Aviso ao leitor
Este livro - Orígenes — “Contra Celso” / Contra Celsum - é apresentado aqui como literatura patrística e apologética do séc. III, escrita como resposta sistemática às críticas de Celso (um intelectual pagão) ao cristianismo, sendo valiosa para compreender o debate público, filosófico e religioso do período. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Por se tratar de obra de controvérsia, o texto pode empregar tom polemizador e pressupostos culturais do seu tempo; por isso, sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa.
ATENÇÃO
Este escrito de Orígenes possui caráter apologético, polêmico e intelectual, sendo uma resposta extensa às críticas de Celso contra a fé cristã. Por isso, o texto está profundamente inserido em um ambiente de disputa religiosa e filosófica, recorrendo com frequência a argumentações complexas, categorias do pensamento greco-romano e defesas elaboradas que vão além de uma exposição simples da escritura. Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, teológico e crítico, como testemunho de uma das mais importantes defesas intelectuais do cristianismo antigo diante do mundo pagão. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre estratégia apologética, elaboração filosófica do autor e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] Não é, meu venerável Ambrósio, porque busquemos muitas palavras — coisa proibida e em cuja indulgência é impossível evitar o pecado — que agora iniciamos o quinto livro de nossa resposta ao tratado de Celso, mas com o empenho de, tanto quanto esteja em nosso poder, não deixar nenhuma de suas afirmações sem exame, especialmente aquelas em que a alguns possa parecer que ele atacou habilmente a nós e aos judeus. Se me fosse possível, de fato, entrar com minhas palavras na consciência de cada um, sem exceção, que ler esta obra, arrancar cada dardo que fere aquele que não está plenamente protegido com toda a armadura de Deus, e aplicar um remédio racional para curar a ferida infligida por Celso, que impede os que o escutam de permanecer sãos na fé, eu o faria. Mas, visto que é obra somente de Deus, em conformidade com o Seu próprio Espírito e juntamente com a de Cristo, habitar invisivelmente naqueles que Ele julga dignos de serem visitados, o nosso objetivo é, por meio de argumentos e tratados, confirmar os homens na fé e merecer o nome de obreiros que não têm do que se envergonhar, manejando corretamente a palavra da verdade. E há, acima de tudo, uma coisa que nos parece dever fazer, se quisermos cumprir fielmente a tarefa que nos impuseste: derrubar, na medida de nossa capacidade, as afirmações confiantes de Celso. Citemos, então, as afirmações dele que se seguem àquelas que já refutamos — se o fizemos com êxito ou não, o leitor deve julgar — e respondamos a elas. E que Deus conceda que não nos aproximemos desse assunto com entendimento e razão vazios e destituídos de inspiração divina, para que a fé daqueles a quem queremos ajudar não dependa da sabedoria humana; mas que, recebendo do Pai a mente de Cristo, que somente Ele pode conceder, e sendo fortalecidos pela participação na palavra de Deus, possamos derrubar toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, bem como a imaginação de Celso, que se exalta contra nós, contra Jesus e também contra Moisés e os profetas, para que Aquele que deu a palavra aos que a publicaram com grande poder também nos assista e nos conceda grande poder, a fim de que a fé na palavra e no poder de Deus seja implantada na mente de todos os que lerem nossa obra.[2] Temos agora, então, de refutar a seguinte afirmação dele: “Ó judeus e cristãos, nenhum deus ou filho de deus desceu nem descerá à terra. Mas, se quereis dizer que certos anjos o fizeram, como os chamais? São deuses ou alguma outra raça de seres? Sem dúvida, alguma outra raça de seres, e muito provavelmente demônios.” Ora, como Celso aqui apenas repete a si mesmo — pois nas páginas anteriores avançou frequentemente tais alegações — não é necessário discutir o tema em maior extensão, visto que o que já dissemos sobre esse ponto pode bastar. Mencionaremos, contudo, algumas considerações dentre muitas, em harmonia com nossos argumentos anteriores, embora não tenham exatamente o mesmo alcance, pelas quais mostraremos que, ao afirmar de modo geral que nenhum Deus ou Filho de Deus jamais desceu entre os homens, ele destrói não só as opiniões mantidas pela maioria da humanidade acerca da manifestação da divindade, mas também aquilo que antes ele mesmo admitira. Pois, se for verdadeira a afirmação geral de Celso de que nenhum deus ou filho de deus desceu ou descerá, fica manifesto que ele, com isso, derruba a crença na existência de deuses na terra que teriam descido do céu para predizer o futuro à humanidade ou curá-la por meio de respostas divinas; e nem Apolo Pítio, nem Asclépio, nem qualquer outro dentre os que se supõe terem feito isso seriam um deus descido do céu. Poder-se-ia dizer, então, que tal ser seria um deus que recebeu por sorte a obrigação de habitar para sempre na terra, como se fosse um fugitivo da morada dos deuses; ou um que não tem poder de partilhar da sociedade dos deuses no céu; ou então Apolo, Asclépio e os outros que se crê atuarem na terra não seriam deuses, mas apenas certos demônios, muito inferiores àqueles homens sábios que, por causa de sua virtude, ascendem à abóbada celeste.[3] Observa, porém, como, no seu desejo de subverter nossas convicções, aquele que ao longo de todo o seu tratado nunca reconheceu ser epicurista é convencido de ter desertado para essa seita. E agora é o momento de ti, leitor, que lês as obras de Celso e dás assentimento ao que foi dito, ou derrubares a crença em um Deus que visita a raça humana e exerce providência sobre cada homem em particular, ou admitires isso e demonstrares a falsidade das afirmações de Celso. Se, pois, aniquilas por completo a providência, desmentirás as passagens em que ele concede a existência de Deus e de uma providência, para preservar a verdade de tua própria posição; mas, se, ao contrário, ainda admites a providência, porque não concordas com a sentença de Celso de que nem Deus nem o Filho de Deus desceu nem descerá aos homens, por que não examinas antes cuidadosamente, a partir do que foi dito a respeito de Jesus e das profecias proferidas acerca dEle, quem devemos considerar como tendo descido à raça humana como Deus e Filho de Deus? Devemos considerar assim aquele Jesus que tanto falou e tanto ministrou, ou aqueles que, sob pretexto de oráculos e adivinhações, não reformam a moral de seus adoradores e, além disso, apostataram do culto puro e santo devido ao Criador de todas as coisas, arrancando as almas dos que lhes dão ouvidos do único Deus visível e verdadeiro, sob aparência de prestar honra a uma multidão de divindades?[4] Mas, visto que em seguida ele fala como se os judeus ou cristãos tivessem respondido acerca daqueles que descem para visitar a raça humana, dizendo que eram anjos — “Mas, se dizeis que são anjos, como os chamais?”, continua ele, “São deuses ou alguma outra raça de seres?” — e então nos introduz novamente como se respondêssemos: “Alguma outra raça de seres, e provavelmente demônios”, passemos a examinar essas observações. Pois nós, de fato, reconhecemos que os anjos são espíritos ministradores e dizemos que são enviados para servir em favor daqueles que hão de herdar a salvação; e que eles sobem, levando as súplicas dos homens aos lugares mais puros do universo celeste, ou até mesmo a regiões supracelestes ainda mais puras; e que descem dessas alturas, trazendo a cada um, conforme seus méritos, algo ordenado por Deus para ser-lhes conferido, a fim de que se tornem recipientes de Seus benefícios. Tendo aprendido a chamá-los anjos por causa de suas funções, encontramos ainda que, por serem divinos, às vezes são chamados deus nas sagradas Escrituras; não, porém, de modo que sejamos mandados a honrar e adorar, em lugar de Deus, aqueles que nos ministram e nos trazem Suas bênçãos. Porque toda oração, súplica, intercessão e ação de graças deve ser elevada ao Deus Supremo por meio do Sumo Sacerdote, que está acima de todos os anjos, o Verbo vivo e Deus. E também ao próprio Verbo oraremos e faremos intercessões, oferecendo-Lhe ações de graças e súplicas, se tivermos capacidade de distinguir entre o uso próprio e o abuso da oração.[5] Invocar anjos, sem ter alcançado um conhecimento de sua natureza maior do que aquele que os homens possuem, seria contrário à razão. Mas, conforme nossa hipótese, suponha-se obtido esse conhecimento deles, algo maravilhoso e misterioso. Então esse conhecimento, ao nos tornar conhecida a sua natureza e os ofícios a que cada um foi designado, não nos permitirá orar com confiança a ninguém além do Deus Supremo, que é suficiente para todas as coisas, e isso por meio de nosso Salvador, o Filho de Deus, que é o Verbo, a Sabedoria, a Verdade e tudo o mais que os escritos dos profetas de Deus e dos apóstolos de Jesus Lhe atribuem. E basta, para assegurar que os santos anjos de Deus nos sejam propícios e façam tudo em nosso favor, que a disposição de nossa mente para com Deus imite, tanto quanto o permite a natureza humana, o exemplo desses santos anjos, que por sua vez seguem o exemplo do seu Deus; e que as concepções que formamos de Seu Filho, o Verbo, tanto quanto nos é possível alcançá-las, não se oponham às concepções mais claras que os santos anjos possuem dEle, mas se aproximem delas cada dia mais em clareza e nitidez. Mas, porque Celso não leu nossas santas Escrituras, ele põe na nossa boca uma resposta como se viesse de nós, dizendo que afirmamos que os anjos que descem do céu para conceder benefícios à humanidade são uma raça diferente dos deuses, e acrescenta que, muito provavelmente, nós os chamaríamos demônios; sem perceber que o nome demônios não é um termo indiferente, como o de homens, entre os quais alguns são bons e outros maus; nem tampouco um termo de excelência, como o de deuses, aplicado não a demônios ímpios, estátuas ou animais, mas, para aqueles que conhecem as coisas divinas, ao que é verdadeiramente divino e bem-aventurado; enquanto o termo demônios é sempre aplicado àquelas potências malignas, livres do embaraço de um corpo mais grosseiro, que desviam os homens, os enchem de perturbações e os arrastam de Deus e de pensamentos supracelestes para as coisas daqui de baixo.[6] Em seguida ele faz a seguinte afirmação acerca dos judeus: “O primeiro ponto relativo aos judeus que merece espanto é que adorem o céu e os anjos que nele habitam e, ao mesmo tempo, desprezem e negligenciem suas partes mais veneráveis e poderosas, como o sol, a lua e os outros corpos celestes, tanto as estrelas fixas quanto os planetas, como se fosse possível que ‘o todo’ fosse Deus e, no entanto, suas partes não fossem divinas; ou como se fosse razoável tratar com o maior respeito aqueles que se diz aparecerem a pessoas em trevas, cegadas por alguma feitiçaria tortuosa, ou sonhando sonhos sob a influência de espectros sombrios, enquanto aqueles que profetizam tão claramente e tão fortemente a todos os homens — pelos quais vêm a chuva, o calor, as nuvens, o trovão, os relâmpagos, os frutos e toda sorte de fecundidade, e pelos quais Deus se revela a eles — os mais ilustres arautos entre os seres que estão acima, os que são verdadeiramente anjos celestes, sejam tidos por nada!” Ao dizer essas coisas, Celso parece ter caído em confusão e escrito a partir de falsas ideias sobre coisas que não compreendeu. Pois é claro para todos os que investigam as práticas dos judeus e as comparam às dos cristãos que os judeus que seguem a lei, a qual, falando na pessoa de Deus, diz: “Não terás outros deuses diante de Mim; não farás para ti imagem, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te inclinarás diante delas, nem as servirás”, nada adoram além do Deus Supremo, que fez os céus e todas as demais coisas. Ora, é evidente que os que vivem segundo a lei e adoram o Criador do céu não adorarão ao mesmo tempo o céu juntamente com Deus. Ademais, ninguém que obedeça à lei de Moisés se prostrará diante dos anjos que estão no céu; e, do mesmo modo que não se prostram diante do sol, da lua e das estrelas, do exército do céu, também se abstêm de render homenagem ao céu e aos seus anjos, obedecendo à lei que declara: “Para que não levantes os olhos ao céu e, vendo o sol, a lua e as estrelas, todo o exército do céu, sejas levado a adorá-los e servi-los, coisas que o Senhor teu Deus repartiu a todas as nações.”[7] Tendo, além disso, presumido que os judeus consideram o céu como Deus, ele acrescenta que isso é absurdo, censurando aqueles que se inclinam diante do céu, mas não também diante do sol, da lua e das estrelas, e dizendo que os judeus fazem isso, como se fosse possível que o todo fosse Deus e as suas partes não fossem divinas. Ele parece chamar o céu de todo, e o sol, a lua e as estrelas de suas partes. Ora, certamente nem judeus nem cristãos chamam o céu de Deus. Mas, conceda-se, por hipótese, que, como ele alega, o céu seja chamado Deus pelos judeus, e suponha-se que sol, lua e estrelas sejam partes do céu — o que de modo algum é verdadeiro, pois nem os animais e as plantas sobre a terra são partes dele — como seria verdadeiro, mesmo segundo as opiniões dos gregos, que, se Deus é um todo, suas partes também sejam divinas? Certamente eles dizem que o Cosmos tomado como um todo é Deus: os estóicos o chamam de Primeiro Deus; os seguidores de Platão, de Segundo, e alguns deles de Terceiro. Segundo esses filósofos, então, sendo o Cosmos inteiro Deus, suas partes também seriam divinas; de modo que não apenas os seres humanos seriam divinos, mas toda a criação irracional, por ser porção do Cosmos; e além disso também as plantas seriam divinas. E, se rios, montanhas e mares são porções do Cosmos, então, sendo o Cosmos inteiro Deus, os rios e os mares também seriam deuses? Mas nem mesmo os gregos afirmariam isso. Eles chamariam deuses, isto sim, aqueles que presidem sobre rios e mares — sejam demônios ou deuses, como os denominam. Disso se segue que a afirmação geral de Celso, mesmo segundo os gregos que sustentam a doutrina da providência, é falsa: a saber, que, se algum todo for um deus, suas partes são necessariamente divinas. Resulta antes da sua doutrina que, se o Cosmos é Deus, tudo o que está nele é divino, por ser parte do Cosmos. Ora, segundo essa visão, os animais, como moscas, mosquitos, vermes, toda espécie de serpente, assim como aves e peixes, seriam divinos — afirmação que não seria feita nem mesmo por aqueles que mantêm que o Cosmos é Deus. Mas os judeus que vivem segundo a lei de Moisés, ainda que talvez não saibam receber o sentido secreto da lei, transmitido em linguagem obscura, não sustentarão que o céu ou os anjos sejam Deus.[8] Como afirmamos, porém, que ele caiu em confusão por causa de falsas noções que absorveu, venhamos e apontemo-las da melhor forma possível, mostrando que, embora Celso considere costume judaico prostrar-se diante do céu e dos anjos nele contidos, tal prática não é de modo algum judaica, mas uma violação do judaísmo; do mesmo modo que também é uma violação prestar homenagem ao sol, à lua e às estrelas, bem como às imagens. Encontrarás, ao menos no livro de Jeremias, as palavras de Deus censurando, pela boca do profeta, o povo judeu por se inclinar diante dessas coisas e por sacrificar à rainha dos céus e a todo o exército do céu. Os escritos dos cristãos, além disso, mostram, ao censurar os pecados cometidos entre os judeus, que, quando Deus abandonou aquele povo por causa de certos pecados, esses pecados de idolatria também foram praticados por eles. Pois nos Atos dos Apóstolos se relata a respeito dos judeus que Deus os entregou a adorar o exército do céu; como está escrito no livro dos profetas: “Ó casa de Israel, por acaso me oferecestes vítimas e sacrifícios durante quarenta anos no deserto? Antes levantastes o tabernáculo de Moloque e a estrela do vosso deus Renfã, figuras que fizestes para adorá-las.” E nos escritos de Paulo, cuidadosamente instruído nos costumes judaicos e depois convertido ao cristianismo por uma aparição miraculosa de Jesus, podem-se ler as seguintes palavras na Epístola aos Colossenses: “Ninguém vos prive do prêmio com humildade voluntária e culto dos anjos, intrometendo-se em coisas que não viu, debalde ensoberbecido pela sua mente carnal, e não retendo a Cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem ajustado por juntas e ligamentos, cresce com o crescimento de Deus.” Mas Celso, não tendo lido esses versículos nem aprendido seu conteúdo de qualquer outra fonte, representou, não sei como, os judeus como se não transgredissem sua lei ao se prostrarem diante dos céus e dos anjos neles existentes.