Aviso ao leitor
Este livro - Orígenes — “Contra Celso” / Contra Celsum - é apresentado aqui como literatura patrística e apologética do séc. III, escrita como resposta sistemática às críticas de Celso (um intelectual pagão) ao cristianismo, sendo valiosa para compreender o debate público, filosófico e religioso do período. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Por se tratar de obra de controvérsia, o texto pode empregar tom polemizador e pressupostos culturais do seu tempo; por isso, sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa.
ATENÇÃO
Este escrito de Orígenes possui caráter apologético, polêmico e intelectual, sendo uma resposta extensa às críticas de Celso contra a fé cristã. Por isso, o texto está profundamente inserido em um ambiente de disputa religiosa e filosófica, recorrendo com frequência a argumentações complexas, categorias do pensamento greco-romano e defesas elaboradas que vão além de uma exposição simples da escritura. Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, teológico e crítico, como testemunho de uma das mais importantes defesas intelectuais do cristianismo antigo diante do mundo pagão. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre estratégia apologética, elaboração filosófica do autor e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] No início deste nosso sexto livro, desejamos, meu reverendo Ambrósio, responder nele às acusações que Celso traz contra os cristãos, não, como se poderia supor, àquelas objeções que ele apresentou com base em escritores da filosofia.[2] Pois ele citou um número considerável de passagens, principalmente de Platão, e colocou ao lado delas declarações da santa escritura capazes de impressionar até mesmo a mente inteligente, acrescentando a afirmação de que essas coisas são ditas muito melhor entre os gregos do que nas escrituras, e de modo livre de toda exageração e de promessas da parte de Deus ou do Filho de Deus.[3] Ora, sustentamos que, se é objetivo dos embaixadores da verdade conferir benefícios ao maior número possível e, tanto quanto puderem, conquistar para o seu lado, por amor aos homens, a todos sem exceção — tanto inteligentes quanto simples, não apenas gregos, mas também bárbaros, e grande, de fato, é a humanidade daquele que conseguisse converter o rústico e o ignorante —, é manifesto que devem adotar um modo de falar apto a fazer bem a todos e a ganhar homens de toda espécie.[4] Aqueles, por outro lado, que se afastam dos ignorantes por os considerarem meros escravos, incapazes de compreender os períodos fluentes de um discurso polido e lógico, e assim dedicam sua atenção somente aos que foram criados entre ocupações literárias, confinam sua visão do bem público dentro de limites muito estreitos e apertados.[5] Fiz estas observações em resposta às acusações que Celso e outros levantam contra a simplicidade da linguagem da escritura, que parece ficar ofuscada pelo esplendor de um discurso polido.[6] Pois nossos profetas, o próprio Jesus e seus apóstolos tiveram o cuidado de adotar um modo de falar que não apenas transmitisse a verdade, mas que também fosse apto a ganhar a multidão, até que cada um, atraído e conduzido adiante, subisse o quanto pudesse para a compreensão dos mistérios contidos nessas palavras aparentemente simples.[7] Pois, se me é permitido dizê-lo, poucos foram beneficiados, se é que de fato o foram, pelo estilo belo e polido de Platão e dos que escreveram como ele.[8] Ao contrário, muitos receberam proveito daqueles que escreveram e ensinaram de maneira simples e prática, com atenção às necessidades da multidão.[9] É fácil perceber, de fato, que Platão se encontra apenas nas mãos daqueles que professam ser homens de letras, enquanto Epicteto é admirado por pessoas de capacidade comum, que desejam ser beneficiadas e que percebem o aperfeiçoamento que pode ser obtido de seus escritos.[10] Ora, fazemos estas observações não para depreciar Platão, pois até ele foi útil ao grande mundo dos homens, mas para apontar o objetivo daqueles que disseram: E a minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a nossa fé não se firmasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.[11] Pois a palavra de Deus declara que a pregação, embora em si mesma seja verdadeira e digníssima de crédito, não é suficiente para alcançar o coração humano, a menos que certo poder seja concedido ao orador por Deus e uma graça apareça sobre suas palavras.[12] E é somente pela ação divina que isso ocorre naqueles que falam de modo eficaz.[13] O profeta diz no sexagésimo sétimo salmo que o Senhor dará uma palavra com grande poder aos que anunciam.[14] Se, então, se conceder com respeito a certos pontos que as mesmas doutrinas são encontradas entre os gregos e também em nossas escrituras, ainda assim elas não possuem o mesmo poder de atrair e dispor as almas dos homens a segui-las.[15] E por isso os discípulos de Jesus, homens ignorantes no que dizia respeito à filosofia grega, percorreram, contudo, muitos países do mundo, impressionando, de acordo com o desejo do Logos, cada um de seus ouvintes segundo o que lhe correspondia, de modo que receberam uma melhora moral em proporção à inclinação de sua vontade para aceitar aquilo que é bom.[16] Que os antigos sábios, então, deem a conhecer seus ditos àqueles que são capazes de compreendê-los.[17] Suponhamos, por exemplo, que Platão, filho de Aríston, em uma de suas epístolas, discorra sobre o sumo bem e diga: O sumo bem de modo algum pode ser descrito em palavras, mas é produzido por longo hábito e irrompe de repente como uma luz na alma, como de um fogo que saltou para fora.[18] Nós, ao ouvirmos essas palavras, admitimos que são bem ditas, pois é Deus quem revelou aos homens essas, assim como todas as demais expressões nobres.[19] E por esta razão sustentamos que aqueles que tiveram ideias corretas a respeito de Deus, mas que não lhe ofereceram um culto em harmonia com a verdade, estão sujeitos aos castigos que recaem sobre os pecadores.[20] Pois a respeito desses Paulo diz expressamente: A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça, porque o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, pois Deus lhes manifestou.[21] Porque as coisas invisíveis dele, desde a criação do mundo, são claramente vistas, sendo compreendidas pelas coisas que foram feitas, até o seu eterno poder e divindade, de modo que eles são indesculpáveis.[22] Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas se tornaram vãos em seus raciocínios, e o seu coração insensato se obscureceu.[23] Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus incorruptível por imagem semelhante ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis.[24] A verdade, então, é realmente retida em injustiça, como nossas escrituras testemunham, por aqueles que pensam que o sumo bem não pode ser descrito em palavras, mas afirmam que, após longo costume e convivência familiar, uma luz se acende repentinamente na alma, como por um fogo que irrompe, e que então passa a sustentar-se por si mesma.[25] Não obstante, aqueles que escreveram desta maneira a respeito do sumo bem descerão ao Pireu e oferecerão oração a Ártemis, como se ela fosse Deus, e olharão com aprovação para a assembleia solene realizada por homens ignorantes.[26] E, depois de proferirem observações filosóficas de tal profundidade sobre a alma e descreverem sua passagem para um mundo mais feliz após uma vida virtuosa, afastam-se desses grandes temas que Deus lhes revelou, adotam pensamentos mesquinhos e triviais, e oferecem um galo a Esculápio.[27] E embora tenham sido capacitados a formar representações tanto das coisas invisíveis de Deus quanto das formas arquetípicas das coisas desde a criação do mundo, e a partir da contemplação das coisas sensíveis, pelas quais ascendem àqueles objetos que são compreendidos somente pelo entendimento, e embora tenham tido vislumbres nada pequenos de seu eterno poder e divindade, ainda assim se tornaram tolos em seus raciocínios, e seu coração insensato ficou envolvido em trevas e ignorância quanto ao verdadeiro culto de Deus.[28] Além disso, podemos ver aqueles que muito se orgulham de sua sabedoria e teologia adorando a imagem de um homem corruptível, em honra, dizem eles, daquele que representam, e às vezes até descendo, com os egípcios, ao culto de aves, quadrúpedes e répteis.[29] E ainda que alguns pareçam ter se elevado acima dessas práticas, no entanto se verá que trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador.[30] Como, pois, os sábios e instruídos entre os gregos cometem erros no serviço que prestam a Deus, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir as sábias, e as coisas vis do mundo, as fracas, as desprezadas e as que nada são, para reduzir a nada as que são, e isso, verdadeiramente, para que nenhuma carne se glorie na presença de Deus.[31] Nossos sábios, porém — Moisés, o mais antigo de todos, e os profetas que o seguiram —, sabendo que o sumo bem de modo algum podia ser descrito em palavras, foram os primeiros a escrever que, assim como Deus se manifesta aos que são dignos e aos que estão qualificados para contemplá-lo, ele apareceu a Abraão, ou a Isaque, ou a Jacó.[32] Mas quem era aquele que apareceu, e de que forma, e de que maneira, e semelhante a qual dos seres mortais, eles deixaram para ser investigado por aqueles que são capazes de mostrar que se assemelham às pessoas a quem Deus se mostrou.[33] Pois ele foi visto não com os olhos do corpo, mas com o coração puro.[34] Porque, segundo a declaração de nosso Jesus, bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.[35] Mas que uma luz se acenda subitamente na alma, como por um fogo que salta, é um fato conhecido há muito tempo por nossas escrituras, como quando o profeta disse: Acendei para vós a luz do conhecimento.[36] João também, que viveu depois dele, disse: O que estava no Logos era vida, e a vida era a luz dos homens, aquela luz verdadeira que ilumina todo homem que vem ao mundo, isto é, ao verdadeiro mundo que é percebido pelo entendimento, e o faz luz do mundo.[37] Pois essa luz brilhou em nossos corações para dar a luz do glorioso evangelho de Deus na face de Cristo Jesus.[38] E por isso aquele profeta antiquíssimo, que profetizou muitas gerações antes do reinado de Ciro, pois era mais antigo do que ele por mais de catorze gerações, expressou-se nestas palavras: O Senhor é a minha luz e a minha salvação, de quem terei medo?[39] E também: A tua lei é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho.[40] E ainda: A luz do teu rosto, Senhor, foi manifestada sobre nós.[41] E: Na tua luz veremos a luz.[42] E o Logos, exortando-nos a vir para essa luz, diz, nas profecias de Isaías: Ilumina-te, ilumina-te, ó Jerusalém, porque veio a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti.[43] O mesmo profeta, ao predizer a vinda de Jesus, que desviaria os homens do culto dos ídolos, das imagens e dos demônios, diz: Aos que estavam sentados na terra e sombra da morte, sobre eles nasceu a luz.[44] E ainda: O povo que estava sentado nas trevas viu uma grande luz.[45] Observa agora a diferença entre as belas frases de Platão a respeito do sumo bem e as declarações de nossos profetas a respeito da luz dos benditos, e nota que a verdade tal como está contida em Platão sobre esse assunto não ajudou de modo algum seus leitores a alcançar um culto puro de Deus, nem mesmo a ele próprio, que podia filosofar tão grandemente sobre o sumo bem.[46] Ao passo que a linguagem simples das santas escrituras levou seus leitores sinceros a serem cheios de espírito divino, e essa luz é alimentada neles pelo óleo que, em certa parábola, se diz ter conservado a luz das tochas das cinco virgens prudentes.[47] Visto, porém, que Celso cita de uma epístola de Platão outra declaração com o seguinte teor: Se me parecesse que essas coisas pudessem ser explicadas adequadamente à multidão por escrito e oralmente, que ocupação mais nobre na vida eu poderia ter seguido do que escrever aquilo que seria de tão grande proveito para os seres humanos e conduzir a natureza de todos os homens para a luz?[48] Consideremos então brevemente este ponto, a saber, se Platão conhecia ou não doutrinas mais profundas do que as contidas em seus escritos, ou mais divinas do que aquelas que deixou para trás, deixando que cada um investigue o assunto conforme sua capacidade, enquanto demonstramos que nossos profetas conheciam coisas maiores do que quaisquer das que estão nas escrituras, mas que não as entregaram à escrita.[49] Ezequiel, por exemplo, recebeu um rolo escrito por dentro e por fora, no qual estavam contidas lamentações, cânticos e denúncias.[50] Mas, por ordem do Logos, engoliu o livro, a fim de que seu conteúdo não fosse escrito e assim tornado conhecido a pessoas indignas.[51] Também João é registrado como tendo visto e feito algo semelhante.[52] Mais ainda, Paulo ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem pronunciar.[53] E é relatado de Jesus, que era maior do que todos esses, que conversava em particular com seus discípulos, especialmente em seus retiros sagrados, acerca do evangelho de Deus.[54] Mas as palavras que ele proferiu não foram preservadas, porque pareceu aos evangelistas que elas não poderiam ser adequadamente transmitidas à multidão por escrito ou por fala.[55] E, se não fosse cansativo repetir a verdade a respeito desses ilustres homens, eu diria que eles viram melhor do que Platão, por meio da inteligência que receberam pela graça de Deus, que coisas deviam ser postas por escrito e como isso deveria ser feito, e o que de modo algum devia ser escrito para a multidão, e o que devia ser expresso por palavras, e o que não devia ser assim transmitido.[56] E mais uma vez, João, ensinando-nos a diferença entre o que deve ser escrito e o que não deve, declara que ouviu sete trovões instruindo-o sobre certas matérias e proibindo-o de escrever suas palavras.[57] Também se poderiam encontrar nos escritos de Moisés e dos profetas, que são mais antigos não só do que Platão, mas até mesmo do que Homero e do que a invenção das letras entre os gregos, passagens dignas da graça de Deus que lhes foi concedida e cheias de grandes pensamentos, aos quais deram expressão, mas não porque tenham compreendido Platão de modo imperfeito, como Celso imagina.[58] Pois como seria possível que tivessem ouvido alguém que ainda não havia nascido?[59] E se alguém aplicasse as palavras de Celso aos apóstolos de Jesus, que eram mais novos do que Platão, diga se não é, à primeira vista, uma afirmação inacreditável que Paulo, o fabricante de tendas, Pedro, o pescador, e João, que deixou as redes de seu pai, tenham, por terem entendido mal a linguagem de Platão em suas epístolas, falado como falaram acerca de Deus.[60] Mas, como Celso agora, depois de tantas vezes exigir de nós assentimento imediato às suas opiniões, como se estivesse balbuciando algo novo além do que já apresentou, apenas se repete, o que dissemos em resposta pode bastar.[61] Visto, porém, que ele produz outra citação de Platão, na qual afirma que o emprego do método de pergunta e resposta lança luz sobre os pensamentos daqueles que filosofam como ele, mostremos pelas santas escrituras que a palavra de Deus também nos encoraja à prática da dialética.[62] Salomão, por exemplo, declara em uma passagem que a instrução que não é submetida a exame se perde.[63] E Jesus, filho de Sirac, que nos deixou o tratado chamado Sabedoria, declara em outra que o conhecimento do insensato é como palavras que não suportam investigação.[64] Nossos métodos de discussão, entretanto, são antes de um tipo brando, pois aprendemos que aquele que preside à pregação da palavra deve ser capaz de refutar os contradizentes.[65] Mas, se alguns continuam indolentes e não se exercitam para atender à leitura da palavra, para examinar as escrituras e, conforme o mandamento de Jesus, investigar o significado dos escritos sagrados, pedir a Deus a respeito deles e continuar batendo naquilo que pode estar fechado dentro deles, a escritura não deve por isso ser considerada destituída de sabedoria.[66] Em seguida, depois de outras declarações platônicas que demonstram que o bem pode ser conhecido por poucos, ele acrescenta: Visto que a multidão, inchada de desprezo pelos outros, o que está longe de ser reto, e cheia de esperanças vãs e elevadas, afirma que, porque chegou ao conhecimento de certas doutrinas veneráveis, determinadas coisas são verdadeiras.[67] Ainda assim, embora Platão tenha predito essas coisas, ele não fala prodígios, nem fecha a boca daqueles que desejam pedir-lhe informação sobre o assunto de suas promessas.[68] Nem lhes ordena que venham de imediato crer que existe um Deus de determinada espécie e que ele tem um filho de determinada natureza, que desceu à terra e conversou comigo.[69] Ora, em resposta a isso, temos a dizer que, quanto a Platão, foi Aristandro, penso eu, quem relatou que ele não era filho de Aríston, mas de um fantasma que se aproximou de Anfictione sob a aparência de Apolo.[70] E há vários outros seguidores de Platão que, em suas vidas do mestre, fizeram a mesma afirmação.[71] O que diremos, além disso, de Pitágoras, que relata a maior quantidade possível de maravilhas, e que, numa assembleia geral dos gregos, mostrou sua coxa de marfim, afirmou reconhecer o escudo que usava quando era Euforbo, e diz-se que apareceu em um só dia em duas cidades diferentes?[72] Aquele, além disso, que declarar que o que se conta de Platão e Sócrates pertence ao maravilhoso citará a história do cisne que foi recomendado a Sócrates enquanto ele dormia, e do mestre que, ao encontrar o jovem, disse: Este, então, era o cisne.[73] Mais ainda, o terceiro olho que Platão viu possuir em si mesmo ele lançará na categoria dos prodígios.[74] Mas ocasião para acusações caluniosas nunca faltará aos mal-intencionados, que desejam falar mal do que aconteceu àqueles que se elevaram acima da multidão.[75] Tais pessoas zombarão como ficção até mesmo do demônio de Sócrates.[76] Nós, então, não relatamos maravilhas quando narramos a história de Jesus, nem seus genuínos discípulos registraram qualquer dessas histórias a seu respeito.[77] Ao passo que este Celso, que professa conhecimento universal e cita muitos ditos de Platão, cala-se, creio eu, de propósito sobre o discurso referente ao Filho de Deus que é relatado na epístola de Platão a Hermeas e Corisco.[78] As palavras de Platão são estas: E tomando por testemunha o Deus de todas as coisas, governante tanto das coisas presentes quanto das futuras, pai e senhor tanto do governante quanto da causa, a quem, se de fato formos filósofos, todos conheceremos claramente, tanto quanto for possível aos homens felizes alcançar tal conhecimento.[79] Celso cita outra declaração de Platão com o seguinte teor: Ocorreu-me falar uma vez mais sobre estes assuntos com maior extensão, pois talvez eu me expressasse acerca deles com mais clareza do que já fiz.[80] Pois há uma certa causa real que cria impedimento no caminho daquele que ousou, ainda que em pequena medida, escrever sobre tais temas.[81] E como isso foi frequentemente mencionado por mim em ocasiões anteriores, parece-me que deve ser agora declarado.[82] Em cada uma das coisas existentes, que são necessariamente empregadas na aquisição do conhecimento, há três elementos.[83] O próprio conhecimento é o quarto.[84] E deve ser posto como o quinto aquilo que pode ser conhecido e é verdadeiro.[85] Desses, um é nome, o segundo é palavra, o terceiro imagem, o quarto conhecimento.[86] Ora, segundo essa divisão, João é introduzido antes de Jesus como a voz do que clama no deserto, de modo a corresponder ao nome de Platão.[87] E o segundo, depois de João, que é apontado por ele, é Jesus, com quem concorda a afirmação: O Verbo se fez carne, e isso corresponde à palavra de Platão.[88] Platão chama o terceiro de imagem, mas nós, que aplicamos a expressão imagem a algo diferente, diríamos com maior precisão que a marca das feridas que é feita na alma pela palavra é o Cristo que está em cada um de nós, e essa marca é impressa por Cristo, o Verbo.[89] E se Cristo, a sabedoria que está naqueles de nós que são perfeitos, corresponde ao quarto elemento, o conhecimento, isso será conhecido por aquele que tiver capacidade de averiguá-lo.[90] Ele prossegue em seguida: Vedes como Platão, embora sustente que o sumo bem não pode ser descrito em palavras, ainda assim, para evitar a aparência de refugiar-se numa posição irrefutável, acrescenta uma razão para explicar essa dificuldade, já que até mesmo o nada talvez pudesse ser explicado em palavras.[91] Mas, como Celso apresenta isso para provar que não devemos dar simples assentimento, e sim fornecer uma razão para nossa fé, citaremos também as palavras de Paulo, quando ele diz, censurando o crente apressado, a menos que tenhais crido inconsideradamente.[92] Ora, por sua prática de repetir-se, Celso, tanto quanto pode, força-nos a sermos culpados de tautologia, reiterando, depois da linguagem jactanciosa que foi citada, que Platão não é culpado de vanglória e falsidade, anunciando que fez alguma descoberta nova ou que desceu do céu para anunciá-la, mas reconhece de onde tais declarações foram extraídas.[93] Se alguém quisesse responder a Celso, poderia dizer em resposta a tais afirmações que até mesmo Platão é culpado de vanglória quando, no Timeu, põe a seguinte linguagem na boca de Zeus: Deuses de deuses, de quem eu sou criador e pai, e assim por diante.[94] E se alguém defender tal linguagem por causa do sentido transmitido sob o nome de Zeus, assim falando no diálogo de Platão, por que não poderia aquele que investiga o significado das palavras do Filho de Deus, ou as do Criador nos profetas, expressar um sentido mais profundo do que qualquer um transmitido pelas palavras de Zeus no Timeu?