[1] Sei que alguns tentarão dizer que, até mesmo segundo as declarações de nossas próprias escrituras, Deus é um corpo, porque encontram nos escritos de Moisés a afirmação de que nosso Deus é fogo consumidor; e no evangelho segundo João, que Deus é Espírito, e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade. Fogo e espírito, segundo eles, não devem ser considerados senão como um corpo. Ora, eu gostaria de perguntar a essas pessoas o que têm a dizer a respeito daquela passagem em que se declara que Deus é luz, como João escreve em sua epístola: Deus é luz, e nele não há treva alguma. Verdadeiramente, ele é aquela luz que ilumina todo o entendimento dos que são capazes de receber a verdade, como se diz no trigésimo sexto salmo: Na tua luz veremos a luz. Pois que outra luz de Deus se pode nomear, na qual alguém veja luz, senão uma influência de Deus, pela qual o homem, sendo iluminado, ou vê plenamente a verdade de todas as coisas, ou chega a conhecer o próprio Deus, que é chamado de a verdade? Tal é o sentido da expressão: Na tua luz veremos a luz, isto é, em tua palavra e sabedoria, que é teu Filho, nele mesmo veremos a ti, o Pai. Porque ele é chamado luz, dever-se-á supor que tenha alguma semelhança com a luz do sol? Ou como haveria o mínimo fundamento para imaginar que, daquela luz corpórea, alguém pudesse derivar a causa do conhecimento e chegar ao entendimento da verdade?
[2] Se, então, eles concordam com nossa afirmação, que a própria razão demonstrou, a respeito da natureza da luz, e reconhecem que Deus não pode ser entendido como um corpo no sentido em que a luz o é, raciocínio semelhante valerá para a expressão fogo consumidor. Pois o que Deus consumirá, no que diz respeito ao fato de ser fogo? Dever-se-á pensar que ele consome substância material, como madeira, feno ou palha? E, nessa visão, o que poderia ser chamado digno da glória de Deus, se ele fosse um fogo que consome materiais dessa espécie? Mas reflitamos que Deus realmente consome e destrói totalmente: ele consome pensamentos maus, ações perversas e desejos pecaminosos, quando estes encontram entrada nas mentes dos crentes; e, habitando com seu Filho nas almas tornadas capazes de receber sua palavra e sua sabedoria, segundo sua própria declaração: Eu e o Pai viremos e faremos nele morada. Ele as faz, depois que todos os seus vícios e paixões foram consumidos, um templo santo, digno dele mesmo. Aqueles, além disso, que por causa da expressão Deus é Espírito pensam que ele é um corpo, devem ser respondidos, creio eu, da seguinte maneira. É costume da escritura sagrada, quando deseja designar algo oposto a este corpo grosseiro e sólido, chamá-lo de espírito, como na expressão: A letra mata, mas o espírito vivifica; onde não pode haver dúvida de que por letra se entendem coisas corpóreas, e por espírito, coisas intelectuais, que também chamamos espirituais. O apóstolo, além disso, diz: Até o dia de hoje, quando Moisés é lido, o véu está sobre o coração deles; todavia, quando se converter ao Senhor, o véu será retirado; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Pois enquanto alguém não se converte a uma compreensão espiritual, um véu é colocado sobre seu coração, e com esse véu, isto é, com uma compreensão grosseira, a própria escritura é dita ou considerada coberta. E este é o sentido da afirmação de que um véu foi posto sobre o rosto de Moisés quando ele falava ao povo, isto é, quando a lei era lida publicamente em voz alta. Mas se nos voltarmos para o Senhor, onde também está a palavra de Deus, e onde o Espírito Santo revela o conhecimento espiritual, então o véu é retirado, e com rosto descoberto contemplaremos a glória do Senhor nas santas escrituras.
[3] E, visto que muitos santos participam do Espírito Santo, ele não pode, por isso, ser entendido como um corpo, que, sendo dividido em partes corpóreas, é compartilhado por cada um dos santos; antes, ele é manifestamente um poder santificador, do qual se diz que participam todos os que foram considerados dignos de ser santificados por sua graça. E, para que o que dizemos seja mais facilmente compreendido, tomemos uma ilustração a partir de coisas muito dessemelhantes. Há muitas pessoas que participam da ciência ou arte da medicina; devemos, por isso, supor que aqueles que o fazem tomam para si partículas de algum corpo chamado medicina, colocado diante deles, e assim participam dela? Ou não devemos antes entender que todos os que, com mente ágil e treinada, chegam a compreender a própria arte e disciplina podem ser chamados participantes da arte de curar? Mas estes exemplos não devem ser considerados inteiramente paralelos na comparação entre a medicina e o Espírito Santo, pois foram apresentados apenas para estabelecer que aquilo de que muitos indivíduos possuem participação não deve necessariamente ser considerado um corpo. Pois o Espírito Santo difere amplamente do método ou ciência da medicina, no sentido de que o Espírito Santo é uma existência intelectual e subsiste e existe de maneira própria, ao passo que a medicina não é de modo algum dessa natureza.
[4] Mas devemos passar à própria linguagem do evangelho, em que se declara que Deus é Espírito, e onde temos de mostrar como isso deve ser entendido de modo concorde com o que afirmamos. Investiguemos, pois, em que ocasião estas palavras foram ditas pelo Salvador, diante de quem ele as proferiu, e qual era o assunto em questão. Encontramos, sem dúvida alguma, que ele falou essas palavras à mulher samaritana, dizendo-lhe, ela que pensava, de acordo com a visão samaritana, que Deus devia ser adorado no monte Gerizim, que Deus é Espírito. Pois a mulher samaritana, crendo que ele fosse judeu, perguntava-lhe se Deus devia ser adorado em Jerusalém ou naquele monte; e suas palavras foram: Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. A essa opinião da mulher samaritana, portanto, que imaginava que Deus era mais ou menos corretamente adorado, conforme os privilégios de diferentes lugares, quer pelos judeus em Jerusalém, quer pelos samaritanos no monte Gerizim, o Salvador respondeu que aquele que quisesse seguir o Senhor deveria deixar de lado toda preferência por lugares particulares, e assim se expressou: Vem a hora em que nem em Jerusalém nem neste monte os verdadeiros adoradores adorarão o Pai. Deus é Espírito, e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade. E observe como, de modo lógico, ele uniu espírito e verdade: chamou Deus de Espírito para distingui-lo dos corpos; e o chamou de verdade para distingui-lo de sombra ou imagem. Pois os que adoravam em Jerusalém não adoravam a Deus nem em verdade nem em espírito, estando sujeitos à sombra ou imagem das coisas celestiais; e o mesmo ocorria com os que adoravam no monte Gerizim.
