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[1] O ponto seguinte é investigar, da forma mais breve possível, o tema do Espírito Santo. Todos os que percebem, de qualquer modo, a existência da Providência confessam que Deus, que criou e dispôs todas as coisas, é não gerado e o reconhecem como Pai do universo. Ora, que a Ele pertence um Filho não é uma afirmação feita somente por nós; embora isso possa parecer suficientemente maravilhoso e inacreditável àqueles que têm reputação de filósofos entre gregos e bárbaros, alguns dos quais, contudo, parecem ter concebido alguma ideia de Sua existência, ao reconhecerem que todas as coisas foram criadas pela palavra ou razão de Deus. Nós, porém, em conformidade com nossa fé nessa doutrina, que seguramente sustentamos ser divinamente inspirada, cremos que não é possível explicar nem trazer ao alcance do conhecimento humano essa razão mais alta e mais divina como sendo o Filho de Deus senão por meio daquelas escrituras que foram inspiradas pelo Espírito Santo, isto é, os Evangelhos e as Epístolas, e a lei e os profetas, segundo a declaração do próprio Cristo. Quanto à existência do Espírito Santo, ninguém poderia sequer suspeitar dela, a não ser os que estavam familiarizados com a lei e os profetas, ou os que professam fé em Cristo. Pois, embora ninguém seja capaz de falar com certeza sobre Deus Pai, ainda assim é possível obter algum conhecimento dEle por meio da criação visível e dos sentimentos naturais da mente humana; e também é possível que tal conhecimento seja confirmado pelas santas escrituras. Mas, com respeito ao Filho de Deus, embora ninguém conheça o Filho senão o Pai, é também pelas santas escrituras que a mente humana é ensinada a pensar corretamente a respeito do Filho; e isso não apenas a partir do Novo, mas também do Antigo Testamento, por meio daquelas coisas que, embora realizadas pelos santos, são referidas figuradamente a Cristo, e pelas quais podem ser descobertas tanto Sua natureza divina quanto aquela natureza humana que Ele assumiu.

[2] Ora, o que é o Espírito Santo, somos ensinados em muitas passagens da escritura, como por Davi no Salmo cinquenta e um, quando diz: “Não retires de mim o teu Espírito Santo”; e por Daniel, onde se diz: “O Espírito Santo que está em ti”. E no Novo Testamento temos abundantes testemunhos, como quando o Espírito Santo é descrito como tendo descido sobre Cristo, e quando o Senhor soprou sobre Seus apóstolos após Sua ressurreição, dizendo: “Recebei o Espírito Santo”; e também na fala do anjo a Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti”; e na declaração de Paulo, de que ninguém pode chamar Jesus de Senhor senão pelo Espírito Santo. Nos Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo era dado pela imposição das mãos dos apóstolos no batismo. De tudo isso aprendemos que a pessoa do Espírito Santo possuía tal autoridade e dignidade, que o batismo salvador não estava completo senão pela autoridade da excelentíssima Trindade, isto é, pela nomeação do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e pelo fato de se unir ao Deus Pai não gerado e a Seu Filho unigênito também o nome do Espírito Santo. Quem, então, não se admirará da suprema majestade do Espírito Santo, quando ouve que aquele que pronunciar uma palavra contra o Filho do Homem pode esperar perdão, mas aquele que for culpado de blasfêmia contra o Espírito Santo não tem perdão, nem neste mundo nem no vindouro?

[3] Que todas as coisas foram criadas por Deus, e que não existe criatura alguma que não tenha recebido dEle o seu ser, é estabelecido por muitas declarações da escritura; sendo refutadas e rejeitadas aquelas afirmações falsas feitas por alguns a respeito da existência, ou de uma matéria coeterna com Deus, ou de almas não geradas, nas quais eles gostariam de supor que Deus implantou não tanto o poder de existir, mas igualdade e ordem. Pois até mesmo naquele pequeno tratado chamado O Pastor ou Anjo do Arrependimento, composto por Hermas, encontramos o seguinte: “Antes de tudo, crê que há um só Deus, que criou e ordenou todas as coisas; que, quando antes nada existia, fez existir todas as coisas; que Ele mesmo contém todas as coisas, mas Ele próprio por ninguém é contido.” E no Livro de Enoque também temos descrições semelhantes. Mas, até o presente, não fomos capazes de encontrar nenhuma declaração na santa escritura em que o Espírito Santo pudesse ser dito como tendo sido feito ou criado, nem mesmo da maneira como mostramos acima que a sabedoria divina é mencionada por Salomão, ou da forma como devem ser entendidas aquelas expressões que discutimos acerca da vida, ou da palavra, ou dos outros títulos do Filho de Deus. O Espírito de Deus, portanto, que pairava sobre as águas, como está escrito no princípio da criação do mundo, é, em minha opinião, ninguém menos que o Espírito Santo, tanto quanto posso compreender; como, aliás, mostramos em nossa exposição dessas passagens, não segundo o método histórico, mas segundo o método espiritual de interpretação.

[4] Alguns de nossos predecessores observaram, de fato, que no Novo Testamento, sempre que o Espírito é nomeado sem aquele acréscimo que indica qualidade, deve-se entender o Espírito Santo; como, por exemplo, na expressão: “O fruto do Espírito é amor, alegria e paz”; e: “Tendo começado no Espírito, estais agora sendo aperfeiçoados na carne?” Somos da opinião de que essa distinção também pode ser observada no Antigo Testamento, como quando se diz: “Aquele que dá o seu Espírito ao povo que está sobre a terra, e Espírito aos que nela andam.” Pois, sem dúvida, todo aquele que anda sobre a terra, isto é, os seres terrenos e corpóreos, é também participante do Espírito Santo, recebendo-o de Deus. Meu mestre hebreu também costumava dizer que aqueles dois serafins em Isaías, descritos como tendo cada um seis asas, e clamando um ao outro: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos exércitos”, deviam ser entendidos como o Filho unigênito de Deus e o Espírito Santo. E pensamos também que aquela expressão que ocorre no cântico de Habacuque: “No meio de dois seres vivos”, ou “no meio de duas vidas, serás conhecido”, deve ser entendida de Cristo e do Espírito Santo. Pois todo conhecimento do Pai é obtido pela revelação do Filho mediante o Espírito Santo, de modo que esses dois seres que, segundo o profeta, são chamados ou seres vivos ou vidas, existem como fundamento do conhecimento de Deus Pai. Porque, assim como se diz do Filho que ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar, o mesmo também é dito pelo apóstolo a respeito do Espírito Santo, quando declara: “Deus no-las revelou pelo seu Espírito Santo; porque o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus”; e novamente no Evangelho, quando o Salvador, falando das partes divinas e mais profundas de Seu ensinamento, que Seus discípulos ainda não podiam receber, assim lhes diz: “Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora; mas, quando vier o Espírito Santo, o Consolador, ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar tudo quanto eu vos tenho dito.” Devemos entender, portanto, que assim como o Filho, que sozinho conhece o Pai, o revela a quem quer, assim também o Espírito Santo, que sozinho sonda as profundezas de Deus, revela Deus a quem quer: “O Espírito sopra onde quer.” Não devemos, porém, supor que o Espírito receba seu conhecimento por revelação do Filho. Pois, se o Espírito Santo conhece o Pai pela revelação do Filho, ele passa de um estado de ignorância para um estado de conhecimento; mas é igualmente ímpio e insensato confessar o Espírito Santo e, ainda assim, atribuir-lhe ignorância. Pois, mesmo que alguma outra coisa tivesse existido antes do Espírito Santo, não foi por progresso gradual que ele veio a ser o Espírito Santo; como se alguém ousasse dizer que, no tempo em que ainda não era o Espírito Santo, ele era ignorante do Pai, mas que depois de receber conhecimento se tornou o Espírito Santo. Pois, se esse fosse o caso, o Espírito Santo jamais seria contado na unidade da Trindade, isto é, juntamente com o Pai imutável e Seu Filho, a não ser que ele sempre tivesse sido o Espírito Santo. Quando usamos, na verdade, termos como “sempre” ou “era”, ou qualquer outra designação de tempo, não devem ser tomados de modo absoluto, mas com a devida reserva; porque, embora o sentido dessas palavras se relacione ao tempo, e os assuntos de que falamos sejam mencionados por uma extensão de linguagem como existindo no tempo, ainda assim eles superam, em sua natureza real, toda concepção do entendimento finito.

[5] Contudo, parece apropriado investigar qual é a razão pela qual aquele que é regenerado por Deus para a salvação tem relação tanto com o Pai quanto com o Filho e o Espírito Santo, e não obtém salvação sem a cooperação de toda a Trindade; e por que é impossível tornar-se participante do Pai ou do Filho sem o Espírito Santo. E, ao discutir esses assuntos, sem dúvida será necessário descrever a atuação especial do Espírito Santo, bem como a do Pai e a do Filho. Sou da opinião, então, de que a atuação do Pai e do Filho se realiza tanto nos santos quanto nos pecadores, nos seres racionais e nos animais mudos; sim, até mesmo nas coisas sem vida, e universalmente em todas as coisas que existem; mas a operação do Espírito Santo não se realiza de modo algum naquelas coisas que são sem vida, nem naquelas que, embora vivas, ainda são mudas; e nem mesmo se encontra naqueles que, embora dotados de razão, estão envolvidos em maus caminhos e de forma alguma convertidos para uma vida melhor. Somente nessas pessoas, penso eu, a operação do Espírito Santo se realiza, as que já estão se voltando para uma vida melhor e caminhando pela via que conduz a Jesus Cristo, isto é, as que se ocupam na prática de boas ações e permanecem em Deus.