[95] Pois o traço característico da divindade é o anúncio de eventos futuros, preditos não por poder humano, mas mostrados pelo resultado como devidos a um espírito divino naquele que fez o anúncio.[96] Consequentemente, não dizemos a cada um dos nossos ouvintes: Crê, antes de tudo, que aquele que te apresento é o Filho de Deus.[97] Mas colocamos o evangelho diante de cada um, conforme seu caráter e disposição o tornem apto a recebê-lo, visto que aprendemos a saber como devemos responder a cada homem.[98] E há alguns que não são capazes de receber nada mais do que uma exortação para crer, e a esses dirigimos apenas isso.[99] De outros nos aproximamos, novamente, tanto quanto possível, pelo caminho da demonstração, por meio de perguntas e respostas.[100] Nem dizemos, de modo algum, como Celso nos atribui com zombaria: Crê que aquele que te apresento é o Filho de Deus, embora ele tenha sido vergonhosamente amarrado, desonrosamente punido e, muito recentemente, tratado do modo mais afrontoso diante dos olhos de todos os homens.[101] Nem acrescentamos: Crê ainda mais por essa razão.[102] Pois nosso esforço é apresentar, em cada ponto particular, argumentos ainda mais numerosos do que os que já expusemos nas páginas anteriores.[103] Depois disso, Celso prossegue: Se estes, isto é, os cristãos, apresentam esta pessoa, e outros, por sua vez, apresentam um indivíduo diferente como o Cristo, enquanto o clamor comum e imediato de todos os partidos é: Crê, se queres ser salvo, ou então vai-te embora, o que farão aqueles que são sinceros a respeito de sua salvação?[104] Lançarão os dados, para adivinhar para onde devem dirigir-se e a quem devem juntar-se?[105] Ora, responderemos a essa objeção da seguinte maneira, como a clareza do caso nos impele a fazer.[106] Se estivesse registrado que vários indivíduos apareceram na vida humana como filhos de Deus da mesma maneira que Jesus, e se cada um tivesse atraído um partido de seguidores para o seu lado, de modo que, por causa da semelhança da profissão de cada um de que era o Filho de Deus, aquele a quem seus seguidores davam esse testemunho fosse objeto de disputa, então haveria fundamento para ele dizer: Se estes apresentam esta pessoa, e outros uma diferente, enquanto o clamor comum e imediato de todos os partidos é: Crê, se queres ser salvo, ou então vai-te embora, e assim por diante.[107] Ao passo que foi proclamado ao mundo inteiro que Jesus Cristo é o único Filho de Deus que visitou a raça humana.[108] Pois aqueles que, como Celso, supuseram que os atos de Jesus eram uma série de prodígios e que, por essa razão, quiseram realizar atos do mesmo tipo, para que também eles adquirissem domínio semelhante sobre as mentes dos homens, foram convencidos de ser absolutamente nulos.[109] Tais foram Simão, o mago da Samaria, e Dositeu, natural do mesmo lugar.[110] O primeiro dizia ser o poder de Deus chamado grande, e o segundo, que era o Filho de Deus.[111] Ora, os simonianos não se encontram em parte alguma do mundo.[112] E, no entanto, para ganhar muitos seguidores para si, Simão livrou seus discípulos do perigo da morte, à qual os cristãos eram ensinados a dar preferência, ensinando-os a considerar a idolatria como coisa indiferente.[113] Mas, mesmo no começo de sua existência, os seguidores de Simão não foram expostos à perseguição.[114] Pois aquele demônio maligno, que conspirava contra a doutrina de Jesus, sabia muito bem que nenhuma de suas máximas seria enfraquecida pelo ensinamento de Simão.[115] Os dositeus, por sua vez, nem mesmo em tempos passados chegaram a alguma proeminência, e agora estão completamente extintos, de modo que se diz que todo o seu número não chega a trinta.[116] Judas, o galileu, também, como Lucas relata nos Atos dos Apóstolos, quis fazer-se passar por algum grande personagem, assim como Teudas antes dele.[117] Mas, como sua doutrina não era de Deus, eles foram destruídos, e todos os que lhes obedeceram foram imediatamente dispersos.[118] Nós, então, não lançamos os dados para adivinhar para onde iremos e a quem nos uniremos, como se houvesse muitos pretendentes capazes de nos atrair após si com a profissão de terem descido de Deus para visitar o gênero humano.[119] Sobre estes pontos, porém, já dissemos o suficiente.[120] Passemos, pois, a outra acusação feita por Celso, que nem sequer conhece as palavras de nossos livros sagrados, mas que, por tê-las entendido mal, disse que nós declaramos que a sabedoria que há entre os homens é loucura para Deus, tendo Paulo dito que a sabedoria do mundo é loucura para Deus.[121] Celso diz que a razão disso foi enunciada há muito tempo.[122] E a razão que ele imagina é o nosso desejo de conquistar, por meio dessa afirmação, apenas os ignorantes e tolos.[123] Mas, como ele próprio insinuou, já disse a mesma coisa antes, e nós, na medida de nossa capacidade, já lhe respondemos.[124] Apesar disso, quis mostrar que essa declaração era invenção nossa e tomada dos sábios gregos, que afirmam que uma sabedoria é humana e outra é divina.[125] E cita as palavras de Heráclito, onde diz numa passagem que o modo de agir do homem não é regulado por princípios fixos, mas o de Deus é.[126] E em outra, que um homem tolo escuta um demônio como um menino escuta um homem.[127] Cita também o seguinte da Apologia de Sócrates, da autoria de Platão: Pois eu, ó homens de Atenas, obtive este nome por nenhum outro meio senão pela minha sabedoria.[128] E de que espécie é essa sabedoria?[129] Provavelmente de espécie humana, pois nesse respeito ouso pensar que sou realmente sábio.[130] Tais são as passagens aduzidas por Celso.[131] Mas acrescentarei também o seguinte da carta de Platão a Hermeas, Erasto e Corisco: A Erasto e Corisco digo, embora eu seja um homem velho, que, além desse nobre conhecimento das formas que eles possuem, necessitam de uma sabedoria a respeito da classe de homens maus e injustos, que lhes sirva como força protetora e repulsiva contra eles.[132] Pois são inexperientes, em consequência de terem passado grande parte de suas vidas conosco, que somos homens moderados e não perversos.[133] Por isso disse que necessitam dessas coisas, para que não sejam obrigados a negligenciar a verdadeira sabedoria e a aplicar-se, em medida maior do que convém, ao que é necessário e humano.[134] Segundo o que foi exposto, então, uma espécie de sabedoria é humana e a outra é divina.[135] Ora, a sabedoria humana é aquela que por nós é chamada de sabedoria do mundo, a qual é loucura para Deus.[136] A divina, porém, sendo diferente da humana justamente porque é divina, vem, pela graça de Deus que a concede, àqueles que mostraram ser capazes de recebê-la, e especialmente àqueles que, conhecendo a diferença entre ambas as sabedorias, dizem em suas orações a Deus: Ainda que alguém entre os filhos dos homens seja perfeito, se lhe faltar a sabedoria que vem de ti, será tido por nada.[137] Sustentamos, de fato, que a sabedoria humana é um exercício para a alma, mas que a sabedoria divina é o fim, sendo também chamada alimento sólido da alma por aquele que disse que o alimento sólido pertence aos perfeitos, àqueles que, pelo uso, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem quanto o mal.[138] Essa opinião, além disso, é verdadeiramente antiga, não devendo sua antiguidade ser reconduzida, como Celso pensa, meramente a Heráclito e Platão.[139] Pois antes que esses indivíduos vivessem, os profetas já distinguiam entre os dois tipos de sabedoria.[140] Basta, por ora, citar das palavras de Davi o que ele diz a respeito do homem sábio segundo a sabedoria divina, que ele não verá corrupção quando contemplar homens sábios morrendo.[141] A sabedoria divina, portanto, sendo diferente da fé, é a primeira dos chamados carismas de Deus.[142] E a segunda, depois dela, na avaliação daqueles que sabem distinguir tais coisas com precisão, é o que se chama conhecimento.[143] E a terceira, visto que até a classe mais simples dos homens que aderem ao serviço de Deus, tanto quanto podem, deve ser salva, é a fé.[144] E por isso Paulo diz: A um é dada pelo Espírito a palavra de sabedoria, a outro a palavra de conhecimento pelo mesmo Espírito, a outro a fé pelo mesmo Espírito.[145] E, portanto, não são indivíduos ordinários aqueles que encontrarás tendo participado da sabedoria divina, mas os mais excelentes e distintos dentre os que deram sua adesão ao cristianismo.[146] Pois não é aos mais ignorantes, servis ou mais sem instrução dentre os homens que alguém discorreria sobre os temas relativos à sabedoria divina.[147] Ao designar outros com os epítetos de sem instrução, servis e ignorantes, Celso, suponho, quer dizer aqueles que não conhecem suas leis nem foram treinados nos ramos do saber grego.[148] Nós, por outro lado, consideramos sem instrução aqueles que não se envergonham de dirigir súplicas a objetos inanimados, de pedir saúde àqueles que não têm força, de pedir vida aos mortos e de suplicar auxílio aos impotentes.[149] E embora alguns digam que esses objetos não são deuses, mas apenas imitações e símbolos de divindades reais, ainda assim esses mesmos indivíduos, ao imaginar que as mãos de mecânicos inferiores podem fabricar imitações da divindade, são sem instrução, servis e ignorantes.[150] Pois afirmamos que até mesmo os mais simples dentre nós foram libertos dessa ignorância e dessa falta de conhecimento, enquanto os mais inteligentes podem compreender e apreender a esperança divina.[151] Não sustentamos, entretanto, que seja impossível a alguém que não foi treinado na sabedoria terrena receber a divina, mas reconhecemos que toda sabedoria humana é loucura em comparação com a divina.[152] Em seguida, em vez de empenhar-se em apresentar razões, como deveria, para suas afirmações, ele nos chama de feiticeiros e afirma que fugimos com precipitação da classe de pessoas mais refinadas, porque elas não são assunto apropriado para nossos embustes, enquanto procuramos atrair os mais rústicos.[153] Ora, ele não observou que, desde o princípio, nossos sábios foram instruídos nos ramos externos do saber.[154] Moisés, por exemplo, em toda a sabedoria dos egípcios.[155] Daniel, Ananias, Azarias e Misael em toda a instrução assíria, de modo que foram achados dez vezes superiores a todos os sábios daquele país.[156] Além disso, no presente tempo, as igrejas têm, em proporção às multidões de crentes comuns, alguns poucos homens sábios, que vieram para elas daquela sabedoria que por nós é chamada segundo a carne.[157] E têm também alguns que avançaram dela para aquela sabedoria que é divina.[158] Celso, em seguida, como alguém que ouviu muito falar do tema da humildade, mas não se deu ao trabalho de compreendê-lo, deseja falar mal da humildade praticada entre nós e imagina que ela foi tomada de certas palavras de Platão imperfeitamente entendidas, nas quais ele se expressa nas Leis do seguinte modo: Ora, Deus, segundo o antigo relato, tendo em si mesmo o princípio, o fim e o meio de todas as coisas existentes, procede segundo a natureza e marcha em linha reta.[159] É constantemente seguido pela justiça, que é a vingadora de toda transgressão da lei divina.[160] Aquele que está prestes a tornar-se feliz segue-a de perto em humildade e devidamente adornado.[161] Ele não observou, contudo, que em escritores muito mais antigos do que Platão ocorrem as seguintes palavras numa oração: Senhor, meu coração não é altivo, nem meus olhos soberbos, nem ando em grandes assuntos, nem em coisas maravilhosas demais para mim.[162] Se eu não tivesse sido humilde, e assim por diante.[163] Ora, essas palavras mostram que aquele que é humilde de mente não se humilha de modo algum de forma indecorosa ou funesta, caindo sobre os joelhos, lançando-se de bruços ao chão, vestindo traje miserável ou cobrindo-se de pó.[164] Mas aquele que é humilde no sentido do profeta, ao caminhar em coisas grandes e maravilhosas que estão acima de sua capacidade, isto é, naquelas doutrinas que são verdadeiramente grandes e naqueles pensamentos que são maravilhosos, humilha-se sob a poderosa mão de Deus.[165] Se há alguns, porém, que por estupidez não compreenderam claramente a doutrina da humilhação e agem desse modo, não é nossa doutrina que deve ser culpada.[166] Devemos antes estender nosso perdão à estupidez daqueles que miram coisas mais altas e, por sua insensatez de mente, falham em alcançá-las.[167] Aquele que é humilde e devidamente adornado o é em maior medida do que o indivíduo humilde e devidamente adornado de Platão.[168] Pois ele é devidamente adornado, de um lado, porque caminha em coisas grandes e maravilhosas que estão além de sua capacidade.[169] E humilde, de outro, porque, estando no meio delas, ainda assim voluntariamente se humilha, não sob qualquer um ao acaso, mas sob a poderosa mão de Deus, por meio de Jesus Cristo, o mestre de tal instrução, que não considerou a igualdade com Deus algo a que se devia apegar avidamente, mas esvaziou-se, tomando forma de servo e, achado em figura como homem, humilhou-se e tornou-se obediente até à morte, e morte de cruz.[170] E tão grande é essa doutrina da humilhação, que não tem um mestre comum, mas o próprio nosso grande Salvador diz: Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.[171] Em seguida, quanto à declaração de Jesus contra os ricos, quando disse: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus, Celso alega que esse dito procedeu manifestamente de Platão e que Jesus perverteu as palavras do filósofo, as quais eram que era impossível distinguir-se ao mesmo tempo por bondade e por riquezas.[172] Ora, quem há capaz de dar mesmo atenção moderada aos assuntos, não apenas entre os que creem em Jesus, mas entre o restante dos homens, que não riria de Celso ao ouvir que Jesus, que nasceu e foi criado entre os judeus, que era tido como filho de José, o carpinteiro, e que não estudou letras, não apenas as dos gregos, mas nem mesmo as dos hebreus, como as escrituras amantes da verdade testificam a seu respeito, teria lido Platão e, agradando-se da opinião que ele expressou a respeito dos ricos, a saber, que era impossível distinguir-se ao mesmo tempo por bondade e riquezas, a teria pervertido e transformado em: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus?[173] Ora, se Celso não tivesse lido os evangelhos com espírito de ódio e aversão, mas estivesse imbuído de amor à verdade, teria voltado sua atenção para o motivo pelo qual um camelo, esse entre os animais que, quanto à sua estrutura física, é torto, foi escolhido como objeto de comparação com um rico, e qual o significado do estreito fundo de uma agulha para aquele que viu que estreita e apertada é a via que conduz à vida.[174] E também para este ponto: que esse animal, segundo a lei, é descrito como impuro, tendo um elemento de aceitabilidade, a saber, rumina, mas um de condenação, a saber, não divide o casco.[175] Teria investigado, além disso, quantas vezes o camelo é apresentado como objeto de comparação nas escrituras sagradas e em referência a quais objetos, para assim averiguar o significado do Logos a respeito dos ricos.[176] Nem teria deixado sem exame o fato de que os pobres são chamados bem-aventurados por Jesus, enquanto os ricos são designados como miseráveis, e se essas palavras se referem aos ricos e pobres visíveis aos sentidos ou se existe algum tipo de pobreza conhecida do Logos que deve ser considerada totalmente bem-aventurada, e algum rico que deve ser totalmente condenado.[177] Pois até um homem comum não teria louvado indiscriminadamente os pobres, muitos dos quais levam vida muito perversa.[178] Mas sobre este ponto já dissemos o bastante.[179] Visto, além disso, que Celso, desejando depreciar os relatos que nossas escrituras oferecem a respeito do reino de Deus, não citou nenhum deles, como se fossem indignos de ser registrados por ele, ou talvez porque não os conhecesse, enquanto, por outro lado, cita os ditos de Platão, tanto de suas epístolas quanto do Fedro, como se estes fossem divinamente inspirados, mas nossas escrituras não, exponhamos alguns pontos, para comparação com essas plausíveis declarações de Platão, que não dispuseram, todavia, o filósofo a adorar de maneira digna o Criador de todas as coisas.[180] Pois ele não deveria ter adulterado ou poluído esse culto com aquilo que chamamos idolatria, mas que muitos descreveriam pelo termo superstição.[181] Ora, segundo uma figura hebraica de linguagem, se diz de Deus no décimo oitavo salmo que ele fez das trevas o seu esconderijo, para significar que as noções que devem ser dignamente entretidas acerca de Deus são invisíveis e incognoscíveis, porque Deus, por assim dizer, se oculta em trevas daqueles que não podem suportar os resplendores de seu conhecimento ou são incapazes de contemplá-los, em parte por causa da poluição de seu entendimento, vestido com o corpo da baixeza mortal, e em parte por causa de sua menor capacidade de compreender Deus.[182] E para que pareça que o conhecimento de Deus raramente foi concedido aos homens e foi encontrado em muito poucos indivíduos, relata-se que Moisés entrou nas trevas onde Deus estava.[183] E ainda, a respeito de Moisés se diz: Só Moisés se aproximará do Senhor, mas os demais não se aproximarão.[184] E ainda, para que o profeta mostre a profundidade das doutrinas que se referem a Deus, e que é inalcançável por aqueles que não possuem o Espírito que sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus, ele acrescentou: O abismo é a sua cobertura como uma veste.[185] Mais ainda, nosso Senhor e Salvador, o Logos de Deus, manifestando que a grandeza do conhecimento do Pai é apropriadamente compreendida e conhecida de maneira preeminente apenas por ele, e em segundo lugar por aqueles cujas mentes são iluminadas pelo próprio Logos e por Deus, declara: Ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem alguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.[186] Pois ninguém pode conhecer dignamente o incriado e primogênito de toda a natureza criada como o Pai que o gerou, nem ninguém o Pai como o Logos vivo, sua Sabedoria e sua Verdade.[187] Participando daquele que retira do Pai o que é chamado trevas, que ele fez seu esconderijo, e o abismo, que é chamado sua cobertura, e desse modo revelando o Pai, cada um conhece o Pai que é capaz de conhecê-lo.[188] Julguei correto citar estes poucos exemplos dentre um número muito maior de passagens em que nossos escritores sagrados expressam suas ideias a respeito de Deus, a fim de mostrar que, para aqueles que têm olhos para contemplar o caráter venerável da escritura, os escritos sagrados dos profetas contêm coisas mais dignas de reverência do que aqueles ditos de Platão que Celso admira.[189] Ora, a declaração de Platão, citada por Celso, é a seguinte: Todas as coisas estão em torno do Rei de tudo, e todas as coisas existem por causa dele, e ele é a causa de todas as coisas boas.[190] Com as coisas de segunda ordem ele é segundo, e com as de terceira ordem ele é terceiro.[191] A alma humana, portanto, deseja aprender o que são essas coisas, olhando para aquelas que são aparentadas consigo mesma, nenhuma das quais é perfeita.[192] Mas, quanto ao Rei e às coisas que mencionei, não há nada que se lhes assemelhe.[193] Eu poderia ter mencionado, além disso, o que é dito a respeito daqueles seres chamados serafins pelos hebreus, descritos em Isaías, que cobrem o rosto e os pés de Deus, e dos chamados querubins, que Ezequiel descreveu, e as posturas deles, e a maneira como se diz que Deus é levado sobre os querubins.[194] Mas, como são mencionados de maneira muito misteriosa, por causa dos indignos e indecentes, que são incapazes de penetrar nos grandes pensamentos e na natureza venerável da teologia, não julguei conveniente discorrer sobre eles neste tratado.[195] Celso, em seguida, alega que certos cristãos, por terem entendido mal as palavras de Platão, se vangloriam ruidosamente de um Deus supracelestial, elevando-se assim acima do céu dos judeus.[196] Por estas palavras, de fato, ele não deixa claro se também se elevam acima do Deus dos judeus, ou apenas acima do céu pelo qual eles juram.[197] Não é nosso propósito presente, porém, falar daqueles que reconhecem outro deus além daquele adorado pelos judeus, mas defender-nos e mostrar que era impossível aos profetas dos judeus, cujos escritos são contados entre os nossos, terem tomado algo emprestado de Platão, porque eram mais antigos do que ele.[198] Não tomaram dele, então, a declaração de que todas as coisas estão em torno do Rei de tudo e que todas existem por causa dele.[199] Pois aprendemos que pensamentos mais nobres do que esses foram proferidos pelos profetas, pelo próprio Jesus e por seus discípulos, que indicaram claramente o significado do espírito que estava neles, o qual não era outro senão o espírito de Cristo.[200] Nem foi o filósofo o primeiro a apresentar à vista o lugar supracelestial.[201] Pois Davi, há muito tempo, apresentou a profundidade e a multidão dos pensamentos sobre Deus nutridos por aqueles que ascenderam acima das coisas visíveis, quando disse no livro dos salmos: Louvai a Deus, céus dos céus e águas que estais acima dos céus, louvem eles o nome do Senhor.[202] Não nego, de fato, que Platão tenha aprendido de certos hebreus as palavras citadas do Fedro, ou mesmo, como alguns registraram, que as tenha citado após a leitura de nossos escritos proféticos, quando disse: Nenhum poeta aqui embaixo jamais cantou o lugar supracelestial, nem jamais o cantará de maneira digna, e assim por diante.[203] E na mesma passagem está o seguinte: Pois a essência, que é sem cor, sem forma e intangível, que realmente existe, é o guia da alma e é contemplada apenas pelo entendimento, e ao redor dela o gênero do verdadeiro conhecimento ocupa este lugar.