[5] Tendo refutado, então, da melhor maneira que pudemos, toda noção que pudesse sugerir que devamos pensar em Deus como de algum modo corpóreo, prosseguimos dizendo que, segundo a verdade estrita, Deus é incompreensível e incapaz de ser medido. Pois, qualquer que seja o conhecimento que possamos obter de Deus, seja pela percepção, seja pela reflexão, devemos necessariamente crer que ele é, por muitos graus, muito melhor do que aquilo que percebemos dele. Pois, como se víssemos alguém incapaz de suportar uma centelha de luz, ou a chama de uma lâmpada muito pequena, e desejássemos dar a conhecer a essa pessoa, cuja visão não poderia admitir um grau maior de luz do que o que mencionamos, o brilho e o esplendor do sol, não seria necessário dizer-lhe que o esplendor do sol era inefável e incomparavelmente mais excelente e mais glorioso do que toda aquela luz que ele via? Assim também nosso entendimento, quando encerrado pelos grilhões de carne e sangue, e tornado, por sua participação em tais substâncias materiais, mais embotado e obtuso, embora, em comparação com nossa natureza corpórea, seja considerado muito superior, ainda assim, em seus esforços para examinar e contemplar as coisas incorpóreas, mal ocupa o lugar de uma centelha ou de uma lâmpada. Mas entre todos os seres inteligentes, isto é, incorpóreos, o que é tão superior a todos os demais, tão inefavelmente e incalculavelmente superior, como Deus, cuja natureza não pode ser apreendida nem vista pelo poder de qualquer entendimento humano, nem mesmo o mais puro e brilhante?
[6] Mas não parecerá absurdo se empregarmos outra semelhança para tornar a questão mais clara. Nossos olhos frequentemente não podem olhar para a própria natureza da luz, isto é, para a substância do sol; porém, quando contemplamos seu brilho ou seus raios derramando-se, talvez, por janelas ou por pequenas aberturas destinadas a admitir a luz, podemos refletir quão grande é a fonte e a reserva da luz do corpo. Assim também, de modo semelhante, as obras da providência divina e o plano de todo este mundo são como raios, por assim dizer, da natureza de Deus, em comparação com sua substância e seu ser reais. Portanto, como nosso entendimento é incapaz, por si mesmo, de contemplar o próprio Deus tal como ele é, conhece o Pai do mundo pela beleza de suas obras e pela formosura de suas criaturas. Deus, portanto, não deve ser pensado nem como sendo um corpo, nem como existindo em um corpo, mas como uma natureza intelectual sem composição, que não admite em si mesma acréscimo algum; de modo que não se pode crer que haja nele um maior e um menor, mas que ele é, em todas as partes, Mônada e, por assim dizer, Hénada, e é a mente e a fonte da qual toda natureza intelectual ou mente toma seu início. Mas a mente, para seus movimentos e operações, não necessita de espaço físico, nem de magnitude sensível, nem de forma corporal, nem de cor, nem de qualquer um daqueles adjuntos que são propriedades do corpo ou da matéria. Portanto, essa natureza simples e inteiramente intelectual não pode admitir demora nem hesitação em seus movimentos ou operações, para que a simplicidade da natureza divina não pareça circunscrita ou de algum modo dificultada por tais adjuntos, e para que aquilo que é o princípio de todas as coisas não seja achado composto e diverso, e aquilo que deveria estar livre de toda mistura corporal, por ser a única espécie de divindade, por assim dizer, não venha, em vez de ser uno, a consistir de muitas coisas. Ademais, que a mente não necessita de espaço para realizar seus movimentos de acordo com sua natureza é certo pela observação de nossa própria mente. Pois, se a mente permanece dentro de seus próprios limites e não sofre dano por qualquer causa, nunca, por diversidade de situação, será retardada no desempenho de suas funções; nem, por outro lado, recebe acréscimo ou aumento de mobilidade da natureza dos lugares. E aqui, se alguém objetasse, por exemplo, que entre os que estão no mar e são agitados por suas ondas a mente é consideravelmente menos vigorosa do que costuma ser em terra, devemos crer que isso se deve, não à diversidade de lugar, mas à comoção ou perturbação do corpo ao qual a mente está unida ou ligada. Pois parece ser contrário à natureza, por assim dizer, que um corpo humano viva no mar; e por essa razão ele parece, por uma espécie de desigualdade própria, entrar em suas operações mentais de modo negligente e irregular, e realizar os atos do intelecto com percepção mais embotada, assim como aqueles que em terra se acham prostrados pela febre; com respeito a estes é certo que, se a mente não exerce suas funções tão bem quanto antes, em consequência do ataque da doença, a culpa não deve ser atribuída ao lugar, mas ao mal corporal, pelo qual o corpo, perturbado e desordenado, presta à mente seus serviços habituais em condições de modo algum normais e naturais; pois nós, seres humanos, somos animais compostos de uma união de corpo e alma, e somente assim nos foi possível viver sobre a terra. Mas Deus, que é o princípio de todas as coisas, não deve ser considerado um ser composto, para que porventura não se encontrem elementos anteriores ao próprio princípio, dos quais tudo seja composto, qualquer que seja a coisa chamada composta. Tampouco a mente necessita de magnitude corpórea para realizar qualquer ato ou movimento; não como o olho, que ao fitar corpos maiores se dilata, mas se comprime e contrai para ver objetos menores. A mente, de fato, requer grandeza de ordem intelectual, porque cresce, não à maneira de um corpo, mas à maneira da inteligência. Pois a mente não é ampliada juntamente com o corpo, por meio de acréscimos corporais, até o vigésimo ou trigésimo ano de vida; antes, o intelecto é aguçado pelos exercícios do aprendizado, e os poderes implantados nele para fins inteligentes são despertados; e ele se torna capaz de maiores esforços intelectuais, não por aumento corporal, mas por cuidadoso polimento mediante exercícios de estudo. Mas tais capacidades ela não pode receber imediatamente desde a infância, ou desde o nascimento, porque a estrutura dos membros que a mente usa como órgãos para exercitar-se é fraca e débil, e é incapaz de suportar o peso de suas próprias operações, ou de demonstrar capacidade para receber treinamento.
