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[1] Portanto, depois daquelas primeiras discussões que, conforme a exigência do caso, tivemos no início acerca do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pareceu correto refazer nossos passos e mostrar que o mesmo Deus era o criador e fundador do mundo, e o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; isto é, que o Deus da lei, dos profetas e do evangelho era um e o mesmo; e que, em seguida, também deveria ser mostrado, a respeito de Cristo, de que modo aquele que antes fora demonstrado ser o Verbo e a Sabedoria de Deus se fez homem. Resta, pois, que agora retornemos, com toda a brevidade possível, ao assunto do Espírito Santo.

[2] É tempo, então, de dizermos algumas palavras, da melhor maneira que pudermos, a respeito do Espírito Santo, a quem nosso Senhor e Salvador, no evangelho segundo João, chamou de Paráclito. Pois, assim como é o mesmo Deus e o mesmo Cristo, assim também é o mesmo Espírito Santo que esteve nos profetas e nos apóstolos, isto é, tanto naqueles que creram em Deus antes da vinda de Cristo quanto naqueles que, por meio de Cristo, buscaram refúgio em Deus. Ouvimos, de fato, que certos hereges ousaram dizer que há dois deuses e dois cristos, mas nunca soubemos de alguém que tenha pregado a doutrina de dois espíritos santos. Pois como poderiam sustentar isso a partir da escritura, ou que distinção poderiam estabelecer entre Espírito Santo e Espírito Santo, se é que se pode descobrir alguma definição ou descrição do Espírito Santo? Pois, ainda que concedêssemos a Marcião ou a Valentino ser possível traçar distinções na questão da divindade, descrevendo a natureza do Deus bom como uma e a do Deus justo como outra, que poderia alguém imaginar ou descobrir para introduzir uma distinção no Espírito Santo? Considero, portanto, que eles nada podem encontrar que indique qualquer distinção desse tipo.

[3] Ora, somos de opinião que toda criatura racional, sem qualquer distinção, recebe participação nele do mesmo modo como participa da Sabedoria e do Verbo de Deus. Observo, porém, que a principal vinda do Espírito Santo foi declarada aos homens após a ascensão de Cristo ao céu, mais do que antes de sua vinda ao mundo. Pois, antes disso, o dom do Espírito Santo era concedido apenas aos profetas e a poucos indivíduos, se porventura houvesse alguns entre o povo dignos disso; mas, após a vinda do Salvador, está escrito que se cumpriu a predição do profeta Joel: Nos últimos dias acontecerá que derramarei do meu Espírito sobre toda carne, e profetizarão; o que é semelhante à conhecida declaração: Todas as nações o servirão. Pela graça do Espírito Santo, portanto, entre muitos outros resultados, manifesta-se claramente esta consequência gloriosíssima: quanto às coisas que foram escritas nos profetas ou na lei de Moisés, outrora eram apenas poucas pessoas, isto é, os próprios profetas, e mal algum outro indivíduo de toda a nação, que conseguiam olhar além do mero sentido corpóreo e descobrir algo maior, isto é, algo espiritual, na lei ou nos profetas; mas agora existem incontáveis multidões de crentes que, embora não consigam expor de modo metódico e claro os resultados de sua compreensão espiritual, ainda assim estão firmemente persuadidos de que nem a circuncisão deve ser entendida literalmente, nem o repouso do sábado, nem o derramamento do sangue de um animal, nem que Deus tenha dado respostas a Moisés sobre essas coisas em sentido carnal. E este modo de apreensão é, sem dúvida, sugerido à mente de todos pelo poder do Espírito Santo.

[4] E assim como há muitos modos de compreender Cristo, o qual, embora seja Sabedoria, não exerce o papel nem possui o poder da sabedoria em todos os homens, mas somente naqueles que se entregam ao estudo da sabedoria nele; e o qual, embora seja chamado médico, não atua como tal para todos, mas apenas para os que reconhecem sua fraqueza e enfermidade e correm para sua compaixão a fim de obter saúde; assim também penso que acontece com o Espírito Santo, em quem está contida toda espécie de dons. Pois a alguns é concedida pelo Espírito a palavra de sabedoria, a outros a palavra de conhecimento, a outros a fé; e assim, para cada um que é capaz de recebê-lo, o próprio Espírito se torna aquela qualidade, ou é compreendido como aquilo de que necessita o indivíduo que mereceu participar dele. Essas divisões e diferenças, não sendo percebidas por aqueles que o ouvem ser chamado Paráclito no evangelho, e não considerando devidamente em virtude de que obra ou ação ele é chamado Paráclito, levaram-nos a compará-lo com espíritos comuns ou semelhantes; e, por esse meio, tentaram perturbar as igrejas de Cristo e excitar dissensões nada pequenas entre os irmãos. O evangelho, porém, mostra que ele é de tal poder e majestade que diz que os apóstolos ainda não podiam receber aquelas coisas que o Salvador desejava ensinar-lhes até a vinda do Espírito Santo, que, derramando-se em suas almas, os iluminaria quanto à natureza e à fé da Trindade. Mas essas pessoas, por ignorância de seu entendimento, não só são incapazes de expor logicamente a verdade, como nem sequer conseguem dar atenção ao que é por nós proposto; e, nutrindo ideias indignas de sua divindade, entregaram-se a erros e enganos, corrompidas por um espírito de erro, em vez de instruídas pelo ensino do Espírito Santo, segundo a declaração do apóstolo: seguindo doutrinas de demônios, proibindo o casamento, para destruição e ruína de muitos, e ordenando abstenção de alimentos, para que, mediante uma ostentação de observância mais rigorosa, seduzam as almas dos inocentes.

[5] Devemos, portanto, saber que o Paráclito é o Espírito Santo, que ensina verdades que não podem ser expressas em palavras e que, por assim dizer, são inexprimíveis, e que não é lícito a um homem proferir, isto é, que não podem ser indicadas pela linguagem humana. A expressão não é lícito, pensamos, é usada pelo apóstolo em vez de não é possível; como também ocorre na passagem em que ele diz: Tudo me é lícito, mas nem tudo convém; tudo me é lícito, mas nem tudo edifica. Pois aquilo que está em nosso poder, porque o podemos possuir, ele diz que nos é lícito. Mas o Paráclito, que é chamado Espírito Santo, recebe esse nome por sua obra de consolação, sendo paraclesis traduzido em latim por consolatio. Pois, se alguém mereceu participar do Espírito Santo mediante o conhecimento de seus mistérios inefáveis, certamente obtém consolação e alegria de coração. Porque, vindo pelo ensino do Espírito ao conhecimento das razões de todas as coisas que acontecem, de como ou por que ocorrem, sua alma de modo algum pode ser perturbada ou admitir qualquer sentimento de tristeza; nem se assusta com coisa alguma, visto que, apegando-se ao Verbo de Deus e à sua Sabedoria, pelo Espírito Santo chama Jesus de Senhor. E, já que mencionamos o Paráclito e explicamos, como nos foi possível, quais sentimentos devem ser nutridos a respeito dele; e visto que nosso Salvador também é chamado Paráclito na Epístola de João, quando diz: Se algum de nós pecar, temos um Paráclito junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo, e ele é a propiciação pelos nossos pecados; consideremos se este termo Paráclito tem um sentido quando aplicado ao Salvador e outro quando aplicado ao Espírito Santo. Ora, Paráclito, quando dito do Salvador, parece significar intercessor. Pois, em grego, Paráclito possui ambos os sentidos: o de intercessor e o de consolador. Por causa, então, da frase que segue, quando diz: E ele é a propiciação pelos nossos pecados, o nome Paráclito parece ser entendido, no caso do nosso Salvador, como significando intercessor; pois se diz que ele intercede junto ao Pai por causa de nossos pecados. No caso do Espírito Santo, o Paráclito deve ser entendido no sentido de consolador, porquanto concede consolação às almas às quais revela abertamente a compreensão do conhecimento espiritual.

