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[1] Embora todas as discussões no livro precedente tenham tido referência ao mundo e à sua ordenação, parece agora seguir-se que devemos reconsiderar de modo mais específico alguns pontos a respeito do próprio mundo, isto é, seu princípio e seu fim, ou aquelas dispensações da Providência divina que ocorreram entre o princípio e o fim, ou ainda aqueles acontecimentos que se supõe terem ocorrido antes da criação do mundo, ou que haverão de ocorrer após o fim.

[2] Nesta investigação, o primeiro ponto que aparece claramente é que o mundo, em todas as suas condições diversificadas e mutáveis, é composto não somente de naturezas racionais e mais divinas, e de uma diversidade de corpos, mas também de animais mudos, de feras selvagens e domesticadas, de aves e de tudo o que vive nas águas; em segundo lugar, de lugares, isto é, do céu ou dos céus, e da terra ou da água, bem como do ar, que é intermediário e que eles chamam éter, e de tudo o que procede da terra ou nela nasce. Vendo, pois, que há tão grande variedade no mundo, e tão grande diversidade entre os próprios seres racionais, por causa da qual se supõe também que toda outra variedade e diversidade tenha vindo à existência, que outra causa além desta deve ser atribuída à existência do mundo, especialmente se atentarmos para aquele fim por meio do qual foi mostrado no livro precedente que todas as coisas serão restauradas à sua condição original? E, se isso parecer logicamente exposto, que outra causa, como já dissemos, devemos imaginar para tão grande diversidade no mundo, senão a diversidade e variedade dos movimentos e declínios daqueles que caíram daquela unidade e harmonia primordial em que foram criados por Deus no princípio e que, sendo afastados daquele estado de bondade e arrastados em várias direções pela perturbadora influência de diferentes impulsos e desejos, transformaram, segundo suas diferentes inclinações, a bondade una e indivisa de sua natureza em mentes de diversos tipos?

[3] Mas Deus, pela inefável habilidade de Sua sabedoria, transformando e restaurando todas as coisas, seja qual for a maneira como tenham sido feitas, para algum fim útil e para a vantagem comum de todos, reconduz essas mesmas criaturas, tão diferentes entre si em sua conformação mental, a uma única concordância de trabalho e propósito; de modo que, embora estejam sob a influência de diferentes motivações, elas, contudo, completam a plenitude e a perfeição de um só mundo, e a própria variedade das mentes tende a um só fim de perfeição. Pois é um só poder que abarca e mantém unida toda a diversidade do mundo, e conduz os diferentes movimentos para uma só obra, para que tão imensa realização como a do mundo não seja dissolvida pelas dissensões das almas. E por isso pensamos que Deus, o Pai de todas as coisas, a fim de assegurar a salvação de todas as Suas criaturas por meio do inefável desígnio de Sua Palavra e de Sua sabedoria, assim dispôs cada uma delas, que nenhum espírito, seja alma ou existência racional, qualquer que seja o nome com que se chame, fosse constrangido pela força, contra a liberdade de sua própria vontade, a qualquer outro curso além daquele para o qual os motivos de sua própria mente o conduzissem, para que, assim procedendo, não parecesse ser removido o poder de exercer o livre-arbítrio, o que certamente produziria mudança na própria natureza do ser; e também para que os diferentes propósitos de tais seres fossem adaptados de maneira apropriada e útil à harmonia de um só mundo, sendo que alguns necessitam de auxílio, outros são capazes de oferecê-lo, e outros ainda se tornam causa de luta e combate para aqueles que estão progredindo, entre os quais sua diligência será considerada mais digna de aprovação, e o lugar de honra obtido após a vitória será mantido com maior firmeza, por ter sido confirmado pelas dificuldades do combate.

[4] Embora o mundo inteiro esteja ordenado em funções de vários tipos, sua condição, contudo, não deve ser imaginada como uma condição de discrepâncias e discórdias internas; antes, assim como nosso único corpo é provido de muitos membros e é mantido unido por uma só alma, também penso que o mundo inteiro deve ser considerado como um animal imenso e gigantesco, mantido unido pelo poder e pela razão de Deus como por uma só alma. Isso também, creio eu, é indicado na sagrada Escritura pela declaração do profeta: “Porventura não encho eu o céu e a terra? diz o Senhor”; e ainda: “O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés”; e pelas palavras do Salvador, quando diz que não devemos jurar nem pelo céu, porque é trono de Deus, nem pela terra, porque é estrado de Seus pés. No mesmo sentido vão também as palavras de Paulo em seu discurso aos atenienses, quando diz: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos”. Pois como vivemos, nos movemos e existimos em Deus, senão porque Ele, por Seu poder, abrange e mantém unido o mundo inteiro? E como é o céu trono de Deus, e a terra estrado de Seus pés, como o próprio Salvador declara, senão porque Seu poder enche todas as coisas no céu e na terra, segundo as próprias palavras do Senhor? E que Deus, o Pai de todas as coisas, enche e sustenta o mundo com a plenitude de Seu poder, de acordo com essas passagens que citamos, penso que ninguém terá dificuldade em admitir. E agora, visto que o curso da discussão precedente mostrou que os diferentes movimentos dos seres racionais e suas variadas disposições produziram a diversidade que existe no mundo, devemos ver se não seria apropriado que este mundo tivesse um termo assim como teve um começo. Pois não há dúvida de que seu fim deve ser procurado em meio a muita diversidade e variedade; e essa variedade, sendo encontrada na consumação do mundo, dará novamente fundamento e ocasião para as diversidades do outro mundo que sucederá ao presente.

[5] Se agora, no curso de nossa discussão, ficou estabelecido que essas coisas são assim, parece seguir-se que devemos considerar, em seguida, a natureza do ser corpóreo, visto que a diversidade no mundo não pode existir sem corpos. É evidente, pela própria natureza das coisas, que a natureza corpórea admite diversidade e variedade de mudança, de modo que é capaz de sofrer toda sorte de transformações possíveis, como, por exemplo, a conversão da madeira em fogo, do fogo em fumaça, da fumaça em ar, do óleo em fogo. E o próprio alimento, quer do homem quer dos animais, não exibe a mesma base de mudança? Pois tudo quanto tomamos como alimento é convertido na substância de nosso corpo. Quanto a como a água se transforma em terra ou em ar, e o ar novamente em fogo, ou o fogo em ar, ou o ar em água, embora não seja difícil explicar, no presente basta apenas mencioná-lo, pois nosso objetivo é discutir a natureza da matéria corporal. Por matéria, portanto, entendemos aquilo que está subjacente aos corpos, isto é, aquilo por meio do qual, pelo acréscimo e implantação de qualidades, os corpos existem; e mencionamos quatro qualidades: calor, frio, secura e umidade. Essas quatro qualidades, sendo implantadas na hýlē, ou matéria, pois a matéria é encontrada existindo em sua própria natureza sem as qualidades acima mencionadas, produzem os diferentes tipos de corpos. Embora essa matéria seja, como dissemos acima, sem qualidades segundo sua própria natureza, ela nunca é encontrada existindo sem alguma qualidade. E não consigo entender como tantos homens notáveis foram da opinião de que essa matéria, que é tão grande e possui propriedades tais que a tornam suficiente para todos os corpos do mundo que Deus quis que existissem, e que seria a serva e instrumento do Criador para quaisquer formas e espécies que Ele desejasse em todas as coisas, recebendo em si quaisquer qualidades que Ele quisesse lhe conceder, fosse incriada, isto é, não formada pelo próprio Deus, que é o Criador de todas as coisas, mas que sua natureza e poder fossem resultado do acaso. E me admira que eles encontrem falta naqueles que negam ou o poder criador de Deus ou Sua providencial administração do mundo, e os acusem de impiedade por pensarem que uma obra tão grande como o mundo poderia existir sem um arquiteto ou supervisor, enquanto eles mesmos incorrem em acusação semelhante de impiedade ao dizerem que a matéria é incriada e coeterna com o Deus incriado. Segundo essa perspectiva, se supusermos por argumento que a matéria não existia, como eles sustentam, dizendo que Deus não poderia criar coisa alguma quando nada existia, sem dúvida Ele teria permanecido inativo, não tendo matéria sobre a qual operar; matéria essa que, segundo eles, não Lhe foi fornecida por Sua própria disposição, mas pelo acaso. E pensam que isso, descoberto por acaso, foi suficiente para uma obra de tão vasta extensão, para a manifestação do poder de Sua força, e que, admitindo o plano de toda a Sua sabedoria, pudesse ser distinguido e formado em um mundo. Ora, isso me parece muito absurdo e ser opinião de homens totalmente ignorantes do poder e da inteligência da natureza incriada. Mas, para vermos um pouco mais claramente a natureza das coisas, seja concedido que por algum tempo a matéria não existia e que Deus, quando antes nada existia, fez vir à existência aquelas coisas que desejou: por que haveríamos de supor que Deus criaria uma matéria melhor, maior ou de outro tipo que não aquela que de fato produziu por Seu próprio poder e sabedoria, para que viesse a existir aquilo que antes não existia? Criaria Ele uma matéria pior e inferior, ou uma igual àquela que eles chamam de incriada? Ora, penso que aparecerá muito facilmente a qualquer um que nem uma matéria melhor nem uma inferior poderia ter assumido as formas e espécies do mundo, se não fosse tal qual aquela que de fato as assumiu. E não parece, então, ímpio chamar de incriada aquilo que, se fosse crido ter sido formado por Deus, certamente se mostraria ser tal como aquilo que eles chamam de incriado?