[7] Se agora há alguns que pensam que a própria mente e a alma são um corpo, eu desejaria que me dissessem, em resposta, como ela recebe raciocínios e proposições sobre assuntos de tamanha importância, de tanta dificuldade e tamanha sutileza. De onde deriva o poder da memória? E de onde vem a contemplação das coisas invisíveis? Como o corpo possui a faculdade de compreender existências incorpóreas? Como uma natureza corpórea investiga os processos das várias artes e contempla as razões das coisas? Como, também, é capaz de perceber e compreender verdades divinas, que são manifestamente incorpóreas? A menos, é claro, que alguns sejam da opinião de que, assim como a própria forma e estrutura corporal dos ouvidos ou dos olhos contribui em algo para a audição e para a visão, e como os membros individuais, formados por Deus, têm alguma adaptação, até pela própria qualidade de sua forma, ao fim para o qual foram naturalmente designados, assim também pensem que a forma da alma ou da mente deva ser entendida como criada propositalmente e deliberadamente para perceber e compreender coisas individuais e para ser posta em movimento por movimentos vitais. Não percebo, contudo, quem será capaz de descrever ou declarar qual é a cor da mente, no que diz respeito ao fato de ela ser mente e agir como existência inteligente. Além disso, em confirmação e explicação do que já expusemos a respeito da mente ou alma, a saber, que ela é melhor do que toda a natureza corpórea, podem-se acrescentar as seguintes observações. Por trás de todo sentido corporal há certa substância sensível peculiar, sobre a qual esse sentido corporal se exerce. Por exemplo, cores, forma e tamanho correspondem à visão; vozes e som, ao sentido da audição; odores, bons ou maus, ao do olfato; sabores, ao do paladar; calor ou frio, dureza ou maciez, aspereza ou lisura, ao tato. Ora, dentre esses sentidos enumerados acima, é manifesto a todos que o sentido da mente é o melhor. Como, então, não parecerá absurdo que, sob aqueles sentidos inferiores, tenham sido colocadas substâncias sobre as quais exerçam seu poder, mas sob esta potência, que é muito melhor do que qualquer outra, isto é, o sentido da mente, nada absolutamente da natureza de uma substância tenha sido colocado, e que uma potência de natureza intelectual seja um acidente, ou uma consequência dos corpos? Os que afirmam isso, sem dúvida, o fazem para rebaixar aquela substância melhor que está neles; mais ainda, fazendo assim, até mesmo ofendem o próprio Deus, quando imaginam que ele pode ser entendido por meio de uma natureza corpórea, de tal modo que, segundo a opinião deles, ele seja um corpo, e algo que possa ser entendido ou percebido por meio de um corpo; e não querem compreender que a mente mantém certa relação com Deus, de quem a própria mente é uma imagem intelectual, e que por meio dela pode chegar a algum conhecimento da natureza da divindade, especialmente se for purificada e separada da matéria corporal.
[8] Mas talvez essas declarações pareçam ter menos peso para aqueles que desejam ser instruídos nas coisas divinas a partir das santas escrituras, e que buscam que se lhes prove por essa fonte como a natureza de Deus supera a natureza dos corpos. Vê, portanto, se o apóstolo não diz a mesma coisa quando, falando de Cristo, declara que ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criatura. Não como alguns supõem, que a natureza de Deus seja visível para uns e invisível para outros; pois o apóstolo não diz a imagem do Deus invisível aos homens ou invisível aos pecadores, mas, com constância invariável, pronuncia-se sobre a natureza de Deus nestas palavras: a imagem do Deus invisível. Ademais, João, em seu evangelho, ao afirmar que ninguém jamais viu a Deus, declara manifestamente a todos os que são capazes de compreender que não existe natureza à qual Deus seja visível; não como se ele fosse um ser visível por natureza e apenas escapasse ou frustrasse a visão de uma criatura mais frágil, mas porque, pela natureza do seu ser, é impossível que ele seja visto. E se me perguntares qual é minha opinião a respeito do próprio Unigênito, se a natureza de Deus, que é naturalmente invisível, não é visível nem mesmo para ele, não te pareça tal pergunta imediatamente absurda ou ímpia, porque te daremos uma razão lógica. Uma coisa é ver, outra é conhecer: ver e ser visto é propriedade de corpos; conhecer e ser conhecido, atributo de ser intelectual. Portanto, tudo aquilo que é propriedade dos corpos não pode ser predicado nem do Pai nem do Filho; mas o que pertence à natureza da divindade é comum ao Pai e ao Filho. Finalmente, ele mesmo, no evangelho, não disse que ninguém viu o Pai, senão o Filho, nem que ninguém viu o Filho, senão o Pai; mas suas palavras são: Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; nem conhece alguém o Pai, senão o Filho. Com isso se mostra claramente que aquilo que entre naturezas corpóreas é chamado ver e ser visto, entre o Pai e o Filho é denominado conhecer e ser conhecido, por meio do poder do conhecimento, e não pela fraqueza do sentido da visão. Portanto, porque nem ver nem ser visto podem ser propriamente aplicados a uma natureza incorpórea e invisível, nem o Pai, no evangelho, é dito ser visto pelo Filho, nem o Filho pelo Pai, mas um é dito ser conhecido pelo outro.
