segundo elas e que não bajulam os demônios por meio de sacrifícios, mas os desprezam por completo, com o auxílio da palavra de Deus, que socorre os que levantam os olhos para Ele.

[271] E, sendo vontade de Deus que a doutrina de Jesus prevalecesse entre os homens, os demônios nada puderam fazer, embora se esforçassem ao máximo para destruir os cristãos; pois incitaram contra a palavra e contra os que nela criam tanto príncipes como senados e governantes em toda parte, e até mesmo as próprias nações, que não percebiam o procedimento irracional e perverso dos demônios; e, não obstante, a palavra de Deus, que é mais poderosa que todas as outras coisas, mesmo encontrando oposição, tirando dessa oposição, por assim dizer, meio de crescimento, avançou e conquistou muitas almas, pois assim era a vontade de Deus.

[272] E oferecemos essas observações como uma digressão necessária.

[273] Pois queríamos responder à afirmação de Celso a respeito dos judeus, de que eram fugitivos do Egito e de que esses homens, amados por Deus, jamais realizaram algo digno de nota.

[274] E mais, em resposta à afirmação de que nunca gozaram de reputação ou consideração alguma, dizemos que, vivendo separados como nação escolhida e sacerdócio real, e evitando o convívio com as muitas nações ao redor, para que seus costumes escapassem à corrupção, desfrutaram da proteção do poder divino, não cobiçando, como a maior parte da humanidade, a aquisição de outros reinos, nem sendo abandonados de modo que, por sua pequenez, se tornassem presa fácil para os ataques de outros e assim fossem totalmente destruídos; e isso durou enquanto foram dignos da proteção divina.

[275] Mas, quando se tornou necessário que, como nação inteiramente entregue ao pecado, fossem reconduzidos por seus sofrimentos ao seu Deus, foram abandonados por Ele, ora por mais tempo, ora por menos tempo, até que, no tempo dos romanos, tendo cometido o maior dos pecados ao levar Jesus à morte, ficaram completamente desamparados.

[276] Logo em seguida, Celso, atacando o conteúdo do primeiro livro de Moisés, chamado Gênesis, afirma que os judeus procuraram derivar sua origem da primeira raça de impostores e enganadores, apelando para o testemunho de palavras obscuras e ambíguas, cujo sentido estava velado em escuridão e que eles interpretavam de modo errado para os incultos e ignorantes, e isso quando tal ponto jamais havia sido posto em questão durante todo o longo período anterior.

[277] Ora, Celso me parece ter expressado aqui, de maneira muito obscura, o sentido que pretendia transmitir.

[278] É provável, com efeito, que sua obscuridade nesse ponto seja intencional, uma vez que ele via a força do argumento que estabelece a descendência dos judeus a partir de seus antepassados; mas, por outro lado, não queria parecer ignorante de que a questão acerca dos judeus e de sua origem não era algo que pudesse ser resolvido levianamente.

[279] É certo, porém, que os judeus traçam sua genealogia até os três pais: Abraão, Isaque e Jacó.

[280] E os nomes desses homens possuem tal eficácia, quando unidos ao nome de Deus, que não só os membros da nação usam, em suas orações a Deus e em exorcismos contra demônios, as palavras Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó, mas quase todos os que se ocupam de encantamentos e ritos mágicos também o fazem.

[281] Pois se encontra em tratados de magia de muitos países tal invocação de Deus e tal uso do nome divino, como a mostrar que esses homens estavam familiarizados com ele em seus contatos com demônios.

[282] Esses fatos, portanto, aduzidos por judeus e cristãos para provar o caráter sagrado de Abraão, Isaque e Jacó, pais da raça judaica, parecem-me não ter sido totalmente desconhecidos de Celso, mas não foram por ele expostos com clareza, porque era incapaz de responder ao argumento que deles poderia ser tirado.

[283] Pois perguntamos a todos os que empregam tais invocações de Deus: Dizei-nos, amigos, quem foi Abraão, que tipo de homem foi Isaque e que poder possuía Jacó, para que a designação Deus, unida ao nome deles, pudesse operar tais maravilhas?

[284] E de quem aprendestes, ou podeis aprender, os fatos relativos a esses homens?

[285] E quem se ocupou de escrever uma história a respeito deles, quer exaltando-os diretamente ao lhes atribuir poderes misteriosos, quer insinuando obscuramente que possuíam certas qualidades grandes e admiráveis, patentes aos que são capazes de percebê-las?

[286] E, quando, em resposta à nossa pergunta, ninguém puder mostrar de que história, grega ou bárbara, ou, se não de uma história, ao menos de que narrativa mística se derivam os relatos sobre esses homens, então apresentaremos o livro chamado Gênesis, que contém os atos desses homens e os oráculos divinos dirigidos a eles, e diremos: o uso que fazeis dos nomes desses três ancestrais da raça, demonstrando da maneira mais clara que efeitos não desprezíveis são produzidos pela invocação deles, não evidencia a divindade desses homens?

[287] E, no entanto, nós não os conhecemos por nenhuma outra fonte senão pelos livros sagrados dos judeus.

[288] Além disso, as expressões Deus de Israel, Deus dos hebreus e Deus que afogou no Mar Vermelho o rei do Egito e os egípcios são fórmulas frequentemente empregadas contra demônios e certas potências malignas.

[289] E aprendemos a história desses nomes e sua interpretação com os próprios hebreus, que, em sua literatura nacional e em sua língua nacional, falam dessas coisas com orgulho e explicam o seu sentido.

[290] Como, então, poderiam os judeus tentar derivar sua origem da primeira raça daqueles que Celso supunha serem impostores e enganadores, e procurar descaradamente reconduzir a eles a si mesmos e o seu princípio, se os nomes desses homens, sendo hebraicos, são para os hebreus, cujos livros sagrados estão escritos em língua e letras hebraicas, uma prova de que sua nação é aparentada a esses homens?

[291] Pois, até o presente, os nomes judaicos pertencentes à língua hebraica foram tomados ou de seus escritos, ou, em geral, de palavras cujo sentido era conhecido por meio da língua hebraica.

[292] E observe quem lê o tratado de Celso se ele não deixa entrever algo como o que acabamos de dizer, quando afirma: E eles tentaram derivar sua origem da primeira raça de impostores e enganadores, apelando para o testemunho de palavras obscuras e ambíguas, cujo sentido estava velado em obscuridade.

[293] Pois esses nomes são de fato obscuros e não estão ao alcance do entendimento e do conhecimento de muitos, embora, a nosso ver, não tenham sentido duvidoso, mesmo quando assumidos por pessoas alheias à nossa religião; mas, se segundo Celso eles não trazem ambiguidade alguma, não sei por que os rejeitou.

[294] E, no entanto, se ele quisesse honestamente derrubar a genealogia que julgava os judeus terem arrogado de modo tão descarado, ao se gloriarem de Abraão e de seus descendentes como seus progenitores, deveria ter citado todas as passagens relativas ao assunto e, em primeiro lugar, sustentado sua causa com argumentos que lhe parecessem convincentes, e em seguida refutado valentemente, pelo que lhe parecesse o verdadeiro sentido e por argumentos em seu favor, os erros existentes sobre esse ponto.

[295] Mas nem Celso nem qualquer outro será capaz, por suas discussões sobre a natureza dos nomes empregados para fins miraculosos, de estabelecer a doutrina correta acerca deles e de demonstrar que deviam ser tidos em pouca conta aqueles homens cujos nomes, não somente entre os seus compatriotas, mas também entre estrangeiros, podiam produzir tais efeitos.

[296] Ele também deveria ter mostrado de que modo nós, ao interpretarmos mal as passagens em que esses nomes aparecem, enganamos nossos ouvintes, como ele imagina, enquanto ele próprio, que se gloria de não ser ignorante nem insensato, lhes dá a verdadeira interpretação.

[297] E ele arriscou ainda a afirmação, falando desses nomes dos quais os judeus deduzem suas genealogias, de que durante todo o longo período anterior jamais houve qualquer disputa acerca deles, mas que agora os judeus disputam sobre eles com certos outros, a quem ele não menciona.

[298] Ora, mostre quem quiser quem são esses que disputam com os judeus e que apresentam sequer argumentos prováveis para demonstrar que judeus e cristãos não decidem corretamente sobre os pontos relativos a esses nomes, mas que haveria outros que trataram dessas questões com maior erudição e exatidão.

[299] Mas estamos bem certos de que ninguém pode estabelecer coisa alguma desse tipo, sendo manifesto que esses nomes derivam da língua hebraica, a qual só se encontra entre os judeus.

[300] Em seguida, Celso, recorrendo a histórias diversas do registro divino, aquelas passagens que dizem respeito às pretensões de grande antiguidade apresentadas por muitas nações, como os atenienses, os egípcios, os arcádios e os frígios, que afirmam que entre eles existiram certos homens nascidos da terra e cada um apresenta provas dessas afirmações, diz: Os judeus, então, vivendo uma vida rasteira em algum canto da Palestina, sendo um povo totalmente inculto, que não tinha ouvido que essas coisas haviam sido postas em verso há muito tempo por Hesíodo e por inúmeros outros homens inspirados, teceram algumas histórias totalmente incríveis e insossas, a saber, que certo homem foi formado pelas mãos de Deus, e que nele foi soprado o fôlego da vida, e que uma mulher foi tirada do seu lado, e que Deus deu certos mandamentos, e que uma serpente se opôs a eles e venceu os mandamentos de Deus; relatando assim certas fábulas de velhas e representando de modo muito ímpio Deus como fraco já no princípio de todas as coisas e incapaz de convencer até mesmo um único ser humano que Ele próprio havia formado.

[301] Por esses exemplos, esse Celso tão lido e erudito, que acusa judeus e cristãos de ignorância e falta de instrução, mostra claramente quão exato é o seu conhecimento da cronologia dos diversos historiadores, gregos e bárbaros, pois imagina que Hesíodo e os inúmeros outros, a quem chama homens inspirados, são mais antigos que Moisés e seus escritos, justamente esse Moisés que se demonstra ser muito mais antigo que o tempo da guerra de Troia.

[302] Não são, portanto, os judeus que compuseram histórias incríveis e insossas acerca do nascimento do homem a partir da terra, mas esses homens inspirados de Celso, Hesíodo e seus inúmeros companheiros, que, nada tendo aprendido nem ouvido acerca dos relatos muito mais antigos e veneráveis existentes na Palestina, escreveram histórias como suas Teogonias, atribuindo, quanto lhes foi possível, geração a seus deuses e inúmeras outras absurdidades.

[303] E são precisamente esses os escritores que Platão expulsa de sua República como corruptores da juventude, isto é, Homero e aqueles que compuseram poemas do mesmo tipo.

[304] Ora, é evidente que Platão não considerava inspirados os homens que haviam deixado tais obras.

[305] Mas talvez tenha sido por desejo de lançar opróbrio sobre nós que esse Celso epicureu, mais capaz de julgar do que Platão, se é de fato o mesmo Celso que compôs outros dois livros contra os cristãos, chamou de inspirados aqueles homens que na realidade ele próprio não considerava como tais.

[306] Ele nos acusa ainda de introduzir um homem formado pelas mãos de Deus, embora o livro de Gênesis não faça menção alguma às mãos de Deus, nem ao relatar a criação, nem ao relatar a formação do homem.

[307] São Jó e Davi, sim, que usaram a expressão: Tuas mãos me fizeram e me formaram; e, quanto a isso, seria necessário um longo discurso para mostrar em que sentido essas palavras foram entendidas por aqueles que as usaram, tanto no que diz respeito à diferença entre fazer e formar, quanto às mãos de Deus.

[308] Pois aqueles que não entendem essas e outras expressões semelhantes nas escrituras sagradas imaginam que atribuímos ao Deus que está sobre todas as coisas uma forma como a do homem; e, segundo sua compreensão, segue-se que consideramos o corpo de Deus provido de asas, já que as escrituras, entendidas literalmente, atribuem a Deus tais apêndices.

[309] O assunto que temos diante de nós, porém, não exige que interpretemos essas expressões; pois, em nossas observações explicativas sobre o livro de Gênesis, tratamos especialmente dessas coisas, da melhor maneira que pudemos.

[310] Observa, a seguir, a malícia de Celso no que vem depois.

[311] Pois a escritura, falando da formação do homem, diz: E soprou em seu rosto o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente.

[312] Então Celso, querendo ridicularizar maliciosamente o sopro do fôlego de vida em seu rosto e não entendendo o sentido em que a expressão foi empregada, afirma que eles inventaram a história de que um homem foi moldado pelas mãos de Deus e inflado por um sopro que lhe foi insuflado, para, tomando a palavra inflado de modo semelhante ao enchimento de peles, zombar da declaração: Ele soprou em seu rosto o fôlego de vida; termos estes usados figuradamente e que precisam ser explicados para mostrar que Deus comunicou ao homem algo de Seu Espírito incorruptível, como se diz: Pois o teu Espírito incorruptível está em todas as coisas.

[313] Em seguida, como seu propósito é difamar nossas escrituras, ele ridiculariza a seguinte declaração: E Deus fez cair um profundo sono sobre Adão, e ele dormiu; e tomou uma de suas costelas, e fechou a carne em seu lugar.

[314] E da costela que havia tomado do homem fez uma mulher, e assim por diante, sem citar as palavras que dariam ao ouvinte a impressão de que elas são ditas em sentido figurado.

[315] Ele não quer sequer deixar parecer que as palavras foram usadas alegoricamente, embora depois diga que os mais modestos entre judeus e cristãos se envergonham dessas coisas e procuram dar-lhes, de algum modo, uma significação alegórica.

[316] Ora, poderíamos dizer-lhe: As declarações de teu inspirado Hesíodo, que ele faz a respeito da mulher sob a forma de mito, devem ser explicadas alegoricamente, no sentido de que ela foi dada por Zeus aos homens como um mal e como retribuição pelo roubo do fogo; enquanto a narrativa acerca da mulher que foi tirada do lado do homem, depois de ele haver sido lançado em profundo sono, e formada por Deus, te parece relatada sem sentido racional e sem significação secreta?

[317] Mas não é falta de sinceridade não zombar das primeiras como mitos, mas admirá-las como ideias filosóficas vestidas em forma mítica, e tratar com desprezo as segundas, como ofensivas ao entendimento, declarando que não têm valor algum?

[318] Pois, se por causa da mera forma de expressão devemos censurar aquilo que pretende encerrar um sentido oculto, vê se as seguintes linhas de Hesíodo, homem que, segundo dizes, era inspirado, não são ainda mais apropriadas para provocar riso: Filho de Jápeto, disse o ajuntador de nuvens, irado no coração, ó inigualável em artifício.

[319] Exultas por haveres recuperado a chama, e triunfas por haveres enganado o deus?

[320] Mas tu, com a posteridade dos homens, lamentarás o dolo do qual começaram males ainda maiores; enviarei um mal por causa do teu furto do fogo, enquanto todos o abraçarão e desejarão a sua própria ruína; assim falou o pai que governa a terra e rege o pólo, e o riso encheu a sua alma secreta.

[321] Então ordenou ao deus artífice que obedecesse ao seu mandado e moldasse com águas misturadas o barro maleável, infundindo-lhe, à medida que o sopro e a forma surgiam, o vigor flexível e a voz do homem, e dando-lhe a aparência bela das deusas do alto, a semelhança de uma virgem com fronte amável.