[204] Nosso Paulo, além disso, instruído por essas palavras e ansiando pelas coisas supramundanas e supracelestiais, esforçando-se ao máximo por alcançá-las, diz na segunda epístola aos coríntios: Porque a nossa leve tribulação, que é momentânea, produz para nós um peso eterno de glória muito excelente, enquanto não atentamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem.[205] Pois as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas.[206] Ora, para aqueles que são capazes de compreendê-lo, o apóstolo apresenta manifestamente à vista as coisas que são objetos da percepção, chamando-as coisas vistas, enquanto chama de invisíveis as coisas que são objeto do entendimento e cognoscíveis somente por ele.[207] Ele sabe também que as coisas vistas e visíveis são temporais, mas que as coisas cognoscíveis pela mente e não vistas são eternas.[208] E, desejando permanecer na contemplação dessas coisas, e sendo ajudado por seu ardente anseio por elas, considerou toda aflição leve e como nada, e durante a estação de aflições e tribulações não se deixou abater de modo algum por elas, mas, por sua contemplação das coisas divinas, considerou cada calamidade como coisa leve, vendo que também nós temos um grande Sumo Sacerdote que, pela grandeza de seu poder e entendimento, atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus, que prometeu a todos os que realmente aprenderam as coisas divinas e viveram em harmonia com elas ir adiante deles para as coisas supramundanas.[209] Pois suas palavras são: Para que, onde eu estiver, vós estejais também.[210] E por isso esperamos, depois das tribulações e lutas que sofremos aqui, alcançar os mais altos céus, e, recebendo, conforme o ensino de Jesus, as fontes de água que jorram para a vida eterna, e sendo cheios dos rios do conhecimento, seremos unidos àquelas águas que se diz estarem acima dos céus e que louvam o seu nome.[211] E todos quantos dentre nós o louvam não serão levados de um lado para outro pela revolução do céu, mas estarão sempre ocupados na contemplação das coisas invisíveis de Deus, que já não são por nós compreendidas através das coisas que ele fez desde a criação do mundo, mas vistas, como expressou o verdadeiro discípulo de Jesus nestas palavras: Então veremos face a face.[212] E nestas: Quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.[213] As escrituras que circulam nas igrejas de Deus não falam de sete céus, nem de qualquer número definido, mas parecem ensinar a existência de céus, quer isso signifique as esferas daqueles corpos que os gregos chamam planetas, quer algo mais misterioso.[214] Celso também, de acordo com a opinião de Platão, afirma que as almas podem fazer seu caminho da terra para ela e de volta através dos planetas.[215] Ao passo que Moisés, nosso profeta mais antigo, diz que foi apresentada à vista de nosso profeta Jacó uma visão divina, uma escada estendida até o céu, e os anjos de Deus subindo e descendo por ela, e o Senhor sustentado no seu topo, indicando obscuramente, por meio desse assunto da escada, ou as mesmas verdades que Platão tinha em vista, ou algo maior do que essas.[216] Sobre esse assunto, Fílon compôs um tratado que merece a investigação refletida e inteligente de todos os amantes da verdade.[217] Depois disso, Celso, desejando exibir seu saber em seu tratado contra nós, cita também certos mistérios persas, onde diz: Essas coisas são obscuramente insinuadas nos relatos dos persas, e especialmente nos mistérios de Mitra, celebrados entre eles.[218] Pois nestes há uma representação das duas revoluções celestes, isto é, do movimento das estrelas fixas e daquele que ocorre entre os planetas, e da passagem da alma através deles.[219] A representação é da seguinte natureza: Há uma escada com altos portões, e no topo dela um oitavo portão.[220] O primeiro portão consiste de chumbo, o segundo de estanho, o terceiro de cobre, o quarto de ferro, o quinto de uma mistura de metais, o sexto de prata e o sétimo de ouro.[221] O primeiro portão eles atribuem a Saturno, indicando pelo chumbo a lentidão desse astro.[222] O segundo a Vênus, comparando-a ao esplendor e à suavidade do estanho.[223] O terceiro a Júpiter, por ser firme e sólido.[224] O quarto a Mercúrio, porque tanto Mercúrio quanto o ferro são aptos a suportar todas as coisas, e são laboriosos e produtores de ganho.[225] O quinto a Marte, porque, sendo composto de mistura de metais, é variado e desigual.[226] O sexto, de prata, à Lua.[227] O sétimo, de ouro, ao Sol, imitando assim as diferentes cores destes dois últimos.[228] Em seguida ele passa a examinar a razão de as estrelas estarem dispostas nessa ordem, simbolizada pelos nomes do restante da matéria.[229] Razões musicais, além disso, são acrescentadas ou citadas pela teologia persa, e a estas ele procura ainda acrescentar uma segunda explicação, também ligada a considerações musicais.[230] Mas parece-me que citar a linguagem de Celso sobre essas matérias seria absurdo, e semelhante ao que ele mesmo fez quando, em suas acusações contra cristãos e judeus, citou, de modo muito impróprio, não apenas as palavras de Platão, mas, insatisfeito até mesmo com essas, acrescentou também os mistérios do Mitra persa e a explicação deles.[231] Ora, qualquer que seja o caso a respeito dessas coisas, quer os persas e os que conduzem os mistérios de Mitra deem relatos falsos ou verdadeiros, por que escolheu ele citar estes, em vez de alguns dos outros mistérios, com sua explicação?[232] Pois os mistérios de Mitra não parecem ser mais famosos entre os gregos do que os de Elêusis, ou do que os de Égina, onde indivíduos são iniciados nos ritos de Hécate.[233] Mas se ele precisava introduzir mistérios bárbaros com sua explicação, por que não antes os dos egípcios, muito estimados por muitos, ou os dos capadócios relativos à Diana Comânia, ou os dos trácios, ou até mesmo os dos próprios romanos, que iniciam os membros mais nobres de seu senado?[234] Mas se julgou inadequado instituir comparação com qualquer um destes, porque não ofereciam ajuda na acusação contra judeus ou cristãos, por que também não lhe pareceu inadequado aduzir o exemplo dos mistérios de Mitra?[235] Se alguém desejasse obter meios para uma contemplação mais profunda da entrada das almas nas coisas divinas, não a partir das afirmações daquela seita insignificante da qual ele citou, mas de livros, em parte os dos judeus, que são lidos em suas sinagogas e adotados pelos cristãos, e em parte os dos cristãos apenas, que examine, no fim das profecias de Ezequiel, as visões contempladas pelo profeta, nas quais são enumerados portões de diferentes espécies, que se referem obscuramente aos diferentes modos pelos quais almas divinas entram em um mundo melhor.[236] E examine também, a partir do Apocalipse de João, o que se relata da cidade de Deus, a Jerusalém celestial, e de seus fundamentos e portas.[237] E se ele for capaz também de descobrir o caminho, indicado por símbolos, daqueles que marcharão para as coisas divinas, leia o livro de Moisés intitulado Números e busque a ajuda de alguém capaz de iniciá-lo no significado das narrativas sobre os acampamentos dos filhos de Israel.[238] Isto é, de que tipo eram os que estavam dispostos para o oriente, como acontecia com o primeiro, e quais os para o sudoeste e o sul, e quais os para o mar, e quais os últimos, que se achavam posicionados para o norte.[239] Pois verá que há, nos respectivos lugares, um significado que não deve ser tratado levianamente, nem, como Celso imagina, algo que exija apenas ouvintes tolos e servis.[240] Antes, distinguirá nos acampamentos certas coisas relativas aos números que são enumerados e que estão especialmente adaptadas a cada tribo, sobre as quais o presente momento não nos parece oportuno falar.[241] Saiba Celso, além disso, assim como os que leem seu livro, que em nenhuma parte das escrituras genuínas e divinamente acreditadas se mencionam sete céus.[242] Nem nossos profetas, nem os apóstolos de Jesus, nem o próprio Filho de Deus repetem qualquer coisa que tenham tomado emprestada dos persas ou dos Cabiros.[243] Depois do exemplo tirado dos mistérios mitraicos, Celso declara que aquele que quiser investigar os mistérios cristãos juntamente com os persas acima mencionados verá, ao comparar ambos e ao desvendar os ritos dos cristãos, a diferença entre eles.[244] Ora, sempre que pôde dar os nomes das várias seitas, ele não foi relutante em citar aquelas com as quais julgava estar familiarizado.[245] Mas quando mais do que tudo deveria tê-lo feito, se realmente as conhecia, e deveria ter-nos informado qual era a seita que fazia uso do diagrama que ele desenhou, não o fez.[246] Parece-me, porém, que é de algumas declarações de uma seita muito insignificante chamada ofitas, que ele entendeu mal, que, em minha opinião, ele tomou em parte o que diz sobre o diagrama.[247] Ora, como sempre fomos movidos por amor ao aprendizado, deparamo-nos com esse diagrama e nele encontramos as representações de homens que, como diz Paulo, se introduzem pelas casas, levam cativas mulheres tolas carregadas de pecados, arrastadas por várias paixões, sempre aprendendo e nunca podendo chegar ao conhecimento da verdade.[248] O diagrama, porém, era tão desprovido de toda credibilidade, que nem essas mulheres facilmente enganadas, nem a classe mais rústica dos homens, nem aqueles que estavam prontos a ser levados por qualquer impostor plausível, jamais deram seu assentimento ao diagrama.[249] Nem, de fato, jamais encontramos qualquer indivíduo, embora tenhamos visitado muitas partes da terra e procurado todos os que em algum lugar faziam profissão de conhecimento, que tivesse posto qualquer fé nesse diagrama.[250] Nesse diagrama eram descritos dez círculos, distintos uns dos outros, mas unidos por um único círculo, o qual se dizia ser a alma de todas as coisas e era chamado Leviatã.[251] Esse Leviatã, dizem as escrituras judaicas, seja lá o que signifiquem por essa expressão, foi criado por Deus como um brinquedo.[252] Pois encontramos nos salmos: Em sabedoria fizeste todas as coisas, a terra está cheia das tuas criaturas, assim como este grande e largo mar.[253] Ali andam os navios, animais pequenos juntamente com os grandes, ali está este dragão que formaste para brincar nele.[254] Em vez da palavra dragão, o termo no hebraico é leviatã.[255] Esse diagrama ímpio, então, dizia a respeito desse leviatã, tão claramente depreciado pelo salmista, que ele era a alma que havia percorrido todas as coisas.[256] Observamos também, no diagrama, o ser chamado Beemote, colocado como que sob o círculo mais baixo.[257] O inventor desse diagrama amaldiçoado havia inscrito esse leviatã em sua circunferência e também em seu centro, colocando assim o seu nome em dois lugares distintos.[258] Além disso, Celso diz que o diagrama era dividido por uma grossa linha negra, e essa linha, afirmava ele, era chamada Geena, isto é, Tártaro.[259] Ora, como encontramos que Geena era mencionada no evangelho como lugar de punição, procuramos ver se ela era mencionada em algum lugar das antigas escrituras, especialmente porque também os judeus usam a palavra.[260] E constatamos que, onde o vale do filho de Enom era nomeado na escritura hebraica, em vez de vale, com sentido basicamente equivalente, era chamado tanto vale de Enom quanto também Geena.[261] E, continuando nossas investigações, descobrimos que aquilo que era chamado Geena, ou vale de Enom, estava incluído na porção da tribo de Benjamim, na qual também Jerusalém se situava.[262] E, buscando averiguar qual poderia ser a inferência do fato de a Jerusalém celestial pertencer à porção de Benjamim e o vale de Enom também, encontramos certa confirmação do que é dito a respeito do lugar de punição, destinado à purificação das almas que devem ser purificadas por tormentos, de acordo com a palavra: O Senhor vem como fogo de fundidor e como sabão de lavandeiros, e se assentará como fundidor e purificador da prata e do ouro.[263] É nos arredores de Jerusalém, então, que castigos serão infligidos àqueles que passam pelo processo de purificação, que receberam na substância de sua alma os elementos da maldade, os quais em certa passagem são figuradamente chamados chumbo, e por isso a iniquidade é representada em Zacarias como sentada sobre um talento de chumbo.[264] Mas as observações que se poderiam fazer sobre esse tema não devem ser feitas a todos, nem pronunciadas na presente ocasião.[265] Pois não deixa de haver perigo em pôr por escrito a explicação de tais assuntos, visto que a multidão não precisa de instrução além daquela que se refere ao castigo dos pecadores, enquanto subir além disso não é conveniente, por causa daqueles que com dificuldade são contidos, mesmo pelo temor do castigo eterno, de se lançarem em qualquer grau de maldade e na enxurrada de males que resultam do pecado.[266] A doutrina da Geena, então, é desconhecida tanto do diagrama quanto de Celso.[267] Pois, se assim não fosse, os autores do primeiro não se teriam vangloriado de suas figuras de animais e diagramas, como se a verdade estivesse representada por eles.[268] Nem Celso, em seu tratado contra os cristãos, teria introduzido entre as acusações dirigidas contra eles afirmações que eles jamais proferiram, em lugar do que foi dito por alguns que talvez já não existam mais, mas tenham desaparecido por completo ou reduzido-se a pouquíssimos indivíduos, facilmente contáveis.[269] E assim como não convém aos que professam as doutrinas de Platão oferecer defesa de Epicuro e de suas opiniões ímpias, assim também não compete a nós defender o diagrama ou refutar as acusações que Celso lhe dirige.[270] Podemos, portanto, deixar que suas acusações nesses pontos passem como supérfluas e inúteis, pois censuraríamos mais severamente do que Celso qualquer um que se deixasse levar por tais opiniões.[271] Depois do assunto do diagrama, ele apresenta certas afirmações monstruosas, em forma de pergunta e resposta, acerca do que é chamado pelos escritores eclesiásticos de selo, afirmações que não surgiram de informação imperfeita, como a de que aquele que imprime o selo é chamado pai, e aquele que é selado é chamado jovem e filho, e que responde: Fui ungido com unguento branco da árvore da vida, coisas que nunca ouvimos ter acontecido nem mesmo entre os hereges.[272] Em seguida, ele determina até o número mencionado por aqueles que transmitem o selo, dizendo ser o de sete anjos, que se unem a ambos os lados da alma do corpo que morre, uma parte sendo chamada anjos de luz e a outra arcontes.[273] E afirma que o governante daqueles chamados arcontes é denominado o deus amaldiçoado.[274] Então, apoderando-se dessa expressão, ele ataca, não sem razão, aqueles que ousam usar tal linguagem.[275] E por isso nutrimos sentimento semelhante de indignação contra os que censuram tais indivíduos, se é que de fato existem alguns que chamam de divindade amaldiçoada o Deus dos judeus, aquele que envia chuva e trovão, que é o Criador deste mundo, o Deus de Moisés e da cosmogonia que ele registra.[276] Celso, porém, parece ter tido em vista, ao empregar essas expressões, não um objetivo racional, mas um dos mais irracionais, nascido de seu ódio contra nós, tão pouco semelhante ao de um filósofo.[277] Pois seu objetivo era que aqueles que não conhecem nossos costumes, ao lerem seu tratado, nos atacassem de imediato como se chamássemos o nobre Criador deste mundo de divindade amaldiçoada.[278] Parece-me, de fato, que agiu como aqueles judeus que, quando o cristianismo começou a ser pregado, espalharam falsos rumores sobre o evangelho, como o de que os cristãos ofereciam uma criança em sacrifício e participavam de sua carne.[279] E ainda, que os que professavam o cristianismo, querendo praticar as obras das trevas, apagavam as luzes em suas reuniões e cada um mantinha relações sexuais com a mulher que por acaso encontrasse.[280] Tais calúnias há muito tempo exercem, ainda que sem razão, influência sobre a mente de muitos, levando os estranhos ao evangelho a crer que os cristãos são homens desse tipo.[281] E até no presente enganam alguns e os impedem de entrar sequer no simples intercâmbio de conversa com os cristãos.[282] Com algum propósito desse tipo em vista, parece ter sido movido Celso quando alegou que os cristãos chamam o Criador de divindade amaldiçoada, para que aquele que cresse nessas acusações dele contra nós se levantasse, se possível, e exterminasse os cristãos como os mais ímpios dentre os homens.[283] Além disso, confundindo coisas distintas, ele declara também a razão pela qual o Deus da cosmogonia mosaica é chamado amaldiçoado, afirmando que tal é seu caráter, e digno de execração, na opinião daqueles que assim o consideram, porque pronunciou uma maldição sobre a serpente, que introduziu os primeiros seres humanos no conhecimento do bem e do mal.[284] Ora, ele deveria ter sabido que aqueles que abraçaram a causa da serpente, porque ela deu bom conselho aos primeiros seres humanos, e que vão muito além dos Titãs e Gigantes da fábula e por isso são chamados ofitas, estão tão longe de ser cristãos que levantam acusações contra Jesus em grau tão grande quanto o próprio Celso.[285] E não admitem ninguém em sua assembleia até que tenha pronunciado maldições contra Jesus.[286] Vê, então, quão irracional é o procedimento de Celso, que, em seu discurso contra os cristãos, representa como tais aqueles que nem sequer ouvem o nome de Jesus, ou deixam de negar até que ele tenha sido homem sábio ou de caráter virtuoso.[287] Que poderia, então, demonstrar maior insensatez ou loucura, não apenas da parte daqueles que desejam derivar seu nome da serpente como autora do bem, mas também da parte de Celso, que pensa que as acusações feitas contra os ofitas devem ser lançadas também contra os cristãos?[288] Há muito tempo, de fato, aquele filósofo grego que preferiu um estado de pobreza e exibiu o modelo de uma vida feliz, mostrando que não estava excluído da felicidade apesar de nada possuir, chamou a si mesmo cínico.[289] Enquanto estes desgraçados ímpios, por não serem seres humanos, de quem a serpente é inimiga, mas por serem serpentes, orgulham-se de ser chamados ofitas por causa da serpente, que é um animal extremamente hostil e grandemente temido pelo homem, e se vangloriam de um tal Eufrates como introdutor dessas opiniões profanas.[290] Em seguida, como se fossem os cristãos a quem ele caluniava, continua suas acusações contra aqueles que chamavam o Deus de Moisés e de sua lei de divindade amaldiçoada.[291] E imaginando que são os cristãos que assim falam, expressa-se desta maneira: Que poderia ser mais tolo ou insano do que tal sabedoria sem sentido?[292] Pois que erro cometeu o legislador judeu?[293] E por que aceitais, por meio, como dizeis, de certo método alegórico e típico de interpretação, a cosmogonia que ele apresenta e a lei dos judeus, enquanto com relutância, ó homem muito ímpio, dais louvor ao Criador do mundo, que prometeu dar-lhes todas as coisas, que prometeu multiplicar sua raça até os confins da terra e ressuscitá-los dentre os mortos com a mesma carne e sangue, e que deu inspiração a seus profetas?[294] E, ao mesmo tempo, vós o caluniais.[295] Quando sentis, de fato, a força de tais considerações, reconheceis que adorais o mesmo Deus.[296] Mas quando vosso mestre Jesus e o judeu Moisés dão decisões contraditórias, buscais outro deus em vez dele e do Pai.[297] Ora, por tais afirmações este ilustre filósofo calunia claramente os cristãos, afirmando que, quando os judeus os pressionam fortemente, eles reconhecem o mesmo Deus que eles.[298] Mas que, quando Jesus legisla de maneira diferente de Moisés, buscam outro deus em vez dele.[299] Ora, quer estejamos conversando com os judeus, quer estejamos a sós conosco, conhecemos somente um e o mesmo Deus, a quem também os judeus adoraram antigamente e ainda professam adorar como Deus, e não cometemos impiedade alguma contra ele.[300] Não afirmamos, entretanto, que Deus ressuscitará os homens dentre os mortos com a mesma carne e sangue, como foi mostrado nas páginas anteriores.[301] Pois não sustentamos que o corpo natural, que é semeado em corrupção, desonra e fraqueza, ressurgirá tal como foi semeado.[302] Sobre esses assuntos, porém, já falamos de maneira suficiente nas páginas precedentes.[303] Em seguida, ele volta ao tema dos sete demônios governantes, cujos nomes não são encontrados entre os cristãos, mas que, penso eu, são aceitos pelos ofitas.[304] De fato, encontramos no diagrama, do qual obtivemos vista justamente por causa deles, a mesma ordem estabelecida que Celso havia dado.[305] Celso diz que o bode tinha forma de leão, sem mencionar o nome que lhe é dado por aqueles que são de fato os mais ímpios dos indivíduos.[306] Ao passo que descobrimos que aquele que é honrado na santa escritura como o anjo do Criador é chamado por esse diagrama amaldiçoado Miguel, o semelhante a leão.[307] Novamente, Celso diz que o segundo em ordem é um touro, enquanto o diagrama que possuíamos o apresentava como Suriel, o semelhante a touro.[308] Além disso, Celso chamou o terceiro de um tipo anfíbio de animal, que sibilava horrivelmente, enquanto o diagrama descrevia o terceiro como Rafael, o semelhante a serpente.[309] Além disso, Celso afirmou que o quarto tinha a forma de águia, sendo o diagrama a representá-lo como Gabriel, o semelhante a águia.[310] Novamente, o quinto, segundo Celso, tinha o semblante de um urso, e este, segundo o diagrama, era Tauthabaoth, o semelhante a urso.[311] Celso continua seu relato dizendo que o sexto era descrito como tendo rosto de cão, e o diagrama o chamava Erataoth.[312] O sétimo, acrescenta ele, tinha o semblante de um jumento e era chamado Thaphabaoth ou Onoel, ao passo que descobrimos que no diagrama ele é chamado Onoel ou Thartharaoth, tendo aparência um tanto asinina.