[9] Aqui, se alguém nos apresentar a passagem em que se diz: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus, dessa mesma passagem, em minha opinião, nossa posição receberá força adicional; pois que outra coisa é ver a Deus no coração senão, de acordo com nossa explicação acima, compreendê-lo e conhecê-lo com a mente? Pois os nomes dos órgãos dos sentidos são frequentemente aplicados à alma, de modo que se pode dizer que ela vê com os olhos do coração, isto é, realiza um ato intelectual por meio do poder da inteligência. Também se diz que ela ouve com os ouvidos quando percebe o sentido mais profundo de uma afirmação. Também dizemos que ela faz uso dos dentes quando mastiga e come o pão da vida que desce do céu. De modo semelhante, diz-se também que ela emprega os serviços de outros membros, cujos nomes corporais são transferidos e aplicados aos poderes da alma, de acordo com as palavras de Salomão: Encontrarás um sentido divino. Pois ele sabia que havia em nós dois tipos de sentidos: um mortal, corruptível, humano; o outro imortal e intelectual, que ele agora chamou de divino. Por esse sentido divino, portanto, não pelos olhos, mas por um coração puro, que é a mente, Deus pode ser visto por aqueles que são dignos. Pois certamente encontrarás em todas as escrituras, tanto antigas quanto novas, o termo coração repetidamente usado no lugar de mente, isto é, poder intelectual. Dessa maneira, portanto, embora muito aquém da dignidade do assunto, falamos da natureza de Deus, como aqueles que a compreendem sob a limitação do entendimento humano. Em seguida, vejamos o que se quer dizer com o nome de Cristo.
[10] Em primeiro lugar, devemos observar que uma coisa é a natureza daquela divindade que está em Cristo, no que diz respeito ao fato de ele ser o Filho unigênito de Deus, e outra é a natureza humana que ele assumiu nestes últimos tempos para os propósitos da dispensação da graça. E, portanto, devemos primeiro investigar o que é o Filho unigênito de Deus, visto que ele é chamado por muitos nomes diferentes, de acordo com as circunstâncias e os pontos de vista das pessoas. Pois ele é denominado Sabedoria, segundo a expressão de Salomão: O Senhor me criou, o princípio de seus caminhos, e entre suas obras, antes que fizesse qualquer outra coisa; ele me estabeleceu antes dos séculos. No princípio, antes de formar a terra, antes de fazer brotar as fontes das águas, antes que os montes fossem firmados, antes de todas as colinas, ele me gerou. Ele também é chamado Primogênito, como o apóstolo declarou: o primogênito de toda criatura. O Primogênito, porém, não é por natureza uma pessoa diferente da Sabedoria, mas um e o mesmo. Finalmente, o apóstolo Paulo diz que Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.
[11] Ninguém, porém, imagine que queremos dizer algo impessoal quando o chamamos de sabedoria de Deus; ou suponha, por exemplo, que o entendamos não como um ser vivo dotado de sabedoria, mas como algo que torna os homens sábios, comunicando-se e implantando-se nas mentes dos que se tornam capazes de receber suas virtudes e inteligência. Se, então, se entende corretamente, de uma vez por todas, que o Filho unigênito de Deus é sua sabedoria existindo hipostaticamente, não sei se nossa curiosidade deve avançar além disso, ou nutrir alguma suspeita de que essa hipóstase ou substância contenha algo de natureza corpórea, visto que tudo o que é corpóreo se distingue por forma, ou cor, ou magnitude. E quem, em seu juízo perfeito, já procurou forma, ou cor, ou tamanho, na sabedoria, no que diz respeito ao fato de ela ser sabedoria? E quem, sendo capaz de ter pensamentos ou sentimentos reverentes a respeito de Deus, pode supor ou crer que Deus Pai alguma vez existiu, ainda que por um momento, sem ter gerado essa Sabedoria? Pois nesse caso seria necessário dizer, ou que Deus era incapaz de gerar a Sabedoria antes de produzi-la, de modo que depois chamou à existência aquela que antes não existia, ou que possuía o poder, mas, o que não se pode dizer de Deus sem impiedade, não quis usá-lo; ambas as suposições, é evidente para todos, são igualmente absurdas e ímpias: pois equivalem a dizer, ou que Deus passou de uma condição de incapacidade para uma de capacidade, ou que, embora possuísse o poder, o ocultou e adiou a geração da Sabedoria. Por isso sempre sustentamos que Deus é o Pai de seu Filho unigênito, que de fato nasceu dele e dele deriva o que é, mas sem começo algum, não apenas um começo que possa ser medido por divisões de tempo, mas até mesmo aquele que só a mente pode contemplar em si mesma, ou ver, por assim dizer, com as faculdades nuas do entendimento. Portanto, devemos crer que a Sabedoria foi gerada antes de qualquer começo que possa ser compreendido ou expresso. E, visto que todo o poder criador da criação futura estava incluído nessa própria existência da Sabedoria, quer das coisas que têm existência originária, quer das que têm existência derivada, tendo sido previamente formado e ordenado pelo poder da presciência; por causa dessas mesmas criaturas que estavam, por assim dizer, descritas e prefiguradas na própria Sabedoria, é que a Sabedoria diz, nas palavras de Salomão, que foi criada o princípio dos caminhos de Deus, na medida em que continha em si os princípios, ou formas, ou espécies de toda a criação.
[12] Ora, do mesmo modo como entendemos que a Sabedoria era o princípio dos caminhos de Deus e é dita criada, formando antecipadamente e contendo em si as espécies e os princípios de todas as criaturas, assim devemos entendê-la como sendo o Verbo de Deus, por revelar a todos os outros seres, isto é, a toda a criação, a natureza dos mistérios e segredos contidos na sabedoria divina; e por isso ela é chamada Verbo, porque é, por assim dizer, a intérprete dos segredos da mente. E, portanto, aquela linguagem encontrada nos Atos de Paulo, onde se diz que o Verbo é um ser vivo, parece-me usada corretamente. João, porém, com mais sublimidade e propriedade, diz no começo de seu evangelho, quando define Deus por uma definição especial como sendo o Verbo: E Deus era o Verbo, e este estava no princípio com Deus. Que aquele, então, que atribui um começo ao Verbo ou à Sabedoria de Deus cuide para não ser culpado de impiedade contra o próprio Pai não gerado, visto que nega que ele sempre tenha sido Pai, e que tenha gerado o Verbo, e possuído sabedoria em todos os períodos anteriores, sejam chamados tempos, ou eras, ou qualquer outro nome que se lhes queira dar.