[6] Mas, para que creiamos na autoridade da sagrada Escritura de que assim é, ouvi como no livro dos Macabeus, onde a mãe de sete mártires exorta seu filho a suportar o tormento, essa verdade é confirmada; pois ela diz: “Peço-te, meu filho, que olhes para o céu e para a terra e para todas as coisas que neles existem, e, contemplando-as, saibas que Deus fez todas essas coisas quando elas não existiam”. Também no livro do Pastor, no primeiro mandamento, ele fala assim: “Antes de tudo, crê que há um só Deus, que criou e ordenou todas as coisas, e fez com que todas viessem à existência, saindo de um estado de inexistência”. Talvez também a expressão nos Salmos se refira a isso: “Ele falou, e foram feitas; Ele ordenou, e foram criadas”. Pois as palavras “Ele falou, e foram feitas” parecem indicar a substância das coisas que existem; ao passo que as outras, “Ele ordenou, e foram criadas”, parecem dizer respeito às qualidades pelas quais a própria substância foi moldada.

[7] Sobre este ponto, alguns costumam indagar se, assim como o Pai gera um Filho incriado e produz o Espírito Santo, não como se Ele antes não existisse, mas porque o Pai é a origem e a fonte do Filho e do Espírito Santo, e não se pode entender neles anterioridade nem posterioridade, assim também um tipo semelhante de união ou relação pode ser entendido como subsistindo entre as naturezas racionais e a matéria corpórea. E para que esse ponto seja examinado mais plena e cuidadosamente, o início da discussão costuma dirigir-se à questão de saber se essa própria natureza corpórea, que sustenta as vidas e contém os movimentos das mentes espirituais e racionais, será igualmente eterna com elas, ou se perecerá totalmente e será destruída. E para que a questão seja determinada com maior precisão, temos, em primeiro lugar, de investigar se é possível que as naturezas racionais permaneçam inteiramente incorpóreas depois de terem alcançado o ápice da santidade e da bem-aventurança, o que me parece uma realização extremamente difícil e quase impossível, ou se devem sempre, por necessidade, estar unidas a corpos. Se, então, alguém pudesse mostrar uma razão pela qual lhes seria possível dispensar completamente os corpos, pareceria seguir-se que, assim como a natureza corpórea, criada do nada após intervalos de tempo, foi produzida quando não existia, também deverá cessar quando já não existir o propósito para o qual servia.

[8] Se, porém, é impossível sustentar de algum modo este ponto, a saber, que qualquer outra natureza além do Pai, do Filho e do Espírito Santo possa viver sem um corpo, a necessidade do raciocínio nos constrange a entender que as naturezas racionais foram de fato criadas no princípio, mas que a substância material foi separada delas apenas em pensamento e entendimento, e parece ter sido formada para elas, ou depois delas, e que jamais viveram nem vivem sem ela; pois uma vida incorpórea será corretamente considerada privilégio exclusivo da Trindade. Como observamos acima, portanto, aquela substância material deste mundo, possuindo uma natureza capaz de todas as transformações possíveis, quando é arrastada para seres de ordem inferior, é moldada na condição mais grosseira e mais sólida de corpo, a fim de distinguir as formas visíveis e mutáveis do mundo; mas quando se torna serva de seres mais perfeitos e mais bem-aventurados, ela resplandece no fulgor dos corpos celestes e adorna, quer os anjos de Deus, quer os filhos da ressurreição, com a vestimenta de um corpo espiritual; de tudo isso será composta a condição diversa e variada de um só mundo. Se alguém, porém, desejar discutir esses assuntos mais plenamente, será necessário, com toda reverência e temor de Deus, examinar as sagradas Escrituras com maior atenção e diligência, para verificar se o sentido secreto e oculto nelas contido talvez revele algo a respeito dessas questões; e algo pode ser descoberto em sua linguagem obscura e misteriosa, mediante a demonstração do Espírito Santo àqueles que forem dignos, depois de muitos testemunhos terem sido reunidos precisamente sobre este ponto.

[9] O próximo assunto de investigação é se houve algum outro mundo antes daquele que agora existe; e, se houve, se era como o presente, ou algo diferente, ou inferior; ou se não havia mundo algum, mas algo semelhante àquilo que entendemos que haverá após o fim de todas as coisas, quando o reino for entregue a Deus, o próprio Pai; o que, contudo, pode ter sido o fim de outro mundo, a saber, daquele após o qual este mundo teve seu começo; e se as várias quedas das naturezas intelectuais provocaram Deus a produzir esta condição diversa e mutável do mundo. Este ponto também, penso eu, deve ser investigado de modo semelhante, a saber, se depois deste mundo haverá algum sistema de conservação e emenda, severo de fato e acompanhado de muita dor para aqueles que não quiseram obedecer à Palavra de Deus, mas um processo através do qual, por meio de instrução e disciplina racional, aqueles que se dedicaram a tais buscas nesta vida, e que, tendo suas mentes purificadas, avançaram até se tornarem capazes de alcançar a sabedoria divina, possam chegar a uma compreensão mais plena da verdade; e, depois disso, o fim de todas as coisas seguirá imediatamente, e haverá de novo, para a correção e aperfeiçoamento daqueles que disso necessitam, outro mundo, seja semelhante ao que agora existe, ou melhor que ele, ou muito inferior; e quanto tempo esse mundo, qualquer que seja aquele que virá depois deste, haverá de durar; e se haverá um tempo em que mundo algum existirá em lugar algum, ou se houve um tempo em que mundo algum existiu; ou se houve, ou haverá, vários; ou se alguma vez acontecerá de haver um semelhante a outro em todos os aspectos, igual a ele e indistinguível dele.

[10] Para que apareça mais claramente, então, se a matéria corpórea pode existir durante intervalos de tempo e se, assim como não existia antes de ser feita, pode novamente ser resolvida em não existência, vejamos, antes de tudo, se é possível a alguém viver sem corpo. Pois, se uma pessoa pode viver sem corpo, todas as coisas também poderão dispensar os corpos, visto que nosso tratado anterior mostrou que todas as coisas tendem a um só fim. Ora, se todas as coisas podem existir sem corpos, sem dúvida não haverá substância corpórea, já que não haverá utilidade para ela. Mas como entenderemos as palavras do apóstolo nas passagens em que, tratando da ressurreição dos mortos, ele diz: “Isto que é corruptível deve revestir-se da incorruptibilidade, e isto que é mortal deve revestir-se da imortalidade. E quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei”? Um sentido como este, então, parece ser sugerido pelo apóstolo. Pois pode a expressão que ele emprega, “isto que é corruptível” e “isto que é mortal”, com o gesto, por assim dizer, de alguém que toca ou aponta, aplicar-se a outra coisa que não seja à matéria corporal? Essa matéria do corpo, portanto, que agora é corruptível, revestir-se-á de incorruptibilidade quando uma alma perfeita, e provida das marcas da incorruptibilidade, começar a habitá-la. E não te admires se falamos de uma alma perfeita como vestimenta do corpo, a qual, por causa da Palavra de Deus e de Sua sabedoria, agora é chamada incorruptibilidade, quando o próprio Jesus Cristo, que é o Senhor e Criador da alma, é dito ser a vestimenta dos santos, segundo a linguagem do apóstolo: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”. Assim como Cristo é a vestimenta da alma, também, por uma razão suficientemente inteligível, a alma é dita ser a vestimenta do corpo, visto que é seu ornamento, cobrindo e ocultando sua natureza mortal. A expressão, portanto, “isto que é corruptível deve revestir-se da incorruptibilidade”, é como se o apóstolo dissesse: esta natureza corruptível do corpo deve receber a vestimenta da incorruptibilidade, uma alma que possui em si mesma incorruptibilidade porque foi revestida de Cristo, que é a Sabedoria e a Palavra de Deus. Mas quando este corpo, que em algum tempo futuro possuiremos em um estado mais glorioso, se tornar participante da vida, então, além de imortal, tornar-se-á também incorruptível. Pois tudo o que é mortal é necessariamente também corruptível; mas aquilo que é corruptível não se pode por isso mesmo dizer mortal. Dizemos de uma pedra ou de um pedaço de madeira que é corruptível, mas não dizemos que por isso também é mortal. Mas, quando o corpo participa da vida, então, porque a vida pode ser e é separada dele, consequentemente o chamamos mortal e, em outro sentido também, o chamamos corruptível. O santo apóstolo, portanto, com notável discernimento, referindo-se à causa geral primeira da matéria corpórea, da qual a alma faz uso constante, quaisquer que sejam as qualidades com que esteja revestida, agora de fato carnais, mas depois mais refinadas e puras, que são chamadas espirituais, diz: “Isto que é corruptível deve revestir-se da incorruptibilidade”. E, em segundo lugar, olhando para a causa especial do corpo, ele diz: “Isto que é mortal deve revestir-se da imortalidade”. Ora, que mais serão a incorruptibilidade e a imortalidade, senão a sabedoria, a palavra e a justiça de Deus, que moldam, vestem e adornam a alma? E por isso acontece que se diga: o corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e o mortal, de imortalidade. Pois, embora agora possamos fazer grande progresso, ainda assim conhecemos em parte, e profetizamos em parte, e vemos por espelho, obscuramente; aquelas mesmas coisas que parecemos entender, esse corruptível ainda não se reveste da incorruptibilidade, nem esse mortal está ainda revestido de imortalidade; e como este nosso exercício no corpo se prolonga, sem dúvida, por um período mais longo, até o tempo em que estes próprios corpos nossos, com os quais estamos revestidos, possam, por causa da Palavra de Deus e de Sua sabedoria e perfeita justiça, merecer incorruptibilidade e imortalidade, por isso se diz: “Isto que é corruptível deve revestir-se da incorruptibilidade, e isto que é mortal deve revestir-se da imortalidade”.

