Arquivo de Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne - VCirculi https://vcirculi.com/category/volumina-pergaminhos/adjuncta-estao-ao-lado/tertuliano/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne/ Corpus et Sanguis Christi Wed, 18 Mar 2026 22:51:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://vcirculi.com/wp-content/uploads/2025/07/cropped-et5t-Copia-32x32.png Arquivo de Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne - VCirculi https://vcirculi.com/category/volumina-pergaminhos/adjuncta-estao-ao-lado/tertuliano/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne/ 32 32 Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne/ Wed, 18 Mar 2026 22:51:33 +0000 https://vcirculi.com/?p=38218 O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 24 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-24/ Wed, 18 Mar 2026 22:27:48 +0000 https://vcirculi.com/?p=38403 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 24 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] Mas vede com quanta insistência eles ainda acumulam suas objeções contra a carne, especialmente contra a sua identidade, tirando argumentos até mesmo das funções de nossos membros; de um lado, dizendo que estes deveriam continuar perpetuamente em seus trabalhos e fruições, como apêndices da mesma estrutura corpórea; e, de outro, sustentando que, visto que as funções dos membros um dia terão fim, a própria estrutura corporal deve ser destruída, sendo considerada tão inconcebível a sua permanência sem seus membros, quanto a dos próprios membros sem suas funções.

[2] Perguntam eles: de que servirá então a cavidade da nossa boca, e suas fileiras de dentes, e a passagem da garganta, e o caminho do estômago, e o abismo do ventre, e o tecido entrelaçado das entranhas, quando já não houver lugar para comer e beber?

[3] Que mais haverá para esses membros receberem, mastigarem, engolirem, separarem, digerirem e expelirem?

[4] De que valerão até mesmo nossas mãos, pés e todos os membros destinados ao trabalho, quando cessar todo cuidado com o alimento?

[5] Que propósito poderão ter os lombos, conscientes das secreções seminais, e todos os demais órgãos de geração, em ambos os sexos, e os receptáculos dos embriões, e as fontes do seio, quando cessarem o concubinato, a gravidez e o cuidado dos infantes?

[6] Em suma, de que servirá o corpo inteiro, quando o corpo inteiro se tornar inútil?

[7] Em resposta a tudo isso, já estabelecemos antes o princípio de que a ordem da condição futura não deve ser comparada com a deste mundo presente, e que, no intervalo entre uma e outra, ocorrerá uma mudança.

[8] Agora acrescentamos esta observação: as funções desses membros do nosso corpo continuarão suprindo as necessidades desta vida até o momento em que a própria vida passar do tempo à eternidade, assim como o corpo natural cede lugar ao espiritual, até que isto que é mortal se revista de imortalidade, e isto que é corruptível se revista de incorruptibilidade.

[9] Assim, quando a própria vida estiver liberta de todas as necessidades, nossos membros também estarão livres de seus serviços e, portanto, já não serão necessários para isso.

[10] Ainda assim, embora libertos de seus ofícios, eles serão preservados para o juízo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo.

[11] Pois o tribunal de Deus exige que o homem seja conservado inteiro.

[12] Contudo, ele não pode ser inteiro sem seus membros, de cuja substância, e não das funções, ele consiste; a menos, é claro, que se queira ousadamente sustentar que um navio é perfeito sem a quilha, sem a proa, sem a popa e sem a solidez de toda a sua estrutura.

[13] E, no entanto, quantas vezes temos visto o mesmo navio, depois de despedaçado pela tempestade e arruinado pela deterioração, com toda a sua madeira reparada e restaurada, voltar a singrar as ondas com toda a beleza de uma construção renovada!

[14] Havemos, então, de nos inquietar com dúvidas acerca da habilidade, da vontade e dos direitos de Deus?

[15] Além disso, se um rico armador, que não poupa dinheiro apenas por prazer ou ostentação, conserta completamente seu navio e depois decide que ele não fará mais viagens, sustentarás ainda assim que a antiga forma e acabamento já não são necessários à embarcação, embora ela não se destine mais ao serviço efetivo, quando a própria segurança do navio exige essa integridade independentemente do uso?

[16] A única questão, portanto, que basta considerarmos aqui é se o Senhor, ao ordenar a salvação para o homem, a destina também à sua carne; se é vontade dele que essa mesma carne seja renovada.

[17] Se assim é, será impróprio concluíres, a partir da inutilidade de seus membros no estado futuro, que a carne será incapaz de renovação.

[18] Pois uma coisa pode ser renovada e, ainda assim, ser inútil por não ter nada a fazer; mas não se pode dizer que seja inútil aquilo que sequer existe.

[19] Se, de fato, ela existe, então será perfeitamente possível também que não seja inútil; pode muito bem ter algo a fazer, pois na presença de Deus não haverá ociosidade.

[20] Ora, tu recebeste a tua boca, ó homem, para devorar o alimento e beber a bebida; por que, porém, não a receberias para um propósito mais elevado, o de proferir palavras, distinguindo-te assim de todos os outros animais?

[21] Por que não, antes, para pregar o evangelho de Deus, a fim de que te tornes até mesmo sacerdote e defensor dele diante dos homens?

[22] Adão, de fato, deu seus respectivos nomes aos animais antes de colher o fruto da árvore; antes de comer, ele profetizou.

[23] Recebeste também os dentes para o consumo da refeição; por que não, antes, para cercar a boca com a defesa conveniente em cada uma de suas aberturas, pequenas ou grandes?

[24] E por que não também para moderar os impulsos da língua e guardar a fala articulada contra falha e violência?

[25] Digo-te, caso não saibas, que há pessoas sem dentes no mundo.

[26] Olha para elas e pergunta se até mesmo uma arcada de dentes não é honra para a boca.

[27] Existem aberturas nas regiões inferiores do homem e da mulher, por meio das quais, sem dúvida, satisfazem suas paixões animais; mas por que não são consideradas, antes, como saídas para a descarga limpa dos fluidos naturais?

[28] As mulheres, além disso, possuem dentro de si receptáculos onde a semente humana pode se recolher; mas não foram eles também destinados à eliminação daqueles fluxos sanguíneos que seu sexo, mais tardio e mais fraco, não consegue dispersar adequadamente?

[29] Pois até detalhes como estes precisam ser mencionados, visto que os hereges escolhem as partes do nosso corpo que lhes convêm, tratam-nas sem pudor e, conforme lhes dita o capricho, derramam torrentes de escárnio e desprezo sobre as funções naturais de nossos membros, com o propósito de derrubar a ressurreição e de nos fazer corar diante de suas zombarias.

[30] Não refletem eles que, antes que cessem as funções, as próprias causas delas já terão desaparecido.

[31] Não haverá mais comida, porque não haverá mais fome.

[32] Não haverá mais bebida, porque não haverá mais sede.

[33] Não haverá mais concubinato, porque não haverá mais geração de filhos.

[34] Não haverá mais comer e beber, porque não haverá mais labor nem fadiga.

[35] A morte também cessará; assim, não haverá mais necessidade do sustento do alimento para a defesa da vida, nem os membros das mães terão de ser sobrecarregados para a reposição de nossa raça.

[36] Mas, mesmo na vida presente, pode haver suspensão do ofício do estômago e dos órgãos geradores.

[37] Pois, durante quarenta dias, Moisés e Elias jejuaram e viveram somente de Deus.

[38] Já então estava consagrado o princípio: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”.

[39] Vede aqui os tênues contornos de nossa força futura.

[40] Nós mesmos, na medida do possível, dispensamos nossa boca do alimento e afastamos nossos sexos da união.

[41] Quantos eunucos voluntários existem!

[42] Quantas virgens desposadas com Cristo!

[43] Quantos homens e mulheres a própria natureza tornou estéreis, com uma constituição incapaz de procriar!

[44] Ora, se mesmo aqui na terra tanto as funções quanto os prazeres de nossos membros podem ser suspensos, numa interrupção que, como a própria dispensação, só pode ser temporária, e ainda assim a segurança do homem permanece intacta, quanto mais, quando sua salvação estiver assegurada e especialmente numa dispensação eterna, deixaremos de desejar aquelas coisas cujo anseio, já aqui embaixo, não nos é estranho refrear.

[45] A esta discussão, porém, a declaração do nosso Senhor põe fim de modo eficaz: “Serão”, diz ele, “iguais aos anjos”.

[46] Assim como não se casarão, por não morrerem, também, evidentemente, não terão de ceder a qualquer necessidade semelhante do nosso estado corpóreo.

[47] Do mesmo modo, os anjos, por vezes, se tornaram semelhantes aos homens, ao comer e beber e ao submeterem seus pés à lavagem, tendo-se revestido de figura humana sem perda de sua própria natureza essencial.

[48] Se, portanto, os anjos, quando se tornaram como homens, submeteram sua substância espiritual inalterada a ser tratada como se fosse carne, por que não poderão os homens, da mesma forma, quando se tornarem iguais aos anjos, experimentar em sua substância carnal inalterada o tratamento próprio de seres espirituais?

[49] Não estarão mais expostos às solicitações habituais da carne em sua condição angélica, assim como os anjos outrora não ficaram expostos às condições do espírito quando estavam cercados de forma humana.