[6] Que a atuação do Pai e do Filho opera tanto nos santos quanto nos pecadores é manifesto por isto: todos os seres racionais são participantes da Palavra, isto é, da razão, e por esse meio trazem em si certas sementes de sabedoria e justiça, implantadas neles, que é Cristo. Ora, naquele que verdadeiramente existe, e que disse por Moisés: “EU SOU O QUE SOU”, todas as coisas, sejam quais forem, participam; e essa participação em Deus Pai é compartilhada tanto por justos como por pecadores, por seres racionais e irracionais, e por todas as coisas universalmente que existem. O apóstolo Paulo também mostra verdadeiramente que todos têm participação em Cristo, quando diz: “Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? isto é, para fazer descer a Cristo; ou: Quem descerá ao abismo? isto é, para fazer subir a Cristo dentre os mortos.” Mas o que diz a escritura? “A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração.” Com isso ele quer dizer que Cristo está no coração de todos, no que diz respeito ao fato de Ele ser a Palavra ou Razão, pela participação em quem eles são seres racionais. Aquela declaração no Evangelho também: “Se eu não tivesse vindo e não lhes tivesse falado, não teriam pecado; mas agora não têm desculpa para o seu pecado”, torna manifesto a todos os que têm conhecimento racional por quanto tempo o homem está sem pecado e a partir de que momento se torna sujeito a ele; como, participando da Palavra ou Razão, os homens são ditos como tendo pecado, a saber, desde o momento em que se tornam capazes de entendimento e conhecimento, quando a razão implantada neles lhes sugere a diferença entre o bem e o mal; e, depois de já começarem a saber o que é o mal, tornam-se culpáveis de pecado, se o cometerem. E este é o sentido da expressão de que os homens não têm desculpa para o seu pecado, a saber, que, desde o momento em que a Palavra ou Razão divina começa a lhes mostrar interiormente a diferença entre o bem e o mal, eles devem evitar e se guardar daquilo que é perverso; “pois para aquele que sabe fazer o bem e não o faz, para ele isso é pecado”. Além disso, que todos os homens não estão sem comunhão com Deus é ensinado no Evangelho pelas palavras do Salvador: “O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! porque o reino de Deus está dentro de vós.” Aqui, porém, devemos ver se isso não traz o mesmo sentido daquela expressão em Gênesis: “E soprou em seu rosto o fôlego de vida, e o homem tornou-se alma vivente.” Pois, se isso for entendido como se aplicando de modo geral a todos os homens, então todos os homens têm participação em Deus.

[7] Mas, se isso deve ser entendido como dito do Espírito de Deus, uma vez que também se encontra Adão profetizando algumas coisas, então pode não ser tomado como de aplicação geral, mas como restrito aos que são santos. Finalmente, também no tempo do dilúvio, quando toda carne havia corrompido seu caminho diante de Deus, registra-se que Deus falou assim, como a respeito de homens indignos e pecadores: “O meu Espírito não permanecerá para sempre com esses homens, porque eles são carne.” Pelo que se mostra claramente que o Espírito de Deus é retirado de todos os que são indignos. Nos Salmos também está escrito: “Tu lhes tiras o espírito, e eles morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e renovas a face da terra”; o que manifestamente se refere ao Espírito Santo, que, depois que pecadores e pessoas indignas foram removidos e destruídos, cria para si um novo povo e renova a face da terra, quando, abandonando, pela graça do Espírito, o velho homem com suas obras, eles começam a andar em novidade de vida. E, portanto, a expressão é corretamente aplicada ao Espírito Santo, porque ele habitará não em todos os homens, nem naqueles que são carne, mas naqueles cuja terra foi renovada. Por fim, por essa razão a graça e a revelação do Espírito Santo eram concedidas pela imposição das mãos dos apóstolos após o batismo. Nosso Salvador também, depois da ressurreição, quando as coisas antigas já haviam passado e todas haviam se tornado novas, sendo Ele mesmo um novo homem e o primogênito dentre os mortos, e Seus apóstolos também renovados pela fé em Sua ressurreição, diz: “Recebei o Espírito Santo.” Isso é, sem dúvida, o que o Senhor Salvador quis transmitir no Evangelho, quando disse que vinho novo não pode ser posto em odres velhos, mas ordenou que os odres fossem feitos novos; isto é, que os homens andassem em novidade de vida, para que pudessem receber o vinho novo, isto é, a novidade da graça do Espírito Santo. Desse modo, então, a atuação do poder de Deus Pai e do Filho se estende sem distinção a toda criatura; mas encontramos participação no Espírito Santo somente nos santos. E por isso se diz: “Ninguém pode dizer que Jesus é Senhor, senão pelo Espírito Santo.” E em certa ocasião, dificilmente até mesmo os próprios apóstolos são considerados dignos de ouvir as palavras: “Recebereis a virtude do Espírito Santo que virá sobre vós.” Por essa razão, também penso que se segue que aquele que pecou contra o Filho do Homem é digno de perdão; porque, se aquele que participa da Palavra ou Razão de Deus deixa de viver de acordo com a razão, parece ter caído em estado de ignorância ou loucura, e por isso merecer perdão; ao passo que aquele que foi considerado digno de ter uma porção do Espírito Santo, e recaiu, por esse mesmo ato e obra é dito culpado de blasfêmia contra o Espírito Santo. Que ninguém, porém, suponha que nós, ao termos dito que o Espírito Santo é conferido somente aos santos, mas que os benefícios ou operações do Pai e do Filho se estendem aos bons e maus, aos justos e injustos, damos com isso preferência ao Espírito Santo acima do Pai e do Filho, ou afirmamos que Sua dignidade é maior, o que certamente seria conclusão muito ilógica. Pois descrevemos a peculiaridade própria de Sua graça e de Suas operações. Além disso, nada na Trindade pode ser chamado maior ou menor, uma vez que a fonte da divindade sozinha contém todas as coisas por Sua Palavra e Razão, e pelo Espírito de Sua boca santifica todas as coisas dignas de santificação, como está escrito no Salmo: “Pela palavra do Senhor foram firmados os céus, e todo o seu exército pelo Espírito da sua boca.” Há também uma atuação especial de Deus Pai, além daquela pela qual concedeu a todas as coisas o dom da vida natural. Há também um ministério especial do Senhor Jesus Cristo para aqueles a quem ele confere por natureza o dom da razão, por meio do qual são capacitados a ser corretamente aquilo que são. Há também outra graça do Espírito Santo, que é concedida aos merecedores, através do ministério de Cristo e da atuação do Pai, em proporção aos méritos daqueles que se tornam capazes de recebê-la. Isso é apontado com muita clareza pelo apóstolo Paulo, quando demonstra que o poder da Trindade é uno e o mesmo, nas palavras: “Há diversidade de dons, mas o mesmo Espírito; e há diversidade de ministérios, mas o mesmo Senhor; e há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil.” Do que segue com muita clareza que não há diferença na Trindade, mas aquilo que é chamado dom do Espírito é manifestado por meio do Filho e operado por Deus Pai. “Mas todas estas coisas opera um e o mesmo Espírito, repartindo particularmente a cada um como quer.”