[9] E, continuando ainda um tanto confuso, sem cuidar de ver o que era relevante para a questão, expressou a opinião de que os judeus foram levados, pelos encantamentos empregados em prestidigitação e feitiçaria — pelos quais certos fantasmas aparecem em obediência às fórmulas dos mágicos — a prostrar-se diante dos anjos no céu, sem perceber que isso era contrário à sua lei, que dizia aos que praticavam tais observâncias: “Não vos voltareis para os necromantes, nem buscareis os adivinhos, para vos contaminardes com eles; eu sou o Senhor vosso Deus.” Ele deveria, portanto, ou não ter atribuído de modo algum essa prática aos judeus, já que observou que eles guardam sua lei e os chamou de homens que vivem segundo a sua lei; ou, se a atribuiu, deveria ter mostrado que os judeus agiam assim em violação do seu código. Mas, novamente, assim como transgridem a lei os que prestam culto àqueles que se diz aparecerem a pessoas envoltas em trevas e cegadas pela feitiçaria, e que sonham sonhos por causa de fantasmas obscuros que se lhes apresentam, também transgridem a lei os que oferecem sacrifícios ao sol, à lua e às estrelas. E há, portanto, grande incoerência no mesmo indivíduo dizer que os judeus são cuidadosos em guardar sua lei ao não se prostrarem diante do sol, da lua e das estrelas, mas não tão cuidadosos em guardá-la no que diz respeito ao céu e aos anjos.[10] E se for necessário apresentar defesa de nossa recusa em reconhecer como deuses, juntamente com os anjos, o sol, a lua e as estrelas, aqueles que os gregos chamam de divindades manifestas e visíveis, responderemos que a lei de Moisés sabe que estes últimos foram repartidos por Deus entre todas as nações sob o céu, mas não entre aqueles que foram escolhidos por Deus como Seu povo eleito acima de todas as nações da terra. Pois está escrito no livro de Deuteronômio: “Para que não levantes os olhos ao céu e, vendo o sol, a lua e as estrelas, todo o exército do céu, sejas levado a adorá-los e servi-los, coisas que o Senhor teu Deus repartiu a todas as nações debaixo de todo o céu. Mas o Senhor vos tomou e vos tirou da fornalha de ferro, do Egito, para que lhe sejais povo de herança, como hoje o sois.” O povo hebreu, então, sendo chamado por Deus de geração eleita, sacerdócio real, nação santa e povo adquirido, a respeito do qual fora predito a Abraão, pela voz do Senhor, “Olha agora para o céu e conta as estrelas, se és capaz de contá-las; assim será a tua descendência”, e tendo, assim, a esperança de se tornar como as estrelas do céu, não era provável que se prostrasse diante daqueles objetos aos quais deveria assemelhar-se como resultado de compreender e observar a lei de Deus. Porque lhes foi dito: “O Senhor nosso Deus nos multiplicou, e eis que hoje sois em multidão como as estrelas do céu.” No livro de Daniel também se encontram as seguintes profecias a respeito daqueles que participarão da ressurreição: “Naquele tempo será salvo o teu povo, todo aquele que for achado escrito no livro. E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno. E os sábios resplandecerão como o fulgor do firmamento, e os que conduzem muitos à justiça, como as estrelas, para todo o sempre.” E, por isso, Paulo também, falando da ressurreição, diz: “Há corpos celestes e corpos terrestres; mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres. Uma é a glória do sol, outra a da lua e outra a das estrelas; porque estrela difere de estrela em glória. Assim também é a ressurreição dos mortos.” Não era, portanto, racional que aqueles que haviam sido ensinados de modo sublime a elevar-se acima de todas as coisas criadas e a esperar, por causa de suas vidas virtuosas, o gozo das mais gloriosas recompensas com Deus, e que tinham ouvido as palavras: “Vós sois a luz do mundo” e “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem a vosso Pai que está nos céus”, e que possuíam, pela prática, essa sabedoria brilhante e imperecível, ou mesmo o próprio reflexo da luz eterna, ficassem tão impressionados com a simples luz visível do sol, da lua e das estrelas a ponto de se julgarem, por causa dessa luz sensível, de algum modo inferiores a eles e de se prostrarem diante deles; sendo que, se tais seres devem receber culto, não o receberiam por causa da luz sensível, admirada pela multidão, mas por causa da luz racional e verdadeira, se de fato as estrelas do céu são seres racionais e virtuosos, iluminados pela luz do conhecimento por aquela Sabedoria que é o reflexo da luz eterna. Pois a luz sensível que possuem é obra do Criador de todas as coisas, ao passo que a luz racional deriva talvez do princípio do livre-arbítrio existente neles.[11] Mas nem mesmo essa luz racional deve ser adorada por aquele que contempla e entende a verdadeira luz, da qual também essas criaturas recebem iluminação; nem por aquele que contempla Deus, o Pai da verdadeira luz, acerca de quem foi dito: “Deus é luz, e nele não há treva nenhuma.” Aqueles, de fato, que adoram o sol, a lua e as estrelas porque sua luz é visível e celeste não se prostrariam diante de uma centelha de fogo ou de uma lâmpada sobre a terra, porque percebem a superioridade incomparável daquilo que julgam digno de homenagem em relação à luz de centelhas e lâmpadas. Do mesmo modo, os que compreendem que Deus é luz, e que o Filho de Deus é a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem ao mundo, e que entendem também como Ele diz: “Eu sou a luz do mundo”, não ofereceriam racionalmente adoração àquilo que é, por assim dizer, uma centelha no sol, na lua e nas estrelas em comparação com Deus, que é luz da verdadeira luz. E não falamos assim para depreciar essas grandes obras do poder criador de Deus, nem para chamá-las, ao modo de Anaxágoras, massas de fogo, mas porque percebemos a inexprimível superioridade da divindade de Deus e de Seu Filho unigênito, que ultrapassa todas as demais coisas. E, persuadidos de que o próprio sol, a lua e as estrelas oram ao Deus Supremo por meio de Seu Filho unigênito, julgamos impróprio orar àqueles seres que eles mesmos elevam orações a Deus, visto que eles próprios prefeririam que dirigíssemos nossos pedidos ao Deus a quem oram, e não os enviássemos para baixo, a eles, nem dividíssemos entre Deus e eles nossa capacidade de oração. E aqui posso empregar uma ilustração adequada a esse ponto: nosso Senhor e Salvador, ouvindo-se certa vez chamado “Bom Mestre”, remeteu aquele que assim o tratava a Seu próprio Pai, dizendo: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus, o Pai.” E se era conforme a sã razão que isso fosse dito pelo Filho do amor do Pai, sendo a imagem da bondade de Deus, por que não diria o sol, com ainda maior razão, aos que se prostram diante dele: “Por que me adoras? Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás; porque é a Ele que eu e todos os que estão comigo servimos e adoramos”? E embora alguém não seja tão elevado quanto o sol, ainda assim ore ao Verbo de Deus, que pode curá-lo, e ainda mais ao Seu Pai, que também aos justos de tempos antigos enviou Sua palavra, os curou e os livrou de suas destruições.[12] Deus, portanto, em Sua bondade, se inclina até a humanidade, não em sentido local, mas por meio de Sua providência; enquanto o Filho de Deus, não somente quando esteve na terra, mas em todo tempo, está com os Seus discípulos, cumprindo a promessa: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.” E se um ramo não pode dar fruto, a não ser que permaneça na videira, é evidente que também os discípulos do Verbo, que são os ramos racionais da videira verdadeira do Verbo, não podem produzir os frutos da virtude se não permanecerem na verdadeira videira, o Cristo de Deus, que está conosco localmente aqui embaixo, na terra, e que está com os que se apegam a Ele em todas as partes do mundo, e está também em todo lugar com os que não O conhecem. Outro testemunho disso é dado por João, o que escreveu o Evangelho, quando, falando na pessoa de João Batista, disse: “No meio de vós está um que não conheceis; é Ele o que vem depois de mim.” E é absurdo, quando Aquele que enche o céu e a terra, e que disse: “Porventura não encho eu o céu e a terra? diz o Senhor”, está conosco e perto de nós — pois eu creio nAquele que diz: “Sou Deus de perto, e não de longe, diz o Senhor” — buscar orar ao sol, à lua ou a alguma das estrelas, cuja influência não alcança o mundo inteiro. Mas, usando as próprias palavras de Celso, conceda-se que o sol, a lua e as estrelas prenunciem chuva, calor, nuvens e trovões; por que, então, se de fato predizem tais coisas grandiosas, não devemos antes prestar homenagem a Deus, de quem são servos ao proferirem essas predições, e demonstrar reverência a Ele, em vez de a Seus profetas? Que predigam, pois, a aproximação de relâmpagos, frutos e toda sorte de produções, e que todas essas coisas estejam sob sua administração; ainda assim não adoraremos aqueles que eles mesmos adoram, assim como não adoramos nem Moisés nem os profetas que vieram de Deus depois dele, e que predisseram coisas melhores do que chuva, calor, nuvens, trovões, relâmpagos, frutos e toda espécie de produção visível aos sentidos. Não, mesmo que sol, lua e estrelas fossem capazes de profetizar coisas melhores do que a chuva, nem então os adoraríamos, mas ao Pai das profecias que estão neles e ao Verbo de Deus, seu ministro. Mas conceda-se que sejam heraldos dEle, e verdadeiros mensageiros do céu; ainda assim, por que não haveríamos de adorar o Deus que eles apenas proclamam e anunciam, em vez daqueles que são os heraldos e mensageiros?[13] Celso, além disso, supõe que consideramos o sol, a lua e as estrelas como coisa sem valor. Quanto a esses seres, porém, reconhecemos que também eles esperam a manifestação dos filhos de Deus, estando por enquanto submetidos à vaidade de seus corpos materiais, por causa dAquele que os sujeitou em esperança. Mas se Celso tivesse lido as inúmeras outras passagens em que falamos do sol, da lua e das estrelas, e especialmente estas: “Louvai-o, todas as estrelas de luz” e “Louvai-o, ó céus dos céus”, não teria dito que consideramos seres tão poderosos, que grandemente louvam o Senhor Deus, como se não tivessem importância. Nem Celso conhecia a passagem: “A ardente expectativa da criação aguarda a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também ela mesma será libertada do cativeiro da corrupção para a liberdade gloriosa dos filhos de Deus.” E com essas palavras encerremos nossa defesa contra a acusação de não adorarmos o sol, a lua e as estrelas. Tragam-se agora as afirmações seguintes dele, para que, se Deus quiser, lhe dirijamos em resposta os argumentos que a luz da verdade nos sugerir.[14] As palavras seguintes são dele: “É loucura da parte deles supor que, quando Deus, como se fosse um cozinheiro, introduzir o fogo que consumirá o mundo, todo o restante da raça humana será queimado, enquanto somente eles permanecerão, não apenas os que estiverem então vivos, mas também os que morreram há muito tempo, os quais ressuscitarão da terra revestidos da mesma carne que possuíam em vida; pois tal esperança é própria de vermes. Que espécie de alma humana é essa que ainda desejaria um corpo sujeito à corrupção? E, além disso, essa opinião nem é compartilhada por alguns dos cristãos, que a declaram extremamente vil, repugnante e impossível; pois que tipo de corpo é esse que, depois de completamente corrompido, pode retornar à sua natureza original e àquela mesma primeira condição da qual caiu em dissolução? Incapazes de responder, eles se refugiam num absurdo extremo, isto é, que tudo é possível a Deus. Contudo, Deus não pode fazer coisas vergonhosas, nem quer fazer coisas contrárias à Sua natureza; nem, se desejasses algo mau segundo a maldade do teu próprio coração, Deus o realizaria; nem deves acreditar imediatamente que isso será feito. Porque Deus não governa o mundo para satisfazer desejos desordenados, ou para permitir desordem e confusão, mas para governar uma natureza reta e justa. À alma, de fato, Ele poderia conceder vida eterna; mas os corpos mortos, ao contrário, como observa Heráclito, são mais desprezíveis do que esterco. Deus, porém, nem pode nem quer declarar, contra toda razão, que a carne, cheia de coisas que nem é honroso mencionar, deva existir para sempre. Pois Ele é a razão de todas as coisas que existem e, por isso, nada pode fazer contra a razão ou contra Si mesmo.”[15] Observa agora, logo no início, como, ao ridicularizar a doutrina da conflagração do mundo, sustentada por certos gregos que trataram desse assunto com um espírito filosófico nada desprezível, ele nos apresenta como se imaginássemos Deus, por assim dizer, como um cozinheiro, mantendo a crença numa conflagração geral; sem perceber que, conforme a opinião de certos gregos — talvez tendo recebido essa informação da antiga nação dos hebreus — trata-se de um fogo purificador trazido sobre o mundo e provavelmente também sobre cada um daqueles que necessitam de correção pelo fogo e, ao mesmo tempo, de cura, pois ele queima, mas não consome, os que não possuem um corpo material que precise ser consumido por esse fogo; e queima e consome aqueles que, por ações, palavras e pensamentos, edificaram madeira, feno ou palha naquilo que figuradamente é chamado de edifício. E as santas Escrituras dizem que o Senhor visitará, como fogo de fundidor e sabão de lavandeiros, cada um dos que necessitam de purificação, por causa da mistura neles de uma torrente de matéria maligna procedente de sua má natureza; e necessitam, digo, de fogo para depurar, por assim dizer, a escória daqueles que se misturaram com cobre, estanho e chumbo. Quem quiser pode aprender isso com o profeta Ezequiel. Mas que dizemos que Deus traz fogo sobre o mundo não como um cozinheiro, mas como um Deus, benfeitor daqueles que necessitam da disciplina do fogo, será testemunhado pelo profeta Isaías, em cujos escritos se relata que uma nação pecadora foi assim interpelada: “Porque tens brasas de fogo, assenta-te sobre elas; elas te servirão de socorro.” Ora, a Escritura é apropriadamente adaptada à multidão dos que a leem, porque fala obscuramente de coisas tristes e sombrias, a fim de aterrorizar aqueles que de outro modo não podem ser salvos do dilúvio de seus pecados, embora mesmo assim o leitor atento perceberá claramente o fim a ser alcançado por esses castigos dolorosos sobre os que os suportam. Basta, porém, por agora, citar as palavras de Isaías: “Por amor do meu nome mostrarei minha ira, e minha glória trarei sobre ti, para que eu não te destrua.” Fomos, assim, obrigados a tocar de modo obscuro em questões não adequadas à capacidade dos crentes simples, que precisam de instrução mais simples em palavras, para que não parecêssemos deixar sem resposta a acusação de Celso, de que Deus introduz o fogo que destruirá o mundo como se fosse um cozinheiro.