[13] Este Filho, consequentemente, é também a verdade e a vida de todas as coisas que existem. E com razão. Pois como poderiam viver as coisas que foram criadas, se não recebessem seu ser da vida? Ou como poderiam existir verdadeiramente as coisas que são, se não procedessem da verdade? Ou como poderiam existir seres racionais, se o Verbo ou razão não tivesse existido previamente? Ou como poderiam ser sábios, se não houvesse sabedoria? Mas, visto que estava para acontecer que alguns também se afastassem da vida e trouxessem sobre si a morte por sua queda, pois a morte nada mais é do que um afastamento da vida, e como não se seguiria que os seres que uma vez foram criados por Deus para o gozo da vida devessem perecer totalmente, era necessário que, antes da morte, existisse tal poder que destruísse a morte futura, e que houvesse uma ressurreição, cujo tipo estava em nosso Senhor e Salvador, e que essa ressurreição tivesse seu fundamento na sabedoria, no verbo e na vida de Deus. E então, em seguida, visto que alguns dos seres criados não permaneceriam sempre dispostos a conservar-se imutáveis e inalteráveis no gozo calmo e moderado das bênçãos que possuíam, mas, porque o bem que havia neles não lhes pertencia por natureza ou essência, mas por acidente, seriam pervertidos, mudados e cairiam de sua posição, por isso o Verbo e a Sabedoria de Deus foram feitos o Caminho. E assim foi chamado porque conduz ao Pai aqueles que andam por ele. Tudo, portanto, o que dissemos acerca da sabedoria de Deus será apropriadamente aplicado e entendido a respeito do Filho de Deus, em virtude de ele ser a Vida, e o Verbo, e a Verdade, e a Ressurreição; pois todos esses títulos derivam de seu poder e de suas operações, e em nenhum deles há o menor fundamento para entender algo de natureza corpórea que pudesse parecer indicar tamanho, forma ou cor; pois aqueles filhos de homens que aparecem entre nós, ou os descendentes de outros seres vivos, correspondem à semente daqueles por quem foram gerados, ou recebem daquelas mães em cujos ventres são formados e nutridos aquilo que trazem para esta vida e carregam consigo ao nascer. Mas é monstruoso e ilícito comparar Deus Pai, na geração de seu Filho unigênito e na substância do mesmo, a qualquer homem ou outro ser vivo engajado em tal ato; pois devemos necessariamente sustentar que há algo excepcional e digno de Deus que não admite comparação alguma, não apenas em coisas, mas que nem sequer pode ser concebido pelo pensamento ou descoberto pela percepção, de modo que uma mente humana fosse capaz de apreender como o Deus não gerado se torna Pai do Filho unigênito. Porque sua geração é tão eterna e duradoura quanto o brilho que procede do sol. Pois não é por receber o sopro da vida que ele se torna Filho, mediante algum ato externo, mas por sua própria natureza.
[14] Examinemos agora como as afirmações que fizemos são sustentadas pela autoridade da santa escritura. O apóstolo Paulo diz que o Filho unigênito é a imagem do Deus invisível e o primogênito de toda criatura. E, escrevendo aos Hebreus, diz dele que ele é o resplendor de sua glória e a expressão exata de sua substância. Ora, encontramos no tratado chamado Sabedoria de Salomão a seguinte descrição da sabedoria de Deus: Porque ela é o sopro do poder de Deus e a puríssima emanação da glória do Onipotente. Nada que seja impuro pode atingi-la. Porque ela é o esplendor da luz eterna, o espelho sem mancha da operação de Deus e a imagem da sua bondade. Agora dizemos, como antes, que a Sabedoria não tem sua existência em outro lugar senão naquele que é o princípio de todas as coisas; de quem também deriva tudo o que é sábio, porque ele mesmo é o único que é Filho por natureza e, portanto, é chamado Unigênito.
[15] Vejamos agora como devemos entender a expressão imagem invisível, para que, por esse meio, percebamos como Deus é corretamente chamado o Pai de seu Filho; e, em primeiro lugar, tiremos nossas conclusões daquilo que costumamos chamar de imagens entre os homens. Às vezes chama-se imagem aquilo que é pintado ou esculpido em alguma substância material, como madeira ou pedra; e às vezes uma criança é chamada a imagem de seu pai, quando os traços da criança em nada desmentem sua semelhança com o pai. Penso, portanto, que aquele homem que foi formado segundo a imagem e semelhança de Deus pode ser adequadamente comparado à primeira ilustração. Quanto a ele, porém, veremos mais precisamente, se Deus quiser, quando viermos a expor a passagem do Gênesis. Mas a imagem do Filho de Deus, de quem agora falamos, pode ser comparada ao segundo dos exemplos acima, até mesmo no ponto em que ele é a imagem invisível do Deus invisível, do mesmo modo como dizemos, segundo a história sagrada, que a imagem de Adão é seu filho Sete. As palavras são: E Adão gerou Sete à sua semelhança e conforme a sua imagem. Ora, esta imagem contém a unidade de natureza e substância pertencente ao Pai e ao Filho. Pois se o Filho faz, da mesma maneira, todas aquelas coisas que o Pai faz, então, em virtude de o Filho fazer tudo como o Pai, forma-se no Filho a imagem do Pai, ele que nasceu dele, como um ato da vontade procedente da mente. E sou, portanto, de opinião que apenas a vontade do Pai deve ser suficiente para a existência daquilo que ele deseja que exista. Pois, no exercício de sua vontade, ele não usa outro meio senão aquele que é tornado conhecido pelo conselho da sua vontade. E assim também a existência do Filho é gerada por ele. Pois este ponto deve, acima de todos os outros, ser sustentado por aqueles que nada admitem como não gerado, isto é, não nascido, exceto Deus Pai somente. E devemos cuidar para não cairmos nos absurdos daqueles que imaginam certas emanações, a fim de dividir a natureza divina em partes, e dividem Deus Pai o quanto podem, visto que até mesmo entreter a mais remota suspeita de algo assim a respeito de um ser incorpóreo não é somente o auge da impiedade, mas marca da maior insensatez, sendo algo muitíssimo distante de qualquer concepção inteligente a ideia de que haja divisão física de qualquer natureza incorpórea. Antes, portanto, assim como um ato da vontade procede do entendimento, e nem separa dele qualquer parte nem é separado ou dividido dele, de modo semelhante deve o Pai ser entendido como tendo gerado o Filho, sua própria imagem; isto é, assim como ele é invisível por natureza, assim também gerou uma imagem invisível. Pois o Filho é o Verbo, e, portanto, não devemos entender que haja nele algo cognoscível pelos sentidos. Ele é sabedoria, e na sabedoria não pode haver suspeita de qualquer coisa corpórea. Ele é a verdadeira luz, que ilumina todo homem que vem a este mundo; mas nada tem em comum com a luz deste sol. Nosso Salvador, portanto, é a imagem do Deus invisível, na medida em que, comparado com o próprio Pai, ele é a verdade; e, comparado conosco, a quem ele revela o Pai, ele é a imagem pela qual chegamos ao conhecimento do Pai, a quem ninguém conhece senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelar. E o modo de revelá-lo é por meio do entendimento. Pois aquele por quem o próprio Filho é entendido, entende, por consequência, também o Pai, segundo suas próprias palavras: Quem me vê a mim vê também o Pai.
