[1] Leitor, lembra-te de mim em tuas orações, para que também nós sejamos dignos de nos tornar imitadores do Espírito.
[2] Os dois primeiros livros de Dos Princípios eu traduzi não apenas a teu pedido, mas até mesmo sob tua insistência durante os dias da Quaresma; mas, como tu, meu devoto irmão Macário, não apenas moravas perto de mim naquele tempo, como também tinhas mais tempo disponível do que agora, também eu trabalhei com maior intensidade; ao passo que levei mais tempo para explicar estes dois últimos livros, visto que vinhas com menos frequência, de uma extremidade distante da cidade, para estimular meu trabalho.
[3] E, se te lembras do que te adverti em meu prefácio anterior — que certas pessoas ficariam indignadas se não ouvissem que nós falávamos algum mal de Orígenes — isso, imagino, já experimentaste imediatamente e viste acontecer.
[4] Mas, se aqueles demônios que excitam as línguas dos homens à calúnia ficaram tão enfurecidos com aquela obra, na qual ele ainda não havia desvelado plenamente seus procedimentos secretos, que pensas que acontecerá nesta, na qual ele exporá todos aqueles caminhos escuros e ocultos pelos quais se insinuam nos corações dos homens e enganam almas fracas e instáveis?
[5] Verás imediatamente tudo lançado em confusão, sedições levantadas, clamores erguidos por toda a cidade, e aquele mesmo homem chamado para receber sentença de condenação, ele que se esforçou por dissipar a escuridão diabólica da ignorância por meio da luz da lâmpada do evangelho.
[6] Tais coisas, porém, sejam tidas por leves por aquele que deseja ser instruído na aprendizagem divina, conservando íntegra a regra da fé católica.
[7] Julgo necessário, contudo, recordar-te que o princípio observado nos livros anteriores foi observado também nestes, isto é: não traduzir o que parecia contrário às outras opiniões de Orígenes e à nossa própria fé, mas deixar de lado tais passagens como se fossem interpolações e falsificações feitas por outros.
[8] Mas, se ele pareceu expressar alguma novidade a respeito das criaturas racionais — assunto do qual não depende a essência da nossa fé — para fins de discussão e de acréscimo ao nosso conhecimento, quando talvez fosse necessário responder, nessa ordem, a algumas opiniões heréticas, não deixei de mencionar essas coisas nem nos presentes nem nos livros anteriores, exceto quando ele desejou repetir nos livros seguintes o que já havia dito nos anteriores, ocasião em que considerei conveniente, por brevidade, reduzir algumas dessas repetições.
[9] Se alguém, porém, ler essas passagens com o desejo de ampliar seu conhecimento, e não de levantar objeções capciosas, fará melhor se procurar que elas lhe sejam explicadas por pessoas habilidosas.
[10] Pois é absurdo que as ficções da poesia e as ridículas peças da comédia sejam interpretadas por gramáticos, e se suponha que, sem mestre e sem intérprete, alguém possa aprender as coisas que se dizem a respeito de Deus, das virtudes celestes e do universo inteiro, nas quais se refuta algum lamentável erro de filósofos pagãos ou de hereges; e o resultado disso é que os homens preferem condenar, de modo precipitado e ignorante, coisas difíceis e obscuras, em vez de investigar seu sentido com diligência e estudo.
[11] Julgamos, portanto, que pensamentos como esses devem ser nutridos a respeito das promessas divinas, quando dirigimos nossa inteligência à contemplação daquele mundo eterno e infinito, e fixamos os olhos em sua alegria e bem-aventurança inefáveis.
[12] Mas, como a pregação da Igreja inclui a crença em um juízo futuro e justo de Deus, crença essa que incita e persuade os homens a uma vida boa e virtuosa e ao afastamento do pecado por todos os meios possíveis; e como por isso se mostra sem dúvida que está em nosso próprio poder entregar-nos a uma vida digna de louvor ou a uma vida digna de censura, considero necessário dizer algumas palavras a respeito da liberdade da vontade, visto que esse tema foi tratado por muitos escritores com não pequena elevação.
[13] E, para que possamos discernir com mais facilidade o que seja a liberdade da vontade, investiguemos a natureza da vontade e do desejo.
[14] De todas as coisas que se movem, algumas têm em si mesmas a causa do seu movimento, outras a recebem de fora; e só se movem de fora aquelas coisas que não têm vida, como pedras, pedaços de madeira e tudo quanto é mantido unido apenas pela constituição da sua matéria ou substância corporal.
[15] Deve ser afastada, sem dúvida, a opinião que considera a dissolução dos corpos pela corrupção como sendo movimento, pois isso não tem relação com o nosso propósito presente.
[16] Outras coisas, porém, têm em si mesmas a causa do movimento, como os animais, as árvores e tudo o que é mantido pela vida natural ou pela alma; entre essas, alguns pensam que também devem ser incluídas as veias dos metais.
[17] O fogo também é tido como causa do seu próprio movimento, e talvez também as fontes de água.
[18] E, entre as coisas que têm em si mesmas as causas do movimento, diz-se que algumas se movem a partir de si, e outras por si mesmas.
[19] Faz-se essa distinção porque se diz que se movem a partir de si as coisas que têm vida, mas não alma; ao passo que as que têm alma movem-se por si mesmas, quando lhes é apresentada uma fantasia, isto é, um desejo ou impulso, que as excita a mover-se em direção a alguma coisa.
[20] Por fim, em certos seres dotados de alma, há uma tal fantasia, isto é, uma vontade ou sensação, que, por uma espécie de instinto natural, os impele e os desperta para um movimento ordenado e regular; assim vemos acontecer com as aranhas, que são estimuladas de modo muito ordenado por uma fantasia, isto é, por um certo desejo e inclinação para tecer, a produzir a teia, sendo sem dúvida algum movimento natural o que suscita esse esforço de trabalho.
[21] E não se vê que esse mesmo inseto possua qualquer outra sensação além do desejo natural de tecer; do mesmo modo, também as abelhas manifestam o desejo de formar favos e de recolher, como dizem, o mel do ar.
[22] Mas, visto que o animal racional não apenas possui em si esses movimentos naturais, como também, mais do que os outros animais, possui o poder da razão, pelo qual pode julgar e decidir a respeito dos movimentos naturais, desaprovando e rejeitando uns, e aprovando e adotando outros, os movimentos humanos podem, pelo juízo dessa razão, ser governados e dirigidos para uma vida digna de louvor.
[23] E disso se segue que, como a natureza dessa razão que está no homem possui em si o poder de distinguir entre o bem e o mal, e, ao distinguir, tem a faculdade de escolher o que aprovou, ela pode justamente ser considerada digna de louvor quando escolhe o bem, e merecedora de censura quando segue o que é vil ou perverso.
[24] E isto de modo algum deve escapar à nossa atenção: em alguns animais sem fala encontra-se um movimento mais regular do que em outros, como nos cães de caça ou nos cavalos de guerra, de modo que podem parecer a alguns mover-se por uma espécie de senso racional.
[25] Mas devemos crer que isso resulta não tanto da razão quanto de algum instinto natural, abundantemente concedido para esse tipo de finalidade.
[26] Ora, como começávamos a observar, sendo tal a natureza do animal racional, algumas coisas podem nos acontecer, a nós, seres humanos, a partir de fora; e essas coisas, entrando em contato com a vista, a audição ou qualquer outro dos nossos sentidos, podem incitar e despertar em nós movimentos bons ou maus; e, vindo elas de fonte externa, não está em nosso poder impedir que venham.
[27] Mas determinar e aprovar que uso devemos fazer dessas coisas que assim nos sucedem é tarefa de ninguém mais além daquela razão que está em nós, isto é, do nosso próprio juízo; e é pela decisão dessa razão que usamos o estímulo que nos vem de fora para o fim que a própria razão aprova, sendo nossos movimentos naturais dirigidos por sua autoridade, seja para boas ações, seja para o contrário.
[28] Se alguém disser agora que essas coisas que nos acontecem por causa externa e provocam nossos movimentos são de tal natureza que é impossível resistir-lhes, quer nos incitem ao bem, quer ao mal, que o defensor dessa opinião volte por um momento a atenção para si mesmo e examine cuidadosamente os movimentos da sua própria mente, a menos que já tenha descoberto que, quando surge uma sedução para algum desejo, nada se realiza enquanto não se obtenha o assentimento da alma e a autoridade da mente não conceda permissão à sugestão perversa; de modo que duas partes parecem apresentar suas razões perante um juiz que reside nos tribunais do nosso coração, para que, depois de ouvidas as razões, o decreto de execução proceda do juízo da razão.