[8] Feitas essas declarações a respeito da unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, voltemos à ordem na qual começamos a discussão. Deus Pai concede a todos a existência; e a participação em Cristo, no que se refere ao fato de Ele ser a Palavra da razão, torna-os seres racionais. Do que segue que são dignos ou de louvor ou de censura, porque capazes de virtude e de vício. Por essa causa, portanto, está presente a graça do Espírito Santo, para que esses seres que não são santos em sua essência sejam tornados santos pela participação nele. Vendo, então, que, em primeiro lugar, recebem sua existência de Deus Pai; em segundo lugar, sua natureza racional da Palavra; e, em terceiro lugar, sua santidade do Espírito Santo — aqueles que previamente foram santificados pelo Espírito Santo tornam-se novamente capazes de receber Cristo, no que se refere ao fato de Ele ser a justiça de Deus; e aqueles que alcançaram progresso até esse grau pela santificação do Espírito Santo obterão, ainda assim, o dom da sabedoria segundo o poder e a operação do Espírito de Deus. E considero que esse é o sentido de Paulo, quando diz que a uns é dada a palavra da sabedoria, a outros a palavra do conhecimento, segundo o mesmo Espírito. E, enquanto aponta a distinção individual dos dons, ele os remete todos à fonte de todas as coisas, nas palavras: “Há diversidade de operações, mas um só Deus, que opera tudo em todos.” Daí também que a operação do Pai, que confere existência a todas as coisas, se mostra mais gloriosa e magnífica, enquanto cada um, pela participação em Cristo, como sendo sabedoria, conhecimento e santificação, progride e avança para graus mais altos de perfeição; e, visto que é pela participação no Espírito Santo que alguém se torna mais puro e mais santo, obtém, quando se torna digno, a graça da sabedoria e do conhecimento, a fim de que, depois que todas as manchas de poluição e ignorância tenham sido purificadas e removidas, possa fazer tão grande avanço em santidade e pureza que a natureza que recebeu de Deus se torne digna daquele que a deu, pura e perfeita; de modo que o ser que existe se torne digno daquele que o chamou à existência. Pois, dessa maneira, aquele que for tal como seu Criador quis que fosse receberá de Deus o poder de sempre existir e permanecer para sempre. Para que isso seja assim, e para que aqueles que Ele criou possam permanecer incessante e inseparavelmente presentes com Aquele que É, compete à sabedoria instruí-los e treiná-los, e levá-los à perfeição pela confirmação de Seu Espírito Santo e pela santificação incessante, somente pela qual são capazes de receber Deus. Assim, então, pela renovação da atuação incessante do Pai, do Filho e do Espírito Santo em nós, em seus diversos estágios de progresso, poderemos talvez algum dia, ainda que com dificuldade, contemplar a vida santa e bendita, na qual, já que somente após muitas lutas somos capazes de alcançá-la, devemos continuar de tal modo que jamais nos sobreviva qualquer saciedade dessa bem-aventurança; mas, quanto mais percebemos sua bem-aventurança, tanto mais deve aumentar e intensificar-se em nós o desejo por ela, enquanto recebemos e retemos cada vez com maior zelo e liberdade o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mas, se a saciedade vier algum dia a tomar conta de alguém que esteja no mais alto e perfeito cume da conquista, não penso que esse tal seja de repente deposto de sua posição e caia; antes, deve declinar gradual e pouco a pouco, de modo que às vezes possa acontecer que, se houver um breve lapso, e a pessoa rapidamente se arrependa e volte a si, ela não caia por completo, mas refaça seus passos, retorne ao seu lugar anterior e recupere novamente aquilo que havia perdido por negligência.

[9] Para expor a natureza da defecção ou queda, da parte daqueles que se conduzem com descuido, não parecerá fora de lugar empregar uma semelhança a título de ilustração. Suponhamos, então, o caso de alguém que tenha se familiarizado gradualmente com uma arte ou ciência, digamos geometria ou medicina, até alcançar a perfeição, tendo-se treinado durante muito tempo em seus princípios e prática, de modo a atingir domínio completo da arte: nunca poderia acontecer a alguém assim que, ao deitar-se para dormir de posse de sua habilidade, despertasse em estado de ignorância. Não é nosso propósito aqui apresentar ou considerar aqueles acidentes ocasionados por alguma lesão ou fraqueza, pois não se aplicam à nossa ilustração presente. Segundo nosso ponto de vista, então, enquanto esse geômetra ou médico continuar a exercitar-se no estudo de sua arte e na prática de seus princípios, o conhecimento de sua profissão permanecerá com ele; mas, se ele se afastar dessa prática e abandonar seus hábitos de diligência, então, por sua negligência, primeiro algumas poucas coisas lhe escaparão gradualmente, depois mais e mais, até que, com o tempo, tudo será esquecido e completamente apagado da memória. É possível, de fato, que, quando ele tiver apenas começado a decair e a ceder à influência corruptora de uma negligência ainda pequena, se for despertado e retornar rapidamente ao seu juízo, possa reparar aquelas perdas que até então ainda são recentes e recuperar aquele conhecimento que até ali havia sido apenas levemente apagado de sua mente. Apliquemos isso agora ao caso daqueles que se dedicaram ao conhecimento e à sabedoria de Deus, cujo aprendizado e diligência ultrapassam incomparavelmente todo outro treinamento; e contemplemos, segundo a forma da semelhança empregada, o que é a aquisição do conhecimento ou o que é o seu desaparecimento, especialmente quando ouvimos do apóstolo o que é dito sobre os perfeitos, que verão face a face a glória do Senhor na revelação de Seus mistérios.

[10] Mas, em nosso desejo de mostrar os benefícios divinos concedidos a nós pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo, cuja Trindade é a fonte de toda santidade, caímos, no que dissemos, numa digressão, tendo considerado que o tema da alma, que acidentalmente surgiu diante de nós, deveria ser tocado, ainda que brevemente, visto que discutíamos um tópico relacionado à nossa natureza racional. Consideraremos, porém, com a permissão de Deus por meio de Jesus Cristo e do Espírito Santo, mais oportunamente, em seu devido lugar, o tema de todos os seres racionais, os quais se distinguem em três gêneros e espécies.

[11] Depois da exposição que conduzimos brevemente, da melhor maneira que pudemos, a respeito do Pai, do Filho e do Espírito Santo, segue-se que ofereçamos algumas observações sobre a natureza dos seres racionais, sobre suas espécies e ordens, ou sobre os ofícios tanto dos poderes santos quanto dos malignos, e também sobre aqueles que ocupam uma posição intermediária entre esses poderes bons e maus e que ainda se encontram em estado de luta e prova. Pois encontramos na santa escritura numerosos nomes de certas ordens e ofícios, não somente de seres santos, mas também de seres de descrição oposta, os quais colocaremos diante de nós em primeiro lugar; e cujo significado nos esforçaremos, em segundo lugar, por determinar, na medida do possível. Há certos santos anjos de Deus que Paulo chama de espíritos ministradores, enviados para servir em favor dos que hão de herdar a salvação. Nos escritos do próprio Paulo também o encontramos designando-os, de alguma fonte desconhecida, como tronos, dominações, principados e potestades; e, depois dessa enumeração, como se soubesse que ainda havia outros ofícios e ordens racionais além daqueles que havia nomeado, ele diz do Salvador: “Que está acima de todo principado, e poder, e força, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste mundo, mas também no vindouro.” Com isso ele mostra que havia certos seres além daqueles que mencionou, que podem de fato ser nomeados neste mundo, mas não foram então enumerados por ele, e talvez não fossem conhecidos por qualquer outro indivíduo; e que havia outros que não podem ser nomeados neste mundo, mas o serão no mundo vindouro.

[12] Em seguida, devemos saber que todo ser que é dotado de razão, e transgride seus estatutos e limites, está sem dúvida envolvido em pecado por desviar-se da retidão e da justiça. Toda criatura racional, portanto, é capaz de merecer louvor e censura: louvor, se, em conformidade com a razão que possui, avança para coisas melhores; censura, se se afasta do plano e curso da retidão, razão pela qual está justamente sujeita a dores e penas. E isso também deve ser entendido como aplicando-se ao próprio diabo, e àqueles que estão com ele e são chamados seus anjos. Ora, os títulos desses seres precisam ser explicados, para que saibamos de quem estamos falando. O nome de Diabo, Satanás e Maligno, que também é descrito como Inimigo de Deus, é mencionado em muitas passagens da escritura. Além disso, certos anjos do diabo são mencionados, e também um príncipe deste mundo, que, seja o próprio diabo ou outro, ainda não está claramente manifesto. Fala-se também de certos príncipes deste mundo como possuidores de uma espécie de sabedoria que será reduzida a nada; mas se estes são aqueles príncipes que também são os principados contra os quais temos de lutar, ou se são outros seres, parece-me um ponto sobre o qual não é fácil a ninguém pronunciar-se. Depois dos principados, também se nomeiam certas potestades contra as quais temos de lutar e travar combate, até mesmo contra os príncipes deste mundo e os dominadores destas trevas. Certos poderes espirituais da maldade, nas regiões celestiais, também são mencionados pelo próprio Paulo. Que dizer, além disso, dos espíritos maus e imundos mencionados no Evangelho? Depois temos certos seres celestiais chamados por nome semelhante, mas que se diz dobrarem os joelhos, ou estarem para dobrar os joelhos, ao nome de Jesus; sim, até mesmo as coisas na terra e as coisas debaixo da terra, que Paulo enumera em ordem. E certamente, em um lugar em que discutimos a natureza dos seres racionais, não convém calar sobre nós mesmos, que somos seres humanos e somos chamados animais racionais; e também não se deve deixar de lado, como coisa sem importância, o fato de que até mesmo entre nós, seres humanos, certas ordens diferentes são mencionadas nas palavras: “A porção do Senhor é o seu povo, Jacó; Israel é a corda da sua herança.” Outras nações, além disso, são chamadas parte dos anjos; pois, quando o Altíssimo dividiu as nações e dispersou os filhos de Adão, fixou os limites das nações segundo o número dos anjos de Deus. Portanto, juntamente com as outras naturezas racionais, devemos também examinar cuidadosamente a razão da alma humana.