[16] Do que foi dito, ficará manifesto aos ouvintes inteligentes como devemos responder ao seguinte: “Todo o restante da raça será completamente queimado, e apenas eles permanecerão.” Não é de admirar, de fato, se tais pensamentos tenham sido acolhidos por aqueles entre nós que a Escritura chama de coisas loucas do mundo, coisas fracas, desprezadas e que não são, porque aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação, visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não O conheceu pela sabedoria. Tais pessoas são incapazes de ver distintamente o sentido de cada passagem particular, ou não querem dedicar o tempo necessário à investigação das Escrituras, apesar da ordem de Jesus: “Examinai as Escrituras.” Além disso, as ideias dele a respeito do fogo que Deus trará sobre o mundo e dos castigos reservados aos pecadores devem ser entendidas assim: como convém falar às crianças de certas coisas de modo apropriado à sua condição infantil, a fim de convertê-las, por serem de tenra idade, a um modo melhor de vida, assim também aos que a Palavra chama de coisas loucas do mundo, fracas e desprezadas, convém o sentido mais óbvio e direto das passagens sobre castigos, já que não podem receber outro modo de conversão senão o do temor e da apresentação da punição, e assim serem salvos de muitos males. A Escritura, portanto, declara que só permanecem ilesos pelo fogo e pelos castigos aqueles cujas opiniões, costumes e mente foram purificados em grau elevadíssimo; ao passo que os de natureza diversa, os que segundo seus merecimentos necessitam da administração da punição pelo fogo, são envolvidos nesses sofrimentos com vistas a um fim que convém a Deus aplicar àqueles que foram criados à Sua imagem, mas viveram em oposição à vontade dessa natureza que é segundo Sua imagem. E essa é nossa resposta à afirmação: “Todo o restante da raça será completamente queimado, mas só eles permanecerão.”[17] Em seguida, tendo ele mesmo entendido mal as santas Escrituras, ou os intérpretes que não as compreenderam, passa a afirmar que nós dizemos que, no tempo da visitação que há de vir sobre o mundo pelo fogo purificador, permanecerão não apenas os que estiverem vivos então, mas também os que morreram há muito tempo; sem perceber que, com uma espécie de sabedoria secreta, o apóstolo de Jesus disse: “Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” Ora, ele deveria ter observado qual era o sentido daquele que proferiu essas palavras, sendo alguém que de modo algum estava morto, e que fazia distinção entre si mesmo e os que lhe eram semelhantes, de um lado, e os mortos, de outro, ao dizer depois: “Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” E, como prova de que tal era o pensamento do apóstolo ao escrever essas palavras da primeira Epístola aos Coríntios, cito também a primeira aos Tessalonicenses, na qual Paulo, como alguém vivo e desperto, e diferente daqueles que dormem, fala assim: “Isto vos dizemos pela palavra do Senhor: nós, os que ficarmos vivos até a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem; porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus.” Depois, sabendo que havia outros mortos em Cristo além dele e dos que com ele estavam vivos, acrescenta: “Os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar o Senhor nos ares.”[18] Mas, já que ele ridicularizou longamente a doutrina da ressurreição da carne, pregada nas igrejas e mais claramente compreendida pelos crentes mais inteligentes, e como não é necessário repetir suas palavras, que já foram citadas, exponhamos e estabeleçamos, tanto quanto pudermos, alguns pontos destinados expressamente aos nossos leitores, considerando o problema como num escrito apologético dirigido a um estranho à fé e em favor daqueles que ainda são crianças, levados de um lado para o outro por todo vento de doutrina, pela astúcia dos homens e por artifícios enganosos. Nem nós, portanto, nem as santas Escrituras afirmamos que aqueles que morreram há muito tempo hão de levantar-se da terra e viver novamente com os mesmos corpos, sem mudança para uma condição superior; pois, ao falar assim, Celso nos acusa falsamente. Podemos ouvir muitas passagens das Escrituras tratando da ressurreição de modo digno de Deus, embora por ora baste citar as palavras de Paulo na primeira Epístola aos Coríntios: “Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensato! O que semeias não revive se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas simples grão, talvez de trigo ou de outra espécie; mas Deus lhe dá corpo como lhe apraz, e a cada semente o seu próprio corpo.” Observa como nessas palavras ele diz que não se semeia aquele corpo que há de ser; mas do corpo que é semeado e lançado nu na terra — Deus dando a cada semente o seu próprio corpo — ocorre, por assim dizer, uma ressurreição: da semente lançada ao chão surge um caule, como na mostarda, ou uma árvore maior, como a oliveira e outras frutíferas.[19] Deus, então, dá a cada coisa o seu próprio corpo conforme Lhe agrada; como se dá com as plantas que são semeadas, assim também com aqueles seres que, por assim dizer, são semeados ao morrer e que, no devido tempo, recebem, a partir do que foi semeado, o corpo que Deus designa a cada um segundo seus méritos. E também podemos ouvir a Escritura ensinar longamente a diferença entre aquilo que é, por assim dizer, semeado, e aquilo que é, por assim dizer, levantado dele, nestas palavras: “Semeia-se em corrupção, ressuscita em incorruptibilidade; semeia-se em desonra, ressuscita em glória; semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder; semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual.” E compreenda, quem puder, o sentido das palavras: “Qual o terreno, tais também os terrenos; e qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial.” E, embora o apóstolo quisesse ocultar o sentido secreto da passagem, não adaptado aos crentes mais simples nem ao entendimento do povo comum, que é conduzido pela fé a um melhor modo de vida, foi contudo obrigado depois, para que não entendêssemos mal o seu sentido, a dizer, após “traremos a imagem do celestial”, também estas palavras: “Isto, porém, digo, irmãos: carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herda a incorruptibilidade.” Sabendo, então, que havia na passagem um sentido secreto e místico, como convinha a alguém que deixava em suas epístolas palavras cheias de significado para os que viriam depois, acrescenta o seguinte: “Eis que vos digo um mistério”; pois esse é o seu modo habitual de introduzir assuntos mais profundos e místicos, apropriadamente ocultos da multidão, conforme está escrito no livro de Tobias: “É bom guardar oculto o segredo do rei, mas é honroso revelar as obras de Deus” — de modo compatível com a verdade, com a glória de Deus e com o proveito da multidão. Nossa esperança, pois, não é esperança de vermes, nem nossa alma anseia por um corpo que tenha visto corrupção; porque, embora possa necessitar de um corpo para mover-se de um lugar a outro, ela entende — tendo meditado na sabedoria do alto, de acordo com a palavra “a boca do justo falará sabedoria” — a diferença entre a casa terrestre, em que está o tabernáculo do edifício que será dissolvido, e aquele estado em que os justos gemem, oprimidos, não desejando despir-se do tabernáculo, mas ser revestidos, para que, revestidos, a mortalidade seja absorvida pela vida. Pois, em virtude de toda a natureza do corpo ser corruptível, o tabernáculo corruptível deve revestir-se de incorruptibilidade; e sua outra parte, sendo mortal e sujeita à morte que segue o pecado, deve revestir-se de imortalidade, para que, quando o corruptível se revestir de incorruptibilidade e o mortal de imortalidade, se cumpra o que foi predito pelos profetas: a aniquilação da vitória da morte, porque ela nos havia vencido e submetido ao seu domínio, e também do seu aguilhão, com o qual fere a alma imperfeitamente defendida e lhe inflige as feridas que procedem do pecado.[20] Mas, visto que já expusemos, na medida em que o tempo permitiu, algo de nossa compreensão sobre a ressurreição — pois em outras partes de nossos escritos tratamos o assunto com mais detalhe — e como agora devemos, mediante reta razão, refutar as falácias de Celso, que nem entende o sentido de nossa Escritura nem é capaz de julgar que o pensamento de nossos sábios não deve ser determinado por aqueles que nada professam além de uma fé simples no sistema cristão, mostremos que homens que não devem ser desprezados em razão de seu poder de raciocínio e sutileza dialética expressaram opiniões muito absurdas. E, se devemos zombar de alguma coisa como de velhas fábulas desprezíveis, é deles mais do que de nossa narrativa que devemos zombar. Os discípulos do Pórtico afirmam que, depois de um certo número de anos, haverá uma conflagração do mundo e, depois disso, uma nova disposição de todas as coisas em que nada mudará em comparação com a ordem anterior do mundo. Alguns deles, porém, que quiseram resguardar essa doutrina disseram que ao fim do ciclo haverá uma mudança, embora extremamente pequena, em relação ao que prevaleceu no ciclo precedente. E esses homens sustentam que, no ciclo seguinte, ocorrerão as mesmas coisas: Sócrates será novamente filho de Sofronisco e natural de Atenas; Fenarete, casada com Sofronisco, tornar-se-á outra vez sua mãe. E, embora não usem a palavra ressurreição, mostram na realidade que Sócrates, originado da semente, brotará novamente da de Sofronisco e será formado no ventre de Fenarete; e, criado em Atenas, voltará a dedicar-se à filosofia, como se sua antiga filosofia tivesse surgido de novo sem diferir em nada do que fora antes. Ânito e Mélito também ressurgirão como acusadores de Sócrates, e o Areópago o condenará à morte. Mas o que é ainda mais ridículo é que Sócrates vestirá roupas em nada diferentes das que usava no ciclo anterior, viverá na mesma pobreza imutável e na mesma cidade de Atenas. Fálaris voltará a exercer a tirania, e seu touro de bronze mugirá novamente com as vozes das vítimas dentro dele, sem diferença alguma em relação aos condenados do ciclo anterior. E Alexandre de Feres também voltará a agir como tirano com crueldade inalterada e condenará à morte as mesmas pessoas de antes. Mas que necessidade há de entrar em detalhes sobre a doutrina estóica dessas coisas, doutrina que escapa ao ridículo de Celso e talvez até seja venerada por ele, já que considera Zenão mais sábio do que Jesus?[21] Também os discípulos de Pitágoras e de Platão, embora pareçam sustentar a incorruptibilidade do mundo, caem em erros semelhantes. Pois, dizem eles, como os planetas, após certos ciclos determinados, assumem as mesmas posições e mantêm entre si as mesmas relações, todas as coisas sobre a terra serão como eram no tempo em que existia no mundo esse mesmo arranjo planetário. Dessa visão segue-se necessariamente que, quando, após longo ciclo, os planetas ocuparem novamente entre si a mesma disposição que tinham no tempo de Sócrates, Sócrates nascerá outra vez dos mesmos pais e sofrerá o mesmo tratamento, sendo acusado por Ânito e Mélito e condenado pelo Areópago. Os homens instruídos entre os egípcios sustentam ideias semelhantes e, no entanto, são tratados com respeito e não incorrem no ridículo de Celso e dos seus; enquanto nós, que afirmamos que todas as coisas são administradas por Deus em proporção com a relação do livre-arbítrio de cada indivíduo, e que estão sempre sendo conduzidas a uma condição melhor, tanto quanto admitem isso, e que sabemos que a natureza do nosso livre-arbítrio permite a ocorrência de eventos contingentes — pois ela não pode receber o caráter totalmente imutável de Deus —, não parecemos dizer nada digno de exame sério.[22] Que ninguém, entretanto, suspeite que, ao falarmos assim, pertencemos àqueles que são chamados cristãos, mas põem de lado a doutrina da ressurreição tal como é ensinada na Escritura. Pois esses não conseguem, segundo os próprios princípios que adotam, estabelecer que o caule ou a árvore que cresce provém do grão de trigo ou de qualquer outra semente lançada à terra; ao passo que nós, que cremos que o que é semeado não revive se não morrer, e que se semeia não o corpo que há de ser — pois Deus lhe dá o corpo que Lhe agrada, ressuscitando-o em incorruptibilidade depois de semeado em corrupção, em glória depois de semeado em desonra, em poder depois de semeado em fraqueza, e como corpo espiritual depois de semeado como corpo natural — preservamos tanto a doutrina da Igreja de Cristo quanto a grandeza da promessa divina, mostrando também a possibilidade de seu cumprimento não por mera afirmação, mas por argumentos; sabendo que, embora céu e terra e as coisas neles contidas passem, as Suas palavras concernentes a cada coisa em particular, sendo como partes de um todo ou espécies de um gênero, proferidas por Aquele que era Deus Verbo e que no princípio estava com Deus, de maneira nenhuma passarão. Porque desejamos ouvir Aquele que disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.”[23] Nós, portanto, não sustentamos que o corpo que sofreu corrupção retome sua natureza original, assim como o grão de trigo que apodreceu não retorna à sua condição anterior. Mas sustentamos que, assim como acima do grão de trigo surge um caule, assim também uma certa potência é implantada no corpo, não sendo destruída, e a partir dela o corpo é ressuscitado em incorruptibilidade. Os filósofos do Pórtico, porém, por causa das opiniões que têm sobre a imutabilidade das coisas após certo ciclo, afirmam que o corpo, depois de sofrer corrupção completa, retornará ao seu estado original e reassumirá aquela primeira natureza da qual passou à dissolução, pretendendo demonstrar essas coisas com argumentos irrefutáveis. Nós, porém, não recorremos ao refúgio absurdíssimo de dizer que para Deus tudo é possível, entendendo essa palavra tudo como se se referisse também a coisas inexistentes ou inconcebíveis. Ao mesmo tempo, mantemos que Deus não pode fazer o que é vergonhoso, pois então seria capaz de deixar de ser Deus; porque, se Ele fizer algo vergonhoso, não é Deus. E, visto que Celso estabelece como princípio que Deus não deseja o que é contrário à natureza, devemos fazer uma distinção e dizer que, se alguém afirmar que a maldade é contrária à natureza, enquanto nós sustentamos que Deus não deseja o que é contrário à natureza — seja o que procede da maldade, seja o que procede de um princípio irracional —, contudo, se tais coisas acontecem segundo a palavra e a vontade de Deus, devemos necessariamente concluir que não são contrárias à natureza. Portanto, as coisas feitas por Deus, embora possam ser, ou parecer a alguns, incríveis, não são contrárias à natureza. E, se quisermos insistir na força das palavras, diremos que, em comparação com aquilo que geralmente se entende por natureza, existem certas coisas que estão além do seu poder, as quais Deus pode fazer a qualquer momento; como, por exemplo, elevar o homem acima do nível da natureza humana, fazê-lo passar a uma condição melhor e mais divina, e preservá-lo nela enquanto aquele que é objeto de Seu cuidado demonstrar, por suas ações, que deseja a continuação desse auxílio.[24] Além disso, como já dissemos que, para Deus, desejar algo indigno dEle seria destrutivo para a Sua própria existência como Deidade, acrescentaremos que, se o homem, de acordo com a maldade de sua natureza, desejasse algo abominável, Deus não poderia concedê-lo. E agora não respondemos às afirmações de Celso por espírito de contenda, mas no espírito da verdade, concordando com sua opinião de que Deus não é Deus de desejos desordenados, nem de erro e desordem, mas de uma natureza justa e reta, porque Ele é a fonte de todo o bem. E reconhecemos que Ele é capaz de conceder vida eterna à alma, possuindo não apenas o poder, mas também a vontade. Em vista disso, não nos perturbamos com a afirmação de Heráclito, adotada por Celso, de que os corpos mortos devem ser lançados fora como mais desprezíveis do que esterco; e ainda, mesmo com relação a isso, alguém poderia dizer que o esterco, de fato, deve ser descartado, mas os corpos mortos dos homens, por causa da alma que os habitou, especialmente se foi virtuosa, não devem ser tratados assim. Pois, em harmonia com leis fundadas em princípios de equidade, os corpos são considerados dignos de sepultura, com as honras costumeiras, para que nenhum ultraje, tanto quanto possível, seja feito à alma que neles habitou, lançando-se o corpo, depois da partida da alma, como se fosse o de um animal. Não se considere, pois, contrário à razão que seja vontade de Deus declarar não imortal o grão de trigo, mas o caule que dele brota; não o corpo semeado em corrupção, mas aquele que é levantado por Ele em incorruptibilidade. E, segundo Celso, o próprio Deus é a razão de todas as coisas; segundo nós, porém, é Seu Filho, de quem dizemos em linguagem filosófica: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”; e também no nosso juízo Deus não pode fazer nada contrário à razão nem contrário a Si mesmo.