[322] Ordenou a Minerva que ensinasse a arte de tingir a teia com cores ao movimento da lançadeira; chamou o encanto da rainha do amor para derramar sobre a sua cabeça uma graça sem nome; infundiu o desejo inquieto e os cuidados com o ornamento que consomem o corpo; e por fim mandou Hermes implantar nela a refinada astúcia dos modos artificiosos e uma mente despudorada.

[323] Ele falou, e os poderes inferiores obedeceram ao seu rei; a imagem moldada de uma virgem pudica ergueu-se da terra temperada por mandato de Zeus, sob a mão do deus modelador; a cintura e o vestido foram ajustados e dispostos pela mão de Minerva; as graças nascidas do céu e a persuasão suave adornaram seus membros com cadeias de ouro, e as Horas prenderam suas têmporas com flores primaveris em cachos soltos.

[324] Todo o traje foi moldado pelo engenhoso cuidado de Minerva segundo a sua forma e ajustado ao seu porte.

[325] Mas em seu peito o mensageiro vindo do alto, cheio dos conselhos de Zeus do profundo trovão, trabalhou modos artificiosos, mentiras traiçoeiras e uma fala que agita o sangue e entorpece os sábios.

[326] E o intérprete dos deuses a proclamou e deu à mulher o nome de Pandora, porque todos os deuses conferiram seus dons para fazer desse belo mal um encanto para a raça inventiva dos homens.

[327] Além disso, o que também se diz sobre a caixa é, por si só, próprio para provocar riso, por exemplo: outrora os filhos dos homens habitavam a terra apartados dos males, do peso penoso do trabalho e das doenças cruéis que trazem a velhice ao homem; agora a triste vida dos mortais é breve.

[328] As mãos da mulher sustentam uma grande caixa; ela ergue a tampa e espalha os sofrimentos no ar; somente a esperança, retida sob a borda do vaso, permaneceu dentro da cela ainda intacta e não voou para fora, pois assim o quis Zeus, o ajuntador de nuvens, quando a mão da mulher deixou cair a tampa por cima.

[329] Ora, àquele que quiser dar a esses versos um grave sentido alegórico, exista ou não neles tal sentido, diríamos: somente os gregos têm licença para transmitir um significado filosófico sob um invólucro oculto?

[330] Ou talvez também os egípcios e os bárbaros que se orgulham de seus mistérios e da verdade neles escondida, enquanto só os judeus, com seu legislador e seus historiadores, te parecem os mais desprovidos de inteligência dentre os homens?

[331] E é esta a única nação que não recebeu alguma porção de poder divino e que, ainda assim, foi tão grandemente instruída a elevar-se para a natureza incriada de Deus, a contemplar somente a Ele e a esperar somente dEle o cumprimento de suas esperanças?

[332] Mas, como Celso também zomba da serpente, por ela se opor aos mandamentos dados por Deus ao homem, tomando a narrativa como uma fábula de velhas, e tendo propositalmente omitido tanto o paraíso de Deus como o fato de que se diz que Deus o plantou no Éden, para o oriente, e que dali brotou da terra toda árvore agradável à vista e boa para alimento, e a árvore da vida no meio do paraíso, e a árvore do conhecimento do bem e do mal, bem como as demais coisas que se seguem, as quais por si mesmas poderiam levar um leitor imparcial a perceber que todas essas coisas tinham, de modo apropriado, um sentido alegórico, confrontemos com isso as palavras de Sócrates acerca de Eros no Banquete de Platão, postas na boca de Sócrates como mais adequadas do que o que todos os demais haviam dito sobre ele no mesmo Banquete.

[333] As palavras de Platão são as seguintes: Quando Afrodite nasceu, os deuses deram um banquete, e ali estava, entre os outros, Poros, filho de Métis.

[334] E, depois de terem ceado, Penia veio pedir alguma coisa, pois havia ali um banquete, e pôs-se junto à porta.

[335] Entrementes, Poros, tendo-se embriagado com o néctar, pois então ainda não havia vinho, entrou no jardim de Zeus e, carregado pela bebida, deitou-se para dormir.

[336] Penia, então, tramou em segredo, querendo libertar-se de sua condição de pobreza, conceber um filho de Poros; deitou-se junto dele e ficou grávida de Eros.

[337] E por isso Eros tornou-se seguidor e acompanhante de Afrodite, tendo sido gerado no dia do nascimento dela e sendo ao mesmo tempo, por natureza, amante do belo, porque Afrodite também é bela.

[338] Visto, pois, que Eros é filho de Poros e de Penia, tal é a sua condição.

[339] Em primeiro lugar, ele é sempre pobre e está longe de ser delicado e belo, como a maioria imagina; pelo contrário, é ressequido, queimado de sol, descalço e sem lar, dormindo sempre no chão e sem coberta, deitado ao ar livre junto das portas e pelos caminhos públicos, possuindo a natureza de sua mãe e habitando continuamente com a indigência.

[340] Mas, por outro lado, conforme o caráter de seu pai, dedica-se a tramar contra o belo e o bom, sendo corajoso, impetuoso e ardente; caçador hábil, sempre inventando recursos; cheio de previdência e também fértil em expedientes; vivendo como filósofo durante toda a vida; terrível feiticeiro, manipulador de drogas e sofista; nem imortal por natureza nem mortal, mas no mesmo dia ora floresce e vive quando tem abundância, ora morre, e mais uma vez torna a viver por possuir a natureza de seu pai.

[341] Mas os recursos que lhe são fornecidos vão sempre desaparecendo pouco a pouco, de modo que ele nunca está de fato nem em penúria nem em riqueza, mas ocupa uma posição intermediária entre a sabedoria e a ignorância.

[342] Ora, se os que lessem essas palavras imitassem a malícia de Celso, o que Deus não permita aos cristãos, zombariam do mito e transformariam esse grande Platão em motivo de escárnio; mas, se, investigando filosoficamente o que está contido sob a veste do mito, pudessem descobrir o pensamento de Platão, admirariam o modo como ele foi capaz de esconder, por causa da multidão, sob a forma desse mito, as grandes ideias que lhe ocorreram, e de falar de maneira apropriada àqueles que sabem extrair dos mitos o verdadeiro sentido daquele que os teceu.

[343] Ora, apresentei esse mito que se encontra nos escritos de Platão por causa da menção que nele se faz ao jardim de Zeus, que parece guardar alguma semelhança com o paraíso de Deus, e por causa da comparação entre Penia e a serpente, e da trama de Penia contra Poros, que pode ser comparada à trama da serpente contra o homem.

[344] Não está muito claro, de fato, se Platão deparou com essas histórias por acaso, ou se, como alguns pensam, ao encontrar durante sua visita ao Egito certos homens que filosofavam sobre os mistérios judaicos, e aprendendo algo com eles, preservou algumas de suas ideias e deixou de lado outras, tomando cuidado para não ofender os gregos por uma adoção completa de todos os pontos da filosofia dos judeus, que estavam em má reputação diante da multidão por causa do caráter estrangeiro de suas leis e de seu regime peculiar.

[345] O momento presente, porém, não é oportuno para explicar nem o mito de Platão nem a história da serpente e do paraíso de Deus, e tudo o que se diz ter ali acontecido, pois em nossa exposição do livro de Gênesis já nos ocupamos especialmente dessas coisas, da melhor maneira que pudemos.

[346] Mas, como ele afirma que a narrativa mosaica representa da maneira mais ímpia Deus em estado de fraqueza desde o próprio começo de todas as coisas, e incapaz de conquistar para a obediência sequer um único homem que Ele mesmo havia formado, respondemos que a objeção é quase a mesma que a de alguém que censurasse a existência do mal, que Deus não foi capaz de impedir nem mesmo no caso de um só indivíduo, de modo que desde o princípio das coisas pudesse haver algum homem nascido no mundo sem a mancha do pecado.

[347] Pois, assim como aqueles cuja tarefa é defender a doutrina da providência o fazem por meio de argumentos nada desprezíveis, também as questões relativas a Adão e a seu filho serão tratadas filosoficamente por aqueles que sabem que, na língua hebraica, Adão significa homem, e que, naquelas partes da narrativa que parecem referir-se a Adão como indivíduo, Moisés está discursando sobre a natureza do homem em geral.

[348] Pois em Adão, como diz a escritura, todos morrem, e foram condenados na semelhança da transgressão de Adão, afirmando a palavra de Deus isso não tanto de um único indivíduo, mas de toda a raça humana.

[349] Pois, na sequência encadeada das declarações que parecem aplicar-se a um indivíduo particular, a maldição pronunciada sobre Adão é considerada comum a todos os membros da raça, e o que foi dito com referência à mulher é dito de toda mulher sem exceção.

[350] E a expulsão do homem e da mulher do paraíso, e o fato de terem sido vestidos com túnicas de peles, que Deus fez para os que haviam pecado por causa da transgressão dos homens, contêm uma certa doutrina secreta e mística, muito acima da de Platão, sobre as almas que perdem suas asas e são levadas para baixo, à terra, até que possam alcançar algum lugar firme de repouso.

[351] Depois disso, ele prossegue da seguinte maneira: eles falam, em seguida, de um dilúvio, de uma arca monstruosa contendo em si todas as coisas, e de uma pomba e de um corvo como mensageiros, falsificando e alterando temerariamente a história de Deucalião, como se imaginassem que ninguém perceberia isso e como se estivessem inventando histórias apenas para crianças.

[352] Observa-se nessas palavras a hostilidade, tão imprópria para um filósofo, que esse homem manifesta contra uma narrativa judaica antiquíssima. Pois, não podendo atacar devidamente a história do dilúvio, e não percebendo sequer qual seria a objeção mais óbvia quanto à arca e às suas dimensões, limitou-se a chamá-la de monstruosa, por supostamente conter todas as coisas em seu interior.

[353] Mas em que consistiria esse caráter monstruoso, se se diz que ela foi construída ao longo de cem anos, e que suas medidas, trezentos côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura, terminavam em uma parte superior de um côvado de comprimento por um de largura? Antes deveríamos admirar uma construção que se assemelhava a uma vasta cidade, sobretudo se tais medidas forem entendidas em toda a amplitude do que podem significar.

[354] Também deveríamos admirar o projeto pelo qual foi construída de modo tão sólido, apto a resistir à tempestade que trouxe o dilúvio; pois não foi apenas calafetada com materiais frágeis, mas firmemente revestida com betume. E é digno de admiração, ainda, que, por disposição providencial de Deus, nela tenham sido introduzidos os princípios de todas as espécies, para que a terra recebesse de novo as sementes de todos os seres vivos, enquanto Deus se servia de um homem justíssimo como progenitor daqueles que nasceriam depois do dilúvio.

[355] Para mostrar que havia lido o Gênesis, Celso rejeita a narrativa da pomba, embora não apresente razão alguma que prove ser ela fictícia. E, como de costume, querendo tornar o relato ainda mais ridículo, transforma o corvo em gralha e imagina que Moisés escreveu dessa forma ao adulterar imprudentemente as histórias gregas sobre Deucalião.

[356] Se ele fala em plural, dizendo que eles falsificaram e alteraram a história, talvez suponha que a narrativa não proceda de Moisés, mas de vários autores. Contudo, como poderiam aqueles que entregaram suas escrituras a toda uma nação esperar que tais coisas não viessem à luz, sendo que predisseram, além disso, que sua religião seria anunciada a todos os povos?

[357] O próprio Jesus declarou: o reino de Deus vos será tirado e será dado a uma nação que produza os seus frutos. Ao dizer isso aos judeus, o que mais indicava senão que Ele mesmo traria plenamente à luz, por Seu poder divino, as Escrituras judaicas, que contêm os mistérios do reino de Deus? Assim, quando os gregos leem suas teogonias e as histórias dos doze deuses, conferem-lhes dignidade por meio de alegorias; mas, quando querem desprezar nossas narrativas bíblicas, chamam-nas de fábulas grosseiramente inventadas para crianças.

[358] Prossegue ele dizendo que é totalmente absurda e inoportuna a narrativa da geração de filhos, sendo claro que alude à história de Abraão e Sara, ainda que não mencione nomes. Ao zombar também das conspirações entre irmãos, refere-se ou à trama de Caim contra Abel, ou ainda à de Esaú contra Jacó; e, ao falar da tristeza de um pai, talvez pense em Isaque por causa da ausência de Jacó, e talvez também em Jacó por causa de José vendido ao Egito.

[359] Quando menciona as astúcias das mães, parece ter em vista Rebeca, que dispôs as coisas para que a bênção de Isaque recaísse não sobre Esaú, mas sobre Jacó. Ora, se afirmamos que em todos esses acontecimentos Deus interveio de maneira notável, que absurdo cometemos, se estamos persuadidos de que Ele jamais retira Sua providência daqueles que se dedicam a Ele por meio de uma vida honrada e vigorosa?

[360] Celso ridiculariza ainda a aquisição de bens por Jacó enquanto vivia com Labão, sem compreender o sentido das palavras: as que não tinham manchas eram de Labão, e as malhadas eram de Jacó. E diz que Deus presenteou seus filhos com jumentos, ovelhas e camelos, não percebendo que todas essas coisas lhes aconteceram como figura e foram escritas para nossa instrução, sobre quem chegaram os fins dos séculos.

[361] Os vários costumes que se tornaram célebres entre as nações são regulados pela palavra de Deus e são entregues como possessão àquele que é figuradamente chamado Jacó. Pois os que, dentre os gentios, se convertem a Cristo são indicados pela história de Labão e Jacó.

[362] Afastando-se amplamente do sentido da Escritura, Celso diz que Deus deu também poços aos justos. Ele não percebeu que os justos não constroem cisternas, mas cavam poços, buscando encontrar o fundamento e a fonte inerente das bênçãos potáveis, pois recebem em sentido figurado o mandamento que diz: bebe águas da tua própria vasilha e dos teus próprios poços de água viva.

[363] A Escritura recorre muitas vezes a histórias de acontecimentos reais para apresentar verdades mais elevadas, insinuadas de modo mais obscuro; desse tipo são as narrativas relativas aos poços, aos casamentos e aos diversos atos de união sexual registrados acerca de justos. A explicação detalhada dessas coisas convém mais aos escritos exegéticos próprios de cada passagem.

[364] Que poços foram cavados por homens justos na terra dos filisteus, como relata o Gênesis, é confirmado até pelos admiráveis poços mostrados em Ascalom, dignos de menção por sua estrutura tão singular em comparação com outros. Há aí, portanto, um fato histórico que não deve ser desprezado levianamente.

[365] E quanto ao entendimento metafórico das moças e servas, isso não é apenas doutrina nossa, mas tradição recebida desde o princípio de homens sábios. Um deles disse, ao exortar seus ouvintes a investigar o sentido figurado: dizei-me, vós que ledes a lei, não ouvis a lei? E então explicou alegoricamente Sara e Agar, mostrando que essas coisas foram ditas de modo espiritual; logo, a Escritura nos chama a imitar não os atos carnais dos antigos, mas aquilo que os apóstolos de Jesus chamam de espiritual.

[366] Celso deveria antes reconhecer o amor à verdade demonstrado pelos escritores sagrados, que não esconderam nem mesmo o que parecia desonroso para eles, e por isso ser levado a aceitar como verdadeiras as outras narrativas ainda mais admiráveis. Fez justamente o contrário, e classificou a história de Ló e de suas filhas, sem examinar nem o sentido literal nem o figurado, como pior que os crimes de Tiestes.