[50] Portanto, não deixaremos de continuar na carne porque deixaremos de ser importunados pelas necessidades comuns da carne, assim como os anjos não deixaram de permanecer em sua substância espiritual por causa da suspensão de seus estados espirituais.

[51] Por fim, Cristo não disse: “Serão anjos”, para não abolir sua existência como homens.

[52] Mas disse: “Serão iguais aos anjos”, para preservar intacta a humanidade deles.

[53] Ao atribuir à carne uma semelhança angélica, ele não lhe retirou a própria substância.

[54] E assim a carne ressurgirá novamente, inteira em cada homem, na sua própria identidade, em sua integridade absoluta.

[55] Onde quer que ela esteja, encontra-se guardada em segurança na presença de Deus, por meio daquele fidelíssimo Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus.

[56] Ele reconciliará Deus com o homem e o homem com Deus; o espírito com a carne e a carne com o espírito.

[57] Ambas as naturezas ele já uniu em si mesmo.

[58] Ele as ajustou uma à outra como noiva e noivo no vínculo recíproco da vida conjugal.

[59] Ora, se alguém insistir em fazer da alma a noiva, então a carne seguirá a alma como seu dote.

[60] A alma jamais será uma excluída, levada para a casa do esposo nua e despojada.

[61] Ela possui seu dote, seu enxoval, sua riqueza na carne, que a acompanhará com o amor e a fidelidade de uma irmã de criação.

[62] Mas suponhamos que a carne seja a noiva.

[63] Então, em Cristo Jesus, ela recebeu, no pacto do seu sangue, o Espírito dele como esposo.

[64] Ora, aquilo que tomas por extinção dela, podes ter certeza de que é apenas sua retirada temporária.

[65] Não é só a alma que se afasta da vista.

[66] A carne também tem suas partidas por algum tempo: nas águas, nos fogos, nas aves, nas feras.

[67] Ela pode parecer dissolvida neles, mas apenas foi derramada neles, como em vasos.

[68] E, se depois os próprios vasos deixarem de retê-la, escapando até mesmo deles e retornando à sua mãe terra, ela é mais uma vez absorvida, por assim dizer, em seus abraços secretos.

[69] Por fim, ela tornará a apresentar-se à vista, como Adão quando foi chamado para ouvir de seu Senhor e Criador as palavras: “Eis que o homem se tornou como um de nós”.

[70] Então ela conhecerá plenamente o mal de que escapou e o bem que adquiriu.

[71] Por que, então, ó alma, invejarias a carne?

[72] Não há ninguém, depois do Senhor, a quem devas amar tão ternamente.

[73] Ninguém é mais semelhante a um irmão para ti, pois ela até mesmo nasceu contigo em Deus.

[74] Antes, deverias por tuas orações estar buscando a ressurreição para ela; os pecados dela, quaisquer que tenham sido, eram devidos a ti.

[75] Contudo, não é de admirar que a odeies, pois repudiaste o Criador dela.

[76] Acostumaste-te ou a negar ou a alterar sua existência até mesmo em Cristo, corrompendo a própria Palavra de Deus, que se fez carne, seja mutilando, seja interpretando mal a Escritura, e introduzindo, acima de tudo, mistérios apócrifos e fábulas blasfemas.

[77] Mas, ainda assim, o Deus Todo-Poderoso, em sua graciosíssima providência, derramando de seu Espírito nestes últimos dias sobre toda carne, sobre seus servos e sobre suas servas, refreou esses enganos da incredulidade e da perversidade.

[78] Ele reanimou a fé vacilante dos homens na ressurreição da carne e removeu toda obscuridade e ambiguidade das antigas Escrituras de ambos os Testamentos de Deus, pela clara luz de suas palavras e sentidos sagrados.

[79] Ora, visto que era necessário que houvesse heresias, para que se manifestassem os aprovados, e visto também que essas heresias não poderiam se apresentar com ousadia sem algum respaldo das Escrituras, fica suficientemente claro que a antiga Sagrada Escritura lhes forneceu diversos materiais para sua má doutrina.

[80] Esses mesmos materiais, porém, assim distorcidos, são refutáveis pelas próprias Escrituras.

[81] Era, portanto, conveniente e apropriado que o Espírito Santo não mais retivesse as efusões de sua graciosa luz sobre esses escritos inspirados, para que eles pudessem difundir as sementes da verdade sem mistura de sutilezas heréticas e arrancar delas o joio.

[82] Assim, ele agora dissipou todas as perplexidades do passado, bem como suas alegorias e parábolas escolhidas por vontade própria, mediante a explicação aberta e clara de todo o mistério, por meio da nova profecia que desce em abundantes correntes do Paráclito.

[83] Se apenas beberes água de suas fontes, nunca mais terás sede de outra doutrina.

[84] Nenhum desejo febril por questões sutis voltará a consumir-te.

[85] Antes, bebendo cada vez mais da ressurreição da carne, ficarás satisfeito com seus refrigérios renovadores.

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 24 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 23 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-23/ Wed, 18 Mar 2026 22:25:23 +0000 https://vcirculi.com/?p=38395 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 23 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] Chegamos agora à objeção mais comum da incredulidade. Dizem eles: se é de fato a mesmíssima substância que é chamada de volta à vida com toda a sua forma, traços e qualidades, então por que não com todas as suas outras características também?

[2] Então o cego, o coxo, o paralítico, e qualquer outro que tenha morrido com alguma marca evidente, retornará novamente do mesmo modo.

[3] Mas qual é, afinal, a realidade, embora vós, na grandeza de vossa presunção, desdenheis receber de Deus uma graça tão imensa?

[4] Não acontece que, quando admitis agora a salvação somente da alma, a atribuís aos homens ao custo de metade de sua natureza?

[5] De que adianta crer na ressurreição, se a vossa fé não abrange o todo dela?

[6] Se a carne deve ser reparada após sua dissolução, muito mais será restaurada após alguma lesão violenta.

[7] Os casos maiores estabelecem regra para os menores.

[8] Acaso a amputação ou o esmagamento de um membro não é a morte desse membro?

[9] Ora, se a morte da pessoa inteira é revogada por sua ressurreição, que devemos dizer da morte de uma parte dela?

[10] Se somos transformados para a glória, quanto mais o seremos para a integridade!

[11] Qualquer perda sofrida por nossos corpos é acidental, mas sua integridade é sua propriedade natural.

[12] Nessa condição nascemos.

[13] Mesmo se formos lesionados no ventre, isso é perda sofrida por aquilo que já é um ser humano.

[14] A condição natural vem antes da lesão.

[15] Assim como a vida é dada por Deus, assim também é por Ele restaurada.

[16] Como somos quando a recebemos, assim somos quando a recuperamos.

[17] Somos restaurados à natureza, não à lesão; levantamo-nos de novo ao nosso estado de nascimento, não à nossa condição produzida por acidente.

[18] Se Deus não ressuscita os homens por inteiro, então não ressuscita os mortos.

[19] Pois que morto está inteiro, ainda que tenha morrido inteiro?

[20] Quem está sem dano, isto é, sem vida?

[21] Que corpo está ileso, quando está morto, quando está frio, quando está lívido, quando está rígido, quando é um cadáver?

[22] Quando está um homem mais enfermo do que quando está inteiramente enfermo?

[23] Quando mais paralisado do que quando está completamente sem movimento?

[24] Assim, que um morto seja ressuscitado equivale precisamente a ser restaurado à sua condição integral — para que não continue, por assim dizer, ainda morto naquela parte na qual não ressuscitou.

[25] Deus é plenamente capaz de refazer aquilo que uma vez fez.

[26] Esse poder e essa graça sem medida Ele já garantiu suficientemente em Cristo; e mostrou-Se a nós, n’Ele, não só como restaurador da carne, mas também como reparador de suas rupturas.

[27] E assim diz o apóstolo: “Os mortos ressuscitarão incorruptíveis” (ou íntegros). 1 Coríntios 15:52.

[28] Mas como assim, se não se tornam inteiros aqueles que se consumiram quer pela perda da saúde, quer pela longa decrepitude do sepulcro?

[29] Pois, quando ele apresenta as duas proposições, que “isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade” e que “isto que é mortal se revista da imortalidade”, 1 Coríntios 15:53, ele não repete a mesma afirmação, mas expõe uma distinção.

[30] Porque, ao atribuir a imortalidade à reversão da morte, e a incorruptibilidade ao reparo do corpo desgastado, ele adequou uma à ressurreição e a outra à recuperação do corpo.

[31] Suponho, além disso, que ele promete aos tessalonicenses a integridade de toda a substância do homem.

[32] De modo que, para o grande futuro, não há motivo para temer corpos manchados ou defeituosos.

[33] A integridade, quer resulte de preservação, quer de restauração, nada mais poderá perder, depois do momento em que lhe tiver sido devolvido tudo o que havia perdido.

[34] Ora, quando sustentais que a carne ainda terá de padecer os mesmos sofrimentos, se a mesma carne deve ressurgir, vós apressadamente levantais a natureza contra o seu Senhor, e impiamente colocais sua lei em contraste com a graça d’Ele; como se não fosse permitido ao Senhor Deus tanto mudar a natureza quanto preservá-la, sem sujeição a uma lei.