[6] A ordem de nossa exposição requer agora que, depois da discussão dos assuntos precedentes, façamos uma investigação geral acerca da alma e, começando por pontos de menor importância, ascendamos aos maiores. Ora, que há almas em todos os seres vivos, até mesmo naqueles que vivem nas águas, penso que ninguém duvida. Pois a opinião geral de todos os homens sustenta isso; e soma-se a isso a confirmação da autoridade da sagrada escritura, quando se diz que Deus fez as grandes baleias e todo ser vivente que se move, que as águas produziram segundo a sua espécie. Isso também é confirmado pela inteligência comum da razão, por aqueles que estabelecem em certas palavras uma definição de alma. Pois a alma é definida assim: uma substância phantastiké e hormetiké, o que pode ser traduzido em latim, embora não tão adequadamente, por sensibilis et mobilis. E isso certamente pode ser dito apropriadamente de todos os seres vivos, inclusive daqueles que permanecem nas águas; e também das criaturas aladas se pode mostrar que esta mesma definição de anima lhes convém. A escritura acrescentou ainda sua autoridade a uma segunda opinião, quando diz: Não comereis o sangue, porque a vida de toda carne é o seu sangue; e não comereis a vida com a carne; no que indica muito claramente que o sangue de todo animal é sua vida. E se agora alguém perguntasse como se pode dizer, a respeito de abelhas, vespas e formigas, e daqueles outros seres das águas, ostras e mariscos, e todos os demais que não têm sangue, e que muito claramente se mostram seres vivos, que a vida de toda carne é o sangue, devemos responder que, em seres vivos desse tipo, a força que em outros animais é exercida pelo poder do sangue vermelho é neles exercida pelo líquido que está dentro deles, embora seja de cor diferente; pois a cor não é coisa importante, contanto que a substância seja dotada de vida. Que os animais de carga ou o gado menor sejam dotados de almas, não há dúvida alguma pelo consenso geral. A opinião da sagrada escritura, porém, é manifesta, quando Deus diz: Produza a terra criatura vivente segundo a sua espécie, animais quadrúpedes, répteis e feras da terra segundo a sua espécie. E quanto ao homem, embora ninguém duvide disso nem precise investigar, a sagrada escritura declara que Deus soprou em seu rosto o fôlego de vida, e o homem tornou-se alma vivente. Resta investigarmos, quanto à ordem angélica, se também eles possuem almas ou se são almas; e também quanto às demais potências divinas e celestes, bem como as de natureza oposta. Em parte alguma, de fato, encontramos autoridade na sagrada escritura para afirmar que os anjos, ou quaisquer outros espíritos divinos ministros de Deus, ou possuam almas ou sejam chamados almas; e, contudo, por muitos são considerados dotados de vida. Mas, a respeito de Deus, encontramos escrito assim: Porei a minha alma contra aquela alma que comeu sangue, e a arrancarei do meio do seu povo; e também em outra passagem: Vossas luas novas, sábados e grandes dias, não aceitarei; vossos jejuns, festas e solenidades, a minha alma odeia. E no Salmo vinte e dois, a respeito de Cristo, pois é certo, como testemunha o evangelho, que este salmo fala dele, ocorrem as seguintes palavras: Senhor, não te alongues de mim; atende à minha defesa; ó Deus, livra a minha alma da espada, e o meu amado da mão do cão; embora também existam muitos outros testemunhos a respeito da alma de Cristo quando ele habitou na carne.

[7] Mas a natureza da encarnação tornará desnecessária qualquer investigação acerca da alma de Cristo. Pois, assim como ele possuía verdadeiramente carne, assim também possuía verdadeiramente uma alma. É difícil, de fato, tanto conceber quanto expressar de que modo deve ser entendida aquilo que na escritura é chamado a alma de Deus; pois reconhecemos que essa natureza é simples e sem qualquer mistura ou acréscimo. De qualquer modo, porém, que isso deva ser entendido, parece, por ora, ser chamada a alma de Deus; ao passo que, quanto a Cristo, não há dúvida. E, por isso, não me parece absurdo compreender ou afirmar algo semelhante a respeito dos santos anjos e das outras potências celestes, já que aquela definição de alma parece também lhes ser aplicável. Pois quem pode racionalmente negar que sejam sensíveis e móveis? Mas, se aquela definição segundo a qual a alma é dita substância racional, sensível e móvel parecer correta, a mesma definição pareceria aplicar-se também aos anjos. Pois o que há neles senão sentimento racional e movimento? Ora, os seres compreendidos sob a mesma definição têm, sem dúvida, a mesma substância. Paulo, de fato, indica que existe uma espécie de homem animal que, diz ele, não pode receber as coisas do Espírito de Deus, mas declara que a doutrina do Espírito Santo lhe parece loucura e que não pode compreender o que deve ser discernido espiritualmente. Em outra passagem ele diz: semeia-se corpo animal, ressuscita corpo espiritual, mostrando que, na ressurreição dos justos, não haverá nada de natureza animal. E, portanto, investigamos se acaso existe alguma substância que, no que diz respeito ao ser anima, seja imperfeita. Mas se ela é imperfeita porque decaiu da perfeição ou porque assim foi criada por Deus, isso será objeto de investigação quando cada tema começar a ser tratado em ordem. Pois, se o homem animal não recebe as coisas do Espírito de Deus e, por ser animal, é incapaz de acolher a compreensão de algo melhor, isto é, da natureza divina, talvez seja por isso que Paulo, querendo ensinar-nos mais claramente o que é aquilo por meio do qual somos capazes de compreender as coisas do Espírito, isto é, as coisas espirituais, associe ao Espírito Santo antes um entendimento do que uma alma. Pois penso que ele indica isso quando diz: Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. E ele não diz: orarei com a alma, mas com o espírito e o entendimento. Nem diz: cantarei com a alma, mas com o espírito e o entendimento.

[8] Mas talvez se pergunte: se é o entendimento que ora e canta com o espírito, e se é ele mesmo que recebe tanto a perfeição quanto a salvação, como então Pedro diz: alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas? Se a alma não ora nem canta com o espírito, como esperará a salvação? Ou, quando atingir a bem-aventurança, deixará de ser chamada alma? Vejamos se talvez se possa responder assim: como o Salvador veio salvar o que estava perdido, aquilo que antes se dizia perdido já não está perdido quando é salvo; assim também, talvez, aquilo que é salvo seja chamado alma e, quando colocado em estado de salvação, receba do Verbo um nome que indique sua condição mais perfeita. Mas parece a alguns que também se pode acrescentar isto: assim como aquilo que se perdeu certamente existia antes de se perder, ocasião em que era algo diverso de destruído, assim também acontecerá quando já não estiver em estado de ruína. Do mesmo modo, a alma que se diz ter perecido terá sido, em certo tempo, alguma coisa, quando ainda não havia perecido; e por isso seria chamada alma. E, sendo novamente liberta da destruição, pode tornar-se uma segunda vez o que era antes de perecer, e ser chamada alma. Mas, a partir do próprio significado do nome alma, que a palavra grega transmite, pareceu a alguns investigadores curiosos que se pode sugerir um sentido nada pequeno. Pois, na linguagem sagrada, Deus é chamado fogo, como quando a escritura diz: Nosso Deus é fogo consumidor. A respeito da substância dos anjos, também fala assim: Faz de seus anjos espíritos, e de seus ministros chama de fogo ardente; e em outro lugar: O anjo do Senhor apareceu numa chama de fogo no meio da sarça. Além disso, recebemos o mandamento de sermos fervorosos no espírito; expressão pela qual, sem dúvida, se mostra que o Verbo de Deus é quente e ardente. O profeta Jeremias também ouve daquele que lhe dava as respostas: Eis que pus as minhas palavras em tua boca como fogo. Assim, pois, como Deus é fogo, os anjos são chama de fogo e todos os santos são fervorosos no espírito, assim, ao contrário, aqueles que caíram do amor de Deus são, sem dúvida, ditos ter esfriado em sua afeição por ele e se tornado frios. Pois o Senhor também diz que, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará. Mais ainda: todas as coisas, sejam quais forem, que na sagrada escritura são comparadas ao poder hostil, o diabo é dito encontrá-las perpetuamente frias; e que há de mais frio do que ele? Também no mar se diz que reina o dragão. Pois o profeta indica que a serpente e o dragão, o que certamente se refere a um dos espíritos malignos, está também no mar. E em outro lugar o profeta diz: Puxarei a minha espada santa contra o dragão, a serpente veloz, contra o dragão, a serpente tortuosa, e o matarei. E ainda diz: Ainda que se escondam dos meus olhos e desçam às profundezas do mar, ali darei ordem à serpente, e ela os morderá. No livro de Jó também se diz que ele é o rei de tudo o que há nas águas. O profeta ameaça que males se acenderão pelo vento norte sobre todos os habitantes da terra. Ora, o vento norte é descrito na sagrada escritura como frio, conforme a declaração no livro da Sabedoria: aquele frio vento norte; o que igualmente deve, sem dúvida, ser entendido do diabo. Se, portanto, as coisas santas são chamadas fogo, luz e fervor, enquanto as de natureza oposta são ditas frias; e se o amor de muitos é dito esfriar; temos de investigar se talvez o nome alma, que em grego se chama psyché, recebe esse nome por ter esfriado de uma condição melhor e mais divina, e se daí deriva, porque parece ter esfriado daquele calor natural e divino, e por isso foi colocada em sua posição presente e chamada por esse nome atual. Finalmente, veja se é fácil encontrar na sagrada escritura um lugar em que a alma seja propriamente mencionada em termos de louvor: pelo contrário, ela frequentemente aparece acompanhada de expressões de censura, como na passagem: Uma alma má arruína aquele que a possui; e: A alma que pecar, essa morrerá. Pois, depois de ter sido dito: Todas as almas são minhas; tanto a alma do pai quanto a alma do filho são minhas, parecia seguir-se que ele diria: A alma que pratica justiça, será salva; e: A alma que pecar, essa morrerá. Mas vemos que ele associou à alma o que é censurável e silenciou quanto ao que seria digno de louvor. Temos, portanto, de ver se, como dissemos ser declarado pelo próprio nome, ela foi chamada psyché, isto é, anima, porque esfriou do fervor das coisas justas e da participação no fogo divino, e ainda assim não perdeu o poder de restaurar-se àquela condição de fervor em que estava no princípio. Donde o profeta também parece apontar para algo assim nas palavras: Volta, ó minha alma, ao teu repouso. De tudo isso parece resultar que o entendimento, ao decair de seu estado e dignidade, foi feito ou chamado alma; e que, se for reparado e corrigido, retorna à condição de entendimento.