[11] Contudo, aqueles que pensam que as criaturas racionais podem em algum tempo levar uma existência fora do corpo podem levantar aqui questões como as seguintes. Se é verdade que isto que é corruptível se revestirá da incorruptibilidade, e isto que é mortal, da imortalidade, e que a morte é tragada no fim, isso mostra que nada além de uma natureza material deve ser destruído, sobre a qual a morte poderia operar, enquanto a agudeza mental daqueles que estão no corpo parece ser embotada pela natureza da matéria corpórea. Se, porém, estiverem fora do corpo, escaparão totalmente do incômodo oriundo de uma perturbação desse tipo. Mas, como não poderão escapar imediatamente de toda vestimenta corpórea, devem ser considerados como habitando corpos mais refinados e mais puros, que possuem a propriedade de já não serem vencidos pela morte, nem feridos por seu aguilhão; de modo que, por fim, pelo gradual desaparecimento da natureza material, a morte é tanto tragada quanto finalmente exterminada, e todo o seu aguilhão completamente embotado pela graça divina, que a alma se tornou capaz de receber, e assim mereceu obter incorruptibilidade e imortalidade. E então será dito com justiça por todos: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado”. Se, então, essas conclusões parecem ter consistência, segue-se que devemos crer que nossa condição em algum tempo futuro será incorpórea; e, se isso for admitido, e se todos são ditos estar sujeitos a Cristo, essa incorporeidade também deverá necessariamente ser concedida a todos aqueles a quem a sujeição a Cristo se estende; já que todos os que estão sujeitos a Cristo estarão no fim sujeitos a Deus Pai, a quem Cristo é dito entregar o reino; e assim parece que então cessará também a necessidade dos corpos. E, se ela cessa, a matéria corporal retorna ao nada, assim como antes também não existia. Vejamos agora o que se pode dizer em resposta aos que fazem essas afirmações. Pois parecerá consequência necessária que, se a natureza corpórea for aniquilada, deverá ser restaurada e criada novamente; porque parece possível que as naturezas racionais, das quais a faculdade do livre-arbítrio nunca é retirada, venham de novo a ser sujeitas a movimentos de algum tipo, por ato especial do próprio Senhor, para que talvez, se sempre ocupassem uma condição imutável, ignorassem que foi pela graça de Deus e não por mérito próprio que foram colocadas naquele estado final de felicidade; e esses movimentos, sem dúvida, serão novamente acompanhados de variedade e diversidade de corpos, pelos quais o mundo é sempre adornado; nem jamais ele será composto senão de variedade e diversidade, efeito este que não pode ser produzido sem matéria corpórea.

[12] E agora não entendo por que provas podem sustentar sua posição aqueles que afirmam que os mundos às vezes vêm à existência não sendo diferentes entre si, mas em todos os aspectos iguais. Pois, se se diz haver um mundo semelhante em todos os aspectos ao presente, acontecerá então que Adão e Eva farão as mesmas coisas que fizeram antes; haverá uma segunda vez o mesmo dilúvio, e o mesmo Moisés de novo conduzirá do Egito uma nação de quase seiscentos mil homens; Judas também, uma segunda vez, trairá o Senhor; Paulo, uma segunda vez, guardará as vestes dos que apedrejaram Estêvão; e tudo o que foi feito nesta vida será dito repetir-se, estado de coisas que penso não poder ser estabelecido por qualquer raciocínio, se as almas são movidas pela liberdade de vontade e mantêm seu progresso ou retrocesso conforme o poder de sua vontade. Pois as almas não são impelidas em um ciclo que, depois de muitos séculos, retorna ao mesmo círculo, de modo a fazer ou desejar isto ou aquilo; mas, em qualquer ponto a que a liberdade de sua própria vontade se dirija, ali orientam o curso de suas ações. Pois o que esses dizem é praticamente o mesmo que afirmar que, se um médimno de grãos fosse derramado no chão, a queda do grão seria, na segunda ocasião, idêntica à da primeira, de tal modo que cada grão individual ficaria pela segunda vez exatamente ao lado daquele junto ao qual tinha sido lançado antes, e assim o médimno seria espalhado na mesma ordem e com os mesmos traços de antes; o que certamente é impossível com os incontáveis grãos de um médimno, ainda que fossem derramados sem cessar por muitos séculos. Assim, portanto, parece-me impossível que um mundo seja restaurado pela segunda vez com a mesma ordem e com a mesma quantidade de nascimentos, mortes e ações; mas que pode haver diversidade de mundos com mudanças não desprezíveis, de modo que o estado de outro mundo possa, por razões inequívocas, ser melhor do que este, e por outras, pior, e por outras ainda, intermediário. Mas qual possa ser o número ou a medida disso, confesso-me ignorante, embora, se alguém puder dizê-lo, eu de bom grado aprenderia.

[13] Mas este mundo, que também é chamado de era, é dito ser a conclusão de muitas eras. Ora, o santo apóstolo ensina que naquela era que precedeu esta, Cristo não sofreu, nem mesmo naquela que precedeu aquela; e não sei se sou capaz de enumerar o número de eras anteriores nas quais Ele não sofreu. Mostrarei, porém, a partir de que declarações de Paulo cheguei a esse entendimento. Ele diz: “Mas agora, uma só vez, na consumação dos séculos, Ele se manifestou para tirar o pecado pelo sacrifício de Si mesmo”. Pois ele diz que foi feito vítima uma só vez e que, na consumação das eras, se manifestou para tirar o pecado. Ora, que depois desta era, que se diz formada para a consumação de outras eras, haverá novamente outras eras a seguir, aprendemos claramente do próprio Paulo, que diz: “Para mostrar, nas eras vindouras, as abundantes riquezas de Sua graça, em Sua bondade para conosco”. Ele não disse “na era vindoura”, nem “nas duas eras vindouras”, de onde concluo que, por sua linguagem, muitas eras são indicadas. Ora, se há algo maior do que eras, de modo que entre os seres criados se possam entender certas eras, mas entre outros seres que excedem e ultrapassam as criaturas visíveis existam eras ainda maiores, o que talvez seja o caso na restauração de todas as coisas, quando o universo inteiro chegar a uma consumação perfeita, talvez esse período em que a consumação de todas as coisas ocorrerá deva ser entendido como algo mais que uma era. Mas aqui me move a autoridade da sagrada Escritura, que diz: “Por uma era e mais”. Ora, essa palavra “mais” sem dúvida significa algo maior que uma era; e vê se aquela expressão do Salvador: “Quero que, onde eu estou, estes também estejam comigo; e assim como eu e Tu somos um, estes também sejam um em nós”, não parece transmitir algo mais que uma era e eras, talvez até mais que eras dos séculos, a saber, aquele período quando todas as coisas já não estarão em uma era, mas quando Deus será tudo em todos.

[14] Tendo discutido esses pontos a respeito da natureza do mundo da melhor maneira que nos foi possível, não parece fora de lugar investigar o que significa o termo “mundo”, que na sagrada Escritura é mostrado ter frequentemente diferentes significados. O que chamamos em latim mundus é denominado em grego kosmos, e kosmos significa não somente um mundo, mas também um ornamento. Finalmente, em Isaías, onde a linguagem de repreensão é dirigida às principais filhas de Sião, e onde ele diz: “Em lugar do ornamento de ouro da cabeça terás calvície por causa de tuas obras”, ele emprega o mesmo termo tanto para ornamento quanto para mundo, a saber, kosmos. Pois o plano do mundo é dito estar contido na veste do sumo sacerdote, como encontramos na Sabedoria de Salomão, onde ele diz: “Pois na veste comprida estava o mundo inteiro”. Esta nossa terra, com seus habitantes, também é chamada de mundo, como quando a Escritura diz: “O mundo inteiro jaz no maligno”. Clemente, de fato, discípulo dos apóstolos, faz menção daqueles a quem os gregos chamavam antíctones e de outras partes da terra às quais ninguém do nosso povo pode chegar, nem qualquer dos que estão lá pode atravessar até nós, as quais ele também chamou de mundos, dizendo: “O oceano é intransponível aos homens; e aqueles são mundos que estão do outro lado dele, governados por essas mesmas disposições do Deus soberano”. Aquele universo que é delimitado pelo céu e pela terra também é chamado de mundo, como Paulo declara: “A aparência deste mundo passa”. Nosso Senhor e Salvador também indica um certo outro mundo além deste visível, que de fato seria difícil descrever e tornar conhecido. Ele diz: “Eu não sou deste mundo”. Pois, como se fosse de um certo outro mundo, Ele diz: “Eu não sou deste mundo”. Ora, acerca deste mundo já dissemos de antemão que sua explicação era difícil; e por esta razão, para que não se desse ocasião a ninguém de supor que sustentamos a existência de certas imagens que os gregos chamam ideias, pois certamente é alheio aos nossos autores falar de um mundo incorpóreo existindo apenas na imaginação ou no mundo fugidio dos pensamentos; e como podem afirmar que o Salvador vem de lá, ou que os santos irão para lá, eu não vejo. Não há dúvida, entretanto, de que algo mais ilustre e excelente do que este presente mundo é apontado pelo Salvador, para o qual Ele incita e encoraja os crentes a aspirarem. Mas se esse mundo ao qual Ele deseja aludir está muito separado e dividido deste, seja por localização, ou natureza, ou glória; ou se é superior em glória e qualidade, mas contido dentro dos limites deste mundo, o que me parece mais provável, isso, contudo, é incerto e, a meu ver, assunto impróprio para o pensamento humano. Mas, pelo que Clemente parece indicar quando diz: “O oceano é intransponível aos homens, e aqueles mundos que estão por trás dele”, falando no plural dos mundos que estão por trás dele, os quais ele insinua serem administrados e governados pela mesma providência do Deus Altíssimo, ele parece lançar para nós alguns germes daquela visão pela qual o universo inteiro das coisas existentes, celestiais e supercelestiais, terrenas e infernais, é geralmente chamado um mundo perfeito, dentro do qual, ou pelo qual, outros mundos, se existirem, devem ser considerados contidos. Por essa razão, ele desejava que o globo do sol ou da lua, e dos outros corpos chamados planetas, fossem cada um chamados mundos. E até aquele globo preeminente que eles chamam de não-errante, eles desejam, contudo, que seja propriamente chamado mundo. Finalmente, invocam o livro do profeta Baruque para testemunhar essa afirmação, porque nele os sete mundos ou céus são mais claramente indicados. Contudo, acima daquela esfera que chamam de não-errante, eles querem que exista outra esfera, a qual, dizem, assim como o nosso céu contém todas as coisas que estão debaixo dele, abrange por sua imensa dimensão e extensão indescritível os espaços de todas as esferas dentro de sua circunferência mais magnífica, de modo que tudo esteja dentro dela, assim como esta nossa terra está sob o céu. E também se crê que isso seja chamado nas santas Escrituras de boa terra e terra dos viventes, possuindo seu próprio céu, que é mais alto, e no qual se diz que os nomes dos santos foram ou estão escritos pelo Salvador; por esse céu aquela terra é circunscrita e encerrada, terra essa que o Salvador no Evangelho promete aos mansos e misericordiosos. Pois eles querem que esta nossa terra, que antes era chamada “seca”, tenha derivado seu nome do nome daquela terra, assim como este céu também foi chamado firmamento a partir do título daquele céu. Mas tratamos mais longamente dessas opiniões no lugar em que tivemos de investigar o sentido da declaração de que no princípio Deus fez os céus e a terra. Pois outro céu e outra terra são mostrados existir além daquele firmamento que se diz ter sido feito depois do segundo dia, ou daquela terra seca que depois foi chamada terra. Certamente, o que alguns dizem deste mundo, a saber, que é corruptível porque foi feito, e contudo não se corrompe porque a vontade de Deus, que o fez e o sustenta para que a corrupção não prevaleça sobre ele, é mais forte e poderosa do que a corrupção, pode ser mais corretamente suposto daquele mundo que acima chamamos de esfera não-errante, já que, pela vontade de Deus, ele de modo nenhum está sujeito à corrupção, pela razão de não ter admitido quaisquer causas de corrupção, sendo o mundo dos santos e dos completamente purificados, e não dos ímpios, como este nosso mundo. Devemos ver, além disso, se talvez seja com referência a isso que o apóstolo diz: “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que não se veem; porque as que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas. Pois sabemos que, se esta nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna nos céus”. E quando ele diz em outro lugar: “Porque verei os céus, obra de teus dedos”, e quando Deus disse, a respeito de todas as coisas visíveis, pela boca de Seu profeta: “Minha mão fez todas estas coisas”, ele declara que aquela casa eterna nos céus, prometida a Seus santos, não foi feita por mãos, apontando sem dúvida a diferença de criação entre as coisas visíveis e as não visíveis. Pois não se deve entender a mesma coisa pelas expressões “as coisas que não se veem” e “as coisas invisíveis”. Pois as coisas invisíveis não somente não são vistas, mas nem sequer possuem a propriedade da visibilidade, sendo o que os gregos chamam asómata, isto é, incorpóreas; ao passo que aquelas das quais Paulo diz “não são vistas” possuem de fato a propriedade de serem vistas, mas, como ele explica, ainda não são contempladas por aqueles a quem foram prometidas.