[29] Para dar um exemplo: se, a um homem que decidiu viver de modo continente e casto, e conservar-se livre de toda contaminação com mulheres, sobrevém a presença de uma mulher que o incita e o atrai a agir contra seu propósito, essa mulher não é causa completa, absoluta ou necessária da sua transgressão, pois está em seu poder, recordando sua resolução, refrear os impulsos da luxúria e, pelas severas admoestações da virtude, conter o prazer da sedução que o solicita; de modo que, afastado todo sentimento de indulgência, sua determinação permaneça firme e duradoura.
[30] Finalmente, se homens instruídos, fortalecidos pelo ensino divino, forem confrontados com seduções desse tipo, lembrando-se imediatamente do que elas são, trazendo à mente aquilo que há muito tem sido objeto da sua meditação e instrução, e fortalecendo-se pelo apoio de uma doutrina mais santa, rejeitam e repelem todo estímulo ao prazer, e afastam os desejos contrários pela intervenção da razão implantada dentro deles.
[31] Estando, pois, essas posições assim estabelecidas por uma espécie de evidência natural, não é supérfluo lançar sobre as coisas que nos acontecem de fora a causa de nossas ações, transferindo assim a culpa para longe de nós, quando ela recai inteiramente sobre nós mesmos?
[32] Pois isso equivaleria a dizer que somos como pedaços de madeira ou pedras, que não têm movimento em si mesmos, mas recebem de fora as causas do seu movimento.
[33] Tal afirmação, porém, não é nem verdadeira nem conveniente, e foi inventada apenas para que a liberdade da vontade seja negada; a não ser que se queira supor que a liberdade da vontade consista em que nada do que nos sobrevém de fora possa incitar-nos ao bem ou ao mal.
[34] E, se alguém quiser atribuir as causas das nossas faltas à desordem natural do corpo, tal teoria mostra-se contrária à razão de todo ensino.
[35] Pois vemos, em muitíssimas pessoas, que, depois de viverem impudicamente e sem temperança, cativas do luxo e da concupiscência, se porventura forem despertadas pela palavra de ensino e instrução para entrar em um caminho melhor de vida, opera-se nelas uma mudança tão grande que, de homens luxuriosos e maus, tornam-se sóbrios, castíssimos e mansos; e, por outro lado, vemos também no caso dos que eram tranquilos e honestos que, depois de se associarem a pessoas inquietas e desavergonhadas, seus bons costumes são corrompidos por más conversas e eles se tornam semelhantes àqueles cuja maldade é consumada.
[36] E isso às vezes acontece com homens de idade madura, de tal modo que alguns viveram mais castamente na juventude do que depois, quando a idade mais avançada lhes permitiu entregar-se a um modo de vida mais livre.
[37] O resultado do nosso raciocínio, portanto, é mostrar que as coisas que nos acontecem de fora não estão em nosso poder; mas fazer bom ou mau uso dessas coisas que nos acontecem, com o auxílio daquela razão que está em nós e que distingue e determina como elas devem ser usadas, isso está em nosso poder.
[38] E agora, para confirmar as deduções da razão pela autoridade da escritura — isto é, que depende de nós viver retamente ou não, e que não somos compelidos nem pelas causas que nos vêm de fora, nem, como alguns pensam, pela presença do destino — apresentamos o testemunho do profeta Miqueias nestas palavras: “Foi-te declarado, ó homem, o que é bom e o que o Senhor requer de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o Senhor teu Deus?”
[39] Moisés também fala assim: “Coloquei diante de ti o caminho da vida e o caminho da morte; escolhe o bem e anda nele.”
[40] Isaías, além disso, faz esta declaração: “Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o bem da terra.”
[41] “Mas, se não quiserdes e não me ouvirdes, a espada vos consumirá, porque a boca do Senhor falou.”
[42] Também no Salmo está escrito: “Se o meu povo me tivesse ouvido, se Israel tivesse andado nos meus caminhos, eu teria abatido os seus inimigos até reduzi-los a nada”; com isso ele mostra que estava no poder do povo ouvir e andar nos caminhos de Deus.
[43] O Salvador também, ao dizer: “Eu vos digo: não resistais ao mal”; e: “Todo aquele que se irar contra seu irmão será réu de juízo”; e: “Todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar já adulterou com ela em seu coração”; e ao emitir outros mandamentos, não comunica outra coisa senão esta: que está em nosso próprio poder observar o que é ordenado.
[44] E, portanto, justamente somos passíveis de condenação se transgredimos os mandamentos que somos capazes de guardar.
[45] E por isso ele próprio declara: “Todo aquele que ouve as minhas palavras e as pratica, eu vos mostrarei a quem é semelhante: é semelhante a um homem sábio que edificou a sua casa sobre a rocha”, e assim por diante.
[46] Do mesmo modo também esta declaração: “Quem ouve estas coisas e não as pratica é semelhante a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia”, e assim por diante.
[47] Até mesmo as palavras dirigidas aos que estão à sua direita: “Vinde a mim, benditos de meu Pai”, e assim por diante, “porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber”, mostram claramente que dependia deles próprios serem dignos de louvor por fazerem o que foi mandado e receberem o que foi prometido, ou dignos de censura aqueles que ouviram ou receberam o contrário, aos quais foi dito: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno.”
[48] Observemos também que o apóstolo Paulo se dirige a nós como tendo poder sobre a própria vontade e como possuindo em nós mesmos as causas da nossa salvação ou da nossa ruína: “Desprezas tu as riquezas da sua bondade, da sua paciência e da sua longanimidade, não sabendo que a bondade de Deus te conduz ao arrependimento?”
[49] “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras para ti ira no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam glória e honra e incorruptibilidade; mas ira, indignação, tribulação e angústia sobre toda alma de homem que pratica o mal, sobre o judeu primeiro e também sobre o grego; porém glória, honra e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego.”
[50] Encontrarás também inumeráveis outras passagens na santa escritura que mostram manifestamente que possuímos liberdade de vontade.
[51] De outra forma, haveria contradição em nos serem dados mandamentos, cuja observância nos pode salvar e cuja transgressão nos pode condenar, se o poder de cumpri-los não estivesse implantado em nós.
[52] Mas, como se encontram na própria santa escritura certas expressões em tal contexto que o oposto disso pode parecer ser entendido a partir delas, tragamolas diante de nós e, discutindo-as segundo a regra da piedade, forneçamos uma explicação, a fim de que, a partir dessas poucas passagens que agora expomos, se torne clara a solução de outras semelhantes, pelas quais parece ser excluído qualquer poder sobre a vontade.
[53] Tais expressões, portanto, impressionam muitíssimos, especialmente as usadas por Deus ao falar de Faraó, como quando frequentemente diz: “Endurecerei o coração de Faraó.”
[54] Pois, se ele é endurecido por Deus e comete pecado em consequência desse endurecimento, a causa do seu pecado não está nele mesmo.
[55] E, sendo assim, parecerá que Faraó não possui liberdade de vontade; e concluir-se-á, por consequência, que, à semelhança desse exemplo, também os outros que perecem não devem a causa da sua destruição à liberdade da própria vontade.
[56] Também aquela expressão em Ezequiel, quando diz: “Tirarei deles o coração de pedra e lhes darei coração de carne, para que andem nos meus preceitos e guardem os meus caminhos”, pode impressionar alguns, por parecer ser dom de Deus tanto andar nos seus caminhos quanto guardar os seus preceitos, se ele remove o coração de pedra, que é obstáculo à observância dos mandamentos, e concede e implanta um coração melhor e mais sensível, chamado agora coração de carne.
[57] Considera também a natureza da resposta dada no evangelho por nosso Senhor e Salvador àqueles que lhe perguntaram por que falava à multidão em parábolas.
[58] Suas palavras são estas: “Para que, vendo, não vejam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não se convertam e lhes sejam perdoados os pecados.”
[59] E ainda as palavras usadas pelo apóstolo Paulo: “não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que se compadece”; e em outro lugar também: “o querer e o realizar vêm de Deus”; e ainda, em outra passagem: “logo, ele tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer.”
[60] Dirás então: “Por que ainda se queixa ele?”
[61] “Pois quem resistiu à sua vontade?”
[62] “Ó homem, quem és tu que contestas a Deus?”
[63] “Acaso a coisa formada dirá àquele que a formou: por que me fizeste assim?”
[64] “Não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” Essas e outras declarações semelhantes têm não pequena influência para impedir muitos de crer que cada um deva ser considerado como tendo liberdade sobre a própria vontade, fazendo parecer que da vontade de Deus depende que um homem seja salvo ou perdido.
[65] Comecemos, então, por aquelas palavras ditas a Faraó, de quem se diz ter sido endurecido por Deus para que não deixasse o povo partir; e, juntamente com o caso dele, consideraremos também a linguagem do apóstolo, quando diz: “Ele tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer.”