[9] Ora, se assim é, parece-me que essa mesma decadência e queda do entendimento não é igual em todos, mas que essa conversão em alma se realiza em maior ou menor grau em diferentes casos, e que certos entendimentos conservam algo de seu vigor anterior, enquanto outros nada ou muito pouco conservam. Daí se vê que alguns, desde o começo da vida, são dotados de intelecto mais ativo; outros, ao contrário, de mente mais lenta; e alguns nascem completamente obtusos e inteiramente incapazes de instrução. Nossa afirmação, porém, de que o entendimento se converte em alma, ou qualquer outra formulação que pareça ter esse sentido, o leitor deve examiná-la cuidadosamente e julgá-la por si mesmo, pois essas opiniões não são apresentadas por nós de maneira dogmática, mas apenas como reflexões tratadas em estilo de investigação e discussão. Considere também isto: observa-se, a respeito da alma do Salvador, que, entre as coisas escritas no evangelho, algumas lhe são atribuídas sob o nome de alma e outras sob o nome de espírito. Pois, quando quer indicar algum sofrimento ou perturbação que o afete, indica isso sob o nome de alma; como quando diz: Agora a minha alma está perturbada; e: A minha alma está triste até a morte; e: Ninguém tira de mim a minha alma, mas eu de mim mesmo a dou. Nas mãos do Pai, porém, ele não entrega sua alma, mas seu espírito; e quando diz que a carne é fraca, não diz que a alma está pronta, mas o espírito; de onde se conclui que a alma é algo intermediário entre a carne fraca e o espírito pronto.

[10] Mas talvez alguém nos enfrente com uma daquelas objeções contra as quais nós mesmos vos advertimos em nossa exposição, e diga: Como, então, se fala também de uma alma de Deus? A isso respondemos da seguinte maneira: assim como, com respeito a tudo o que é corpóreo e é dito de Deus, como dedos, mãos, braços, olhos, pés ou boca, dizemos que não devem ser entendidos como membros humanos, mas que certas de suas potências são indicadas por esses nomes de membros do corpo, assim também devemos supor que outra coisa é apontada por este título: alma de Deus. E, se nos é permitido ousar dizer algo mais sobre assunto tão elevado, talvez a alma de Deus possa ser entendida como o Filho unigênito de Deus. Pois, assim como a alma, quando implantada no corpo, move todas as coisas nele e exerce sua força sobre tudo aquilo em que opera, assim também o Filho unigênito de Deus, que é seu Verbo e sua Sabedoria, se estende e alcança toda potência de Deus, estando nela implantado; e talvez, para indicar este mistério, Deus seja chamado ou descrito na escritura como corpo. Devemos, de fato, considerar se não será talvez por isso que a alma de Deus possa ser entendida como seu Filho unigênito, porque ele mesmo veio a este mundo de aflição, desceu a este vale de lágrimas e a este lugar de nossa humilhação; como diz no salmo: Porque nos humilhaste no lugar de aflição. Finalmente, sei que certos intérpretes, ao explicar as palavras usadas pelo Salvador no evangelho, Minha alma está triste até a morte, entenderam-nas dos apóstolos, aos quais ele chamou sua alma, por serem melhores do que o restante de seu corpo. Pois, assim como a multidão dos crentes é chamada seu corpo, dizem eles que os apóstolos, por serem melhores do que o restante do corpo, devem ser entendidos como sua alma.

[11] Apresentamos, como melhor pudemos, esses pontos acerca da alma racional, como temas de discussão para nossos leitores, e não como proposições dogmáticas e bem definidas. E quanto às almas dos animais e de outras criaturas irracionais, basta o que acima dissemos em termos gerais.

[12] Voltemos agora à ordem de nossa discussão proposta e contemplemos o começo da criação, na medida em que o entendimento pode contemplar o início da criação de Deus. Nesse princípio, então, devemos supor que Deus criou tão grande número de criaturas racionais ou intelectuais, ou por qualquer nome que devam ser chamadas, as quais anteriormente denominamos entendimentos, quanto ele previu ser suficiente. É certo que ele as fez segundo um número definido, previamente determinado por si mesmo; pois não se deve imaginar, como alguns querem, que as criaturas não tenham limite, porque onde não há limite não pode haver nem compreensão nem delimitação. Ora, se fosse assim, então as coisas criadas certamente não poderiam ser contidas nem administradas por Deus. Pois, por natureza, tudo o que é infinito também será incompreensível. Além disso, como diz a escritura, Deus ordenou todas as coisas em número e medida; e por isso o número será corretamente aplicado às criaturas racionais ou entendimentos, para que sejam tão numerosas quanto convém para serem ordenadas, governadas e controladas por Deus. A medida, por sua vez, será adequadamente aplicada ao corpo material; e esta medida, devemos crer, foi criada por Deus tal como ele sabia ser suficiente para o ornamento do mundo. Estas, então, são as coisas que devemos crer terem sido criadas por Deus no princípio, isto é, antes de todas as coisas. E pensamos que isso é indicado até mesmo naquele princípio que Moisés introduziu em termos algo ambíguos, quando diz: No princípio Deus fez o céu e a terra. Pois é certo que não se fala aí do firmamento nem da terra seca, mas daquele céu e daquela terra dos quais o céu e a terra presentes que agora vemos vieram mais tarde a tomar seus nomes.

[13] Mas, visto que aquelas naturezas racionais, que dissemos acima terem sido feitas no princípio, foram criadas quando antes não existiam, em consequência desse próprio fato de sua não existência anterior e do começo de seu ser, são elas necessariamente mutáveis e sujeitas a mudança, pois qualquer poder que houvesse em sua substância não estava nela por natureza, mas era resultado da bondade de seu Criador. Portanto, aquilo que elas são não é próprio delas nem dura para sempre, mas lhes é concedido por Deus. Pois não existia desde sempre; e tudo o que é dom também pode ser retirado e desaparecer. E uma razão para isso consistirá em os movimentos das almas não serem conduzidos segundo o que é reto e apropriado. Pois o Criador concedeu, como favor aos entendimentos criados por ele, o poder de agir livre e voluntariamente, para que o bem que havia neles se tornasse deles próprios, sendo conservado pelo exercício de sua própria vontade. Mas a negligência, o desgosto do trabalho de conservar o bem e a aversão e abandono das coisas melhores forneceram o começo do afastamento da bondade. Ora, afastar-se do bem não é outra coisa senão tornar-se mau. Pois é certo que carecer de bondade é ser ímpio ou perverso. Daí acontece que, na medida em que cada um se afasta da bondade, nessa mesma medida se envolve na maldade. Nessa condição, conforme suas ações, cada entendimento, negligenciando a bondade em maior ou menor grau, foi arrastado para o oposto do bem, que é, sem dúvida, o mal. Daqui se conclui que o Criador de todas as coisas admitiu certas sementes e causas de variedade e diversidade, para que pudesse criar variedade e diversidade em proporção à diversidade dos entendimentos, isto é, das criaturas racionais, diversidade que deve ser suposta como tendo sido concebida daquela causa que acima mencionamos. E o que entendemos por variedade e diversidade é o que agora queremos explicar.

[14] Ora, chamamos mundo a tudo o que está acima dos céus, ou nos céus, ou sobre a terra, ou nos lugares chamados inferiores, ou todos os lugares, quaisquer que sejam, que em alguma parte existam, juntamente com seus habitantes. Todo esse conjunto, então, chama-se mundo. Neste mundo, alguns seres são ditos supercelestes, isto é, colocados em habitações mais felizes e revestidos de corpos celestes e resplandecentes; e entre estes se mostram existir muitas distinções, como o apóstolo, por exemplo, diz: Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, outra a glória das estrelas; pois uma estrela difere de outra estrela em glória. Outros seres são chamados terrenos, e entre eles, isto é, entre os homens, não existe pequena diferença; pois alguns são bárbaros, outros gregos; e, entre os bárbaros, alguns são selvagens e ferozes, outros de disposição mais branda. Alguns vivem sob leis amplamente aprovadas; outros, sob leis mais comuns ou severas; enquanto outros possuem costumes desumanos e selvagens, mais do que propriamente leis. Alguns, desde a hora do nascimento, são reduzidos à humilhação e à sujeição, e criados como escravos, estando sob o domínio de senhores, príncipes ou tiranos. Outros, ao contrário, são educados de modo mais conforme à liberdade e à razão. Alguns têm corpos sãos, outros corpos doentes desde os primeiros anos; alguns são deficientes na visão, outros na audição e na fala; alguns nascem nessa condição, outros são privados do uso dos sentidos logo após o nascimento, ou ao menos sofrem tal infortúnio ao chegar à idade adulta. E por que deveria eu repetir e enumerar todos os horrores da miséria humana, dos quais alguns têm sido livres e nos quais outros se viram envolvidos, quando cada um pode ponderá-los e considerá-los por si mesmo? Há também certas potências invisíveis às quais as coisas terrenas foram confiadas para administração; e entre elas também se deve crer existir não pequena diferença, assim como se verifica entre os homens. O apóstolo Paulo, de fato, indica que há certas potências inferiores, e que também entre elas deve, do mesmo modo, ser procurado um fundamento para a diversidade. Quanto aos animais irracionais, às aves e às criaturas que vivem nas águas, parece supérfluo insistir, pois é certo que devem ser consideradas não como de ordem primária, mas subordinada.