[35] Como é, então, que lemos: “Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo é possível”? Mateus 19:26.

[36] E ainda: “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar as sábias.” 1 Coríntios 1:27.

[37] Deixai-me perguntar-vos: se libertardes vosso escravo — visto que a mesma carne e alma permanecerão nele, as quais antes estiveram expostas ao açoite, aos grilhões e às varas — será por isso apropriado que ele sofra de novo os mesmos padecimentos de outrora?

[38] Penso que não.

[39] Em vez disso, ele é honrado com a graça da veste branca, com o favor do anel de ouro, e com o nome, a tribo e até a mesa de seu patrono.

[40] Dai, pois, a Deus a mesma prerrogativa: a de, por força de tal mudança, reformar nossa condição, não nossa natureza, removendo dela todos os sofrimentos e cercando-a com salvaguardas de proteção.

[41] Assim, nossa carne permanecerá mesmo após a ressurreição — de fato ainda suscetível de sofrimento, enquanto é carne, e a mesma carne; mas ao mesmo tempo impassível, visto que foi libertada pelo Senhor precisamente para este fim e propósito: não mais ser capaz de suportar sofrimento.

[42] “Alegria eterna”, diz Isaías, “estará sobre a cabeça deles.” Isaías 35:10.

[43] Ora, nada é eterno antes da ressurreição.

[44] E “a tristeza e o gemido”, continua ele, “fugirão”.

[45] O anjo ecoa o mesmo a João: “E Deus limpará de seus olhos toda lágrima.” Apocalipse 7:17.

[46] Dos mesmos olhos, sem dúvida, que antes choravam, e que poderiam voltar a chorar, se a bondade de Deus não secasse toda fonte de lágrimas.

[47] E novamente: “Deus limpará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte.” Apocalipse 21:4.

[48] E, portanto, também não haverá mais corrupção, pois ela será expulsa pela incorruptibilidade, assim como a morte o é pela imortalidade.

[49] Se a tristeza, o luto, o gemido e a própria morte nos assaltam por meio das aflições tanto da alma quanto do corpo, como serão removidos, senão pela cessação de suas causas, isto é, das aflições da carne e da alma?

[50] Onde encontrareis adversidades na presença de Deus?

[51] Onde, incursões do inimigo no seio de Cristo?

[52] Onde, ataques do diabo diante da face do Espírito Santo? — agora que o próprio diabo e seus anjos são lançados no lago de fogo.

[53] Onde agora está a necessidade, e aquilo que chamam sorte ou destino?

[54] Que praga aguarda os redimidos da morte, depois do seu perdão eterno?

[55] Que ira há para os reconciliados, depois da graça?

[56] Que fraqueza, depois de renovadas as suas forças?

[57] Que risco e perigo, depois de sua salvação?

[58] Que as vestes e as sandálias dos filhos de Israel tenham permanecido sem se gastar e novas pelo espaço de quarenta anos; Deuteronômio 29:5.

[59] Que, em suas próprias pessoas, o exato ponto de conveniência e decoro tenha contido o crescimento excessivo de suas unhas e cabelos, para que qualquer excesso nisso não fosse atribuído à indecência.

[60] Que o fogo da Babilônia não tenha danificado nem os turbantes nem as calças dos três irmãos, por mais estrangeira que tal vestimenta pudesse parecer aos judeus. Daniel 3:27.

[61] Que Jonas tenha sido engolido pelo monstro do abismo, em cujo ventre navios inteiros eram devorados, e depois de três dias tenha sido vomitado novamente são e salvo.

[62] Que Enoque e Elias, os quais ainda agora, sem experimentar uma ressurreição — porque nem sequer provaram a morte — estejam aprendendo em plenitude o que é para a carne ser isenta de toda humilhação, de toda perda, de toda lesão e de toda vergonha, tendo sido trasladados deste mundo e já sendo, por essa mesma razão, candidatos à vida eterna.

[63] A que fé dão testemunho esses fatos notáveis, senão àquela que deve inspirar em nós a convicção de que são provas e documentos de nossa futura integridade e perfeita ressurreição?

[64] Pois, para usar a expressão do apóstolo, “estas coisas aconteceram como figuras de nós”. 1 Coríntios 10:6.

[65] E foram escritas para que creiamos tanto que o Senhor é mais poderoso do que todas as leis naturais concernentes ao corpo, quanto que Ele Se mostra preservador da carne de modo ainda mais enfático, na medida em que preservou para ela até mesmo suas vestes e suas sandálias.

[66] Mas, objetais vós, o mundo vindouro tem o caráter de uma dispensação diferente, e até eterna; e, por isso, sustentais que a substância não eterna desta vida é incapaz de possuir um estado com características tão diferentes.

[67] Isso seria muito verdadeiro, se o homem tivesse sido feito para a futura dispensação, e não a dispensação para o homem.

[68] O apóstolo, porém, em sua epístola diz: “Seja o mundo, ou a vida, ou a morte, ou as coisas presentes, ou as futuras; tudo é vosso.” 1 Coríntios 3:22.

[69] E aqui ele nos constitui herdeiros até mesmo do mundo futuro.

[70] Isaías não vos ajuda em nada quando diz: “Toda carne é erva.” Isaías 40:7.

[71] E em outra passagem: “Toda carne verá a salvação de Deus.”

[72] É o destino dos homens, e não a sua substância, que ele distingue.

[73] Mas quem não reconhece que o juízo de Deus consiste em uma dupla sentença: de salvação e de punição?

[74] Portanto, toda carne é erva, a que está destinada ao fogo; e toda carne verá a salvação de Deus, a que está ordenada para a vida eterna.

[75] Quanto a mim, estou plenamente certo de que não foi em outra carne senão na minha própria que cometi adultério, nem é em outra carne que me esforço pela continência.

[76] Se houver alguém que traga em sua pessoa dois instrumentos de lascívia, ele terá, certamente, o poder de ceifar a erva da carne impura e reservar para si apenas aquela que verá a salvação de Deus.

[77] Mas quando o mesmo profeta nos apresenta até mesmo as nações, às vezes estimadas como o pó miúdo da balança, Isaías 40:15, e como menos que nada e vaidade, e outras vezes como destinadas a esperar e confiar no nome e no braço do Senhor, somos por acaso enganados a respeito das nações gentílicas por causa dessa diversidade de afirmação?

[78] São algumas delas feitas crentes, e outras contadas como pó, por alguma diferença de natureza?

[79] De modo nenhum.

[80] Antes, Cristo brilhou como a verdadeira luz sobre as nações dentro dos limites do oceano, e desde o céu que está sobre todos nós.

[81] Pois foi precisamente nesta terra que os valentininianos aprenderam seus erros.

[82] E não haverá diferença de condição, quanto ao corpo e à alma, entre as nações que creem e as que não creem.

[83] Exatamente, então, como Ele estabeleceu uma distinção de estado, e não de natureza, entre as mesmas nações, assim também diferenciou a carne delas, que é uma só e a mesma substância nessas nações, não segundo sua estrutura material, mas segundo a recompensa de seu mérito.

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 23 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 22 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-22/ Wed, 18 Mar 2026 22:23:02 +0000 https://vcirculi.com/?p=38387 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 22 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] Então, novamente, perguntas são muitas vezes sugeridas por termos ocasionais e isolados, tanto quanto por sentenças conectadas.

[2] Assim, por causa da expressão do apóstolo — “para que o mortal seja absorvido pela vida” (2 Coríntios 5:4) — em referência à carne, eles torcem a palavra “absorvido” para o sentido de destruição real da carne; como se nós não pudéssemos dizer que “engolimos” o fel, ou “engolimos” a tristeza, querendo dizer que a ocultamos, a escondemos e a guardamos dentro de nós.

[3] A verdade é que, quando está escrito: “É necessário que isto que é mortal se revista da imortalidade” (1 Coríntios 15:53), explica-se em que sentido a mortalidade é absorvida pela vida: justamente enquanto, revestida de imortalidade, ela fica escondida, encoberta e contida nela, não como algo consumido, destruído e perdido.

[4] Mas tu dirás em resposta: “Então, nesse caso, a morte também deve permanecer intacta, mesmo depois de ter sido absorvida.”

[5] Pois bem, eu te peço que distingas palavras semelhantes na forma segundo seus significados próprios.

[6] Uma coisa é a morte, outra é a mortalidade.

[7] Uma coisa é a morte ser absorvida, outra é a mortalidade ser absorvida.

[8] A morte é incapaz de imortalidade, mas não a mortalidade.

[9] Além disso, se está escrito que “isto que é mortal deve revestir-se da imortalidade” (1 Coríntios 15:53), como isso seria possível se fosse absorvido pela vida no sentido de deixar de existir?

[10] Mas como pode ser absorvido pela vida, no sentido de destruído por ela, quando na verdade é recebido, restaurado e incluído nela?

[11] Quanto ao mais, é justo e correto que a morte seja absorvida em destruição total, já que ela própria devora com essa mesma intenção.

[12] “A morte”, diz o apóstolo, “devorou”, exercendo sua força, e por isso ela mesma foi devorada no combate, “absorvida na vitória”.