[66] Pois é sobretudo nessas passagens que os hereges se apoiam, afirmando que a salvação não está em nosso poder, mas que as almas são de tal natureza que necessariamente devem ou perder-se ou salvar-se; e que de modo algum uma alma de natureza má pode tornar-se boa, nem uma de natureza virtuosa pode tornar-se má.
[67] Por isso sustentam também que Faraó, sendo de natureza arruinada, foi por isso mesmo endurecido por Deus, que endurece os de natureza terrena, mas tem compaixão dos de natureza espiritual.
[68] Vejamos, pois, qual o sentido da sua afirmação; e peçamos, em primeiro lugar, que nos digam se sustentam que a alma de Faraó era de natureza terrena, tal como eles a chamam, destinada à perdição.
[69] Sem dúvida responderão que sim, que era de natureza terrena.
[70] Se assim era, então crer em Deus ou obedecer-lhe, quando sua própria natureza se opunha a isso, era impossível.
[71] E, se essa era sua condição por natureza, que necessidade havia de o seu coração ser endurecido, e isso não uma, mas várias vezes, a não ser que fosse possível que ele cedesse à persuasão?
[72] Pois ninguém poderia ser dito endurecido por outro, a não ser aquele que por si mesmo não fosse já obstinado.
[73] E, se ele não era obstinado por si mesmo, segue-se que tampouco era de natureza terrena, mas alguém que poderia ceder quando vencido por sinais e prodígios.
[74] Mas ele era necessário ao propósito de Deus, para que, visando a salvação da multidão, Deus manifestasse nele o seu poder, já que ele resistia a numerosos milagres e lutava contra a vontade de Deus, sendo seu coração, por esse motivo, dito endurecido.
[75] Tais são, em primeiro lugar, nossas respostas a essas pessoas; e com elas pode ser derrubada a afirmação segundo a qual pensam que Faraó foi destruído em consequência da sua má natureza.
[76] E, quanto à linguagem do apóstolo Paulo, devemos responder-lhes de modo semelhante.
[77] Pois quem são aqueles que Deus endurece, segundo a vossa opinião?
[78] São justamente aqueles que chamais de natureza arruinada e que, suponho, fariam outra coisa se não tivessem sido endurecidos.
[79] Se, de fato, eles chegam à destruição por terem sido endurecidos, já não perecem naturalmente, mas em virtude do que lhes aconteceu.
[80] Em seguida, sobre quem Deus exerce misericórdia?
[81] Sobre aqueles, certamente, que hão de ser salvos.
[82] E em que sentido essas pessoas precisam de uma segunda compaixão, se já deviam ser salvas por natureza e assim chegariam naturalmente à bem-aventurança, senão porque também no caso delas se mostra que, como era possível que perecessem, por isso obtêm misericórdia, para que não pereçam, mas alcancem a salvação e possuam o reino dos bons?
[83] E esta seja nossa resposta àqueles que forjam e inventam a fábula das naturezas boas ou más, isto é, das almas terrenas ou espirituais, em virtude da qual, como dizem, cada um se salva ou se perde.
[84] E agora devemos responder também àqueles que querem que o Deus da lei seja apenas justo, e não também bom; perguntemos-lhes de que modo consideram eles que o coração de Faraó foi endurecido por Deus, por quais atos ou por quais disposições antecipadas.
[85] Pois devemos considerar a noção de um Deus que, em nossa opinião, é ao mesmo tempo justo e bom, mas que, segundo eles, é apenas justo.
[86] E que nos mostrem como um Deus que eles também reconhecem como justo pode, com justiça, fazer endurecer o coração de um homem, para que, em consequência desse mesmo endurecimento, ele peque e se perca.
[87] E como se defenderá a justiça de Deus, se ele próprio for a causa da destruição daqueles que depois condena, como juiz, por causa da incredulidade deles, decorrente do endurecimento?
[88] Pois por que o culpa, dizendo: “Mas, como não deixas meu povo ir, eis que ferirei todos os primogênitos do Egito, inclusive teu primogênito”, e tudo o mais que foi falado por Deus a Faraó por meio de Moisés?
[89] Porque convém a todo aquele que mantém a verdade do que está registrado na escritura e deseja mostrar que o Deus da lei e dos profetas é justo, dar razão de todas essas coisas e mostrar como nelas não há absolutamente nada que diminua a justiça de Deus, já que, embora neguem sua bondade, admitem que ele é um juiz justo e o criador do mundo.
[90] Diferente, porém, é o modo da nossa resposta àqueles que afirmam que o criador deste mundo é um ser maligno, isto é, o diabo.
[91] Mas, como reconhecemos que o Deus que falou por Moisés é não apenas justo, mas também bom, investiguemos cuidadosamente como é compatível com o caráter de uma divindade justa e boa ter endurecido o coração de Faraó.
[92] E vejamos se, seguindo o exemplo do apóstolo Paulo, somos capazes de resolver a dificuldade com o auxílio de alguns casos paralelos: isto é, se podemos mostrar, por exemplo, que, por um mesmo ato, Deus se compadece de um indivíduo e endurece outro; não querendo nem desejando que o endurecido o seja, mas porque, na manifestação da sua bondade e paciência, o coração daqueles que tratam sua benignidade e longanimidade com desprezo e insolência se endurece pelo adiamento da punição de seus crimes; ao passo que aqueles que fazem da bondade e paciência de Deus ocasião para arrependimento e reforma obtêm compaixão.
[93] Para mostrar mais claramente o que queremos dizer, tomemos a ilustração usada pelo apóstolo Paulo na Epístola aos Hebreus, onde ele diz: “A terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz ervas úteis àqueles por quem é cultivada recebe bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos é rejeitada e está perto da maldição, e o seu fim é ser queimada.”
[94] Ora, pelas palavras de Paulo que citamos, mostra-se claramente que, por um só e mesmo ato da parte de Deus — isto é, aquele pelo qual ele envia chuva sobre a terra — uma parte do solo, quando cuidadosamente cultivada, produz bons frutos, enquanto outra, negligenciada e sem cuidado, produz espinhos e cardos.
[95] E, se alguém, falando como se fosse a própria chuva, dissesse: “Sou eu, a chuva, quem produziu os bons frutos, e sou eu quem fez crescer os espinhos e os cardos”, por mais dura que parecesse a afirmação, ainda assim seria verdadeira; pois, se a chuva não tivesse caído, nem frutos, nem espinhos, nem cardos teriam brotado, ao passo que, com a vinda da chuva, a terra deu origem a ambos.
[96] Ora, embora seja pela ação benéfica da chuva que a terra produziu ervas de ambos os tipos, não é à chuva que propriamente se deve atribuir a diversidade das ervas; mas recairá justamente a culpa da má semente sobre aqueles que, embora pudessem ter revolvido o solo com frequente arado, quebrado os torrões com repetidas gradagens, arrancado todas as ervas inúteis e nocivas e limpo e preparado os campos para a chegada das chuvas com todo o trabalho e esforço que o cultivo exige, negligenciaram, contudo, fazê-lo, e por isso colherão espinhos e cardos, fruto mais apropriado da sua preguiça.
[97] A consequência, portanto, é que, embora a chuva caia com bondade e imparcialidade igualmente sobre toda a terra, ainda assim, por uma só e mesma operação da chuva, o solo cultivado produz, com bênção, frutos úteis aos lavradores diligentes e cuidadosos, ao passo que aquele que se endureceu pelo descuido do agricultor produz apenas espinhos e cardos.
[98] Vejamos, pois, aqueles sinais e milagres feitos por Deus como as chuvas enviadas do alto por ele; e a intenção e os desejos dos homens como o solo cultivado e o não cultivado, que possuem, é verdade, a mesma natureza, como toda terra comparada a outra, mas não o mesmo estado de cultivo.
[99] Daí se segue que a vontade de cada um, se indisciplinada, feroz e bárbara, ou é endurecida pelos milagres e maravilhas de Deus, tornando-se ainda mais selvagem e espinhosa, ou se torna mais maleável e se entrega de todo o coração à obediência, se for limpa do vício e submetida ao treinamento.
[100] Mas, para estabelecer o ponto com mais clareza, não será supérfluo usar outra ilustração, como se alguém dissesse, por exemplo, que é o sol que endurece e liquefaz, embora liquefazer e endurecer sejam coisas de natureza oposta.
[101] Ora, não é incorreto dizer que o sol, por uma só e mesma força do seu calor, derrete a cera, mas seca e endurece o barro; não porque sua força opere de um modo sobre o barro e de outro sobre a cera, mas porque as qualidades do barro e da cera são diferentes, embora, segundo a natureza, sejam uma mesma coisa, pois ambos procedem da terra.