[15] Vendo, então, que todas as coisas criadas se dizem ter sido feitas por meio de Cristo e em Cristo, como o apóstolo Paulo indica muito claramente quando diz: Porque nele e por ele foram criadas todas as coisas, quer nos céus, quer na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, potestades, principados ou dominações; tudo foi criado por ele e nele; e como João, em seu evangelho, indica o mesmo, dizendo: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus; este estava no princípio com Deus; todas as coisas foram feitas por ele; e sem ele nada do que foi feito se fez; e como também no salmo está escrito: Em sabedoria fizeste todas elas; vendo, então, que Cristo é, por assim dizer, o Verbo e a Sabedoria, e também a Justiça, seguir-se-á sem dúvida que aquelas coisas que foram criadas no Verbo e na Sabedoria se dizem criadas também naquela justiça que é Cristo; para que, nas coisas criadas, nada pareça haver de injusto ou acidental, mas que tudo se mostre em conformidade com a lei da equidade e da justiça. Como, então, tão grande variedade de coisas e tamanha diversidade podem ser entendidas como totalmente justas e retas, estou certo de que nenhum poder ou linguagem humana pode explicar, a menos que, prostrados em súplica, oremos ao próprio Verbo, Sabedoria e Justiça, que é o Filho unigênito de Deus, para que, derramando-se por suas graças em nossos sentidos, se digne iluminar o que está escuro, abrir o que está oculto e revelar o que está secreto; se, de fato, formos achados buscando, pedindo e batendo de modo digno de merecer receber quando pedimos, encontrar quando buscamos e ver-nos aberto quando batemos. Não confiando, então, em nossas próprias forças, mas na ajuda daquela Sabedoria que fez todas as coisas, e daquela Justiça que cremos estar em todas as suas criaturas, embora por enquanto sejamos incapazes de declará-la, confiados, contudo, em sua misericórdia, procuraremos examinar e investigar de que modo essa grande variedade e diversidade do mundo pode parecer consistente com toda justiça e razão. Refiro-me, é claro, apenas à razão em geral; pois seria sinal de ignorância buscar, ou de loucura dar, uma razão particular para cada caso individual.

[16] Ora, quando dizemos que este mundo foi estabelecido na variedade na qual acima explicamos que foi criado por Deus, e quando dizemos que este Deus é bom, justo e retíssimo, muitos indivíduos, especialmente aqueles que, vindos da escola de Marcião, Valentino e Basílides, ouviram falar de almas de naturezas diferentes, nos objetam que isso não pode harmonizar-se com a justiça de Deus na criação do mundo, quando ele designa a algumas de suas criaturas uma morada nos céus, e não apenas lhes dá uma habitação melhor, mas também uma posição mais alta e mais honrosa; favorece outras com principados; concede potestades a algumas, dominações a outras; confere a certas criaturas os assentos mais honrosos nos tribunais celestes; faz algumas brilharem com glória mais resplandecente e cintilar com esplendor estelar; dá a umas a glória do sol, a outras a glória da lua, a outras a glória das estrelas; e faz uma estrela diferir de outra estrela em glória. E, para falar de uma vez só e brevemente, se o Deus Criador não carece nem da vontade de empreender nem do poder de completar uma obra boa e perfeita, qual a razão para que, na criação das naturezas racionais, isto é, dos seres cuja existência ele próprio causou, faça alguns de ordem mais elevada e outros de segunda, terceira ou de muitos graus inferiores? Em seguida, objetam também, quanto aos seres terrenos, que a condição de nascimento é mais feliz para uns do que para outros; como, por exemplo, um homem é gerado de Abraão e nascido da promessa; outro de Isaque e Rebeca, e aquele que, ainda no ventre, suplanta o irmão e é dito amado por Deus antes de nascer. Mais ainda, o próprio fato de um homem nascer entre os hebreus, entre os quais encontra instrução na lei divina; outro entre os gregos, também sábios e de não pequena erudição; e outro ainda entre os etíopes, acostumados a comer carne humana; ou entre os citas, nos quais o parricídio é um ato sancionado por lei; ou entre o povo do Tauro, onde estrangeiros são oferecidos em sacrifício, tudo isso serve de forte objeção. Seu argumento, portanto, é este: se existe esta grande diversidade de circunstâncias e esta condição diversa e variável de nascimento, na qual a faculdade do livre-arbítrio não encontra espaço, pois ninguém escolhe para si onde, com quem ou em que condição nasce; se, então, isso não é causado pela diferença na natureza das almas, isto é, que uma alma de natureza má é destinada a uma nação perversa e uma alma boa a uma nação justa, que outra conclusão resta senão supor que essas coisas são reguladas por acaso e sorte? E, se isso for admitido, já não se crerá que o mundo foi feito por Deus nem administrado por sua providência; e, como consequência, o juízo de Deus sobre as obras de cada indivíduo parecerá algo que não se deve esperar. Nesta matéria, porém, aquilo que é claramente a verdade das coisas é privilégio somente daquele que perscruta todas as coisas, até as profundezas de Deus.

[17] Nós, porém, embora sejamos apenas homens, para não alimentar pela nossa omissão a insolência dos hereges, responderemos às suas objeções com as respostas que nos ocorrerem, tanto quanto nossas capacidades o permitirem. Mostramos frequentemente, pelas declarações que pudemos produzir das sagradas escrituras, que Deus, o Criador de todas as coisas, é bom, justo e onipotente. Quando, no princípio, criou aqueles seres que desejava criar, isto é, as naturezas racionais, não teve outra razão para criá-los senão a si mesmo, isto é, a sua própria bondade. Sendo ele, então, a causa da existência daquelas coisas que seriam criadas, e não havendo nele variação, mudança nem deficiência de poder, criou todos os que fez iguais e semelhantes, porque nele mesmo não havia motivo para produzir variedade e diversidade. Mas, visto que essas próprias criaturas racionais, como muitas vezes mostramos e ainda mostraremos no lugar apropriado, foram dotadas do poder do livre-arbítrio, essa liberdade de vontade impeliu cada uma ou a progredir por imitação de Deus, ou a decair por negligência. E esta, como já dissemos, é a causa da diversidade entre as criaturas racionais, derivando sua origem não da vontade nem do juízo do Criador, mas da liberdade da vontade individual. Deus, então, que julgou justo ordenar suas criaturas segundo o mérito de cada uma, fez descer esses diferentes entendimentos para a harmonia de um só mundo, a fim de adornar, por assim dizer, uma única casa, na qual devia haver não somente vasos de ouro e prata, mas também de madeira e barro, e alguns, de fato, para honra, e outros para desonra, com esses diferentes vasos, ou almas, ou entendimentos. E estas são, em minha opinião, as causas pelas quais o mundo apresenta esse aspecto de diversidade, enquanto a Providência divina continua a regular cada indivíduo segundo a variedade de seus movimentos, ou de seus sentimentos e propósitos. Por isso, o Criador não parecerá injusto ao distribuir a cada um, pelas causas já mencionadas, segundo os seus méritos; nem a felicidade ou infelicidade do nascimento de cada um, ou qualquer que seja a condição que lhe caiba, será tida por acidental; nem se crerá existirem diferentes criadores ou almas de naturezas diversas.

[18] Mas nem mesmo a sagrada escritura me parece guardar completo silêncio sobre a natureza deste segredo, como quando o apóstolo Paulo, discutindo o caso de Jacó e Esaú, diz: Porque, não tendo ainda os filhos nascido, nem tendo feito bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse, não por obras, mas por aquele que chama, foi dito: O mais velho servirá ao mais novo; como está escrito: Amei Jacó, porém odiei Esaú. E, depois disso, ele mesmo responde e diz: Que diremos, pois? Há injustiça em Deus? De modo nenhum. E, para nos dar ocasião de investigar estas coisas e de averiguar como elas não acontecem sem razão, responde a si mesmo e diz: De modo nenhum. Pois a mesma questão, ao que me parece, que se levanta acerca de Jacó e Esaú, pode ser levantada acerca de todas as criaturas celestes e terrestres, e também das do mundo inferior. E, de modo semelhante, parece-me que, assim como ali ele diz: Não tendo ainda os filhos nascido, nem tendo feito bem ou mal, assim também se poderia dizer de todas as outras coisas: quando ainda não haviam sido criadas, nem tinham feito bem ou mal, para que o decreto de Deus segundo a eleição permanecesse, e para que, como alguns pensam, umas coisas fossem criadas celestes, outras terrestres e outras ainda abaixo da terra, não por obras, como pensam, mas por aquele que chama, que diremos então, se estas coisas são assim? Há injustiça em Deus? De modo nenhum. Assim, portanto, como, examinando-se cuidadosamente as escrituras acerca de Jacó e Esaú, não se encontra injustiça em Deus no fato de se dizer, antes que nascessem ou tivessem feito qualquer coisa nesta vida, o mais velho servirá ao mais novo; e como se vê que também não há injustiça no fato de Jacó, ainda no ventre, ter suplantado seu irmão, se entendermos que ele foi justamente amado por Deus segundo os méritos de sua vida anterior, a ponto de merecer ser preferido a seu irmão; assim também é com respeito às criaturas celestes, se notarmos que a diversidade não era a condição original da criatura, mas que, por causas previamente existentes, um ofício diferente é preparado pelo Criador para cada uma em proporção ao grau de seu mérito, com fundamento nisso, a saber, que cada uma, pelo fato de ter sido criada por Deus como entendimento ou espírito racional, segundo os movimentos de sua mente e os sentimentos de sua alma, adquiriu para si maior ou menor mérito, tornando-se ou objeto do amor de Deus, ou de sua aversão; enquanto, não obstante, alguns dos que possuem maior mérito são ordenados a sofrer com os outros para o adorno do estado do mundo e para o cumprimento do dever para com criaturas de grau inferior, a fim de que, por esse meio, eles mesmos participem da paciência do Criador, conforme as palavras do apóstolo: Porque a criação foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança. Tendo em vista, então, o pensamento expresso pelo apóstolo, quando, falando do nascimento de Esaú e Jacó, diz: Há injustiça em Deus? De modo nenhum, penso ser correto aplicar cuidadosamente esse mesmo pensamento ao caso de todas as demais criaturas, porque, como observamos anteriormente, a justiça do Criador deve aparecer em tudo. E isso, parece-me, será visto mais claramente ao fim, se se disser que cada um, quer dos seres celestes, quer dos terrestres, quer dos infernais, tem em si mesmo, e anteriores ao seu nascimento corporal, as causas de sua diversidade. Pois todas as coisas foram criadas pelo Verbo de Deus e por sua Sabedoria, e foram ordenadas por sua Justiça. E, pela graça de sua compaixão, ele provê para todos os homens e anima todos ao uso de quaisquer remédios que os possam conduzir à cura, incitando-os à salvação.