[13] Depois da enumeração, então, de tantos e tão importantes nomes de ordens e ofícios, sob os quais é certo que existem seres pessoais, investiguemos se Deus, o criador e fundador de todas as coisas, criou alguns deles santos e felizes, de modo que não pudessem admitir elemento algum de natureza oposta, e outros de maneira que fossem capazes tanto de virtude quanto de vício; ou se devemos supor que Ele criou alguns de tal modo que fossem totalmente incapazes de virtude, e outros totalmente incapazes de maldade, mas com o poder de permanecer somente em um estado de felicidade, e ainda outros capazes de uma ou de outra condição. Para que nossa primeira investigação comece pelos próprios nomes, consideremos se os santos anjos, desde o período de sua primeira existência, sempre foram santos, e ainda o são, e o serão, e nunca admitiram nem tiveram poder de admitir qualquer ocasião de pecado. Depois, em seguida, consideremos se aqueles que são chamados santos principados começaram, desde o momento de sua criação por Deus, a exercer poder sobre alguns que lhes foram submetidos, e se estes últimos foram criados de tal natureza e formados justamente para o propósito de serem sujeitos e subordinados. Da mesma forma, também, se aqueles chamados potestades foram criados de tal natureza e para o expresso propósito de exercer poder, ou se sua chegada a tal poder e dignidade é recompensa e mérito de sua virtude. Além disso, se aqueles que são chamados tronos ou assentos ganharam essa estabilidade de felicidade ao mesmo tempo em que vieram à existência, de modo a possuí-la somente pela vontade do Criador; ou se aqueles chamados dominações receberam seu domínio, não como recompensa por seu progresso, mas como privilégio peculiar de sua criação, de modo que isso seja, em certo grau, inseparável deles e natural. Ora, se adotamos a visão de que os santos anjos, os santos poderes, os bem-aventurados assentos, as gloriosas virtudes e as magníficas dominações devem ser considerados como possuindo tais poderes, dignidades e glórias em virtude de sua própria natureza, então parecerá seguir-se, sem dúvida, que aqueles seres mencionados como exercendo ofícios de natureza oposta devem ser considerados da mesma forma; de modo que aqueles principados contra os quais temos de lutar devem ser vistos não como tendo recebido esse espírito de oposição e resistência a todo o bem posteriormente, ou como tendo caído do bem pela liberdade da vontade, mas como tendo isso em si mesmos como a essência do seu ser desde o princípio de sua existência. Da mesma forma também ocorrerá com as potestades e virtudes, em nenhuma das quais a maldade seria posterior ou subsequente à sua primeira existência. Também aqueles a quem o apóstolo chamou governadores e príncipes das trevas deste mundo seriam ditos, com respeito ao seu governo e ocupação das trevas, não cair por perversidade de intenção, mas por necessidade de sua criação. O raciocínio lógico nos compelirá a adotar a mesma visão com respeito aos espíritos maus e malignos e aos demônios imundos. Mas, se manter essa visão a respeito dos poderes malignos e adversos parecer absurdo, como certamente é absurdo que a causa de sua maldade seja retirada da decisão de sua própria vontade e atribuída por necessidade ao Criador, por que não deveríamos também ser obrigados a fazer confissão semelhante a respeito dos poderes bons e santos, isto é, que o bem que há neles não lhes pertence por ser essencial, coisa que manifestamente mostramos ser o caso somente de Cristo e do Espírito Santo, como, sem dúvida, também do Pai? Pois ficou provado que não havia nada composto na natureza da Trindade, de modo que essas qualidades parecessem pertencer a ela como consequências acidentais. Do que se segue que, no caso de toda criatura, é resultado de suas próprias obras e movimentos que aqueles poderes que parecem dominar sobre outros ou exercer poder ou governo tenham sido preferidos e colocados acima daqueles sobre os quais se diz que governam ou exercem poder; e isso não por privilégio peculiar inerente à sua constituição, mas por causa do mérito.

[14] Mas, para que não pareçamos construir nossas afirmações sobre assuntos de tanta importância e dificuldade apenas com base em inferência, ou exigir o assentimento de nossos ouvintes ao que é apenas conjectural, vejamos se podemos obter algumas declarações da santa escritura, por cuja autoridade essas posições possam ser mantidas com maior credibilidade. E, em primeiro lugar, apresentaremos o que a santa escritura contém a respeito dos poderes malignos; depois continuaremos nossa investigação a respeito dos outros, conforme o Senhor se agrade em nos iluminar, para que em questões tão difíceis possamos discernir o que está mais próximo da verdade, ou o que devem ser nossas opiniões de acordo com o padrão da religião. Ora, encontramos no profeta Ezequiel duas profecias escritas ao príncipe de Tiro, a primeira das quais poderia parecer a alguém, antes de ouvir também a segunda, ser dita sobre algum homem que fosse príncipe dos tírios. Por enquanto, portanto, nada tomaremos daquela primeira profecia; mas, como a segunda é manifestamente de tal natureza que não pode de modo algum ser entendida de um homem, e sim de algum poder superior que caiu de uma posição mais elevada e foi reduzido a uma condição inferior e pior, dela tomaremos uma ilustração pela qual se poderá demonstrar com a máxima clareza que aqueles poderes adversos e malignos não foram formados ou criados assim por natureza, mas caíram de uma posição melhor para uma pior, e foram transformados em seres maus; e que aqueles poderes bem-aventurados também não eram de tal natureza que fossem incapazes de admitir o que lhes fosse oposto, caso assim o quisessem e se tornassem negligentes, não guardando com o máximo cuidado a bem-aventurança de sua condição. Pois, se se relata que aquele que é chamado príncipe de Tiro estava entre os santos, e era sem mancha, e foi colocado no paraíso de Deus, e adornado também com uma coroa de formosura e beleza, deve-se supor que tal ser pudesse ser em algum grau inferior a qualquer dos santos? Pois ele é descrito como tendo sido adornado com uma coroa de formosura e beleza, e como tendo andado sem mancha no paraíso de Deus; e como pode alguém supor que tal ser não fosse um daqueles poderes santos e bem-aventurados que, estando colocados em um estado de felicidade, devemos crer que não eram dotados de outra honra senão essa? Mas vejamos o que somos ensinados pelas palavras da própria profecia. “Veio a mim a palavra do Senhor”, diz o profeta, “dizendo: Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o príncipe de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Tu eras o selo da semelhança, e uma coroa de formosura entre as delícias do paraíso; estavas adornado com toda pedra preciosa, e vestido de sardônica, topázio, esmeralda, carbúnculo, safira e jaspe, postos em ouro e prata, e também de ágata, ametista, crisólito, berilo e ônix; também encheste teus tesouros e teus celeiros dentro de ti com ouro. Desde o dia em que foste criado com os querubins, eu te coloquei no monte santo de Deus. Estavas no meio das pedras de fogo; eras sem mancha nos teus dias, desde o dia em que foste criado, até que se encontrou iniquidade em ti; pela grandeza do teu comércio encheste teus celeiros de iniquidade, pecaste e foste ferido no monte de Deus. E um querubim te expulsou do meio das pedras ardentes; teu coração se exaltou por causa da tua formosura, tua disciplina se corrompeu juntamente com tua beleza; por causa da multidão dos teus pecados, eu te lancei por terra diante dos reis; eu te entreguei para espetáculo e zombaria, por causa da multidão dos teus pecados e de tuas iniquidades; porque por teu comércio poluíste teus lugares santos. E farei sair fogo do meio de ti, e ele te devorará, e te farei em cinza e brasas sobre a terra à vista de todos os que te veem; e todos os que te conhecem entre as nações chorarão sobre ti. Tornaste-te destruição, e não existirás mais para sempre.” Vendo, então, que tais são as palavras do profeta, quem há que, ao ouvir “tu eras o selo da semelhança, e uma coroa de formosura entre as delícias do paraíso”, ou “desde o dia em que foste criado com os querubins, eu te coloquei no monte santo de Deus”, possa enfraquecer tanto o sentido a ponto de supor que essa linguagem seja usada de algum homem ou santo, para não dizer do príncipe de Tiro? Ou que pedras ardentes poderia ele imaginar em cujo meio algum homem pudesse viver? Ou quem poderia ser considerado sem mancha desde o próprio dia de sua criação, e, sendo depois encontrada maldade nele, ser dito então que foi lançado sobre a terra? Pois o sentido disso é que aquele que ainda não estava sobre a terra é dito como tendo sido lançado nela; e seus lugares santos também são ditos como tendo sido poluídos. Mostramos, então, que o que citamos do profeta Ezequiel a respeito do príncipe de Tiro se refere a um poder adverso, e por isso se prova com muita clareza que tal poder foi antes santo e feliz; de cujo estado de felicidade caiu a partir do momento em que a iniquidade foi encontrada nele, sendo arremessado à terra, e não era tal por natureza e criação. Somos da opinião, portanto, de que essas palavras são ditas de um certo anjo que havia recebido o ofício de governar a nação dos tírios, e a quem também suas almas haviam sido confiadas para que delas cuidasse. Mas que Tiro, ou que almas de tírios devemos entender — se aquela Tiro situada dentro dos limites da província da Fenícia, ou alguma outra da qual esta que conhecemos na terra é modelo; e as almas dos tírios, se são as da primeira ou aquelas pertencentes àquela Tiro entendida espiritualmente — não parece ser assunto que requeira exame neste lugar; para que talvez não pareçamos investigar de maneira apressada assuntos de tanto mistério e importância, que exigem labor e tratamento próprios.