[13] “Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ó morte, onde está a tua vitória?”

[14] Portanto, a vida também, como a grande antagonista da morte, no combate absorverá para salvação aquilo que a morte, em sua luta, havia absorvido para destruição.

[15] Ora, embora, ao provarmos que a carne ressurgirá, provemos ipso facto que nenhuma outra carne participará dessa ressurreição senão a carne em questão, ainda assim perguntas isoladas e suas circunstâncias exigem discussões próprias, mesmo que já tenham sido suficientemente respondidas.

[16] Daremos, portanto, uma explicação mais plena da força e da razão de uma mudança que é tão grande, que quase sugere a presunção de que seja uma carne diferente a que há de ressurgir; como se, de fato, mudança tão grande equivalisse à cessação total e à destruição completa do ser anterior.

[17] Contudo, deve-se fazer distinção entre uma mudança, por maior que seja, e tudo aquilo que tenha o caráter de destruição.

[18] Pois uma coisa é sofrer mudança; outra, bem diferente, é ser destruído.

[19] Ora, essa distinção deixaria de existir se a carne sofresse uma mudança que equivalesse à destruição.

[20] Entretanto, ela teria de ser destruída pela mudança, a menos que ela mesma permanecesse continuamente através da condição transformada que será manifestada na ressurreição.

[21] Pois, exatamente como ela perece, se não ressuscita, assim também perece igualmente, ainda que ressuscite, se se supõe que ela se perde na mudança.

[22] Ela deixaria de ter existência futura tanto quanto se não ressuscitasse de modo algum.

[23] E quão absurdo é ressuscitar com o propósito de não ter existência, quando poderia simplesmente não ressuscitar e, assim, perder seu ser — porque já teria começado sua não existência!

[24] Ora, coisas que são absolutamente diferentes, como mudança e destruição, não admitem mistura nem confusão; também em suas operações elas diferem.

[25] Uma destrói; a outra transforma.

[26] Portanto, assim como aquilo que é destruído não é mudado, também aquilo que é mudado não é destruído.

[27] Perecer é deixar completamente de ser aquilo que uma coisa foi um dia; ao passo que mudar é existir em outra condição.

[28] Ora, se uma coisa existe em outra condição, ainda pode continuar sendo a mesma coisa; pois, já que não pereceu, ainda conserva sua existência.

[29] Ela experimentou, de fato, uma mudança, mas não uma destruição.

[30] Uma coisa pode sofrer mudança completa e, ainda assim, permanecer sendo a mesma coisa.

[31] Do mesmo modo, um homem também pode continuar sendo plenamente ele mesmo em substância, mesmo nesta vida presente, e ainda assim passar por várias mudanças — no hábito, no volume do corpo, na saúde, na condição, na dignidade e na idade; no gosto, nos negócios, nos recursos, nas casas, nas leis e nos costumes — e ainda não perder nada de sua natureza humana, nem se tornar outro homem a ponto de deixar de ser o mesmo; na verdade, mal devo dizer “outro homem”, mas antes “outra condição”.

[32] As Sagradas Escrituras nos dão exemplos dessa forma de mudança.

[33] A mão de Moisés é mudada, e torna-se como a de um morto, sem sangue, sem cor e rígida de frio; mas, quando recupera o calor e recebe de volta sua cor natural, torna-se novamente a mesma carne e sangue (Êxodo 4:6-7).

[34] Depois, o rosto do mesmo Moisés é mudado, com um brilho que os olhos não podiam suportar.

[35] Mas ele ainda era Moisés, mesmo quando não podia ser contemplado.

[36] Também Estêvão já havia assumido a aparência de um anjo (Atos 6:15), embora não fossem outros senão seus joelhos humanos aqueles que se dobraram sob o apedrejamento (Atos 7:59-60).

[37] O Senhor, por sua vez, no retiro do monte, teve suas vestes mudadas em uma veste de luz; mas ainda conservava traços que Pedro podia reconhecer (Mateus 17:2-4).

[38] Nessa mesma cena, Moisés e Elias também deram prova de que a mesma condição de existência corporal pode continuar mesmo na glória — um na semelhança de uma carne que ainda não havia recuperado, o outro na realidade de uma carne que ainda não havia deixado.

[39] Foi cheio desse esplêndido exemplo que Paulo disse: “o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser conforme ao seu corpo glorioso” (Filipenses 3:21).

[40] Mas, se sustentas que transfiguração e conversão equivalem à aniquilação de qualquer substância, então segue-se que Saul, ao ser transformado em outro homem (1 Samuel 10:6), deixou de existir em sua própria substância corporal; e que o próprio Satanás, ao transformar-se em anjo de luz (2 Coríntios 11:14), perde seu caráter próprio.

[41] Essa não é a minha opinião.

[42] Assim também mudanças, conversões e reformações necessariamente ocorrerão para realizar a ressurreição, mas a substância da carne ainda será preservada em segurança.

[43] Pois quão absurdo, e na verdade quão injusto, e em ambos os aspectos quão indigno de Deus seria, que uma substância realizasse a obra e outra recebesse a recompensa:

[44] que esta nossa carne fosse dilacerada pelo martírio, e outra recebesse a coroa;

[45] ou, por outro lado, que esta nossa carne se revolvesse na impureza, e outra recebesse a condenação!

[46] Não é melhor renunciar de uma vez a toda fé na esperança da ressurreição do que brincar com a sabedoria e a justiça de Deus?

[47] Melhor seria que Marcião ressuscitasse de novo do que Valentino.

[48] Pois não se pode crer que a mente, ou a memória, ou a consciência do homem existente seja abolida ao vestir aquela veste de mudança que a imortalidade e a incorruptibilidade fornecem; porque, nesse caso, todo o ganho e fruto da ressurreição, e o efeito permanente do juízo de Deus tanto sobre a alma quanto sobre o corpo, certamente cairiam por terra.

[49] Se eu não me lembro de que fui eu quem o serviu, como atribuirei glória a Deus?

[50] Como lhe cantarei o cântico novo, se ignoro que sou eu quem lhe deve gratidão?

[51] Mas por que se faz objeção apenas contra a mudança da carne, e não também da alma, que em tudo é superior à carne?

[52] Como acontece que a mesmíssima alma que, em nossa carne presente, percorreu todo o curso da vida, aprendeu o conhecimento de Deus, revestiu-se de Cristo e semeou a esperança da salvação nesta carne, tenha de colher sua safra em outra carne da qual nada sabemos?

[53] Na verdade, essa teria de ser uma carne altamente favorecida, para desfrutar da vida de modo tão gratuito!

[54] Mas, se a alma também não há de ser mudada, então não há ressurreição da alma; nem se acreditará que ela própria ressuscitou, a menos que tenha ressuscitado como outra coisa diferente.

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 22 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 21 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-21/ Wed, 18 Mar 2026 22:19:41 +0000 https://vcirculi.com/?p=38379 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 21 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] Aquilo, porém, que havíamos reservado para um argumento conclusivo, servirá agora como defesa para todos, e para o próprio apóstolo, o qual, de fato, teria de ser acusado de extrema imprudência, se tivesse, tão abruptamente, como alguns querem, e como dizem, às cegas, e de modo tão indiscriminado e incondicional, excluído do reino de Deus — e, na verdade, da própria corte do céu — toda e qualquer carne e sangue; visto que Jesus ainda está ali sentado à direita do Pai (Marcos 16:19), homem, e ainda assim Deus — o último Adão (1 Coríntios 15:45), e ainda assim o Verbo primordial — carne e sangue, porém mais puros do que os nossos — e que descerá do mesmo modo como subiu ao céu (Atos 1:9), o mesmo tanto em substância quanto em forma, como afirmaram os anjos, de modo que até mesmo será reconhecido por aqueles que o traspassaram.

[2] Designado, como é, Mediador entre Deus e os homens, Ele conserva em Si mesmo o depósito da carne que Lhe foi confiado por ambas as partes — o penhor e a garantia de sua perfeição integral.

[3] Pois, assim como Ele nos deu o penhor do Espírito (2 Coríntios 5:5), assim também recebeu de nós o penhor da carne, e a levou consigo ao céu como garantia daquela plenitude completa que um dia lhe será restituída.

[4] Não te perturbes, ó carne e sangue, com qualquer ansiedade; em Cristo adquiriste tanto o céu quanto o reino de Deus.

[5] De outro modo, se eles dizem que tu não estás em Cristo, digam também que Cristo não está no céu, já que te negaram o céu.

[6] Do mesmo modo: “nem a corrupção herdará a incorrupção”, diz ele (1 Coríntios 15:50).

[7] Ele não diz isso para que tomes carne e sangue como sendo a corrupção, pois eles são antes sujeitos à corrupção — refiro-me por meio da morte, visto que a morte não corrompe tanto quanto, na verdade, consome a nossa carne e o nosso sangue.

[8] Mas, como ele havia dito claramente que as obras da carne e do sangue não poderiam obter o reino de Deus, querendo afirmar isso com força redobrada, ele privou a própria corrupção — isto é, a morte, que tanto se aproveita das obras da carne e do sangue — de toda herança da incorrupção.