[19] Assim, pois, como não há dúvida de que no dia do juízo os bons serão separados dos maus, os justos dos injustos, e todos, pela sentença de Deus, serão distribuídos segundo os seus méritos pelos lugares dos quais forem dignos, também sou de opinião que outrora houve algo semelhante, como, querendo Deus, mostraremos no que segue. Pois deve-se crer que Deus faz e ordena todas as coisas e em todo tempo segundo o seu juízo. Pois as palavras que o apóstolo usa quando diz: Numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro, e uns para honra e outros para desonra; e aquelas que acrescenta, dizendo: Se alguém se purificar, será vaso para honra, santificado e útil para o uso do Senhor, preparado para toda boa obra, apontam sem dúvida isto: que aquele que se purificar enquanto está nesta vida será preparado para toda boa obra na que há de vir; enquanto aquele que não se purificar será, conforme a medida de sua impureza, vaso para desonra, isto é, indigno. É, portanto, possível entender que também anteriormente houve vasos racionais, quer purificados, quer não, isto é, que ou se purificaram, ou não o fizeram; e que, consequentemente, cada vaso, segundo a medida de sua pureza ou impureza, recebeu neste mundo um lugar, ou região, ou condição de nascimento, ou um ofício a desempenhar. E todas essas coisas, até as mais humildes, Deus, provendo e distinguindo pelo poder de sua sabedoria, ordena por seu juízo regulador, segundo uma retribuição absolutamente imparcial, conforme o quanto cada um deve ser assistido ou cuidado de acordo com seus méritos. Nisso, certamente, mostra-se todo princípio de equidade, enquanto a desigualdade das circunstâncias preserva a justiça de uma retribuição segundo o mérito. Mas os fundamentos dos méritos em cada caso individual só são verdadeira e claramente conhecidos pelo próprio Deus, juntamente com seu Filho unigênito, seu Verbo, sua Sabedoria e o Espírito Santo.

[20] Mas, visto que o discurso nos trouxe à memória os assuntos do juízo futuro, da retribuição e dos castigos dos pecadores, segundo as ameaças da sagrada escritura e o conteúdo do ensino da igreja, a saber, que, quando vier o tempo do juízo, fogo eterno, trevas exteriores, prisão, fornalha e outros castigos semelhantes foram preparados para os pecadores, vejamos quais devem ser nossas opiniões a respeito desses pontos. Mas, para que essas questões sejam tratadas na ordem correta, parece-me que primeiro devemos considerar a natureza da ressurreição, para que saibamos qual é aquele corpo que irá ou ao castigo, ou ao descanso, ou à felicidade; questão que, em outros tratados que compusemos sobre a ressurreição, discutimos mais longamente e mostramos qual era nossa opinião a respeito. Mas agora também, por causa da ordem lógica de nosso tratado, não haverá absurdo em repetir alguns pontos dessas obras, especialmente porque alguns se escandalizam com o credo da igreja, como se nossa fé na ressurreição fosse tola e completamente destituída de sentido; e esses são principalmente hereges, aos quais, penso eu, se deve responder da seguinte maneira. Se eles também admitem que há ressurreição dos mortos, respondam-nos isto: o que é que morreu? Não foi um corpo? É do corpo, então, que haverá ressurreição. Digam-nos em seguida se pensam que faremos uso de corpos ou não. Penso que, quando o apóstolo Paulo diz que se semeia corpo natural e ressuscitará corpo espiritual, eles não podem negar que é um corpo que ressuscita, nem que na ressurreição faremos uso de corpos. E então? Se é certo que faremos uso de corpos, e se se declara que os corpos que caíram ressurgem novamente, pois somente aquilo que caiu antes pode propriamente dizer-se que se levanta de novo, não pode restar dúvida para ninguém de que eles se levantam para que sejamos vestidos deles uma segunda vez na ressurreição. Uma coisa está intimamente ligada à outra. Pois, se os corpos ressurgem, sem dúvida ressurgem para serem revestimento para nós; e, se é necessário que sejamos revestidos de corpos, como certamente é necessário, devemos ser revestidos não de outros, mas dos nossos próprios. Mas, se é verdade que estes ressurgem, e que ressurgem como corpos espirituais, não há dúvida de que se diz que se levantam dentre os mortos, depois de terem lançado fora a corrupção e deposto a mortalidade; de outra forma pareceria vão e supérfluo levantar-se alguém dentre os mortos para morrer uma segunda vez. E isso, finalmente, pode ser compreendido mais claramente se alguém considerar cuidadosamente quais são as qualidades de um corpo animal, que, quando semeado na terra, recupera as qualidades de um corpo espiritual. Pois é do corpo animal que o próprio poder e graça da ressurreição fazem surgir o corpo espiritual, quando o transformam de um estado de indignidade para um de glória.

[21] Visto, porém, que os hereges se consideram pessoas de grande saber e sabedoria, perguntar-lhes-emos se todo corpo tem algum tipo de forma, isto é, se é moldado segundo alguma figura. E, se disserem que corpo é aquilo que não é moldado segundo forma alguma, mostrar-se-ão os mais ignorantes e insensatos dos homens. Pois ninguém negará isso, senão aquele que for totalmente desprovido de qualquer instrução. Mas, se, como é natural, disserem que todo corpo é certamente moldado segundo alguma forma definida, perguntar-lhes-emos se podem apontar e descrever-nos a forma de um corpo espiritual; coisa que de modo algum podem fazer. Perguntar-lhes-emos também acerca das diferenças daqueles que ressurgem. Como mostrarão verdadeira aquela afirmação de que uma é a carne das aves, outra a dos peixes; há corpos celestes e corpos terrestres; a glória dos celestes é uma, a dos terrestres é outra; uma é a glória do sol, outra a da lua, outra a das estrelas; uma estrela difere de outra estrela em glória; e assim também é a ressurreição dos mortos? Conforme, então, àquela gradação que existe entre os corpos celestes, mostrem-nos as diferenças de glória daqueles que ressurgem; e, se tiverem procurado por algum meio conceber um princípio que esteja de acordo com as diferenças dos corpos celestes, pediremos que atribuam as diferenças da ressurreição por comparação com os corpos terrenos. Nosso entendimento da passagem, de fato, é que o apóstolo, querendo descrever a grande diferença entre os que ressurgem em glória, isto é, os santos, tomou uma comparação dos corpos celestes, dizendo: Uma é a glória do sol, outra a da lua, outra a das estrelas. E, querendo novamente ensinar-nos as diferenças entre aqueles que virão à ressurreição sem terem se purificado nesta vida, isto é, os pecadores, tomou uma ilustração das coisas terrenas, dizendo: Uma é a carne das aves, outra a dos peixes. Pois as coisas celestes são dignamente comparadas aos santos, e as terrenas aos pecadores. Essas observações são feitas em resposta àqueles que negam a ressurreição dos mortos, isto é, a ressurreição dos corpos.