[313] Julgamos apropriado ser exatos ao expor essas matérias, para que não pareça que ignoramos as coisas que Celso professava conhecer, mas para que nós, cristãos, conhecendo-as melhor do que ele, possamos demonstrar que estas não são palavras de cristãos, mas de homens totalmente alienados da salvação, que não reconhecem Jesus nem como Salvador, nem como Deus, nem como Mestre, nem como Filho de Deus.[314] Além disso, se alguém desejar conhecer os artifícios daqueles feiticeiros, por meio dos quais procuram desviar os homens com seu ensino, como se possuíssem o conhecimento de certos ritos secretos, mas não têm qualquer sucesso nisso, escute a instrução que recebem após passarem pelo que é chamado cerca da maldade, portões submetidos ao mundo dos espíritos dominadores.[315] O modo como procedem é o seguinte: Eu saúdo o rei formado de um só modo, o vínculo da cegueira, o completo esquecimento, o primeiro poder, preservado pelo espírito da providência e pela sabedoria, de quem sou enviado puro, já sendo parte da luz do filho e do pai.[316] A graça seja comigo.[317] Sim, ó pai, seja ela comigo.[318] Dizem também que os princípios da Ogdóade derivam disto.[319] Em seguida, são ensinados a dizer o seguinte ao passarem por aquilo que chamam Ialdabaoth: Tu, ó primeiro e sétimo, que nasceste para governar com confiança, tu, ó Ialdabaoth, que és o governante racional de uma mente pura e uma obra perfeita para filho e pai, trazendo o símbolo da vida no caráter de um tipo e abrindo ao mundo o portão que fechaste contra teu reino, eu passo novamente em liberdade por teu domínio.[320] A graça seja comigo.[321] Sim, ó pai, seja ela comigo.[322] Dizem ainda que a estrela Fáenon está em simpatia com o governante semelhante a leão.[323] Em seguida imaginam que aquele que passou por Ialdabaoth e chegou a Iao deve falar assim: Tu, ó segundo Iao, que brilhas de noite, que és o governante dos mistérios secretos do filho e do pai, primeiro príncipe da morte e porção dos inocentes, trazendo agora minha própria barba como símbolo, estou pronto para passar por teu domínio, tendo fortalecido aquele que nasceu de ti pela palavra viva.[324] A graça seja comigo.[325] Pai, seja ela comigo.[326] Em seguida chegam a Sabaoth, a quem pensam que deve ser dirigido o seguinte: Ó governador do quinto reino, poderoso Sabaoth, defensor da lei de tuas criaturas, que são libertas por tua graça mediante a ajuda de uma Pêntade mais poderosa, admite-me, vendo o símbolo sem falha de sua arte, preservado pelo selo de uma imagem, um corpo libertado por uma Pêntade.[327] A graça seja comigo, ó pai, a graça seja comigo.[328] E depois de Sabaoth chegam a Astafeu, a quem creem que a seguinte oração deva ser oferecida: Ó Astafeu, governante do terceiro portão, supervisor do primeiro princípio da água, olha para mim como um de teus iniciados, admite-me, a mim que fui purificado com o espírito de uma virgem, tu que vês a essência do mundo.[329] A graça seja comigo, ó pai, a graça seja comigo.[330] Depois dele vem Aloeu, a quem se deve dirigir assim: Ó Aloeu, governador do segundo portão, deixa-me passar, pois trago a ti o símbolo de tua mãe, uma graça que está oculta pelos poderes dos reinos.[331] A graça seja comigo, ó pai, seja ela comigo.[332] E por último nomeiam Horeu, e pensam que a seguinte oração deve ser oferecida a ele: Tu que sem temor saltaste por sobre a muralha de fogo, ó Horeu, que obtiveste o governo do primeiro portão, deixa-me passar, pois contemplas o símbolo de teu próprio poder, esculpido na figura da árvore da vida e formado segundo essa imagem, à semelhança da inocência.[333] A graça seja comigo, ó pai, a graça seja comigo.[334] O suposto grande saber de Celso, que, no entanto, é composto mais de curiosidades triviais e conversa tola do que de qualquer outra coisa, levou-nos a tocar nesses assuntos, por desejarmos mostrar a todo aquele que lê seu tratado e nossa resposta que não nos falta informação sobre os temas dos quais ele toma ocasião para caluniar os cristãos, que nem conhecem nem se ocupam de tais matérias.[335] Pois nós também desejamos tanto aprender quanto expor essas coisas, para que os feiticeiros não enganassem, sob o pretexto de saber mais do que nós, aqueles que são facilmente levados pelo brilho dos nomes.[336] E eu poderia ter dado muitos outros exemplos para mostrar que conhecemos as opiniões desses enganadores e que as repudiamos, como sendo alheias às nossas, ímpias e não conformes com as doutrinas dos verdadeiros cristãos, das quais estamos prontos a dar confissão até a morte.[337] Deve-se notar também que aqueles que compuseram esse amontoado de ficções, por não entenderem nem a magia nem discernirem o significado da santa escritura, lançaram tudo em confusão, visto que tomaram da magia os nomes Ialdabaoth, Astafeu e Horeu, e das escrituras hebraicas aquele que é chamado em hebraico Iao ou Jah, e Sabaoth, Adonaios e Eloeus.[338] Ora, os nomes tomados das escrituras são nomes de um só e mesmo Deus.[339] Não tendo sido entendidos pelos inimigos de Deus, como eles próprios reconhecem, isso os levou a imaginar que Iao era um deus diferente, Sabaoth outro, Adonaios, a quem as escrituras chamam Adonai, um terceiro, e que Eloeus, a quem os profetas nomeiam em hebraico Eloi, também era outro.[340] Celso relata em seguida outras fábulas, no sentido de que certas pessoas retornam às formas dos arcontes, de modo que algumas são chamadas leões, outras touros, outras dragões, ou águias, ou ursos, ou cães.[341] Encontramos também no diagrama que possuíamos, e que Celso chamou de modelo quadrado, as declarações feitas por esses infelizes acerca das portas do paraíso.[342] A espada flamejante era representada como o diâmetro de um círculo de fogo, e como se montasse guarda sobre a árvore do conhecimento e da vida.[343] Celso, porém, ou não quis ou não pôde repetir as arengas que, segundo as fábulas desses homens ímpios, são apresentadas como proferidas em cada uma das portas por aqueles que passam por elas.[344] Mas nós o fizemos a fim de mostrar a Celso e aos que leem seu tratado que conhecemos a profundidade desses mistérios profanos e que eles estão muito distantes do culto que os cristãos oferecem a Deus.[345] Depois de concluir o que precede, e aquelas matérias análogas que nós mesmos acrescentamos, Celso continua assim: Eles continuam amontoando uma coisa sobre outra, discursos de profetas, e círculos sobre círculos, e emanações de uma igreja terrena e da circuncisão, e um poder que flui de uma certa Prúnicos, uma virgem e alma viva, e um céu morto para viver, e uma terra abatida pela espada, e muitos mortos para que vivam, e a morte cessando no mundo quando o pecado do mundo está morto, e ainda um caminho estreito, e portões que se abrem espontaneamente.[346] E em todos os seus escritos se menciona a árvore da vida e uma ressurreição da carne por meio da árvore, porque, imagino eu, seu mestre foi pregado numa cruz e era carpinteiro de ofício.[347] De modo que, se por acaso tivesse sido lançado de um precipício, ou empurrado a um poço, ou sufocado por enforcamento, ou tivesse sido cortador de couro, ou cortador de pedra, ou trabalhador do ferro, teria sido inventado um precipício de vida para além dos céus, ou um poço de ressurreição, ou uma corda de imortalidade, ou uma pedra bendita, ou um ferro de amor, ou um couro sagrado.[348] Ora, que velha não se envergonharia de sussurrar tais coisas, mesmo quando contasse histórias para embalar uma criança?[349] Ao usar linguagem como essa, Celso me parece confundir matérias que ouviu de modo imperfeito.[350] Pois parece provável que, ainda que tivesse ouvido algumas poucas palavras rastreáveis a alguma heresia existente, não tenha entendido claramente o significado pretendido.[351] Mas, ajuntando as palavras, quis mostrar diante daqueles que nada sabiam de nossas opiniões nem das dos hereges que estava familiarizado com todas as doutrinas dos cristãos.[352] E isso também é evidente pelas palavras anteriores.[353] É nossa prática, de fato, fazer uso das palavras dos profetas, que demonstram que Jesus é o Cristo por eles predito e mostram, a partir dos escritos proféticos, que os acontecimentos dos evangelhos a respeito de Jesus se cumpriram.[354] Mas quando Celso fala de círculos sobre círculos, ele talvez tenha tomado a expressão da heresia anteriormente mencionada, que inclui em um só círculo, ao qual chamam alma de todas as coisas e Leviatã, os sete círculos dos demônios arcontes.[355] Ou talvez surja de ele ter entendido mal o pregador quando diz: O vento vai em círculo de círculos e volta outra vez aos seus círculos.[356] A expressão também, emanações de uma igreja terrena e da circuncisão, foi provavelmente tomada do fato de que a igreja na terra era chamada por alguns de emanação de uma igreja celestial e de um mundo melhor, e de que a circuncisão descrita na lei era símbolo da circuncisão realizada ali, em certo lugar separado para purificação.[357] Os seguidores de Valentino, além disso, em conformidade com seu sistema de erro, dão o nome de Prúnicos a um certo tipo de sabedoria, da qual querem que a mulher com fluxo de sangue de doze anos seja símbolo.[358] De modo que Celso, que mistura todo tipo de opiniões, gregas, bárbaras e heréticas, tendo ouvido falar dela, afirmou que era um poder procedente de uma certa Prúnicos, uma virgem.[359] A alma viva, por sua vez, é talvez referida misteriosamente por alguns dos seguidores de Valentino ao ser que chamam criador psíquico do mundo.[360] Ou talvez, em contraste com uma alma morta, a alma viva seja chamada por alguns, não sem elegância, a alma daquele que é salvo.[361] Nada sei, porém, de um céu que se diz morto, ou de uma terra abatida pela espada, ou de muitas pessoas mortas para que vivessem, pois não é improvável que essas coisas tenham sido cunhadas pelo próprio cérebro de Celso.[362] Diríamos, além disso, que a morte cessa no mundo quando morre o pecado do mundo, referindo a afirmação às palavras místicas do apóstolo, que dizem o seguinte: Quando tiver posto todos os inimigos debaixo de seus pés, então o último inimigo a ser destruído será a morte.[363] E também: Quando este corruptível se revestir da incorruptibilidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória.[364] A descida estreita, por sua vez, talvez seja referida por aqueles que sustentam a doutrina da transmigração das almas a essa visão das coisas.[365] E não é incrível que os portões que se diz abrirem-se espontaneamente sejam obscuramente referidos por alguns às palavras: Abri-me as portas da justiça, para que eu entre por elas e louve ao Senhor.[366] Esta é a porta do Senhor, por ela entrarão os justos.[367] E ainda ao que é dito no nono salmo: Tu que me levantas das portas da morte, para que eu anuncie todo o teu louvor nas portas da filha de Sião.[368] A escritura ainda dá o nome de portas da morte àqueles pecados que conduzem à destruição, assim como, ao contrário, chama portas de Sião às boas ações.[369] Assim também as portas da justiça, expressão equivalente a portas da virtude, estão prontas para ser abertas àquele que busca as ocupações virtuosas.[370] O assunto da árvore da vida será explicado mais apropriadamente quando interpretarmos as afirmações no livro de Gênesis a respeito do paraíso plantado por Deus.[371] Celso, além disso, tem zombado frequentemente do assunto da ressurreição, doutrina que ele não compreendeu.[372] E na presente ocasião, não satisfeito com o que já disse anteriormente, acrescenta: E diz-se que há uma ressurreição da carne por meio da árvore.[373] Não entendendo, penso eu, a expressão simbólica segundo a qual pela árvore veio a morte, e pela árvore vem a vida, porque a morte estava em Adão e a vida em Cristo.[374] Em seguida zomba da árvore, atacando-a sob dois fundamentos e dizendo: Por essa razão é introduzida a árvore, ou porque nosso mestre foi pregado numa cruz, ou porque era carpinteiro de ofício.[375] Não observando que a árvore da vida é mencionada nos escritos mosaicos, e sendo cego também a isto, que em nenhum dos evangelhos correntes nas igrejas Jesus é descrito como sendo ele mesmo um carpinteiro.[376] Celso, além disso, pensa que inventamos essa árvore da vida para dar um significado alegórico à cruz.[377] E, em consequência de seu erro nesse ponto, acrescenta: Se tivesse acontecido de ele ser lançado de um precipício, ou empurrado a um poço, ou sufocado por enforcamento, teria sido inventado um precipício de vida muito além dos céus, ou um poço de ressurreição, ou uma corda de imortalidade.[378] E ainda: Se a árvore da vida fosse uma invenção porque ele, Jesus, se diz ter sido carpinteiro, seguir-se-ia que, se tivesse sido cortador de couro, algo seria dito sobre couro santo.[379] Ou se tivesse sido cortador de pedra, sobre uma pedra bendita.[380] Ou se trabalhador do ferro, sobre um ferro de amor.[381] Ora, quem não vê de imediato a mesquinhez de sua acusação ao assim caluniar homens que ele professava querer converter sob o argumento de estarem enganados?[382] E depois dessas observações, continua a falar de modo bastante harmonioso com o tom daqueles que inventaram as ficções dos anjos governantes com forma de leão, cabeça de jumento, forma de serpente e outras absurdidades semelhantes, mas que não atingem aqueles que pertencem à igreja.[383] Na verdade, até uma velha embriagada teria vergonha de cantar ou sussurrar a uma criança, para embalá-la, quaisquer fábulas como aquelas produzidas pelos que inventaram seres com cabeças de jumento e as arengas, por assim dizer, proferidas em cada uma das portas.[384] Mas Celso não está familiarizado com as doutrinas dos membros da igreja, que muito poucos conseguiram compreender, mesmo entre os que dedicaram toda a vida, conforme o mandamento de Jesus, à investigação das escrituras e se esforçaram por perscrutar o significado dos livros sagrados mais do que os filósofos gregos em sua busca por uma suposta sabedoria.[385] Nosso nobre amigo, além disso, não satisfeito com as objeções que extraiu do diagrama, deseja, para reforçar suas acusações contra nós, que nada temos em comum com ele, introduzir certas outras acusações, que retira dos mesmos hereges, mas como se viessem de outra fonte.[386] Suas palavras são: E isso não é o menor de seus prodígios, pois entre os círculos superiores, aqueles que estão acima dos céus, há certas inscrições das quais dão interpretação, e entre outras duas palavras especialmente, maior e menor, que referem ao Pai e ao Filho.[387] Ora, no diagrama referido encontramos o círculo maior e o menor, sobre cujo diâmetro estava inscrito Pai e Filho.[388] E entre o círculo maior, no qual o menor estava contido, e outro composto de dois círculos, sendo o exterior amarelo e o interior azul, uma barreira inscrita em forma de machado.[389] E acima dela, um pequeno círculo, perto do maior dos dois anteriores, com a inscrição Amor.[390] E mais abaixo, outro tocando o mesmo círculo, com a palavra Vida.[391] E no segundo círculo, que estava entrelaçado e incluía outros dois círculos, outra figura, como um losango, intitulada A presciência da sabedoria.[392] E dentro de seu ponto de intersecção comum estava A natureza da sabedoria.[393] E acima desse ponto comum havia um círculo no qual estava inscrito Conhecimento, e mais abaixo outro no qual estava a inscrição Entendimento.[394] Introduzimos essas matérias em nossa resposta a Celso para mostrar aos nossos leitores que as conhecemos melhor do que ele, e não por mero relato, embora também as desaprovemos.[395] Além disso, se aqueles que se orgulham de tais coisas professam também uma espécie de magia e feitiçaria, que em sua opinião é o ápice da sabedoria, nós, por outro lado, nada afirmamos sobre isso, visto que jamais descobrimos nada do gênero.[396] Veja Celso, porém, já tantas vezes convencido de falso testemunho e acusações irracionais, se não é culpado de falsidade também nestas, ou se não extraiu e introduziu em seu tratado afirmações tiradas dos escritos daqueles que são estrangeiros e alheios à nossa fé cristã.[397] Em seguida, falando daqueles que empregam as artes da magia e da feitiçaria e invocam os nomes bárbaros dos demônios, ele observa que tais pessoas agem como aqueles que, a respeito das mesmas coisas, realizam prodígios diante dos que ignoram que os nomes dos demônios entre os gregos são diferentes do que são entre os citas.[398] Então cita uma passagem de Heródoto, afirmando que Apolo é chamado Gongosiro pelos citas, Posêidon, Thagimasada, Afrodite, Argimpasa, e Héstia, Tabiti.[399] Ora, quem tiver capacidade pode investigar se, nessas matérias, Celso e Heródoto não estão ambos errados.[400] Pois os citas não entendem a mesma coisa que os gregos no que se refere àqueles seres considerados deuses.[401] Como é crível que Apolo seja chamado Gongosiro pelos citas?[402] Não suponho que Gongosiro, quando transferido para a língua grega, produza a mesma etimologia que Apolo, nem que Apolo, no dialeto dos citas, tenha o significado de Gongosiro.[403] Nem até agora se fez afirmação semelhante a respeito dos outros nomes.[404] Pois os gregos, com base em circunstâncias e etimologias diferentes, deram àqueles que por eles são tidos como deuses os nomes que carregam.[405] E os citas, por outro conjunto de circunstâncias.[406] E o mesmo se dava com persas, indianos, etíopes, líbios, ou com aqueles que se deleitam em distribuir nomes a partir da imaginação e não se mantêm na ideia justa e pura do Criador de todas as coisas.[407] Basta, porém, o que dissemos nas páginas anteriores, onde desejamos demonstrar que Sabaoth e Zeus não eram a mesma divindade, e onde também fizemos algumas observações, derivadas das santas escrituras, a respeito dos diferentes dialetos.[408] Passamos, então, de boa vontade por estes pontos, sobre os quais Celso nos faria repetir-nos.[409] Em seguida, novamente misturando coisas pertencentes à magia e à feitiçaria, e referindo-as talvez a ninguém, por não existir qualquer um que pratique magia sob pretexto de um culto desse tipo, embora talvez tenha em vista alguns que realmente utilizem tais práticas diante dos simples, para parecerem agir por poder divino, ele acrescenta: Que necessidade há de enumerar todos os que ensinaram métodos de purificação, ou hinos expiatórios, ou encantamentos para afastar o mal, ou a fabricação de imagens, ou semelhanças de demônios, ou os vários tipos de antídotos contra veneno encontrados em roupas, ou em números, ou pedras, ou plantas, ou raízes, ou de modo geral em todo tipo de coisas?[410] Em relação a essas matérias, a razão não exige que ofereçamos qualquer defesa, visto que não estamos sujeitos nem no mínimo a suspeitas dessa natureza.[411] Depois destas coisas, Celso me parece agir como aqueles que, em seu intenso ódio aos cristãos, sustentam, diante dos que são totalmente ignorantes da fé cristã, que averiguaram de fato que os cristãos devoram a carne de crianças e se entregam sem restrição a relações sexuais com suas mulheres.[412] Ora, assim como essas afirmações foram condenadas como falsidades inventadas contra os cristãos, e essa admissão foi feita pela multidão e pelos que são totalmente estranhos à nossa fé, assim também as seguintes declarações de Celso seriam consideradas calúnias inventadas contra os cristãos, onde ele diz ter visto nas mãos de certos presbíteros pertencentes à nossa fé livros bárbaros contendo os nomes e os feitos maravilhosos dos demônios, afirmando ainda que esses presbíteros de nossa fé professavam não fazer qualquer bem, mas tudo o que era calculado para prejudicar os seres humanos.[413] Oxalá tudo o que Celso disse contra os cristãos fosse dessa natureza, de modo a ser refutado pela multidão, que averiguou pela experiência que tais coisas não são verdadeiras, visto que a maioria deles viveu como vizinha dos cristãos e não ouviu sequer falar da existência de tais práticas alegadas.[414] Em seguida, como se tivesse esquecido que seu objetivo era escrever contra os cristãos, ele diz que, tendo conhecido um certo Dionísio, músico egípcio, este lhe contou, a respeito das artes mágicas, que elas só tinham poder sobre os sem instrução e sobre homens de moral corrompida, ao passo que sobre filósofos não conseguiam produzir efeito algum, porque estes tinham o cuidado de observar um modo saudável de vida.[415] Ora, se fosse nosso propósito tratar da magia, poderíamos acrescentar algumas observações além do que já dissemos sobre esse tema.[416] Mas, visto que são apenas as matérias mais importantes que temos de notar em resposta a Celso, diremos sobre a magia que qualquer um que escolher investigar se filósofos já foram ou não capturados por ela pode ler o que foi escrito por Moirágenes a respeito das memórias do mágico e filósofo Apolônio de Tiana.[417] Nelas esse indivíduo, que não era cristão, mas filósofo, afirma que alguns filósofos de não pequena reputação foram conquistados pelo poder mágico possuído por Apolônio e recorreram a ele como feiticeiro.[418] E entre esses, penso eu, mencionou especialmente Eufrates e certo epicurista.[419] Nós, por outro lado, afirmamos, e aprendemos pela experiência, que aqueles que adoram o Deus de todas as coisas em conformidade com o cristianismo que vem por Jesus, e vivem segundo o seu evangelho, usando de noite e de dia, contínua e devidamente, as orações prescritas, não são arrastados nem pela magia nem pelos demônios.[420] Pois verdadeiramente o anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra de todo mal.[421] E diz-se que os anjos dos pequeninos na igreja, que foram designados para velar sobre eles, sempre contemplam a face de seu Pai que está nos céus, seja qual for o significado de face ou de contemplar.