[15] Novamente, somos ensinados pelo profeta Isaías da seguinte maneira a respeito de outro poder adverso. O profeta diz: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, que costumavas surgir pela manhã! Aquele que assaltava todas as nações está quebrado e abatido até a terra. Tu disseste, na verdade, em teu coração: Subirei ao céu; acima das estrelas do céu colocarei meu trono; sentarei sobre um alto monte, acima dos altos montes que estão para o norte; subirei acima das nuvens; serei semelhante ao Altíssimo. Agora, porém, serás levado ao mundo inferior, aos fundamentos da terra. Aqueles que te virem se espantarão contigo e dirão: É este o homem que perturbava toda a terra, que abalava os reis, que fazia do mundo inteiro um deserto, que destruía cidades e não soltava os que estavam em cadeias? Todos os reis das nações dormiram em honra, cada um em sua própria casa; mas tu serás lançado sobre os montes, amaldiçoado com a multidão dos mortos que foram traspassados por espadas e desceram ao mundo inferior. Como veste coberta de sangue e manchada, não ficarás limpo; tampouco ficarás limpo, porque destruíste a minha terra e mataste o meu povo; não permanecerás para sempre, semente maligníssima. Preparai vossos filhos para a morte por causa dos pecados de vosso pai, para que não se levantem de novo, nem herdem a terra, nem encham a terra de guerras. E eu me levantarei contra eles, diz o Senhor dos exércitos, e farei perecer o seu nome, e o seu remanescente, e a sua descendência.” Muito evidentemente por essas palavras se mostra que caiu do céu aquele que antes era Lúcifer e que costumava surgir pela manhã. Pois, se, como alguns pensam, ele era uma natureza de trevas, como é que se diz que Lúcifer existiu antes? Ou como poderia surgir pela manhã aquele que nada de luz tinha em si? Mais ainda, o próprio Salvador nos ensina, dizendo a respeito do diabo: “Eis que eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.” Pois houve um tempo em que ele era luz. Além disso, nosso Senhor, que é a verdade, comparou o poder de Sua própria gloriosa vinda ao relâmpago, nas palavras: “Pois assim como o relâmpago brilha de uma extremidade do céu até a outra, assim será a vinda do Filho do Homem.” E, ainda assim, ao compará-lo ao relâmpago e dizer que caiu do céu, quis mostrar por isso que ele outrora estivera no céu, tivera lugar entre os santos e gozara de participação naquela luz da qual todos os santos participam, pela qual se tornam anjos de luz, e pela qual os apóstolos são chamados pelo Senhor de luz do mundo. Dessa maneira, então, esse ser existiu uma vez como luz antes de se desviar, cair para este lugar e ter sua glória transformada em pó, o que é especialmente a marca dos ímpios, como também diz o profeta; por isso também foi chamado príncipe deste mundo, isto é, de uma habitação terrena, pois exercia poder sobre aqueles que obedeciam à sua maldade, uma vez que todo este mundo — pois chamo mundo a este lugar terreno — jaz no maligno e neste apóstata. Que ele é um apóstata, isto é, fugitivo, até o Senhor o diz no livro de Jó: “Tomarás com anzol o dragão apóstata”, isto é, fugitivo. Ora, é certo que por dragão se entende o próprio diabo. Se, então, eles são chamados poderes adversos, e se diz que outrora eram sem mancha, enquanto a pureza impecável existe no ser essencial de ninguém senão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas é qualidade acidental em toda coisa criada; e, uma vez que aquilo que é acidental também pode desaparecer, e esses poderes opostos outrora eram imaculados e estavam entre aqueles que ainda permanecem sem mancha, é evidente por tudo isso que ninguém é puro por essência ou natureza, e que ninguém era por natureza impuro. E a consequência disso é que está em nós mesmos e em nossas próprias ações possuir felicidade ou santidade; ou, por preguiça e negligência, cair da felicidade para a maldade e a ruína, a tal ponto que, por excessivo progresso, por assim dizer, na maldade — se alguém for culpado de tão grande negligência —, possa até descer àquela condição em que será transformado no que se chama um poder adverso.

[16] Um fim ou consumação parece indicar a perfeição e a completude das coisas. E isso nos recorda aqui que, se houver alguém imbuído do desejo de ler e entender assuntos de tanta dificuldade e importância, deve trazer para esse esforço um entendimento perfeito e instruído, para que talvez, se não tiver experiência em questões desse tipo, elas não lhe pareçam vãs e supérfluas; ou, se sua mente estiver cheia de preconceitos e pré-juízos a respeito de outros pontos, julgue estas coisas como heréticas e contrárias à fé da Igreja, cedendo assim não tanto às convicções da razão quanto ao dogmatismo do preconceito. Esses assuntos, de fato, são tratados por nós com grande solicitude e cautela, mais na forma de investigação e discussão do que na de decisão fixa e certa. Pois apontamos nas páginas anteriores aquelas questões que devem ser expostas em proposições dogmáticas claras, como penso ter sido feito da melhor maneira possível ao falar da Trindade. Mas, na presente ocasião, nosso exercício deve ser conduzido, tanto quanto pudermos, no estilo de uma disputa e investigação, e não de definição estrita.

[17] O fim do mundo, então, e a consumação final, acontecerão quando cada um for submetido ao castigo por seus pecados; um tempo que só Deus conhece, quando dará a cada um aquilo que merece. Pensamos, de fato, que a bondade de Deus, por meio de Seu Cristo, pode trazer de volta todas as Suas criaturas a um só fim, sendo até mesmo Seus inimigos vencidos e subjugados. Pois assim diz a santa escritura: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado de teus pés.” E, se o sentido da linguagem do profeta aqui for menos claro, podemos compreendê-lo pelo apóstolo Paulo, que fala mais abertamente, assim: “Porque convém que Cristo reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés.” Mas, se até essa declaração franca do apóstolo não nos informar suficientemente o que significa os inimigos serem colocados debaixo de Seus pés, ouçamos o que ele diz nas palavras seguintes: “Porque todas as coisas lhe devem estar sujeitas.” Que é, então, esse sujeitar, pelo qual todas as coisas devem ser submetidas a Cristo? Sou de opinião que é essa mesma sujeição pela qual nós também desejamos estar sujeitos a Ele, pela qual também os apóstolos estavam sujeitos, e todos os santos que foram seguidores de Cristo. Pois o nome sujeição, pelo qual somos sujeitos a Cristo, indica que a salvação que procede dEle pertence aos seus súditos, de acordo com a declaração de Davi: “Porventura não estará minha alma sujeita a Deus? Dele vem a minha salvação.”

[18] Vendo, então, que tal é o fim, quando todos os inimigos serão subjugados a Cristo, quando a morte — o último inimigo — será destruída, e quando o reino será entregue por Cristo, a quem todas as coisas estão sujeitas, a Deus Pai; contemplemos, digo, a partir de tal fim, os princípios das coisas. Pois o fim é sempre semelhante ao princípio; e, portanto, assim como há um fim para todas as coisas, assim também devemos entender que houve um princípio único; e, assim como há um fim único para muitas coisas, assim de um só princípio brotam muitas diferenças e variedades, as quais, pela bondade de Deus, pela sujeição a Cristo e pela unidade do Espírito Santo, são novamente chamadas de volta a um só fim, semelhante ao princípio: todos aqueles, a saber, que, dobrando o joelho ao nome de Jesus, manifestam assim sua sujeição a Ele; e estes são os que estão no céu, na terra e debaixo da terra; por meio de quais três classes o universo inteiro das coisas é apontado, aqueles, a saber, que desde aquele único princípio foram distribuídos, cada um segundo a diversidade de sua conduta, entre as diferentes ordens, conforme o seu merecimento; pois neles não havia bondade por ser essencial, como em Deus, em Seu Cristo e no Espírito Santo. Pois somente na Trindade, que é autora de todas as coisas, a bondade existe em virtude do ser essencial; ao passo que os outros a possuem como qualidade acidental e perecível, e somente então desfrutam da bem-aventurança quando participam da santidade, da sabedoria e da própria divindade. Mas, se negligenciam e desprezam tal participação, então cada um, por culpa de sua própria preguiça, torna-se, um mais rapidamente, outro mais lentamente, um em maior, outro em menor grau, a causa de sua própria queda. E, visto que, como observamos, a queda pela qual um indivíduo se afasta de sua posição é caracterizada por grande diversidade, segundo os movimentos da mente e da vontade, um homem caindo com maior facilidade, outro com maior dificuldade, para condição inferior; nisso se vê o justo juízo da providência de Deus, que faz acontecer a cada um segundo a diversidade de sua conduta, na proporção do merecimento de sua declinação e defecção. Alguns daqueles, de fato, que permaneceram naquele princípio que descrevemos como semelhante ao fim que há de vir, obtiveram, na ordenação e arranjo do mundo, a categoria de anjos; outros a de influências, outros a de principados, outros a de potestades, para que exercessem poder sobre aqueles que precisam ter poder sobre sua cabeça. Outros, ainda, receberam a categoria de tronos, tendo o ofício de julgar ou governar aqueles que disso precisam; outros, domínio, sem dúvida, sobre servos; todas as quais coisas são conferidas pela Providência divina em juízo justo e imparcial, segundo seus méritos e segundo o progresso que haviam feito na participação e imitação de Deus. Mas aqueles que foram removidos de seu estado primitivo de bem-aventurança não foram removidos de modo irrecuperável; antes, foram colocados sob a regra daquelas ordens santas e bem-aventuradas que descrevemos; e, valendo-se da ajuda delas, e sendo remodelados por princípios salutares e disciplina, podem recuperar-se e ser restaurados à sua condição de felicidade. De tudo isso sou de opinião, tanto quanto posso ver, que essa ordem da raça humana foi designada para que, no mundo futuro, ou nos séculos vindouros, quando houver novos céus e nova terra, de que fala Isaías, ela seja restaurada àquela unidade prometida pelo Senhor Jesus em sua oração a Deus Pai em favor de Seus discípulos: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti; para que também eles sejam um em nós”; e novamente, quando diz: “Para que sejam um, como nós somos um; eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em um.” E isso é ainda confirmado pela linguagem do apóstolo Paulo: “Até que todos cheguemos à unidade da fé, ao homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo.” E em harmonia com isso está a declaração do mesmo apóstolo, quando nos exorta, nós que já nesta vida estamos colocados na Igreja, na qual está a forma daquele reino que há de vir, para essa mesma semelhança de unidade: “Que todos faleis a mesma coisa, e que não haja entre vós divisões; antes sejais perfeitamente unidos no mesmo entendimento e no mesmo parecer.”