[102] Assim, pois, uma única e mesma operação da parte de Deus, administrada por Moisés em sinais e prodígios, manifestou a dureza de Faraó, que ele havia concebido na intensidade da sua maldade, mas exibiu a obediência daqueles outros egípcios misturados com os israelitas, os quais se registra terem saído do Egito ao mesmo tempo que os hebreus.
[103] Quanto à afirmação de que o coração de Faraó foi sendo vencido gradualmente, de modo que em certa ocasião ele disse: “Não vades muito longe; fareis uma jornada de três dias, mas deixai vossas mulheres, vossos filhos e vosso gado”, e quanto a outras declarações pelas quais ele parece ceder pouco a pouco aos sinais e prodígios, que outra coisa isso mostra senão que o poder dos sinais e milagres fazia alguma impressão nele, mas não tanto quanto deveria?
[104] Pois, se o endurecimento fosse do tipo que muitos imaginam, ele de fato não teria cedido nem mesmo em poucas ocasiões.
[105] Mas penso que não há absurdo em explicar, segundo o uso comum, a natureza trópica ou figurada da linguagem empregada ao falar do endurecimento.
[106] Pois senhores notáveis por sua bondade para com os escravos costumam frequentemente dizer a eles, quando, por causa de muita paciência e indulgência da parte deles, estes se tornaram insolentes e inúteis: “Fui eu quem te fiz ser o que és; fui eu quem te estragou; foi minha tolerância que te tornou imprestável; eu sou o culpado pelos teus hábitos perversos e maus, porque não te castigo imediatamente por cada falta segundo o que mereces.”
[107] Pois primeiro devemos atender ao sentido figurado da linguagem e, então, chegar a perceber a força da expressão, em vez de censurar a palavra cujo sentido interior não investigamos.
[108] Finalmente, o apóstolo Paulo, tratando evidentemente dessas coisas, diz àquele que permanece em seus pecados: “Desprezas as riquezas da sua bondade, da sua tolerância e da sua longanimidade, não sabendo que a bondade de Deus te conduz ao arrependimento?”
[109] “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras para ti ira no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus.”
[110] Essas são as palavras do apóstolo àquele que está em seus pecados.
[111] Apliquemos essas mesmas expressões a Faraó e vejamos se não se dizem dele com propriedade, já que, segundo sua dureza e seu coração impenitente, ele entesourou e acumulou para si ira no dia da ira, visto que sua dureza nunca poderia ter sido declarada e manifestada, se não tivessem sido realizados sinais e prodígios tão numerosos e grandiosos.
[112] Mas, se as provas que apresentamos não parecerem suficientemente plenas e a semelhança usada pelo apóstolo parecer carecer de aplicação, acrescentemos a voz da autoridade profética e vejamos o que os profetas declaram a respeito daqueles que, a princípio, vivendo uma vida justa, mereceram receber numerosas provas da bondade de Deus, mas depois, por serem humanos, se desviaram; com eles o profeta, fazendo-se também um deles, diz: “Por que, ó Senhor, nos fizeste errar do teu caminho?”
[113] “E endureceste o nosso coração, para que não temêssemos o teu nome?”
[114] “Volta, por amor dos teus servos, por amor das tribos da tua herança, para que nós também, por um pouco, obtenhamos alguma herança do teu monte santo.”
[115] Jeremias usa linguagem semelhante: “Ó Senhor, tu nos enganaste, e nós fomos enganados; tu nos tomaste pela mão e prevaleceste.”
[116] A expressão, então, “Por que, ó Senhor, endureceste o nosso coração, para que não temêssemos o teu nome?”, usada por aqueles que pediam misericórdia, deve ser entendida em sentido figurado e moral, como se dissessem: “Por que nos poupaste por tanto tempo e não nos retribuíste quando pecamos, mas nos deixaste, para que assim crescesse nossa maldade e se prolongasse nossa liberdade de pecar com a suspensão do castigo?”
[117] Do mesmo modo, se um cavalo não sentir continuamente a espora do cavaleiro e não tiver a boca ferida pelo freio, ele se endurece.
[118] E também um menino, se não for constantemente disciplinado pela correção, crescerá tornando-se um jovem insolente e pronto a precipitar-se no vício.
[119] Assim, Deus abandona e negligencia aqueles que julgou indignos de castigo: “Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe.”
[120] Daí devemos supor que são recebidos na condição e no afeto de filhos aqueles que mereceram ser açoitados e corrigidos pelo Senhor, para que eles também, pela perseverança em provas e tribulações, possam dizer: “Quem nos separará do amor de Deus que está em Cristo Jesus?”
[121] “Tribulação, ou angústia, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?”
[122] Pois por todas essas coisas a resolução de cada um é manifestada e exposta, e a firmeza da sua perseverança se torna conhecida, não tanto a Deus, que conhece todas as coisas antes que aconteçam, mas às virtudes racionais e celestes, que obtiveram parte na obra de procurar a salvação humana, como uma espécie de auxiliares e ministros de Deus.
[123] Aqueles, ao contrário, que ainda não se oferecem a Deus com tal constância e afeição, nem estão prontos para entrar em seu serviço e preparar suas almas para a prova, são ditos abandonados por Deus, isto é, não instruídos, já que não estão preparados para a instrução, sendo seu treinamento ou cuidado sem dúvida adiado para tempo posterior.
[124] Estes certamente não sabem o que receberão de Deus, a menos que primeiro nutram o desejo de serem beneficiados; e isso finalmente acontecerá se o homem chegar primeiro ao conhecimento de si, sentir quais são suas faltas e compreender de quem deve ou pode buscar o suprimento das suas deficiências.
[125] Pois aquele que não conhece previamente sua fraqueza ou sua enfermidade não pode procurar um médico; ou, pelo menos, depois de recuperar a saúde, não será grato ao médico aquele que antes não reconheceu a gravidade do seu mal.
[126] E assim, se o homem primeiro não tiver reconhecido os defeitos da sua vida e a natureza má dos seus pecados, e não tiver tornado isso conhecido por confissão de seus próprios lábios, não pode ser purificado nem absolvido, para que não ignore que aquilo que possui lhe foi dado por favor, mas considere como propriedade sua o que flui da liberalidade divina, ideia essa que sem dúvida gera arrogância de mente e orgulho, e por fim se torna causa da ruína do indivíduo.
[127] E assim, devemos crer, aconteceu com o diabo, que considerou como sua, e não como algo dado por Deus, a primazia que possuía quando ainda estava sem mancha; e assim se cumpriu nele a declaração: “Todo aquele que se exalta será humilhado.”
[128] Daí me parece que os mistérios divinos foram ocultos aos sábios e entendidos, conforme a declaração da escritura, para que nenhuma carne se glorie diante de Deus, e revelados aos pequeninos — isto é, àqueles que, depois de se tornarem crianças e pequeninos, ou seja, depois de retornarem à humildade e simplicidade das crianças, então progridem; e, ao chegarem à perfeição, lembram-se de que obtiveram seu estado de felicidade não por méritos próprios, mas pela graça e compaixão de Deus.
[129] Portanto, é pela sentença de Deus que é abandonado aquele que merece sê-lo, ao passo que sobre alguns pecadores Deus exerce longanimidade; não, porém, sem um princípio definido de ação.
[130] Antes, o próprio fato de ele ser longânimo contribui para a vantagem dessas mesmas pessoas, pois a alma sobre a qual ele exerce esse cuidado providencial é imortal; e, sendo imortal e perene, não fica excluída da salvação por não ser imediatamente cuidada, pois esta é apenas adiada para tempo mais conveniente.
[131] Pois talvez seja útil que aqueles que foram mais profundamente impregnados pelo veneno da maldade obtenham essa salvação em um período posterior.
[132] Porque, assim como os médicos às vezes, embora pudessem rapidamente fechar as cicatrizes das feridas, retardam e adiam por ora a cura, na expectativa de uma recuperação melhor e mais perfeita, sabendo que é mais salutar retardar o tratamento nos casos de inchaços causados por feridas e permitir por algum tempo o escoamento dos humores malignos, em vez de apressar uma cura superficial, encerrando nas veias o veneno de um humor doentio, que, excluído de suas saídas habituais, certamente penetrará nas partes internas dos membros e chegará até as próprias vísceras, produzindo não mais apenas doença no corpo, mas destruição da vida; do mesmo modo, Deus, que conhece os segredos do coração e prevê o futuro, permite em muita longanimidade que certos acontecimentos, vindo de fora sobre os homens, façam vir à luz as paixões e vícios ocultos dentro deles, para que, por esses meios, sejam limpos e curados aqueles que, por grande negligência e descuido, admitiram dentro de si as raízes e sementes dos pecados, de tal modo que, expulsos para fora e trazidos à superfície, possam em certa medida ser lançados fora e dispersos.