[9] Pois, pouco depois, ele descreve aquilo que é, por assim dizer, a própria morte da morte: “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó sepulcro, a tua vitória? O aguilhão da morte é o pecado” — aqui está a corrupção; “e a força do pecado é a lei” (1 Coríntios 15:54-56) — aquela outra lei, sem dúvida, que ele descreveu em seus membros, guerreando contra a lei da sua mente (Romanos 7:23), referindo-se, é claro, ao poder efetivo de pecar contra a sua vontade.

[10] Ora, ele diz em uma passagem anterior de nossa Epístola aos Coríntios que “o último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Coríntios 15:26).

[11] É desta maneira, então, que a corrupção não herdará a incorrupção; em outras palavras, a morte não continuará.

[12] Quando e como ela cessará? “Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta, quando os mortos ressuscitarão incorruptíveis.”

[13] Mas quem são estes, senão aqueles que antes eram corruptíveis — isto é, os nossos corpos; em outras palavras, a nossa carne e o nosso sangue?

[14] E nós seremos transformados.

[15] Mas em que condição, senão naquela em que formos encontrados?

[16] “Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade.”

[17] Que mortal é este, senão a carne?

[18] Que corruptível, senão o sangue?

[19] Além disso, para que não suponhas que o apóstolo tenha qualquer outro sentido, em seu cuidado de te instruir, e para que compreendas que ele aplica seriamente sua afirmação à carne, quando diz “este corruptível” e “este mortal”, ele pronuncia essas palavras enquanto toca a superfície do próprio corpo.

[20] Certamente ele não poderia ter proferido tais expressões senão em referência a um objeto palpável e visível.

[21] A expressão indica uma demonstração corporal.

[22] Além disso, um corpo corruptível é uma coisa, e a corrupção é outra; assim, um corpo mortal é uma coisa, e a mortalidade é outra.

[23] Pois uma coisa é aquilo que sofre, e outra é aquilo que faz sofrer.

[24] Consequentemente, aquelas coisas que estão sujeitas à corrupção e à mortalidade, a saber, a carne e o sangue, também necessariamente devem ser suscetíveis de incorrupção e imortalidade.

[25] Vejamos agora em que corpo ele afirma que os mortos virão.

[26] E, com feliz habilidade, ele passa imediatamente a ilustrar o ponto, como se um objetor o tivesse pressionado com alguma pergunta desse tipo.

[27] “Insensato! O que semeias não é vivificado, se primeiro não morrer” (1 Coríntios 15:36).

[28] A partir desse exemplo da semente, é então evidente que nenhuma outra carne é vivificada senão aquela que terá passado pela morte, e, portanto, todo o restante da questão se tornará suficientemente claro.

[29] Pois nada que seja incompatível com a ideia sugerida pelo exemplo pode, de forma alguma, ser entendido.

[30] Nem da cláusula seguinte — “e, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer” — te é permitido supor que, na ressurreição, surgirá um corpo diferente daquele que é semeado na morte.

[31] Do contrário, terias abandonado o exemplo.

[32] Porque, se o trigo é semeado e se desfaz na terra, não é a cevada que brota.

[33] Ainda assim, não é exatamente o mesmo grão quanto à aparência; nem sua natureza, nem sua qualidade, nem sua forma permanecem idênticas.

[34] Então, de onde vem ele, se não é o mesmo em si?

[35] Pois até mesmo a decomposição é uma prova da própria coisa, visto que é a decomposição do grão real.

[36] Muito bem; mas o próprio apóstolo não sugere em que sentido o corpo que há de ser não é o corpo que foi semeado, quando diz: “Mas Deus lhe dá corpo como lhe aprouve; e a cada uma das sementes, o seu próprio corpo” (1 Coríntios 15:38)?

[37] Dá-o, sem dúvida, ao grão que ele diz ser semeado nu.

[38] Sem dúvida — dirás.

[39] Então o grão está suficientemente preservado, pois é a ele que Deus deve dar um corpo.

[40] Mas como estaria preservado, se não existisse em parte alguma, se não ressurgisse, se não ressurgisse de novo em sua própria identidade?

[41] Se não ressurgir novamente, não está preservado; e, se nem mesmo está preservado, não pode receber de Deus um corpo.

[42] Mas há toda prova possível de que ele está preservado.

[43] Com que propósito, então, Deus lhe dará um corpo, como Lhe aprouver, se ele já possui o seu próprio corpo nu, a não ser para que, em sua ressurreição, ele já não permaneça nu?

[44] Portanto, aquilo que é acrescentado será matéria adicional posta sobre o corpo nu; e aquilo sobre o qual a matéria é sobreposta não é de modo algum destruído — ao contrário, é aumentado.

[45] Ora, aquilo que recebe aumento está preservado.

[46] A verdade é que se semeia o grão em sua nudez extrema, sem palha que o cubra, sem espiga sequer em germe, sem a proteção de uma ponta barbada, sem a glória de um caule.

[47] Contudo, ele se levanta do sulco enriquecido com abundante colheita, estruturado em formação compacta, construído em bela ordem, fortalecido pelo cultivo e revestido por todos os lados.

[48] Essas são as circunstâncias que o tornam outro corpo dado por Deus, ao qual ele é transformado não por abolição, mas por ampliação.

[49] E a cada semente Deus designou o seu próprio corpo (1 Coríntios 15:38) — não, certamente, o seu próprio no sentido de seu corpo primitivo — para que aquilo que adquire de Deus externamente possa, por fim, também ser considerado seu.

[50] Apega-te firmemente, então, ao exemplo, e conserva-o bem diante dos olhos, como espelho do que acontece à carne: crê que a mesma carne que uma vez foi semeada na morte dará fruto na vida da ressurreição — a mesma na essência, apenas mais plena e mais perfeita; não outra, embora reapareça sob outra forma.

[51] Pois ela receberá em si a graça e o ornamento que Deus Se agradar em estender sobre ela, segundo os seus méritos.

[52] Sem dúvida, é nesse sentido que ele diz: “Nem toda carne é a mesma carne”, querendo não negar uma comunhão de substância, mas uma igualdade de prerrogativa — reduzindo o corpo a uma diferença de honra, não de natureza.

[53] Com essa finalidade, ele acrescenta, em sentido figurado, certos exemplos de animais e corpos celestes: “Uma é a carne dos homens” — isto é, dos servos de Deus, mas verdadeiramente humanos; “outra a dos animais” — isto é, dos gentios, dos quais o profeta efetivamente diz: “O homem é semelhante aos animais irracionais”; “outra a das aves” — isto é, dos mártires que procuram elevar-se ao céu; “outra a dos peixes” — isto é, daqueles que a água do batismo submergiu (1 Coríntios 15:39).

[54] De igual modo, ele toma exemplos dos corpos celestes: “Uma é a glória do sol” — isto é, de Cristo; “outra a glória da lua” — isto é, da Igreja; “e outra a glória das estrelas” — em outras palavras, da descendência de Abraão.

[55] “Porque uma estrela difere em glória de outra estrela”; assim também há corpos terrestres e celestiais — isto é, judeus assim como cristãos (1 Coríntios 15:41).

[56] Ora, se essa linguagem não deve ser entendida figuradamente, teria sido absurdo da parte dele fazer contraste entre a carne de mulas e milhafres, bem como entre corpos celestes e corpos humanos; pois eles não admitem comparação quanto à sua condição, nem no que diz respeito à obtenção da ressurreição.

[57] Então, por fim, tendo mostrado conclusivamente por seus exemplos que a diferença era de glória, não de substância, ele acrescenta: “Assim também é a ressurreição dos mortos.”

[58] Como assim?

[59] De nenhum outro modo, senão como diferindo apenas em glória.

[60] Pois, novamente, predicando a ressurreição da mesma substância e retornando mais uma vez à comparação do grão, ele diz: “Semeia-se em corrupção, ressuscita em incorrupção; semeia-se em desonra, ressuscita em glória; semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder; semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual.”

[61] Ora, certamente nada mais ressuscita senão aquilo que foi semeado; e nada mais é semeado senão aquilo que se decompõe na terra; e nada mais é isso senão a carne que se decompôs na terra.

[62] Pois essa foi a substância que o decreto de Deus condenou: “Tu és pó e ao pó tornarás” (Gênesis 3:19), porque dela foi tomada da terra.

[63] E foi dessa circunstância que o apóstolo tomou emprestada sua expressão de a carne ser semeada, já que ela retorna à terra, e a terra é o grande depósito das sementes que nela devem ser depositadas e dela novamente procuradas.

[64] E, portanto, ele confirma novamente a passagem, imprimindo-lhe a marca de sua própria autoridade inspirada, dizendo: “Porque assim está escrito” (1 Coríntios 15:45), para que não suponhas que o “ser semeado” signifique qualquer outra coisa senão “tu voltarás à terra de onde foste tomado”; nem que a expressão “porque assim está escrito” se refira a qualquer outra coisa que não à carne.

[65] Alguns, porém, sustentam que a alma é o corpo natural ou animado, com a intenção de afastar a carne de toda conexão com o corpo ressuscitado.