[367] Não é necessário, no presente, expor o significado figurado dessa passagem, nem o que se entende por Sodoma, nem pelas palavras dos anjos a quem dela fugia, dizendo: não olhes para trás e não te detenhas em toda a planície; foge para o monte, para que não pereças. Tampouco é necessário agora explicar o sentido de Ló, de sua mulher transformada em estátua de sal por ter voltado atrás, ou de suas filhas embriagando o pai para dele se tornarem mães.

[368] Mas, ao menos, convém suavizar os aspectos mais repulsivos da narrativa. Os gregos investigaram a natureza das ações boas, más e indiferentes; e os mais hábeis dentre eles estabeleceram que é a intenção que confere às ações o caráter de bom ou mau, ao passo que o que se faz sem propósito determinado é, propriamente falando, indiferente.

[369] Por isso disseram, tratando das coisas indiferentes, que, em sentido estrito, um homem ter relações com suas filhas pertence a essa categoria, embora tal coisa não deva ocorrer em comunidades bem ordenadas. E, para sustentar a hipótese, imaginaram o caso de um sábio que restasse sozinho com uma única filha, tendo toda a raça humana perecido, e perguntaram se o pai poderia unir-se a ela para impedir a extinção da humanidade.

[370] Se tal raciocínio é tido entre os gregos por aceitável, sendo elogiado por estoicos influentes, por que seria julgado pior que isso o procedimento de moças jovens que, ouvindo falar do incêndio do mundo sem o compreenderem plenamente, vendo o fogo devastar sua cidade e sua terra, e supondo que o único meio restante de reacender a chama da vida humana estivesse nelas e em seu pai, desejaram, segundo essa suposição, que o mundo continuasse? A própria Escritura, aliás, não aprova claramente sua conduta como boa, nem a condena expressamente como má; mas, qualquer que seja o juízo final, a passagem admite não só sentido figurado, como também uma defesa no plano literal.

[371] Celso também zomba do ódio de Esaú contra Jacó, embora a própria Escritura reconheça Esaú como homem mau. E, ao falar sem clareza de Simeão e Levi, que saíram contra os siquemitas por causa da violência cometida contra sua irmã pelo filho do rei de Siquém, ele igualmente condena sua conduta.

[372] Depois menciona irmãos vendendo um ao outro, aludindo aos filhos de Jacó; e um irmão vendido, isto é, José; e um pai enganado, a saber, Jacó, que, não suspeitando de seus filhos quando lhe mostraram a túnica de muitas cores, acreditou neles e lamentou como morto o filho que, na verdade, era escravo no Egito.

[373] Observa-se em que espírito de ódio e falsidade Celso recolhe os elementos da história sagrada: tudo o que lhe parece ocasião de acusação ele exibe; tudo o que contém virtude digna de menção ele omite. Assim, não fala de José recusando satisfazer o desejo de sua senhora, resistindo tanto às seduções quanto às ameaças. E, no entanto, a conduta de José foi muito mais nobre do que a atribuída a Belerefonte, pois preferiu ser lançado na prisão a violentar sua virtude, e, mesmo podendo defender-se justamente, guardou magnânimo silêncio e confiou sua causa a Deus.

[374] Em seguida, Celso, por mera formalidade e sem precisão, fala dos sonhos do copeiro-mor, do padeiro-mor e de Faraó, bem como de sua interpretação, por causa da qual José foi tirado da prisão para receber de Faraó o segundo lugar no Egito. Que absurdo haveria nessa história, ainda que considerada somente em si mesma, para que fosse usada como matéria de acusação por alguém que intitulou seu tratado de Discurso Verdadeiro?

[375] Acrescenta ele que aquele que fora vendido mostrou bondade para com os irmãos que o haviam vendido, quando estes, oprimidos pela fome, vieram com seus jumentos comprar provisões. Ainda menciona o fato de José dar-se a conhecer a seus irmãos, embora eu não saiba com que intenção, pois nem o próprio Momo encontraria facilmente falta razoável em acontecimentos que, mesmo fora do sentido figurado, têm tanto de belo e atraente.

[376] Relata também que José, vendido como escravo, foi restaurado à liberdade e subiu com solene comitiva ao funeral de seu pai. E pensa que aí também há motivo para acusação, quando observa que, por intermédio de José, a ilustre e divina nação dos judeus, tendo crescido no Egito até tornar-se uma multidão, foi estabelecida em algum lugar além dos limites do reino, para apascentar rebanhos em regiões sem reputação.

[377] Mas dizer que foram mandados a apascentar seus rebanhos em regiões sem reputação é acréscimo de sua própria hostilidade, pois ele não demonstrou que Gósen fosse um lugar desprezível. Da saída do povo do Egito ele fala como fuga, esquecendo completamente o que está escrito no Êxodo sobre a partida dos hebreus. Reunimos esses exemplos para mostrar que aquilo que, tomado literalmente, poderia parecer oferecer pretexto de acusação, Celso não conseguiu provar que fosse reprovável ou insensato.

[378] Depois, como se estivesse inteiramente dedicado a manifestar seu ódio à doutrina judaica e cristã, ele diz: os mais modestos entre os escritores judeus e cristãos dão a tudo isso um sentido alegórico; e, porque se envergonham dessas coisas, refugiam-se na alegoria.

[379] A isso se pode responder que, se devemos considerar vergonhosas as fábulas e ficções tomadas em seu sentido literal, mesmo quando tenham um significado oculto, de quais histórias isso se pode dizer com mais verdade do que das gregas? Nelas, deuses filhos castram deuses pais; deuses pais devoram os próprios filhos; uma deusa-mãe entrega ao pai dos deuses e dos homens uma pedra em lugar do próprio filho; um pai se une à filha; uma esposa prende o marido com a ajuda do irmão do deus acorrentado e da própria filha dele.

[380] E por que enumerar tantas outras histórias absurdas dos gregos sobre seus deuses, vergonhosíssimas em si mesmas, ainda que revestidas de alegoria? Basta lembrar que Crisipo de Solos, ornamento da escola estoica, interpretou uma pintura em Samos na qual Juno era representada cometendo atos indizíveis com Júpiter. Segundo esse filósofo, Juno representava a matéria, e Júpiter, o deus que nela lançava as razões seminais para adornar o universo.

[381] É por causa dessas e de inúmeras fábulas semelhantes que nós não chamaríamos sequer em palavras o Deus de todas as coisas de Júpiter, nem o sol de Apolo, nem a lua de Diana. Antes oferecemos ao Criador um culto puro e falamos com reverência religiosa de Suas obras nobres, sem contaminar sequer por palavras as coisas de Deus. Nesse ponto aprovamos também a linguagem de Platão, que, no Filebo, não quis admitir que o prazer fosse uma deusa, tamanha era a reverência que tinha até pelos nomes dos deuses.

[382] Se Celso tivesse lido as Escrituras com espírito imparcial, não teria dito que nossos escritos não admitem sentido alegórico. Pois, a partir das próprias escrituras proféticas, nas quais se registram fatos históricos, é possível convencer-se de que também as partes históricas foram escritas com intenção alegórica, habilmente adaptadas não só para a multidão dos crentes simples, mas também para os poucos que podem ou querem investigar as coisas com inteligência.

[383] Se os intérpretes alegóricos dos nossos dias fossem os primeiros a atribuir tal sentido às Escrituras, talvez Celso tivesse alguma aparência de plausibilidade. Mas, visto que os próprios pais e autores das doutrinas lhes conferem significação alegórica, que outra conclusão se pode tirar senão a de que elas foram compostas para serem entendidas, principalmente, dessa maneira?

[384] Basta citar alguns exemplos entre muitos. Paulo diz: não atarás a boca ao boi que debulha. Acaso é com bois que Deus se preocupa? Ou não é inteiramente por nossa causa que isso foi escrito? E noutro lugar, ao citar a união de homem e mulher, acrescenta: grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja.

[385] Ainda em outro lugar ele afirma que todos os nossos pais estiveram debaixo da nuvem, passaram pelo mar e foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; e ao explicar o maná e a água da rocha, diz que todos comeram alimento espiritual e beberam bebida espiritual, pois bebiam da rocha espiritual que os seguia, e a rocha era Cristo. O próprio Asafe, ao tratar das histórias do Êxodo e dos Números, começa dizendo: abrirei a minha boca em parábolas, proferirei enigmas antigos. Isso mostra que nossas narrativas comportam, sim, sentido alegórico.

[386] Se a lei de Moisés nada contivesse que devesse ser entendido em sentido oculto, o profeta não teria orado: abre os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei. Ele sabia que havia um véu de ignorância sobre o coração daqueles que leem sem compreender o sentido figurado, véu que Deus remove quando atende àquele que faz tudo quanto pode e que, pelo exercício, tem os sentidos treinados para discernir o bem e o mal.

[387] E quem, ao ler sobre o dragão que vive no rio do Egito, sobre os peixes que se escondem em suas escamas, ou sobre a imundície de Faraó que enche os montes do Egito, não é levado imediatamente a investigar o que tais coisas significam? Quem tomaria isso de modo raso, como se a Escritura estivesse apenas narrando imagens sem profundidade alguma?

[388] Do mesmo modo, quando a lei ordena que se não coma a águia, nem o abutre, nem o falcão, nem o corvo, nem outras aves desse tipo, não se deve pensar que a intenção principal fosse apenas regular alimentos. Também aí estão indicados, sob nomes visíveis, ensinamentos mais altos relativos aos costumes e ao discernimento espiritual.

[389] Portanto, Celso não deveria apressar-se em declarar ininteligíveis ou destituídas de sentido secreto as narrativas de Moisés e dos profetas. O próprio fato de tantos intérpretes antigos, e de maior seriedade, terem buscado nelas um entendimento mais profundo já mostra que o texto foi dado não para ser desprezado, mas para ser perscrutado.

[390] Parece-me que Celso ouviu dizer que existem tratados contendo explicações alegóricas da lei de Moisés. Contudo, em vez de lidar com os mais sólidos e respeitáveis, prefere mirar os mais fracos, como se quisesse vencer mais facilmente uma caricatura e não a verdadeira posição dos que interpretam com inteligência.

[391] Entre os gregos, porém, não faltaram homens de certa reputação que reconheceram algo desse método. Numenio, por exemplo, citou narrativas de Moisés e dos profetas, aplicando-lhes um sentido alegórico não desprezível em obras como Epops e nos escritos sobre Números e Lugar.

[392] No terceiro livro de sua obra Sobre o Bem, ele até menciona certa narrativa referente a Jesus, embora sem citar Seu nome, e lhe atribui interpretação alegórica; além disso, trata também de Moisés, de Janes e de Jambres. Não nos gloriamos exageradamente por isso, mas preferimos a disposição de Numenio à de Celso e de outros gregos, porque ele se dispôs a investigar nossas histórias para aprender, e não para insultar.

[393] Assim, Numenio foi devidamente tocado por elas como narrativas que pedem entendimento alegórico e que não pertencem à classe das composições tolas. Celso, ao contrário, não investiga para conhecer, mas apenas para ridicularizar.

[394] Depois disso, escolhendo dentre todos os tratados que contêm interpretações alegóricas justamente os de menor importância, os que talvez fortaleçam a fé dos simples, mas não impressionem os mais inteligentes, ele menciona especialmente a obra intitulada Controvérsia entre Papisco e Jasão, dizendo que ela desperta não riso, mas pena e ódio.

[395] Ora, eu desejaria que todos os que ouvissem Celso declamar assim pegassem esse escrito em mãos e o lessem com paciência. Veriam então que nada há ali para suscitar ódio; e seriam levados a condenar o próprio Celso pelo testemunho do livro.

[396] Pois, lida com imparcialidade, a obra mostrará apenas um cristão dialogando com um judeu sobre as Escrituras judaicas e demonstrando que as predições sobre Cristo se aplicam de modo conveniente a Jesus, enquanto o interlocutor sustenta a disputa de modo nada vulgar e de maneira digna do caráter de um judeu.

[397] Nem sei, de fato, como Celso pôde juntar coisas que não admitem união, ao dizer que o escrito merecia ao mesmo tempo pena e ódio. Pois todos admitirão que aquilo que desperta pena não desperta simultaneamente ódio, e que aquilo que desperta ódio não é, ao mesmo tempo, objeto de pena.

[398] Ele acrescenta que não é seu propósito refutar tais obras, porque sua falsidade seria manifesta a todos. Nós, porém, convidamos quem ler nossa resposta a ter paciência e a ouvir as próprias Escrituras sagradas, formando opinião a partir de seu conteúdo sobre o propósito de seus autores, sobre sua consciência e disposição de espírito.

[399] Então descobrirá que se trata de homens que lutam com vigor pelo que sustentam, e que alguns deles mostram que a história que narram é algo que viram e experimentaram, algo miraculoso e digno de ser registrado para proveito dos que viriam depois.

[400] E que argumento poderia levar mais eficazmente a natureza humana a abraçar uma vida virtuosa do que a convicção de que o Deus supremo vê todas as coisas, não só o que se diz e faz, mas até o que se pensa? Compare-se qualquer outro sistema que, ao mesmo tempo, converta e melhore não apenas um ou dois indivíduos, mas, tanto quanto pode, inumeráveis pessoas; e então se verá qual ensino conduz mais fortemente à virtude.

[401] Mas, já que nas palavras de Celso, parafraseadas do Timeu, aparecem expressões como estas: Deus nada fez de mortal, mas somente coisas imortais; as mortais são obras de outros; a alma é obra de Deus, mas a natureza do corpo é diversa; e não há diferença entre o corpo do homem e o do morcego, do verme ou da rã, pois a matéria é a mesma e sua parte corruptível também o é, convém que examinemos brevemente tais pontos.

[402] Ele deveria, se pretendia contradizer não apenas a nós, mas também aos filósofos nada obscuros que seguem Zenão de Cítio, demonstrar que os corpos dos animais não são obra de Deus e que a grande arte mostrada em sua constituição não procede da inteligência suprema. Também deveria explicar de onde vêm as inúmeras variedades das plantas, ordenadas por uma natureza interna e incompreensível, úteis não só ao homem, mas também aos animais que o servem.

[403] E, se uma vez atribuiu a diversas divindades a criação de todos os corpos, reservando apenas a alma como obra de Deus, por que não demonstrou então, com alguma razão convincente, a existência dessas diferenças entre as divindades? Por que umas fariam corpos humanos, outras corpos de animais de carga, outras ainda corpos de animais selvagens, serpentes, áspides, basiliscos, ervas e plantas segundo cada espécie?

[404] Se tivesse examinado cuidadosamente cada ponto, ou teria percebido que há um só Deus criador de tudo, fazendo cada coisa com determinado fim e razão, ou teria sido levado à resposta que se deve dar aos que afirmam que a corruptibilidade é, em sua natureza, indiferente, e que não há absurdo em um mesmo arquiteto construir, com materiais diversos, um mundo ordenado para o bem do conjunto. Do contrário, deveria calar-se sobre matéria tão grande, já que se limita a afirmar o que não demonstra.