[133] E assim, embora um homem possa parecer aflito por males graves, sofrendo convulsões em todos os seus membros, ainda assim pode, em algum tempo futuro, obter alívio e cessação do seu sofrimento; e, depois de suportar até o fim suas aflições, poderá, após muitos padecimentos, ser restaurado novamente à sua condição própria.
[134] Porque Deus trata com as almas não apenas tendo em vista o breve espaço da vida presente, contido em sessenta anos ou mais, mas com referência a um período perpétuo e sem fim, exercendo seu cuidado providencial sobre almas imortais, assim como ele próprio é eterno e imortal.
[135] Pois ele fez incorruptível a natureza racional, que formou à sua própria imagem e semelhança; e, por isso, a alma, que é imortal, não é excluída dos remédios e curas divinos pela brevidade da vida presente.
[136] Tomemos agora também dos evangelhos as semelhanças das coisas que mencionamos, nas quais se descreve certa rocha com um pouco de terra superficial sobre ela, na qual, quando a semente cai, diz-se que brota depressa; mas, depois de brotar, seca quando o sol sobe ao céu e morre, porque não lançou sua raiz profundamente na terra.
[137] Ora, essa rocha representa sem dúvida a alma humana, endurecida por sua própria negligência e transformada em pedra por causa de sua maldade.
[138] Pois Deus não deu a ninguém um coração de pedra por um ato criador; mas diz-se que o coração de cada indivíduo se torna de pedra por sua própria maldade e desobediência.
[139] Assim, se alguém censurasse um agricultor por não lançar mais rapidamente sua semente sobre um solo pedregoso, porque a semente lançada sobre outro terreno rochoso foi vista brotar depressa, o agricultor certamente responderia: “Eu semeio este solo mais lentamente por esta razão: para que ele retenha a semente que recebeu; pois convém a este terreno ser semeado um pouco mais devagar, para que talvez a planta, tendo brotado rápido demais e surgido apenas da superfície de um solo raso, não seja incapaz de suportar os raios do sol.”
[140] Acaso aquele que antes o censurava não concordaria com as razões e com o conhecimento superior do agricultor, aprovando como feito sobre bases racionais o que antes lhe parecia sem razão?
[141] E do mesmo modo Deus, o perfeitíssimo agricultor de toda a sua criação, sem dúvida oculta e adia para outro tempo aquelas coisas que pensamos que deveriam ter alcançado saúde mais cedo, para que não seja curado o exterior das coisas em vez do interior.
[142] Mas, se alguém agora nos objetar que certas sementes de fato caem sobre terreno rochoso, isto é, sobre coração duro e pedregoso, responderemos que nem isso acontece sem a disposição da providência divina; porque, se assim não fosse, não seria conhecido qual condenação se incorre pela precipitação ao ouvir e pela indiferença ao investigar, nem tampouco qual benefício deriva de ser treinado de modo ordenado.
[143] E daí acontece que a alma passa a conhecer seus defeitos, a lançar a culpa sobre si mesma e, em conformidade com isso, a resguardar-se e submeter-se ao treinamento, isto é, para que veja que primeiro devem ser removidas suas faltas, e depois ela venha a receber a instrução da sabedoria.
[144] Assim, pois, como as almas são inumeráveis, assim também são diferentes seus modos, seus propósitos, seus movimentos, seus apetites e seus impulsos, variedade esta que de modo algum pode ser abrangida pela mente humana; e por isso somente a Deus deve ser deixada a arte, o conhecimento e o poder de uma disposição desse tipo, pois só ele pode conhecer tanto os remédios para cada alma individual quanto medir o tempo da sua cura.
[145] É ele somente, então, quem, como dissemos, reconhece os caminhos de cada homem e determina por qual via deve conduzir Faraó, para que por meio dele seu nome fosse proclamado em toda a terra, tendo-o antes castigado com muitos golpes e, por fim, afogado no mar.
[146] Por esse afogamento, contudo, não se deve supor que a providência de Deus a respeito de Faraó tenha sido encerrada; pois não devemos imaginar que, porque ele se afogou, tenha por isso perecido imediatamente e de forma completa; porque “na mão de Deus estamos nós e as nossas palavras”, bem como toda sabedoria e conhecimento de obra, como declara a escritura.
[147] Mas esses pontos discutimos conforme nossa capacidade, tratando daquela passagem da escritura em que se diz que Deus endureceu o coração de Faraó, e em conformidade com a declaração: “Tem misericórdia de quem quer ter misericórdia, e endurece a quem quer.”
[148] Vejamos agora aquelas passagens de Ezequiel onde ele diz: “Tirarei deles o coração de pedra e porei neles coração de carne, para que andem nos meus estatutos e guardem os meus juízos.”
[149] Pois, se Deus, quando quer, tira um coração de pedra e concede um coração de carne, para que seus estatutos sejam observados e seus mandamentos obedecidos, então parecerá que não está em nosso poder afastar a maldade.
[150] Porque a remoção do coração de pedra parece não ser outra coisa senão a remoção da maldade pela qual alguém se endurece, daquele de quem Deus queira removê-la.
[151] Nem a concessão de um coração de carne, para que se observem os preceitos de Deus e se obedeçam seus mandamentos, é outra coisa senão o homem tornar-se obediente, já não resistindo à verdade, mas praticando obras de virtude.
[152] Se, então, Deus promete fazer isso, e se, antes que ele remova o coração de pedra, somos incapazes de removê-lo de nós mesmos, segue-se que não está em nosso poder, mas somente no de Deus, lançar fora a maldade.
[153] E, de novo, se não é obra nossa formar em nós um coração de carne, mas somente obra de Deus, não estará em nosso poder viver virtuosamente, mas tudo parecerá ser obra da graça divina.
[154] Tais são as afirmações daqueles que querem provar, pela autoridade da santa escritura, que nada está em nosso próprio poder.
[155] Ora, a estes respondemos que tais passagens não devem ser entendidas assim, mas do seguinte modo.
[156] Considera o caso de alguém ignorante e sem instrução que, sentindo a vergonha da própria ignorância, movido ou pela exortação de alguma pessoa ou pelo desejo de imitar outros sábios, entrega-se àquele por quem lhe é assegurado que será cuidadosamente treinado e competentemente instruído.
[157] Se esse homem, que antes se havia endurecido na ignorância, se entregar, como dissemos, com inteiro propósito de mente, a um mestre, prometendo obedecer-lhe em tudo, o mestre, vendo claramente a firmeza da sua determinação, prometerá apropriadamente tirar toda ignorância e implantar conhecimento em sua mente; não que se proponha a fazê-lo se o discípulo recusar ou resistir a seus esforços, mas somente se ele se oferecer e se comprometer à obediência em todas as coisas.
[158] Assim também a Palavra de Deus promete àqueles que dela se aproximam que lhes tirará o coração de pedra, não dos que não ouvem sua palavra, mas daqueles que recebem os preceitos do seu ensino; assim como nos evangelhos encontramos os enfermos aproximando-se do Salvador, pedindo receber saúde e, assim, por fim, serem curados.
[159] E, para que os cegos fossem curados e recobrassem a vista, a parte deles consistia em suplicar ao Salvador e crer que a cura poderia ser operada por ele; ao passo que a parte dele, por outro lado, consistia em restaurar-lhes o poder da visão.
[160] E, desse modo, a Palavra de Deus também promete conceder instrução mediante a remoção do coração de pedra, isto é, pela retirada da maldade, para que assim os homens sejam capazes de andar nos preceitos divinos e observar os mandamentos da lei.
[161] Em seguida, nos é apresentada aquela declaração proferida pelo Salvador no evangelho: “Para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não aconteça que se convertam e lhes sejam perdoados os pecados.”
[162] Sobre isso nosso oponente observará: “Se aqueles que ouvirão com mais clareza serão de todo modo corrigidos e convertidos, e convertidos de tal maneira que sejam dignos de receber a remissão dos pecados, e se não está em seu próprio poder ouvir a palavra com clareza, mas isso depende do Mestre ensinar mais aberta e distintamente, enquanto ele declara que não lhes anuncia a palavra com clareza, para que talvez ouçam e entendam, se convertam e sejam salvos, então seguirá certamente que a salvação deles não depende deles mesmos.”
[163] E, se for assim, então não temos livre-arbítrio nem quanto à salvação nem quanto à perdição.