[19] Deve-se ter em mente, contudo, que certos seres que caíram daquele único princípio de que falamos afundaram em tal profundidade de indignidade e maldade que são considerados totalmente indignos daquele treinamento e instrução pelos quais a raça humana, enquanto na carne, é treinada e instruída com a assistência dos poderes celestiais; e, ao contrário, permanecem em estado de inimizade e oposição contra aqueles que estão recebendo essa instrução e ensino. Daí vem que toda esta vida mortal está cheia de lutas e provações, causadas pela oposição e inimizade daqueles que caíram de uma condição melhor sem olhar de forma alguma para trás, e que são chamados o diabo e seus anjos, e as outras ordens do mal, que o apóstolo classificou entre os poderes adversos. Mas se alguma dessas ordens que agem sob o governo do diabo e obedecem às suas más ordens será, em um mundo futuro, convertida à justiça por possuir a faculdade da liberdade da vontade, ou se uma maldade persistente e inveterada pode ser transformada pelo poder do hábito em natureza, é um resultado que tu mesmo, leitor, poderás aprovar, se nem nestes mundos presentes, visíveis e temporais, nem naqueles que são invisíveis e eternos, essa porção vier a ser totalmente diferente da unidade e harmonia finais das coisas. Enquanto isso, porém, tanto nesses mundos temporais que se veem, quanto nos mundos eternos que são invisíveis, todos esses seres são dispostos, segundo um plano regular, na ordem e grau de seus méritos; de modo que alguns deles, nos primeiros tempos, outros nos segundos, alguns até mesmo nos últimos, após terem suportado punições mais pesadas e mais severas, sofridas por longo período, e por muitos séculos, por assim dizer, melhorados por esse método rigoroso de disciplina, e restaurados primeiro pela instrução dos anjos e depois pelos poderes de categoria mais elevada, e avançando assim por cada estágio para condição melhor, cheguem até aquilo que é invisível e eterno, tendo percorrido, por uma espécie de treinamento, cada um dos ofícios dos poderes celestiais. Do que penso que parecerá seguir-se, por inferência, que toda natureza racional pode, passando de uma ordem para outra, percorrer cada uma em direção a todas, e avançar de todas para cada uma, sendo sujeita a diversos graus de progresso e fracasso conforme suas próprias ações e esforços, exercidos no uso de seu poder de livre vontade.

[20] Mas, visto que Paulo diz que certas coisas são visíveis e temporais, e outras, além destas, invisíveis e eternas, passemos a investigar de que modo as coisas que se veem são temporais — se porque não haverá absolutamente nada depois delas em todos aqueles períodos do mundo vindouro, nos quais aquela dispersão e separação a partir do único princípio está sendo restaurada a um só e mesmo fim e semelhança; ou se, embora a forma das coisas visíveis passe, sua natureza essencial não está sujeita à corrupção. E Paulo parece confirmar esta última visão, quando diz: “A aparência deste mundo passa.” Davi também parece afirmar o mesmo nas palavras: “Os céus perecerão, mas tu permanecerás; todos eles envelhecerão como vestimenta, e como um vestido os mudarás, e serão mudados.” Pois, se os céus devem ser mudados, certamente aquilo que é mudado não perece; e, se a aparência do mundo passa, isso de modo algum mostra que esteja ocorrendo aniquilação ou destruição da sua substância material, mas uma espécie de mudança de qualidade e transformação de aparência. Isaías também, ao declarar profeticamente que haverá novo céu e nova terra, sem dúvida sugere visão semelhante. Pois essa renovação do céu e da terra, e essa transmutação da forma do mundo presente, e essa mudança dos céus, sem dúvida serão preparadas para aqueles que estão caminhando por aquela via que apontamos acima e tendendo àquele alvo de felicidade ao qual, diz-se, até mesmo os inimigos serão submetidos, e no qual se diz que Deus será tudo em todos. E, se alguém imaginar que no fim a natureza material, isto é, corpórea, será totalmente destruída, não pode de modo algum conciliar isso com a minha visão de como seres tão numerosos e poderosos poderão viver e existir sem corpos, já que é atributo exclusivo da natureza divina — isto é, do Pai, do Filho e do Espírito Santo — existir sem qualquer substância material e sem participar em qualquer grau de um acessório corpóreo. Outro, talvez, dirá que no fim toda substância corpórea será tão pura e refinada que será como o éter, de pureza e claridade celestiais. Como serão as coisas, contudo, é conhecido com certeza somente por Deus e por aqueles que são seus amigos por meio de Cristo e do Espírito Santo.

[21] Os assuntos considerados no capítulo anterior foram expostos em linguagem geral, a natureza dos seres racionais sendo discutida mais por via de inferência inteligente do que por definição dogmática estrita, com exceção do lugar onde tratamos, da melhor maneira possível, das pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Devemos agora averiguar quais são as matérias que convém tratar nas páginas seguintes segundo nossa crença dogmática, isto é, em acordo com o credo da Igreja. Todas as almas e todas as naturezas racionais, sejam santas ou perversas, foram formadas ou criadas, e todas estas, segundo sua natureza própria, são incorpóreas; mas, embora incorpóreas, ainda assim foram criadas, porque todas as coisas foram feitas por Deus por meio de Cristo, como João ensina de modo geral em seu Evangelho, dizendo: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. Ela estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ela, e sem ela nada do que foi feito se fez.” O apóstolo Paulo, além disso, descrevendo as coisas criadas por espécies, números e ordens, fala assim, ao mostrar que todas as coisas foram feitas por meio de Cristo: “Nele foram criadas todas as coisas, as que há nos céus e as que há na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, dominações, principados ou potestades; tudo foi criado por ele e nele; e ele é antes de todas as coisas, e ele é a cabeça.” Ele, portanto, declara manifestamente que em Cristo e por meio de Cristo todas as coisas foram feitas e criadas, quer as visíveis, que são corpóreas, quer as invisíveis, que considero não serem outras senão os poderes incorpóreos e espirituais. Mas, das coisas que ele havia chamado geralmente de corpóreas ou incorpóreas, parece-me, nas palavras que seguem, enumerar os vários tipos, a saber, tronos, dominações, principados, potestades e influências.

[22] Essas matérias já foram mencionadas antes por nós, porque desejamos chegar de modo ordenado à investigação do sol, da lua e das estrelas por via de inferência lógica, e averiguar se também eles devem ser propriamente contados entre os principados, em razão de se dizer que foram criados em archás, isto é, para o governo do dia e da noite; ou se devem ser considerados como tendo apenas aquele governo do dia e da noite que exercem por cumprir o ofício de iluminá-los, e não são, na realidade, chefes da ordem dos principados.

[23] Ora, quando se diz que todas as coisas foram feitas por Ele, e que nEle foram criadas todas as coisas, tanto as que estão no céu quanto as que estão na terra, não pode haver dúvida de que também aquelas coisas que estão no firmamento, que é chamado céu, e no qual se diz que os luminares foram colocados, estão incluídas entre o número das coisas celestiais. E, em segundo lugar, visto que o curso da discussão descobriu manifestamente que todas as coisas foram feitas ou criadas, e que entre as coisas criadas não há nenhuma que não possa admitir bem e mal e ser capaz de ambos, que devemos pensar da seguinte opinião que certos de nossos amigos sustentam a respeito do sol, da lua e das estrelas, a saber, que são imutáveis e incapazes de se tornar o oposto do que são? Não poucos sustentaram essa visão até mesmo a respeito dos santos anjos, e certos hereges também a respeito das almas, que chamam naturezas espirituais.