[15] Tendo, então, esboçado, na medida em que pudemos entender, estas três opiniões a respeito do fim de todas as coisas e da suprema bem-aventurança, deixe cada um de nossos leitores decidir por si mesmo, com cuidado e diligência, se alguma delas pode ser aprovada e adotada. Pois foi dito que devemos supor ou que uma existência incorpórea é possível, depois de todas as coisas terem sido sujeitas a Cristo e, por Cristo, a Deus Pai, quando Deus será tudo em todos; ou que, embora todas as coisas tenham sido sujeitas a Cristo e, por Cristo, a Deus, com quem formaram também um só espírito, por serem os espíritos naturezas racionais, então a própria substância corpórea, unida aos espíritos mais puros e excelentes e transformada em uma condição etérea de acordo com a qualidade ou os méritos daqueles que a assumem, segundo as palavras do apóstolo: “Nós também seremos transformados”, resplandecerá em glória; ou pelo menos que, quando a aparência das coisas visíveis passar, e toda corrupção tiver sido abalada e purificada, e quando todo o espaço ocupado por este mundo, no qual se diz estarem as esferas dos planetas, tiver sido deixado para trás e abaixo, então se alcançará a morada fixa dos piedosos e dos bons situada acima daquela esfera chamada não-errante, como em uma boa terra, em uma terra dos viventes, que será herdada pelos mansos e benignos; a essa terra pertence aquele céu que, com sua extensão mais magnífica, cerca e contém a própria terra e é chamado verdadeira e principalmente céu, no qual céu e terra, fim e perfeição de todas as coisas, podem ser colocados com toda segurança e confiança; onde, a saber, estes, depois de serem apreendidos e castigados pelas ofensas que sofreram por via de purgação, podem, depois de terem cumprido e quitado toda obrigação, merecer habitação naquela terra; enquanto os que foram obedientes à Palavra de Deus e, por sua obediência, mostraram-se daí em diante capazes de sabedoria, são ditos merecer o reino daquele céu ou céus; e assim se cumpre de modo mais digno a predição: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”; e: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”; e a declaração do Salmo: “Ele te exaltará, e tu herdarás a terra”. Pois chama-se descida a esta terra, mas exaltação àquela que está acima. Desse modo, portanto, parece abrir-se um certo caminho pela partida dos santos daquela terra para aqueles céus, de modo que não tanto pareçam permanecer naquela terra, mas habitá-la com a intenção de passar adiante para a herança do reino dos céus, quando também tiverem alcançado esse grau de perfeição.

[16] Tendo agora disposto brevemente esses pontos em ordem, o melhor que pudemos, segue-se, de acordo com nossa intenção desde o princípio, refutar aqueles que pensam que o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é um Deus diferente dAquele que deu as respostas da lei a Moisés, ou comissionou os profetas, que é o Deus de nossos pais Abraão, Isaque e Jacó. Pois, neste artigo de fé, antes de tudo, devemos estar firmemente alicerçados. Devemos considerar, então, a expressão frequentemente recorrente nos Evangelhos e acrescentada a todos os atos de nosso Senhor e Salvador: “para que se cumprisse o que foi dito por este ou aquele profeta”, sendo manifesto que os profetas são profetas daquele Deus que fez o mundo. Disso, portanto, tiramos a conclusão de que Aquele que enviou os profetas predisse aquilo que seria anunciado a respeito de Cristo. E não há dúvida de que o próprio Pai, e não outro diferente dEle, proferiu essas predições. A prática, além disso, do Salvador ou de Seus apóstolos, que frequentemente citam exemplos do Antigo Testamento, mostra que atribuem autoridade aos antigos. A exortação do Salvador, quando chama Seus discípulos ao exercício da bondade, dizendo: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito; porque faz nascer o Seu sol sobre maus e bons, e envia chuva sobre justos e injustos”, sugere da maneira mais evidente, até para uma pessoa de entendimento fraco, que Ele propõe à imitação de Seus discípulos nenhum outro Deus senão o Criador do céu e o Doador da chuva. Novamente, que outra coisa parece indicar a expressão que deve ser usada por aqueles que oram, “Pai nosso que estás nos céus”, senão que Deus deve ser buscado nas partes mais elevadas do mundo, isto é, de Sua criação? Além disso, aqueles admiráveis princípios que Ele estabelece a respeito dos juramentos, dizendo que não devemos jurar nem pelo céu, porque é trono de Deus, nem pela terra, porque é estrado de Seus pés, não harmonizam da forma mais clara com as palavras do profeta: “O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés”? E também quando, expulsando do templo os que vendiam ovelhas, bois e pombas, derrubando as mesas dos cambistas e dizendo: “Tirai daqui estas coisas e não façais da casa de meu Pai casa de comércio”, Ele sem dúvida chamou de Seu Pai Aquele em cujo nome Salomão havia levantado um magnífico templo. As palavras ainda: “Não lestes o que Deus falou a Moisés: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó; Ele não é Deus de mortos, mas de vivos”, ensinam-nos claramente que Ele chamou o Deus dos patriarcas, porque eram santos e estavam vivos, de Deus dos vivos, sendo o mesmo que havia dito nos profetas: “Eu sou Deus, e fora de mim não há Deus”. Pois, se o Salvador, sabendo que Aquele que está escrito na lei é o Deus de Abraão, e que é o mesmo que diz “Eu sou Deus, e fora de mim não há Deus”, reconhece precisamente esse como Seu Pai, aquele que, segundo os hereges, ignora a existência de qualquer outro Deus acima de Si, Ele absurdamente declara por Pai Aquele que não conhece um Deus maior. Mas, se não é por ignorância, e sim por engano, que Ele diz não haver outro Deus além de Si, então é uma absurdidade ainda maior confessar que Seu Pai é culpado de falsidade. De tudo isso se chega à conclusão de que Ele não conhece outro Pai além de Deus, o Fundador e Criador de todas as coisas.