[422] Depois dessas matérias, Celso traz contra nós as seguintes acusações de outra parte: Certos erros extremamente ímpios, diz ele, são cometidos por eles devido à sua extrema ignorância, pela qual se desviaram do significado dos enigmas divinos, criando para Deus um adversário, o diabo, e nomeando-o na língua hebraica de Satanás.[423] Ora, na verdade, tais afirmações são inteiramente invenções humanas, e nem mesmo próprias de ser repetidas, a saber, que o Deus poderoso, em seu desejo de conferir bem aos homens, tenha, contudo, alguém que o contrarie e seja impotente.[424] Segue-se então que o Filho de Deus é vencido pelo diabo e, sendo punido por ele, ensina-nos também a desprezar as punições que ele inflige, avisando-nos de antemão que Satanás, depois de aparecer aos homens como ele mesmo apareceu, exibirá grandes e maravilhosas obras, reivindicando para si a glória de Deus, mas que aqueles que desejam mantê-lo à distância não devem prestar atenção a essas obras de Satanás, mas depositar sua fé somente nele.[425] Tais afirmações são manifestamente palavras de um enganador, que planeja e manobra contra aqueles que se opõem às suas opiniões e se colocam contra elas.[426] Em seguida, desejando apontar os enigmas, quanto aos quais os nossos erros teriam levado à introdução de nossas opiniões sobre Satanás, ele continua: Os antigos aludem obscuramente a certa guerra entre os deuses, falando Heráclito assim sobre isso: Se se deve dizer que há uma guerra e discórdia universais, e que todas as coisas são feitas e administradas em conflito.[427] Ferecides, por sua vez, muito mais antigo do que Heráclito, relata um mito de um exército alinhado em hostilidade contra outro, nomeia Cronos como líder de um e Ofioneu do outro, e conta seus desafios e combates, mencionando que foram feitos acordos entre eles, segundo os quais a parte que caísse no oceano seria considerada vencida, enquanto aqueles que os expulsassem e vencessem teriam posse do céu.[428] Os mistérios relativos aos Titãs e aos Gigantes também tinham algum significado simbólico desse tipo, assim como os mistérios egípcios de Tifão, Hórus e Osíris.[429] Depois de fazer tais afirmações, e de não superar a dificuldade de como esses relatos conteriam uma visão mais elevada das coisas, enquanto os nossos seriam cópias errôneas deles, continua a abusar de nós, observando que esses não são como os relatos de um diabo, ou demônio, ou, como ele diz com mais verdade, de um homem impostor que deseja estabelecer uma doutrina oposta.[430] E da mesma forma entende Homero, como se este se referisse obscuramente a matérias semelhantes às mencionadas por Heráclito, Ferecides e os originadores dos mistérios acerca dos Titãs e Gigantes, nas palavras em que Hefesto se dirige a Hera, bem como nas palavras de Zeus a Hera.[431] Interpretando, além disso, as palavras de Homero, acrescenta: As palavras de Zeus dirigidas a Hera são as palavras de Deus dirigidas à matéria, e as palavras dirigidas à matéria significam obscuramente que a matéria, que no princípio estava em estado de discórdia com Deus, foi por ele tomada, ligada e organizada sob leis, que podem ser analogicamente comparadas a correntes.[432] E que, como castigo aos demônios que produzem desordem nela, ele os lança de cabeça a este mundo inferior.[433] Essas palavras de Homero, alega ele, foram assim entendidas por Ferecides, quando disse que abaixo daquela região está a região do Tártaro, guardada pelas Hárpias e pela Tempestade, filhas de Bóreas, para a qual Zeus bania qualquer dos deuses que se tornasse desordeiro.[434] Com as mesmas ideias também está intimamente ligado o peplo de Atena, visto por todos na procissão das Panateneias.[435] Pois é manifesto disto, continua ele, que um demônio sem mãe e sem mancha domina a ousadia dos Gigantes.[436] Enquanto aceita as ficções dos gregos, ele continua a amontoar contra nós acusações como as seguintes, isto é, que o Filho de Deus é punido pelo diabo e nos ensina também que, quando somos punidos por ele, devemos suportá-lo.[437] Ora, essas afirmações são completamente ridículas.[438] Pois é o diabo, penso eu, que deveria antes ser punido, e os seres humanos caluniados por ele não deveriam ser ameaçados de castigo.[439] Observa agora se aquele que nos acusa de termos cometido erros dos mais ímpios e de termos nos afastado do verdadeiro significado dos enigmas divinos não está ele mesmo claramente em erro, por não perceber que nos escritos de Moisés, muito mais antigos não apenas do que Heráclito e Ferecides, mas até mesmo do que Homero, se faz menção desse maligno e de sua queda do céu.[440] Pois a serpente, da qual deriva o Ofioneu de que fala Ferecides, ao ter-se tornado a causa da expulsão do homem do paraíso divino, projeta obscuramente a sombra de algo semelhante, tendo enganado a mulher com a promessa de divindade e de bênçãos maiores.[441] E diz-se que o homem também seguiu o seu exemplo.[442] E além disso, quem mais poderia ser o anjo destruidor mencionado no Êxodo de Moisés senão aquele que foi autor de destruição para os que lhe obedeceram e não resistiram às suas obras malignas nem lutaram contra elas?[443] Além disso, o bode que no livro de Levítico é enviado ao deserto, e que na língua hebraica é chamado Azazel, não era outro senão este.[444] E era necessário enviá-lo ao deserto e tratá-lo como sacrifício expiatório, porque sobre ele caiu a sorte.[445] Pois todos os que pertencem à parte pior, por causa de sua maldade, opondo-se aos que são herança de Deus, são abandonados por Deus.[446] Mais ainda, quanto aos filhos de Belial no livro dos Juízes, de quem se diz que são filhos senão dele, por causa de sua maldade?[447] E além de todos estes exemplos, no livro de Jó, que é mais antigo até do que o próprio Moisés, o diabo é claramente descrito como apresentando-se diante de Deus e pedindo poder contra Jó, para envolvê-lo em provas dolorosíssimas, a primeira das quais consistiu na perda de todos os seus bens e de seus filhos, e a segunda em afligir o corpo inteiro de Jó com a chamada elefantíase.[448] Deixo de lado o que se poderia citar dos evangelhos a respeito do diabo que tentou o Salvador, para que eu não pareça responder a Celso com escritos mais recentes sobre esta questão.[449] No último capítulo também de Jó, em que o Senhor fala a Jó em meio à tempestade e às nuvens o que está registrado no livro que leva seu nome, não há poucas coisas referentes à serpente.[450] Ainda não mencionei as passagens em Ezequiel, onde ele fala, por assim dizer, do faraó, ou de Nabucodonosor, ou do príncipe de Tiro, nem as de Isaías, onde se levanta lamento pelo rei da Babilônia, das quais não pouco se poderia aprender a respeito do mal, quanto à natureza de sua origem e geração, e quanto a como derivou sua existência de alguns que haviam perdido suas asas e seguido aquele que foi o primeiro a perder as suas.[451] Pois é impossível que o bem que resulta do acaso ou de comunicação seja como aquele bem que vem pela natureza.[452] E, no entanto, o primeiro jamais será perdido por aquele que, por assim dizer, participa do pão vivo tendo em vista sua própria preservação.[453] Mas se vier a faltar a alguém, isso deverá ser por sua própria culpa, por ser negligente em participar desse pão vivo e bebida genuína, mediante os quais as asas, nutridas e regadas, são ajustadas para o seu propósito, segundo o dito de Salomão, o mais sábio dos homens, a respeito do homem verdadeiramente rico, de que ele fez para si asas como a águia e retorna à casa de seu patrono.[454] Pois convinha a Deus, que sabe converter em bom uso até mesmo aqueles que, em sua maldade, apostataram dele, colocar tal espécie de maldade em alguma parte do universo e estabelecer uma escola de virtude, na qual se exercitassem aqueles que desejassem recuperar de modo legítimo a posse que haviam perdido, a fim de que, sendo provados como ouro no fogo pela maldade desses, e tendo se esforçado ao máximo para impedir que qualquer coisa vil prejudicasse sua natureza racional, pudessem mostrar-se dignos de uma ascensão às coisas divinas e ser elevados pelo Verbo à bem-aventurança que está acima de todas as coisas e, por assim dizer, ao próprio cume da bondade.[455] Ora, aquele que na língua hebraica é chamado Satan, e por alguns Satanas, por ser mais conforme ao gênio da língua grega, significa, traduzido para o grego, adversário.[456] Mas todo aquele que prefere o vício e uma vida viciosa é Satanas, isto é, adversário do Filho de Deus, que é justiça, verdade e sabedoria, porque age de maneira contrária à virtude.[457] Com mais propriedade, porém, é chamado adversário aquele que foi o primeiro dentre os que viviam uma vida pacífica e feliz a perder suas asas e cair da bem-aventurança.[458] Aquele que, segundo Ezequiel, andava irrepreensivelmente em todos os seus caminhos até que se achou iniquidade nele, e que, sendo o selo da semelhança e a coroa da beleza no paraíso de Deus, estando cheio, por assim dizer, de coisas boas, caiu em destruição, de acordo com a palavra que lhe foi dita em sentido místico: Caíste em destruição e não subsistirás para sempre.[459] Arriscamo-nos de modo um tanto temerário a fazer estas poucas observações, embora, ao fazê-lo, nada de grande importância tenhamos acrescentado a este tratado.[460] Se, porém, alguém que tenha tempo para o exame das escrituras sagradas reunir de todas as fontes e formar um só corpo de doutrina com o que está registrado acerca da origem do mal e da maneira de sua dissolução, verá que as opiniões de Moisés e dos profetas a respeito de Satanás não foram sequer sonhadas nem por Celso nem por qualquer daqueles cuja alma foi arrastada para baixo e separada de Deus, e das retas opiniões sobre ele, e de sua palavra, por este demônio maligno.[461] Mas, visto que Celso rejeita as afirmações sobre o Anticristo, como é chamado, sem ter lido nem o que se diz dele no livro de Daniel, nem nos escritos de Paulo, nem o que o Salvador nos evangelhos predisse a respeito de sua vinda, devemos fazer também algumas observações sobre esse assunto.[462] Porque, assim como rostos não se assemelham a rostos, tampouco os corações dos homens se assemelham uns aos outros.[463] É certo, então, que haverá diversidades entre os corações dos homens, não sendo todos os que se inclinam para a virtude modelados e formados para ela no mesmo ou semelhante grau, enquanto outros, por negligência da virtude, precipitam-se ao extremo oposto.[464] E entre estes últimos há alguns em que o mal está profundamente arraigado, e outros em que está menos profundamente enraizado.[465] Onde está, então, o absurdo em sustentar que existem entre os homens, por assim dizer, dois extremos, um da virtude e o outro de seu oposto, de tal modo que a perfeição da virtude habita no homem que realiza o ideal dado em Jesus, de quem fluiu para a raça humana tão grande conversão, cura e melhoramento, enquanto o extremo oposto se encontra no homem que encarna a noção daquele que é chamado Anticristo?[466] Pois Deus, compreendendo todas as coisas por meio de sua presciência e prevendo que consequências resultariam de ambos, quis fazer isso conhecido à humanidade por meio de seus profetas, para que aqueles que entendem suas palavras se familiarizassem com o bem e se guardassem do seu oposto.[467] Convém, além disso, que um desses extremos, e o melhor dos dois, seja chamado Filho de Deus por causa de sua preeminência, e o outro, que lhe é diametralmente oposto, seja chamado filho do demônio maligno, de Satanás e do diabo.[468] E, em seguida, visto que o mal se caracteriza especialmente por sua difusão e atinge sua maior altura quando simula a aparência do bem, por essa razão sinais, maravilhas e milagres mentirosos se encontram acompanhando o mal, pela cooperação de seu pai, o diabo.[469] Pois muito acima da ajuda que esses demônios dão aos embusteiros, que enganam os homens para os mais baixos propósitos, está o auxílio que o próprio diabo oferece para enganar a raça humana.[470] Paulo, de fato, fala daquele que é chamado Anticristo, descrevendo, ainda que com certa reserva, o modo, o tempo e a causa de sua vinda ao gênero humano.[471] E observa se sua linguagem sobre esse assunto não é muito adequada e indigna até do mais leve grau de escárnio.[472] É assim que o apóstolo se expressa: Rogamo-vos, irmãos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente de vosso entendimento, nem vos perturbeis, nem por palavra, nem por espírito, nem por carta como se procedesse de nós, como se o dia do Senhor estivesse próximo.[473] Ninguém de modo algum vos engane, porque isso não acontecerá sem que venha primeiro a apostasia e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de sentar-se no templo de Deus, mostrando-se como se fosse Deus.[474] Não vos lembrais de que, estando ainda convosco, eu vos dizia essas coisas?[475] E agora sabeis o que o detém, para que ele seja revelado em seu tempo.[476] Pois o mistério da iniquidade já opera.[477] Somente há quem agora o detenha, até que seja tirado do caminho.[478] E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor consumirá com o sopro de sua boca e destruirá pelo esplendor de sua vinda, aquele cuja vinda é segundo a operação de Satanás, com todo poder, sinais e prodígios mentirosos, e com todo engano da injustiça nos que perecem, porque não receberam o amor da verdade para serem salvos.[479] E por isso Deus lhes enviará forte engano, para que creiam na mentira, a fim de que sejam condenados todos os que não creram na verdade, mas tiveram prazer na injustiça.[480] Explicar aqui cada particular referido não pertence ao nosso propósito presente.[481] A profecia também a respeito do Anticristo é declarada no livro de Daniel e é apta a levar um leitor inteligente e sincero a admirar as palavras como verdadeiramente divinas e proféticas.[482] Pois nelas se mencionam as coisas relativas ao reino vindouro, começando nos tempos de Daniel e continuando até a destruição do mundo.[483] E qualquer um que quiser pode lê-la.[484] Observa, porém, se a profecia a respeito do Anticristo não é a seguinte: E no fim do seu reino, quando os seus pecados chegarem ao auge, levantar-se-á um rei de rosto feroz e entendido em enigmas.[485] E seu poder será grande, e destruirá de modo admirável, e prosperará, e agirá, e destruirá homens poderosos e o povo santo.[486] E o jugo de sua cadeia prosperará.[487] Há engano em sua mão, e ele se engrandecerá em seu coração, e por engano destruirá muitos, e se levantará para a destruição de muitos, e os esmagará como ovos em sua mão.[488] O que é afirmado por Paulo nas palavras dele que citamos, quando diz que ele se assentará no templo de Deus, mostrando-se como se fosse Deus, é referido em Daniel da seguinte maneira: E sobre o templo estará a abominação das desolações, e no fim do tempo será posto fim à desolação.[489] Tantas, dentre um número maior de passagens, pensei correto aduzir, para que o ouvinte compreenda, em algum pequeno grau, o sentido da santa escritura quando nos informa acerca do diabo e do Anticristo.[490] E, satisfeitos com o que citamos para esse propósito, olhemos para outra das acusações de Celso e respondamos a ela como melhor pudermos.[491] Celso, depois do que foi dito, prossegue assim: Posso dizer como ocorreu precisamente a coisa, isto é, que eles o chamassem Filho de Deus.[492] Os homens antigos chamavam este mundo, como sendo nascido de Deus, tanto seu filho quanto seu Filho.[493] Ambos, então, esse e aquele Filho de Deus, se assemelhavam grandemente.[494] Portanto, ele é de opinião que usamos a expressão Filho de Deus pervertendo o que se diz do mundo, como sendo nascido de Deus, sendo seu Filho e um deus.[495] Pois foi incapaz de considerar os tempos de Moisés e dos profetas de modo a ver que os profetas judeus predisseram em geral a existência de um Filho de Deus muito antes dos gregos e daqueles homens antigos de quem Celso fala.[496] Mais ainda, ele nem quis citar a passagem das cartas de Platão à qual nos referimos nas páginas anteriores, acerca daquele que dispôs tão belamente este mundo como sendo o Filho de Deus, para que não fosse ele também compelido por Platão, a quem tantas vezes menciona com respeito, a admitir que o arquiteto deste mundo é o Filho de Deus, e que seu Pai é o primeiro Deus e Soberano Governante sobre todas as coisas.[497] Nem é de admirar, de modo algum, se sustentamos que a alma de Jesus é feita uma com tão grande Filho de Deus por meio da mais alta união com ele, já não estando em estado de separação dele.[498] Pois a linguagem sagrada da santa escritura conhece também outras coisas que, embora duais em sua própria natureza, são consideradas, e realmente são, uma em relação uma à outra.[499] Diz-se do marido e da mulher: Já não são dois, mas uma só carne.[500] E do homem perfeito, e daquele que se une ao verdadeiro Senhor, Verbo, Sabedoria e Verdade, que aquele que se une ao Senhor é um só espírito.[501] E se aquele que se une ao Senhor é um só espírito, quem foi unido ao Senhor, ao próprio Verbo, Sabedoria, Verdade e Justiça, numa união mais íntima ou sequer próxima disso, do que a alma de Jesus?[502] E se isso é assim, então a alma de Jesus e Deus, o Verbo, o primogênito de toda criação, já não são dois, mas um.[503] Em seguida, quando os filósofos do Pórtico, que afirmam que a virtude de Deus e do homem é a mesma, sustentam que o Deus que está sobre todas as coisas não é mais feliz do que o seu sábio, mas que a felicidade de ambos é igual, Celso não ridiculariza nem zomba dessa opinião.[504] Se, porém, a santa escritura diz que o homem perfeito é unido e feito um com o próprio Verbo por meio da virtude, de modo que inferimos que a alma de Jesus não está separada do primogênito de toda a criação, ele ri de Jesus ser chamado Filho de Deus, não observando o que é dito dele com significação secreta e mística nas santas escrituras.[505] Mas, para ganharmos para a recepção de nossas opiniões aqueles que estão dispostos a aceitar as inferências que fluem de nossas doutrinas e a ser beneficiados por elas, dizemos que as santas escrituras declaram que o corpo de Cristo, animado pelo Filho de Deus, é a igreja inteira de Deus, e que os membros desse corpo, considerados como um todo, consistem daqueles que são crentes.[506] Pois, assim como uma alma vivifica e move o corpo, o qual por si mesmo não tem o poder natural de movimento como um ser vivo, assim o Verbo, despertando e movendo todo o corpo, a igreja, para a ação conveniente, desperta também cada membro individual pertencente à igreja, de modo que nada fazem à parte do Verbo.[507] Já que tudo isso, então, segue-se por um encadeamento de raciocínio que não deve ser desprezado, onde está a dificuldade em sustentar que, assim como a alma de Jesus está unida de maneira perfeita e inconcebível ao próprio Verbo, assim a pessoa de Jesus, de modo geral, não está separada do unigênito e primogênito de toda a criação, nem é um ser diferente dele?[508] Mas basta aqui sobre esse assunto.[509] Observemos agora o que vem a seguir, quando, exprimindo em uma única palavra sua opinião a respeito da cosmogonia mosaica, sem oferecer, contudo, um único argumento em seu apoio, ele encontra falta nela dizendo: Além disso, sua cosmogonia é extremamente tola.[510] Ora, se tivesse produzido alguma prova crível de seu caráter tolo, teríamos nos esforçado para respondê-la.[511] Mas não me parece razoável que eu seja chamado a demonstrar, em resposta à sua simples afirmação, que ela não é tola.[512] Se, porém, alguém desejar ver as razões que nos levaram a aceitar o relato mosaico e os argumentos pelos quais ele pode ser defendido, pode ler o que escrevemos sobre Gênesis, desde o começo do livro até a passagem: Este é o livro da geração dos homens, onde procuramos mostrar pelas próprias santas escrituras o que era o céu criado no princípio, e o que a terra, e a parte invisível da terra, e aquilo que estava sem forma, e o que era o abismo, e as trevas que estavam sobre ele, e o que era a água, e o Espírito de Deus que se movia sobre ela, e o que era a luz que foi criada, e o que o firmamento, distinto do céu que foi criado no princípio, e assim por diante com os demais assuntos que seguem.[513] Celso também expressou sua opinião de que a narrativa da criação do homem é extremamente tola, sem apresentar quaisquer provas nem tentar responder aos nossos argumentos, pois não tinha, em meu juízo, nenhuma evidência apta a derrubar a afirmação de que o homem foi feito à imagem de Deus.[514] Ele nem sequer entende o significado do paraíso plantado por Deus e da vida que o homem primeiro levou nele, e daquilo que resultou por acidente quando o homem foi lançado fora por causa de seu pecado e estabelecido diante do paraíso do deleite.[515] Ora, como ele afirma que essas são declarações tolas, volte sua atenção não apenas a cada uma delas em geral, mas a esta em particular: Colocou os querubins e a espada flamejante, que se voltava em todas as direções, para guardar o caminho da árvore da vida, e diga se Moisés escreveu estas palavras sem qualquer objetivo sério, mas no espírito dos autores da Comédia Antiga, que contaram jocosamente que Preto matou Belerofonte e que Pégaso veio da Arcádia.[516] Ora, o objetivo deles era provocar riso ao compor tais histórias.[517] Ao passo que é inacreditável que aquele que deixou leis para uma nação inteira, acerca das quais desejava persuadir seus súditos de que foram dadas por Deus, tivesse escrito palavras tão fora de propósito e dito sem sentido: Colocou os querubins e a espada flamejante, que se voltava em todas as direções, para guardar o caminho da árvore da vida, ou tivesse feito qualquer outra afirmação acerca da criação do homem, a qual é objeto de investigação filosófica pelos sábios hebreus.