[66] Ora, visto que é um ponto claro e fixo que o corpo que há de ressuscitar é aquele que foi semeado na morte, eles devem ser chamados a examinar o próprio fato em si.

[67] Ou então que mostrem que a alma foi semeada após a morte; em uma palavra, que ela sofreu a morte — isto é, foi demolida, despedaçada, dissolvida na terra — nada disso jamais decretado por Deus contra ela.

[68] Que nos mostrem sua corruptibilidade e sua desonra, bem como sua fraqueza, para que também lhe caiba ressuscitar em incorrupção, glória e poder (1 Coríntios 15:42-43).

[69] Ora, no caso de Lázaro — que podemos tomar como o exemplo máximo de ressurreição — a carne jazia prostrada em fraqueza, a carne estava quase pútrida na desonra de sua decomposição, a carne exalava mau cheiro em sua corrupção, e, ainda assim, foi como carne que Lázaro ressuscitou — com sua alma, sem dúvida.

[70] Mas aquela alma era incorrupta; ninguém a havia envolvido em faixas de linho; ninguém a havia depositado num túmulo; ninguém ainda a havia sentido cheirar mal; ninguém, durante quatro dias, a havia visto semeada.

[71] Pois bem, toda essa condição, todo esse fim de Lázaro, a carne de todos os homens ainda experimenta, mas a alma de ninguém.

[72] Portanto, aquela substância à qual toda a descrição do apóstolo manifestamente se refere, e da qual ele fala com clareza, deve ser tanto o corpo natural ou animado quando é semeado, quanto o corpo espiritual quando é ressuscitado.

[73] Para que o compreendas nesse sentido, ele aponta para esta mesma conclusão quando, de igual maneira, com a autoridade da mesma passagem da Escritura, nos apresenta o primeiro homem, Adão, como tendo sido feito alma vivente.

[74] Ora, visto que Adão foi o primeiro homem, e visto também que a carne era homem antes da alma, segue-se sem dúvida que foi a carne que se tornou alma vivente.

[75] Além disso, visto que foi uma substância corpórea que assumiu essa condição, era, naturalmente, o corpo natural ou animado que se tornou alma vivente.

[76] Por qual designação quereriam que ele fosse chamado, senão por aquilo que se tornou por meio da alma, senão por aquilo que ele não era antes da alma, senão por aquilo que jamais pode ser depois da alma, a não ser por meio de sua ressurreição?

[77] Pois, depois de haver recuperado a alma, ele se torna mais uma vez corpo natural ou animado, para então tornar-se corpo espiritual.

[78] Pois ele apenas retoma, na ressurreição, a condição que uma vez teve.

[79] Portanto, de maneira alguma há a mesma boa razão para que a alma seja chamada de corpo natural ou animado como há para a carne receber essa designação.

[80] A carne, de fato, já era corpo antes de ser corpo animado.

[81] Quando a carne foi unida à alma, então se tornou corpo natural ou animado.

[82] Ora, embora a alma seja uma substância corpórea, contudo, como ela não é um corpo animado, mas antes aquilo que anima, não pode ser chamada de corpo animado ou natural, nem pode tornar-se aquilo que ela própria produz.

[83] É, de fato, quando a alma se acrescenta a outra coisa que faz essa coisa ser animada; mas, se ela não se acrescenta, como produzirá animação?

[84] Assim como, portanto, a carne foi a princípio um corpo animado ou natural ao receber a alma, assim também, por fim, se tornará corpo espiritual quando revestida do Espírito.

[85] Ora, o apóstolo, ao apresentar separadamente essa ordem em Adão e em Cristo, distingue com justiça os dois estados nos próprios elementos essenciais de sua diferença.

[86] E, quando ele chama Cristo de “o último Adão” (1 Coríntios 15:45), podes descobrir, por essa circunstância, quão vigorosamente ele se empenha em estabelecer, em todo o seu ensino, a ressurreição da carne, e não da alma.

[87] Assim, pois, o primeiro homem, Adão, era carne, não alma, e só depois se tornou alma vivente; e o último Adão, Cristo, era Adão somente porque era homem, e homem somente porque era carne, não porque fosse alma.

[88] Por isso o apóstolo prossegue dizendo: “Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual” (1 Coríntios 15:46), como no caso dos dois Adãos.

[89] Ora, não percebes que ele está distinguindo entre o corpo natural e o corpo espiritual na mesma carne, depois de já ter traçado essa distinção nos dois Adãos, isto é, no primeiro homem e no último?

[90] Pois de que substância vem a paridade entre Cristo e Adão?

[91] Sem dúvida, vem da carne deles, embora também possa vir da alma.

[92] Contudo, é no que diz respeito à carne que ambos são homem; pois a carne foi homem antes da alma.

[93] Foi, de fato, a partir dela que puderam ocupar posição, a ponto de serem considerados — um o primeiro e o outro o último homem, ou Adão.

[94] Além disso, coisas que diferem em caráter só não podem ser postas na mesma ordem quando sua diversidade é de substância; pois, quando a diversidade é de lugar, de tempo ou de condição, provavelmente admitem classificação conjunta.

[95] Aqui, porém, eles são chamados primeiro e último a partir da substância de sua carne comum, assim como depois novamente o primeiro homem é dito ser da terra, e o segundo, do céu; mas, embora Ele seja do céu no que respeita ao Espírito, ainda é homem segundo a carne.

[96] Ora, visto que é a carne, e não a alma, que torna compatível uma ordem ou classificação entre os dois Adãos, de modo que a distinção entre eles é traçada entre o primeiro homem tornando-se alma vivente e o último tornando-se espírito vivificante, assim também essa distinção entre eles já sugeriu a conclusão de que a distinção se deve à carne.

[97] Assim, é da carne que falam estas palavras: “Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual.”

[98] E, assim também, a mesma carne deve ser entendida numa passagem anterior: “Semeia-se corpo natural, e ressuscita corpo espiritual”; porque não é primeiro o espiritual, mas o natural; visto que o primeiro Adão foi feito alma vivente, e o último Adão, espírito vivificante (1 Coríntios 15:44-45).

[99] Tudo se refere ao homem, e tudo se refere à carne, porque se refere ao homem.

[100] Que diremos, então?

[101] Não possui a carne já agora, nesta vida, o Espírito pela fé?

[102] De modo que ainda resta perguntar como é que o corpo animado ou natural pode ser dito semeado.

[103] Certamente a carne recebeu aqui também o Espírito — mas apenas o seu penhor; ao passo que da alma recebeu não o penhor, mas a posse plena.

[104] Portanto, ela recebe o nome de corpo animado ou natural expressamente por causa da substância superior da alma, na qual é semeada, destinada futuramente a tornar-se, pela posse plena do Espírito que há de obter, o corpo espiritual, no qual ressuscita.

[105] Que admiração há, então, se ela é mais comumente chamada segundo a substância da qual está plenamente provida, do que segundo aquela da qual ainda possui apenas um derramamento parcial?

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 21 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 20 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-20/ Wed, 18 Mar 2026 22:16:19 +0000 https://vcirculi.com/?p=38371 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 20 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] “Mas carne e sangue”, dizes tu, “não podem herdar o reino de Deus” (1 Coríntios 15:50).

[2] Sabemos muito bem que isso também está escrito; porém, embora os nossos oponentes coloquem esta passagem na linha de frente do combate, deliberadamente reservamos esta objeção até agora, para que, em nosso assalto final, a derrubemos depois de remover todas as questões auxiliares que a cercam.

[3] Contudo, eles precisam recordar agora os argumentos precedentes, para que a ocasião que originalmente sugeriu esta passagem nos ajude a julgar o seu verdadeiro sentido.

[4] O apóstolo, ao que me parece, depois de expor aos coríntios os detalhes da disciplina da igreja, resumiu a substância do seu próprio evangelho e da fé deles numa explicação da morte e ressurreição do Senhor, a fim de daí deduzir a regra e o fundamento da nossa esperança.

[5] Por isso ele acrescenta esta declaração: “Ora, se Cristo é pregado como ressuscitado dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição dos mortos?” (1 Coríntios 15:12).

[6] “E, se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou” (1 Coríntios 15:13).

[7] “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã também é a vossa fé” (1 Coríntios 15:14).

[8] “E somos ainda tidos por falsas testemunhas de Deus, porque testificamos de Deus que ressuscitou a Cristo, ao qual não ressuscitou, se de fato os mortos não ressuscitam” (1 Coríntios 15:15).

[9] “Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou” (1 Coríntios 15:16).

[10] “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados; e também os que dormiram em Cristo pereceram” (1 Coríntios 15:17–18).

[11] Ora, qual é o ponto que ele evidentemente se esforça por nos fazer crer em toda esta passagem? Tu dizes: a ressurreição dos mortos, que estava sendo negada.

[12] Certamente ele quis que nisso se cresse com base no exemplo que apresentou: a ressurreição do Senhor.

[13] Pois bem, esse exemplo foi tomado de circunstâncias diferentes ou semelhantes? Semelhantes, por certo.

[14] Então, de que modo Cristo ressuscitou? Na carne, ou não?

[15] Sem dúvida, já que se diz que Ele morreu segundo as Escrituras e foi sepultado segundo as Escrituras, e isso não se deu senão na carne, admitirás também que foi na carne que Ele ressuscitou dentre os mortos.