[17] Seria enfadonho reunir de todas as passagens dos Evangelhos as provas pelas quais se mostra que o Deus da lei e dos Evangelhos é um e o mesmo. Toquemos brevemente os Atos dos Apóstolos, onde Estêvão e os outros apóstolos dirigem suas orações àquele Deus que fez o céu e a terra e que falou pela boca de Seus santos profetas, chamando-O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus que tirou Seu povo da terra do Egito. Tais expressões, sem dúvida, dirigem claramente nosso entendimento para a fé no Criador e implantam afeição por Ele naqueles que aprenderam piedosa e fielmente a pensar assim a Seu respeito, de acordo com as próprias palavras do Salvador, que, quando Lhe perguntaram qual era o maior mandamento da lei, respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. E o segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas”. Como é, então, que Ele recomenda àquele que estava instruindo e conduzindo ao ofício de discípulo esse mandamento acima de todos os outros, pelo qual o amor haveria sem dúvida de ser acendido nele para com o Deus daquela lei, visto que tais palavras tinham sido declaradas pela própria lei? Mas conceda-se, apesar de todas essas evidências tão claras, que o Salvador, ao dizer “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” etc., esteja falando de algum outro Deus desconhecido. Como, então, se a lei e os profetas são, como eles dizem, do Criador, isto é, de outro Deus que não Aquele a quem Ele chama bom, parecerá lógico o que Ele acrescenta, a saber, que “destes dois mandamentos dependem a lei e os profetas”? Pois como aquilo que é estranho e alheio a Deus dependerá dEle? E quando Paulo diz: “Dou graças a meu Deus, a quem sirvo em meu espírito, desde os meus antepassados, com consciência pura”, ele mostra claramente que não veio a algum novo Deus, mas a Cristo. Pois quem poderiam ser os antepassados de Paulo, senão aqueles de quem ele diz: “São hebreus? Eu também. São israelitas? Eu também”. E não mostrará também claramente o mesmo o próprio prefácio de sua Epístola aos Romanos, a todos os que sabem entender as cartas de Paulo, isto é, que Deus ele prega? Pois suas palavras são: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o Evangelho de Deus, o qual Ele havia prometido anteriormente por meio de Seus profetas nas santas Escrituras, acerca de Seu Filho, nascido da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus com poder segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo nosso Senhor” etc. Além disso, também o seguinte: “Não amordaçarás o boi quando pisa o grão”. “Porventura Deus cuida de bois? Ou é seguramente por nós que Ele diz isso? Por nós, sem dúvida, está escrito, para que o que lavra o faça com esperança, e o que debulha, com esperança de participar dos frutos”. Com isso ele mostra claramente que Deus, que deu a lei por nossa causa, isto é, por causa dos apóstolos, diz: “Não amordaçarás o boi que pisa o grão”, cujo cuidado não era com bois, mas com os apóstolos que pregavam o Evangelho de Cristo. Em outras passagens também Paulo, abraçando as promessas da lei, diz: “Honra teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem e tenhas longa vida sobre a terra, a boa terra, que o Senhor teu Deus te dará”. Com isso ele sem dúvida mostra que a lei, e o Deus da lei, e Suas promessas lhe são agradáveis.

[18] Mas, visto que aqueles que sustentam essa heresia às vezes costumam enganar os corações dos simples por meio de certos sofismas enganosos, não considero impróprio apresentar as afirmações que costumam fazer e refutar seu engano e falsidade. Eis, então, as suas declarações. Está escrito que “ninguém jamais viu a Deus”. Mas aquele Deus que Moisés prega foi visto pelo próprio Moisés e por seus pais antes dele; ao passo que Aquele que é anunciado pelo Salvador jamais foi visto por alguém. Perguntemo-lhes, portanto, e a nós mesmos, se sustentam que Aquele que reconhecem como Deus e afirmam ser diferente do Criador é visível ou invisível. E, se disserem que é visível, além de irem contra a declaração da Escritura, que diz a respeito do Salvador: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criatura”, cairão também no absurdo de afirmar que Deus é corpóreo. Pois nada pode ser visto senão com o auxílio de forma, tamanho e cor, que são propriedades específicas dos corpos. E se Deus é declarado corpo, então também se descobrirá que é material, pois todo corpo é composto de matéria. Mas, se for composto de matéria, e a matéria é sem dúvida corruptível, então, segundo eles, Deus está sujeito à corrupção. Faremos a eles uma segunda pergunta. A matéria é feita, ou é incriada, isto é, não feita? E, se responderem que não é feita, isto é, incriada, perguntaremos se uma porção da matéria é Deus e a outra parte é o mundo. Mas, se disserem da matéria que é feita, seguirá necessariamente que confessam que Aquele que declaram ser Deus foi feito, resultado que certamente nem a razão deles nem a nossa pode admitir. Mas dirão: Deus é invisível. E então? Se disseres que Ele é invisível por natureza, então tampouco deveria ser visível ao Salvador. Ao passo que, ao contrário, Deus, o Pai de Cristo, é dito ser visto, porque “quem vê o Filho”, diz Ele, “vê também o Pai”. Isso certamente nos pressionaria muito, se tal expressão não fosse entendida por nós mais corretamente como entendimento, e não como visão. Pois quem compreendeu o Filho compreenderá também o Pai. Dessa forma, também Moisés deve ser considerado como tendo visto a Deus, não contemplando-O com os olhos do corpo, mas entendendo-O pela visão do coração e pela percepção da mente, e isso apenas em certa medida. Pois é manifesto que Aquele que deu respostas a Moisés disse: “Não verás minha face, mas verás as minhas costas”. Essas palavras, é claro, devem ser entendidas naquele sentido místico que convém às palavras divinas, rejeitando e desprezando aquelas fábulas de velhas inventadas por pessoas ignorantes a respeito das partes dianteiras e traseiras de Deus. Ninguém, de fato, suponha que tenhamos incorrido em alguma impiedade ao dizer que até ao Salvador o Pai não é visível. Considere ele a distinção que usamos ao lidar com hereges. Pois explicamos que uma coisa é ver e ser visto, e outra é conhecer e ser conhecido, ou entender e ser entendido. Ver e ser visto é propriedade dos corpos, e certamente não será apropriadamente aplicado nem ao Pai, nem ao Filho, nem ao Espírito Santo, em suas relações mútuas. Pois a natureza da Trindade ultrapassa a medida da visão, concedendo àqueles que estão no corpo, isto é, a todas as demais criaturas, a propriedade da visão uns em relação aos outros. Mas a uma natureza incorpórea e em grande parte intelectual não convém outro atributo senão o de conhecer ou ser conhecida, como o próprio Salvador declara quando diz: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Está claro, portanto, que Ele não disse: “Ninguém viu o Pai senão o Filho”, mas: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho”.

[19] E agora, se, por causa daquelas expressões que ocorrem no Antigo Testamento, como quando Deus é dito irar-se ou arrepender-se, ou quando qualquer outra afeição ou paixão humana é descrita, nossos opositores pensam que estão munidos de argumentos para refutar-nos, a nós que sustentamos que Deus é inteiramente impassível e deve ser considerado totalmente livre de todas essas afeições, temos de mostrar-lhes que afirmações semelhantes se encontram até mesmo nas parábolas do Evangelho; como quando se diz que aquele que plantou uma vinha e a arrendou a lavradores, os quais mataram os servos que lhes foram enviados e por fim também deram morte ao filho, se diz que, em ira, tomou deles a vinha, entregou os lavradores maus à destruição e transferiu a vinha a outros, que lhe dariam o fruto a seu tempo. E assim também com relação àqueles cidadãos que, tendo o chefe da casa partido para receber para si um reino, enviaram mensageiros após ele dizendo: “Não queremos que este homem reine sobre nós”; pois o chefe da casa, havendo recebido o reino, voltou e, irado, ordenou que fossem mortos diante dele e queimou sua cidade com fogo. Mas, quando lemos quer no Antigo Testamento quer no Novo acerca da ira de Deus, não tomamos tais expressões literalmente, mas buscamos nelas um sentido espiritual, para pensarmos de Deus como Ele merece ser pensado. E sobre esses pontos, ao expormos o versículo do segundo Salmo: “Então lhes falará em Sua ira, e em Seu furor os perturbará”, mostramos, segundo nossa pobre capacidade, como tal expressão deve ser entendida.

[20] Ora, visto que pesa sobre alguns esta consideração, de que os líderes daquela heresia de que temos falado pensam ter estabelecido uma espécie de divisão, segundo a qual declararam que justiça é uma coisa e bondade outra, e aplicaram essa divisão até mesmo às coisas divinas, sustentando que o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é de fato um Deus bom, mas não justo, ao passo que o Deus da lei e dos profetas é justo, mas não bom, penso ser necessário responder, com a maior brevidade possível, a essas afirmações. Essas pessoas, então, consideram a bondade como uma espécie de disposição pela qual benefícios seriam conferidos a todos, embora o receptor deles seja indigno e não mereça bondade alguma; mas aqui, a meu ver, não aplicaram corretamente sua própria definição, já que pensam que nenhum benefício é conferido àquele que é visitado por algum sofrimento ou calamidade. A justiça, por outro lado, eles a entendem como aquela qualidade que recompensa cada um segundo seus méritos. Mas, novamente, não interpretam corretamente o significado de sua própria definição. Pois pensam que é próprio da justiça enviar males aos ímpios e benefícios aos bons; isto é, segundo a visão deles, o Deus justo não parece querer bem aos maus, mas ser movido por uma espécie de ódio contra eles. E recolhem exemplos disso onde quer que encontrem, nas Escrituras do Antigo Testamento, relatos como o castigo do dilúvio, ou o destino daqueles que são descritos como perecendo nele, ou a destruição de Sodoma e Gomorra por uma chuva de fogo e enxofre, ou a queda de todo o povo no deserto por causa de seus pecados, de modo que nenhum dos que haviam saído do Egito foi encontrado entre os que entraram na terra prometida, com exceção de Josué e Calebe. Ao passo que, do Novo Testamento, recolhem palavras de compaixão e piedade, pelas quais os discípulos são instruídos pelo Salvador e pelas quais parece ser declarado que ninguém é bom senão somente Deus Pai; e, por esse meio, ousaram chamar o Pai do Salvador Jesus Cristo de Deus bom, mas dizer que o Deus do mundo é outro, a quem lhes apraz denominar justo, mas não também bom.