[164] Ora, se não fossem as palavras acrescentadas: “Para que talvez se convertam e lhes sejam perdoados os pecados”, poderíamos estar mais inclinados a responder que o Salvador não quis que aqueles indivíduos, que ele previa que não se tornariam bons, entendessem os mistérios do reino dos céus e que, por isso, lhes falou em parábolas; mas, como se segue esse acréscimo — “para que talvez se convertam e lhes sejam perdoados os pecados” — a explicação se torna mais difícil.
[165] E, em primeiro lugar, precisamos notar que defesa essa passagem oferece contra aqueles hereges que costumam procurar no Antigo Testamento quaisquer expressões que, segundo sua visão, pareçam atribuir severidade e crueldade a Deus, o Criador, como quando ele é descrito como sendo movido por vingança ou punição, ou por quaisquer dessas emoções, por mais que sejam nomeadas, a partir das quais negam a existência da bondade no Criador; pois não julgam os evangelhos com a mesma mente e disposição, nem observam se neles se encontram declarações do mesmo tipo daquelas que condenam e censuram no Antigo Testamento.
[166] Porque, manifestamente, na passagem referida, o Salvador é mostrado, como eles próprios admitem, não falando de maneira clara exatamente por esta razão: para que os homens não se convertam e, convertidos, recebam a remissão dos pecados.
[167] Ora, se as palavras forem entendidas apenas segundo a letra, nelas certamente não se conterá nada menos do que naquelas passagens que eles criticam no Antigo Testamento.
[168] E, se eles entendem que algumas expressões do Novo Testamento, ocorrendo em tal contexto, precisam de explicação, seguir-se-á necessariamente que também aquelas ocorridas no Antigo Testamento, que são objeto de censura, podem ser libertadas de acusação por uma explicação semelhante, de modo que, por esse meio, as passagens encontradas em ambos os Testamentos sejam mostradas como procedentes de um mesmo Deus.
[169] Mas voltemos, como pudermos, à questão proposta.
[170] Dissemos anteriormente, ao discutir o caso de Faraó, que às vezes não conduz a bons resultados que um homem seja curado demasiado depressa, especialmente se a enfermidade, fechada nas partes internas do corpo, se enfurecer com maior violência.
[171] Daí que Deus, que conhece as coisas secretas e sabe todas as coisas antes que aconteçam, em sua grande bondade adia a cura de tais pessoas e posterga sua recuperação para tempo mais distante e, por assim dizer, as cura não as curando, para que um estado demasiado favorável de saúde não as torne incuráveis.
[172] É portanto possível que, no caso daqueles aos quais, como sendo os de fora, se dirigiam as palavras de nosso Senhor e Salvador, ele, vendo pelo exame dos corações e dos rins que ainda não estavam aptos a receber ensinamento de tipo mais claro, tenha velado com o revestimento da linguagem o significado dos mistérios mais profundos, para que talvez, sendo rapidamente convertidos e curados, isto é, tendo obtido depressa a remissão dos seus pecados, não recaíssem facilmente na mesma enfermidade que haviam percebido poder ser curada sem dificuldade.
[173] Pois, se assim fosse, ninguém pode duvidar de que a punição seria dobrada e a medida da maldade aumentada; visto que não apenas os pecados que pareciam ter sido perdoados seriam repetidos, mas também o átrio da virtude seria profanado ao ser pisado por seres enganadores e impuros, cheios interiormente de maldade oculta.
[174] E que remédio poderia haver para aqueles que, depois de comer o alimento impuro e imundo da maldade, provaram a doçura da virtude, receberam em sua boca seu sabor agradável e, ainda assim, voltaram novamente à provisão mortal e venenosa do pecado?
[175] E quem duvida de que é melhor que haja demora e abandono temporário, para que, se em algum tempo futuro vierem a se fartar da maldade e a imundícia que agora lhes agrada se torne repugnante, então a palavra de Deus possa enfim ser adequadamente esclarecida para eles, e o que é santo não seja dado aos cães, nem as pérolas lançadas aos porcos, que as pisarão e, além disso, se voltarão e rasgarão e atacarão aqueles que lhes anunciaram a palavra de Deus?
[176] Estes, então, são aqueles que se diz estarem de fora, evidentemente por contraste com os que se diz estarem de dentro e ouvirem a palavra de Deus com maior clareza.
[177] E, no entanto, os que estão de fora ouvem a palavra, embora ela esteja coberta por parábolas e sombreada por provérbios.
[178] Há ainda outros, além dos que estão de fora, que são chamados tírios e que nada ouvem; a respeito deles o Salvador sabia que já há muito se teriam arrependido, sentados em pano de saco e cinza, se os milagres feitos entre outros tivessem sido feitos entre eles; e, contudo, esses não ouvem aquelas coisas que até mesmo os que estão de fora ouvem; e creio, por essa razão, que a condição deles na maldade era muito inferior e pior do que a daqueles que se diz estarem de fora, isto é, daqueles que não estão longe dos que estão de dentro e que mereceram ouvir a palavra, ainda que em parábolas; e porque, talvez, a cura deles foi adiada para aquele tempo em que será mais tolerável para eles no dia do juízo do que para aqueles diante de quem foram realizados os milagres registrados, para que assim, aliviados então do peso dos seus pecados, possam entrar com mais facilidade e resistência no caminho da salvação.
[179] E este é um ponto que desejo ver fixado na mente daqueles que lerem estas páginas: que, a respeito de assuntos de tanta dificuldade e obscuridade, empregamos todo o nosso esforço não tanto para determinar com clareza as soluções das questões — pois cada um o fará conforme o Espírito lhe der expressão —, mas para manter a regra da fé do modo mais inequívoco possível, esforçando-nos por mostrar que a providência de Deus, que administra todas as coisas com equidade, governa também as almas imortais pelos princípios mais justos, conferindo recompensas segundo os méritos e motivos de cada indivíduo; não estando a economia presente das coisas confinada à vida deste mundo, mas fornecendo sempre o estado pré-existente de mérito a base para o estado que se segue, e assim, por uma lei eterna e imutável de equidade e pela influência governante da providência divina, a alma imortal é conduzida ao cume da perfeição.
[180] Se alguém, porém, objetar à nossa afirmação de que a palavra da pregação foi propositalmente deixada de lado para certos homens maus e indignos, e perguntar por que a palavra foi pregada àqueles em comparação com os quais os tírios, certamente menosprezados, são preferidos — pelo que, é claro, a maldade daqueles foi aumentada e sua condenação tornada mais severa, pois ouviram a palavra aqueles que não iriam crer —, deve-se responder da seguinte maneira: Deus, que é o criador das mentes de todos os homens, prevendo queixas contra sua providência, especialmente da parte daqueles que dizem: “Como poderíamos crer, se nem vimos as coisas que outros viram, nem ouvimos as palavras que foram pregadas a outros?”
[181] Nesse sentido, a culpa nos é removida, pois aqueles a quem a palavra foi anunciada e os sinais manifestados não fizeram demora alguma, mas tornaram-se crentes, vencidos pela própria força dos milagres; querendo destruir os fundamentos de queixas desse tipo e mostrar que não foi algum encobrimento da providência divina, mas a determinação da mente humana, a causa da ruína deles, Deus concedeu a graça de seus benefícios até aos indignos e incrédulos, para que toda boca fosse fechada e a mente do homem soubesse que toda a deficiência estava em si mesma, e nenhuma em Deus; e para que, ao mesmo tempo, se entendesse e reconhecesse que recebe sentença mais pesada de condenação aquele que desprezou os benefícios divinos que lhe foram concedidos do que aquele que não mereceu obtê-los nem ouvi-los, e que é característica da compaixão divina, e marca da extrema justiça da sua administração, o fato de que às vezes ela oculta de certos indivíduos a oportunidade de ver ou ouvir os mistérios do poder divino, para que, depois de contemplarem o poder dos milagres e reconhecerem e ouvirem os mistérios da sua sabedoria, não venham, tratando-os com desprezo e indiferença, a ser punidos com maior severidade por sua impiedade.
[182] Consideremos agora a expressão: “Não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia.”
[183] Pois nossos oponentes afirmam que, se não depende de quem quer nem de quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia, que um homem seja salvo, então a nossa salvação não está em nosso próprio poder.
[184] Porque nossa natureza é tal que admite ou sermos salvos ou não, a menos que nossa salvação repouse exclusivamente sobre a vontade daquele que, se quiser, usa de misericórdia e concede salvação.
[185] Perguntemos, então, em primeiro lugar, a tais pessoas, se desejar bênçãos é um ato bom ou mau, e se apressar-se em direção ao bem como fim último é algo digno de louvor.
[186] Se responderem que tal procedimento merece censura, evidentemente estarão loucas; pois todos os santos tanto desejam as bênçãos quanto correm atrás delas, e certamente não são culpáveis por isso.
[187] Como, então, aquele que não é salvo, se é de natureza má, deseja bênçãos e corre atrás delas, mas não as encontra?