[405] Eu sustento, contudo, que, se Celso tivesse paciência para ouvir os escritos de Moisés e dos profetas, sua atenção seria presa pelo fato de que a expressão Deus fez é aplicada ao céu e à terra, ao firmamento, às luzes e às estrelas, aos grandes peixes, aos seres vivos que as águas produziram segundo suas espécies, às aves do céu, às feras da terra, aos animais domésticos, aos répteis e, por fim, ao homem.

[406] A mesma expressão não é empregada do mesmo modo para outras realidades; em alguns casos basta dizer: e houve luz, ou: e assim foi, ou ainda: a terra produziu erva, planta que dá semente e árvore frutífera segundo a sua espécie. Se ele atentasse seriamente para isso, perguntaria a quem se dirigiam os mandamentos criadores de Deus e por que a Escritura fala com tanta distinção de umas coisas e de outras.

[407] Desse modo não teria acusado levianamente de ininteligíveis e de destituídas de sentido secreto os relatos contidos nesses livros, quer se diga que foram escritos por Moisés, quer, como preferimos, pelo Espírito Divino que falava em Moisés, o qual conhecia o presente, o futuro e o passado em grau mais elevado do que aqueles sacerdotes a quem os poetas atribuem semelhante saber.

[408] Além disso, visto que Celso afirma que a alma é obra de Deus, mas que a natureza do corpo é outra, e que, nesse sentido, não há diferença entre o corpo de um morcego, de um verme, de uma rã e o de um homem, porque a matéria é a mesma e a parte corruptível também é igual, devemos responder-lhe que, se esse raciocínio vale, então também não haveria diferença entre esses corpos e o sol, a lua, as estrelas, o céu e qualquer outra coisa sensível que os gregos chamam deus.

[409] Pois a mesma matéria, que está debaixo de todos os corpos, é, em sentido próprio, sem qualidade e sem forma, recebendo qualidades de alguma outra fonte. Se a parte corruptível de tudo procede da mesma matéria subjacente, então, pelo próprio argumento de Celso, ela deve ser a mesma em todos os casos.

[410] A menos que, sentindo-se apertado, ele abandone Platão, que fazia a alma proceder de certa cratera, e se refugie em Aristóteles e nos peripatéticos, sustentando que o éter é imaterial e composto de uma quinta natureza diversa dos quatro elementos. Mas contra essa posição tanto os platônicos quanto os estoicos protestaram vigorosamente.

[411] Nós também a contradiremos, pois nos cabe explicar a palavra do profeta: os céus perecerão, mas tu permaneces; todos envelhecerão como veste, como roupagem os enrolarás e serão mudados; tu, porém, és o mesmo. Essas observações bastam contra a afirmação de Celso, pois de seu raciocínio resulta que não haveria diferença entre o corpo de um morcego, de um verme ou de uma rã e o de um ser celeste.

[412] Vê, então, se devemos ceder a alguém que, sustentando tais opiniões, calunia os cristãos e nos pede que abandonemos uma doutrina que explica as diferenças entre os corpos a partir das diferentes qualidades, internas e externas, que neles foram implantadas. Nós também sabemos que há corpos celestes e corpos terrestres, e que uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres.

[413] Mais ainda: nem mesmo a glória dos corpos celestes é igual, pois uma é a glória do sol, outra a da lua, outra a das estrelas; e mesmo entre as estrelas uma difere de outra em glória. Por isso, como esperamos a ressurreição dos mortos, afirmamos que as qualidades presentes nos corpos sofrem mudança: o que é semeado em corrupção ressuscita em incorrupção; o que é semeado em desonra ressuscita em glória; o que é semeado em fraqueza ressuscita em poder; o corpo animal ressuscita espiritual.

[414] Todos os que aceitam a providência sustentam firmemente que a matéria subjacente aos corpos é capaz de receber as qualidades que o Criador quiser conceder. Assim, se Deus quisesse, uma porção dessa matéria receberia agora uma qualidade e depois outra, diferente e melhor.

[415] Mas, como desde o princípio do mundo foram estabelecidas leis para regular as mudanças dos corpos, leis que durarão enquanto o mundo durar, não sei se não é admirável que hoje uma serpente possa formar-se de um homem morto, crescendo, como o povo afirma, da medula das costas; uma abelha, de um boi; uma vespa, de um cavalo; um besouro, de um asno; e, em geral, vermes de muitos corpos. Celso supõe que isso prova que tais corpos não são obra de Deus; nós, porém, vemos nisso mudanças de qualidades operadas segundo ordem que ele não compreende.

[416] Temos ainda algo mais a dizer a Celso quando afirma que a alma é obra de Deus e que a natureza do corpo é diversa, pois ele apresenta essa opinião não apenas sem prova, mas sem sequer definir claramente o que entende por alma. Quis ele dizer que toda alma é obra de Deus, ou apenas a alma racional?

[417] Se toda alma é obra de Deus, é manifesto que também as almas dos mais humildes animais irracionais o são; então a natureza de todos os corpos seria diferente da da alma. E, no entanto, mais adiante, quando ele afirma que os animais irracionais são mais amados por Deus do que nós e possuem conhecimento mais puro da divindade, parece sustentar ainda com maior força que suas almas são obra de Deus.

[418] Se, porém, só a alma racional for obra de Deus, primeiro ele não o disse claramente; segundo, segue-se de sua linguagem indefinida que nem a natureza de todos os corpos é igualmente diversa. Pois, se o corpo de cada animal corresponde à sua alma, então o corpo daquele cuja alma é obra de Deus difere do corpo daquele em que habita uma alma que não seja obra de Deus. Assim, torna-se falsa a afirmação de que não há diferença entre o corpo do morcego, do verme, da rã e o do homem.

[419] Seria de fato absurdo que certas pedras e certos edifícios fossem considerados mais sagrados ou mais profanos que outros conforme tivessem sido construídos para honra de Deus ou para receber pessoas infames e malditas, e que, por outro lado, os corpos não diferissem entre si conforme fossem habitados por seres racionais ou irracionais, e conforme esses seres racionais fossem os mais virtuosos ou os mais depravados dentre os homens.

[420] Tal princípio de distinção levou alguns a deificar os corpos de homens ilustres, como tendo recebido uma alma virtuosa, e a rejeitar com desonra os de indivíduos extremamente perversos. Não digo que esse princípio tenha sido sempre aplicado com acerto, mas sim que nasceu de uma ideia correta.

[421] Pergunto: depois da morte de Ânito e de Sócrates, algum homem sábio pensaria em sepultar ambos com igual honra e levantar o mesmo túmulo para os dois? Trouxemos esses exemplos por causa da linguagem de Celso, quando diz que nenhuma dessas coisas é obra de Deus; e fomos assim obrigados a retornar à sua afirmação de que a alma é obra de Deus, enquanto a natureza do corpo seria diversa.

[422] Em seguida ele diz que uma natureza comum percorre todos os corpos mencionados, indo e vindo a mesma em meio a mudanças recorrentes. Mas é evidente, pelo que já foi dito, que não apenas esses corpos, como também os corpos celestes, estariam incluídos sob tal natureza comum.

[423] Se assim for, então, segundo o próprio Celso, ainda que eu não saiba se segundo a verdade, seria uma só natureza que vai e volta, a mesma através de todos os corpos, em mudanças sucessivas. O mesmo se diria dos que sustentam que o mundo perecerá, e também dos que afirmam o contrário, os quais se esforçarão para mostrar, mesmo sem admitir uma quinta substância, que há uma mesma natureza passando por todos os corpos.

[424] Assim, até aquilo que é perecível permanece para sofrer mudança; pois a matéria subjacente, embora suas propriedades pereçam, permanece, ao menos segundo os que a consideram incriada. Mas se por argumentos se mostrar que ela não é incriada, e sim criada para certos fins, então já não terá a mesma permanência que teria se fosse sem origem. Todavia, não é agora nosso objetivo discutir profundamente essas questões de filosofia natural.

[425] Celso sustenta ainda que nenhum produto da matéria é imortal. Ora, se nenhum produto da matéria é imortal, então ou o mundo inteiro é imortal e, portanto, não procede da matéria, ou não é imortal.

[426] Se o mundo é imortal, como convém aos que dizem que somente a alma é obra de Deus e foi produzida de certa cratera, então Celso deve mostrar que o mundo não foi produzido de matéria sem qualidades, lembrando-se de sua própria tese de que nenhum produto da matéria é imortal.

[427] Se, pelo contrário, o mundo não é imortal, sendo produto da matéria, mas mortal, pergunta-se se ele perece ou não. Se perece, perece sendo obra de Deus; e então, caso o mundo pereça, que acontecerá à alma, que também é obra de Deus? Que Celso responda a isso.

[428] Mas se, confundindo o conceito de imortalidade, ele disser que algo, embora perecível, é imortal porque de fato não perece, de sorte que pode morrer sem morrer realmente, então haverá, segundo ele, algo ao mesmo tempo mortal e imortal. E desse modo se vê que as ideias contidas em seus escritos, examinadas de perto, não são sólidas nem irrefutáveis.

[429] Depois dessas matérias, ele pensa poder instruir-nos em poucas palavras sobre as questões da natureza do mal, discutidas de muitas maneiras em tratados importantes e que receberam explicações muito diversas. Diz ele: nem antes houve, nem agora há, nem depois haverá mais ou menos males no mundo do que sempre houve; pois a natureza de todas as coisas é una e a geração dos males é sempre a mesma.

[430] Parece-me que ele parafraseou isso a partir do Teeteto, onde Platão faz Sócrates dizer que os males não podem desaparecer dentre os homens nem estabelecer-se entre os deuses. Mas, a meu ver, ele não compreendeu corretamente Platão, embora pretenda encerrar toda a verdade nesse único tratado e tenha dado ao seu livro contra nós o título de Discurso Verdadeiro.

[431] Pois a linguagem do Timeu, ao dizer que os deuses purificam a terra com água, mostra que a terra, quando purificada, contém menos mal do que antes da purificação. E essa afirmação de que houve tempos em que havia menos males no mundo é também aquela que nós sustentamos, em harmonia com Platão, precisamente porque ele diz no Teeteto que os males não podem desaparecer completamente dentre os homens.

[432] Não compreendo como Celso, admitindo a providência, ao menos pelo que parece do teor deste livro, pode dizer que jamais existiram mais ou menos males, mas, por assim dizer, um número fixo deles. Desse modo ele destrói a bela doutrina acerca do caráter indefinido do mal e chega a afirmar que o mal, mesmo em sua própria natureza, seria infinito.

[433] De sua posição resulta que, assim como alguns sustentam que a providência mantém o equilíbrio dos elementos para que nenhum prevaleça sobre os outros e o mundo não seja destruído, assim também uma espécie de providência presidiria aos males, cujo número estaria fixado, impedindo que aumentassem ou diminuíssem. Isso é claramente absurdo.

[434] Além disso, os filósofos que investigaram o bem e o mal refutam as teses de Celso também de outras maneiras, recorrendo inclusive à história. Mostram, por exemplo, que outrora as prostitutas se colocavam fora das cidades e com o rosto coberto por máscaras; depois, tornando-se mais descaradas, retiraram as máscaras, embora ainda não lhes fosse permitido entrar nas cidades; por fim, com a crescente dissolução dos costumes, ousaram penetrar nelas.

[435] O próprio Crisipo relata essas coisas na introdução de sua obra sobre o Bem e o Mal. E daí se vê que os males aumentam e diminuem. Do mesmo modo, aqueles que se chamavam ambíguos, outrora exibiam-se publicamente e se entregavam a toda vergonha; mais recentemente foram expulsos pelas autoridades. E poderíamos dizer o mesmo de inúmeros males que surgiram na vida humana com a propagação da perversidade e que não existiam nas histórias mais antigas.

[436] Depois de argumentos como esses, e outros semelhantes, como poderá Celso escapar de parecer ridículo ao imaginar que jamais houve no passado, nem haverá no futuro, um número maior ou menor de males? Embora a natureza das coisas seja una e a mesma, não se segue daí que a produção dos males seja constante.

[437] Pois, embora a natureza de um indivíduo permaneça a mesma, sua mente, sua razão e suas ações não são sempre idênticas: houve um tempo em que ainda não possuía razão; outro em que, já racional, se achou manchado de maldade, maior ou menor; e outro, enfim, em que se dedicou à virtude, progredindo mais ou menos, até às vezes atingir o auge da perfeição.

[438] O mesmo podemos afirmar, em grau mais alto, do universo: embora seja um e o mesmo em espécie, nem as mesmas coisas, nem mesmo coisas semelhantes, ocorrem nele invariavelmente. Não temos sempre estações igualmente fecundas ou estéreis, nem períodos contínuos de chuva ou de seca. Assim também, quanto às almas virtuosas e à difusão maior ou menor do mal, a providência age ora preservando, ora purificando as coisas terrenas por dilúvios e conflagrações, e talvez isso não diga respeito apenas à terra, mas ao universo inteiro quando necessita de purificação.

[439] Depois disso, Celso prossegue: não é fácil, de fato, para quem não é filósofo, descobrir a origem dos males, embora baste à multidão dizer que eles não procedem de Deus, mas aderem à matéria e habitam entre as coisas mortais; enquanto o curso das coisas mortais, sendo o mesmo do começo ao fim, faz com que as mesmas coisas retornem sempre no passado, no presente e no futuro, de acordo com ciclos determinados.

[440] Ao dizer isso, Celso fala como se fosse fácil para um filósofo atingir tal conhecimento, e apenas difícil para quem não é filósofo. Nós, porém, respondemos que a origem dos males não é matéria fácil nem mesmo para o filósofo, e talvez seja impossível alcançar entendimento claro dela sem revelação divina, tanto sobre o que são os males quanto sobre como surgiram e como desaparecerão.

[441] Ainda que a ignorância de Deus seja um grande mal, e um dos maiores seja não saber como Deus deve ser servido e adorado, é evidente, como o próprio Celso admitiria, que muitos filósofos ignoraram isso, como mostram as divergências entre as escolas filosóficas. Segundo nosso juízo, ninguém pode conhecer a origem dos males se não souber que é ímpio imaginar que a piedade permanece intacta sob as leis estabelecidas pelos vários estados, de acordo com as formas comuns de governo.

[442] Ninguém, além disso, poderá discernir a origem dos males se não tiver ouvido o que se diz daquele que é chamado diabo e de seus anjos, quem ele era antes de tornar-se diabo, como se tornou tal, e qual foi a causa da apostasia simultânea daqueles chamados seus anjos. E quem deseja alcançar esse conhecimento deve investigar com maior exatidão a natureza dos demônios.

[443] Deve saber que eles não são obra de Deus no que diz respeito à sua condição demoníaca, mas apenas enquanto possuem razão; e deve ainda compreender qual foi sua origem, de modo que, tendo-se tornado demônios, as faculdades da mente permaneceram neles. E, se há algum tema de investigação humana difícil para nossa natureza apreender, certamente a origem dos males deve ser contado entre eles.

[444] Em seguida, Celso, como se pudesse revelar certos segredos sobre a origem dos males, mas preferisse calar-se e dizer apenas o que convém à multidão, continua assim: basta dizer ao povo que os males não procedem de Deus, mas aderem à matéria e habitam entre as coisas mortais.

[445] É verdade, certamente, que os males não procedem de Deus; pois, segundo Jeremias, é certo que da boca do Altíssimo não saem o mal e o bem no mesmo sentido. Mas sustentar que a matéria, habitando entre as coisas mortais, seja a causa dos males, isso, em nossa opinião, não é verdadeiro.