[25] Consideremos agora as afirmações de Celso que se seguem às anteriores, as quais são estas: “Os judeus, então, tornaram-se um povo peculiar, estabeleceram leis de acordo com os costumes de seu país, as mantêm até o presente e observam um modo de culto que, seja qual for sua natureza, foi recebido de seus pais. Nisso procedem como os demais homens, porque cada nação conserva seus costumes ancestrais, quaisquer que sejam, se estiverem estabelecidos entre eles. E tal arranjo parece vantajoso, não só porque ocorreu a outras nações decidir algumas coisas de modo diferente, mas também porque é dever proteger o que foi estabelecido para a utilidade pública; e ainda porque, ao que tudo indica, as diversas regiões da terra foram desde o princípio atribuídas a diferentes espíritos superintendentes, e assim distribuídas entre certos poderes governantes, sendo dessa maneira conduzida a administração do mundo. E tudo o que é feito em cada nação dessa forma seria corretamente feito, desde que fosse agradável à vontade dos superintendentes; ao passo que seria ato de impiedade abolir as instituições estabelecidas desde o princípio nas diversas localidades.” Por essas palavras, Celso mostra que os judeus, que antes eram egípcios, tornaram-se depois um povo peculiar e instituíram leis que guardam cuidadosamente. E, para não repetir suas afirmações, que já estão diante de nós, ele diz que é vantajoso aos judeus observar o culto de seus antepassados, assim como as demais nações atendem cuidadosamente aos seus. Ele apresenta ainda uma razão mais profunda para ser vantajoso aos judeus cultivar seus costumes ancestrais, insinuando obscuramente que aqueles a quem foi atribuída a função de superintender a região que recebia legislação cooperaram com os legisladores na formulação das leis de cada terra. Parece, então, indicar que tanto a terra dos judeus quanto a nação que nela habita são supervisionadas por um ou mais seres que, fosse um ou fossem vários, cooperaram com Moisés e deram as leis dos judeus.[26] “Devemos”, diz ele, “observar as leis, não apenas porque ocorreu a outros decidir coisas de modo diferente, mas porque é dever proteger o que foi estabelecido para o bem público, e também porque, provavelmente, as diversas partes da terra foram desde o princípio atribuídas a diferentes espíritos superintendentes e distribuídas entre certos poderes governantes, sendo dessa maneira conduzida a administração do mundo.” Assim, Celso, como se tivesse esquecido o que dissera contra os judeus, agora os inclui no elogio geral que faz a todos os que observam os costumes de seus antepassados, afirmando: “E tudo o que se faz entre cada povo dessa maneira seria corretamente feito quando agradável aos desejos dos superintendentes.” Repara, então, se ele não manifesta abertamente, tanto quanto pode, o desejo de que o judeu viva na observância de suas próprias leis e não se afaste delas, pois cometeria um ato de impiedade se apostatasse; porque suas palavras são: “Seria um ato de impiedade abolir as instituições estabelecidas desde o princípio nas diversas localidades.” Ora, eu gostaria de perguntar a ele e aos que pensam como ele quem foi que, desde o princípio, distribuiu as diversas partes da terra entre os diferentes espíritos superintendentes; e especialmente quem entregou a terra dos judeus e o próprio povo judeu ao superintendente ou aos superintendentes a quem foram atribuídos. Foi, como Celso diria, Júpiter quem concedeu o povo judeu e sua terra a certo espírito ou a certos espíritos? E foi vontade daquele a quem foram atribuídos estabelecer entre eles as leis em vigor, ou isso foi feito contra a vontade dele? Qualquer que seja a resposta, verás que ele cai em dificuldade. Mas, se as diversas partes da terra não foram atribuídas por algum ser superior aos vários espíritos superintendentes, então cada um, ao acaso e sem supervisão de um poder mais alto, teria dividido a terra segundo a sorte; e tal ideia é absurda e destrói em não pequena medida a providência do Deus que preside sobre todas as coisas.[27] Qualquer um, de fato, que queira, pode relatar de que modo as diversas partes da terra, distribuídas entre certos poderes governantes, são administradas por aqueles que as superintendem; mas que nos diga também como tudo o que se faz entre cada nação é feito corretamente quando está de acordo com a vontade dos superintendentes. Que nos diga, por exemplo, se as leis dos citas, que permitem o assassinato dos próprios pais, são leis retas; ou as leis dos persas, que não proíbem o casamento de filhos com suas mães, ou de filhas com seus próprios pais. Mas que necessidade tenho de fazer escolhas entre os legisladores das diversas nações e perguntar como as leis são corretamente estabelecidas em cada povo segundo agradem aos poderes superintendentes? Que Celso, porém, nos diga como seria ato de impiedade abolir as leis ancestrais que permitem casamentos entre mães e filhas; ou aquelas que consideram feliz o homem que põe fim à própria vida pelo enforcamento, ou declaram que obtêm purificação completa aqueles que se entregam ao fogo e encerram a existência pelo fogo; e como seria ato de impiedade remover aquelas leis que, por exemplo, vigoram no Quersoneso Táurico sobre o sacrifício de estrangeiros a Diana, ou entre certas tribos líbias sobre o sacrifício de crianças a Saturno. Além disso, da sentença de Celso se segue esta conclusão: que seria ato de impiedade, da parte dos judeus, abolir aquelas leis ancestrais que proíbem o culto a qualquer outra divindade além do Criador de todas as coisas. E, segundo sua opinião, resultará que a piedade não é divina por sua própria natureza, mas por certo arranjo e designação externa. Pois, entre certas tribos, é ato piedoso adorar um crocodilo e comer aquilo que é objeto de adoração entre outras; entre outras, é piedoso adorar um bezerro; e entre outras ainda, considerar o bode como deus. Assim, a mesma pessoa será considerada piedosa segundo um conjunto de leis e ímpia segundo outro — o resultado mais absurdo que se pode conceber.[28] É provável, porém, que a tais observações se responda que é piedoso aquele que guarda as leis de seu próprio país, e que ele não é de modo algum culpado de impiedade por não observar as de outros lugares; e que, inversamente, quem fosse tido por ímpio entre certas nações não o seria de fato quando adorasse seus próprios deuses conforme as leis da sua pátria, ainda que fizesse guerra e até se alimentasse daqueles que eram considerados divindades entre povos regidos por leis opostas. Repara, então, se tais afirmações não revelam a maior confusão de pensamento a respeito da natureza do justo, do santo e do religioso, já que não se oferece definição exata dessas coisas, nem se descreve nelas um caráter próprio que torne religiosos os que agem segundo seus preceitos. Se, pois, religião, piedade e justiça pertencem à classe das coisas que só o são por comparação, de modo que o mesmo ato pode ser piedoso e ímpio segundo relações e leis diferentes, considera se não se seguirá daí que também a temperança será algo relativo, bem como a coragem, a prudência e as demais virtudes — conclusão mais absurda do que qualquer outra. O que já dissemos, contudo, basta para a classe mais geral e simples de respostas às alegações de Celso. Mas, como pensamos que alguns acostumados a investigações mais profundas talvez leiam este tratado, ousaremos apresentar algumas considerações de caráter mais profundo, transmitindo uma visão mística e secreta acerca da distribuição original das diversas regiões da terra entre diferentes espíritos superintendentes, e demonstraremos, na medida do possível, que nossa doutrina está livre das consequências absurdas acima enumeradas.[29] Parece-me, de fato, que Celso entendeu mal alguns dos motivos mais profundos ligados à disposição das coisas terrestres, alguns dos quais são tocados até na história grega, quando certos seres considerados deuses são apresentados disputando entre si a posse da Ática; e também nos escritos dos poetas gregos alguns que são chamados deuses são representados como reconhecendo que preferem certos lugares da terra a outros. A história dos povos bárbaros, e especialmente a do Egito, contém alusões semelhantes à divisão dos chamados nomos egípcios, quando afirma que Atena, que recebeu Saís por sorte, é a mesma que também possui a Ática. E os sábios entre os egípcios podem enumerar inúmeras ocorrências desse tipo, embora eu não saiba se incluem os judeus e sua terra nessa divisão. E, quanto a testemunhos exteriores à palavra de Deus sobre esse ponto, já foi dito o suficiente por enquanto. Nós dizemos, além disso, que o nosso profeta de Deus e Seu genuíno servo Moisés faz uma declaração, em seu cântico no livro de Deuteronômio, a respeito do repartimento da terra nestes termos: “Quando o Altíssimo dividiu as nações, quando dispersou os filhos de Adão, fixou os limites dos povos segundo o número dos anjos de Deus; e a porção do Senhor foi o Seu povo Jacó, Israel a corda da Sua herança.” E acerca da distribuição das nações, o mesmo Moisés, em sua obra intitulada Gênesis, assim se exprime em forma de narrativa histórica: “E era toda a terra de uma só língua e de uma só fala; e aconteceu que, partindo do oriente, acharam uma planície na terra de Sinear e habitaram ali.” Um pouco adiante continua: “E desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam. E disse o Senhor: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua…”[30] Todos os povos da terra devem ser considerados como tendo usado uma única língua divina e, enquanto viveram em harmonia, foram conservados no uso dessa língua divina; permaneceram sem se afastar do oriente enquanto estavam impregnados dos sentimentos da luz e do reflexo da luz eterna. Mas, quando se apartaram do oriente e começaram a nutrir sentimentos alheios aos do oriente, encontraram um lugar na terra de Sinear — que, interpretado, significa “ranger de dentes”, como indicação simbólica de que haviam perdido os meios de seu sustento — e ali fixaram morada. Então, desejando reunir coisas materiais e unir ao céu o que não tinha afinidade natural com ele, para por meio do material conspirarem contra o imaterial, disseram: “Vinde, façamos tijolos e queimemo-los no fogo.” Assim, quando endureceram e compactaram esses materiais de barro e de matéria, e mostraram o desejo de fazer do tijolo pedra e do barro betume, e por esses meios construir uma cidade e uma torre cuja cabeça, ao menos em sua imaginação, alcançasse os céus, à maneira das alturas que se exaltam contra o conhecimento de Deus, cada um foi entregue — na medida maior ou menor em que se afastara do oriente, e na proporção em que tijolos haviam sido convertidos em pedras, e barro em betume, e o edifício levado adiante com tais materiais — a anjos de caráter mais ou menos severo e de natureza mais ou menos austera, até que pagassem a pena de seus atos audaciosos; e foram conduzidos por esses anjos, que imprimiram em cada um sua própria língua nativa, às diferentes partes da terra segundo os seus méritos: alguns, por exemplo, para uma região de calor abrasador; outros, para um país que castiga os habitantes com o frio; outros ainda, para uma terra de cultivo extremamente difícil, e outros para uma menos difícil; um quinto grupo foi levado a uma terra cheia de animais selvagens, e um sexto a um país comparativamente mais livre deles.[31] Agora, em seguida, se alguém tiver capacidade, entenda que, naquilo que assume a forma de história e contém algumas coisas literalmente verdadeiras, embora também transmita um sentido mais profundo, aqueles que preservaram sua língua original continuaram, por não terem migrado do oriente, na posse do oriente e de sua linguagem oriental. E note que somente estes se tornaram a porção do Senhor e Seu povo, chamado Jacó, e Israel, a corda de Sua herança; e somente estes foram governados por um príncipe que não recebia sob si aqueles que lhe eram entregues para punição, como acontecia com os outros. Observe também, quem puder perceber tanto quanto os mortais conseguem, que no corpo político daqueles que haviam sido destinados ao Senhor como Sua porção eminente cometeram-se, de início, pecados suscetíveis de perdão, de tal natureza que não tornavam o pecador digno de completo abandono; depois tornaram-se mais numerosos, embora ainda fossem de natureza perdoável. E, notando que esse estado de coisas continuou por muito tempo, que sempre se aplicava algum remédio, e que após certos intervalos essas pessoas retornavam ao seu dever, note ainda que, na proporção de suas transgressões, foram entregues àqueles a quem tinham sido atribuídas as outras regiões da terra; e que, depois de punidos inicialmente de modo leve e de haverem expiado, regressavam, como se tivessem passado por disciplina, às suas próprias habitações. Observe ainda que, mais tarde, foram entregues a governantes de caráter mais severo — aos assírios e aos babilônios, como as Escrituras os chamariam. E, depois disso, apesar de lhes serem aplicados meios de cura, veja-se que continuaram a multiplicar suas transgressões e que, por essa razão, foram dispersos em outras regiões pelos governantes das nações que os oprimiam. E o seu próprio governante deliberadamente deixou de impedir essa opressão por parte dos governantes das outras nações, para que também ele, com boa razão e em justa vingança, obtendo poder para arrancar das outras nações quantos pudesse, o fizesse, desse a eles leis e apontasse um modo de vida segundo o qual devessem viver, conduzindo-os ao fim ao qual foram conduzidos os do povo anterior que não cometeram pecado.[32] E por esse meio aprendam, os que têm capacidade para compreender verdades tão profundas, que aquele a quem foram confiados os que antes não haviam pecado é muito mais poderoso do que os outros, pois foi capaz de escolher indivíduos dentre a porção do todo, separá-los daqueles que os haviam recebido para castigo e submetê-los à influência de leis e de um modo de vida que ajuda a produzir o esquecimento de suas transgressões passadas. Mas, como já observamos antes, essas considerações devem ser entendidas como feitas por nós em sentido encoberto, com o fim de mostrar o erro daqueles que afirmavam que as várias regiões da terra haviam sido desde o princípio distribuídas entre diferentes espíritos superintendentes e, sendo assim atribuídas a certos poderes governantes, administradas desse modo; afirmação da qual Celso tirou ocasião para fazer os comentários já referidos. Mas, visto que os que se desviaram do oriente foram entregues, por causa de seus pecados, a uma mente reprovada, a paixões vis e à impureza pelos desejos de seus próprios corações, para que, fartando-se do pecado, viessem a odiá-lo, recusamos dar assentimento à afirmação de Celso de que, por causa dos espíritos superintendentes distribuídos pelas diferentes partes da terra, o que se faz em cada nação é corretamente feito; pois nosso desejo é fazer precisamente o que não é agradável a esses espíritos. Vemos, com efeito, que é ato religioso abolir os costumes originalmente estabelecidos nos diversos lugares por meio de leis melhores e mais divinas, promulgadas por Jesus, como alguém revestido do maior poder, que nos resgatou do presente século mau e dos príncipes deste mundo que se reduzem a nada; e que é sinal de irreligiosidade não nos lançarmos aos pés daquele que se manifestou mais santo e mais poderoso do que todos os outros governantes, e a quem Deus disse, como os profetas predisseram muitas gerações antes: “Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e os confins da terra por tua possessão.” Pois Ele também se tornou a esperança de nós, que dentre os gentios cremos nEle e em Seu Pai, que é Deus sobre todas as coisas.