[16] Pois o mesmo corpo que caiu na morte e que jazeu no sepulcro foi também o que ressurgiu; e não foi tanto Cristo na carne, quanto a carne em Cristo.

[17] Portanto, se devemos ressuscitar segundo o exemplo de Cristo, que ressuscitou na carne, certamente não ressuscitaremos segundo esse exemplo, a menos que também nós ressuscitemos na carne.

[18] Porque, diz ele, “visto que por um homem veio a morte, também por um homem veio a ressurreição dos mortos” (1 Coríntios 15:21).

[19] Ele diz isso, de um lado, para distinguir os dois autores: Adão, da morte; Cristo, da ressurreição; e, de outro lado, para fazer a ressurreição operar sobre a mesma substância em que atua a morte, comparando os próprios autores sob a designação de “homem”.

[20] Pois, “assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados” (1 Coríntios 15:22).

[21] Essa vivificação em Cristo deve dar-se na carne, visto que é na carne que se dá a morte em Adão.

[22] “Mas cada um por sua ordem”, porque, evidentemente, será também cada um em seu próprio corpo.

[23] Pois a ordem será disposta individualmente, segundo os méritos pessoais.

[24] Ora, como os méritos devem ser atribuídos ao corpo, segue-se necessariamente que a ordem também seja estabelecida com respeito aos corpos, para corresponder aos seus méritos.

[25] E visto que alguns também “se batizam pelos mortos”, veremos se há boa razão para isso.

[26] É certo que adotaram essa prática sob a suposição de que esse batismo vicário seria proveitoso para a carne de outro, em antecipação da ressurreição; pois, se não houvesse ressurreição corporal, não haveria por esse rito de batismo corpóreo qualquer penhor assegurado.

[27] “Por que, pois, se batizam eles pelos mortos?”, pergunta ele, “se de fato os mortos não ressuscitam?” (cf. 1 Coríntios 15:29).

[28] Pois não é a alma que é santificada pelo banho batismal; sua santificação vem da resposta da fé (1 Pedro 3:21).

[29] E por que, indaga ele, “nos expomos ao perigo a toda hora?” (1 Coríntios 15:30), querendo dizer, evidentemente, por causa da carne.

[30] “Dia após dia morro” — isto é, sem dúvida, nos perigos do corpo, no qual ele até lutou com feras em Éfeso, ou melhor, com aquelas feras que lhe causaram tanto perigo e aflição na Ásia, às quais alude em sua segunda carta à mesma igreja de Corinto.

[31] “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio na Ásia, pois fomos sobremaneira agravados, acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida” (2 Coríntios 1:8).

[32] Ora, se não me engano, ele enumera todos esses fatos para que, não querendo que seus combates na carne sejam tidos por inúteis, leve-nos a uma fé inabalável na ressurreição da carne.

[33] Pois inútil deve ser considerado o combate sustentado num corpo para o qual não se espera ressurreição alguma.

[34] “Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E com que corpo virão?” (1 Coríntios 15:35).

[35] Aqui ele trata das qualidades dos corpos, se serão exatamente os mesmos ou outros diferentes aqueles que os homens retomarão.

[36] Como, porém, tal questão deve ser considerada posterior, para o nosso propósito basta notar de passagem que a ressurreição é determinada como corporal até mesmo por isto: a investigação surge precisamente sobre a qualidade dos corpos.

[37] Chegamos agora ao âmago de toda a questão: quais são as substâncias, e de que natureza são elas, que o apóstolo excluiu da herança do reino de Deus?

[38] As declarações anteriores também nos dão a chave deste ponto.

[39] Ele diz: “O primeiro homem, sendo da terra, é terreno” — isto é, formado do pó, isto é, Adão; “o segundo homem é do céu” (1 Coríntios 15:47).

[40] Isto é, o Verbo de Deus, que é Cristo; contudo, Ele não é homem de outro modo senão como sendo Ele mesmo carne e alma, assim como um ser humano é, assim como Adão era.

[41] De fato, numa passagem anterior Ele é chamado de “segundo Adão”, derivando a identidade do nome de sua participação na mesma substância, porque nem mesmo Adão era carne proveniente de semente humana, no que Cristo também se lhe assemelha.

[42] “Qual o terreno, tais também os terrenos; e qual o celestial, tais também os celestiais” (1 Coríntios 15:48).

[43] Quer ele dizer assim quanto à substância, ou antes de tudo quanto à formação moral, e depois quanto à dignidade e ao valor que essa formação visa alcançar?

[44] Não é, de modo algum, quanto à substância que o terreno e o celestial são separados, já que ambos foram chamados pelo apóstolo, de uma vez por todas, de “homens”.

[45] Pois, ainda que Cristo fosse o único verdadeiro ser celestial, ou até supracelestial, Ele continua sendo homem, composto de corpo e alma; e em nada é separado da condição terrena, por causa daquela condição sua que o faz participante de ambas as substâncias.

[46] Do mesmo modo, também aqueles que depois dEle são chamados celestiais devem ser entendidos como possuindo essa qualidade celeste, não por sua natureza presente, mas por sua glória futura.

[47] Porque, numa frase anterior, da qual surgiu essa distinção de dignidade, foi mostrado que “uma é a glória dos corpos celestiais e outra a dos terrestres” (1 Coríntios 15:40).

[48] “Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque até uma estrela difere em glória de outra estrela” — embora não difiram em substância.

[49] Depois de assim estabelecer de antemão a diferença quanto ao valor ou dignidade, que agora deve ser buscado e finalmente desfrutado, o apóstolo acrescenta uma exortação: que aqui, em nosso tempo de disciplina, sigamos o exemplo de Cristo, e ali alcancemos sua eminência em glória.

[50] “Assim como trouxemos a imagem do terreno, tragamos também a imagem do celestial.”

[51] De fato, trouxemos a imagem do terreno ao participarmos de sua transgressão, de sua morte e de seu exílio do Paraíso.

[52] Ora, embora a imagem de Adão seja aqui trazida por nós na carne, não somos exortados a despir-nos da carne.

[53] Se não devemos despir-nos da carne, então o que deve ser abandonado é a conduta, para que então tragamos em nós a imagem do celestial.

[54] E isso não mais simplesmente como imagem de Deus, nem apenas como imagem de um ser cuja condição está no céu, mas segundo os traços de Cristo, andando aqui em santidade, justiça e verdade.

[55] E tão inteiramente voltado está ele, ao longo de toda esta passagem, para a inculcação da conduta moral, que nos diz que devemos portar a imagem de Cristo nesta nossa carne e neste tempo de instrução e disciplina.

[56] Pois, quando diz “tragamos”, no modo imperativo, ele adapta suas palavras à vida presente, na qual o homem não existe em outra substância senão como carne e alma.

[57] E, ainda que seja outra substância, a saber, a celestial, aquela para a qual nossa fé olha adiante, a promessa é feita precisamente àquela substância à qual é dada a ordem de esforçar-se diligentemente para merecer a recompensa.

[58] Portanto, como ele faz consistir tanto a imagem do terreno quanto a do celestial na conduta moral — uma a ser rejeitada e a outra a ser buscada —, então acrescenta de modo coerente: “Ora, isto digo”, isto é, por causa do que já disse, pois a conjunção “ora” liga o que vem a seguir ao que foi dito antes, “que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus” (1 Coríntios 15:50).

[59] Ele quer que “carne e sangue” sejam entendidos em nenhum outro sentido senão como a imagem anteriormente mencionada do homem terreno.

[60] E, visto que essa imagem consiste na velha maneira de viver, e essa velha maneira de viver não recebe o reino de Deus, então “carne e sangue”, por não receberem o reino de Deus, são reduzidos à vida dessa velha conduta.

[61] É claro que, como o apóstolo nunca tomou a substância pelo lugar das obras do homem, ele não pode usar aqui tal construção em sentido material absoluto.

[62] Pois, tendo declarado acerca de homens ainda vivos na carne que “não estão na carne” (Romanos 8:9), ele quer dizer que não vivem segundo as obras da carne.

[63] Logo, não deves subverter nem a forma nem a substância, mas apenas as obras praticadas na substância da carne, obras essas que nos alienam do reino de Deus.

[64] Depois de expor aos gálatas essas obras perniciosas, ele os adverte previamente, como já lhes havia dito antes, que “os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus” (Gálatas 5:21).

[65] E isso porque não traziam a imagem do celestial, mas a do terreno; e assim, por causa da sua velha maneira de viver, eram considerados nada mais que carne e sangue.

[66] Mas mesmo que o apóstolo tivesse lançado abruptamente a frase “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus”, sem qualquer indicação prévia do que queria dizer, ainda assim não seria nosso dever interpretar essas duas substâncias como o velho homem abandonado à mera carne e ao sangue?

[67] Em outras palavras, abandonado ao comer e beber, uma característica do qual seria falar contra a fé da ressurreição: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (1 Coríntios 15:32).

[68] Ora, quando o apóstolo inseriu isso parenteticamente, censurou carne e sangue justamente por seu deleite em comer e beber.