[16] Mas, visto que citamos a linguagem de Paulo a respeito de Cristo, onde ele diz que ele é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata de sua substância, vejamos que ideia devemos formar disso. Segundo João, Deus é luz. O Filho unigênito, portanto, é a glória dessa luz, procedendo inseparavelmente do próprio Deus, como o brilho procede da luz, e iluminando toda a criação. Pois, de acordo com o que já explicamos acerca da maneira como ele é o Caminho e conduz ao Pai, e como é o Verbo, interpretando os segredos da sabedoria e os mistérios do conhecimento, tornando-os conhecidos à criação racional; e como é também a Verdade, e a Vida, e a Ressurreição, da mesma forma devemos entender o sentido de ele ser o brilho; pois é por seu esplendor que compreendemos e sentimos o que é a própria luz. E esse esplendor, apresentando-se suave e brandamente aos olhos frágeis e débeis dos mortais, e como que os treinando pouco a pouco e acostumando-os a suportar o brilho da luz, quando remove deles todo impedimento e obstrução à visão, segundo o próprio preceito do Senhor: Tira primeiro a trave do teu olho, torna-os capazes de suportar o esplendor da luz, tornando-se também, neste aspecto, uma espécie de mediador entre os homens e a luz.
[17] Mas, visto que o apóstolo o chama não apenas o resplendor de sua glória, mas também a expressão exata de sua pessoa ou subsistência, não parece inútil perguntar como pode haver, além da própria pessoa de Deus, outra figura dessa pessoa, seja qual for o significado de pessoa e subsistência. Considera, então, se o Filho de Deus, visto que ele é seu Verbo e sua Sabedoria, e sozinho conhece o Pai e o revela a quem quer, isto é, àqueles que são capazes de receber seu Verbo e sua Sabedoria, não pode, justamente nesse ponto de tornar Deus compreendido e reconhecido, ser chamado figura de sua pessoa e subsistência; isto é, quando essa Sabedoria, que deseja dar a conhecer aos outros os meios pelos quais Deus é reconhecido e compreendido por eles, descreve a si mesma antes de tudo, pode por isso ser chamada a expressão exata da pessoa de Deus. Para, porém, chegar a uma compreensão mais plena do modo como o Salvador é a figura da pessoa ou subsistência de Deus, tomemos um exemplo que, embora não descreva o assunto de que tratamos de maneira plena ou apropriada, pode contudo ser visto como empregado apenas com este propósito: mostrar que o Filho de Deus, que estava na forma de Deus, despojando-se de sua glória, faz com que, por esse mesmo despojamento, se nos demonstre a plenitude de sua divindade. Suponhamos, por exemplo, que houvesse uma estátua de tamanho tão enorme que enchesse o mundo inteiro, e que, por essa razão, não pudesse ser vista por ninguém; e que outra estátua fosse feita inteiramente semelhante a ela na forma dos membros, nos traços do rosto, na forma e no material, mas sem a mesma imensidão de tamanho, de modo que aqueles que não pudessem contemplar a de proporções gigantescas, ao verem esta última, reconhecessem que haviam visto a primeira, porque ela preservava todos os traços de seus membros e rosto, e até mesmo a própria forma e material, tão de perto que fosse inteiramente indistinguível dela. Por alguma semelhança assim, o Filho de Deus, despojando-se de sua igualdade com o Pai e mostrando-nos o caminho para conhecê-lo, é feito a expressão exata de sua pessoa; de modo que nós, que éramos incapazes de contemplar a glória daquela luz maravilhosa quando posta na grandeza de sua divindade, possamos, por ele ter-se tornado para nós brilho, obter o meio de contemplar a luz divina olhando para o brilho. Essa comparação, é claro, de estátuas, por pertencer a coisas materiais, é empregada somente para mostrar que o Filho de Deus, embora colocado na forma extremamente humilde de um corpo humano, por causa da semelhança de suas obras e poder com o Pai, mostrou que havia nele uma grandeza imensa e invisível, ao dizer a seus discípulos: Quem me vê, vê também o Pai; e: Eu e o Pai somos um. E a isso pertencem também as expressões semelhantes: O Pai está em mim, e eu no Pai.