[33] As observações que fizemos não apenas respondem às declarações de Celso sobre os espíritos superintendentes, mas também antecipam, em certa medida, o que ele apresenta depois, quando diz: “Venha o segundo partido, e eu lhes perguntarei de onde vêm e a quem consideram o originador de seus costumes ancestrais. Eles responderão: Ninguém, porque procedem da mesma fonte que os próprios judeus, e não derivam sua instrução e superintendência de outro lugar, embora tenham se revoltado contra os judeus.” Cada um de nós, então, veio, nestes últimos dias, quando um só Jesus nos visitou, ao visível monte do Senhor, ao Verbo que está acima de toda palavra, e à casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. E observamos como ela está edificada sobre o cume dos montes, isto é, sobre as predições de todos os profetas, que são seus fundamentos. E essa casa é exaltada acima das colinas, isto é, acima daqueles entre os homens que fazem profissão de maiores conquistas em sabedoria e verdade; e todas as nações vêm a ela, e muitos povos saem e dizem uns aos outros, voltando-se para a religião que nestes últimos dias resplandeceu por meio de Jesus Cristo: “Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó; Ele nos ensinará os Seus caminhos, e nós andaremos em Suas veredas.” Pois a lei saiu dos habitantes de Sião e se estabeleceu entre nós como lei espiritual. Além disso, a palavra do Senhor saiu daquela mesma Jerusalém para ser disseminada por todos os lugares e julgar no meio dos gentios, escolhendo os que vê submissos e rejeitando os desobedientes, que são muitos. E àqueles que nos perguntam de onde viemos ou quem é o nosso fundador, respondemos que viemos, segundo os conselhos de Jesus, para transformar nossas espadas hostis, insolentes e verbosas em relhas de arado, e converter em foices as lanças antes usadas na guerra. Pois já não levantamos espada contra nação, nem aprendemos mais a guerrear, tendo-nos tornado filhos da paz por causa de Jesus, que é nosso líder, em lugar daqueles que nossos pais seguiram, entre os quais éramos estranhos à aliança; e, tendo recebido uma lei, damos graças Àquele que nos resgatou do erro de nossos caminhos, dizendo: “Nossos pais honraram ídolos mentirosos, e entre eles não há nenhum que faça chover.” Nosso superintendente, então, e mestre, tendo saído dos judeus, regula o mundo inteiro pela palavra de Seu ensinamento. E, tendo feito essas observações antecipadamente, refutamos o melhor que pudemos as declarações falsas de Celso, acrescentando a resposta apropriada.[34] Mas, para não deixarmos sem atenção o que Celso disse entre esses e os parágrafos anteriores, citemos suas palavras: “Poderíamos invocar Heródoto como testemunha nesse ponto, pois ele se expressa assim: ‘Os habitantes das cidades de Mareia e Ápis, que ocupam as partes do Egito adjacentes à Líbia e que se consideram líbios, não egípcios, achando opressivo o culto sacrificial e querendo não ser excluídos do uso da carne de vaca, enviaram ao oráculo de Júpiter Amom, dizendo que não tinham relação com os egípcios, que habitavam fora do Delta, que não havia comunhão de sentimentos entre eles e os egípcios, e que desejavam permissão para comer toda espécie de alimento. Mas o deus não permitiu que fizessem como queriam, dizendo que aquela terra era parte do Egito, regada pela inundação do Nilo, e que eram egípcios todos os que habitam ao sul de Elefantina e bebem do Nilo.’ Tal é a narrativa de Heródoto. Mas”, continua Celso, “Amom, nas coisas divinas, não seria pior embaixador do que os anjos dos judeus, de modo que não há nada de errado em cada nação observar a forma de culto estabelecida. De fato, veremos entre as nações diferenças muito grandes, e ainda assim cada uma parece considerar a sua de longe a melhor. Os etíopes que habitam em Méroe adoram somente Júpiter e Baco; os árabes, apenas Urânia e Baco; todos os egípcios, Osíris e Ísis; os saítas, Minerva; os naucratitas recentemente incluíram Serápis entre seus deuses; e os demais, cada um segundo suas próprias leis. Uns se abstêm da carne de ovelha, outros da de crocodilo; outros, ainda, da de vaca, enquanto têm horror à carne de porco. Os citas, na verdade, consideram nobre banquetear-se de seres humanos. Entre os indianos também há alguns que pensam cumprir um dever santo ao comer seus próprios pais, e isso é mencionado por Heródoto em certa passagem. Para maior credibilidade, citarei novamente suas próprias palavras: ‘Se a todos os homens se propusesse escolher, dentre todas as leis existentes, as melhores, cada um escolheria, depois de examinar, as de seu próprio país. Cada povo considera suas próprias leis muito melhores; portanto, não é provável que alguém, senão um louco, faça dessas coisas objeto de ridículo. Mas que tais são as conclusões de todos os homens acerca das leis, pode-se determinar por muitas outras evidências, e especialmente pelo exemplo seguinte. Dario, durante o seu reinado, mandou chamar os gregos que por acaso estavam presentes e lhes perguntou por quanto aceitariam comer seus pais mortos. Eles responderam que por nenhuma soma fariam tal coisa. Depois disso, Dario chamou aqueles indianos chamados calátios, que têm o hábito de comer os pais, e lhes perguntou, na presença desses gregos que entendiam por intérprete o que se dizia, por que quantia de dinheiro aceitariam queimar os pais mortos no fogo. Então eles soltaram um grande grito e pediram ao rei que não dissesse mais nada.’ Assim é que essas questões são consideradas. E parece-me que Píndaro tem razão ao dizer que ‘a lei’ é rainha de todas as coisas.”[35] O argumento de Celso parece conduzir, por meio desses exemplos, à seguinte conclusão: é obrigação de todos os homens viver segundo os costumes do seu país, e assim escaparão da censura; ao passo que os cristãos, que abandonaram seus usos nativos e não constituem uma única nação como os judeus, devem ser censurados por aderirem ao ensinamento de Jesus. Que ele nos diga, então, se é algo conveniente aos filósofos, e àqueles que foram ensinados a não ceder à superstição, abandonar os costumes de seu país, de modo a comer aqueles alimentos que são proibidos em suas respectivas cidades; ou se tal procedimento é contrário ao que convém. Pois, se por causa da filosofia e dos ensinamentos recebidos contra a superstição eles comem, em desprezo às leis nativas, aquilo que seus pais proibiram, por que os cristãos — já que o Evangelho exige que não se ocupem com estátuas e imagens, nem mesmo com qualquer obra criada de Deus, mas que subam ao alto e apresentem a alma ao Criador —, agindo de maneira semelhante aos filósofos, haveriam de ser censurados por isso? Mas, se para defender a tese que se propôs Celso, ou os que pensam com ele, disserem que até mesmo um filósofo guardaria as leis de seu país, então os filósofos no Egito, por exemplo, agiriam da forma mais ridícula ao evitar comer cebolas para observar a lei do país, ou certas partes do corpo, como a cabeça e os ombros, para não transgredir as tradições dos pais. E nem falo daqueles egípcios que estremecem de medo diante da expulsão de vento do corpo, porque se algum deles se tornasse filósofo e continuasse ainda assim a observar as leis do seu país, seria um filósofo ridículo, procedendo de maneira muito antifilosófica. Do mesmo modo, aquele que foi conduzido pelo Evangelho a adorar o Deus de todas as coisas e que, por consideração às leis de seu país, permanece aqui embaixo entre imagens e estátuas de homens, sem desejar ascender ao Criador, se parecerá com aqueles que realmente aprenderam filosofia, mas têm medo de coisas que não deveriam inspirar terror algum e consideram ato de impiedade comer as coisas que foram enumeradas.[36] Mas que espécie de ser é esse Amom de Heródoto, cujas palavras Celso citou como se demonstrassem como cada um deve guardar as leis de seu país? Pois esse Amom não permitiu aos habitantes de Mareia e Ápis, que vivem nas regiões adjacentes à Líbia, tratar como indiferente o uso da carne de vaca, algo que não só é em si indiferente, como também não impede um homem de ser nobre e virtuoso. Se, então, Amom proibisse o uso da carne de vaca por causa da vantagem que o animal traz ao cultivo da terra e, além disso, porque é pela fêmea que a espécie se multiplica, o relato teria mais plausibilidade. Mas, como está, ele apenas exige que os que bebem do Nilo observem as leis egípcias a respeito do gado. E, a partir disso, Celso, aproveitando para zombar do emprego dos anjos entre os judeus como embaixadores de Deus, diz que Amom não foi pior embaixador das coisas divinas do que os anjos dos judeus, sem investigar o sentido das palavras e manifestações destes; do contrário, teria visto que não é com bois que Deus se preocupa, mesmo quando parece legislar a respeito deles, nem com animais irracionais, mas que o que se escreveu por causa dos homens, sob a aparência de tratar de animais irracionais, contém certas verdades da natureza. Celso também diz que não se comete injustiça quando alguém quer observar o culto religioso sancionado pelas leis do seu país; e, segundo sua opinião, segue-se daí que os citas não cometem mal algum quando, de acordo com as leis de sua pátria, comem seres humanos. E aqueles indianos que comem os próprios pais são considerados por Celso como praticando um ato religioso, ou pelo menos não perverso. Ele cita, de fato, uma passagem de Heródoto favorável ao princípio de que cada um deve, por senso de conveniência, obedecer às leis do seu país; e parece aprovar o costume daqueles indianos chamados calátios, que no tempo de Dario devoravam os pais, visto que, quando Dario lhes perguntou por quanto dinheiro deixariam tal prática, eles levantaram grande gritaria e pediram ao rei que não falasse mais nisso.[37] Como, então, geralmente nos são apresentadas duas leis, sendo uma a lei da natureza, da qual Deus seria o legislador, e a outra a lei escrita das cidades, é correto, quando a lei escrita não se opõe à de Deus, que os cidadãos não a abandonem sob pretexto de costumes estrangeiros; mas, quando a lei da natureza, isto é, a lei de Deus, ordena o que se opõe à lei escrita, vê se a razão não nos dirá para nos despedirmos de vez do código escrito e da vontade de seus legisladores, e nos entregarmos ao Deus legislador, escolhendo uma vida conforme à Sua palavra, ainda que para isso seja necessário enfrentar perigos, inúmeros trabalhos, e até a morte e a desonra. Pois, quando existem algumas leis em harmonia com a vontade de Deus que se opõem a outras em vigor nas cidades, e quando é impossível agradar a Deus e, ao mesmo tempo, aos que administram tais leis, seria absurdo desprezar os atos pelos quais podemos agradar ao Criador de todas as coisas e escolher aqueles pelos quais nos tornaremos desagradáveis a Deus, embora satisfaçamos leis ímpias e os que as amam. Mas, visto que é racional, em outras matérias, preferir a lei da natureza, que é a lei de Deus, à lei escrita, promulgada por homens em oposição à lei de Deus, por que não faríamos isso ainda mais no caso das leis que se referem a Deus? Nem adoraremos, como os etíopes que habitam as partes em torno de Méroe, somente Júpiter e Baco; nem reverenciaremos de forma alguma os deuses etíopes à maneira etíope; nem, como os árabes, consideraremos unicamente Urânia e Baco como divindades; nem de modo algum divindades em que a diferença de sexo seja fundamento de distinção, como entre os árabes, que cultuam Urânia como deusa feminina e Baco como divindade masculina; nem, como todos os egípcios, teremos Osíris e Ísis por deuses; nem contaremos Atena entre eles, como os saítas gostam de fazer. E se aos antigos habitantes de Náucratis pareceu bom adorar outras divindades, ao passo que seus descendentes modernos começaram muito recentemente a reverenciar Serápis, que jamais foi deus algum, não afirmaremos por isso que um ser novo, que antes não era deus e nem sequer era conhecido dos homens, seja uma divindade. Pois o Filho de Deus, o Primogênito de toda a criação, embora parecesse ter-se encarnado recentemente, não é de modo algum recente. As santas Escrituras O conhecem como o mais antigo de todas as obras da criação; pois foi a Ele que Deus disse, na criação do homem: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.”[38] Quero, contudo, mostrar como Celso afirma sem boa razão que cada um reverencia suas instituições domésticas e nacionais. Pois ele declara que os etíopes que habitam Méroe conhecem apenas dois deuses, Júpiter e Baco, e adoram somente esses; e que os árabes também conhecem apenas dois, a saber, Baco, que também é divindade etíope, e Urânia, cujo culto se restringe a eles. Segundo sua própria exposição, nem os etíopes adoram Urânia, nem os árabes adoram Júpiter. Se, então, um etíope, por algum acidente, caísse nas mãos dos árabes e fosse julgado culpado de impiedade por não adorar Urânia, correndo por isso risco de morte, seria mais correto que o etíope morresse ou que agisse contra as leis de seu país e rendesse homenagem a Urânia? Ora, se fosse correto agir contra as leis de sua pátria, ele faria o que não é reto, ao menos segundo o padrão de linguagem de Celso; mas, se fosse levado à morte, que ele mostre a racionalidade de escolher tal destino. Não sei se, caso a doutrina etíope ensinasse os homens a filosofar sobre a imortalidade da alma e a honra devida à religião, eles reverenciariam como deuses aqueles que assim são tidos pelas leis do país. Ilustração semelhante pode ser usada no caso dos árabes, se por acaso viessem a visitar os etíopes de Méroe. Pois, tendo sido instruídos a adorar somente Urânia e Baco, não adorarão Júpiter juntamente com os etíopes; e, se julgados culpados de impiedade e levados à morte, que Celso diga o que seria razoável que fizessem. E quanto às fábulas sobre Osíris e Ísis, é supérfluo e fora de propósito enumerá-las agora. Porque, ainda que lhes seja dado um sentido alegórico, elas nos ensinarão a prestar culto divino à água fria e à terra, sujeita aos homens, e a toda a criação animal. Pois assim, suponho, referem Osíris à água e Ísis à terra; ao passo que sobre Serápis os relatos são muitos e contraditórios, no sentido de que ele apareceu em público muito recentemente, conforme certos truques de prestidigitação realizados a pedido de Ptolomeu, que desejava mostrar ao povo de Alexandria, por assim dizer, um deus visível. E lemos nos escritos de Numênio, o pitagórico, sobre sua formação, que ele participa da essência de todos os animais e plantas submetidos ao governo da natureza, para que pareça ter sido modelado em deus não apenas pelos fabricantes de imagens, com o auxílio de mistérios profanos e truques empregados para invocar demônios, mas também por mágicos, feiticeiros e aqueles demônios que se deixam enfeitiçar por seus encantamentos.[39] Devemos, portanto, investigar o que pode ou não ser apropriadamente comido pelo animal racional e manso, que age sempre de acordo com a razão; e não adorar ao acaso ovelhas, cabras ou bois, de cuja carne abster-se pode até ser um ato de moderação, porque muito proveito os homens tiram desses animais. Mas não é a mais insensata de todas as coisas poupar crocodilos e tratá-los como sagrados a alguma divindade fabulosa? Pois é sinal de extrema estupidez poupar os animais que não nos poupam e dispensar cuidado aos que fazem dos seres humanos sua presa. Contudo, Celso aprova aqueles que, em conformidade com as leis do seu país, adoram e cuidam de crocodilos, e não diz uma palavra contra eles, enquanto os cristãos parecem merecer censura, sendo que foram ensinados a odiar o mal, a apartar-se das obras perversas e a reverenciar e honrar a virtude como gerada por Deus e como sendo Seu Filho. Pois não devemos, por causa do nome e da natureza femininos dessas palavras, considerar sabedoria e justiça como fêmeas; porque essas coisas são, em nosso entendimento, o Filho de Deus, como mostrou Seu verdadeiro discípulo quando disse acerca dEle: “o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e redenção.” E, embora possamos chamá-Lo um segundo Deus, saibam os homens que com a expressão segundo Deus não queremos dizer nada além de uma virtude capaz de conter todas as demais virtudes e uma razão capaz de abranger toda razão existente em todas as coisas que surgiram naturalmente, diretamente e para o bem comum; e essa razão, dizemos, habitou na alma de Jesus e uniu-se a Ele em grau muito acima de todas as outras almas, pois somente Ele foi capaz de receber plenamente a maior participação na razão absoluta, na sabedoria absoluta e na justiça absoluta.