[22] Voltemos agora nossa atenção para alguns dos nossos, crentes, que, por fraqueza de entendimento ou por falta de instrução adequada, adotam uma visão muito baixa e abjeta da ressurreição do corpo. Perguntamos a essas pessoas de que modo entendem que um corpo animal deve ser mudado pela graça da ressurreição e tornar-se espiritual; e como aquilo que é semeado em fraqueza ressurgirá em poder; como o que é plantado em desonra ressurgirá em glória; e aquilo que foi semeado em corrupção será transformado em incorruptibilidade. Porque, se creem no apóstolo, que um corpo que ressuscita em glória, poder e incorruptibilidade já se tornou espiritual, parece absurdo e contrário ao seu sentido dizer que ele possa novamente enredar-se nas paixões de carne e sangue, visto que o apóstolo declara manifestamente que carne e sangue não herdarão o reino de Deus, nem a corrupção herdará a incorruptibilidade. Mas como entendem a declaração do apóstolo: Todos seremos transformados? Essa transformação certamente deve ser esperada segundo a ordem que acima ensinamos; e nela, sem dúvida, convém-nos esperar algo digno da graça divina; e cremos que isso ocorrerá na ordem em que o apóstolo descreve a semeadura na terra de um simples grão de trigo ou de qualquer outro fruto, ao qual Deus dá um corpo como lhe apraz, assim que o grão morre. Pois, do mesmo modo, também nossos corpos devem ser considerados como caindo na terra como um grão; e, tendo sido implantado neles aquele germe que contém a substância corporal, embora os corpos morram, se corrompam e se dispersem, ainda assim, pela palavra de Deus, aquele mesmo germe, que sempre permanece seguro na substância do corpo, os levanta da terra, os restaura e os repara, assim como a força que está no grão de trigo, depois de sua corrupção e morte, restaura o grão em um corpo com haste e espiga. E assim também, àqueles que merecerem obter herança no reino dos céus, aquele germe da restauração do corpo, que acima mencionamos, por mandado de Deus restaura, a partir do corpo terreno e animal, um corpo espiritual capaz de habitar os céus; enquanto a cada um daqueles que forem de mérito inferior, ou de condição mais baixa, ou até os últimos da escala e totalmente rejeitados, ainda assim é dada, em proporção à dignidade de sua vida e alma, uma glória e uma dignidade de corpo; contudo, de tal modo que até mesmo o corpo que ressurgirá daqueles destinados ao fogo eterno ou a severos castigos é tornado pela própria mudança da ressurreição tão incorruptível, que não pode ser corrompido nem dissolvido nem mesmo por castigos severos. Se, então, tais são as qualidades daquele corpo que ressurgirá dos mortos, vejamos agora qual é o sentido da ameaça de fogo eterno.

[23] Encontramos no profeta Isaías que o fogo com que cada um é castigado é descrito como sendo seu próprio fogo; pois ele diz: Andai na luz do vosso próprio fogo e na chama que vós mesmos acendestes. Por essas palavras parece indicar-se que cada pecador acende para si a chama do seu próprio fogo e não é lançado em algum fogo já aceso por outro ou que existisse antes dele. Desse fogo, o combustível e o alimento são os nossos pecados, que o apóstolo Paulo chama de madeira, feno e palha. E penso que, assim como a abundância de alimentos e provisões de qualidade e quantidade contrárias produzem febres no corpo, e também febres de diversos tipos e duração, conforme a proporção em que o veneno acumulado fornece matéria e combustível para a doença, sendo a qualidade dessa matéria, reunida de diferentes venenos, a causa de enfermidade mais aguda ou mais prolongada; assim também, quando a alma reuniu em si uma multidão de obras más e abundância de pecados contra si mesma, em tempo oportuno toda essa massa de males ferve para o castigo e se incendeia para as punições; quando a própria mente ou consciência, recebendo pelo poder divino na memória todas aquelas coisas de que havia gravado em si certos sinais e formas no momento do pecado, verá diante dos próprios olhos uma espécie de história de todos os atos torpes, vergonhosos e ímpios que praticou; então a própria consciência é atormentada e, ferida por seus próprios aguilhões, torna-se acusadora e testemunha contra si mesma. E esta, penso eu, foi a opinião do próprio apóstolo Paulo, quando disse: Seus pensamentos mutuamente os acusando ou defendendo, no dia em que Deus julgar os segredos dos homens por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho. Daí se entende que em torno da substância da alma são produzidos certos tormentos pelas próprias afeições nocivas dos pecados.

[24] E, para que a compreensão desta matéria não pareça muito difícil, podemos tomar algumas considerações dos maus efeitos daquelas paixões que costumam acometer algumas almas, como quando uma alma é consumida pelo fogo do amor, ou definha por zelo ou inveja, ou quando a paixão da ira se acende, ou alguém é consumido pela grandeza de sua loucura ou tristeza; em tais ocasiões, alguns, achando insuportável o excesso desses males, julgaram mais tolerável entregar-se à morte do que suportar continuamente um tormento desse gênero. Perguntarás, de fato, se, no caso daqueles que se enredaram nos males provenientes daqueles vícios acima enumerados e que, enquanto estavam nesta vida, não puderam obter qualquer melhora para si mesmos e partiram do mundo nessa condição, basta, como castigo, que sejam atormentados pela permanência neles dessas afeições nocivas, isto é, da ira, da fúria, da loucura ou da tristeza, cujo veneno mortal nesta vida não foi atenuado por remédio algum; ou se, mudadas essas afeições, serão submetidos às dores de um castigo geral. Ora, sou de opinião que pode ser entendida a existência de outra espécie de castigo; porque, assim como sentimos que, quando os membros do corpo se afrouxam e se arrancam de seus suportes mútuos, produz-se uma dor de extremo tormento, assim também, quando a alma se achar fora da ordem, conexão e harmonia em que foi criada por Deus para propósitos bons e úteis, e não estiver em harmonia consigo mesma na conexão de seus movimentos racionais, deve ser considerada como suportando o castigo e tormento de sua própria dissensão e sentindo as penas de sua própria desordem. E quando essa dissolução e rasgamento da alma tiverem sido provados pela aplicação do fogo, então, sem dúvida, ocorrerá uma consolidação numa estrutura mais firme e será efetuada uma restauração.

[25] Há também muitas outras coisas que escapam à nossa atenção e são conhecidas somente por aquele que é o médico de nossas almas. Pois, se, por causa dos maus efeitos que trazemos sobre nós mesmos ao comer e beber, julgamos necessário para a saúde do corpo usar algum remédio desagradável e doloroso, às vezes até, se a natureza da doença o exigir, recorrer ao rigor da faca que amputa; e se a virulência da doença ultrapassar até esses remédios, o mal afinal precisa ser queimado pelo fogo; quanto mais se deve entender que Deus, nosso Médico, desejando remover os defeitos de nossas almas, que elas contraíram por seus diversos pecados e crimes, emprega medidas penais desse tipo, e aplica ainda, além disso, o castigo do fogo àqueles que perderam a sanidade da mente. Imagens desse método de proceder encontram-se também nas sagradas escrituras. No livro do Deuteronômio, a palavra divina ameaça os pecadores com castigos de febres, resfriados, icterícia, dores de enfraquecimento da visão, alienação da mente, paralisia, cegueira e fraqueza dos rins. Se alguém, então, com tempo e atenção, reunir de toda a escritura todas as enumerações de doenças que, nas ameaças dirigidas aos pecadores, são chamadas por nomes de enfermidades corporais, encontrará que por elas são figuradamente indicados ou os vícios das almas, ou seus castigos. Entender, então, que, do mesmo modo como os médicos aplicam remédios aos enfermos para que, por tratamento cuidadoso, recuperem a saúde, assim Deus procede para com os que caíram e tombaram no pecado, prova-se pelo fato de que o cálice da ira de Deus é ordenado, por meio do profeta Jeremias, a ser oferecido a todas as nações, para que o bebam, entrem em estado de loucura e o vomitem. E, ao fazê-lo, ele os ameaça, dizendo que, se alguém recusar beber, não será purificado. Pelo que certamente se entende que a ira da vingança de Deus é proveitosa para a purgação das almas. Que o castigo, também, que se diz ser aplicado pelo fogo é entendido como aplicado com propósito de cura, ensina-o Isaías, que fala assim de Israel: O Senhor lavará a imundície dos filhos e filhas de Sião e purificará o sangue do meio deles pelo espírito de juízo e pelo espírito de ardor. Dos caldeus ele fala assim: Tens as brasas do fogo; senta-te sobre elas; elas te servirão de ajuda. E em outras passagens diz: O Senhor santificará em fogo ardente; e nas profecias de Malaquias diz: O Senhor, assentado, assoprará, purificará e derramará os filhos de Judá já purificados.

[26] Mas aquela sorte também que é mencionada nos evangelhos como sobrevindo aos administradores infiéis, os quais, diz-se, serão divididos, e uma parte deles será colocada com os incrédulos, como se aquela parte que não é propriamente sua fosse enviada para outro lugar, indica sem dúvida algum tipo de castigo àqueles cujo espírito, ao que me parece, é mostrado como separado da alma. Pois, se este espírito é de natureza divina, isto é, se deve ser entendido como Espírito Santo, compreenderemos que isso é dito do dom do Espírito Santo: que, quando a um homem foi concedida, seja pelo batismo, seja pela graça do Espírito, a palavra de sabedoria, ou a palavra de conhecimento, ou qualquer outro dom, e não foi retamente administrada, isto é, foi ou enterrada na terra ou amarrada num lenço, o dom do Espírito certamente será retirado de sua alma, e a outra parte que permanece, isto é, a substância da alma, terá seu lugar designado com os incrédulos, sendo dividida e separada daquele Espírito com o qual, unindo-se ao Senhor, deveria ter sido um só espírito. Ora, se isto não deve ser entendido do Espírito de Deus, mas da própria natureza da alma, então será chamada sua melhor parte aquela que foi feita à imagem e semelhança de Deus; enquanto a outra parte, aquela que depois, por sua queda pelo exercício do livre-arbítrio, assumiu algo contrário à natureza de sua condição original de pureza, essa parte, como amiga e amante da matéria, é castigada com a sorte dos incrédulos. Há ainda um terceiro sentido em que essa separação pode ser entendida, a saber: assim como se diz que cada crente, ainda que o mais humilde na igreja, é acompanhado por um anjo, o qual, segundo o Salvador, sempre contempla a face de Deus Pai, e como esse anjo certamente era um com o objeto de sua guarda; assim, se este se tornar indigno por sua desobediência, diz-se que o anjo de Deus lhe é tirado, e então aquela parte dele, isto é, a parte que pertence à sua natureza humana, sendo arrancada da parte divina, é destinada a um lugar com os incrédulos, porque não observou fielmente as advertências do anjo que Deus lhe havia designado.