[188] Pois eles dizem que uma árvore má não produz bons frutos, ao passo que desejar bênçãos é um bom fruto.
[189] E como pode ser bom o fruto de uma árvore má?
[190] E, se afirmarem que desejar bênçãos e correr atrás delas é um ato indiferente, isto é, nem bom nem mau, responderemos que, se é indiferente desejar bênçãos e correr atrás delas, então o oposto disso também será indiferente, a saber, desejar males e correr atrás deles; ao passo que é certo que não é um ato indiferente desejar males e correr atrás deles, mas algo manifestamente perverso.
[191] Fica estabelecido, então, que desejar e buscar bênçãos não é um procedimento indiferente, mas virtuoso.
[192] Tendo agora repelido essas objeções pela resposta que demos, avancemos para a discussão do assunto em si, no qual se diz: “Não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia.”
[193] No livro dos Salmos — nos Cânticos dos Degraus, atribuídos a Salomão — ocorre a seguinte declaração: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.”
[194] Com essas palavras ele não quer dizer, de fato, que devamos deixar de edificar ou de guardar com vigilância a segurança daquela cidade que está em nós; mas o que ele aponta é isto: tudo o que é construído sem Deus é edificado em vão, e tudo o que é guardado sem ele é guardado inutilmente.
[195] Pois, em todas as coisas bem edificadas e bem protegidas, o Senhor é considerado a causa tanto da edificação quanto da proteção.
[196] Como se, por exemplo, contemplássemos alguma estrutura magnífica e uma massa esplêndida de edifício levantada com bela habilidade arquitetônica, não diríamos justa e merecidamente que tal obra foi construída não pelo poder humano, mas pelo auxílio e poder divinos?
[197] E, no entanto, por tal afirmação não se quer dizer que o trabalho e a diligência do esforço humano tenham estado inativos e não tenham produzido nada.
[198] Ou ainda, se víssemos uma cidade cercada por um duro bloqueio do inimigo, contra cujas muralhas fossem trazidas máquinas ameaçadoras, o lugar duramente apertado por trincheiras, armas, fogo e todos os instrumentos de guerra com que se prepara a destruição, não diríamos com razão e merecidamente, se o inimigo fosse repelido e posto em fuga, que a libertação daquela cidade fora realizada por Deus?
[199] E, no entanto, ao dizer isso, não quereríamos significar que faltaram a vigilância das sentinelas, a prontidão dos jovens ou a proteção dos guardas.
[200] E o apóstolo também deve ser entendido de maneira semelhante, porque a vontade humana, sozinha, não é suficiente para alcançar a salvação; nem a corrida de qualquer mortal é capaz de ganhar os prêmios celestiais e obter o prêmio da nossa sublime vocação de Deus em Cristo Jesus, a menos que essa mesma boa vontade nossa, esse propósito pronto e toda a diligência que possa haver em nós sejam ajudados e supridos pelo auxílio divino.
[201] E, por isso, com grande lógica o apóstolo disse que “não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia”, do mesmo modo como se disséssemos da agricultura o que está realmente escrito: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.”
[202] “De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.”
[203] Assim como, portanto, quando um campo produz colheitas boas e ricas em plena maturidade, ninguém diria piedosa e logicamente que foi o lavrador quem produziu esses frutos, mas reconheceria que eles foram produzidos por Deus, assim também a nossa própria perfeição é alcançada não por permanecermos inativos e ociosos, mas por haver alguma atividade de nossa parte; e, contudo, a consumação dela não será atribuída a nós, mas a Deus, que é a primeira e principal causa da obra.
[204] Do mesmo modo, quando um navio vence os perigos do mar, embora o resultado seja alcançado por grande trabalho dos marinheiros, pela ajuda de toda a arte da navegação, pelo zelo e cuidado do piloto, pela influência favorável dos ventos e pela observação atenta dos sinais das estrelas, ninguém em seu juízo perfeito atribuiria a segurança da embarcação, depois de ser lançada de um lado para outro pelas ondas e fatigada pelos vagalhões, quando enfim alcança o porto em segurança, a qualquer outra coisa senão à misericórdia de Deus.
[205] Nem mesmo os marinheiros ou o piloto ousam dizer: “Eu salvei o navio”; ao contrário, atribuem tudo à misericórdia de Deus; não porque sintam que não contribuíram com habilidade ou trabalho algum para salvar a embarcação, mas porque sabem que, embora tenham contribuído com o trabalho, a segurança do navio foi assegurada por Deus.
[206] Assim também, na corrida da nossa vida, nós mesmos devemos empenhar trabalho e aplicar diligência e zelo; mas é de Deus que se deve esperar a salvação como fruto do nosso labor.
[207] De outra forma, se Deus não exigir nenhum trabalho nosso, seus mandamentos parecerão supérfluos.
[208] Em vão também Paulo censura alguns por terem caído da verdade e louva outros por permanecerem na fé; e sem propósito algum ele entrega certos preceitos e instituições às Igrejas; em vão também nós mesmos desejamos ou corremos atrás do que é bom.
[209] Mas é certo que essas coisas não são feitas em vão; e é certo que nem os apóstolos dão instruções inutilmente, nem o Senhor estabelece leis sem razão.
[210] Segue-se, portanto, que é em vão, antes, que os hereges falem mal dessas boas declarações.
[211] Depois disso vem o ponto segundo o qual querer e realizar são de Deus.
[212] Nossos oponentes sustentam que, se o querer é de Deus e o agir é dele, ou se, quer ajamos ou desejemos bem ou mal, isso vem de Deus, então nesse caso não possuímos livre-arbítrio.
[213] Ora, a isso devemos responder que as palavras do apóstolo não dizem que querer o mal é de Deus, nem que querer o bem seja dele; nem que fazer o bem ou o mal seja de Deus; sua afirmação é geral: querer e realizar são de Deus.
[214] Pois, assim como temos de Deus esta própria condição de sermos homens, de respirarmos e de nos movermos, também temos de Deus a faculdade pela qual queremos, como se disséssemos que nosso poder de movimento vem de Deus, ou que o desempenho dessas funções pelos membros individuais, bem como seus movimentos, vem de Deus.
[215] Disso, certamente, não entendo que, porque a mão se move, por exemplo, para punir injustamente ou para cometer um roubo, o ato seja de Deus; mas apenas que o poder de movimento vem de Deus, enquanto a nós compete dirigir esses movimentos, cujo poder de execução recebemos de Deus, para fins bons ou maus.
[216] E assim, o que o apóstolo diz é que recebemos, de fato, o poder de querer, mas fazemos mau uso da vontade, seja para bons, seja para maus desejos.
[217] De modo semelhante, também devemos julgar os resultados.
[218] Mas, quanto à declaração do apóstolo: “Logo, ele tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer.”
[219] Dirás então: “Por que ainda se queixa ele?”
[220] “Pois quem resistiu à sua vontade?”
[221] “Mas, ó homem, quem és tu que contestas a Deus?”
[222] “Acaso a coisa formada dirá ao que a formou: por que me fizeste assim?”
[223] “Não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?”
[224] Talvez alguém diga que, assim como o oleiro faz da mesma massa alguns vasos para honra e outros para desonra, também Deus cria alguns homens para perdição e outros para salvação; e que, por isso, não está em nosso poder salvar-nos ou perecer, raciocínio pelo qual parecemos não possuir livre-arbítrio.
[225] Devemos responder aos que pensam assim com a seguinte pergunta: é possível que o apóstolo se contradiga?
[226] E, se isso não pode ser imaginado a respeito de um apóstolo, como então ele parecerá, segundo eles, ser justo ao censurar os que praticaram fornicação em Corinto, ou aqueles que pecaram e não se arrependeram da impureza, da fornicação e da imundícia que cometeram?
[227] E como também louva grandemente os que agiram retamente, como a casa de Onesíforo, dizendo: “O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me recreou e não se envergonhou da minha cadeia; antes, tendo chegado a Roma, procurou-me diligentemente e me encontrou.”
[228] “O Senhor lhe conceda que naquele dia encontre misericórdia junto do Senhor.”
[229] Ora, não é compatível com a gravidade apostólica censurar aquele que merece censura, isto é, aquele que pecou, e louvar grandemente aquele que merece louvor por suas boas obras e, ao mesmo tempo, como se não estivesse no poder de ninguém fazer bem ou mal, dizer que era obra do Criador que cada um agisse virtuosa ou perversamente, já que ele faz um vaso para honra e outro para desonra.
[230] E como pode ele acrescentar aquela declaração: “Todos nós devemos comparecer diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba, por meio do corpo, segundo o que tiver feito, seja bem, seja mal?”