[40] Mas, já que Celso, depois de falar como acima sobre os diferentes tipos de lei, acrescenta a observação de que “Píndaro me parece correto ao dizer que a lei é rei de todas as coisas”, passemos a examinar essa afirmação. Que lei queres dizer, meu caro, que é rei de todas as coisas? Se te referes às leis existentes nas diversas cidades, então tal afirmação não é verdadeira, pois nem todos os homens são governados pela mesma lei. Deverias ter dito que as leis são reis de todos os homens, porque em cada nação alguma lei é rainha de todos. Mas, se te referes àquilo que é lei em sentido próprio, então é esta que por natureza é rei de todas as coisas, embora haja alguns indivíduos que, como ladrões, tendo abandonado a lei, negam sua validade e vivem vidas de violência e injustiça. Nós, cristãos, portanto, que chegamos ao conhecimento da lei que por natureza é rei de todas as coisas e que é a mesma que a lei de Deus, procuramos reger nossas vidas por seus preceitos, tendo dito um longo adeus às leis de caráter ímpio.[41] Notemos agora as acusações que Celso apresenta a seguir, nas quais há pouquíssimo que diga respeito aos cristãos, já que a maior parte se refere aos judeus. Suas palavras são: “Se, então, os judeus nesses aspectos guardam cuidadosamente a sua própria lei, não devem ser censurados por fazê-lo, mas sim aqueles que abandonaram seus próprios costumes e adotaram os dos judeus. E, se se vangloriam disso, como se possuíssem sabedoria superior, e se mantêm afastados do convívio com os outros, como se estes não fossem igualmente puros, já ouviram que sua doutrina a respeito do céu não lhes é própria, mas, para deixar todos os demais de lado, é uma doutrina há muito recebida entre os persas, como Heródoto menciona em algum lugar. ‘Pois têm o costume’, diz ele, ‘de subir ao cume dos montes e oferecer sacrifícios a Júpiter, dando o nome de Júpiter a todo o círculo do céu.’ E penso”, continua Celso, “que não faz diferença alguma se chamas o ser supremo de Zeus, Zen, Adonai, Sabaoth, Ammoun como os egípcios, ou Pappaeus como os citas. Nem seriam considerados mais santos do que outros por observarem a circuncisão, porque os egípcios e os cólquidas fizeram isso antes deles; nem porque se abstêm da carne de porco, pois os egípcios não só se abstinham dela, mas também da carne de cabras, ovelhas, bois e peixes; enquanto Pitágoras e seus discípulos não comem favas nem nada que contenha vida. Não é provável, contudo, que gozem do favor de Deus, ou sejam por Ele amados de modo diferente dos outros, ou que anjos tenham sido enviados do céu somente a eles, como se lhes tivesse sido atribuída alguma região dos bem-aventurados; pois vemos tanto a eles quanto a terra de que foram julgados dignos. Que esse grupo, então, retire-se, depois de pagar a pena de sua vanglória, não tendo conhecimento do grande Deus, mas sendo levado e enganado pelos artifícios de Moisés, de quem se tornou discípulo para nenhum bom fim.”[42] É evidente, pelas observações precedentes, que Celso acusa os judeus de se apresentarem falsamente como a porção escolhida do Deus Supremo acima de todas as outras nações. Ele os acusa de vanglória, porque declaravam conhecer o grande Deus, embora, segundo ele, não O conhecessem de fato, mas tivessem sido levados pelos artifícios de Moisés, enganados por ele e feitos seus discípulos sem bom proveito. Ora, nas páginas anteriores já falamos em parte da venerável e distinta constituição dos judeus, quando ela existia entre eles como símbolo da cidade de Deus, de Seu templo e do culto sacrificial oferecido nele e no altar do sacrifício. Mas, se alguém voltar sua atenção ao sentido do legislador e à constituição que ele estabeleceu, examinando os vários pontos que lhe dizem respeito e comparando-os com o modo atual de culto entre outras nações, não encontrará nada que admire mais; porque, tanto quanto pode ser realizado entre mortais, tudo o que não era vantajoso para o gênero humano lhes foi retirado, e só lhes foi concedido o que era útil. Por essa razão, não tinham entre si competições ginásticas, nem representações cênicas, nem corridas de cavalos; nem havia entre eles mulheres que vendessem sua beleza a qualquer um que quisesse manter relação sexual sem geração de filhos, lançando desprezo sobre a natureza da geração humana. E que grande vantagem era serem ensinados, desde a mais tenra idade, a elevar-se acima de toda a natureza visível e a crer que Deus não estava fixado em lugar algum dentro de seus limites, mas que devia ser buscado no alto, além da esfera de toda substância corporal! E quão grande era a vantagem de serem instruídos quase desde o nascimento, e assim que podiam falar, na imortalidade da alma, na existência de tribunais sob a terra e nas recompensas preparadas para os que viveram justamente! Essas verdades, é certo, eram proclamadas sob o véu da fábula às crianças e aos de entendimento infantil; ao passo que, para os que já se ocupavam em investigar a verdade e desejavam progredir nela, essas fábulas, por assim dizer, eram transfiguradas nas verdades ocultas dentro delas. E considero digno do nome deles, como porção de Deus, o fato de desprezarem toda espécie de adivinhação, como algo que enfeitiça os homens inutilmente e que procede mais de demônios maus do que de qualquer natureza melhor; e buscarem o conhecimento dos acontecimentos futuros nas almas daqueles que, por seu altíssimo grau de pureza, recebiam o Espírito do Deus Supremo.[43] Mas que necessidade há de mostrar quão conforme à sã razão, e sem dano nem ao senhor nem ao escravo, era a lei segundo a qual alguém da mesma fé não podia continuar na escravidão por mais de seis anos? Os judeus, então, não podem ser considerados como preservando sua lei nos mesmos pontos em que as outras nações preservam as suas. Pois seria censurável neles, e implicaria insensibilidade à superioridade de sua lei, se acreditassem ter sido legislados da mesma forma que as demais nações entre os pagãos. E, embora Celso não admita isso, os judeus, ainda assim, possuem uma sabedoria superior não só à da multidão, mas também à daqueles que têm aparência de filósofos; porque os que se dedicam à filosofia, depois de proferirem os mais veneráveis sentimentos filosóficos, recaem na adoração de ídolos e demônios, ao passo que o mais humilde judeu dirige o olhar somente ao Deus Supremo; e fazem bem, nesse ponto, em orgulhar-se disso e em afastar-se da sociedade dos outros como de homens amaldiçoados e ímpios. E quem dera que não tivessem pecado, nem transgredido a lei, nem matado os profetas nos tempos antigos, nem nestes últimos dias conspirado contra Jesus, para que possuíssemos um modelo de cidade celeste que até Platão teria procurado descrever; embora eu duvide que pudesse realizar tanto quanto foi feito por Moisés e por aqueles que o seguiram, os quais nutriram uma geração escolhida e uma nação santa, dedicada a Deus, com palavras livres de toda superstição.[44] Mas, já que Celso quer comparar os veneráveis costumes dos judeus com as leis de certas nações, prossigamos a examiná-las. Ele opina, pois, que não há diferença entre a doutrina acerca do céu e a doutrina acerca de Deus, e diz que os persas, assim como os judeus, oferecem sacrifícios a Júpiter nos topos dos montes, sem perceber que, assim como os judeus conheciam um só Deus, também possuíam apenas uma única casa santa de oração, um único altar de holocaustos, um único incensário para o incenso e um único sumo sacerdote de Deus. Os judeus, portanto, nada tinham em comum com os persas, que sobem a muitos cumes de montanhas e oferecem sacrifícios sem nada em comum com aqueles regulados pelo código mosaico — segundo o qual os sacerdotes judeus serviam ao modelo e sombra das coisas celestiais, explicando enigmaticamente o propósito da lei relativa aos sacrifícios e das realidades das quais esses sacrifícios eram símbolos. Os persas podem, portanto, chamar todo o círculo do céu de Júpiter; nós, porém, sustentamos que o céu não é nem Júpiter nem Deus, embora saibamos que certos seres de categoria inferior a Deus ascenderam acima dos céus e de toda a natureza visível; e é nesse sentido que entendemos as palavras: “Louvai a Deus, vós céus dos céus, e vós águas que estais acima dos céus; louvem o nome do Senhor.”[45] Como Celso, porém, pensa que nada importa se o ser supremo é chamado Júpiter, Zen, Adonai, Sabaoth, Ammoun, como dizem os egípcios, ou Pappaeus, como o denominam os citas, discutamos um pouco esse ponto, lembrando ao leitor ao mesmo tempo o que já foi dito acima sobre essa questão, quando a linguagem de Celso nos levou a considerá-la. Sustentamos agora que a natureza dos nomes não é, como Aristóteles supõe, simples convenção daqueles que os impõem. Pois as línguas prevalecentes entre os homens não têm sua origem nos próprios homens, como é evidente para os que são capazes de discernir a natureza dos encantamentos que são apropriados de modo diferente pelos inventores das línguas, segundo os vários idiomas e as diferentes pronúncias dos nomes — tema sobre o qual falamos brevemente nas páginas anteriores, observando que, quando nomes que em certa língua possuíam um poder natural eram traduzidos para outra, já não conseguiam realizar o que antes realizavam quando pronunciados em sua língua nativa. E a mesma peculiaridade se aplica também aos homens; pois, se traduzíssemos o nome de alguém que desde o nascimento foi chamado por determinada designação em grego para o egípcio, o romano ou outra língua qualquer, não poderíamos fazê-lo realizar ou sofrer as mesmas coisas que faria ou sofreria sob a designação inicialmente recebida. Mais ainda: mesmo que traduzíssemos para o grego o nome de alguém que originalmente fosse invocado em língua romana, não produziríamos o resultado que o encantamento pretendia ser capaz de produzir se o primeiro nome a ele dado tivesse sido conservado. E, se essas afirmações são verdadeiras quando se fala dos nomes dos homens, que pensar dos nomes transferidos, por qualquer razão, à Deidade? Por exemplo, algo se perde do nome Abraão quando é traduzido para o grego, e algo é significado também por Isaque e por Jacó; por isso, se alguém, seja numa invocação, seja num juramento, usar a expressão “o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”, produzirá certos efeitos, seja pela natureza desses nomes, seja por seus poderes, pois até os demônios são vencidos e se tornam submissos àquele que os pronuncia; ao passo que, se dissermos “o deus do pai escolhido do eco”, “o deus do riso” e “o deus daquele que fere com o calcanhar”, a menção desses nomes não produz resultado algum, como acontece com outros nomes destituídos de poder. E do mesmo modo, se traduzirmos a palavra Israel para o grego ou para qualquer outra língua, não produziremos resultado algum; mas, se a conservarmos como é e a unirmos às expressões que os entendidos nessas coisas julgam que devem acompanhá-la, então seguirá algum efeito da pronúncia da palavra, em conformidade com as pretensões daqueles que empregam tais invocações. O mesmo se pode dizer da pronúncia de Sabaoth, palavra frequentemente usada em encantamentos; pois, se a traduzirmos por “Senhor dos Exércitos”, “Senhor dos Exércitos Armados” ou “Todo-Poderoso”, como diferentes intérpretes propuseram, nada realizaremos; ao passo que, se conservarmos a pronúncia original, produziremos, como sustentam os que são versados nesses assuntos, algum efeito. A mesma observação vale para Adonai. Se, pois, nem Sabaoth nem Adonai, quando vertidos para o que parece ser seu sentido na língua grega, conseguem fazer coisa alguma, quanto menos efeito haverá entre aqueles que consideram indiferente chamar o ser supremo de Júpiter, Zen, Adonai ou Sabaoth![46] Foi por essas e semelhantes razões misteriosas, conhecidas de Moisés e dos profetas, que eles proibiram que o nome de outros deuses fosse pronunciado por aquele que se dispusesse a orar somente ao único Deus Supremo, ou lembrado por um coração que tivesse sido instruído a conservar-se puro de pensamentos e palavras insensatos. E, por essas razões, deveríamos preferir suportar toda sorte de sofrimento a reconhecer Júpiter como Deus. Pois não consideramos Júpiter e Sabaoth como sendo o mesmo, nem julgamos Júpiter de modo algum divino; antes, cremos que algum demônio hostil aos homens e ao verdadeiro Deus se alegra sob esse título. E, ainda que os egípcios nos pusessem diante de Amom sob ameaça de morte, preferiríamos morrer a chamá-lo Deus, sendo esse provavelmente um nome usado em certos encantamentos egípcios pelos quais esse demônio é invocado. E, embora os citas possam chamar Pappaeus de Deus supremo, não daremos assentimento a isso; concedendo, é verdade, que existe uma Divindade Suprema, embora não Lhe demos o nome de Pappaeus como título próprio, mas o consideremos apropriado ao demônio a quem foi atribuído o deserto da Cítia, com seu povo e sua língua. Contudo, aquele que dá a Deus o Seu título em língua cita, ou egípcia, ou em qualquer língua em que tenha sido criado, não será culpado de pecado.[47] A razão, porém, pela qual a circuncisão é praticada entre os judeus não é a mesma que explica sua existência entre os egípcios e os cólquidas, e por isso não deve ser considerada a mesma circuncisão. E assim como aquele que sacrifica não sacrifica ao mesmo deus, embora pareça realizar o rito sacrificial de maneira semelhante, e aquele que oferece oração não ora à mesma divindade, ainda que peça as mesmas coisas em sua súplica, do mesmo modo, se alguém pratica o rito da circuncisão, não se segue de maneira alguma que seja o mesmo ato da circuncisão praticada por outro. Pois o propósito, a lei e a vontade de quem realiza o rito colocam o ato em categoria diversa. Mas, para que todo esse assunto seja ainda melhor compreendido, devemos observar que o termo justiça é o mesmo entre todos os gregos; contudo, justiça é uma coisa segundo Epicuro, outra segundo os estóicos, que negam a tripla divisão da alma, e outra ainda segundo os seguidores de Platão, que sustentam que a justiça é a função própria das partes da alma. E assim também a coragem dos epicuristas é uma coisa, pois suportariam certos trabalhos para escapar de males maiores; outra é a do filósofo do Pórtico, que escolheria toda virtude por si mesma; e outra ainda a de Platão, que sustenta que a própria virtude é o ato da parte irascível da alma e lhe assinala lugar junto ao peito. Assim, também a circuncisão será algo diferente segundo as diversas opiniões daqueles que a recebem. Mas, sobre um assunto desses, é desnecessário falar agora num tratado como o presente; quem quiser ver o que nos levou a tocar no tema pode ler o que dissemos a esse respeito na Epístola de Paulo aos Romanos.[48] Embora os judeus, então, se gloriem na circuncisão, eles a distinguirão não só da dos cólquidas e egípcios, mas também da dos ismaelitas árabes; e, no entanto, esta última vinha do seu antepassado Abraão, pai de Ismael, que passou pelo rito da circuncisão juntamente com seu pai. Os judeus dizem que a circuncisão praticada no oitavo dia é a principal, e que a efetuada segundo as circunstâncias é diferente; e provavelmente ela foi praticada por causa da hostilidade de algum anjo contra a nação judaica, anjo esse que tinha poder para ferir os que não fossem circuncidados, mas era impotente contra os que haviam passado pelo rito. Isso pode parecer decorrer do que está escrito no livro do Êxodo, onde o anjo, antes da circuncisão de Eliezer, pôde agir contra Moisés, mas nada pôde fazer depois que o filho foi circuncidado. E, quando Zípora soube disso, tomou uma pedra afiada e circuncidou a criança; e está registrado, segundo a leitura dos exemplares comuns, que ela disse: “Está estancado o sangue da circuncisão de meu filho”; mas, segundo o texto hebraico: “Tu és para mim um marido sanguinário.” Pois ela conhecia a história acerca de certo anjo que tinha poder antes do derramamento do sangue, mas se tornava impotente por meio do sangue da circuncisão. Por isso foram dirigidas a Moisés as palavras: “Tu és para mim um marido sanguinário.” Essas coisas, que parecem antes curiosas e não acessíveis à compreensão da multidão, ousei tratá-las com certa extensão; agora acrescentarei apenas mais uma coisa, como convém a um cristão, e passarei adiante. Pois esse anjo, penso eu, poderia ter tido poder sobre aqueles do povo que não eram circuncidados, e em geral sobre todos os que adoravam somente o Criador; e esse poder durou enquanto Jesus ainda não havia assumido um corpo humano. Mas, quando Ele o fez e passou em Sua própria pessoa pelo rito da circuncisão, todo o poder do anjo sobre aqueles que praticam o mesmo culto, mas não são circuncidados, foi abolido; pois Jesus o reduziu a nada pelo poder de Sua inefável divindade. E por isso Seus discípulos são proibidos de circuncidar-se, sendo lembrados pelo apóstolo: “Se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará.”