[518] Em seguida, Celso, depois de reunir, simplesmente como meras afirmações, as variadas opiniões de alguns dos antigos a respeito do mundo e da origem do homem, alega que Moisés e os profetas, que nos deixaram nossos livros, não sabendo absolutamente nada da natureza do mundo e do homem, teceram uma rede de puro absurdo.[519] Se ele tivesse mostrado como lhe parecia que as santas escrituras continham puro absurdo, teríamos tentado demolir os argumentos que lhe pareciam estabelecer seu caráter absurdo.[520] Mas, na presente ocasião, seguindo o seu próprio exemplo, também nós, de maneira jocosa, damos como nossa opinião que Celso, nada sabendo da natureza do significado e da linguagem dos profetas, compôs uma obra que continha puro absurdo e jactanciosamente lhe deu o título de discurso verdadeiro.[521] E, já que faz das afirmações sobre os dias da criação motivo de acusação, como se as entendesse clara e corretamente, alguns dos quais transcorreram antes da criação da luz, do céu, do sol, da lua e das estrelas, e alguns depois da criação destes, faremos apenas esta observação: que Moisés então deve ter se esquecido de que havia dito um pouco antes que em seis dias a criação do mundo fora concluída, e que, em consequência desse ato de esquecimento, acrescenta a essas palavras o seguinte: Este é o livro da criação do homem, no dia em que Deus fez o céu e a terra.[522] Mas não é minimamente crível que, depois do que dissera a respeito dos seis dias, Moisés acrescentasse imediatamente, sem significado especial, as palavras: no dia em que Deus fez os céus e a terra.[523] E, se alguém pensa que essas palavras podem ser referidas à afirmação: No princípio Deus fez o céu e a terra, que observe que, antes das palavras: Haja luz, e houve luz, e destas: Deus chamou à luz dia, já foi dito que no princípio Deus fez o céu e a terra.[524] Na presente ocasião, porém, não é nosso objetivo entrar numa explicação do tema dos seres inteligentes e sensíveis, nem da maneira como os diferentes tipos de dias foram distribuídos a ambas as espécies, nem investigar os detalhes pertencentes ao assunto, pois precisaríamos de tratados inteiros para a exposição da cosmogonia mosaica.[525] E esse trabalho já o havíamos realizado, o melhor que podíamos, muito tempo antes do início desta resposta a Celso, quando discutimos, com a medida de capacidade que então possuíamos, a questão da cosmogonia mosaica dos seis dias.[526] Devemos ter em mente, no entanto, que o Verbo promete aos justos, pela boca de Isaías, que virão dias em que não o sol, mas o próprio Senhor, lhes será luz eterna, e Deus será a sua glória.[527] E é, penso eu, por ter entendido mal alguma heresia pestilenta que deu interpretação errônea às palavras: Haja luz, como se fossem apenas expressão de um desejo da parte do Criador, que Celso fez a observação: O Criador não tomou emprestada a luz de cima, como fazem aqueles que acendem suas lâmpadas nas de seus vizinhos.[528] Entendendo mal, além disso, outra heresia ímpia, ele disse: Se, de fato, existia um deus amaldiçoado oposto ao grande Deus, que fez isso contra sua aprovação, por que lhe emprestou a luz?[529] Estamos tão longe de oferecer defesa a tais puerilidades, que desejamos, ao contrário, acusar distintamente as declarações desses hereges como errôneas e encarregar-nos de refutar, não aquelas de suas opiniões que desconhecemos, como Celso faz, mas aquelas das quais alcançamos conhecimento preciso, derivado em parte das afirmações de seus próprios adeptos e em parte de leitura cuidadosa de seus escritos.[530] Celso prossegue assim: Quanto à origem do mundo e à sua destruição, se deve ser considerado incriado e indestrutível, ou criado de fato, mas não destrutível, ou o contrário, nada digo no presente.[531] Por essa razão, também nada dizemos sobre esses pontos, porque a obra em mãos não o exige.[532] Nem alegamos que o Espírito do Deus universal se misturou às coisas aqui debaixo como a coisas alheias a si mesmo, como poderia parecer pela expressão: O Espírito de Deus pairava sobre as águas.[533] Nem afirmamos que certos maus artifícios dirigidos contra o seu Espírito, como se por um criador diferente do grande Deus, e tolerados pela suprema Divindade, precisassem ser totalmente frustrados.[534] E, portanto, nada mais tenho a dizer àqueles que proferem tais absurdos, nem a Celso, que não os refuta com habilidade.[535] Pois ele deveria ou não ter mencionado tais matérias de forma alguma, ou então, em conformidade com o caráter de filantropia que assume, tê-las exposto cuidadosamente e então se esforçado por rebutar essas afirmações ímpias.[536] Nem jamais ouvimos dizer que o grande Deus, depois de dar seu espírito ao criador, o exigisse de volta outra vez.[537] Prosseguindo então tolamente a atacar essas afirmações ímpias, pergunta: Que deus dá alguma coisa com a intenção de exigi-la de volta?[538] Pois é marca de alguém necessitado exigir de volta o que deu, ao passo que Deus não necessita de nada.[539] A isso acrescenta, como se dissesse algo engenhoso contra certas pessoas: Por que, quando o emprestou, ignorava que o estava emprestando a um ser maligno?[540] Pergunta ainda: Por que deixa passar sem notar um criador perverso que contraria seus propósitos?[541] Em seguida, misturando várias heresias e não observando que algumas afirmações são ditas por uma seita herética e outras por outra, ele apresenta as objeções que nós levantamos contra Márcion.[542] E, provavelmente, tendo-as ouvido de alguns indivíduos desprezíveis e ignorantes, ataca justamente os argumentos que as combatem, mas não de modo que revele muita inteligência.[543] Citando então os nossos argumentos contra Márcion, e não percebendo que é contra Márcion que está falando, ele pergunta: Por que ele envia secretamente e destrói as obras que criou?[544] Por que emprega secretamente força, persuasão e engano?[545] Por que atrai aqueles que, como vós afirmastes, foram condenados ou acusados por ele, e os leva como um traficante de escravos?[546] Por que lhes ensina a furtar-se de seu Senhor?[547] Por que fugir de seu pai?[548] Por que os reivindica para si contra a vontade do pai?[549] Por que professa ser pai de filhos estranhos?[550] A essas questões ele acrescenta a seguinte observação, como se expressasse espanto: Venerável é, de fato, o deus que deseja ser pai desses pecadores condenados por outro deus, e dos necessitados, e, como eles mesmos dizem, das próprias escórias dos homens, e que é incapaz de capturar e punir seu mensageiro, que lhe escapou.[551] Depois disso, como se se dirigisse a nós, que reconhecemos que este mundo não é obra de um deus diferente e estranho, continua no seguinte tom: Se estas são as suas obras, como é que Deus criou o mal?[552] E como é que ele não pode persuadir e admoestar os homens?[553] E como é que ele se arrepende por causa da ingratidão e da maldade dos homens?[554] E ainda encontra defeito em sua própria obra, odeia, ameaça e destrói sua própria descendência?[555] Para onde poderia transportá-los para fora deste mundo, que ele mesmo fez?[556] Ora, não me parece que por essas observações ele torne claro o que é o mal.[557] E embora entre os gregos tenha havido muitas seitas que diferem quanto à natureza do bem e do mal, ele conclui apressadamente, como se fosse consequência de sustentarmos que este mundo também é obra do Deus universal, que em nosso juízo Deus é o autor do mal.[558] Seja, porém, o caso como for a respeito do mal, quer tenha sido criado por Deus ou não, ainda assim a consequência se segue apenas quando se compara o desígnio principal.[559] E admiro-me muito se a inferência sobre a autoria divina do mal, que ele pensa seguir-se do fato de sustentarmos que este mundo também é obra do Deus universal, não segue igualmente de suas próprias afirmações.[560] Pois alguém poderia dizer a Celso: Se estas são as obras dele, como é que Deus criou o mal?[561] E como é que ele não pode persuadir e admoestar os homens?[562] É, de fato, o maior erro de raciocínio acusar os que têm opiniões diferentes de sustentar doutrinas insãs, quando o próprio acusador está muito mais sujeito à mesma acusação quanto às suas próprias.[563] Vejamos, então, brevemente, o que a santa escritura tem a dizer a respeito do bem e do mal, e que resposta devemos devolver às perguntas: Como é que Deus criou o mal?[564] E: Como é que ele é incapaz de persuadir e admoestar os homens?[565] Ora, segundo a santa escritura, propriamente falando, as virtudes e as ações virtuosas são bem, assim como, propriamente falando, o contrário delas é mal.[566] Ficaremos satisfeitos em citar, na presente ocasião, alguns versículos do trigésimo quarto salmo, no seguinte teor: Os que buscam o Senhor não terão falta de bem algum.[567] Vinde, filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor do Senhor.[568] Que homem é aquele que deseja vida e ama muitos dias para ver o bem?[569] Guarda tua língua do mal e teus lábios de falarem engano.[570] Aparta-te do mal e faze o bem.[571] Ora, as injunções para apartar-se do mal e fazer o bem não se referem nem a males corpóreos nem a bênçãos corpóreas, como alguns as chamam, nem a coisas externas em absoluto, mas a bênçãos e males de ordem espiritual.[572] Pois aquele que se afasta de tais males e pratica tais ações virtuosas, como alguém que deseja a verdadeira vida, chegará ao gozo dela.[573] E, como alguém que ama ver dias bons, nos quais a palavra da justiça será o Sol, ele os verá, Deus tirando-o deste presente mundo mau e daqueles dias maus dos quais Paulo disse: Remindo o tempo, porque os dias são maus.[574] Podem-se encontrar, de fato, passagens onde benefícios corpóreos e externos são impropriamente chamados bons, isto é, aquelas coisas que contribuem para a vida natural, enquanto as que produzem o contrário são chamadas más.[575] É nesse sentido que Jó diz à sua mulher: Se recebemos o bem da mão do Senhor, não receberemos também o mal?[576] Visto, então, que se encontra nas santas escrituras, em certa passagem, esta declaração colocada na boca de Deus: Faço a paz e crio o mal, e outra ainda, onde se diz dele que o mal desceu do Senhor até a porta de Jerusalém, com o ruído de carros e cavaleiros, passagens que perturbaram muitos leitores da escritura, incapazes de ver o que a escritura quer dizer por bem e mal, é provável que Celso, perplexo por causa delas, tenha pronunciado a pergunta: Como é que Deus criou o mal?[577] Ou talvez, tendo ouvido alguém discutir as matérias relativas a isso de modo ignorante, fez essa afirmação que notamos.[578] Nós, por outro lado, sustentamos que o mal, ou perversidade, e as ações que dele procedem, não foram criados por Deus.[579] Pois, se Deus criou aquilo que é verdadeiramente mal, como seria possível que o anúncio a respeito do juízo final fosse proclamado com confiança, aquele que nos informa que os ímpios serão punidos por suas obras más em proporção à quantidade de sua maldade, enquanto aqueles que viveram vida virtuosa ou praticaram ações virtuosas desfrutarão da bem-aventurança e receberão recompensas de Deus?[580] Sei muito bem que aqueles que ousadamente afirmariam que esses males foram criados por Deus citarão certas expressões da escritura em seu apoio, porque não somos capazes de mostrar uma série inteiramente consistente de passagens.[581] Pois, embora a escritura em geral culpe os ímpios e aprove os justos, ela contém, contudo, algumas declarações, comparativamente poucas em número, que parecem perturbar os leitores superficiais.[582] Se falarmos, porém, do que se chama males corpóreos e externos, que impropriamente recebem esse nome, então pode-se conceder que há ocasiões em que alguns deles foram trazidos à existência por Deus, para que por meio deles se efetuasse a conversão de certos indivíduos.[583] E que absurdo seguiria de tal procedimento?[584] Pois, assim como, se ouvíssemos aqueles sofrimentos impropriamente chamados males, que são infligidos por pais, instrutores e pedagogos aos que estão sob seus cuidados, ou a pacientes operados ou cauterizados por cirurgiões a fim de obter cura, e disséssemos que um pai maltrata seu filho, ou pedagogos e instrutores a seus alunos, ou médicos a seus pacientes, nenhuma culpa seria lançada sobre os operadores ou castigadores.[585] Assim também, da mesma forma, se se diz que Deus traz sobre os homens tais males para a conversão e cura daqueles que necessitam dessa disciplina, não haveria absurdo nessa visão.[586] Nem desceriam males do Senhor sobre as portas de Jerusalém, males esses que consistem nas punições infligidas aos israelitas por seus inimigos com vistas à sua conversão.[587] Nem alguém visitaria com vara as transgressões daqueles que abandonam a lei do Senhor, e com açoites as suas iniquidades.[588] Nem poderia ser dito: Tens brasas de fogo para pôr sobre eles, elas te servirão de auxílio.[589] Do mesmo modo explicamos também as expressões: Eu, que faço a paz e crio o mal.[590] Pois ele faz existir males corpóreos ou externos enquanto purifica e disciplina aqueles que não seriam corrigidos pela palavra e pela sã doutrina.[591] Esta, então, é nossa resposta à questão: Como é que Deus criou o mal?[592] Quanto à pergunta: Como é que ele é incapaz de persuadir e admoestar os homens? já foi dito que, se tal objeção fosse realmente fundamento de acusação, então a objeção de Celso poderia ser lançada contra aqueles que aceitam a doutrina da providência.[593] Qualquer um poderia responder à acusação de que Deus é incapaz de admoestar os homens, pois ele transmite suas admoestações por toda a escritura e por meio daquelas pessoas que, por graciosa designação de Deus, são instrutoras de seus ouvintes.[594] A menos, é claro, que se entenda um significado peculiar ligado à palavra admoestar, como se significasse tanto penetrar na mente da pessoa admoestada quanto fazê-la ouvir as palavras do seu instrutor, o que é contrário ao sentido usual da palavra.[595] À objeção: Como é que ele é incapaz de persuadir?, que também poderia ser apresentada contra todos os que creem na providência, temos de fazer as seguintes observações.[596] Já que a expressão ser persuadido pertence àquelas palavras que são, por assim dizer, recíprocas, compare-se a expressão barbear um homem, quando ele faz esforço para submeter-se ao barbeiro, por essa razão é necessário não apenas o esforço daquele que persuade, mas também a submissão, por assim dizer, que deve ser dada ao persuasor, ou a aceitação do que ele diz.[597] E, portanto, não se deve dizer que é porque Deus é incapaz de persuadir os homens que eles não são persuadidos, mas porque não querem aceitar as palavras fiéis de Deus.[598] E, se alguém aplicasse essa expressão a homens que são artífices da persuasão, não estaria errado.[599] Pois é possível que um homem que aprendeu profundamente os princípios da retórica e os emprega adequadamente faça todo o possível para persuadir, e ainda assim pareça fracassar, porque não pode vencer a vontade daquele que deveria ceder às suas artes persuasivas.[600] Além disso, que a persuasão não vem de Deus, embora palavras persuasivas possam ser proferidas por ele, é ensinado claramente por Paulo, quando diz: Esta persuasão não vem daquele que vos chama.[601] Tal também é a visão indicada por estas palavras: Se quiserdes e obedecerdes, comereis o bem desta terra.[602] Mas, se recusardes e vos rebelardes, sereis devorados pela espada.[603] Pois, para que alguém realmente deseje aquilo que lhe é dirigido por quem o admoesta e possa tornar-se merecedor daquelas promessas de Deus que ouve, é necessário obter a vontade do ouvinte e sua inclinação para o que lhe é dirigido.[604] E, por isso, parece-me que no livro de Deuteronômio as seguintes palavras são proferidas com especial ênfase: E agora, ó Israel, que é o que o Senhor teu Deus requer de ti, senão que temas ao Senhor teu Deus, andes em todos os seus caminhos, o ames e guardes os seus mandamentos?[605] Em seguida, deve-se responder à seguinte pergunta: E como é que ele se arrepende quando os homens se tornam ingratos e maus, e acha defeito em sua própria obra, e odeia, e ameaça, e destrói sua própria descendência?[606] Ora, Celso aqui calunia e falsifica o que está escrito no livro de Gênesis no seguinte teor: E o Senhor Deus, vendo que a maldade dos homens sobre a terra aumentava e que cada um em seu coração cuidadosamente meditava continuamente em fazer o mal, entristeceu-se de haver feito o homem sobre a terra.[607] E Deus meditou em seu coração e disse: Destruirei o homem, que fiz, de sobre a face da terra, tanto homem como animal, réptil e ave do céu, porque me entristece tê-los feito.[608] Citando palavras que não estão escritas na escritura como se transmitissem o sentido do que realmente foi escrito.[609] Pois não se menciona nessas palavras o arrependimento de Deus, nem que ele culpe ou odeie a sua própria obra.[610] E, se há aparência de Deus ameaçando a catástrofe do dilúvio e assim destruindo nela seus próprios filhos, temos de responder que, como a alma do homem é imortal, a suposta ameaça tem por objetivo a conversão dos ouvintes, enquanto a destruição dos homens pelo dilúvio é uma purificação da terra, como certos filósofos gregos de não pequena reputação indicaram com a expressão: Quando os deuses purificam a terra.[611] E, com respeito à transferência para Deus dessas expressões antropopáticas, algumas observações já foram feitas por nós nas páginas precedentes.[612] Celso, em seguida, suspeitando, ou talvez vendo claramente o suficiente, a resposta que poderia ser devolvida por aqueles que defendem a destruição dos homens pelo dilúvio, continua: Mas se ele não destrói sua própria descendência, para onde a transporta para fora deste mundo que ele mesmo criou?[613] A isso respondemos que Deus de modo algum remove para fora do mundo inteiro, composto de céu e terra, aqueles que sofreram a morte pelo dilúvio, mas os remove de uma vida na carne e, tendo-os libertado de seus corpos, ao mesmo tempo os liberta de uma existência sobre a terra, a qual em muitas partes da escritura se costuma chamar de mundo.[614] No evangelho segundo João, especialmente, podemos encontrar com frequência as regiões da terra chamadas mundo, como na passagem: Ele era a verdadeira Luz, que ilumina todo homem que vem ao mundo.[615] E também nesta: No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.[616] Se, então, entendemos por remover do mundo uma transferência das regiões sobre a terra, não há nada de absurdo na expressão.[617] Se, ao contrário, o sistema de coisas que consiste de céu e terra é chamado mundo, então os que pereceram no dilúvio não foram de modo algum removidos do chamado mundo.[618] E ainda, de fato, se atentarmos para as palavras: Não atentando nas coisas que se veem, mas nas que não se veem, e também para estas: Porque as coisas invisíveis dele, desde a criação do mundo, são claramente vistas, sendo compreendidas pelas coisas que foram feitas, poderíamos dizer que aquele que habita entre as coisas invisíveis, e no que geralmente se chama as coisas não vistas, saiu do mundo, tendo o Verbo removido-o daqui e transportado-o para as regiões celestiais, a fim de contemplar todas as coisas belas.[619] Mas, depois dessa investigação de suas afirmações, como se seu objetivo fosse inchar o livro com muitas palavras, ele repete, em linguagem diferente, as mesmas acusações que examinamos há pouco, dizendo: De longe a coisa mais tola é a distribuição da criação do mundo por certos dias antes que os dias existissem, pois, como o céu ainda não havia sido criado, nem o fundamento da terra lançado, nem o sol ainda girando, como poderia haver dias?[620] Ora, que diferença há entre essas palavras e as seguintes: Ademais, tomando e olhando essas coisas desde o princípio, não seria absurdo que o primeiro e maior Deus emitisse a ordem: venha isto primeiro à existência, e isto segundo, e isto terceiro, e, depois de realizar tanto no primeiro dia, fazer tanto mais de novo no segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto?[621] Respondemos o melhor que pudemos a essa objeção contra o fato de Deus ordenar que esta primeira, segunda e terceira coisa fossem criadas, quando citamos as palavras: Ele disse, e foi feito.[622] Ele ordenou, e tudo ficou firme, observando que o Criador imediato e, por assim dizer, o próprio Artífice do mundo era o Verbo, o Filho de Deus, enquanto o Pai do Verbo, ao ordenar ao seu próprio Filho, o Verbo, que criasse o mundo, é o Criador em sentido primário.[623] E quanto à criação da luz no primeiro dia, do firmamento no segundo, do ajuntamento das águas debaixo do céu em seus respectivos reservatórios no terceiro, fazendo a terra então brotar aqueles frutos que estão sob o controle apenas da natureza, e das grandes luzes e estrelas no quarto, dos animais aquáticos no quinto, e dos animais terrestres e do homem no sexto, tratamos disso conforme nossa capacidade em nossas notas sobre Gênesis, bem como nas páginas anteriores, quando criticamos aqueles que, tomando as palavras em sua significação aparente, diziam que o tempo de seis dias foi ocupado na criação do mundo, e citaram as palavras: Estas são as gerações dos céus e da terra quando foram criados, no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus.[624] Novamente, não entendendo o significado das palavras: E Deus terminou no sexto dia as obras que fizera, e cessou no sétimo dia de todas as obras que fizera; e Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele havia cessado de todas as obras que começara a fazer, e imaginando que a expressão cessou no sétimo dia é a mesma coisa que descansou no sétimo dia, ele faz a observação: Depois disso, de fato, ele está cansado, como um péssimo operário, que precisa de repouso para reanimar-se.