[21] Ora, penso que se deve exigir deles, em primeiro lugar, que mostrem, se puderem, de acordo com a própria definição deles, que o Criador é justo ao punir segundo os méritos, quer aqueles que pereceram no dilúvio, quer os habitantes de Sodoma, quer aqueles que haviam saído do Egito, visto que às vezes observamos crimes mais perversos e detestáveis do que aqueles pelos quais essas pessoas acima mencionadas foram destruídas, e, ainda assim, não vemos cada pecador pagar a pena de seus delitos. Dirão eles que Aquele que em certo tempo era justo tornou-se bom? Ou preferirão opinar que Ele é ainda agora justo, mas está suportando com paciência as ofensas humanas, ao passo que então nem mesmo era justo, uma vez que exterminou crianças inocentes e de peito juntamente com gigantes cruéis e ímpios? Tais são suas opiniões, porque não sabem entender nada além da letra; de outro modo mostrariam como é justiça literal que os pecados sejam visitados sobre a cabeça dos filhos até a terceira e quarta geração, e ainda sobre os filhos dos filhos. Por nós, porém, tais coisas não são entendidas literalmente; antes, como Ezequiel ensinou ao relatar a parábola, investigamos qual é o sentido interno contido nela. Além disso, eles devem explicar também como pode ser justo e recompensar cada um segundo seus méritos Aquele que pune homens voltados para a terra e o diabo, se, segundo eles, não fizeram nada digno de punição. Pois não poderiam praticar bem algum se, de acordo com eles, fossem de natureza má e arruinada. Pois, já que O chamam juiz, Ele parece ser juiz não tanto de ações quanto de naturezas; e, se uma natureza má não pode fazer o bem, tampouco uma natureza boa pode fazer o mal. Em seguida, se Aquele a quem chamam bom é bom para todos, então é sem dúvida bom também para aqueles que estão destinados a perecer. E por que não os salva? Se não deseja fazê-lo, já não será bom; se o deseja e não pode efetivá-lo, não será onipotente. Por que não ouvem antes o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, nos Evangelhos, preparando fogo para o diabo e seus anjos? E como esse procedimento, tão penal quanto triste, parecerá, segundo a visão deles, obra do Deus bom? O próprio Salvador, o Filho do Deus bom, declara nos Evangelhos que, se sinais e maravilhas tivessem sido feitos em Tiro e Sidom, elas teriam se arrependido há muito tempo, assentadas em pano de saco e cinza. E quando Ele se aproximou daquelas mesmas cidades e entrou em seu território, por que, então, evitou entrar nelas e mostrar-lhes abundância de sinais e maravilhas, se era certo que se arrependeriam, após terem sido realizados, em pano de saco e cinza? Mas, como não o faz, Ele sem dúvida abandona à destruição aqueles que a linguagem do Evangelho mostra não serem de natureza má nem arruinada, visto que declara serem capazes de arrependimento. Novamente, em certa parábola do Evangelho, em que o rei entra para ver os convidados reclinados no banquete, ele viu um homem que não estava vestido com traje nupcial e lhe disse: “Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial?” e então ordenou a seus servos: “Amarrai-o de pés e mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”. Que nos digam quem é esse rei que entrou para ver os convidados e, encontrando um dentre eles com vestes impuras, ordenou a seus servos que o amarrassem e o lançassem nas trevas exteriores. É ele o mesmo a quem chamam justo? Como então havia mandado convidar indistintamente bons e maus, sem ordenar que seus méritos fossem investigados por seus servos? Tal procedimento indicaria, não o caráter de um Deus justo que recompensa segundo os méritos dos homens, como afirmam, mas o de alguém que demonstra bondade indiscriminada para com todos. Ora, se isso deve necessariamente ser entendido do Deus bom, isto é, de Cristo ou do Pai de Cristo, que outra objeção podem trazer contra a justiça do juízo de Deus? Aliás, que outra coisa é tão injustamente lançada por eles contra o Deus da lei, senão o fato de ordenar que aquele que havia sido convidado por Seus servos, enviados para chamar indistintamente bons e maus, fosse amarrado de pés e mãos e lançado nas trevas exteriores, porque estava com vestes impuras?

[22] E agora, o que tiramos da autoridade da Escritura já deveria ser suficiente para refutar os argumentos dos hereges. Não parecerá, contudo, impróprio discutir o assunto com eles brevemente, com base na própria razão. Perguntamos-lhes, então, se sabem o que entre os homens é considerado fundamento da virtude e da maldade, e se parece seguir-se que possamos falar de virtudes em Deus, ou, como pensam, nesses dois deuses. Que respondam também à questão se consideram a bondade uma virtude; e, como sem dúvida a admitirão como tal, que dirão da injustiça? Nunca, certamente, a meu ver, serão tão insensatos a ponto de negar que a justiça é uma virtude. Portanto, se a virtude é um bem e a justiça é uma virtude, então sem dúvida a justiça é bondade. Mas, se disserem que a justiça não é um bem, ela terá de ser ou um mal ou uma coisa indiferente. Ora, penso ser tolice responder àqueles que dizem que a justiça é um mal, pois parecerá que estou respondendo ou a palavras sem sentido, ou a homens fora de si. Como pode parecer um mal aquilo que é capaz de recompensar os bons com bens, como eles mesmos admitem? Mas, se disserem que é algo indiferente, segue-se que, se a justiça é assim, também a sobriedade, a prudência e todas as demais virtudes serão coisas indiferentes. E que responderemos a Paulo, quando diz: “Se há alguma virtude e, se há algum louvor, pensai nessas coisas, que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim”? Aprendam, portanto, pesquisando as santas Escrituras, quais são as virtudes em particular, e não se enganem dizendo que aquele Deus que retribui a cada um segundo seus méritos, por ódio ao mal, recompensa os ímpios com mal, e não porque aqueles que pecaram precisam ser tratados com remédios mais severos, e porque Ele lhes aplica aquelas medidas que, embora no presente produzam sensação de dor, visam à melhora. Eles não leem o que está escrito a respeito da esperança daqueles que foram destruídos no dilúvio; esperança essa da qual o próprio Pedro fala assim em sua primeira epístola: “Cristo, na verdade, foi morto na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, que em outro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, oito almas, foram salvas através da água. A isso corresponde agora o batismo, que também vos salva”. E, com respeito a Sodoma e Gomorra, que nos digam se creem que as palavras proféticas são palavras do Deus Criador, dAquele que é descrito como tendo feito chover sobre elas fogo e enxofre. O que diz Ezequiel, o profeta, a respeito delas? “Sodoma”, diz ele, “será restaurada ao seu estado anterior”. Mas por que, ao afligir os que merecem punição, não os aflige para seu bem, Ele que também diz à Caldeia: “Tens brasas de fogo, assenta-te sobre elas; elas te servirão de ajuda”? E a respeito também daqueles que caíram no deserto, ouçam o que se relata no Salmo setenta e oito, que traz a inscrição de Asafe; pois ele diz: “Quando Ele os matava, então o buscavam”. Não diz que alguns O buscavam depois que outros tinham sido mortos, mas diz que a destruição dos que foram mortos foi de tal natureza que, sendo mortos, buscaram a Deus. Por tudo isso se estabelece que o Deus da lei e dos Evangelhos é um e o mesmo, um Deus justo e bom, e que Ele concede benefícios com justiça e pune com bondade; porque nem a bondade sem justiça, nem a justiça sem bondade, pode exibir a real dignidade da natureza divina.

[23] Acrescentaremos ainda as seguintes observações, às quais somos levados por suas sutilezas. Se a justiça é algo diferente da bondade, então, visto que o mal é o oposto do bem e a injustiça é o oposto da justiça, a injustiça sem dúvida será algo diferente de um mal; e, em tua opinião, assim como o homem justo não é bom, também o homem injusto não será mau; e novamente, assim como o homem bom não é justo, também o homem mau não será injusto. Mas quem não vê o absurdo de que ao Deus bom se oponha aquele que é mau, enquanto ao Deus justo, que eles alegam ser inferior ao bom, ninguém se oponha? Pois não há ninguém que possa ser chamado injusto, como há um Satanás que é chamado mau. Que fazer, então? Abandonemos a posição que defendemos, pois eles não poderão sustentar que um homem mau não seja também injusto, nem que um homem injusto não seja também mau. E, se essas qualidades são inseparavelmente inerentes a esses opostos, a saber, a injustiça à maldade, ou a maldade à injustiça, então, sem dúvida, o homem bom será inseparável do justo, e o justo, do bom; de modo que, assim como falamos de uma e mesma maldade em malícia e injustiça, também podemos sustentar que a virtude da bondade e a da justiça são uma e a mesma.