[49] Nem os judeus se gloriam de abster-se da carne de porco como se isso fosse grande coisa; mas antes de terem discernido a natureza dos animais puros e impuros, a causa dessa distinção e o motivo pelo qual o porco foi colocado entre os impuros. E essas distinções eram sinais de certas coisas até a vinda de Jesus; depois de Sua vinda, foi dito ao Seu discípulo, que ainda não compreendia a doutrina relativa a essas matérias e dizia: “Nada comum ou impuro entrou na minha boca”: “Ao que Deus purificou não chames comum.” Portanto, em nada nos afeta, nem a nós nem aos judeus, que os sacerdotes egípcios se abstenham não só da carne de porco, mas também da de cabras, ovelhas, bois e peixes. Mas, visto que não é o que entra pela boca que contamina o homem, e que o alimento não nos recomenda a Deus, não damos grande valor ao ato de deixar de comer, nem tampouco somos levados a comer por um apetite glutão. E, por isso, no que nos concerne, os seguidores de Pitágoras, que se abstêm de tudo o que contém vida, podem fazer como quiserem; apenas note-se a diferença entre a razão de se abster de coisas vivas da parte dos pitagóricos e a de nossos ascetas. Os primeiros se abstêm por causa da fábula da transmigração das almas, como diz o poeta: “E alguém, erguendo seu amado filho, o matará depois da oração; ó quão insensato!” Nós, porém, quando nos abstemos, o fazemos porque mantemos o corpo sob controle e o sujeitamos, e desejamos mortificar nossos membros que estão sobre a terra: a fornicação, a impureza, a paixão desordenada, a má concupiscência; e empregamos todo esforço para mortificar as obras da carne.[50] Celso, ainda expondo sua opinião sobre os judeus, diz: “Não é provável que eles estejam em grande favor diante de Deus, nem que sejam por Ele estimados com mais afeição do que os outros, nem que anjos lhes sejam enviados somente a eles, como se lhes tivesse sido destinada alguma região dos bem-aventurados. Pois podemos ver tanto o próprio povo quanto a terra de que foram considerados dignos.” Refutaremos isso observando que é evidente que essa nação esteve em grande favor diante de Deus pelo fato de o Deus que preside sobre todas as coisas ser chamado Deus dos hebreus até mesmo por aqueles que eram estranhos à nossa fé. E porque estavam no favor de Deus, não foram abandonados por Ele; mas, embora poucos em número, continuaram a desfrutar da proteção do poder divino, de modo que, no reinado de Alexandre da Macedônia, não sofreram dano algum por parte dele, embora, por causa de certos pactos e juramentos, se recusassem a tomar armas contra Dario. Diz-se que, nessa ocasião, o sumo sacerdote dos judeus, vestido com suas vestes sagradas, recebeu reverência de Alexandre, que declarou ter visto em sonho um homem assim vestido anunciando-lhe que ele seria o subjugador de toda a Ásia. Assim, nós cristãos sustentamos que foi privilégio daquele povo gozar em grau notável do favor de Deus e ser amado por Ele de modo diferente dos demais; mas que essa economia das coisas e esse favor divino foram transferidos para nós, depois que Jesus comunicou àqueles que dentre os gentios se converteram a Ele o poder que antes se manifestara entre os judeus. E por isso, embora os romanos desejassem perpetrar muitas atrocidades contra os cristãos para assegurar o seu extermínio, não o conseguiram; porque havia uma mão divina lutando em favor deles e desejando que a palavra de Deus se espalhasse desde um extremo da terra da Judeia por toda a raça humana.[51] Mas, visto que respondemos, tanto quanto nos foi possível, às acusações que Celso levantou contra os judeus e sua doutrina, prossigamos a considerar o que vem a seguir e a provar que não é vanglória vazia de nossa parte professarmos conhecer o grande Deus, e que não fomos desviados por artifícios de Moisés, como Celso imagina, nem mesmo por quaisquer truques de nosso próprio Salvador Jesus; mas que, para um bom fim, ouvimos o Deus que fala em Moisés e aceitamos Jesus, de quem Moisés dá testemunho, como Filho de Deus, na esperança de receber as melhores recompensas se regulamos nossas vidas segundo Sua palavra. E passaremos voluntariamente por alto o que já declaramos de antemão sobre os pontos de onde viemos, quem é nosso líder e que lei procedeu dEle. E, se Celso quiser sustentar que não há diferença entre nós e os egípcios, que adoram o bode, o carneiro, o crocodilo, o boi, o hipopótamo, o cinocéfalo ou o gato, ele pode investigar se isso é assim, e qualquer outro que pense do mesmo modo. Nós, porém, já nos defendemos longamente, tanto quanto pudemos, nas páginas anteriores, sobre a honra que tributamos a nosso Jesus, mostrando que escolhemos a melhor parte; e, ao demonstrar que a verdade contida no ensinamento de Jesus Cristo é pura e sem mistura de erro, não estamos recomendando a nós mesmos, mas ao nosso Mestre, a quem foi dado testemunho por muitas testemunhas: pelo Deus Supremo, pelos escritos proféticos entre os judeus e pela própria clareza do caso; pois fica demonstrado que Ele não poderia ter realizado tão grandes obras sem o auxílio divino.[52] Mas a declaração de Celso que desejamos agora examinar é a seguinte: “Passemos, então, pelas refutações que poderiam ser apresentadas contra as reivindicações feitas em favor do mestre deles e admitamos que ele tenha sido realmente um anjo. Mas é ele o primeiro e único que veio aos homens, ou houve outros antes dele? Se disserem que é o único, serão convencidos de mentir contra si mesmos. Pois afirmam que em muitas ocasiões outros vieram, e sessenta ou setenta deles juntos, e que se tornaram maus, foram lançados sob a terra e punidos com correntes, e que daí se originam as fontes termais, que são as lágrimas deles; além disso, que veio um anjo ao túmulo desse tal ser — segundo alguns, um só; segundo outros, dois — e respondeu às mulheres que ele havia ressuscitado. Pois o Filho de Deus, ao que parece, não pôde abrir ele mesmo o túmulo, mas precisou da ajuda de outro para remover a pedra. E, novamente, por causa da gravidez de Maria, veio um anjo ao carpinteiro; e mais uma vez outro anjo, para que tomassem a criança e fugissem para o Egito. Mas que necessidade há de particularizar tudo, ou contar o número dos anjos que se diz terem sido enviados a Moisés, e a outros também? Se, então, outros foram enviados, é manifesto que ele também veio do mesmo Deus. Mas pode-se supor que tivesse a aparência de anunciar algo de maior importância do que os que o precederam, como se os judeus estivessem pecando, corrompendo sua religião ou praticando atos de impiedade; pois essas coisas apenas se insinuam obscuramente.”[53] As observações precedentes talvez bastassem como resposta às acusações de Celso, no que toca aos pontos em que nosso Salvador Jesus Cristo é submetido a investigação especial. Mas, para evitar a aparência de estarmos omitindo intencionalmente alguma parte de sua obra, como se fôssemos incapazes de enfrentá-lo, continuemos nosso discurso, ainda que correndo o risco de certa tautologia, já que Celso nos desafia a isso, procurando, com toda a brevidade possível, avançar mais um pouco, pois talvez algo mais preciso ou mais novo nos ocorra em cada tema. Ele diz, de fato, que omitiu as refutações levantadas contra as reivindicações feitas pelos cristãos em favor de seu mestre, embora nada tenha omitido daquilo que pôde apresentar, como se torna claro por sua linguagem anterior, fazendo essa afirmação apenas como recurso retórico vazio. Que não fomos refutados, porém, no tocante ao nosso grande Salvador, ainda que o acusador pareça refutar-nos, ficará manifesto para aqueles que lerem, com espírito de amor à verdade, tudo o que foi predito e registrado a respeito dEle. E, em seguida, visto que ele imagina fazer uma concessão ao dizer do Salvador: “Admita-se que ele tenha sido realmente um anjo”, respondemos que não aceitamos tal concessão de Celso; mas olhamos para a obra daquele que veio visitar toda a raça humana por Sua palavra e por Seu ensinamento, conforme cada um de Seus aderentes era capaz de recebê-Lo. E essa foi a obra de alguém que, como a profecia dizia a Seu respeito, não era simplesmente um anjo, mas o Anjo do grande conselho; pois anunciou aos homens o grande conselho do Deus e Pai de todas as coisas acerca deles: que os que se entregam a uma vida de pura religião sobem a Deus por meio de suas grandes obras; mas os que não se apegam a Ele, colocam-se a distância de Deus e caminham para a destruição por sua incredulidade. Ele então prossegue: “Mesmo que o anjo tenha vindo aos homens, é ele o primeiro e único que veio, ou outros vieram em ocasiões anteriores?” E pensa poder resolver longamente esse dilema, embora não exista um único cristão verdadeiro que afirme que Cristo foi o único ser que visitou a raça humana. Pois, como o próprio Celso diz, se eles disserem “o único”, há outros que apareceram a diferentes indivíduos.[54] Em seguida, ele passa a responder a si mesmo do modo que lhe parece adequado, nestes termos: “Assim, não é ele o único que está registrado como tendo visitado a raça humana, já que até aqueles que, sob pretexto de ensinar em nome de Jesus, apostataram do Criador como um ser inferior e aderiram a um deus superior e pai daquele que visitou o mundo, afirmam que antes dele certos seres vieram do Criador para visitar a humanidade.” Ora, como investigamos tudo o que se refere ao assunto em espírito de verdade, observaremos que Apeles, célebre discípulo de Marcião, que se tornou fundador de certa seita e tratou os escritos dos judeus como fabulosos, afirmava que Jesus é o único que veio visitar a raça humana. Mesmo contra esse homem, então, que sustentava que Jesus era o único vindo de Deus aos homens, Celso em vão citaria as passagens relativas à descida de outros anjos, visto que Apeles desacredita, como já dissemos, as narrativas milagrosas das Escrituras judaicas; e com muito maior razão rejeitará o que Celso aduziu por não compreender o conteúdo do livro de Enoque. Ninguém, portanto, nos convence de falsidade ou de fazer afirmações contraditórias, como se sustentássemos ao mesmo tempo que nosso Salvador foi o único ser que jamais veio aos homens e, ainda assim, que muitos outros vieram em diferentes ocasiões. E, de maneira extremamente confusa, quando examina o assunto das visitas de anjos aos homens, ele recorre ao que obteve, sem entender o seu sentido, do conteúdo do livro de Enoque; pois parece não ter lido as passagens em questão, nem ter percebido que os livros que levam o nome de Enoque de modo algum circulam nas igrejas como divinos, embora seja dessa fonte que ele possa ter obtido a afirmação de que sessenta ou setenta anjos desceram ao mesmo tempo e caíram em estado de maldade.[55] Mas, para lhe concedermos com espírito de franqueza o que ele não descobriu no conteúdo do livro de Gênesis, a saber, que os filhos de Deus, vendo que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si esposas dentre todas as que escolheram, ainda assim, mesmo nesse ponto, persuadiremos aqueles que são capazes de entender o sentido do profeta de que, já antes de nós, houve quem referisse essa narrativa à doutrina acerca das almas, que passaram a desejar a vida corporal dos homens, e que, em linguagem metafórica, eram chamadas filhas dos homens. Mas qualquer que seja o significado de os filhos de Deus desejarem possuir as filhas dos homens, isso em nada contribuirá para provar que Jesus não foi o único que visitou a humanidade como anjo e que manifestamente se tornou o Salvador e benfeitor de todos os que escapam do dilúvio da maldade. Então, misturando e confundindo tudo quanto em algum momento ouvira ou encontrara escrito — quer fosse tido ou não como de origem divina entre os cristãos —, ele acrescenta: “Os sessenta ou setenta que desceram juntos foram lançados sob a terra e punidos com correntes.” E cita, como se fosse do livro de Enoque, embora sem nomeá-lo, o seguinte: “E, por isso, as lágrimas desses anjos são fontes termais” — coisa nem mencionada nem ouvida nas Igrejas de Deus! Pois ninguém jamais foi tão insensato a ponto de materializar em lágrimas humanas aquelas derramadas pelos anjos que haviam descido do céu. E, se fosse apropriado fazer troça daquilo que Celso apresenta seriamente contra nós, poderíamos observar que ninguém jamais teria dito que fontes quentes, cuja maior parte é de água doce, fossem lágrimas de anjos, uma vez que as lágrimas são salgadas por natureza, a menos que, na opinião de Celso, os anjos derramem lágrimas doces.[56] Prosseguindo imediatamente a misturar e comparar coisas dessemelhantes e incapazes de ser unidas, ele acrescenta à sua afirmação sobre os sessenta ou setenta anjos que desceram do céu e que, segundo ele, derramaram fontes de água quente em forma de lágrimas, o seguinte: “Relata-se também que ao túmulo do próprio Jesus vieram, segundo alguns, dois anjos, segundo outros, um só”; não tendo percebido, creio eu, que Mateus e Marcos falam de um, e Lucas e João de dois, o que não é contraditório. Pois os que mencionam um dizem que foi ele quem removeu a pedra do sepulcro; enquanto os que mencionam dois se referem aos que apareceram em vestes brilhantes às mulheres que foram ao sepulcro, ou aos que foram vistos dentro dele, sentados em vestes brancas. Cada uma dessas ocorrências poderia agora ser demonstrada como tendo realmente acontecido e como indicativa de um sentido figurado presente nesses fenômenos, inteligível àqueles que estavam preparados para contemplar a ressurreição do Verbo. Tal tarefa, porém, não pertence ao nosso propósito presente, mas antes a uma exposição do Evangelho.[57] Ora, que aparições miraculosas às vezes foram vistas por seres humanos é algo relatado pelos gregos; e não apenas por aqueles que poderiam ser suspeitos de compor narrativas fabulosas, mas também por homens que deram todas as provas de serem filósofos autênticos e de terem relatado com perfeita veracidade o que lhes aconteceu. Narrativas desse tipo lemos nos escritos de Crisipo de Solos, bem como algumas semelhantes acerca de Pitágoras; e também em autores mais recentes, de tempo não muito distante, como no tratado de Plutarco de Queronéia Sobre a Alma e no segundo livro da obra de Numênio, o pitagórico, Sobre a Incorruptibilidade da Alma. Ora, quando tais relatos são feitos pelos gregos, e sobretudo pelos filósofos entre eles, não devem ser recebidos com zombaria e ridículo, nem tidos como ficções e fábulas; mas, quando aqueles que se devotam ao Deus de todas as coisas, e que suportam toda espécie de injúria, até a própria morte, em vez de permitir que uma mentira lhes escape dos lábios acerca de Deus, anunciam aparições de anjos que eles próprios testemunharam, são considerados indignos de fé e suas palavras não são tidas como verdadeiras! Julgar desse modo se as pessoas estão falando a verdade ou a mentira é contrário à sã razão. Pois os que procedem honestamente, somente depois de um exame longo e cuidadoso dos detalhes de um assunto, lenta e prudentemente formam opinião sobre a veracidade ou falsidade desta ou daquela pessoa no tocante às maravilhas que relata; uma vez que nem todos os homens se mostram dignos de crédito, nem todos tornam claro que estão contando apenas ficções e fábulas. Além disso, sobre a ressurreição de Jesus dentre os mortos, temos a dizer que não há absolutamente nada de extraordinário em que, numa ocasião como essa, um ou dois anjos tenham aparecido para anunciar que Jesus ressuscitou e para prover à segurança daqueles que cressem em tal acontecimento para o bem de suas almas. Tampouco me parece de modo algum irracional que aqueles que creem na ressurreição de Jesus, e que manifestam, como fruto de sua fé nada desprezível, a posse de uma vida virtuosa e o afastamento do dilúvio dos males, não estejam desacompanhados de anjos que os auxiliem em sua conversão a Deus.