[625] Pois ele nada sabe do dia do sábado e do descanso de Deus, que segue a conclusão da criação do mundo e dura durante todo o tempo do mundo, e no qual todos os que tiverem feito todas as suas obras em seus seis dias celebrarão festa com Deus e, por não terem omitido nenhum de seus deveres, ascenderão à contemplação das coisas celestiais e à assembleia dos seres justos e bem-aventurados.[626] Em seguida, como se as escrituras fizessem tal afirmação, ou como se nós mesmos falássemos de Deus como tendo descansado por fadiga, ele continua: Não está de acordo com a conveniência das coisas que o primeiro Deus sinta fadiga, ou trabalhe com as próprias mãos, ou dê ordens.[627] Celso diz que não está de acordo com a conveniência das coisas que o primeiro Deus sinta fadiga.[628] Ora, diríamos que nem Deus, o Verbo, sente fadiga, nem qualquer daqueles seres que pertencem a uma ordem de coisas melhor e mais divina, porque a sensação de fadiga é peculiar àqueles que estão no corpo.[629] Podes examinar se isso é verdadeiro daqueles que possuem corpo de qualquer espécie, ou daqueles que têm um corpo terreno, ou um pouco melhor do que este.[630] Mas também não é consistente com a conveniência das coisas que o primeiro Deus trabalhe com as próprias mãos.[631] Se entendes literalmente as palavras trabalhar com as próprias mãos, então elas não se aplicam nem ao segundo Deus, nem a qualquer outro ser participante da divindade.[632] Mas suponhamos que sejam ditas em sentido impróprio e figurado, de modo que possamos traduzir de forma figurada as seguintes expressões: O firmamento mostra a obra de suas mãos, e os céus são obra de tuas mãos, e quaisquer outras frases semelhantes, no que diz respeito às mãos e membros da Deidade.[633] Onde está, então, o absurdo nas palavras Deus assim trabalhar com as próprias mãos?[634] E, assim como não há absurdo em Deus assim trabalhar, também não há em ele emitir ordens, de modo que o que é feito por sua ordem seja belo e louvável, porque foi Deus quem mandou que fosse feito.[635] Celso, novamente, tendo talvez entendido mal as palavras: Porque a boca do Senhor o disse, ou talvez porque alguns indivíduos ignorantes se aventuraram temerariamente a explicar tais coisas, e não entendendo, além disso, segundo quais princípios partes nomeadas segundo os membros do corpo são atribuídas aos atributos de Deus, afirma: Ele não tem nem boca nem voz.[636] Verdadeiramente, de fato, Deus não pode ter voz, se voz é uma concussão do ar, ou um golpe no ar, ou uma espécie de ar, ou qualquer outra definição que os peritos nessas matérias possam dar à voz.[637] Mas aquilo que é chamado voz de Deus é dito ter sido visto pelo povo na passagem: E todo o povo viu a voz de Deus, sendo a palavra viu tomada, conforme o costume da escritura, em sentido espiritual.[638] Além disso, ele alega que Deus nada possui daquilo de que temos conhecimento, mas não indica de que coisas temos conhecimento.[639] Se ele quer dizer membros, concordamos com ele, entendendo as coisas de que temos conhecimento como aquelas chamadas corpóreas e geralmente assim denominadas.[640] Mas, se devemos entender as palavras de que temos conhecimento em sentido universal, então há muitas coisas de que temos conhecimento e que podem ser atribuídas a Deus, pois ele possui virtude, bem-aventurança e divindade.[641] Se, porém, damos um sentido mais elevado às palavras de que temos conhecimento, já que tudo o que conhecemos é inferior a Deus, não há absurdo em admitirmos também que Deus não possui nenhuma dessas coisas de que temos conhecimento.[642] Pois os atributos que pertencem a Deus são muito superiores a todas as coisas com as quais não apenas a natureza do homem, mas até mesmo a daqueles que se elevaram muito acima dela, está familiarizada.[643] E, se ele tivesse lido os escritos dos profetas, com Davi dizendo de um lado: Tu és o mesmo, e Malaquias de outro: Eu sou o Senhor e não mudo, teria observado que nenhum de nós afirma haver qualquer mudança em Deus, seja em ato, seja em pensamento.[644] Pois, permanecendo o mesmo, ele administra as coisas mutáveis de acordo com a sua natureza, e sua palavra escolhe encarregar-se dessa administração.[645] Celso, não observando a diferença entre segundo a imagem de Deus e imagem de Deus, afirma em seguida que o primogênito de toda criatura é a imagem de Deus, o próprio Verbo, a própria Verdade e também a própria Sabedoria, sendo a imagem de sua bondade, ao passo que o homem foi criado segundo a imagem de Deus.[646] Além disso, que todo homem cuja cabeça é Cristo é a imagem e glória de Deus.[647] E, mais ainda, não observando a qual das características da humanidade pertence a expressão segundo a imagem de Deus, e que ela consiste numa natureza que nunca teve, nem mais tem, o velho homem com suas obras, sendo chamada segundo a imagem daquele que a criou, pelo fato de não possuir essas qualidades, ele sustenta: Nem fez ele o homem sua imagem, pois Deus não é tal qual ele, nem semelhante a qualquer outra espécie de ser visível.[648] É possível supor que o elemento que está segundo a imagem de Deus exista na parte inferior, quero dizer, o corpo, de um ser composto como o homem, porque Celso explicou assim o ter sido feito segundo a imagem de Deus?[649] Pois, se aquilo que está segundo a imagem de Deus estiver somente no corpo, a parte melhor, a alma, terá sido privada daquilo que está segundo a sua imagem, e essa distinção existiria no corpo corruptível, afirmação que nenhum de nós faz.[650] Mas, se aquilo que está segundo a imagem de Deus estiver em ambos juntos, então Deus necessariamente deve ser um ser composto e consistir, por assim dizer, de alma e corpo, para que o elemento que está segundo a imagem de Deus, a parte melhor, esteja na alma, enquanto a parte inferior, aquela segundo o corpo, esteja no corpo, afirmação, novamente, que nenhum de nós faz.[651] Resta, portanto, que aquilo que está segundo a imagem de Deus seja entendido como estando em nosso homem interior, o qual também é renovado, e cuja natureza é ser segundo a imagem daquele que o criou, quando um homem se torna perfeito, como nosso Pai celeste é perfeito, e ouve o mandamento: Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo, e aprendendo o preceito: Sede imitadores de Deus, recebe em sua alma virtuosa os traços da imagem de Deus.[652] O corpo, além disso, daquele que possui tal alma é templo de Deus, e na alma Deus habita, porque ela foi feita segundo a sua imagem.[653] Celso, mais uma vez, reúne certo número de afirmações que apresenta como se fossem admissões de nossa parte, mas que nenhum cristão inteligente aceitaria.[654] Pois nenhum de nós afirma que Deus participe de forma ou cor.[655] Nem participa sequer de movimento, porque permanece firme, e sua natureza é permanente, e convida também o homem justo a fazer o mesmo, dizendo: Mas tu, fica aqui comigo.[656] E, se certas expressões indicam uma espécie de movimento, por assim dizer, da parte dele, como esta: Ouviram a voz do Senhor Deus andando no jardim à viração do dia, devemos entendê-las desta maneira: é pelos pecadores que Deus é entendido como se movesse, ou assim como entendemos o sono de Deus, tomado em sentido figurado, ou sua ira, ou qualquer outro atributo semelhante.[657] Mas Deus não participa nem mesmo de substância.[658] Pois é ele quem é participado pelos outros, e não ele quem participa deles, e é participado por aqueles que têm o Espírito de Deus.[659] Nosso Salvador também não participa da justiça, mas, sendo ele próprio justiça, é participado pelos justos.[660] Uma discussão sobre substância seria prolongada e difícil, especialmente se a questão fosse saber se aquilo que é permanente e imaterial é substância propriamente dita, de modo que se verificaria que Deus está além da substância, comunicando de sua substância, por meio de ofício e poder, àqueles a quem se comunica por seu Verbo, como faz ao próprio Verbo.[661] Ou mesmo, se ele é substância, ainda assim se diz que é por natureza invisível, nestas palavras a respeito de nosso Salvador, que é chamado imagem do Deus invisível, enquanto pelo termo invisível se indica que ele é imaterial.[662] Também é questão para investigação se o unigênito e primogênito de toda criação deve ser chamado substância das substâncias, ideia das ideias e princípio de todas as coisas, enquanto acima de tudo está seu Pai e Deus.[663] Celso prossegue dizendo de Deus que dele são todas as coisas, abandonando, ao falar assim, não sei como, todos os seus próprios princípios, ao passo que nosso Paulo declara que dele, por ele e para ele são todas as coisas, mostrando que ele é o princípio da substância de todas as coisas pelas palavras dele, o vínculo de sua subsistência pela expressão por ele, e seu fim final pelos termos para ele.[664] Na verdade, Deus não é de nada.[665] Mas, quando Celso acrescenta que ele não pode ser alcançado por palavra, faço uma distinção e digo que, se ele quer dizer a palavra que está em nós, seja a palavra concebida na mente, seja a palavra pronunciada, eu também admito que Deus não pode ser alcançado por palavra.[666] Se, porém, atentarmos para a passagem: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus, somos de opinião que Deus pode ser alcançado por este Verbo e é compreendido não apenas por ele, mas também por qualquer um a quem ele queira revelar o Pai.[667] E assim provaremos a falsidade da afirmação de Celso quando diz: Nem Deus pode ser alcançado por palavra.[668] A afirmação, além disso, de que ele não pode ser expresso por nome, requer ser tomada com distinção.[669] Se ele quer dizer, de fato, que não há palavra ou sinal que possa representar os atributos de Deus, a afirmação é verdadeira, já que há muitas qualidades que não podem ser indicadas por palavras.[670] Quem, por exemplo, poderia descrever em palavras a diferença entre a qualidade da doçura numa tâmara e numa figa?[671] E quem poderia distinguir e expor em palavras as qualidades peculiares de cada coisa individual?[672] Não é de admirar, então, se nesse sentido Deus não puder ser descrito por nome.[673] Mas, se tomas a frase no sentido de que é possível representar por palavras algo dos atributos de Deus, a fim de conduzir o ouvinte pela mão, por assim dizer, e assim capacitá-lo a compreender algo de Deus, tanto quanto alcançável à natureza humana, então não há absurdo em dizer que ele pode ser descrito por nome.[674] Fazemos distinção semelhante a respeito da expressão: Pois ele não sofreu nada que possa ser transmitido por palavras.[675] É verdade que a Divindade está além de todo sofrimento.[676] E basta sobre esse ponto.[677] Vejamos também sua próxima afirmação, na qual ele introduz, por assim dizer, certa pessoa que, depois de ouvir o que foi dito, se expressa da seguinte maneira: Como, então, conhecerei a Deus?[678] E como aprenderei o caminho que conduz a ele?[679] E como mo mostrarás?[680] Porque agora, de fato, tu lanças trevas diante dos meus olhos, e eu nada vejo distintamente.[681] Então responde, por assim dizer, ao indivíduo assim perplexo, e pensa que atribui a razão pela qual trevas foram lançadas sobre os olhos daquele que pronunciou as palavras anteriores, ao afirmar que aqueles a quem alguém desejaria conduzir para fora das trevas para o brilho da luz, sendo incapazes de suportar seu esplendor, têm a força de sua visão afetada e ferida, e assim imaginam que foram atingidos por cegueira.[682] Em resposta a isso, diríamos que, de fato, todos aqueles que fixam o olhar sobre a obra má de pintores, moldadores e escultores, e não querem olhar para cima e ascender em pensamento de todas as coisas visíveis e sensíveis ao Criador de todas as coisas, que é luz, estão sentados nas trevas e nelas enraizados.[683] Enquanto, por outro lado, todo aquele que seguiu o resplendor do Verbo está na luz, aquele que mostrou de que ignorância, impiedade e falta de conhecimento das coisas divinas resultou o fato de esses objetos terem sido adorados em lugar de Deus, e que conduziu a alma daquele que deseja ser salvo ao Deus incriado, que está acima de todos.[684] Pois o povo que estava assentado em trevas, isto é, os gentios, viu uma grande luz, e para aqueles que estavam sentados na região e sombra da morte surgiu a luz, o Deus Jesus.[685] Nenhum cristão, portanto, daria a Celso, ou a qualquer acusador do Verbo divino, a resposta: Como conhecerei a Deus?[686] Pois cada um deles conhece Deus segundo sua capacidade.[687] E ninguém pergunta: Como aprenderei o caminho que conduz a ele?[688] Porque ouviu aquele que diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida, e provou, no curso da jornada, a felicidade que daí resulta.[689] E nem um único cristão diria a Celso: Como mo mostrarás?[690] A observação, de fato, era verdadeira, que Celso fez, de que qualquer um, ao ouvir suas palavras, responderia, vendo que suas palavras são palavras de trevas: Tu lanças trevas diante dos meus olhos.[691] Celso, na verdade, e os que são como ele, desejam lançar trevas diante dos nossos olhos.[692] Nós, porém, por meio da luz do Verbo, dispersamos as trevas de suas opiniões ímpias.[693] O cristão, de fato, poderia retrucar a Celso, que nada diz de distinto nem de verdadeiro: Não vejo nada de distinto em todas as tuas afirmações.[694] Não é, portanto, das trevas para o brilho da luz que Celso nos conduz.[695] Ao contrário, ele deseja transportar-nos da luz para as trevas, fazendo das trevas luz e da luz trevas, e expondo-se ao ai bem descrito pelo profeta Isaías desta maneira: Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal, que fazem das trevas luz e da luz trevas.[696] Mas nós, cujos olhos da alma foram abertos pelo Verbo e que vemos a diferença entre luz e trevas, preferimos de todo modo tomar nossa posição na luz e não queremos nada com as trevas.[697] A verdadeira luz, além disso, sendo dotada de vida, sabe a quem devem ser manifestados seus plenos esplendores e a quem sua luz, pois não exibe seu brilho por causa da fraqueza ainda existente nos olhos de quem a recebe.[698] E, se de algum modo devemos falar de visão afetada e ferida, que outros olhos diremos estar nessa condição senão os daquele que está envolvido na ignorância de Deus e é impedido por suas paixões de ver a verdade?[699] Os cristãos, porém, de modo algum consideram que são cegados pelas palavras de Celso, ou de qualquer outro que se oponha ao culto de Deus.[700] Mas aqueles que percebem estar cegados por seguirem multidões que erram e tribos daqueles que festejam a demônios, aproximem-se do Verbo, que pode conceder o dom da visão, para que, como aqueles pobres e cegos que se lançaram à beira do caminho e foram curados por Jesus porque lhe disseram: Filho de Davi, tem misericórdia de mim, também eles recebam misericórdia e recuperem sua visão, fresca e bela, como o Verbo de Deus pode criá-la.[701] Assim, se Celso nos perguntasse como pensamos conhecer a Deus e como seremos salvos por ele, responderíamos que o Verbo de Deus, que entrou naqueles que o buscam ou que o recebem quando ele aparece, é capaz de dar a conhecer e revelar o Pai, que não foi visto por ninguém antes do aparecimento do Verbo.[702] E quem mais é capaz de salvar e conduzir a alma do homem ao Deus de todas as coisas senão Deus, o Verbo, que, estando no princípio com Deus, fez-se carne por amor daqueles que haviam se apegado à carne e se tornado como carne, para que pudesse ser recebido por aqueles que não podiam contemplá-lo, visto que ele era o Verbo, estava com Deus e era Deus?[703] E, discursando em forma humana e anunciando-se como carne, chama para si aqueles que são carne, para que primeiramente os faça ser transformados segundo o Verbo que se fez carne e, depois, os conduza para cima, para contemplá-lo tal como era antes de tornar-se carne.[704] De modo que eles, recebendo esse benefício e ascendendo desde sua grande introdução a ele, que foi segundo a carne, digam: Ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, agora já não o conhecemos assim.[705] Portanto, ele se fez carne, e tendo-se feito carne, tabernaculou entre nós, não habitando fora de nós.[706] E, depois de tabernacular e habitar em nós, não continuou na forma em que primeiro se apresentou, mas fez-nos subir ao alto monte de sua palavra e mostrou-nos sua própria forma gloriosa e o esplendor de suas vestes.[707] E não somente sua própria forma, mas também a da lei espiritual, que é Moisés, visto em glória juntamente com Jesus.[708] Mostrou-nos, além disso, toda profecia, que não pereceu nem mesmo depois de sua encarnação, mas foi recebida ao céu, e cujo símbolo era Elias.[709] E aquele que contemplou essas coisas pôde dizer: Vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.[710] Celso, então, mostrou considerável ignorância na resposta imaginária à sua pergunta que põe em nossa boca: Como pensamos poder conhecer a Deus?[711] E: Como sabemos que seremos salvos por ele?[712] Pois nossa resposta é o que acabamos de expor.[713] Celso, porém, afirma que a resposta que damos se baseia em conjectura provável, admitindo que descreve nossa resposta nos seguintes termos: Visto que Deus é grande e difícil de ver, colocou o seu próprio Espírito num corpo semelhante ao nosso e o enviou para nós, para que pudéssemos ouvi-lo e conhecê-lo.[714] Mas o Deus e Pai de todas as coisas não é o único ser que é grande em nosso juízo, pois comunicou uma participação de si mesmo e de sua grandeza ao seu unigênito e primogênito de toda criatura, para que ele, sendo a imagem do Deus invisível, preservasse, até em sua grandeza, a imagem do Pai.[715] Pois não era possível existir uma imagem bem proporcionada, por assim dizer, e bela do Deus invisível, que ao mesmo tempo não preservasse a imagem de sua grandeza.[716] Deus, além disso, é em nosso juízo invisível, porque não é corpo, ao passo que pode ser visto por aqueles que veem com o coração, isto é, com o entendimento, não, porém, com qualquer espécie de coração, mas com um puro.[717] Pois é incompatível com a conveniência das coisas que um coração poluído contemple a Deus, porque aquilo que contemplaria dignamente o que é puro deve ser também puro.[718] Conceda-se, de fato, que Deus é difícil de ver, contudo ele não é o único ser assim.[719] Pois seu unigênito também é difícil de ver.[720] Porque Deus, o Verbo, é difícil de ver, e assim também sua Sabedoria, pela qual Deus criou todas as coisas.[721] Pois quem é capaz de ver a sabedoria que se manifesta em cada parte individual do sistema inteiro das coisas, e pela qual Deus criou cada coisa individual?[722] Não foi, então, porque Deus era difícil de ver que enviou seu Filho, Deus, para ser um objeto fácil de ver.[723] E porque Celso não entende isso, ele nos representou como se disséssemos: Porque Deus era difícil de ver, colocou o seu próprio Espírito num corpo semelhante ao nosso e o enviou para nós, para que pudéssemos ouvi-lo e conhecê-lo.[724] Ora, como afirmamos, o Filho também é difícil de ver, porque é Deus, o Verbo, por meio de quem todas as coisas foram feitas e que tabernaculou entre nós.[725] Se Celso, de fato, tivesse entendido nosso ensino a respeito do Espírito de Deus e soubesse que todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus, não teria devolvido a si mesmo a resposta que representa como vinda de nós, de que Deus colocou seu próprio Espírito num corpo e o enviou para nós.[726] Pois Deus está continuamente concedendo do seu próprio Espírito àqueles que são capazes de recebê-lo, embora não seja por via de divisão e separação que habita no coração dos dignos.[727] Nem o Espírito é, em nossa opinião, um corpo, assim como o fogo não é um corpo, do qual se diz a respeito de Deus na passagem: Nosso Deus é fogo consumidor.[728] Pois todas essas são expressões figuradas, empregadas para denotar a natureza dos seres inteligentes por meio de termos familiares e corpóreos.[729] Do mesmo modo também, se os pecados são chamados madeira, feno e palha, não sustentaremos que os pecados sejam corpóreos.[730] E, se as bênçãos são chamadas ouro, prata e pedras preciosas, não sustentaremos que as bênçãos sejam corpóreas.[731] Assim também, se se diz que Deus é um fogo que consome madeira, feno, palha e toda a substância do pecado, não o entenderemos como sendo corpo.[732] Do mesmo modo, não o entendemos como corpo se for chamado fogo.[733] Assim, se Deus é chamado espírito, não queremos dizer que ele seja corpo.[734] Pois é costume da escritura dar aos seres inteligentes os nomes de espíritos e coisas espirituais, em distinção daquelas que são objetos dos sentidos, como quando Paulo diz: Mas a nossa suficiência vem de Deus, que também nos fez aptos para ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito, porque a letra mata, mas o espírito vivifica, onde pela letra ele quer dizer aquela exposição da escritura que é aparente aos sentidos, ao passo que pelo espírito, aquilo que é objeto do entendimento.[735] O mesmo ocorre com a expressão: Deus é Espírito.[736] E porque os preceitos da lei eram obedecidos tanto por samaritanos quanto por judeus de modo corpóreo e literal, nosso Salvador disse à mulher samaritana: A hora vem em que nem em Jerusalém nem neste monte adorareis o Pai.[737] Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.[738] E por essas palavras ensinou aos homens que Deus deve ser adorado não na carne e com sacrifícios carnais, mas no espírito.[739] E ele será entendido como Espírito na proporção em que o culto que lhe é prestado o for em espírito e com entendimento.[740] Não é, porém, com imagens que devemos adorar o Pai, mas em verdade, que veio por Jesus Cristo, depois da entrega da lei por Moisés.[741] Pois, quando nos voltamos para o Senhor, e o Senhor é Espírito, ele remove o véu que está sobre o coração quando Moisés é lido.