[24] Eles nos trazem de volta, porém, às palavras da Escritura, apresentando aquela célebre questão deles, afirmando que está escrito: “Uma árvore má não pode produzir bons frutos; pois a árvore é conhecida pelo seu fruto”. Qual é, então, a posição deles? Que tipo de árvore é a lei, isso se mostra por seus frutos, isto é, pela linguagem de seus preceitos. Pois, se a lei for encontrada boa, então sem dúvida Aquele que a deu será tido por Deus bom. Mas, se for justa mais do que boa, então Deus também será considerado legislador justo. O apóstolo Paulo não usa rodeios quando diz: “A lei é boa; e o mandamento é santo, justo e bom”. Daí fica claro que Paulo não havia aprendido a linguagem daqueles que separam justiça de bondade, mas fora instruído por aquele Deus e iluminado por Seu Espírito, que é ao mesmo tempo santo, bom e justo; e, falando por esse Espírito, declarou que o mandamento da lei era santo, justo e bom. E, para mostrar mais claramente que a bondade estava no mandamento em grau ainda maior que a justiça e a santidade, repetindo suas palavras, usou, em lugar desses três epítetos, apenas o de bondade, dizendo: “Porventura aquilo que é bom se me tornou morte? De modo nenhum”. Como sabia que a bondade era o gênero das virtudes, e que a justiça e a santidade eram espécies pertencentes a esse gênero, e tendo nos versos anteriores nomeado gênero e espécies juntos, voltou, ao repetir suas palavras, ao gênero apenas. Mas, nas palavras seguintes, diz: “O pecado operou em mim a morte por meio daquilo que é bom”, onde resume genericamente o que antes havia explicado especificamente. E assim também deve ser entendida a declaração: “O homem bom, do bom tesouro do coração, tira coisas boas; e o homem mau, do mau tesouro, tira coisas más”. Pois aqui também ele pressupôs haver um gênero no bem e no mal, indicando sem dúvida que no homem bom havia justiça, temperança, prudência, piedade e tudo o que pode ser chamado ou entendido como bom. De igual modo, chamou de mau o homem que seria sem dúvida injusto, impuro, ímpio e tudo aquilo que, isoladamente, torna um homem mau. Pois, assim como ninguém considera um homem mau sem essas marcas de maldade, nem de fato o pode ser, assim também é certo que sem essas virtudes ninguém será considerado bom. Resta-lhes ainda, contudo, aquela palavra do Senhor no Evangelho, que julgam ser dada a eles de modo especial como escudo, a saber: “Ninguém é bom senão um só, Deus Pai”. Essa palavra eles declaram ser peculiar ao Pai de Cristo, que, contudo, é diferente do Deus Criador de todas as coisas, ao qual Criador Ele não deu a designação de bondade. Vejamos agora se, no Antigo Testamento, o Deus dos profetas e o Criador e Legislador da Palavra não é chamado bom. Que expressões ocorrem nos Salmos? “Quão bom é Deus para Israel, para os retos de coração”; e: “Diga agora Israel que Ele é bom, porque Sua misericórdia dura para sempre”; e a linguagem das Lamentações de Jeremias: “Bom é o Senhor para os que esperam nEle, para a alma que O busca”. Assim como, portanto, Deus é frequentemente chamado bom no Antigo Testamento, também o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é chamado justo nos Evangelhos. Finalmente, no Evangelho segundo João, o próprio Senhor, ao orar ao Pai, diz: “Pai justo, o mundo não Te conheceu”. E, para que talvez não digam que foi por haver assumido carne humana que chamou o Criador do mundo de Pai e O denominou Justo, são excluídos de tal fuga pelas palavras que se seguem imediatamente: “O mundo não Te conheceu”. Mas, segundo eles, o mundo ignora somente o Deus bom. Pois o mundo, sem dúvida, reconhece seu Criador, tendo o próprio Senhor dito que o mundo ama o que é seu. Claramente, então, Aquele que eles consideram ser o Deus bom é chamado justo nos Evangelhos. Qualquer um pode, com tempo, reunir maior número de provas, consistindo daquelas passagens em que, no Novo Testamento, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é chamado justo, e no Antigo, o Criador do céu e da terra é chamado bom; para que os hereges, sendo convencidos por numerosos testemunhos, talvez algum dia se envergonhem.

[25] É agora tempo, depois desta breve consideração desses pontos, de retomarmos nossa investigação sobre a encarnação de nosso Senhor e Salvador, isto é, como e por que Ele se fez homem. Tendo, portanto, considerado, segundo nossa débil capacidade, Sua natureza divina a partir da contemplação de Suas próprias obras e não de nossos próprios sentimentos, e tendo ainda contemplado com os olhos Sua criação visível, enquanto a invisível é vista pela fé, porque a fragilidade humana não pode nem ver todas as coisas com os olhos do corpo nem compreendê-las pela razão, visto que nós, homens, somos mais fracos e frágeis do que quaisquer outros seres racionais, pois aqueles que estão no céu, ou se supõe existirem acima do céu, são superiores, resta-nos buscar um ser intermediário entre todas as coisas criadas e Deus, isto é, um Mediador, a quem o apóstolo Paulo chama “o primogênito de toda criatura”. Considerando, além disso, aquelas declarações a respeito de Sua majestade contidas na sagrada Escritura, a saber, que Ele é chamado “imagem do Deus invisível” e “primogênito de toda criatura”, e que “nEle foram criadas todas as coisas, visíveis e invisíveis, sejam tronos, dominações, principados ou potestades; todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele; e Ele é antes de todas as coisas, e tudo subsiste por Ele”, sendo a cabeça de todas as coisas, tendo apenas Deus Pai como cabeça, pois está escrito: “A cabeça de Cristo é Deus”; vendo também claramente que está escrito: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho, nem ninguém conhece o Filho senão o Pai”, pois quem pode conhecer o que é sabedoria senão Aquele que a chamou à existência? Ou quem pode entender claramente o que é a verdade senão o Pai da verdade? Quem pode investigar com certeza a natureza universal de Sua Palavra e do próprio Deus, natureza essa que procede de Deus, exceto o próprio Deus, com quem a Palavra estava? Devemos considerar certo que esta Palavra, ou Razão, se assim deve ser chamada, esta Sabedoria, esta Verdade, não é conhecida por nenhum outro senão pelo Pai somente; e acerca dEle está escrito que “penso que nem o próprio mundo poderia conter os livros que se poderiam escrever” a respeito, isto é, da glória e majestade do Filho de Deus. Pois é impossível confiar à escrita todos os detalhes que pertencem à glória do Salvador. Depois de considerar questões de tamanha importância acerca do ser do Filho de Deus, ficamos perdidos na mais profunda admiração de que tal natureza, preeminente acima de todas as outras, tenha se despojado de sua condição de majestade e se tornado homem, e tenha habitado entre os homens, como o testemunha a graça derramada em Seus lábios, e como Seu Pai celestial Lhe deu testemunho, e como o confessam os vários sinais, maravilhas e milagres que por Ele foram realizados; Ele que também, antes daquela manifestação Sua na carne, enviou os profetas como precursores e mensageiros de Sua vinda; e, após Sua ascensão aos céus, fez que Seus santos apóstolos, homens ignorantes e sem instrução, tomados dentre publicanos e pescadores, mas cheios do poder de Sua divindade, percorressem o mundo para reunir dentre toda raça e nação uma multidão de crentes piedosos nEle.

[26] Mas, dentre todos os atos maravilhosos e poderosos que se narram a respeito dEle, este ultrapassa totalmente a admiração humana e está além da capacidade da fraqueza mortal de compreender ou sentir: como aquele poderoso poder da majestade divina, aquela mesma Palavra do Pai, e aquela mesma Sabedoria de Deus, na qual foram criadas todas as coisas, visíveis e invisíveis, pode ser crido como tendo existido dentro dos limites daquele homem que apareceu na Judeia; e ainda, que a Sabedoria de Deus tenha entrado no ventre de uma mulher, tenha nascido infante e emitido vagidos como os gritos de criancinhas. E que depois se relate que Ele foi profundamente perturbado na morte, dizendo, como Ele próprio declarou: “Minha alma está profundamente triste até à morte”; e, por fim, que foi conduzido àquela morte que entre os homens é considerada a mais vergonhosa, embora tenha ressuscitado ao terceiro dia. Vendo, então, nEle algumas coisas tão humanas que parecem não diferir em nada da fraqueza comum dos mortais, e outras tão divinas que só podem conviver adequadamente com a natureza primeira e inefável da Divindade, a estreiteza do entendimento humano não encontra saída; mas, vencida pelo espanto de uma poderosa admiração, não sabe para onde retirar-se, o que agarrar ou para onde voltar-se. Se pensa em um Deus, vê um mortal; se pensa em um homem, contempla-O regressando do túmulo, depois de derrubar o império da morte, carregado de seus despojos. E, portanto, esse espetáculo deve ser contemplado com todo temor e reverência, para que a verdade de ambas as naturezas seja mostrada claramente existir em um e no mesmo Ser; de modo que nada indigno ou impróprio seja percebido naquela substância divina e inefável, e nem tampouco as coisas que foram feitas sejam consideradas ilusões de aparências imaginárias. Pronunciar essas coisas a ouvidos humanos e explicá-las por palavras ultrapassa em muito as forças tanto de nossa posição quanto de nosso intelecto e linguagem. Penso que ultrapassa o poder até mesmo dos santos apóstolos; aliás, a explicação desse mistério talvez esteja além do alcance de toda a criação das potestades celestiais. A respeito dEle, então, declararemos, com o menor número possível de palavras, o conteúdo de nossa fé, mais do que as afirmações que a razão humana costuma apresentar; e isso não por espírito de temeridade, mas como exigido pela natureza de nossa exposição, pondo diante de ti antes o que se poderia chamar de nossas conjecturas do que afirmações claras.