[27] Mas as trevas exteriores, a meu juízo, devem ser entendidas não tanto como uma atmosfera escura sem qualquer luz, mas como aquelas pessoas que, mergulhadas nas trevas de profunda ignorância, foram colocadas fora do alcance de qualquer luz do entendimento. Devemos ver também se talvez este não seja o sentido da expressão: assim como os santos receberão aqueles corpos nos quais viveram em santidade e pureza nas moradas desta vida, brilhantes e gloriosos após a ressurreição, assim também os ímpios, que nesta vida amaram as trevas do erro e a noite da ignorância, poderão ser revestidos após a ressurreição de corpos escuros e negros, para que a própria névoa de ignorância que nesta vida tomou posse de suas mentes por dentro apareça no futuro como revestimento externo do corpo. Semelhante é a visão que deve ser adotada a respeito da prisão. Bastem, na presente ocasião, essas observações, feitas com a maior brevidade possível, para que a ordem do nosso discurso seja preservada por enquanto.

[28] Vejamos agora brevemente que opiniões devemos formar a respeito das promessas. É certo que não há ser vivente algum que possa ser totalmente inativo e imóvel, mas todos se deleitam em movimento de toda espécie, em contínua atividade e volição; e esta natureza, penso eu, é evidente em todos os seres vivos. Muito mais, então, um animal racional, isto é, a natureza do homem, deve estar em perpétuo movimento e atividade. Se, de fato, ele se esquece de si mesmo e ignora o que lhe convém, todos os seus esforços se dirigem a servir aos usos do corpo, e em todos os seus movimentos ele se ocupa com seus prazeres e concupiscências corporais; mas, se for alguém que procura cuidar ou prover para o bem comum, então, quer aconselhando o proveito do Estado, quer obedecendo aos magistrados, ele se empenha naquilo que pode certamente parecer promover a vantagem pública. E se agora alguém for de tal natureza que entenda haver algo melhor do que as coisas que parecem corpóreas, e assim aplique seu trabalho à sabedoria e à ciência, então sem dúvida dirigirá toda a sua atenção a tais buscas, para que, investigando a verdade, possa descobrir as causas e a razão das coisas. Assim, pois, como nesta vida um homem considera o maior bem desfrutar dos prazeres corporais, outro atender ao bem da comunidade, e um terceiro dedicar-se ao estudo e à aprendizagem, investiguemos se naquela vida que é a verdadeira, a qual se diz estar escondida com Cristo em Deus, isto é, naquela vida eterna, haverá para nós alguma ordem e condição de existência semelhantes.

[29] Certas pessoas, então, recusando o trabalho de pensar, adotando uma visão superficial da letra da lei e cedendo em alguma medida à indulgência de seus próprios desejos e concupiscências, sendo discípulas apenas da letra, são de opinião que o cumprimento das promessas futuras deve ser esperado em prazer corporal e luxo; e por isso desejam especialmente ter de novo, após a ressurreição, estruturas corporais que nunca fiquem sem o poder de comer, beber e exercer todas as funções de carne e sangue, não seguindo a opinião do apóstolo Paulo a respeito da ressurreição de um corpo espiritual. E, consequentemente, dizem que depois da ressurreição haverá casamentos e geração de filhos, imaginando para si que a cidade terrena de Jerusalém será reconstruída, com fundamentos lançados em pedras preciosas, muros construídos de jaspe e baluartes de cristal; que haverá um muro composto de muitas pedras preciosas, como jaspe, safira, calcedônia, esmeralda, sardônica, ônix, crisólito, crisópraso, jacinto e ametista. Além disso, pensam que os nativos de outros países lhes serão dados como ministros de seus prazeres, os quais empregarão como lavradores dos campos ou construtores de muros, e por meio dos quais sua cidade arruinada e caída será novamente levantada; e pensam que receberão as riquezas das nações para seu sustento, e que terão domínio sobre elas; que até mesmo os camelos de Midiã e Quedar virão e lhes trarão ouro, incenso e pedras preciosas. E julgam estabelecer essas opiniões com a autoridade dos profetas, por aquelas promessas escritas a respeito de Jerusalém, e também por aquelas passagens onde se diz que os que servem ao Senhor comerão e beberão, enquanto os pecadores terão fome e sede; que os justos se alegrarão, mas a tristeza possuirá os ímpios. E, do Novo Testamento, citam também a palavra do Salvador, em que faz a seus discípulos uma promessa acerca da alegria do vinho, dizendo: Desde agora não beberei deste cálice até o dia em que o beba convosco, novo, no reino de meu Pai. Acrescentam ainda aquela declaração em que o Salvador chama bem-aventurados os que agora têm fome e sede, prometendo-lhes que serão fartos; e muitas outras ilustrações da escritura são por eles aduzidas, cujo sentido não percebem dever ser tomado figuradamente. Depois, de novo, de acordo com a forma das coisas desta vida e segundo as gradações de dignidades ou posições deste mundo, ou a grandeza de seus poderes, pensam que serão reis e príncipes, como os monarcas terrenos que agora existem; principalmente, ao que parece, por causa daquela expressão no evangelho: Tem autoridade sobre cinco cidades. E, para falar brevemente, segundo o modo das coisas desta vida em todos os assuntos semelhantes, desejam o cumprimento de todas as coisas esperadas nas promessas, isto é, que aquilo que agora existe volte a existir. Tais são as opiniões daqueles que, embora creiam em Cristo, entendem as divinas escrituras em um sentido judaizante, nada extraindo delas que seja digno das promessas divinas.

[30] Aqueles, porém, que recebem as figuras da escritura segundo a compreensão dos apóstolos, alimentam a esperança de que os santos, sim, comerão, mas que será o pão da vida, capaz de nutrir a alma com o alimento da verdade e da sabedoria, iluminar a mente e fazê-la beber do cálice da sabedoria divina, conforme a declaração da sagrada escritura: A sabedoria preparou sua mesa, matou seus animais, misturou seu vinho no cálice e clama em alta voz: Vinde a mim, comei o pão que vos preparei e bebei o vinho que vos misturei. Por este alimento da sabedoria, o entendimento, sendo nutrido até uma condição inteira e perfeita, semelhante àquela em que o homem foi feito no princípio, é restaurado à imagem e semelhança de Deus; de modo que, ainda que alguém saia desta vida menos perfeitamente instruído, mas tendo feito obras aprovadas, será capaz de receber instrução naquela Jerusalém, a cidade dos santos, isto é, ali será educado, moldado e feito pedra viva, pedra eleita e preciosa, porque suportou com firmeza e constância as lutas da vida e as provações da piedade; e ali chegará a um conhecimento mais verdadeiro e mais claro daquilo que aqui já foi predito, a saber, que o homem não viverá só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. E também devem ser entendidos como os príncipes e governantes aqueles que governam os de ordem inferior, instruem-nos, ensinam-nos e os treinam nas coisas divinas.

[31] Mas, se essas opiniões não parecerem encher a mente daqueles que esperam tais resultados com um desejo conveniente, voltemos um pouco atrás e, deixando de lado o anseio natural e inato da mente pela própria coisa, investiguemos de modo que possamos por fim descrever, por assim dizer, as próprias formas do pão da vida, a qualidade daquele vinho e a natureza peculiar dos principados, tudo em conformidade com a visão espiritual das coisas. Ora, assim como nas artes que geralmente são realizadas por meio do trabalho manual, a razão pela qual algo é feito, ou por que é de uma qualidade especial, ou para um propósito especial, é objeto de investigação da mente, enquanto a própria obra é posta diante dos olhos pela ação das mãos; assim também, nas obras de Deus criadas por ele, deve-se observar que a razão e a compreensão daquelas coisas que o vemos fazer permanecem ocultas. E, assim como, quando o nosso olhar contempla os produtos do trabalho de um artista, a mente, ao perceber de imediato algo de excelência artística incomum, arde em saber de que natureza é aquilo, ou como foi formado, ou para que fins foi moldado; assim, em grau muito maior, e muito além de toda comparação, a mente arde com desejo inexprimível de conhecer a razão daquelas coisas que vemos serem feitas por Deus. Esse desejo, esse anseio, cremos sem dúvida ter sido implantado em nós por Deus; e, assim como o olho busca naturalmente a luz e a visão, e nosso corpo deseja naturalmente comida e bebida, assim também nossa mente possui um desejo adequado e natural de tornar-se conhecedora da verdade de Deus e das causas das coisas. Ora, recebemos esse desejo de Deus não para que jamais fosse satisfeito ou sequer capaz de satisfação; do contrário, o amor da verdade pareceria ter sido implantado por Deus em nossas mentes em vão, se nunca tivesse ocasião de ser saciado. Daí acontece que, mesmo nesta vida, aqueles que se dedicam com grande esforço às buscas da piedade e da religião, embora obtenham apenas alguns pequenos fragmentos dos numerosos e imensos tesouros do conhecimento divino, ainda assim, pelo próprio fato de sua mente e alma estarem engajadas nessas buscas, e de, no ardor do desejo, irem além de si mesmas, tiram grande proveito disso; e, porque suas mentes se dirigem ao estudo e ao amor da investigação da verdade, tornam-se mais aptas para receber a instrução futura. Como se, ao pintar uma imagem, alguém primeiro traçasse levemente com o lápis os contornos do quadro que virá, preparando marcas para o recebimento dos traços que depois serão acrescentados, esse esboço preliminar serve para preparar o caminho para a aplicação das verdadeiras cores da pintura; assim também, em certa medida, um contorno e esboço podem ser traçados nas tábuas de nosso coração pelo lápis de nosso Senhor Jesus Cristo. E por isso talvez se diga: Ao que tem, ser-lhe-á dado, e ainda se lhe acrescentará. Pelo que se estabelece que, àqueles que possuem nesta vida uma espécie de esboço da verdade e do conhecimento, será acrescentada no futuro a beleza de uma imagem perfeita.