[742] Celso, portanto, por não entender a doutrina relativa ao Espírito de Deus, pois o homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura, nem pode conhecê-las, porque se discernem espiritualmente, tece uma trama conforme lhe agrada, imaginando que nós, ao chamar Deus de Espírito, em nada diferimos nisso dos estóicos entre os gregos, que sustentam que Deus é um Espírito difundido por todas as coisas e contendo todas as coisas em si mesmo.[743] Ora, a superintendência e a providência de Deus de fato se estendem por todas as coisas, mas não da maneira como o espírito o faz segundo os estóicos.[744] A providência, de fato, contém todas as coisas que são objeto dela e a todas compreende, mas não como um corpo continente inclui seu conteúdo, porque também este é corpo, e sim como um poder divino compreende aquilo que contém.[745] Segundo os filósofos do Pórtico, de fato, que afirmam que os princípios são corpóreos e que, por isso, tornam todas as coisas perecíveis, e que se atrevem até mesmo a tornar perecível o Deus de todas as coisas, o próprio Verbo de Deus, que desce até aos mais baixos dentre os homens, nada mais seria, se isso não lhes parecesse incongruência demasiado grosseira, senão um espírito corpóreo.[746] Ao passo que, em nossa opinião, nós que nos esforçamos por demonstrar que a alma racional é superior a toda natureza corpórea e que é substância invisível e incorpórea, Deus, o Verbo, por meio de quem todas as coisas foram feitas, que veio para que todas as coisas fossem feitas pelo Verbo, não apenas aos homens, mas até ao que é considerado o mais baixo entre as coisas, sob o domínio apenas da natureza, não seria corpo algum.[747] Os estóicos, então, podem consignar todas as coisas à destruição pelo fogo.[748] Nós, porém, não conhecemos qualquer substância incorpórea que seja destrutível pelo fogo, nem cremos que a alma do homem, ou a substância dos anjos, ou dos tronos, ou das dominações, ou dos principados, ou das potestades, possa ser dissolvida pelo fogo.[749] É, portanto, em vão que Celso afirma, como alguém que não conhece a natureza do Espírito de Deus, que, sendo o Filho de Deus, que existiu em corpo humano, um Espírito, esse mesmo Filho de Deus não seria imortal.[750] Em seguida, ele se torna confuso em suas afirmações, como se houvesse alguns de nós que não admitissem que Deus é Espírito, mas sustentassem isso apenas a respeito de seu Filho, e pensa poder responder-nos dizendo que não existe nenhum tipo de espírito que dure para sempre.[751] Isso é muito semelhante a se, quando chamamos Deus de fogo consumidor, ele dissesse que não existe nenhum tipo de fogo que dure para sempre, sem observar o sentido em que dizemos que nosso Deus é fogo e quais são as coisas que ele consome, isto é, pecados e perversidade.[752] Pois convém a um Deus de bondade, depois que cada indivíduo mostrou por seus esforços que espécie de combatente foi, consumir o vício pelo fogo de seus castigos.[753] Em seguida, passa a supor aquilo que não sustentamos, que Deus necessariamente tenha entregado o espírito, do que também se seguiria que Jesus não poderia ter ressuscitado de novo com seu corpo.[754] Pois Deus não teria recebido de volta o espírito que havia entregue depois de ele ter sido manchado pelo contato com o corpo.[755] É tolice, porém, respondermos como se fossem nossas afirmações que nunca foram feitas por nós.[756] Ele prossegue repetindo-se e, depois de dizer muito do que já dissera antes, e de ridicularizar o nascimento de Deus de uma virgem, ao qual já respondemos o melhor que pudemos, acrescenta o seguinte: Se Deus tivesse querido enviar de si mesmo o seu Espírito, que necessidade havia de insuflá-lo no ventre de uma mulher?[757] Pois, como alguém que já sabia formar homens, poderia também ter moldado um corpo para essa pessoa, sem lançar o seu próprio Espírito em tanta poluição.[758] E desse modo ele não teria sido recebido com incredulidade, se tivesse derivado sua existência imediatamente do alto.[759] Ele fez essas observações porque não conhece o nascimento puro e virginal, desacompanhado de qualquer corrupção, daquele corpo que deveria servir à salvação dos homens.[760] Pois, citando as afirmações dos estóicos e fingindo não conhecer a doutrina sobre as coisas indiferentes, pensa que a natureza divina foi lançada em meio à poluição e manchada, seja por estar no corpo de uma mulher até que um corpo se formasse ao seu redor, seja por assumir um corpo.[761] E nisso age como aqueles que imaginam que os raios do sol são poluídos pelo esterco e por corpos fétidos, e não permanecem puros em meio a tais coisas.[762] Se, porém, segundo a visão de Celso, o corpo de Jesus tivesse sido moldado sem geração, aqueles que contemplassem o corpo teriam crido de imediato que ele não fora formado por geração.[763] E, no entanto, um objeto, quando visto, não indica ao mesmo tempo a natureza daquilo de que derivou sua origem.[764] Suponhamos, por exemplo, que houvesse um mel colocado diante de alguém que não tivesse sido fabricado por abelhas.[765] Ninguém poderia dizer, pelo gosto ou pela aparência, que não era obra delas, porque o mel que vem das abelhas não faz conhecer sua origem pelos sentidos, mas somente a experiência pode dizer que não procede delas.[766] Do mesmo modo, também a experiência ensina que o vinho vem da videira, pois o gosto não nos capacita a distinguir o vinho que vem da videira.[767] Da mesma maneira, portanto, o corpo visível não revela o modo de sua existência.[768] E serás induzido a aceitar essa visão ao considerar os corpos celestes, cuja existência e esplendor percebemos quando os contemplamos, e contudo, presumo eu, sua aparência não nos sugere se são criados ou incriados.[769] E, por conseguinte, existiram opiniões diferentes a esse respeito.[770] E, no entanto, aqueles que dizem que são criados não concordam entre si quanto ao modo de sua criação, pois sua aparência não o sugere, embora a força da razão possa ter descoberto que são criados e como sua criação foi efetuada.[771] Depois disso, ele retorna ao tema das opiniões de Márcion, tendo já falado frequentemente delas, e expõe algumas corretamente, enquanto outras entendeu mal.[772] Estas, porém, não é necessário que respondamos ou refutemos.[773] Novamente, depois disso, apresenta os vários argumentos que podem ser levantados em favor de Márcion e também contra ele, enumerando quais são as opiniões que o isentam das acusações e quais o expõem a elas.[774] E quando deseja sustentar a afirmação segundo a qual Jesus foi objeto de profecia, a fim de fundar uma acusação contra Márcion e seus seguidores, pergunta distintamente: Como poderia aquele que foi punido de tal maneira ser mostrado como Filho de Deus, a não ser que essas coisas tivessem sido preditas a seu respeito?[775] Em seguida passa a gracejar e, como é seu costume, a derramar ridículo sobre o tema, introduzindo dois filhos de Deus, um o filho do Criador e o outro o filho do deus de Márcion.[776] E retrata seus combates singulares, dizendo que as teomaquias dos Pais são como batalhas entre codornizes, ou que os Pais, tornando-se inúteis por causa da idade e caindo em senilidade, não se metem de modo algum uns com os outros, mas deixam seus filhos lutarem entre si.[777] A observação que fez anteriormente voltaremos contra ele mesmo: Que velha não teria vergonha de embalar uma criança com tais histórias como as que ele inseriu na obra que intitula Um Discurso Verdadeiro?[778] Pois, quando deveria aplicar-se seriamente à argumentação, deixa-a de lado e se entrega à zombaria e à bufonaria, imaginando estar escrevendo mimos ou versos satíricos.[779] Não percebe que tal método de procedimento frustra seu propósito, que é fazer-nos abandonar o cristianismo e aderir às suas opiniões, as quais, talvez, se tivessem sido expostas com algum grau de gravidade, pareceriam mais aptas a convencer.[780] Ao passo que, como ele continua a ridicularizar, zombar e fazer-se de bufão, respondemos que é porque não possui argumento de peso, pois tal argumento ele nem tinha nem poderia compreender, que se entregou a tamanha tagarelice.[781] Às observações precedentes ele acrescenta o seguinte: Visto que um Espírito divino habitava o corpo de Jesus, certamente ele devia ser diferente dos outros seres no que diz respeito a grandeza, ou beleza, ou força, ou voz, ou imponência, ou persuasão.[782] Pois é impossível que aquele a quem foi comunicada alguma qualidade divina acima dos outros seres não diferisse dos demais.[783] Ao passo que esta pessoa não diferia em nada de outra, mas era, como eles relatam, pequena, mal-apessoada e ignóbil.[784] Ora, é evidente por essas palavras que, quando Celso deseja levantar acusação contra Jesus, aduz os escritos sagrados, como alguém que acreditava serem escritos aparentemente aptos a oferecer ocasião para uma acusação contra ele.[785] Mas sempre que, nesses mesmos escritos, pareceriam ser feitas afirmações opostas às acusações que levanta, finge nem sequer conhecê-las.[786] Admite-se, de fato, que estejam registrados alguns enunciados a respeito de o corpo de Jesus ser sem beleza, mas não, contudo, ignóbil, como foi dito, nem há qualquer evidência certa de que fosse pequeno.[787] A linguagem de Isaías é a seguinte, o qual profetizou a respeito dele que viria e visitaria a multidão não com beleza de forma, nem com qualquer formosura excedente: Senhor, quem creu em nossa pregação, e a quem foi revelado o braço do Senhor?[788] Ele foi anunciado diante dele como criança, como raiz em terra seca.[789] Não tem forma nem glória, e nós o vimos, e não tinha forma nem beleza, mas sua forma era sem honra e inferior à dos filhos dos homens.[790] Essas passagens, então, Celso ouviu, porque pensou que lhe eram úteis para levantar acusação contra Jesus.[791] Mas não prestou atenção às palavras do quadragésimo quinto salmo, e por que ali se diz: Cinge a tua espada sobre a coxa, ó poderosíssimo, com tua formosura e tua beleza, e segue, prospera e reina.[792] Suponhamos, porém, que ele não tivesse lido a profecia, ou que a tivesse lido, mas tivesse sido arrastado por aqueles que a interpretam mal como não sendo dita de Jesus Cristo.[793] Que tem ele a dizer do evangelho, nas narrativas do qual Jesus subiu a um alto monte, foi transfigurado diante dos discípulos e foi visto em glória, quando tanto Moisés quanto Elias, vistos em glória, falavam do êxodo que ele estava para cumprir em Jerusalém?[794] Ou do caso em que o profeta diz: Nós o vimos, e não tinha forma nem beleza, e assim por diante?[795] E Celso aceita essa profecia como se referisse a Jesus, estando cegado ao aceitá-la, e não vendo que é grande prova de que o Jesus que apareceu sem forma era o Filho de Deus o fato de sua própria aparência ter sido feita objeto de profecia muitos anos antes do seu nascimento.[796] Mas, se outro profeta fala de sua formosura e beleza, então ele já não aceita a profecia como se referisse a Cristo.[797] E se se pudesse verificar claramente pelos evangelhos que ele não tinha forma nem beleza, mas que sua aparência era sem honra e inferior à dos filhos dos homens, poderia dizer-se que não foi com referência aos escritos proféticos, mas aos evangelhos, que Celso fez suas observações.[798] Mas agora, como nem os evangelhos nem os escritos apostólicos indicam que ele não tinha forma nem beleza, é evidente que devemos aceitar como verdadeira a declaração dos profetas a respeito de Cristo, e isso impedirá que a acusação contra Jesus seja levantada.[799] Mas, novamente, como não observou aquele que disse: Visto que um Espírito divino habitava o corpo de Jesus, certamente ele devia ser diferente dos outros seres em grandeza, ou voz, ou força, ou imponência, ou persuasão, a relação mutável de seu corpo segundo a capacidade dos espectadores, e portanto sua utilidade correspondente, visto que aparecia a cada um de uma natureza tal qual era necessário que a contemplasse?[800] Além disso, não é objeto de espanto que a matéria, a qual por natureza é suscetível de alteração e mudança e de ser transformada em qualquer coisa que o Criador queira, e é capaz de receber todas as qualidades que o Artífice deseja, possua em certo momento uma qualidade segundo a qual se diz: Não tinha forma nem beleza, e em outro uma tão gloriosa, majestosa e maravilhosa, que os espectadores de tão excedente formosura, três discípulos que haviam subido o monte com Jesus, caíssem sobre seus rostos.[801] Ele dirá, porém, que essas são invenções e em nada diferentes de mitos, assim como também as outras maravilhas relatadas de Jesus, objeção à qual respondemos mais longamente no que precede.[802] Mas há também algo místico nessa doutrina, que anuncia que as aparências variadas de Jesus devem ser referidas à natureza do Verbo divino, o qual não se mostra da mesma maneira à multidão como se mostra àqueles que são capazes de segui-lo ao alto monte que mencionamos.[803] Pois àqueles que ainda permanecem abaixo e ainda não estão preparados para subir, o Verbo não tem forma nem beleza, porque para tais pessoas sua forma é sem honra e inferior às palavras proferidas pelos homens, que figuradamente se chamam filhos dos homens.[804] Pois poderíamos dizer que as palavras dos filósofos, que são filhos dos homens, parecem muito mais belas do que o Verbo de Deus, que é proclamado à multidão e que também exibe o que se chama a loucura da pregação.[805] E, por causa dessa aparente loucura da pregação, aqueles que olham apenas para isso dizem: Nós o vimos, mas ele não tinha forma nem beleza.[806] Àqueles, porém, que receberam poder para segui-lo, a fim de acompanhá-lo mesmo quando sobe ao alto monte, ele tem uma aparência mais divina, a qual contemplam se acontecer de haver entre eles um Pedro, que tenha recebido dentro de si o edifício da igreja fundado sobre o Verbo, e tenha adquirido tal hábito de bondade que nenhuma das portas do Hades prevalecerá contra ele, tendo sido exaltado pelo Verbo desde as portas da morte para que publique os louvores de Deus nas portas da filha de Sião.[807] E também quaisquer outros que tenham derivado seu nascimento de uma pregação impressionante e que em nada sejam inferiores aos filhos do trovão.[808] Mas como podem Celso, os inimigos do Verbo divino, e aqueles que não examinaram as doutrinas do cristianismo no espírito da verdade, conhecer o significado das diferentes aparências de Jesus?[809] E refiro-me também às diferentes etapas de sua vida e a quaisquer ações por ele realizadas antes de seus sofrimentos e depois de sua ressurreição dentre os mortos.[810] Celso faz em seguida certas observações da seguinte natureza: Novamente, se Deus, como Júpiter na comédia, ao despertar de um longo sono desejasse resgatar a raça humana do mal, por que enviou esse Espírito de que falais a um canto da terra?[811] Deveria tê-lo insuflado igualmente em muitos corpos e enviado a todo o mundo.[812] Ora, o poeta cômico, para causar riso no teatro, escreveu que Júpiter, depois de despertar, enviou Mercúrio aos atenienses e lacedemônios.[813] Mas não pensais que fizestes o Filho de Deus ainda mais ridículo ao enviá-lo aos judeus?[814] Observa em tal linguagem o caráter irreverente de Celso, que, diferente de um filósofo, toma o escritor de uma comédia, cujo ofício é fazer rir, e compara nosso Deus, o Criador de todas as coisas, ao ser que, como representado na peça, ao despertar envia Mercúrio em missão.[815] Declaramos, de fato, no que precede, que não foi como se despertasse de um longo sono que Deus enviou Jesus à raça humana, Jesus que agora, por boas razões, cumpriu a economia de sua encarnação, mas que sempre conferiu benefícios ao gênero humano.[816] Pois jamais foi praticado entre os homens algum ato nobre em que o Verbo divino não tenha visitado as almas daqueles que eram capazes, ainda que por pouco tempo, de admitir tais operações do Verbo divino.[817] Além disso, a vinda de Jesus aparentemente a um canto da terra tinha boas razões, pois era necessário que aquele que era objeto de profecia aparecesse entre aqueles que haviam conhecido a doutrina de um só Deus, que liam os escritos de seus profetas e que haviam chegado a conhecer o anúncio de Cristo, e que viesse a eles num tempo em que o Verbo estava para difundir-se de um canto por todo o mundo.[818] E, portanto, não havia necessidade de que houvesse em toda parte muitos corpos e muitos espíritos como Jesus, para que o mundo inteiro dos homens fosse iluminado pelo Verbo de Deus.[819] Pois um só Verbo era suficiente, tendo surgido como Sol da justiça, para enviar de Judeia seus raios vindouros à alma de todos os que estivessem dispostos a recebê-lo.[820] Mas, se alguém deseja ver muitos corpos cheios de um Espírito divino, semelhantes ao único Cristo, ministrando à salvação dos homens em toda parte, observe aqueles que ensinam o evangelho de Jesus em todas as terras com sã doutrina e retidão de vida, e que eles mesmos são chamados cristos pelas santas escrituras na passagem: Não toqueis nos meus ungidos e não façais mal aos meus profetas.[821] Pois, assim como ouvimos que o Anticristo vem, e ainda assim aprendemos que há muitos anticristos no mundo, do mesmo modo, sabendo que Cristo veio, vemos que, por causa dele, há muitos cristos no mundo, que, como ele, amaram a justiça e odiaram a iniquidade e, portanto, Deus, o Deus de Cristo, também os ungiu com o óleo da alegria.[822] Mas, visto que ele amou a justiça e odiou a iniquidade acima daqueles que eram seus companheiros, também obteve as primícias de sua unção e, se assim devemos chamar, a unção inteira do óleo da alegria.[823] Enquanto aqueles que eram seus companheiros compartilharam também de sua unção, em proporção à capacidade individual de cada um.[824] Portanto, sendo Cristo a cabeça da igreja, de modo que Cristo e a igreja formam um só corpo, o ungüento desceu da cabeça para a barba de Arão, símbolos do homem perfeito, e esse ungüento, em sua descida, alcançou até a orla de sua veste.[825] Esta é minha resposta à linguagem irreverente de Celso quando diz: Ele deveria ter insuflado o seu Espírito igualmente em muitos corpos e tê-lo enviado por todo o mundo.[826] O poeta cômico, de fato, para fazer rir, representou Júpiter dormindo e despertando do sono, e enviando Mercúrio aos gregos.[827] Mas o Verbo, sabendo que a natureza de Deus não é afetada pelo sono, pode ensinar-nos que Deus administra, no tempo devido e como a reta razão exige, os assuntos do mundo.[828] Não é, porém, motivo de surpresa que, por causa da grandeza e incompreensibilidade dos juízos divinos, pessoas ignorantes se enganem, e Celso entre elas.[829] Nada há, portanto, de ridículo no fato de o Filho de Deus ter sido enviado aos judeus, entre os quais haviam aparecido os profetas, para que, fazendo um começo entre eles em forma corpórea, ele pudesse erguer-se com força e poder sobre um mundo de almas que já não desejava permanecer abandonado por Deus.[830] Depois disso, pareceu apropriado a Celso chamar os caldeus de nação muito divinamente inspirada desde os tempos mais remotos, dos quais o sistema enganoso da astrologia se difundiu entre os homens.[831] Mais ainda, ele coloca os magos na mesma categoria, dos quais a arte da magia derivou seu nome e foi transmitida a outras nações para corrupção e destruição dos que a empregam.[832] Na parte anterior desta obra mencionamos que, na opinião até do próprio Celso, os egípcios também eram culpados de erro, porque tinham, de fato, recintos solenes ao redor daquilo que consideravam seus templos, enquanto dentro deles não havia nada além de macacos, crocodilos, cabras, víboras ou algum outro animal.[833] Mas na presente ocasião agrada-lhe falar do povo egípcio também como o mais divinamente inspirado, e isso desde os tempos mais remotos, talvez porque fizeram guerra contra os judeus desde cedo.[834] Os persas, além disso, que se casam com as próprias mães e mantêm relações com as próprias filhas, são, na opinião de Celso, uma raça inspirada.[835] Mais ainda, também os indianos o são, alguns dos quais, anteriormente, ele mencionara como comedores de carne humana.[836] Aos judeus, porém, especialmente aos dos tempos antigos, que não praticam nenhuma dessas coisas, ele não apenas recusou o nome de inspirados, mas declarou que pereceriam imediatamente.[837] E essa predição a seu respeito ele pronunciou, sem dúvida como dotado de poder profético, sem observar que toda a história dos judeus e sua antiga e venerável constituição foram administradas por Deus, e que por sua queda veio a salvação aos gentios, e que sua queda é a riqueza do mundo, e sua diminuição a riqueza dos gentios, até que entre a plenitude dos gentios, para que depois disso todo Israel, a quem Celso não conhece, seja salvo.[838] Não entendo, porém, como ele pode dizer a respeito de Deus que, embora conhecesse todas as coisas, não sabia disto, que estava enviando seu Filho entre homens maus, que seriam culpados de pecado e também lhe imporiam castigo.[839] Certamente ele parece, neste caso, ter esquecido que todos os sofrimentos que Jesus haveria de suportar foram previstos pelo Espírito de Deus e preditos por seus profetas, do que não se segue que Deus não soubesse que estava enviando seu Filho entre homens maus e pecadores, que também lhe imporiam castigo.[840] Ele acrescenta imediatamente, contudo, que nossa defesa neste ponto é que todas essas coisas foram preditas.[841] Mas, como nosso sexto livro já alcançou proporções suficientes, faremos aqui uma parada e, querendo Deus, começaremos o argumento do sétimo, no qual consideraremos as razões que ele julga fornecer resposta à nossa afirmação de que tudo a respeito de Jesus foi predito pelos profetas.[842] E como essas razões são numerosas e exigem resposta extensa, não quisemos nem abreviar o assunto em consequência do tamanho do presente livro, nem, para evitar isso, fazer este sexto livro crescer além de suas devidas proporções.