[24] Em primeiro lugar, então, vejamos o que a própria razão pode descobrir a respeito do sol, da lua e das estrelas — se a opinião sustentada por alguns, de sua imutabilidade, é correta —, e que as declarações da santa escritura, tanto quanto possível, sejam primeiro apresentadas. Pois Jó parece afirmar que não somente as estrelas podem estar sujeitas ao pecado, mas até mesmo que de fato não são limpas do contágio dele. Estas são as suas palavras: “Também as estrelas não são limpas aos teus olhos.” E isso não deve ser entendido do esplendor de sua substância física, como se alguém dissesse, por exemplo, de uma veste, que ela não está limpa; pois, se esse fosse o sentido, então a acusação de falta de limpeza no esplendor de sua substância corpórea implicaria uma reflexão injuriosa contra seu Criador. Pois, se elas são incapazes, por seus próprios esforços diligentes, de adquirir para si um corpo de maior brilho, ou por preguiça de tornar menos puro o que já têm, como poderiam incorrer em censura por serem estrelas não limpas, se não recebem louvor porque o são?

[25] Mas, para chegar a entendimento mais claro dessas matérias, devemos primeiro investigar este ponto: se é permitido supor que sejam seres vivos e racionais; depois, em seguida, se suas almas vieram à existência ao mesmo tempo que seus corpos, ou parecem ser anteriores a eles; e também se, após o fim do mundo, devemos entender que serão libertadas de seus corpos; e se, assim como nós cessamos de viver, assim também elas cessarão de iluminar o mundo. Embora essa investigação possa parecer algo ousada, ainda assim, como somos incitados pelo desejo de averiguar a verdade tanto quanto possível, não parece haver absurdo em tentar examinar o assunto de acordo com a graça do Espírito Santo. Pensamos, então, que podem ser chamadas seres vivos por esta razão: diz-se que recebem mandamentos de Deus, o que normalmente ocorre somente com seres racionais. “Dei um mandamento a todas as estrelas”, diz o Senhor. Que mandamentos são esses, então? Aqueles, a saber, de que cada estrela, em sua ordem e curso, conceda ao mundo a quantidade de esplendor que lhe foi confiada. Pois aquelas que são chamadas planetas movem-se em órbitas de um tipo, e aquelas chamadas aplaneis são diferentes. Ora, disso se segue manifestamente que nem o movimento daquele corpo pode ocorrer sem alma, nem coisas vivas podem algum dia estar sem movimento. E, visto que as estrelas se movem com tal ordem e regularidade que seus movimentos jamais parecem em tempo algum sujeitos a desarranjo, não seria o cúmulo da insensatez dizer que tão ordenada observância de método e plano poderia ser realizada ou cumprida por seres irracionais? Nos escritos de Jeremias, de fato, a lua é chamada rainha do céu. Contudo, se as estrelas são seres vivos e racionais, sem dúvida haverá entre elas tanto avanço quanto retrocesso. Pois a linguagem de Jó, “as estrelas não são limpas aos seus olhos”, parece-me transmitir alguma ideia desse tipo.

[26] E agora temos de averiguar se esses seres que, no curso da discussão, descobrimos possuir vida e razão, foram dotados de alma juntamente com seus corpos naquele momento mencionado na escritura, quando Deus fez dois grandes luminares, o luminar maior para governar o dia, e o menor para governar a noite, e também as estrelas; ou se seu espírito foi implantado neles, não na criação de seus corpos, mas de fora, depois que já haviam sido feitos. Suspeito, quanto a mim, que o espírito foi implantado neles de fora; mas valerá a pena provar isso pela escritura, pois será fácil fazer essa afirmação em bases conjecturais, enquanto é mais difícil estabelecê-la pelo testemunho da escritura. Ora, pode ser estabelecida conjecturalmente assim. Se a alma de um homem, que certamente é inferior enquanto permanece alma de homem, não foi formada juntamente com seu corpo, mas se prova ter sido implantada estritamente de fora, muito mais isso deve acontecer com aqueles seres vivos chamados celestiais. Pois, quanto ao homem, como poderia a alma daquele, a saber, Jacó, que suplantou seu irmão no ventre, parecer ser formada juntamente com seu corpo? Ou como poderia sua alma, ou suas imagens, ser formada juntamente com seu corpo, daquele que, enquanto jazia no ventre de sua mãe, foi cheio do Espírito Santo? Refiro-me a João saltando no ventre de sua mãe e exultando porque a voz da saudação de Maria havia chegado aos ouvidos de sua mãe Isabel. Como poderiam sua alma e suas imagens ser formadas juntamente com seu corpo, daquele que, antes de ser criado no ventre, é dito conhecido por Deus e por Ele santificado antes do nascimento? Talvez alguns pensem que Deus enche indivíduos com Seu Espírito Santo e lhes concede santificação não com base na justiça e segundo seus merecimentos, mas sem merecimento algum. E como escaparemos daquela declaração: “Há injustiça em Deus? De modo nenhum!” ou desta: “Há acepção de pessoas em Deus?” Pois tal é a defesa daqueles que sustentam que as almas passam a existir com os corpos. Até onde, então, podemos formar uma opinião por comparação com a condição do homem, penso que devemos sustentar o mesmo também a respeito dos seres celestiais, o que a própria razão e a autoridade da escritura mostram ser o caso com os homens.

[27] Mas vejamos se podemos encontrar na santa escritura alguma indicação propriamente aplicável a essas existências celestiais. A seguinte é a declaração do apóstolo Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação também será libertada da servidão da corrupção para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.” A que vaidade, pergunto, foi a criação sujeita? Ou que criação é referida? Ou como se diz “não voluntariamente”? Ou na esperança de quê? E de que maneira a própria criação será libertada da servidão da corrupção? Em outro lugar também, o mesmo apóstolo diz: “A ardente expectação da criação espera a manifestação dos filhos de Deus.” E ainda em outra passagem: “E não só nós, mas a própria criação geme juntamente e suporta dores até agora.” Daí temos de investigar quais são esses gemidos e quais são essas dores. Vejamos, então, em primeiro lugar, o que é a vaidade à qual a criação está sujeita. Entendo que não é outra coisa senão o corpo; pois, embora o corpo das estrelas seja etéreo, ainda assim é material. Por isso também Salomão parece caracterizar toda a natureza corpórea como uma espécie de fardo que enfraquece o vigor da alma na seguinte linguagem: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; tudo é vaidade. Olhei e vi todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo é vaidade.” A essa vaidade, então, está sujeita a criação, especialmente aquela que, sendo certamente a maior neste mundo, também ocupa um principado distinto de trabalho, isto é, o sol, a lua e as estrelas são ditos como sujeitos à vaidade, porque estão revestidos de corpos e separados para o ofício de dar luz ao gênero humano. E essa criação, observa ele, foi sujeita à vaidade não voluntariamente. Pois não assumiu serviço voluntário à vaidade, mas porque foi a vontade daquele que a sujeitou, e por causa da promessa do sujeitador àqueles que foram reduzidos a essa obediência não voluntária, de que, quando o ministério de sua grande obra fosse cumprido, seriam libertados dessa servidão da corrupção e da vaidade, quando o tempo da gloriosa redenção dos filhos de Deus tivesse chegado. E toda a criação, recebendo essa esperança e aguardando agora o cumprimento dessa promessa, entretanto, por afeição para com aqueles a quem serve, geme juntamente com eles e sofre pacientemente com eles, esperando o cumprimento das promessas. Vê também se as seguintes palavras de Paulo podem aplicar-se àqueles que, embora não voluntariamente, mas segundo a vontade daquele que os sujeitou, e na esperança das promessas, foram feitos sujeitos à vaidade, quando ele diz: “Porque eu desejaria ser dissolvido e estar com Cristo, o que é muito melhor.” Pois penso que o sol poderia dizer do mesmo modo: “Eu desejaria ser dissolvido e estar com Cristo, o que é muito melhor.” Paulo, de fato, acrescenta: “Mas permanecer na carne é mais necessário por vossa causa”; enquanto o sol pode dizer: “Permanecer neste corpo brilhante e celeste é mais necessário, por causa da manifestação dos filhos de Deus.” As mesmas ideias devem ser cridas e expressas com respeito à lua e às estrelas. Vejamos agora o que é a liberdade da criação, ou o término de sua servidão. Quando Cristo houver entregado o reino a Deus Pai, então também esses seres vivos, quando primeiro tiverem sido feitos o reino de Cristo, serão entregues, juntamente com todo esse reino, ao governo do Pai, para que, quando Deus for tudo em todos, eles também, sendo parte de todas as coisas, tenham Deus em si mesmos, como Ele está em todas as coisas.