[446] Pois é a mente de cada indivíduo que é causa do mal que surge nele, e isso é o mal em sentido próprio; enquanto as ações que dela procedem são más. Falando com precisão, não vemos outro mal além desse. Reconheço, contudo, que esse assunto exige tratamento muito elaborado, possível somente àquele que, pela graça de Deus iluminando a mente, for considerado digno do conhecimento necessário.

[447] Não entendo como Celso julgou vantajoso, ao escrever contra nós, adotar a opinião de que o curso das coisas mortais é o mesmo do começo ao fim e que as mesmas coisas devem sempre, segundo ciclos determinados, retornar no passado, no presente e no futuro. Se isso fosse verdadeiro, o livre-arbítrio seria destruído.

[448] Pois, se na revolução das coisas mortais os mesmos acontecimentos devem perpetuamente ocorrer, então Sócrates será sempre filósofo, sempre condenado por introduzir deuses estranhos e corromper a juventude; Ânito e Meleto serão sempre seus acusadores; e o Areópago sempre o condenará a beber cicuta.

[449] Da mesma forma, Fálaris deverá sempre exercer a tirania; Alexandre de Feras sempre cometerá os mesmos atos de crueldade; e os condenados ao touro de Fálaris sempre lançarão dele os mesmos gemidos. Se assim for, não vejo como nosso livre-arbítrio pode ser preservado, nem como louvor ou censura podem ser administrados de maneira apropriada.

[450] E poderíamos acrescentar que, segundo esses mesmos ciclos, Moisés deverá novamente sair do Egito com o povo judeu, e Jesus deverá voltar a habitar na vida humana e praticar os mesmos atos, não uma vez, mas inúmeras, conforme os períodos se repetem. Também os cristãos serão os mesmos, e o próprio Celso escreverá de novo este tratado que, segundo essa tese, já escreveu incontáveis vezes.

[451] Celso, contudo, diz que é apenas o curso das coisas mortais que, segundo os ciclos determinados, deve ser sempre o mesmo; ao passo que a maioria dos estoicos sustenta isso não só acerca das coisas mortais, mas também das imortais e até daqueles que consideram deuses. Pois, depois da conflagração do mundo, ocorrida incontáveis vezes no passado e que ocorrerá incontáveis vezes no futuro, haverá sempre a mesma disposição de todas as coisas do princípio ao fim.

[452] Os estoicos, tentando escapar às objeções, afirmam que, a cada novo ciclo, não voltarão os mesmos indivíduos, mas outros totalmente semelhantes aos anteriores; de sorte que não seria Sócrates quem voltaria, mas alguém exatamente igual a Sócrates, casado com uma mulher exatamente igual a Xantipa e acusado por homens exatamente iguais a Ânito e Meleto.

[453] Eu, porém, não entendo como o mundo poderia ser sempre o mesmo, sem que os indivíduos diferissem uns dos outros, e, ao mesmo tempo, as coisas nele não serem as mesmas, ainda que fossem exatamente semelhantes. Mas o exame mais completo dessas afirmações de Celso e dos estoicos convém a outro lugar, pois no presente não é compatível com nosso propósito estender-nos mais sobre isso.

[454] Ele continua dizendo que as coisas visíveis não foram dadas ao homem por Deus, mas que cada coisa individual vem à existência e perece em favor da conservação do todo, passando, conforme a mudança já mencionada, de uma coisa a outra.

[455] Não é necessário deter-nos muito na refutação dessas afirmações, pois já foram respondidas da melhor forma possível, assim como também o foi a tese de que não haverá nem mais nem menos bem e mal entre os mortais. Também já tratamos do ponto segundo o qual Deus não precisaria corrigir de novo Sua obra.

[456] Deus, porém, não corrige o mundo como um homem que tenha planejado imperfeitamente alguma peça de trabalho e a tenha executado sem arte. Antes, purifica-o por um dilúvio ou por uma conflagração para impedir que a onda do mal se levante ainda mais, e creio que o faz em tempos precisamente determinados de antemão, visando ao bem do conjunto.

[457] Pois, embora no ato da criação todas as coisas tenham sido dispostas por Ele da maneira mais bela e estável, ainda assim tornou-se necessário exercer um poder curativo sobre os que padeciam da doença da maldade, e sobre um mundo inteiro que, por assim dizer, por ela havia sido contaminado. Nada foi negligenciado por Deus, nem o será; em cada conjuntura Ele faz o que convém fazer em um mundo desviado e alterado, do mesmo modo que um agricultor executa diferentes trabalhos na terra conforme as estações do ano.

[458] Celso fez também uma afirmação desta natureza a respeito dos males: ainda que algo te pareça mau, não é de modo algum certo que o seja, pois não sabes o que é vantajoso para ti, para outro ou para o mundo inteiro. Há nessa declaração certa cautela, e ela insinua que a natureza do mal não é absolutamente má, porque aquilo que em casos particulares parece ser mal pode conter algo útil para a comunidade inteira.

[459] Todavia, para que ninguém entenda mal minhas palavras e encontre nelas pretexto para o erro, como se sua própria maldade fosse útil ao mundo, ou ao menos pudesse sê-lo, devemos dizer o seguinte: embora Deus, preservando o livre-arbítrio de cada um, possa usar o mal dos maus na administração do mundo, dispondo-o de tal modo que contribua para o bem do conjunto, nem por isso o indivíduo mau deixa de ser digno de censura.

[460] Ele é designado para um uso que é odioso a cada indivíduo em particular, ainda que vantajoso à coletividade. É como se, numa cidade, um homem que houvesse cometido certos crimes fosse condenado a prestar serviços públicos úteis à comunidade; poder-se-ia dizer que sua atividade aproveita à cidade inteira, embora ele mesmo esteja empenhado numa ocupação ignóbil, na qual ninguém de entendimento moderado desejaria ocupar-se.

[461] Paulo, apóstolo de Jesus, ensina também que até os muito maus contribuirão para o bem do conjunto, embora em si mesmos permaneçam entre os vasos desprezíveis; enquanto os muito virtuosos serão de máxima utilidade ao mundo e por isso ocuparão a posição mais nobre. Suas palavras são estas: numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; uns para honra, outros para desonra. Se, pois, alguém se purificar, será vaso para honra, santificado e útil ao Senhor, preparado para toda boa obra. Julguei necessário fazer essas observações em resposta à afirmação de que aquilo que te parece mal talvez não o seja, a fim de que ninguém tome ocasião para pecar sob o pretexto de que assim seria útil ao mundo.

[462] Mas, como adiante Celso, sem compreender que a linguagem da escritura a respeito de Deus se acomoda a um modo humano de falar sobre afeições, ridiculariza as passagens que falam de palavras de ira dirigidas aos ímpios e de ameaças contra os pecadores, devemos dizer o seguinte: assim como nós mesmos, quando falamos com crianças muito pequenas, não procuramos exibir a nossa eloquência, mas nos adaptamos à fraqueza daqueles que estão sob nosso cuidado, dizendo e fazendo o que nos parece útil para a correção e o aperfeiçoamento delas, assim também a palavra de Deus parece ter tratado a história tomando como medida tanto a capacidade dos ouvintes quanto o proveito que receberiam daquilo que lhes era anunciado sobre Ele.

[463] De modo geral, quanto a esse estilo de falar sobre Deus, encontramos em Deuteronômio esta expressão: “O Senhor teu Deus suportou os teus costumes, como um homem suporta os costumes de seu filho”. É, por assim dizer, assumindo o modo humano de falar para benefício dos homens que a escritura emprega tais expressões, pois não convinha à condição da multidão que aquilo que Deus tinha a lhes dizer fosse expresso de um modo mais adequado à majestade da sua própria pessoa.

[464] Contudo, aquele que deseja alcançar uma verdadeira compreensão da santa escritura descobrirá as verdades espirituais que ela comunica aos que são chamados espirituais, comparando o sentido daquilo que é dito aos de mente mais fraca com o que é anunciado aos de entendimento mais agudo; e muitas vezes ambos os sentidos se encontram na mesma passagem, para quem é capaz de compreendê-los.

[465] Nós falamos, de fato, da ira de Deus. Não afirmamos, porém, que isso indique alguma paixão nEle, mas sim algo assumido para disciplinar por meios severos os pecadores que cometeram muitos e grandes pecados.

[466] Aquilo que se chama ira e indignação de Deus é um meio de disciplina; e que essa visão concorda com a escritura fica evidente no que se diz no sexto salmo: “Senhor, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor”, e também em Jeremias: “Corrige-me, Senhor, mas com juízo; não na tua ira, para que não me reduzas a nada”.

[467] Além disso, quem lê no segundo livro dos Reis que a ira de Deus levou Davi a contar o povo, e encontra no primeiro livro das Crônicas que foi o diabo quem sugeriu isso, verá facilmente, ao comparar as duas passagens, com que propósito essa ira é mencionada; e dessa ira, como declara o apóstolo Paulo, todos os homens são filhos: “éramos por natureza filhos da ira, como também os demais”.

[468] Fica claro ainda que essa ira não é paixão em Deus, mas algo que cada um atrai sobre si por seus próprios pecados, conforme Paulo diz: “Ou desprezas as riquezas da sua bondade, tolerância e longanimidade, não sabendo que a bondade de Deus te conduz ao arrependimento? Mas, por tua dureza e coração impenitente, acumulas para ti ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus”. Como, então, alguém pode acumular para si ira, se ira for entendida no sentido de paixão? E como uma paixão poderia servir de ajuda à disciplina?

[469] Além disso, a escritura, que nos manda não nos irarmos de modo algum, que diz no trigésimo sétimo salmo: “cessa da ira e abandona o furor”, e que nos ordena pela boca de Paulo a deixar “ira, cólera, malícia, blasfêmia e linguagem obscena”, não atribuiria a Deus a mesma paixão da qual quer que sejamos inteiramente livres. Também se vê que a linguagem sobre a ira de Deus é figurada pelo que se diz a respeito do seu sono, quando o profeta clama: “Desperta, por que dormes, Senhor?”, e ainda: “Então o Senhor despertou como de um sono, como um homem valente que grita por causa do vinho”. Se o sono deve significar outra coisa além do sentido mais imediato da palavra, por que a ira não deveria ser entendida de modo semelhante? As ameaças, por sua vez, são avisos dos castigos que sobrevirão aos ímpios, assim como alguém poderia chamar de ameaças as palavras de um médico quando diz ao doente: “Terei de usar o bisturi e aplicar cautérios se você não obedecer às minhas prescrições”. Portanto, não são paixões humanas que atribuímos a Deus, nem opiniões ímpias que temos a respeito dEle; e não erramos quando apresentamos as várias narrativas sobre Ele tiradas das próprias escrituras, comparando-as cuidadosamente entre si, pois os sábios embaixadores da palavra não têm outro objetivo senão libertar seus ouvintes de opiniões fracas e revesti-los de entendimento.

[470] E, como consequência de não compreender as passagens sobre a ira de Deus, Celso prossegue dizendo: “Não é ridículo supor que, enquanto um homem, que se irou contra os judeus, matou todos eles desde a juventude e queimou sua cidade, o poderoso Deus, como dizem, irado e indignado, em vez de puni-los, enviou seu próprio Filho, que padeceu o que padeceu?”

[471] Ora, se os judeus, depois do que ousaram fazer contra Jesus, pereceram com toda a sua juventude e tiveram a cidade consumida pelo fogo, sofreram esse castigo por nenhuma outra ira senão aquela que acumularam para si mesmos; pois o juízo de Deus contra eles, determinado pelo desígnio divino, é chamado ira conforme o uso tradicional dos hebreus. E aquilo que o Filho do Deus poderoso sofreu, sofreu-o voluntariamente para a salvação dos homens, como já expus da melhor maneira possível nas páginas anteriores.

[472] Depois ele acrescenta: “Mas, para que eu não fale apenas dos judeus, pois não é esse o meu objetivo, e sim da natureza inteira, como prometi, mostrarei com maior clareza o que já foi dito”. Que homem modesto, ao ler essas palavras e conhecer a fraqueza humana, não se indignaria com a insolência de prometer tratar da natureza inteira e com a arrogância que o levou até a intitular seu livro com o nome que ousou lhe dar, “Discurso verdadeiro”? Vejamos, então, o que ele tem a dizer sobre a natureza inteira e o que pretende lançar em mais clara luz.

[473] Em seguida, em muitas palavras, ele nos censura por afirmarmos que Deus fez todas as coisas por causa do homem. A partir da história dos animais e da sagacidade que neles se manifesta, ele quer mostrar que todas as coisas vieram à existência não mais por causa do homem do que por causa dos animais irracionais.

[474] E aqui me parece falar de modo semelhante aos que, por ódio aos seus inimigos, os acusam das mesmas coisas pelas quais seus próprios amigos são elogiados. Assim como, nesse caso, o ódio cega essas pessoas e as impede de perceber que, pelos mesmos meios com que pensam difamar seus inimigos, estão na verdade acusando seus amigos mais queridos, do mesmo modo Celso, confundindo-se em seu argumento, não vê que está acusando os filósofos do Pórtico, que não sem razão colocam o homem em primeiro lugar e a natureza racional em geral acima dos animais irracionais, sustentando que a providência criou todas as coisas principalmente por causa da natureza racional.

[475] Os seres racionais, sendo os principais, ocupam o lugar, por assim dizer, do filho no ventre; já os seres irracionais e sem alma ocupam o lugar do envoltório que é criado juntamente com a criança. Penso também que, assim como nas cidades os administradores dos mercados e dos bens desempenham suas funções não por causa de nenhum outro senão dos seres humanos, embora cães e outros animais irracionais se beneficiem da abundância excedente, assim também a providência provê de modo especial para as criaturas racionais, ainda que disso também se sigam benefícios para as irracionais.

[476] E, assim como erra quem afirma que os administradores do mercado não fazem provisão em maior grau para os homens do que para os cães, só porque os cães também recebem sua parte dos bens, muito mais gravemente erram Celso e os que pensam como ele, cometendo impiedade contra o Deus que provê para os seres racionais, ao dizerem que suas disposições não são feitas em maior grau para o sustento dos homens do que para o das plantas, árvores, ervas e espinhos.

[477] Em primeiro lugar, ele opina que trovões, relâmpagos e chuvas não são obras de Deus, revelando afinal com mais clareza sua inclinação epicurista. Em segundo lugar, mesmo que se concedesse que essas coisas são obras de Deus, ele afirma que elas vêm à existência não mais para o sustento de nós, seres humanos, do que para o das plantas, árvores, ervas e espinhos; sustentando, como um verdadeiro epicurista, que tais coisas são produto do acaso, e não obra da providência.

[478] Pois, se essas coisas não nos são mais úteis do que às plantas, árvores, ervas e espinhos, então é evidente que ou elas não procedem de providência alguma, ou procedem de uma providência que não cuida de nós em grau maior do que cuida das árvores, das ervas e dos espinhos. Ora, qualquer uma dessas suposições é impiedade em si mesma, e seria tolice refutar tais afirmações respondendo a quem nos acusasse de impiedade, pois é manifesto para qualquer um, pelo que já foi dito, quem é realmente o culpado de impiedade.