[58] Mas Celso também contesta o relato de que um anjo removeu a pedra do sepulcro onde jazia o corpo de Jesus, procedendo como um rapaz de escola, que levantasse acusação contra alguém por meio de uma série de lugares-comuns. E, como se tivesse descoberto alguma objeção engenhosa à narrativa, observa: “Então o Filho de Deus, ao que parece, não podia abrir o próprio túmulo, mas precisou da ajuda de outro para remover a pedra.” Ora, para não exagerar a discussão dessa matéria, nem parecer introduzir observações filosóficas sem necessidade ao explicar agora o sentido figurado, direi apenas da própria narrativa que parece, em si mesma, mais respeitoso que o servo e inferior tenha removido a pedra, do que que tal ato fosse realizado por Aquele cuja ressurreição seria para proveito da humanidade. Não falo do desejo daqueles que conspiraram contra o Verbo, quiseram matá-Lo e mostrar a todos que Ele estava morto e inexistente, desejando que o túmulo não fosse aberto para que ninguém visse o Verbo vivo depois da conspiração; mas o Anjo de Deus, que veio ao mundo para a salvação dos homens, com a ajuda de outro anjo mostrou-se mais poderoso do que os conspiradores e removeu a pesada pedra, para que os que consideravam o Verbo morto fossem convencidos de que Ele não está entre os mortos, mas vive e vai adiante daqueles que querem segui-Lo, a fim de lhes manifestar as verdades que vêm depois daquelas que outrora lhes mostrou ao entrarem pela primeira vez na escola do cristianismo, quando ainda não eram capazes de receber instrução mais profunda. Além disso, não entendo que proveito Celso imagina tirar ao ridicularizar o relato da visita do anjo a José acerca da gravidez de Maria e, novamente, o aviso do anjo aos pais para tomarem a criança recém-nascida, cuja vida corria perigo, e fugirem com ela para o Egito. Sobre essas questões, contudo, já respondemos nas páginas anteriores às suas declarações. Mas o que quer dizer Celso ao afirmar que, segundo as Escrituras, se registra que anjos foram enviados a Moisés e também a outros? Isso, a meu ver, nada contribui para seu propósito, sobretudo porque nenhum deles se esforçou, tanto quanto pôde, pela conversão do gênero humano de seus pecados. Conceda-se, porém, que outros anjos foram enviados por Deus, mas que este veio para anunciar algo de maior importância do que todos os que o precederam; e, quando os judeus haviam caído no pecado, corrompido sua religião e praticado atos ímpios, transferiu o reino de Deus a outros lavradores, que em todas as Igrejas cuidam zelosamente de si mesmos e usam todo esforço, por meio de uma vida santa e de uma doutrina conforme a ela, para conquistar para o Deus de todas as coisas aqueles que de outro modo correriam para longe do ensinamento de Jesus.[59] Celso prossegue então: “Os judeus, portanto, e estes” — querendo claramente dizer os cristãos — “têm o mesmo Deus”; e, como se avançasse uma proposição que não seria negada, faz a seguinte afirmação: “É certo, de fato, que os membros da grande Igreja admitem isso e adotam como verdadeiros os relatos sobre a criação do mundo correntes entre os judeus, a saber, acerca dos seis dias e do sétimo; no qual dia, segundo diz a Escritura, Deus cessou de Suas obras, retirando-se para a contemplação de Si mesmo, mas no qual, como Celso afirma — que não se detém na letra da história e não compreende o seu sentido —, Deus descansou”, termo que não se encontra no relato. Quanto, porém, à criação do mundo e ao descanso que depois dela está reservado ao povo de Deus, o assunto é vasto, místico, profundo e difícil de explicar. Em seguida, parece-me, desejando preencher seu livro e dar-lhe aparência de importância, ele acrescenta temerariamente certas afirmações, tais como as seguintes, relativas ao primeiro homem, de quem diz: “Damos o mesmo relato que os judeus e deduzimos dele a mesma genealogia.” Quanto, porém, às conspirações de irmãos uns contra os outros, não conhecemos nenhuma, exceto a de Caim contra Abel e a de Esaú contra Jacó; mas não Abel contra Caim, nem Jacó contra Esaú: porque, se assim fosse, Celso teria razão ao dizer que damos, como os judeus, o mesmo relato das conspirações de irmãos entre si. Conceda-se, porém, que falemos da mesma descida ao Egito e do mesmo retorno de lá — o que não foi uma fuga, como Celso considera —, que proveito isso traz para fundamentar uma acusação contra nós ou contra os judeus? Aqui, com efeito, ele pensou lançar ridículo sobre nós, ao chamar de fuga o êxodo do povo hebreu; mas, quando era seu dever investigar o relato dos castigos infligidos por Deus ao Egito, passou propositadamente esse tema em silêncio.[60] Se, porém, for necessário exprimir-nos com precisão em nossa resposta a Celso, que pensa que sustentamos as mesmas opiniões que os judeus sobre essas matérias, diremos que ambos concordamos que os livros da Escritura foram escritos pelo Espírito de Deus, mas não concordamos quanto ao sentido de seu conteúdo; porque nós não regulamos a vida como os judeus, por entendermos que a aceitação literal das leis não é aquilo que transmite o significado da legislação. E sustentamos que, quando Moisés é lido, há um véu sobre o coração deles, porque o significado da lei de Moisés foi ocultado aos que não acolheram o caminho que é por Jesus Cristo. Mas sabemos que, se alguém se volta para o Senhor — porque o Senhor é o Espírito —, sendo retirado o véu, contempla, como em espelho e com o rosto descoberto, a glória do Senhor naquelas ideias que estão escondidas sob a expressão literal e, para sua própria glória, torna-se participante da glória divina; sendo o termo rosto usado figuradamente para o entendimento, aquilo que, sem figura, alguém chamaria de rosto do homem interior, cheio de luz e glória que fluem da verdadeira compreensão do conteúdo da lei.[61] Depois das observações acima, ele prossegue do seguinte modo: “Que ninguém suponha que ignoro que alguns deles concederão que o seu Deus é o mesmo que o dos judeus, enquanto outros sustentarão que é diferente, e que este está em oposição àquele, e que foi do primeiro que veio o Filho.” Ora, se ele imagina que a existência de numerosas heresias entre os cristãos é motivo de acusação contra o cristianismo, por que, de modo semelhante, não seria motivo de acusação contra a filosofia o fato de que as várias seitas de filósofos diferem entre si, não em questões pequenas e indiferentes, mas nas de máxima importância? Também a medicina deveria ser atacada, por causa de suas muitas escolas conflitantes. Admita-se, então, que haja entre nós alguns que negam que o nosso Deus seja o mesmo que o dos judeus; nem por isso devem ser culpados aqueles que provam, a partir das mesmas Escrituras, que uma e a mesma Divindade é o Deus dos judeus e dos gentios igualmente, como Paulo também diz claramente, ele que foi convertido do judaísmo ao cristianismo: “Dou graças a meu Deus, a quem sirvo desde os meus antepassados com consciência pura.” Admita-se também que haja uma terceira classe que chama a uns de carnais e a outros de espirituais — penso que ele se refere aqui aos seguidores de Valentino —; mas que proveito isso traz contra nós, que pertencemos à Igreja e fazemos acusação contra aqueles que sustentam que certas naturezas são salvas e outras perecem em consequência de sua constituição natural? Admita-se ainda que existam alguns que se apresentam como gnósticos, do mesmo modo que aqueles epicuristas que se chamam filósofos; contudo, nem os que aniquilam a doutrina da providência serão tidos por verdadeiros filósofos, nem serão verdadeiros cristãos aqueles que introduzem monstruosas invenções, desaprovadas pelos discípulos de Jesus. Admita-se, além disso, que existem alguns que aceitam Jesus e que, por isso, se vangloriam de ser cristãos, e, no entanto, regulam suas vidas, como a multidão judaica, de acordo com a lei judaica — e estes são a dupla seita dos ebionitas, que ou reconhecem conosco que Jesus nasceu de uma virgem, ou o negam e sustentam que Ele foi gerado como os demais homens. Que proveito isso traz como acusação contra aqueles que pertencem à Igreja e que Celso chamou de “os da multidão”? Ele acrescenta ainda que certos cristãos acreditam na Sibila, provavelmente por ter entendido mal alguns que censuravam os que criam na existência de uma Sibila profética e chamavam de sibilistas os que sustentavam essa crença.[62] Em seguida, ele despeja sobre nós uma multidão de nomes, dizendo que sabe da existência de certos simonianos que adoram Helena, ou Heleno, como seu mestre, e são chamados helenianos. Mas escapou à atenção de Celso que os simonianos de modo algum reconhecem Jesus como Filho de Deus, mas chamam Simão de poder de Deus, a respeito de quem contam certas histórias maravilhosas, dizendo que ele imaginava que, se pudesse tornar-se possuidor de poderes semelhantes àqueles com os quais acreditava que Jesus estivesse dotado, também ele se tornaria tão poderoso entre os homens quanto Jesus o foi entre as multidões. Mas nem Celso nem Simão puderam compreender como Jesus, como um bom lavrador da palavra de Deus, foi capaz de semear com Sua doutrina a maior parte da Grécia e das terras bárbaras, e de encher esses países de palavras que transformam a alma de todo mal e a reconduzem ao Criador de todas as coisas. Celso conhece também certos marcelianos, assim chamados por causa de Marcelina, e harpocratianos por Salomé, e outros que derivam o nome de Mariame, e outros ainda de Marta. Nós, porém, que por amor ao saber examinamos tanto quanto podemos não apenas o conteúdo da Escritura e as divergências a que ela dá origem, mas também, por amor à verdade, investigamos até onde nos foi possível as opiniões dos filósofos, jamais encontramos tais seitas. Ele menciona também os marcionitas, cujo líder foi Marcião.[63] Em seguida, para que pareça saber ainda mais do que já mencionou, diz, conforme seu costume, que existem outros que inventaram perversamente algum ser como seu mestre e demônio, e que se revolvem numa grande escuridão, mais ímpia e maldita do que a dos companheiros do egípcio Antínoo. E parece-me, de fato, que, ao tocar nessas matérias, ele fala com certo grau de verdade quando diz que há outros que inventaram perversamente outro demônio e o encontraram como seu senhor, enquanto se revolvem na grande escuridão de sua ignorância. Quanto, porém, a Antínoo, que é comparado ao nosso Jesus, não repetiremos o que já dissemos nas páginas anteriores. Além disso, continua ele, essas pessoas lançam umas contra as outras terríveis blasfêmias, dizendo toda sorte de coisas vergonhosas de serem pronunciadas; nem cedem minimamente por amor à harmonia, odiando-se com ódio perfeito. Ora, em resposta a isso, já dissemos que na filosofia e na medicina se encontram seitas guerreando contra seitas. Nós, porém, que somos seguidores da palavra de Jesus e nos exercitamos em pensar, dizer e fazer o que está em harmonia com Suas palavras, quando somos insultados, abençoamos; sendo perseguidos, suportamos; sendo difamados, suplicamos; e não proferiríamos toda espécie de coisas vergonhosas contra os que adotaram opiniões diferentes das nossas, mas, se possível, empregamos todo esforço para elevá-los a uma condição melhor por meio da adesão somente ao Criador, e conduzi-los a praticar todos os atos como aqueles que um dia serão julgados. E, se os que sustentam opiniões diferentes não quiserem ser convencidos, observamos a instrução dada para o tratamento desses casos: “Ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que tal pessoa está pervertida e vive pecando, condenada por si mesma.” Além disso, nós que conhecemos a máxima “Bem-aventurados os pacificadores” e também esta outra, “Bem-aventurados os mansos”, não haveríamos de considerar com ódio os corruptores do cristianismo, nem chamar de Circes e enganadores lisonjeiros aqueles que caíram no erro.[64] Celso parece-me ter entendido mal a afirmação do apóstolo que declara que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e doutrinas de demônios, falando mentiras em hipocrisia, tendo a consciência cauterizada, proibindo o casamento e ordenando abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos que creem; e parece ter entendido mal também aqueles que empregavam essas declarações do apóstolo contra os que haviam corrompido as doutrinas do cristianismo. É por isso que Celso disse que certos dentre os cristãos são chamados “cauterizados nos ouvidos”; e também que alguns são denominados enigmas — termo com o qual jamais nos deparamos. A expressão pedra de tropeço, de fato, ocorre frequentemente nesses escritos, designação que estamos acostumados a aplicar àqueles que desviam da doutrina sã os simples e os facilmente enganados. Mas nem nós, nem, imagino, qualquer outro, seja cristão seja herege, conhecemos alguém chamado sereia, que trai e engana, tapa os ouvidos e transforma em porcos aqueles a quem ilude. E, no entanto, esse homem, que finge saber tudo, usa linguagem como a seguinte: “Pode-se ouvir”, diz ele, “todos aqueles que diferem tão amplamente e que se atacam em suas disputas com a linguagem mais descarada, pronunciarem as palavras: ‘O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.’” E esta é a única frase que, ao que parece, Celso conseguiu recordar dos escritos de Paulo; e, no entanto, por que não haveríamos também de empregar inúmeras outras citações das Escrituras, tais como: “Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne; porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus para destruição de fortalezas, derribando raciocínios e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus”?[65] Mas, já que ele afirma que se pode ouvir todos os que diferem tão amplamente dizendo: “O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo”, mostraremos a falsidade dessa afirmação. Pois há certas seitas heréticas que não recebem as epístolas do apóstolo Paulo, como as duas seitas dos ebionitas e aqueles que são chamados encratitas. Aqueles, então, que não consideram o apóstolo um homem santo e sábio, não adotarão sua linguagem, nem dirão: “O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.” Consequentemente, também nesse ponto Celso é culpado de falsidade. Ele continua, além disso, a deter-se nas acusações que dirige contra a diversidade de seitas existentes, mas não me parece exato na linguagem que emprega, nem ter observado ou compreendido cuidadosamente como é que aqueles cristãos que fizeram progresso em seus estudos dizem possuir maior conhecimento do que os judeus; e também se reconhecem as mesmas Escrituras, mas as interpretam de modo diferente, ou se não reconhecem esses livros como divinos. Pois encontramos ambas as posições prevalecendo entre as seitas. Ele prossegue então: “Embora eles não tenham fundamento para sua doutrina, examinemos o próprio sistema; e, em primeiro lugar, mencionemos as corrupções que produziram por ignorância e má compreensão, quando, ao discutir os princípios elementares, exprimem suas opiniões do modo mais absurdo sobre coisas que não entendem, como as seguintes.” E então, a certas expressões que estão continuamente na boca dos que creem no cristianismo, opõe outras tiradas dos escritos dos filósofos, com o objetivo de fazer parecer que os nobres sentimentos que Celso supõe serem usados pelos cristãos foram expressos de modo melhor e mais claro pelos filósofos, para assim arrastar ao estudo da filosofia aqueles que são atraídos por opiniões que de imediato evidenciam seu caráter nobre e religioso. Nós, porém, encerraremos aqui o quinto livro e começaremos o sexto com o que se segue.