[32] Creio que algum desejo como este foi indicado por aquele que disse: Estou em aperto entre duas coisas, tendo desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor; sabendo que, quando houvesse retornado a Cristo, então conheceria mais claramente as razões de todas as coisas que se fazem na terra, quer a respeito do homem, quer da alma do homem, quer da mente; ou a respeito de qualquer outro assunto, como, por exemplo, o que é o Espírito que opera, o que também é o espírito vital, ou o que é a graça do Espírito Santo dada aos crentes. Então também compreenderá o que Israel parece ser, ou o que significa a diversidade das nações; o que significam as doze tribos de Israel e o que é o povo de cada tribo individualmente. Então, também, compreenderá a razão dos sacerdotes e levitas, e das diferentes ordens sacerdotais, cujo tipo estava em Moisés, e também qual é o verdadeiro sentido dos jubileus e das semanas de anos com Deus. Verá também as razões dos dias festivos e santos, e de todos os sacrifícios e purificações. Perceberá também a razão da purgação da lepra, quais são os diversos tipos de lepra e o motivo da purificação daqueles que perdem sua semente. Chegará ainda a conhecer quais são as boas influências, sua grandeza e suas qualidades; e também as contrárias, e qual é a afeição das primeiras e qual é a emulação causadora de discórdia das últimas em relação aos homens. Contemplará também a natureza da alma e a diversidade dos animais, quer os que vivem na água, quer as aves, quer as feras, e por que cada um dos gêneros se subdivide em tantas espécies; e que intenção do Criador ou que propósito de sua Sabedoria se acha escondido em cada coisa particular. Conhecerá também a razão pela qual certas propriedades se encontram associadas a certas raízes ou ervas, e por que, ao contrário, maus efeitos são afastados por outras ervas e raízes. Saberá ainda a natureza dos anjos apóstatas e a razão pela qual têm poder, em certas coisas, de lisonjear aqueles que não os desprezam com toda a força da fé, e por que existem com o propósito de enganar e desviar os homens. Aprenderá também o juízo da Providência divina sobre cada coisa individual; e que, dos acontecimentos que sobrevêm aos homens, nenhum ocorre por acaso ou sorte, mas segundo um plano tão cuidadosamente considerado e tão estupendo que não deixa de contar nem mesmo os cabelos da cabeça, não apenas dos santos, mas talvez de todos os seres humanos; e cujo governo providencial se estende até ao cuidado com a venda de dois pardais por um denário, quer os pardais sejam entendidos figuradamente, quer literalmente. Agora, de fato, este governo providencial ainda é assunto de investigação, mas então será plenamente manifestado. De tudo isso devemos supor que, entretanto, não passará pouco tempo até que a razão daquelas coisas que estão sobre a terra seja explicada aos dignos e merecedores depois de sua partida desta vida, para que, pelo conhecimento de todas essas coisas e pela graça do pleno saber, possam desfrutar de alegria indizível. Então, se aquela atmosfera que está entre o céu e a terra não estiver desprovida de habitantes, e de habitantes racionais, como diz o apóstolo: Nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência. E novamente diz: Seremos arrebatados nas nuvens para encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor.

[33] Devemos, portanto, supor que os santos permanecerão ali até reconhecerem o duplo modo de governo naquelas coisas que se realizam no ar. E, quando digo duplo modo, quero dizer isto: quando estávamos sobre a terra, víamos animais ou árvores, contemplávamos as diferenças entre eles e também a grandíssima diversidade entre os homens; mas, embora víssemos essas coisas, não entendíamos a razão delas; e apenas isto nos era sugerido pela diversidade visível: que examinássemos e investigássemos segundo que princípio essas coisas foram criadas ou dispostas diversamente. E, tendo sido concebido em nós na terra um zelo ou desejo desse tipo de conhecimento, a plena compreensão e entendimento dele nos será concedida depois da morte, se de fato o resultado corresponder às nossas expectativas. Quando, portanto, tivermos compreendido plenamente a sua natureza, entenderemos de modo duplo aquilo que vimos na terra. Tal deve ser, então, a visão que sustentamos acerca dessa morada no ar. Penso, portanto, que todos os santos que partem desta vida permanecerão em algum lugar situado na terra, ao qual a sagrada escritura chama paraíso, como em um lugar de instrução, e, por assim dizer, uma sala de aula ou escola de almas, na qual serão instruídos acerca de todas as coisas que haviam visto na terra, e receberão também alguma informação acerca das coisas que hão de acontecer no futuro; assim como, mesmo quando estavam nesta vida, haviam obtido em alguma medida indicações de acontecimentos futuros, embora como por espelho, obscuramente, todas as quais são reveladas mais clara e distintamente aos santos em seu tempo e lugar próprios. Se alguém, de fato, for puro de coração, santo de mente e mais exercitado em percepção, progredirá mais rapidamente, subirá depressa a uma região do ar e alcançará o reino dos céus através daquelas moradas, por assim dizer, nos vários lugares que os gregos chamaram esferas, isto é, globos, mas que a sagrada escritura chamou céus; em cada um dos quais verá primeiro claramente o que ali se faz e, em segundo lugar, descobrirá a razão pela qual as coisas são assim feitas; e assim passará ordenadamente por todos os graus, seguindo aquele que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus, que disse: Quero que, onde eu estou, estes também estejam. E dessa diversidade de lugares ele fala quando diz: Na casa de meu Pai há muitas moradas. Ele próprio está em toda parte e passa rapidamente por todas as coisas; e já não devemos entendê-lo como existindo dentro daqueles estreitos limites em que uma vez esteve confinado por nossa causa, isto é, não naquele corpo circunscrito que ocupou na terra, quando habitava entre os homens, segundo o qual poderia ser considerado encerrado em algum lugar.

[34] Quando, então, os santos tiverem alcançado as moradas celestes, verão claramente, uma por uma, a natureza das estrelas e compreenderão se são dotadas de vida, ou qual seja a sua condição. E compreenderão também as outras razões das obras de Deus, que ele mesmo lhes revelará. Pois lhes mostrará, como a filhos, as causas das coisas e o poder de sua criação, e explicará por que tal estrela foi colocada naquela determinada região do céu, e por que foi separada de outra por tão grande espaço intermediário; qual teria sido, por exemplo, a consequência se ela estivesse mais próxima ou mais distante; ou, se aquela estrela tivesse sido maior do que esta, de que maneira a totalidade das coisas não teria permanecido a mesma, mas tudo teria sido transformado em uma condição diferente de existência. E assim, quando tiverem concluído todas aquelas matérias ligadas às estrelas e às revoluções celestes, passarão àquelas coisas que não são vistas, ou àquelas cujos nomes apenas ouvimos, e às coisas invisíveis, que o apóstolo Paulo nos informou serem numerosas, embora não possamos sequer conjecturar, com nosso fraco intelecto, o que sejam ou que diferença possa existir entre elas. E assim a natureza racional, crescendo em cada passo individual, não como crescia nesta vida em carne, corpo e alma, mas ampliada em entendimento e em poder de percepção, é elevada, como mente já perfeita, ao conhecimento perfeito, não mais impedida de modo algum por aqueles sentidos carnais, mas aumentada em crescimento intelectual; e sempre contemplando puramente e, por assim dizer, face a face, as causas das coisas, atinge a perfeição, primeiro, isto é, aquela pela qual ascende à verdade, e, segundo, aquela pela qual permanece nela, tendo os problemas, a compreensão das coisas e as causas dos acontecimentos como alimento de que se nutre. Pois, assim como nesta vida nossos corpos crescem fisicamente até o que são, porque na infância a suficiência de alimento fornece o meio de crescimento, mas depois de alcançada a devida altura usamos o alimento não mais para crescer, mas para viver e ser conservados por ele na vida; assim também penso que a mente, quando tiver atingido a perfeição, come e se utiliza de alimento conveniente e apropriado em tal medida que nada deve ser deficiente nem supérfluo. E em todas as coisas esse alimento deve ser entendido como a contemplação e o conhecimento de Deus, em medida apropriada e adequada a esta natureza que foi feita e criada; e é próprio que essa medida seja observada por cada um daqueles que começam a ver a Deus, isto é, a compreendê-lo por meio da pureza de coração.

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