[479] Depois ele acrescenta: “Ainda que digais que essas coisas, isto é, plantas, árvores, ervas e espinhos, nasceram para os homens, como tendes razão de dizer também que nasceram para os animais mais selvagens?” A isso respondemos que, assim como os frutos da terra foram produzidos principalmente para os seres racionais, também os animais irracionais se beneficiam do que foi feito por causa dos homens.

[480] Portanto, não porque outras criaturas participem do que foi preparado em vista do homem segue-se que a disposição inteira tenha sido ordenada igualmente para elas. O fato de partilharem do benefício não suprime a ordem principal da providência, que visa em primeiro lugar a natureza racional.

[481] Depois disso, querendo manter que a providência criou os produtos da terra não mais em nosso favor do que em favor dos animais mais ferozes, Celso diz: “Nós, de fato, por trabalho e sofrimento, ganhamos uma subsistência escassa e penosa, enquanto para eles todas as coisas são produzidas sem semear nem arar”.

[482] Ele não percebe que Deus, querendo exercitar o entendimento humano em todas as regiões para que não permanecesse ocioso e ignorante das artes, criou o homem como um ser cheio de necessidades, a fim de que, precisamente por sua condição carente, fosse compelido a inventar artes, algumas voltadas para seu sustento e outras para sua defesa. Era melhor que os que não buscariam as coisas divinas nem se dedicariam ao estudo da filosofia fossem colocados em estado de necessidade, para empregar a inteligência na invenção das artes, do que deixassem completamente de cultivar a mente por viverem em abundância.

[483] A falta das coisas necessárias à vida humana levou à invenção, de um lado, da agricultura e, de outro, do cultivo da vinha; depois, à jardinagem e às artes da carpintaria e da forja, pelas quais foram feitos os instrumentos necessários às artes que sustentam a vida. A carência de vestimenta introduziu a tecelagem, precedida do cardar e do fiar; e depois a construção de casas, de modo que a inteligência humana subiu até mesmo à arte da arquitetura.

[484] A falta do necessário fez também com que os produtos de outras regiões fossem transportados, pelas artes da navegação e do pilotar, para aqueles que deles careciam; de modo que, também por isso, se pode admirar a providência que sujeitou o ser racional a maior necessidade do que os animais irracionais, e ainda assim tudo visando o seu bem. Pois os irracionais têm alimento provido porque neles não existe sequer um impulso para inventar as artes; além disso, possuem cobertura natural, tendo pelos, asas, escamas ou conchas. Seja essa, portanto, a nossa resposta à afirmação de Celso de que nós ganhamos com trabalho uma subsistência penosa, enquanto tudo é produzido para os outros sem semeadura nem arado.

[485] Em seguida, esquecendo que seu objetivo é acusar tanto judeus quanto cristãos, ele cita contra si mesmo um verso jambo de Eurípides, contrário à sua própria posição, e, entrando em controvérsia com essas palavras, acusa-as de erro. Ele diz: “Mas, se quiserdes citar a palavra de Eurípides, de que ‘o Sol e a Noite são escravos dos mortais’, por que o seriam mais para nós do que para as formigas e as moscas? Pois a noite foi criada para que elas descansem, e o dia para que vejam e retomem seu trabalho”.

[486] Ora, é indiscutível que não apenas alguns judeus e cristãos declararam que o sol e os corpos celestes estão a nosso serviço; também o disse aquele que, segundo alguns, foi o filósofo do teatro, ouvinte das lições de filosofia natural de Anaxágoras. Esse homem afirma que todas as coisas no mundo estão sujeitas a todos os seres racionais, tomando uma natureza racional por todas, segundo o princípio de que a parte pode representar o todo; e isso aparece claramente no verso: “O Sol e a Noite são escravos dos mortais”.

[487] Talvez o poeta trágico tenha querido dizer o dia quando falou do sol, já que o sol é a causa do dia, ensinando que aquilo que mais necessita do dia e da noite são as coisas que estão sob a lua, e em menor grau as demais. Dia e noite, portanto, estão sujeitos aos mortais, tendo sido criados por causa dos seres racionais. E, se as formigas e as moscas, que trabalham de dia e descansam de noite, também se beneficiam dessas coisas criadas por causa dos homens, não se deve dizer que o dia e a noite vieram à existência por causa das formigas e das moscas, nem supor que foram criados sem finalidade, mas que, conforme o desígnio da providência, foram formados por causa do homem.

[488] Em seguida, Celso prossegue objetando contra si mesmo o que se diz em favor do homem, a saber, que os animais irracionais foram criados por sua causa, dizendo: “Se alguém nos chamasse senhores da criação animal porque caçamos os outros animais e vivemos de sua carne, responderíamos: por que não fomos nós antes criados por causa deles, já que eles nos caçam e devoram?”

[489] “Além disso”, diz ele, “nós precisamos de redes, armas, da ajuda de muitos homens e ainda de cães quando vamos caçar, ao passo que eles recebem imediatamente e espontaneamente da natureza armas que facilmente nos colocam sob seu poder”. A isso observamos que o dom do entendimento nos foi dado como um auxílio poderosíssimo, muito superior a qualquer arma que as feras pareçam possuir. Nós, embora muito mais fracos corporalmente e menores do que algumas delas, por meio do entendimento as dominamos e capturamos até os enormes elefantes.

[490] Submetemos por nosso trato brando aqueles animais cuja natureza permite domesticação; e, quanto aos que têm natureza diversa ou não parecem úteis quando domados, tomamos tais medidas de precaução que, quando queremos, os mantemos encerrados, e, quando precisamos de sua carne para alimento, os abatemos, como fazemos com os animais não ferozes. O Criador, portanto, constituiu todas as coisas como servas do ser racional e do entendimento que lhe é natural. De alguns animais precisamos para certas finalidades, como os cães para guardar apriscos, currais, pastos e casas; de outros, como os bois, para a lavoura; de outros ainda, como os de jugo e de carga, para diversos serviços. E assim pode-se dizer que a raça dos leões, ursos, leopardos, javalis e semelhantes nos foi dada para pôr em exercício os elementos de coragem viril existentes em nós.

[491] Em seguida, respondendo à raça humana, que percebe sua superioridade sobre os animais irracionais, Celso diz: “Quanto à vossa afirmação de que Deus vos deu poder para capturar as feras e delas fazer uso, diríamos que, muito provavelmente, antes de se construírem cidades, de se inventarem artes, de se formarem as sociedades de agora e de se empregarem armas e redes, os homens eram em geral apanhados e devorados pelas feras, enquanto as feras raramente eram capturadas pelos homens”.

[492] Quanto a isso, observemos que, embora os homens capturem feras e as feras façam presa dos homens, há grande diferença entre o caso daqueles que, por meio do entendimento, alcançam domínio sobre seres cuja superioridade consiste em natureza selvagem e cruel, e o daqueles que não usam o entendimento para se preservar do dano das feras. Quando Celso fala do tempo “antes que as cidades fossem construídas, as artes inventadas e as sociedades formadas”, parece ter esquecido o que antes havia dito, que o mundo era incriado e incorruptível, e que apenas as coisas da terra passavam por dilúvios e conflagrações, e que tais eventos não aconteciam todos ao mesmo tempo.

[493] Conceda-se, porém, que essas admissões estejam em total harmonia com nossas opiniões, ainda que de modo nenhum com ele e suas afirmações anteriores; que aproveita isso para provar que no princípio os homens eram sobretudo capturados e devorados por feras, e que as feras nunca eram capturadas pelos homens? Pois, já que o mundo foi criado conforme a vontade da providência e Deus presidia o universo, era necessário que os primeiros elementos da raça humana, em seu início, fossem colocados sob alguma proteção dos poderes superiores, para que desde o princípio se formasse certa união entre a natureza divina e a dos homens. E o poeta de Ascra, percebendo isso, canta: “Comuns então eram os banquetes, e comuns os assentos, igualmente para deuses imortais e homens mortais”.

[494] Além disso, as santas escrituras que levam o nome de Moisés apresentam os primeiros homens ouvindo vozes e oráculos divinos, e às vezes contemplando os anjos de Deus que vinham visitá-los. Era provável, de fato, que no começo da existência do mundo a natureza humana recebesse maior auxílio do que depois, até que tivesse avançado no entendimento, nas demais virtudes e na invenção das artes, podendo então sustentar a vida por si mesma e não mais necessitar de supervisores e guias que o fizessem com manifestação milagrosa dos meios subordinados à vontade de Deus.

[495] Disso se segue que é falsa a afirmação de que, no princípio, os homens eram capturados e devorados pelas feras, enquanto as feras raramente eram capturadas pelos homens. E fica igualmente claro que é falsa a declaração de Celso de que, desse modo, Deus teria submetido os homens às feras.

[496] Pois Deus não submeteu os homens às feras, mas entregou as feras como presa ao entendimento do homem e às artes dirigidas contra elas, que são produto desse mesmo entendimento. Não foi sem a ajuda de Deus que os homens desejaram para si os meios de proteção contra as feras e de domínio sobre elas.

[497] Nosso nobre adversário, porém, sem notar quantos filósofos admitem a existência da providência e sustentam que ela criou todas as coisas por causa dos seres racionais, destrói, quanto pode, doutrinas úteis para mostrar a harmonia que existe nessas matérias entre o cristianismo e a filosofia. Tampouco percebe o grande prejuízo que se causa à religião ao aceitar a afirmação de que, diante de Deus, não há diferença entre um homem e uma formiga ou uma abelha.

[498] Ele acrescenta que, se os homens parecem superiores aos animais irracionais porque construíram cidades, usam constituições políticas, formas de governo e soberanias, isso nada prova, pois as formigas e as abelhas fazem o mesmo. As abelhas, de fato, têm um soberano, seguidores e servidores; entre elas há guerras e vitórias, matança dos vencidos, cidades e subúrbios, sucessão de trabalhos e juízos contra as ociosas e más; pois os zangões são expulsos e punidos.

[499] Aqui ele não observou a diferença entre o que se faz por razão e reflexão e aquilo que é resultado de uma natureza irracional e puramente mecânica. A origem dessas coisas não se explica pela presença de algum princípio racional naqueles que as fazem, porque não possuem tal princípio; mas o Ser mais antigo, que é também o Filho de Deus e Rei de tudo quanto existe, criou uma natureza irracional que, exatamente por ser irracional, serve de auxílio àqueles que foram considerados dignos da razão.

[500] As cidades, portanto, foram estabelecidas entre os homens com muitas artes e leis bem ordenadas; e constituições, governos e soberanias entre os homens são ou propriamente assim chamados, exemplificando certas disposições e operações virtuosas, ou então impropriamente assim chamados, quando foram instituídos, na medida do possível, em imitação dos primeiros. Nenhuma dessas coisas, contudo, se encontra entre os irracionais, embora Celso transfira nomes racionais e arranjos próprios de seres racionais, como cidades, constituições, governantes e soberanias, até mesmo para formigas e abelhas. Nessas matérias elas não merecem aprovação, porque não agem por reflexão. Devemos admirar, antes, a natureza divina, que estendeu até aos animais irracionais uma capacidade como que imitativa dos seres racionais, talvez para envergonhar os racionais, de modo que, contemplando as formigas, tornem-se mais diligentes e econômicos, e considerando as abelhas, submetam-se ao seu Governante e assumam suas partes nos deveres políticos úteis à segurança das cidades.

[501] Talvez também as chamadas guerras entre as abelhas instruam quanto ao modo como as guerras, se alguma vez houver necessidade delas, devem ser travadas com justiça e ordem entre os homens. Mas as abelhas não possuem cidades nem subúrbios; seus favos, células hexagonais e sucessão de trabalhos existem por causa dos homens, que necessitam do mel para muitos usos, tanto para a cura dos corpos enfermos quanto como alimento puro.

[502] Não devemos comparar os atos das abelhas contra os zangões aos juízos e punições infligidos aos ociosos e maus nas cidades. Como já disse, importa, de um lado, admirar nessas coisas a natureza divina e, de outro, admirar o homem, capaz de considerar e admirar todas as coisas como cooperando com a providência, e de realizar não apenas as obras determinadas pela providência de Deus, mas também aquelas que decorrem de sua própria previdência.

[503] Depois de falar das abelhas, para depreciar, quanto pode, não apenas as cidades, constituições, governos e soberanias de nós cristãos, mas as de toda a humanidade, bem como as guerras que os homens empreendem por suas pátrias, Celso passa, em digressão, a elogiar as formigas. E faz isso para, louvando-as, comparar as medidas que os homens tomam para garantir seu sustento às adotadas por esses insetos, mostrando desprezo pela previdência humana que prepara o inverno, como se ela não fosse nada superior à providência irracional das formigas.

[504] Não poderiam os mais simples, e os que não sabem examinar a natureza de todas as coisas, ser desviados, ao menos na medida em que Celso pudesse consegui-lo, de ajudar os que estão oprimidos pelos fardos da vida e de compartilhar seus trabalhos, quando ele diz das formigas que elas ajudam umas às outras com suas cargas, ao verem uma delas penando sob o peso? Pois aquele que precisa ser disciplinado pela palavra, mas não entende sua voz, dirá: se, então, não há diferença entre nós e as formigas nem mesmo quando ajudamos os cansados a carregar pesos, por que continuar fazendo isso em vão?

[505] E não ficariam as próprias formigas, por serem irracionais, grandemente inchadas e cheias de si porque suas obras foram comparadas às dos homens? Enquanto isso, os homens, que por sua razão podem ouvir como sua filantropia para com os outros é desprezada, seriam prejudicados, tanto quanto Celso e seus argumentos pudessem fazê-lo. Ele não percebe que, ao querer afastar do cristianismo os que leem seu tratado, afasta também a compaixão daqueles que não são cristãos para com os que carregam os mais pesados fardos da vida.

[506] Se fosse realmente filósofo e capaz de perceber o bem que os homens podem fazer uns aos outros, ele deveria, além de não suprimir juntamente com o cristianismo os bens encontrados entre os homens, oferecer sua ajuda para cooperar, se estivesse em seu poder, com aqueles princípios de excelência comuns ao cristianismo e ao restante da humanidade. E, ainda que as formigas separem em lugar distinto os grãos que brotam para que não inchem em botão e permaneçam como alimento durante o ano, isso não deve ser considerado prova de razão nas formigas, mas obra da mãe universal, a Natureza, que adornou até os animais irracionais, de modo que nem mesmo o mais insignificante foi omitido, antes traz em si vestígios da razão nela implantada pela natureza. A não ser que, por essas afirmações, Celso queira insinuar obscuramente, como em muitas ocasiões parece inclinar-se a ideias platônicas, que todas as almas são da mesma espécie e que não há diferença entre a alma do homem e a das formigas e abelhas, o que seria próprio de alguém que faz descer a alma da abóbada do céu e a faz entrar não só em corpo humano, mas também em corpo animal. Os cristãos, porém, não consentirão com tais opiniões, porque foram instruídos de que a alma humana foi criada à imagem de Deus e veem ser impossível que uma natureza moldada segundo a imagem divina tenha seus traços originais totalmente apagados e assuma outros, formados segundo sabe-se lá qual semelhança de animais irracionais.