[18] Vejamos agora o significado da expressão encontrada na Sabedoria de Salomão, onde se diz da Sabedoria que ela é uma espécie de sopro do poder de Deus, a puríssima emanação da glória do Onipotente, o esplendor da luz eterna, o espelho sem mancha da operação ou poder de Deus, e a imagem de sua bondade. Estas, então, são as definições que ele dá de Deus, indicando por cada uma delas certos atributos que pertencem à Sabedoria de Deus, chamando a sabedoria de poder, glória, luz eterna, operação e bondade de Deus. Ele não diz, porém, que a sabedoria é o sopro da glória do Onipotente, nem da luz eterna, nem da operação do Pai, nem de sua bondade, porque não convinha atribuir sopro a qualquer uma dessas coisas; mas, com toda propriedade, ele diz que a sabedoria é o sopro do poder de Deus. Ora, por poder de Deus deve-se entender aquilo pelo qual ele é forte; pelo qual ordena, restringe e governa todas as coisas visíveis e invisíveis; aquilo que é suficiente para todas as coisas que ele governa em sua providência, entre todas as quais ele está presente como se fosse um só indivíduo. E embora o sopro de todo esse poder poderoso e imensurável, e o próprio vigor produzido, por assim dizer, por sua própria existência, procedam do próprio poder, como a vontade procede da mente, ainda assim essa vontade de Deus se torna, não obstante, o poder de Deus. Outro poder, consequentemente, é produzido, o qual existe com propriedades próprias, uma espécie de sopro, como diz a escritura, do poder primeiro e não gerado de Deus, derivando dele o seu ser, e nunca em tempo algum inexistente. Pois se alguém afirmasse que esse poder não existia anteriormente, mas veio depois à existência, que explique a razão pela qual o Pai, que lhe deu existência, não o fez antes. E, se conceder que houve um começo, quando esse sopro procedeu do poder de Deus, perguntaremos novamente por que não antes mesmo desse começo que ele admitiu; e assim, sempre exigindo uma data anterior e subindo com nossas interrogações, chegaremos a esta conclusão: que, como Deus sempre possuiu poder e vontade, nunca houve razão alguma, de conveniência ou de outra natureza, pela qual ele não pudesse sempre possuir aquela bênção que desejava. Com isso se mostra que esse sopro do poder de Deus sempre existiu, não tendo outro começo senão o próprio Deus. E não convinha que houvesse outro princípio além do próprio Deus, de quem deriva seu nascimento. E, de acordo com a expressão do apóstolo de que Cristo é o poder de Deus, ele deve ser chamado não apenas o sopro do poder de Deus, mas poder proveniente do poder.
[19] Examinemos agora a expressão: A Sabedoria é a puríssima emanação da glória do Onipotente; e consideremos primeiro o que é a glória do Deus onipotente, e então também entenderemos o que é sua emanação. Assim como ninguém pode ser pai sem ter um filho, nem mestre sem possuir um servo, assim também Deus não pode ser chamado onipotente a menos que existam aqueles sobre os quais possa exercer seu poder; e, portanto, para que Deus seja mostrado como onipotente, é necessário que todas as coisas existam. Pois se alguém quiser que algumas eras ou porções de tempo, ou qualquer outro nome que lhes dê, tenham passado enquanto as coisas que foram feitas depois ainda não existiam, mostrará sem dúvida que durante essas eras ou períodos Deus não era onipotente, mas tornou-se tal depois, isto é, a partir do momento em que começou a ter seres sobre os quais exercer seu poder; e assim parecerá ter recebido certo acréscimo, elevando-se de uma condição inferior para uma superior; pois não há dúvida de que é melhor para ele ser onipotente do que não sê-lo. E como pode parecer algo diferente de absurdo que, quando Deus não possuía nenhuma daquelas coisas que convinha que possuísse, viesse depois, por uma espécie de progresso, a passar a possuí-las? Mas se nunca houve tempo em que ele não fosse onipotente, então, necessariamente, também devem existir aquelas coisas pelas quais ele recebe esse título; e ele deve sempre ter tido aqueles sobre os quais exerceu poder e que eram governados por ele como rei ou príncipe, do que falaremos mais plenamente no lugar apropriado, quando viermos a tratar da matéria das criaturas. Mas mesmo agora penso ser necessário deixar uma palavra, ainda que de passagem, de advertência, pois a questão diante de nós é como a sabedoria é a puríssima emanação da glória do Onipotente, para que ninguém pense que o título de Onipotente em Deus era anterior ao nascimento da Sabedoria, por meio de quem ele é chamado Pai, já que a Sabedoria, que é o Filho de Deus, é a puríssima emanação da glória do Onipotente. Que aquele que é inclinado a nutrir essa suspeita ouça a declaração indubitável da escritura, que pronuncia: Em sabedoria fizeste todas as coisas; e o ensino do evangelho, de que por ele todas as coisas foram feitas, e sem ele nada do que foi feito se fez; e compreenda daí que o título de Onipotente em Deus não pode ser mais antigo do que o de Pai, pois é por meio do Filho que o Pai é onipotente. Mas, da expressão glória do Onipotente, da qual a Sabedoria é a emanação, deve entender-se que a Sabedoria, por meio da qual Deus é chamado onipotente, participa da glória do Onipotente. Pois por meio da Sabedoria, que é Cristo, Deus tem poder sobre todas as coisas, não somente pela autoridade de um governante, mas também pela obediência voluntária dos súditos. E para que compreendas que a onipotência do Pai e do Filho é uma e a mesma, assim como Deus e Senhor são um e o mesmo com o Pai, ouve a maneira como João fala no Apocalipse: Assim diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Onipotente. Pois quem mais era aquele que há de vir senão Cristo? E assim como ninguém deve se escandalizar, visto que Deus é o Pai, pelo fato de o Salvador também ser Deus, assim também, visto que o Pai é chamado onipotente, ninguém deve se escandalizar que o Filho de Deus também seja chamado onipotente. Pois assim será verdadeira aquela palavra que ele dirige ao Pai: Tudo o que é meu é teu, e o que é teu é meu, e eu sou glorificado neles. Ora, se todas as coisas que são do Pai também são de Cristo, certamente entre essas coisas está a onipotência do Pai; e sem dúvida o Filho unigênito deve ser onipotente, para que o Filho também tenha todas as coisas que o Pai possui. E eu sou glorificado neles, declara ele. Pois ao nome de Jesus todo joelho se dobrará, dos seres nos céus, dos seres na terra e dos seres debaixo da terra; e toda língua confessará que o Senhor Jesus está na glória de Deus Pai. Portanto, ele é a emanação da glória de Deus nesse aspecto: porque ele é onipotente, a própria Sabedoria pura e límpida, glorificada como a emanação da onipotência ou da glória. E para que se entenda mais claramente o que é a glória da onipotência, acrescentaremos o seguinte. Deus Pai é onipotente porque tem poder sobre todas as coisas, isto é, sobre o céu e a terra, o sol, a lua e as estrelas, e todas as coisas que neles há. E ele exerce seu poder sobre elas por meio de seu Verbo, porque ao nome de Jesus todo joelho se dobrará, tanto dos seres nos céus, como dos seres na terra e dos seres debaixo da terra. E se todo joelho se dobra diante de Jesus, então, sem dúvida, é a Jesus que todas as coisas estão sujeitas, e é ele quem exerce poder sobre todas as coisas, e por meio de quem todas as coisas estão sujeitas ao Pai; pois por meio da sabedoria, isto é, pela palavra e pela razão, e não pela força nem pela necessidade, todas as coisas são sujeitas. E, portanto, sua glória consiste precisamente nisso: que ele possui todas as coisas; e esta é a glória puríssima e mais límpida da onipotência: que por razão e sabedoria, e não por força e necessidade, todas as coisas lhe são sujeitas. Ora, a expressão glória puríssima e mais límpida da sabedoria é apropriada para distingui-la daquela glória que não pode ser chamada pura e sincera. Pois toda natureza que é mutável e passível de conversão, embora glorificada nas obras da justiça ou da sabedoria, ainda assim, pelo fato de a justiça ou a sabedoria serem qualidades acidentais, e porque aquilo que é acidental também pode desaparecer, sua glória não pode ser chamada sincera e pura. Mas a Sabedoria de Deus, que é seu Filho unigênito, sendo em todos os aspectos incapaz de mudança ou alteração, e sendo toda boa qualidade nele essencial, e tal que não pode ser mudada nem convertida, sua glória é, portanto, declarada pura e sincera.