[28] Método semelhante deve ser seguido ao tratar dos anjos; nem devemos supor que seja resultado do acaso o fato de um ofício particular ser atribuído a um anjo particular: a Rafael, por exemplo, a obra de curar e sarar; a Gabriel, a condução das guerras; a Miguel, o dever de atender às orações e súplicas dos mortais. Pois não devemos imaginar que obtiveram esses ofícios de outro modo senão por seus próprios méritos, e pelo zelo e excelentes qualidades que cada um deles demonstrou antes que este mundo fosse formado; de tal modo que, depois, na ordem dos arcanjos, este ou aquele ofício foi atribuído a cada um, enquanto outros mereceram ser inscritos na ordem dos anjos e agir sob este ou aquele arcanjo, ou sob tal líder ou cabeça de uma ordem. Todas essas coisas foram dispostas, como eu disse, não indiscriminadamente e fortuitamente, mas por uma decisão muito apropriada e justa de Deus, que as ordenou segundo os merecimentos, em conformidade com Sua própria aprovação e juízo; de modo que a um anjo seria confiada a Igreja dos efésios; a outro, a dos esmirnenses; um anjo seria de Pedro, outro de Paulo; e assim com cada um dos pequeninos que estão na Igreja, pois a cada um deles devem ser designados tais e tais anjos que até diariamente contemplam a face de Deus; e também deve haver algum anjo que acampe ao redor dos que temem a Deus. Tudo isso, seguramente, deve-se crer que não é realizado por acidente ou acaso, nem porque os anjos foram assim criados, para que sob essa visão o Criador não fosse acusado de parcialidade; antes, deve-se crer que tais coisas lhes foram conferidas por Deus, o justo e imparcial Governante de todas as coisas, de acordo com os méritos, as boas qualidades e o vigor mental de cada espírito individual.

[29] E agora digamos algo a respeito daqueles que sustentam a existência de uma diversidade de naturezas espirituais, para que evitemos cair nas tolas e ímpias fábulas dos que pretendem haver diversidade de naturezas espirituais tanto entre as existências celestiais quanto entre as almas humanas, e por essa razão alegam que foram chamadas à existência por diferentes criadores; pois, embora pareça — e realmente seja — absurdo atribuir a um e mesmo Criador a criação de naturezas diferentes de seres racionais, ainda assim eles ignoram a causa dessa diversidade. Pois dizem que parece inconsistente que um mesmo Criador, sem qualquer fundamento prévio de mérito, confira a alguns seres o poder de domínio e submeta outros à autoridade; conceda a alguns um principado e torne outros subordinados a governantes. Tais opiniões, em meu juízo, são completamente rejeitadas ao seguir o raciocínio explicado acima, pelo qual se mostrou que a causa da diversidade e variedade entre esses seres se deve à sua conduta, marcada por maior zelo ou maior indiferença, segundo a bondade ou maldade de sua disposição, e não por qualquer parcialidade da parte do Ordenador. Mas, para que isso possa ser mostrado mais facilmente a respeito dos seres celestiais, tomemos uma ilustração do que foi feito ou é feito entre os homens, a fim de que, a partir das coisas visíveis, vejamos também por consequência as invisíveis. Paulo e Pedro são sem dúvida provados como homens de natureza espiritual. Quando, portanto, se encontra Paulo agindo contra a religião ao perseguir a Igreja de Deus, e Pedro cometendo pecado tão grave ao, interrogado pela criada, afirmar com juramento que não conhecia Cristo, como é possível que estes — que, segundo as pessoas de quem falamos, eram seres espirituais — caiam em pecados dessa natureza, especialmente já que costumam dizer frequentemente que uma boa árvore não pode produzir maus frutos? E, se uma boa árvore não pode produzir mau fruto, e se, segundo eles, Pedro e Paulo brotaram da raiz de uma boa árvore, como deveriam ser considerados como tendo produzido frutos tão maus? E, se responderem com a explicação geralmente inventada, de que não foi Paulo quem perseguiu, mas outra pessoa, não sei quem, que estava em Paulo; e de que não foi Pedro quem pronunciou a negação, mas outro indivíduo nele; como poderia Paulo dizer, se não tivesse pecado: “Não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus”? Ou por que Pedro chorou amargamente, se foi outro e não ele quem pecou? De tudo isso se provará que todas essas tolas afirmações são sem fundamento.

[30] Segundo nossa visão, não há criatura racional que não seja capaz tanto do bem quanto do mal. Mas não se segue, porque dizemos que não há natureza que não possa admitir o mal, que por isso sustentemos que toda natureza tenha admitido o mal, isto é, se tornado perversa. Assim como podemos dizer que a natureza de todo homem admite que ele se torne marinheiro, mas disso não se segue que todo homem se tornará tal; ou, ainda, é possível que todo indivíduo aprenda gramática ou medicina, mas disso não se prova que todo homem seja médico ou gramático; assim, se dizemos que não há natureza que não possa admitir o mal, não se indica necessariamente que ela o tenha feito. Pois, em nossa opinião, nem mesmo o próprio diabo era incapaz do bem; mas, embora capaz de admitir o bem, não o desejou nem fez esforço algum em direção à virtude. Pois, como somos ensinados por aquelas citações que apresentamos dos profetas, houve um tempo em que ele era bom, quando andava no paraíso de Deus entre os querubins. Assim como ele, então, possuía o poder de receber o bem ou o mal, mas caiu de um curso virtuoso e se voltou ao mal com todas as forças de sua mente, assim também as outras criaturas, tendo capacidade para uma ou outra condição, no exercício da liberdade de sua vontade fogem do mal e se apegam ao bem. Não há, portanto, natureza alguma que não possa admitir o bem ou o mal, exceto a natureza de Deus — a fonte de todos os bens — e de Cristo; pois Ele é sabedoria, e certamente a sabedoria não pode admitir loucura; e Ele é justiça, e certamente a justiça nunca admitirá injustiça; e Ele é a Palavra, ou Razão, que certamente não pode tornar-se irracional; sim, Ele também é a luz, e é certo que as trevas não recebem a luz. Da mesma forma também a natureza do Espírito Santo, sendo santa, não admite contaminação; pois é santa por natureza, isto é, por ser essencial. Se há alguma outra natureza que seja santa, possui essa propriedade de ser tornada santa pela recepção ou inspiração do Espírito Santo, não a tendo por natureza, mas como qualidade acidental, razão pela qual pode ser perdida em consequência de ser acidental.

[31] Também um homem pode possuir uma justiça acidental, de modo que, se vier a agir injustamente, ela se perca; e o mesmo se aplica à sabedoria, à castidade e às demais virtudes. Visto, portanto, que tais qualidades podem ser tanto recebidas quanto perdidas, conclui-se que nenhuma delas pertence a qualquer criatura por essência, mas somente por participação. E, se assim é, torna-se claro que aqueles seres que se tornaram anjos ou poderes, ou tronos, ou dominações, ou quaisquer outros ofícios celestiais, não receberam essas posições por natureza, mas as alcançaram segundo seus méritos. Do mesmo modo, também os que são chamados principados adversos, potestades, dominadores deste mundo tenebroso, espíritos de maldade, espíritos malignos e demônios imundos, não se tornaram tais por essência, nem porque foram criados assim, mas obtiveram esses graus de maldade na proporção de sua conduta e do progresso que fizeram no mal. E essa é uma segunda ordem de criaturas racionais, que se entregaram à perversidade em curso tão precipitado que preferem não voltar atrás, mais do que não poder fazê-lo; pois a sede do mal já se tornou paixão e lhes dá prazer. Mas a terceira ordem de criaturas racionais é a daqueles que são julgados aptos por Deus para compor a raça humana, isto é, as almas dos homens, assumidas, em consequência de seu progresso moral, à ordem dos anjos; e vemos que algumas são de fato assumidas a esse número: aquelas, a saber, que se tornaram filhos de Deus, ou filhos da ressurreição, ou que abandonaram as trevas e amaram a luz, e se tornaram filhos da luz; ou aquelas que, tendo vencido em toda luta e tornando-se homens de paz, foram filhos da paz e filhos de Deus; ou aquelas que, mortificando seus membros sobre a terra, e elevando-se acima não somente da natureza corpórea, mas até dos movimentos incertos e frágeis da própria alma, uniram-se ao Senhor, tornando-se inteiramente espirituais, para serem para sempre um só espírito com Ele, discernindo com Ele cada coisa individual, até chegarem a uma condição de perfeita espiritualidade e discernirem todas as coisas por iluminação perfeita, em toda santidade, por meio da Palavra e da sabedoria de Deus, tornando-se elas mesmas inteiramente indistinguíveis por qualquer um.

[32] Pensamos que de modo algum devem ser admitidas aquelas opiniões que alguns costumam desnecessariamente apresentar e sustentar, a saber, que as almas descem a tal grau de abatimento que se esquecem de sua natureza racional e dignidade e caem à condição de animais irracionais, grandes ou pequenos; e em apoio dessas afirmações geralmente citam supostas declarações da escritura, como a de que um animal com o qual uma mulher se prostituiu de forma antinatural deve ser considerado tão culpado quanto a mulher e ser apedrejado; ou que um boi que fere com seu chifre deve ser morto da mesma forma; ou até o caso da jumenta de Balaão, quando Deus abriu sua boca e a besta muda de carga, respondendo com voz humana, repreendeu a loucura do profeta. Todas essas afirmações nós não apenas não recebemos, mas, por serem contrárias à nossa fé, as refutamos e rejeitamos. Depois da refutação e rejeição de tais opiniões perversas, mostraremos, no tempo e lugar apropriados, como devem ser entendidas aquelas passagens que eles citam das santas escrituras.

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