[507] E, visto que ele afirma que, quando as formigas morrem, as sobreviventes separam um lugar especial para o enterro, sendo este, segundo diz, o seu sepulcro ancestral, devemos responder que, quanto maiores forem os louvores que ele derrama sobre os animais irracionais, tanto mais ele magnifica, mesmo contra a própria vontade, a obra daquela razão que tudo dispôs em ordem. Com isso, acaba apontando a habilidade que existe entre os homens e que é capaz de adornar com sua razão até mesmo os dons que a natureza concedeu à criação irracional.

[508] Mas por que digo irracional, se Celso opina que esses animais, que de acordo com as ideias comuns de todos os homens são chamados irracionais, na verdade não o são? Ele não considera as formigas desprovidas de razão, ele que se propôs falar da natureza universal e que se gabou de veracidade na inscrição do seu livro. Falando das formigas conversando umas com as outras, usa estas palavras: “E, quando se encontram, entram em conversa; por isso nunca erram o caminho; consequentemente possuem plena dotação de razão, algumas noções comuns sobre certos assuntos gerais e uma voz pela qual se expressam acerca das coisas acidentais”. Ora, a conversa entre um homem e outro se dá por meio de uma voz que exprime o pensamento pretendido e que também fala sobre o que se chama coisas acidentais; mas dizer que isso acontece com formigas é afirmação muitíssimo ridícula.

[509] Ele não se envergonha, além disso, de dizer, para que o caráter indecoroso de suas opiniões fique manifesto aos que viverão depois dele: “Vinde, se alguém olhasse do céu para a terra, em que nossas ações pareceriam diferir das das formigas e das abelhas?” Ora, aquele que, segundo a própria suposição de Celso, olha do céu para os atos de homens e formigas, olha apenas para os corpos, e não antes para o princípio diretor que entra em ação por reflexão, enquanto o princípio diretor destas é irracional e posto em movimento irracionalmente por impulso e imaginação, em conjunto com certo aparato natural?

[510] É absurdo supor que quem olha do céu para as coisas terrenas desejaria contemplar, de tão grande distância, os corpos de homens e formigas, e não antes considerar a natureza dos princípios dirigentes e a origem dos impulsos, se estes são racionais ou irracionais. E, se ele olhar para a fonte de todos os impulsos, verá claramente a diferença e a superioridade do homem, não apenas sobre as formigas, mas até mesmo sobre os elefantes. Pois quem olha do céu verá entre as criaturas irracionais, por maiores que sejam seus corpos, nada além de irracionalidade, por assim dizer; ao passo que entre os seres racionais descobrirá a razão, patrimônio comum dos homens, dos seres divinos e celestes, e talvez do próprio Deus supremo, por causa da qual se diz que o homem foi criado à imagem de Deus, pois a imagem do Deus supremo é a sua razão.

[511] Logo depois, como se fizesse o máximo para rebaixar ainda mais a raça humana, nivelando-a aos animais irracionais, e não querendo omitir nenhuma circunstância relatada acerca destes que manifeste alguma grandeza, ele declara que em certos indivíduos da criação irracional existe poder de feitiçaria. Assim, nem mesmo nesse ponto os homens poderiam orgulhar-se especialmente nem reivindicar superioridade sobre os irracionais.

[512] Estas são as suas palavras: “Se, contudo, os homens têm pensamentos elevados por possuírem o poder de feitiçaria, ainda nisso serpentes e águias lhes são superiores em sabedoria; pois conhecem muitos meios preventivos contra pessoas e doenças, bem como as virtudes de certas pedras que ajudam a preservar seus filhotes. Se os homens, porém, descobrem essas coisas, pensam ter obtido maravilhosa posse”. Ora, em primeiro lugar, não sei por que ele chama de feitiçaria o conhecimento de meios naturais de prevenção demonstrado pelos animais, seja esse conhecimento fruto da experiência, seja de algum poder natural de apreensão, pois o termo feitiçaria, pelo uso, foi reservado a outra coisa.

[513] Talvez, na verdade, ele queira discretamente, como epicurista, censurar todo o uso dessas artes, como se repousassem apenas nas alegações dos feiticeiros. Contudo, conceda-se que os homens se orgulhem muito do conhecimento de tais artes, sejam feiticeiros ou não. Como podem então as serpentes ser mais sábias que os homens, se usam o conhecido funcho para aguçar a visão e adquirir rapidez de movimento, tendo recebido esse poder não do exercício da reflexão, mas da constituição do corpo, enquanto os homens não chegam a esse conhecimento como as serpentes, meramente por natureza, e sim em parte pela experiência, em parte pela razão, e às vezes pela reflexão e pelo saber? E, se também as águias, para preservar os filhotes no ninho, levam para lá a chamada pedra da águia depois de tê-la encontrado, como isso prova que são sábias e mais inteligentes do que os homens, que descobrem por faculdades reflexivas e entendimento aquilo que foi dado pela natureza às águias como dom?

[514] Conceda-se, contudo, que existam outros remédios preventivos contra venenos conhecidos dos animais. Que proveito há nisso para demonstrar que não é a natureza, mas a razão, que os leva à descoberta de tais coisas? Pois, se a razão fosse a descobridora, não seria apenas isto, ou uma ou duas coisas mais, a única descoberta das serpentes, nem uma outra coisa isolada a única descoberta das águias, e assim por diante com os demais animais; antes, tantas descobertas teriam sido feitas entre eles quantas o foram entre os homens.

[515] Mas agora é manifesto, pela inclinação determinada da natureza de cada animal para certos tipos de auxílio, que eles não possuem sabedoria nem razão, mas certa tendência constitucional natural implantada pelo Logos para tais coisas, a fim de garantir a preservação do animal. E, de fato, se eu quisesse discutir com Celso esse ponto, poderia citar as palavras de Salomão no livro de Provérbios: “Há quatro coisas pequenas sobre a terra, mas mais sábias do que os sábios: as formigas, povo sem força, que preparam no verão o seu alimento; os coelhos, povo débil, que fazem suas casas nas rochas; os gafanhotos, que não têm rei e, contudo, saem todos em ordem; e a lagartixa, que, apoiando-se com as mãos e sendo fácil de capturar, habita nos palácios dos reis”.

[516] Não cito essas palavras, porém, tomando-as em sua significação literal, mas, conforme o título do livro, porque se chama Provérbios, investigo-as como contendo sentido oculto. Pois é costume desses escritores distribuir em muitas classes os escritos que exprimem um sentido quando tomados literalmente, mas transmitem outro significado como sentido escondido; e uma dessas classes de escrita é justamente a dos provérbios.

[517] Por essa razão, também em nossos evangelhos, o Salvador é descrito dizendo: “Estas coisas vos tenho falado em provérbios, mas vem a hora em que não vos falarei mais em provérbios”. Não são, portanto, as formigas visíveis que são mais sábias que os sábios, mas aqueles que sob estilo proverbial são indicados por elas. E a mesma conclusão deve ser aplicada ao restante da criação animal, embora Celso considere os livros de judeus e cristãos extremamente simples e vulgares, imaginando que os que lhes dão interpretação alegórica violentam o sentido dos escritores. Pelo que dissemos, fique claro que Celso nos calunia em vão e que sua afirmação de que serpentes e águias são mais sábias do que os homens também recebe sua refutação.

[518] E, querendo mostrar com mais extensão que mesmo os pensamentos sobre Deus entretidos pela raça humana não são superiores aos de todas as demais criaturas mortais, mas que certos animais irracionais seriam capazes de pensar acerca dAquele a respeito de quem existiram opiniões tão discordantes entre os homens mais agudos, gregos e bárbaros, ele prossegue: “Se, porque o homem foi capaz de alcançar a ideia de Deus, é considerado superior aos outros animais, saibam os que sustentam isso que essa capacidade será reivindicada também por muitos outros animais, e com razão. Pois o que alguém sustentaria ser mais divino do que o poder de prever e predizer os acontecimentos futuros?”

[519] “Os homens”, continua ele, “adquirem essa arte dos outros animais, sobretudo das aves; e os que prestam atenção às indicações fornecidas por elas tornam-se possuidores do dom profético. Se, então, as aves e os outros animais proféticos, habilitados pelo dom de Deus a prever eventos, nos instruem por sinais, tanto mais parecem estar próximos da sociedade de Deus, possuir maior sabedoria e ser mais amados por Ele. Além disso, os homens mais inteligentes dizem que os animais realizam assembleias mais sagradas do que as nossas e que sabem o que nelas se diz; e demonstram possuir esse conhecimento quando, tendo previamente anunciado que as aves declararam sua intenção de partir para determinado lugar e de fazer esta ou aquela coisa, a verdade de suas afirmações é confirmada pela partida das aves e pela realização do que foi predito”.

[520] “E nenhuma raça de animais”, diz ele, “parece observar os juramentos com mais rigor do que os elefantes, nem mostrar maior devoção às coisas divinas; e isso, suponho, unicamente porque possuem algum conhecimento de Deus”. Vê-se aqui como ele logo se apodera e apresenta como fatos reconhecidos questões que são objeto de disputa entre filósofos, não só gregos, mas também bárbaros, os quais ou descobriram ou aprenderam de certos demônios algumas coisas sobre aves agoureiras e outros animais, por meio das quais se diz que algumas indicações proféticas são dadas aos homens.

[521] Pois, em primeiro lugar, discute-se se existe de fato uma arte augural e, em geral, um método de adivinhação por meio dos animais. E, em segundo lugar, os que admitem essa arte não concordam quanto ao modo como tal adivinhação acontece: alguns sustentam que são certos demônios ou deuses da adivinhação que comunicam aos animais seus impulsos para agir, às aves para voos e sons diversos, e aos outros animais para movimentos de vários tipos; outros, por sua vez, pensam que as almas desses animais são mais divinas por natureza e aptas a tais operações, o que é hipótese extremamente incrível.

[522] Celso, porém, já que quis provar por essas afirmações que os animais irracionais são mais divinos e inteligentes do que os homens, deveria ter demonstrado com maior extensão a real existência dessa arte de adivinhação e, em seguida, assumido energicamente sua defesa, refutando eficazmente os argumentos daqueles que a aniquilam. Também deveria ter derrubado de modo convincente as razões dos que dizem que são demônios ou deuses que concedem aos animais os movimentos que os levam à adivinhação, e provar, depois disso, que a alma dos irracionais é mais divina do que a do homem.

[523] Se tivesse feito isso, e mostrado espírito filosófico ao tratar dessas coisas, nós, conforme nossas forças, teríamos enfrentado suas afirmações ousadas, refutando em primeiro lugar a alegação de que os animais irracionais são mais sábios do que os homens, e mostrando a falsidade da afirmação de que eles têm ideias de Deus mais sagradas do que as nossas e realizam entre si assembleias sagradas.

[524] Mas agora, ao contrário, ele, que nos acusa porque cremos no Deus supremo, exige que creiamos que as almas das aves possuem ideias de Deus mais divinas e mais claras do que as dos homens. Se isso fosse verdade, as aves teriam ideias mais nítidas de Deus do que o próprio Celso; e não seria surpresa que assim fosse com ele, que tanto despreza os seres humanos.

[525] Mais ainda: na medida em que Celso pretende fazê-lo parecer, as aves possuiram noções maiores e mais divinas não digo do que nós, cristãos, ou do que os judeus, que usam as mesmas escrituras que nós, mas até mesmo do que os teólogos entre os gregos, que também eram apenas homens. Segundo Celso, então, a tribo das aves adivinhatórias compreenderia a natureza do ser divino melhor do que Ferécides, Pitágoras, Sócrates e Platão. Deveríamos, portanto, ir às aves como mestres, para que, assim como segundo Celso elas nos instruem na previsão do futuro por seu poder de adivinhação, também nos libertem das dúvidas acerca do ser divino, transmitindo-nos as ideias claras que teriam obtido a seu respeito. Segue-se, assim, que o próprio Celso, que considera as aves superiores aos homens, deveria tê-las como seus mestres, e não a qualquer filósofo grego.

[526] Temos, porém, algumas observações a fazer, dentre muitas, em resposta a essas declarações de Celso, para mostrar a ingratidão para com o seu Criador envolvida nessas falsas opiniões. Pois Celso, embora homem e colocado em honra, não possui entendimento e, por isso, não se comparou às aves e aos demais irracionais que considera capazes de adivinhar; antes, cedendo-lhes o primeiro lugar, rebaixou a si mesmo e, tanto quanto pôde, com ele toda a raça humana, como se esta tivesse concepções inferiores e menos elevadas sobre Deus do que os animais irracionais, colocando-a abaixo dos egípcios, que adoram animais irracionais como divindades.

[527] O principal ponto de investigação, entretanto, deve ser este: existe ou não existe uma arte de adivinhação por meio das aves e de outros seres vivos tidos como dotados desse poder? Pois os argumentos que parecem estabelecer uma ou outra posição não são desprezíveis. De um lado, somos instados a não admitir tal arte, para que o ser racional não abandone os oráculos divinos e se entregue às aves; de outro, temos o vigoroso testemunho de muitos, segundo o qual numerosas pessoas foram salvas dos maiores perigos por depositarem confiança na adivinhação das aves.

[528] Por ora, porém, concedamos que exista de fato uma arte de adivinhação, para que eu possa mostrar, mesmo àqueles que têm preconceito nesse assunto, que, ainda assim, a superioridade do homem sobre os irracionais, até mesmo sobre os que são dotados de poder adivinhatório, é grande e está muito além de qualquer comparação com eles. Temos, então, de dizer que, se houvesse neles alguma natureza divina capaz de predizer os acontecimentos futuros e tão rica nesse conhecimento que, de sua abundância, pudesse torná-lo conhecido a qualquer homem que o desejasse, é manifesto que saberiam muito antes o que lhes diz respeito do que o que concerne aos outros.

[529] E, se possuíssem esse conhecimento, ter-se-iam guardado de voar para lugares onde os homens haviam armado laços e redes para capturá-los, ou onde arqueiros miravam neles em pleno voo. Especialmente as águias, se soubessem de antemão os planos formados contra seus filhotes, quer por serpentes que sobem aos ninhos e os destroem, quer por homens que os tomam por diversão ou utilidade, não colocariam suas crias em lugares onde seriam atacadas. Em geral, nenhum desses animais teria sido capturado pelos homens, se fosse mais divino e inteligente do que eles.

[530] Além disso, se as aves de augúrio conversam entre si, como Celso sustenta, sendo as aves proféticas dotadas de natureza divina, e se também os outros animais racionais têm ideias da divindade e da presciência dos eventos futuros; e se comunicam esse conhecimento uns aos outros, então o pardal mencionado por Homero não teria construído seu ninho no lugar em que uma serpente devoraria a ela e a seus filhotes, nem a serpente nos escritos do mesmo poeta teria deixado de tomar precauções contra ser capturada pela águia.

[531] Pois esse admirável poeta diz, a respeito do primeiro caso, que um terrível dragão enviado por Zeus subiu à árvore, enrolou-se em muitas voltas, alcançou o mais alto ramo, onde uma ave-mãe tinha seu ninho com oito filhotes, sendo ela a nona, e devorou os jovens, enquanto a mãe, pairando com lamento, foi por fim também tomada pelo monstro, que depois se tornou pedra como prodígio em Áulis.

[532] Quanto ao segundo caso, o poeta fala da águia de Zeus, que cortava os céus com as asas sonoras levando nas garras uma serpente ainda viva, a qual se enroscou e picou seu pescoço, de modo que a ave, vencida pela dor, deixou cair a presa em meio ao exército. A águia, então, possuía poder divinatório, e a serpente, já que também esse animal é usado pelos augures, não? Mas, se essa distinção pode ser facilmente refutada, não pode também ser refutada a afirmação de que ambas eram capazes de adivinhar?