[231] Pois que recompensa de bem será conferida àquele que não podia praticar o mal, tendo sido formado pelo Criador exatamente para esse fim?
[232] Ou que punição merecida será infligida àquele que era incapaz de fazer o bem em consequência do ato criador do seu Maker?
[233] Então, novamente, como isso não se opõe à outra declaração em outro lugar, de que numa grande casa há não apenas vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro, e uns para honra e outros para desonra?
[234] “Se, pois, alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e útil ao serviço do Mestre, preparado para toda boa obra.”
[235] Aquele, portanto, que se purifica torna-se vaso para honra, enquanto aquele que desdenhou limpar-se da sua impureza torna-se vaso para desonra.
[236] A partir de tais declarações, em minha opinião, a causa de nossas ações de modo algum pode ser atribuída ao Criador.
[237] Pois Deus, o Criador, faz um certo vaso para honra e outros vasos para desonra; mas aquele vaso que se purificou de toda impureza ele faz vaso para honra, enquanto aquele que se manchou com a sujeira do vício ele faz vaso para desonra.
[238] A conclusão disso, portanto, é esta: a causa das ações de cada um é anterior; e então cada um, segundo seus merecimentos, é feito por Deus vaso para honra ou para desonra.
[239] Portanto, cada vaso individual forneceu ao seu Criador, a partir de si mesmo, as causas e ocasiões de ter sido formado por ele para ser vaso para honra ou vaso para desonra.
[240] E, se essa afirmação parece correta, como certamente é, e em harmonia com toda piedade, que é devido a causas anteriores que cada vaso seja preparado por Deus para honra ou para desonra, não parece absurdo que, ao discutirmos causas mais remotas na mesma ordem e do mesmo modo, cheguemos à mesma conclusão a respeito da natureza das almas e creiamos que esta foi a razão por que Jacó foi amado antes de nascer neste mundo, e Esaú odiado enquanto ainda estava contido no ventre de sua mãe.
[241] Na verdade, essa mesma declaração de que da mesma massa se forma um vaso para honra e outro para desonra não nos pressiona muito; pois afirmamos que a natureza de todas as almas racionais é a mesma, assim como uma mesma massa de barro é descrita como estando sob o trabalho do oleiro.
[242] Sendo, então, una a natureza das criaturas racionais, Deus, segundo fundamentos anteriores de mérito, criou e formou a partir dela, como o oleiro a partir da mesma massa, algumas pessoas para honra e outras para desonra.
[243] Ora, quanto à linguagem do apóstolo, que ele pronuncia como em tom de censura — “Mas, ó homem, quem és tu que contestas a Deus?” —, ele quer dizer, penso eu, que tal censura não se refere a qualquer crente que vive reta e justamente e que tem confiança em Deus, isto é, a alguém como Moisés, de quem a escritura diz que Moisés falou e Deus lhe respondeu com voz; e, assim como Deus respondeu a Moisés, também todo santo responde a Deus.
[244] Mas aquele que é incrédulo e perde a confiança de responder diante de Deus por causa da indignidade de sua vida e conduta, e que, em relação a essas coisas, não busca aprender e progredir, mas opor-se e resistir, e que, para falar mais claramente, é tal que pode dizer as palavras indicadas pelo apóstolo quando diz: “Por que, então, ainda se queixa ele?”
[245] “Pois quem resistirá à sua vontade?” A esse tal pode ser justamente dirigida a censura do apóstolo: “Mas, ó homem, quem és tu que contestas a Deus?”
[246] Essa censura, portanto, aplica-se não aos crentes e santos, mas aos incrédulos e aos maus.
[247] Ora, àqueles que introduzem almas de diferentes naturezas e torcem essa declaração do apóstolo em apoio à sua própria opinião, devemos responder assim: se até mesmo eles concordam com o que o apóstolo diz, que da mesma massa são formados tanto os que são feitos para honra quanto os que são feitos para desonra, a quem eles chamam de natureza destinada à salvação e à destruição, então já não haverá almas de naturezas diferentes, mas uma só natureza para todos.
[248] E, se admitem que um mesmo oleiro pode certamente designar um só Criador, não haverá criadores diferentes nem dos que são salvos nem dos que perecem.
[249] Na verdade, deixem que escolham se querem entender um bom Criador que cria homens maus e arruinados, ou um que não é bom, que cria homens bons e aqueles preparados para honra.
[250] Pois a necessidade de responder os forçará a uma dessas duas alternativas.
[251] Mas, segundo a nossa declaração, pela qual dizemos que é em virtude de causas anteriores que Deus faz vasos para honra ou para desonra, a aprovação da justiça de Deus de forma alguma fica limitada.
[252] Pois é possível que esse vaso, que por causas anteriores foi feito neste mundo para honra, se comportando negligentemente, seja convertido em outro mundo, segundo os méritos de sua conduta, em vaso para desonra; assim como, por outro lado, se alguém, por causas anteriores, foi formado por seu Criador nesta vida como vaso para desonra, e corrigir seus caminhos e se purificar de toda sujeira e vício, poderá, no novo mundo, ser feito vaso para honra, santificado, útil e preparado para toda boa obra.
[253] Finalmente, aqueles que foram formados por Deus neste mundo para serem israelitas e viveram uma vida indigna da nobreza de sua raça, caindo da grandeza da sua descendência, serão, no mundo vindouro, em certa medida convertidos, por causa de sua incredulidade, de vasos de honra em vasos de desonra; enquanto, por outro lado, muitos que nesta vida foram contados entre vasos egípcios ou idumeus, tendo adotado a fé e a prática dos israelitas, quando tiverem feito as obras dos israelitas e entrado na Igreja do Senhor, existirão como vasos de honra na revelação dos filhos de Deus.
[254] Daí é mais conforme à regra da piedade crer que todo ser racional, segundo seu propósito e modo de vida, converte-se às vezes do mal para o bem e às vezes cai do bem para o mal; que alguns permanecem no bem, enquanto outros avançam para uma condição melhor e sempre ascendem a coisas mais elevadas até alcançarem o mais alto grau de todos; enquanto outros, por sua vez, permanecem no mal ou, se a maldade dentro deles começar a se expandir mais, descem para uma condição pior e afundam até a profundidade extrema da maldade.
[255] Daí também devemos supor ser possível que haja alguns que começaram, de fato, com pequenas faltas, mas derramaram tanta maldade e alcançaram tamanha proficiência no mal que, na medida da sua perversidade, se igualam até mesmo às potências contrárias; e, novamente, se por meio de muitas severas administrações de punição forem capazes em algum tempo futuro de recobrar o juízo e começar gradualmente a buscar cura para suas feridas, poderão, cessando sua maldade, ser restaurados a um estado de bondade.
[256] Daí somos da opinião de que, visto que a alma, como frequentemente dissemos, é imortal e eterna, é possível que, nos muitos e intermináveis períodos de duração, nos mundos imensuráveis e diferentes, ela desça do bem supremo ao mal extremo, ou seja restaurada do mal extremo ao bem supremo.
[257] Mas, como as palavras do apóstolo, quando diz a respeito dos vasos de honra ou de desonra que, “se alguém se purificar, será vaso para honra, santificado e útil ao serviço do Mestre, preparado para toda boa obra”, parecem nada colocar no poder de Deus, mas tudo em nós; enquanto, naquelas em que declara que o oleiro tem poder sobre o barro para fazer da mesma massa um vaso para honra e outro para desonra, parece referir tudo a Deus — não se deve entender que essas afirmações sejam contraditórias, mas os dois sentidos devem ser harmonizados, e de ambos se deve extrair um único significado, a saber: que não devemos supor nem que aquelas coisas que estão em nosso poder possam ser feitas sem a ajuda de Deus, nem que aquelas que estão na mão de Deus possam ser levadas a termo sem a intervenção de nossos atos, desejos e intenção; porque não está em nosso poder querer ou fazer qualquer coisa sem saber que essa própria faculdade, pela qual somos capazes de querer ou de fazer, nos foi concedida por Deus, segundo a distinção que indicamos acima.
[258] Ou, ainda, quando Deus forma vasos, uns para honra e outros para desonra, devemos supor que ele não considera nossas vontades, nossos propósitos ou nossos méritos como se fossem as causas da honra ou da desonra, como se fossem uma espécie de matéria da qual pudesse formar o vaso de cada um de nós, seja para honra, seja para desonra; ao passo que o próprio movimento da alma ou o propósito do entendimento pode, por si mesmo, sugerir àquele que não desconhece seu coração e os pensamentos de sua mente se o seu vaso deve ser formado para honra ou para desonra.
[259] Mas bastem estes pontos, que discutimos como melhor pudemos, a respeito das questões ligadas à liberdade da vontade.