[27] O Unigênito de Deus, portanto, por quem, como o curso anterior da discussão mostrou, todas as coisas foram feitas, visíveis e invisíveis, segundo a visão da Escritura, tanto fez todas as coisas quanto ama aquilo que fez. Pois, sendo Ele mesmo a imagem invisível do Deus invisível, comunicou invisivelmente uma participação de Si mesmo a todas as Suas criaturas racionais, de modo que cada uma recebeu parte dEle exatamente na proporção do afeto com que O contemplava. Mas, visto que, de acordo com a faculdade do livre-arbítrio, variedade e diversidade caracterizavam as almas individuais, de modo que uma se apegava com amor mais ardente ao Autor de seu ser e outra com afeição mais fraca e débil, aquela alma a respeito da qual Jesus disse: “Ninguém tira de mim a minha vida”, permanecendo, desde o início da criação e depois, inseparável e indissoluvelmente nEle, sendo Ele a Sabedoria e a Palavra de Deus, a Verdade e a verdadeira Luz, e recebendo-O por inteiro e passando para Sua luz e esplendor, foi feita com Ele, em grau preeminente, um só espírito, segundo a promessa do apóstolo àqueles que deveriam imitá-la, de que “aquele que se une ao Senhor é um só espírito”. Essa substância de alma, então, sendo intermediária entre Deus e a carne, visto ser impossível à natureza de Deus misturar-se com um corpo sem um instrumento intermediário, faz nascer o Deus-homem, como dissemos, sendo essa substância a intermediária, à cuja natureza não era contrário assumir um corpo. Mas também, por outro lado, não era contrário à natureza daquela alma, como existência racional, receber Deus, em quem, como afirmado acima, como na Palavra, na Sabedoria e na Verdade, ela já havia entrado inteiramente. E por isso, com razão, ela é também chamada, juntamente com a carne que assumiu, Filho de Deus, Poder de Deus, Cristo e Sabedoria de Deus, quer porque estava inteiramente no Filho de Deus, quer porque recebeu o Filho de Deus completamente em si mesma. E novamente, o Filho de Deus, por quem todas as coisas foram criadas, é chamado Jesus Cristo e Filho do Homem. Pois também se diz que o Filho de Deus morreu, em referência àquela natureza que podia admitir a morte; e é chamado Filho do Homem Aquele que é anunciado como vindo na glória de Deus Pai, com os santos anjos. E por essa razão, em toda a Escritura, não apenas a natureza divina é expressa em palavras humanas, mas a natureza humana é adornada com títulos de dignidade divina. Mais verdadeiramente, de fato, disso do que de qualquer outra coisa pode afirmar-se a declaração: “Ambos serão uma só carne e já não são dois, mas uma só carne”. Pois a Palavra de Deus deve ser considerada ainda mais uma só carne com a alma do que o homem com sua mulher. E a quem mais convém também ser um só espírito com Deus, senão a essa alma que de tal modo se uniu a Deus pelo amor que justamente se pode dizer ser um só espírito com Ele?

[28] Que a perfeição de seu amor e a sinceridade de sua afeição merecida formaram para ela essa união inseparável com Deus, de tal modo que a assunção daquela alma não foi acidental nem resultado de preferência pessoal, mas foi conferida como recompensa de suas virtudes, ouve o profeta dirigindo-se a ela assim: “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria acima dos teus companheiros”. Como recompensa de seu amor, então, ela é ungida com o óleo de alegria, isto é, a alma de Cristo, juntamente com a Palavra de Deus, é feita Cristo. Porque ser ungido com óleo de alegria não significa outra coisa senão ser cheio do Espírito Santo. E quando se diz “acima dos teus companheiros”, quer-se significar que a graça do Espírito não lhe foi dada como aos profetas, mas que a plenitude essencial da própria Palavra de Deus estava nela, segundo o dito do apóstolo: “Nele habitou corporalmente toda a plenitude da Divindade”. Finalmente, por isso ele não disse apenas: “Amaste a justiça”, mas acrescenta: “e odiaste a iniquidade”. Pois odiar a iniquidade é aquilo que a Escritura diz dEle: “Não cometeu pecado, nem dolo algum foi achado em sua boca”, e que “foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança, mas sem pecado”. O próprio Senhor também disse: “Quem dentre vós me convence de pecado?” E novamente diz a respeito de Si mesmo: “Eis que vem o príncipe deste mundo, e nada encontra em mim”. Tudo isso mostra que nEle não havia qualquer sensação de pecado; e, para que o profeta mostrasse ainda mais claramente que nenhuma sensação de pecado jamais entrara nEle, diz: “Antes que o menino soubesse chamar pai e mãe, afastou-se da maldade”. Ora, se o fato de termos mostrado acima que Cristo possuía alma racional causar dificuldade a alguém, visto que frequentemente provamos ao longo de nossas discussões que a natureza das almas é capaz tanto do bem quanto do mal, a dificuldade será explicada do seguinte modo. Que a natureza de Sua alma era a mesma que a de todas as outras não se pode duvidar, pois de outro modo não poderia ser chamada alma, se não fosse verdadeiramente uma. Mas, como o poder de escolher o bem e o mal está ao alcance de todos, esta alma que pertencia a Cristo escolheu amar a justiça, de modo que, em proporção à imensidão de seu amor, a ela se apegou de modo imutável e inseparável, de tal sorte que a firmeza de propósito, a imensidão do afeto e o calor inextinguível do amor destruíram toda suscetibilidade de alteração e mudança; e aquilo que antes dependia da vontade foi transformado, pelo poder do longo hábito, em natureza; de modo que devemos crer que existiu em Cristo uma alma humana e racional, sem supor que tivesse nela qualquer sentimento ou possibilidade de pecado.

[29] Para explicar isso mais plenamente, não parecerá absurdo usar uma ilustração, embora, em assunto de tanta dificuldade, não seja fácil obter ilustrações adequadas. Contudo, se nos for permitido falar sem ofensa, o ferro é capaz de frio e calor. Se, então, uma massa de ferro for mantida continuamente no fogo, recebendo o calor por todos os seus poros e veias, sendo o fogo contínuo e o ferro jamais retirado dele, de tal modo que se converta inteiramente no próprio fogo, poderíamos dizer de algo que por natureza é uma massa de ferro que, estando no fogo e ardendo incessantemente, em algum momento foi capaz de admitir frieza? Ao contrário, porque isso é mais conforme à verdade, não dizemos antes, como frequentemente vemos acontecer nas fornalhas, que ele se tornou inteiramente fogo, pois nada mais que fogo é visível nele? E, se alguém tentasse tocá-lo ou manuseá-lo, experimentaria a ação não do ferro, mas do fogo. Assim, então, aquela alma que, como ferro no fogo, foi colocada perpetuamente na Palavra, e perpetuamente na Sabedoria, e perpetuamente em Deus, é Deus em tudo o que faz, sente e entende e, portanto, não pode ser chamada nem conversível nem mutável, visto que, sendo incessantemente aquecida, possuía imutabilidade por sua união com a Palavra de Deus. A todos os santos, enfim, deve-se supor que passou algum calor da Palavra de Deus; e nesta alma deve-se crer que o próprio fogo divino repousou, do qual algum calor pode ter passado para outros. Por fim, a expressão: “Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria acima dos teus companheiros”, mostra que aquela alma foi ungida de um modo com o óleo de alegria, isto é, com a Palavra de Deus e a Sabedoria; e seus companheiros, isto é, os santos profetas e apóstolos, de outro modo. Pois se diz que correram ao odor de Seus unguentos; e aquela alma era o vaso que continha esse próprio unguento, de cujo perfume todos os dignos profetas e apóstolos se tornaram participantes. Assim como a substância do unguento é uma coisa e seu perfume é outra, assim também Cristo é uma coisa e Seus companheiros são outra. E, assim como o próprio vaso que contém a substância do unguento de modo algum pode admitir qualquer mau odor, enquanto é possível que aqueles que desfrutam de seu perfume, se se afastarem um pouco de sua fragrância, recebam algum mau odor que lhes sobrevenha, do mesmo modo era impossível que Cristo, sendo por assim dizer o próprio vaso no qual estava a substância do unguento, recebesse um odor de tipo oposto, ao passo que Seus companheiros serão participantes e receptores de Seu perfume na proporção de sua proximidade do vaso. Penso, de fato, que também Jeremias, o profeta, entendendo qual era a natureza da sabedoria de Deus nele, a mesma também que Ele havia assumido para a salvação do mundo, disse: “O fôlego do nosso rosto é Cristo, o Senhor, de quem dissemos que sob Sua sombra viveremos entre as nações”. E, visto que a sombra do nosso corpo é inseparável do corpo e inevitavelmente executa e repete seus movimentos e gestos, penso que ele, querendo indicar a obra da alma de Cristo e os movimentos inseparavelmente pertencentes a ela, que tudo realizavam segundo Seus movimentos e vontade, chamou isso de sombra de Cristo, o Senhor, sob cuja sombra havíamos de viver entre as nações. Pois no mistério dessa assunção vivem as nações, que, imitando-o pela fé, chegam à salvação. Também Davi, ao dizer: “Lembra-te do meu opróbrio, ó Senhor, com que me afrontaram em lugar do teu Cristo”, parece-me indicar o mesmo. E que outra coisa quer dizer Paulo quando afirma: “A vossa vida está escondida com Cristo em Deus”; e novamente, em outra passagem: “Buscais prova de Cristo, que fala em mim?” E agora ele diz que Cristo estava escondido em Deus. O significado dessa expressão, a menos que se mostre ser algo como aquilo que apontamos acima como pretendido pelo profeta nas palavras “sombra de Cristo”, excede talvez a apreensão da mente humana. Mas vemos também muitas outras declarações na sagrada Escritura a respeito do significado da palavra sombra, como aquela bem conhecida no Evangelho segundo Lucas, onde Gabriel diz a Maria: “O Espírito do Senhor virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”. E o apóstolo diz com referência à lei que os que têm circuncisão na carne servem de figura e sombra das coisas celestiais. E em outro lugar: “Não é a nossa vida sobre a terra uma sombra?” Se, então, não somente a lei que está sobre a terra é uma sombra, mas também toda a nossa vida que está sobre a terra é o mesmo, e vivemos entre as nações sob a sombra de Cristo, devemos ver se a verdade de todas essas sombras não virá a ser conhecida naquela revelação em que, já não por espelho e obscuramente, mas face a face, todos os santos merecerão contemplar a glória de Deus, e as causas e a verdade das coisas. E, tendo já recebido o penhor dessa verdade por meio do Espírito Santo, o apóstolo disse: “Ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo”. Estas, entretanto, são as reflexões que nos ocorreram ao tratar de assuntos de tamanha dificuldade como a encarnação e a divindade de Cristo. Se houver alguém que possa descobrir algo melhor e estabelecer suas afirmações por provas mais claras tiradas das santas Escrituras, que sua opinião seja recebida de preferência à minha.

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