[533] Pois, se a serpente possuísse tal conhecimento, não teria se precavido contra sofrer da águia aquilo que sofreu? E inúmeros outros exemplos semelhantes podem ser encontrados, mostrando que os animais não possuem alma profética. Antes, segundo o poeta e a maioria dos homens, é o próprio olímpico quem a enviou à luz.

[534] E é com sentido simbólico que Apolo usa o falcão como mensageiro, já que o falcão é chamado de mensageiro veloz de Apolo. Mas isso nada prova em favor da inteligência ou da divindade dos animais irracionais, como pretende Celso.

[535] Na minha opinião, porém, são certos demônios malignos, e por assim dizer da raça dos Titãs ou Gigantes, que foram ímpios para com o verdadeiro Deus e para com os anjos celestes, e por isso caíram do céu, vagando pelas partes mais densas dos corpos e frequentando lugares impuros da terra. Esses seres, possuindo algum poder de discernir eventos futuros por não terem corpos de matéria terrena, ocupam-se desse tipo de atividade.

[536] E, desejando afastar a raça humana do verdadeiro Deus, entram secretamente nos corpos dos animais mais rapaces, selvagens e maus, e os incitam a fazer o que querem e quando querem, ora dirigindo as imaginações desses animais para voos e movimentos de vários tipos, a fim de que os homens sejam apanhados pelo poder divinatório presente neles e deixem de buscar o Deus que contém todas as coisas; ora impedindo-os de procurar o culto puro de Deus e fazendo com que sua razão rasteje pela terra, entre aves, serpentes e até raposas e lobos. Os que são hábeis nessas matérias observaram que as previsões mais claras são obtidas desse tipo de animal, porque os demônios não conseguem agir com tanta eficácia nos animais mais mansos quanto naqueles, por causa da semelhança em maldade entre eles; ainda assim, o que existe nesses animais não é maldade propriamente dita, mas algo semelhante à maldade.

[537] Por essa razão, entre tudo mais que há nos escritos de Moisés que desperta minha admiração, eu diria que também o seguinte é digno dela: Moisés, tendo observado as diferentes naturezas dos animais, e tendo ou aprendido de Deus o que era peculiar a cada um deles e aos demônios afins a cada espécie, ou descoberto isso por sua própria sabedoria, ao organizar as diversas espécies declarou impuros todos aqueles animais que os egípcios e o restante dos homens supõem possuir poder de adivinhação; e, como regra geral, declarou limpos os que não pertencem a essa classe.

[538] Entre os animais impuros mencionados por Moisés estão o lobo, a raposa, a serpente, a águia, o falcão e semelhantes. Falando de modo geral, encontrarás não apenas na lei, mas também nos profetas, esses animais usados como exemplos do que há de mais perverso; um lobo ou uma raposa nunca são mencionados com bom propósito.

[539] Consequentemente, cada espécie de demônio parece ter certa afinidade com certa espécie de animal. E, assim como entre os homens alguns são mais fortes do que outros, e isso não por causa do caráter moral, do mesmo modo alguns demônios serão mais poderosos do que outros em coisas indiferentes; uma classe deles emprega um tipo de animal para enganar os homens, conforme a vontade daquele que em nossas escrituras é chamado príncipe deste mundo, enquanto outros predizem acontecimentos futuros por meio de outra espécie. Observa ainda a que ponto de maldade os demônios chegam, a ponto de até assumirem corpos de doninhas para revelar o futuro. Considera, então, se é melhor aceitar que é o Deus supremo e seu Filho quem incitam as aves e outros seres vivos à adivinhação, ou que os que os incitam, e não os seres humanos que estão diante deles, são seres maus e, como nossas escrituras os chamam, demônios imundos.

[540] Mas, se a alma das aves deve ser estimada como divina porque por meio delas se predizem eventos futuros, por que não sustentar antes que, quando os homens recebem presságios, as almas desses homens por meio dos quais os presságios são ouvidos é que são divinas? Entre tais pessoas poderia ser incluída a serva mencionada por Homero, que moía o grão quando disse a respeito dos pretendentes: “Agora, pela última vez, eles cearão aqui”.

[541] Essa escrava, portanto, seria divina, enquanto o grande Ulisses, amigo da Palas Atena de Homero, não o seria; mas, entendendo as palavras dessa divina moedora como presságio, alegrou-se, como diz o poeta. Vê, então: se as aves possuem alma divina e são capazes de perceber Deus, ou os deuses, como diz Celso, é claro que também nós, homens, quando espirramos, o fazemos em consequência de uma espécie de divindade que está em nós e comunica poder profético à nossa alma.

[542] Pois essa crença é confirmada por muitas testemunhas; por isso o poeta também diz: “E, enquanto ele orava, espirrou”. E Penélope igualmente disse: “Não percebes que a cada palavra meu filho espirrou?” Se Celso quer construir teologia a partir de sinais desse gênero, sua argumentação pode ser levada a absurdos ainda maiores.

[543] O verdadeiro Deus, contudo, não se serve de animais irracionais nem de quaisquer pessoas oferecidas pelo acaso para transmitir conhecimento do futuro, mas, ao contrário, das almas humanas mais puras e santas, às quais inspira e capacita com poder profético. E por isso, entre tudo o mais que nos escritos mosaicos desperta admiração, o seguinte deve ser considerado especialmente digno dela: “Não praticareis augúrios nem observareis o voo das aves”. E em outro lugar: “As nações que o Senhor teu Deus destruirá diante de ti ouvirão presságios e adivinhações; mas a ti o Senhor teu Deus não permitiu isso”.

[544] E ele acrescenta: “O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de teus irmãos”. Certa vez, além disso, Deus, querendo desviar seu povo da prática da adivinhação justamente por meio de um adivinho, fez com que o espírito que estava no adivinho dissesse: “Porque não há encantamento em Jacó, nem adivinhação em Israel. A seu tempo se anunciará a Jacó e a Israel o que Deus fará”.

[545] E nós, conhecendo essas e outras palavras semelhantes, desejamos observar também o preceito em seu sentido místico: “Guarda o teu coração com toda diligência”, para que nada de natureza demoníaca entre em nossa mente e nenhum espírito adversário desvie nossa imaginação para onde quiser. Antes, oramos para que a luz do conhecimento da glória de Deus resplandeça em nosso coração e para que o Espírito de Deus habite em nossas imaginações, conduzindo-as à contemplação das coisas de Deus; pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.

[546] Devemos notar, porém, que o poder de conhecer antecipadamente o futuro não é, de modo algum, prova de divindade; em si mesmo, é algo indiferente e é encontrado tanto entre bons quanto entre maus. Os médicos, por exemplo, por meio de sua arte, prevêem certas coisas, embora seu caráter possa ser mau. Do mesmo modo, os pilotos, ainda que talvez sejam homens perversos, conseguem predizer sinais de bom ou mau tempo, a aproximação de violentas tempestades e as mudanças da atmosfera, porque recolhem esse conhecimento da experiência e da observação; nem por isso alguém os chamaria de deuses, se por acaso seu caráter fosse mau.

[547] Portanto, é falsa a afirmação de Celso quando diz: “Que se poderia chamar mais divino do que o poder de prever e predizer o futuro?” E igualmente falsa é a ideia de que muitos animais pretendam possuir noções de Deus; nenhum animal irracional possui qualquer ideia de Deus. Também é inteiramente falsa sua afirmação de que os irracionais estão mais próximos da sociedade de Deus do que os homens, quando até mesmo homens ainda entregues à maldade, por grande que seja o progresso que tenham no conhecimento, permanecem muito distantes dessa sociedade.

[548] São, portanto, apenas os que são verdadeiramente sábios e sinceramente religiosos que se aproximam da companhia de Deus, tais como nossos profetas e Moisés, a este último dos quais, por causa de sua pureza extraordinária, a escritura disse: “Só Moisés se aproximará do Senhor; os outros não se aproximarão”.

[549] Quão ímpia é, de fato, a afirmação desse homem, que nos acusa de impiedade, ao dizer não só que os animais irracionais são mais sábios do que a raça humana, mas que são também mais amados por Deus do que ela. Quem não se afastaria com horror de ouvir alguém declarar que uma serpente, uma raposa, um lobo, uma águia e um falcão são mais amados por Deus do que a raça humana?

[550] Pois, se tais animais são mais amados por Deus do que os homens, segue-se claramente que são mais caros a Deus do que Sócrates, Platão, Pitágoras, Ferécides e todos aqueles teólogos cujos louvores Celso havia entoado pouco antes. E alguém poderia dirigir-lhe esta oração: se esses animais são mais queridos a Deus do que os homens, que tu também sejas amado por Deus juntamente com eles e te tornes semelhante àqueles que julgas mais caros a Ele do que os seres humanos.

[551] E ninguém suponha que tal oração seja imprecação; pois quem não desejaria tornar-se semelhante, em todos os aspectos, àqueles que acredita serem mais amados por Deus do que os outros, para, como eles, desfrutar do amor divino? E, como Celso quer mostrar que as assembleias dos animais irracionais são mais sagradas do que as nossas, atribui essa afirmação não a pessoas comuns, mas a homens inteligentes. No entanto, somente os virtuosos são verdadeiramente sábios, pois nenhum homem mau o é.

[552] Ele fala, então, deste modo: “Homens inteligentes dizem que esses animais realizam assembleias mais sagradas do que as nossas e que sabem o que nelas é dito; e de fato provam não estar sem tal conhecimento quando anunciam de antemão que as aves partirão para determinado lugar ou farão isto ou aquilo, e depois mostram que foram para o lugar indicado e fizeram aquilo que foi predito”. Ora, jamais pessoa verdadeiramente inteligente relatou tais coisas, nem homem sábio algum afirmou que as assembleias dos irracionais são mais sagradas do que as dos homens.

[553] Se, porém, quisermos examinar as consequências de suas afirmações, é evidente que, segundo sua opinião, as assembleias dos irracionais seriam mais sagradas do que as de Ferécides, Pitágoras, Sócrates, Platão e dos filósofos em geral; afirmação não só incongruente em si mesma, mas cheia de absurdo. E, para admitir que certos homens de fato apreendem dos sons indistintos das aves que elas vão partir ou fazer isto ou aquilo e anunciam essas coisas de antemão, diremos que essa informação lhes é comunicada por demônios através de sinais, com o intuito de enganar os homens e arrastar seu entendimento para longe de Deus e do céu, lançando-o à terra e a lugares ainda inferiores.

[554] Não sei, além disso, como Celso pôde ouvir falar da fidelidade dos elefantes aos juramentos, de sua grande devoção ao nosso Deus e do conhecimento que possuem dEle. Conheço muitas coisas admiráveis que se contam sobre a natureza desse animal e sobre sua mansidão. Mas não sei de ninguém que tenha falado de sua observância de juramentos, a não ser talvez no sentido de chamar de guarda de juramento a sua docilidade e sua observância, por assim dizer, dos pactos estabelecidos entre ele e o homem; ainda assim, tal afirmação é falsa em si mesma.

[555] Pois, embora raramente, às vezes se registrou que, após aparente mansidão, eles se voltaram de modo extremamente selvagem contra os homens, cometeram homicídio e, por isso, foram condenados à morte por não serem mais úteis. E, como depois disso Celso, para estabelecer, como pensa, que a cegonha é mais piedosa do que qualquer ser humano, traz as narrativas sobre o afeto filial dessa ave ao levar alimento aos pais para sustentá-los, devemos responder que as cegonhas fazem isso não por consideração do que é apropriado nem por reflexão, mas por instinto natural.

[556] A natureza que as formou quis mostrar, entre os irracionais, um exemplo que pudesse envergonhar os homens na questão de demonstrar gratidão para com os pais. E, se Celso tivesse compreendido quão grande é a diferença entre agir assim por razão e agir por impulso natural irracional, não teria dito que as cegonhas são mais piedosas do que os seres humanos.

[557] E, ainda lutando pela piedade da criação irracional, Celso cita o pássaro árabe chamado fênix, que, depois de muitos anos, vai ao Egito levando o pai morto e envolto numa bola de mirra, e deposita seu corpo no templo do Sol. Essa história de fato é registrada; e, se for verdadeira, é possível que ocorra em consequência de alguma disposição da natureza, pela qual a providência divina mostra livremente aos seres humanos, por meio das diferenças existentes entre os viventes, a variedade da constituição do mundo, variedade que alcança até as aves. Em harmonia com isso, Deus trouxe à existência uma criatura única em seu gênero, para que os homens, por meio dela, fossem levados a admirar não a criatura, mas Aquele que a criou.

[558] Além de tudo o que já havia dito, Celso acrescenta o seguinte: “Todas as coisas, portanto, não foram feitas para o homem, nem mais do que para leões, águias ou golfinhos, mas para que este mundo, sendo obra de Deus, fosse perfeito e completo em todos os aspectos. Por essa razão, todas as coisas foram ajustadas não umas em relação às outras, mas em relação ao todo. E Deus cuida do todo, e sua providência jamais o abandonará; ele não se torna pior, nem Deus depois de algum tempo o faz voltar para si; nem se ira por causa dos homens mais do que por causa dos macacos ou das moscas; nem ameaça esses seres, cada um dos quais recebeu seu lote próprio em seu devido lugar”.

[559] Respondamos brevemente a essas declarações. Penso, de fato, ter mostrado nas páginas precedentes que todas as coisas foram criadas para o homem e para todo ser racional, e que foi principalmente por causa da criatura racional que a criação ocorreu. Celso pode dizer que isso não foi feito mais para o homem do que para leões ou para as outras criaturas por ele mencionadas; nós, porém, sustentamos que o Criador não formou essas coisas para leões, águias ou golfinhos, mas tudo por causa da criatura racional e para que este mundo, sendo obra de Deus, fosse perfeito e completo em todas as coisas.

[560] A esse pensamento devemos dar assentimento, porque é bem dito. E Deus cuida, não como Celso supõe, apenas do todo, mas, para além do todo, em grau especial de cada ser racional. E a providência jamais abandonará o todo; pois, ainda que ele se torne mais perverso em razão do pecado do ser racional, que é uma porção do todo, Deus toma providências para purificá-lo e, depois de certo tempo, reconduzir o todo a si mesmo.

[561] Além disso, Ele não se ira contra macacos ou moscas; mas envia juízos e castigos contra os homens, como aqueles que transgrediram as leis da natureza, e os ameaça pela boca dos profetas e pelo Salvador que veio visitar toda a raça humana, para que os que ouvem as ameaças sejam por elas convertidos, enquanto aqueles que desprezam esses chamados à conversão venham merecidamente a sofrer os castigos que convém a Deus, segundo sua vontade que opera em favor do todo, infligir àqueles que necessitam de disciplina e correção dolorosas.

[562] Mas, como o nosso quarto livro já alcançou extensão suficiente, aqui terminaremos o discurso. E que Deus conceda, por meio de seu Filho, que é Deus Palavra, Sabedoria, Verdade, Justiça e tudo o mais que as santas escrituras, ao falarem de Deus, O chamam, que façamos bom começo do quinto livro para proveito dos leitores e o levemos a bom termo com a ajuda da sua palavra que permanece em nossa alma.

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