[20] Em terceiro lugar, a sabedoria é chamada o esplendor da luz eterna. A força dessa expressão nós explicamos nas páginas anteriores, quando introduzimos a semelhança do sol e do esplendor de seus raios, e mostramos, da melhor maneira possível, como isso deve ser entendido. Ao que então dissemos acrescentaremos apenas a seguinte observação. Chama-se propriamente eterno ou sempiterno aquilo que nem teve um começo de existência nem jamais pode deixar de ser aquilo que é. E essa é a ideia transmitida por João quando diz que Deus é luz. Ora, sua sabedoria é o esplendor dessa luz, não apenas por ela ser luz, mas por ser luz eterna, de modo que sua sabedoria é esplendor eterno e sempiterno. Se isso for plenamente compreendido, mostra claramente que a existência do Filho deriva do Pai, mas não no tempo, nem a partir de qualquer outro começo, exceto, como dissemos, do próprio Deus.
[21] Mas a sabedoria é também chamada o espelho sem mancha da operação de Deus. Devemos primeiro entender, então, o que é a operação do poder de Deus. É uma espécie de vigor, por assim dizer, pelo qual Deus opera quer na criação, quer na providência, quer no juízo, quer na disposição e ordenação das coisas particulares, cada uma em seu tempo. Pois assim como a imagem formada num espelho reflete sem erro todos os atos e movimentos daquele que olha para ele, assim a Sabedoria deve ser entendida quando é chamada o espelho sem mancha do poder e da operação do Pai; como também o Senhor Jesus Cristo, que é a Sabedoria de Deus, declara de si mesmo quando diz: As obras que o Pai faz, essas também o Filho faz igualmente. E novamente ele diz que o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão aquilo que vê o Pai fazer. Portanto, como o Filho em nada difere do Pai no poder de suas obras, e a obra do Filho não é algo diferente da obra do Pai, mas, por assim dizer, um só e mesmo movimento existe em todas as coisas, por isso ele o chamou espelho sem mancha, para que por tal expressão se entendesse que não há absolutamente nenhuma dessemelhança entre o Filho e o Pai. Como, de fato, podem concordar com as declarações da escritura aquelas coisas que alguns dizem ser feitas à maneira pela qual um discípulo se assemelha ou imita seu mestre, ou segundo a ideia de que aquelas coisas são feitas pelo Filho em matéria corporal, enquanto primeiro teriam sido formadas pelo Pai em sua essência espiritual, quando no evangelho se diz que o Filho faz não coisas semelhantes, mas as mesmas coisas de modo semelhante?
[22] Resta que investiguemos o que significa a expressão imagem da sua bondade; e aqui, penso, devemos entender a mesma coisa que expressamos há pouco ao falar da imagem formada pelo espelho. Pois ele é a bondade primordial, sem dúvida, da qual o Filho nasceu, o qual, sendo em todos os aspectos a imagem do Pai, pode certamente também ser chamado com propriedade a imagem de sua bondade. Pois não existe no Filho outra segunda bondade além daquela que está no Pai. E, por isso, também o próprio Salvador diz corretamente no evangelho: Ninguém é bom, senão um, Deus, o Pai; para que, por tal expressão, se entenda que o Filho não é de uma bondade diferente, mas daquela única que existe no Pai, de quem ele é justamente chamado imagem, porque não procede de nenhuma outra fonte senão daquela bondade primordial, para que não parecesse haver no Filho uma bondade diferente daquela que está no Pai. Nem há qualquer dessemelhança ou diferença de bondade no Filho. E, portanto, não se deve imaginar que haja uma espécie de blasfêmia, por assim dizer, nas palavras: Ninguém é bom, senão um, Deus, o Pai, como se por isso se devesse supor negar que Cristo ou o Espírito Santo fossem bons. Mas, como já dissemos, a bondade primordial deve ser entendida como residindo em Deus Pai, de quem tanto o Filho nasce quanto o Espírito Santo procede, retendo ambos, sem qualquer dúvida, a natureza daquela bondade que está na fonte de onde derivam. E, se houver quaisquer outras coisas que nas escrituras sejam chamadas boas, seja anjo, ou homem, ou servo, ou tesouro, ou coração bom, ou árvore boa, todas estas assim são chamadas por uso acomodado, tendo nelas uma bondade acidental, e não essencial. Mas exigiria muito tempo e trabalho reunir todos os títulos do Filho de Deus, tais como verdadeira luz, ou porta, ou justiça, ou santificação, ou redenção, e inumeráveis outros, e mostrar por que razões cada um deles lhe é dado. Satisfeitos, portanto, com o que já expusemos, prosseguimos em nossas investigações acerca das outras matérias que se seguem.