[69] Deixando de lado, porém, todas essas interpretações que incriminam as obras da carne e do sangue, seja-me permitido reivindicar para a ressurreição essas próprias substâncias, entendidas em seu sentido natural.

[70] Porque não é a ressurreição que é diretamente negada à carne e ao sangue, mas o reino de Deus, que é algo consequente à ressurreição.

[71] Pois também há uma ressurreição para juízo.

[72] E há até mesmo uma confirmação da ressurreição geral da carne sempre que se faz exceção de uma ressurreição especial.

[73] Ora, quando se declara claramente qual é a condição à qual a ressurreição não conduz, entende-se também qual é a condição à qual ela conduz.

[74] Portanto, visto que é em consideração aos méritos dos homens, manifestados por sua conduta na carne, e não pela substância da carne em si, que se faz diferença em sua ressurreição, fica evidente até por isso que carne e sangue são excluídos do reino de Deus por causa do pecado, não por causa da substância.

[75] E, embora segundo sua condição natural ressuscitem para o juízo, não ressuscitam para o reino.

[76] Repito: “Carne e sangue não podem herdar o reino de Deus” (1 Coríntios 15:50).

[77] E com razão o apóstolo o declara delas, consideradas isoladamente e em si mesmas, para mostrar que ainda necessitam do Espírito para serem qualificadas para o reino.

[78] Porque é o Espírito que nos vivifica para o reino de Deus; “a carne para nada aproveita” (João 6:63).

[79] Há, porém, algo que pode aproveitar para isso, a saber, o Espírito; e, por meio do Espírito, também as obras do Espírito.

[80] Carne e sangue, portanto, em qualquer caso, hão de ressuscitar, ambas em sua própria condição.

[81] Mas aqueles a quem for concedido entrar no reino de Deus terão de revestir-se do poder de uma vida incorruptível e imortal.

[82] Pois, sem isso, ou antes de obtê-lo, não podem entrar no reino de Deus.

[83] Com boa razão, então, carne e sangue, como já dissemos, por si mesmos não alcançam o reino de Deus.

[84] Mas, visto que “isto que é corruptível” — isto é, a carne — “se revestirá da incorruptibilidade”, e “isto que é mortal” — isto é, o sangue — “se revestirá da imortalidade” (1 Coríntios 15:53), pela transformação que seguirá a ressurreição, então, pelas melhores razões, acontecerá que carne e sangue, depois dessa mudança e desse revestimento, se tornarão aptos para herdar o reino de Deus.

[85] Mas isso não acontecerá sem a ressurreição.

[86] Alguns querem que, pela expressão “carne e sangue”, se entenda o judaísmo, por causa do rito da circuncisão.

[87] E, de fato, o judaísmo está demasiado afastado do reino de Deus, sendo considerado a velha ou antiga maneira de viver, e designado por esse título também em outra passagem do apóstolo.

[88] Pois, quando aprouve a Deus revelar-lhe o seu Filho, para que o pregasse entre os gentios, ele diz aos gálatas que “não consultou carne e sangue”, entendendo por isso a circuncisão, isto é, o judaísmo.

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 20 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 19 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-19/ Wed, 18 Mar 2026 22:13:19 +0000 https://vcirculi.com/?p=38363 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 19 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] Mas, em sua cegueira, eles novamente se empalam na questão do homem velho e do homem novo.

[2] Quando o apóstolo nos ordena a despojar-nos do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano; a renovar-nos no espírito da nossa mente; e a revestir-nos do novo homem, que, segundo Deus, é criado em justiça e verdadeira santidade (Efésios 4:22-24), eles sustentam que, ao também aqui fazer distinção entre duas substâncias, aplicando a antiga à carne e a nova ao espírito, ele atribui ao homem velho — isto é, à carne — uma corrupção permanente.

[3] Ora, se você seguir a ordem das substâncias, a alma não pode ser o homem novo, porque veio depois das duas; nem a carne pode ser o homem velho, porque foi a primeira.

[4] Pois que fração de tempo houve entre a mão criadora de Deus e o seu sopro?

[5] Eu ouso dizer que, mesmo que a alma fosse muito anterior à carne, pelo próprio fato de a alma ter de esperar para ser ela mesma completada, isso fez da outra a verdadeiramente anterior.

[6] Porque tudo aquilo que dá o toque final e a perfeição a uma obra, embora seja posterior na mera ordem, ainda assim tem prioridade no efeito.

[7] Muito mais anterior é aquilo sem o qual as coisas precedentes não poderiam existir.

[8] Se a carne é o homem velho, quando ela se tornou assim?

[9] Desde o princípio?

[10] Mas Adão era inteiramente um homem novo, e desse homem novo nenhuma parte poderia ser um homem velho.

[11] E desde então, desde a bênção pronunciada sobre a geração do homem (Gênesis 1:28), a carne e a alma têm tido nascimento simultâneo, sem qualquer diferença de tempo calculável; de modo que ambas são geradas juntas no ventre, como mostramos em nosso Tratado sobre a Alma.

[12] Contemporâneas no ventre, elas também são temporalmente idênticas em seu nascimento.

[13] Ambas, sem dúvida, são produzidas por pais humanos a partir de duas substâncias, mas não em dois períodos diferentes; antes, são tão inteiramente uma, que nenhuma é anterior à outra no que diz respeito ao tempo.

[14] É mais correto dizer que somos ou inteiramente o homem velho ou inteiramente o homem novo, pois não conseguimos ver como poderíamos ser outra coisa.

[15] Mas o apóstolo menciona um sinal muito claro do homem velho.

[16] Pois, diz ele: “Quanto à antiga maneira de viver, despojai-vos do velho homem” (Efésios 4:22); ele não diz: “quanto à anterioridade de uma ou de outra substância”.

[17] Não é, de fato, a carne que ele nos manda despojar, mas as obras que, em outra passagem, ele mostra serem obras da carne (Gálatas 5:19).

[18] Ele não faz acusação contra os corpos dos homens, a respeito dos quais ele mesmo escreve o seguinte:

[19] “Por isso, deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros.”

[20] “Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.”

[21] “Nem deis lugar ao diabo.”

[22] “Aquele que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado.”

[23] “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para a necessária edificação, a fim de que conceda graça aos que a ouvem.”

[24] “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção.”

[25] “Toda amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmia, bem como toda malícia, sejam tiradas de entre vós.”

[26] “Antes, sede bondosos uns para com os outros, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou” (Efésios 4:25-32).

[27] Por que, então, aqueles que supõem que a carne seja o homem velho não apressam a própria morte, para que, deixando de lado o homem velho, satisfaçam os preceitos do apóstolo?

[28] Quanto a nós, cremos que toda a prática da fé deve ser exercida na carne, e mais ainda, por meio da carne, a qual possui boca para a pronúncia de todas as palavras santas, língua para abster-se da blasfêmia, coração para evitar toda irritação e mãos para trabalhar e repartir.

[29] Ao mesmo tempo, sustentamos que tanto o homem velho quanto o novo dizem respeito à diferença de conduta moral, e não a alguma discrepância de natureza.

[30] E assim como reconhecemos que aquilo que, segundo sua antiga maneira de viver, era o homem velho, também era corrupto e recebia esse próprio nome de acordo com as suas concupiscências enganosas, assim também sustentamos que ele é o homem velho em referência à sua antiga maneira de viver (Efésios 4:22), e não em relação à carne, como se esta sofresse alguma dissolução permanente.

[31] Além disso, ele permanece intacto na carne e idêntico naquela natureza, mesmo quando se tornou o homem novo; pois foi despojado de sua vida pecaminosa, e não de sua substância corpórea.

[32] Você pode notar que o apóstolo, em toda parte, condena as obras da carne de tal maneira que parece condenar a carne; mas ninguém pode supor que ele tenha realmente essa intenção, pois ele mesmo passa a indicar outro sentido, ainda que semelhante.

[33] Pois, quando declara que “os que estão na carne não podem agradar a Deus”, ele imediatamente reconduz a afirmação de um sentido herético para um sentido correto, acrescentando: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito” (Romanos 8:8-9).

[34] Ora, ao negar que estavam na carne aqueles que, evidentemente, estavam na carne, ele mostrou que não viviam nas obras da carne; e, portanto, que os que não podiam agradar a Deus não eram os que estavam na carne, mas somente os que viviam segundo a carne; ao passo que agradavam a Deus os que, embora existissem na carne, andavam segundo o Espírito.

[35] E, novamente, ele diz que o corpo está morto; mas é por causa do pecado, assim como o Espírito é vida por causa da justiça.

[36] Quando, porém, ele coloca a vida em oposição à morte que se acha estabelecida na carne, certamente promete a vida da justiça ao mesmo estado para o qual determinou a morte do pecado.

[37] Mas sem sentido seria essa oposição que ele faz entre vida e morte, se a vida não estivesse ali onde está justamente aquilo a que ele a opõe — isto é, a morte que deve ser, é claro, extirpada do corpo.

[38] Ora, se a vida extirpa assim a morte do corpo, isso só pode acontecer penetrando ali onde está aquilo que ela exclui.

[39] Mas por que recorro a argumentos difíceis, quando o apóstolo trata do tema com perfeita clareza?

[40] “E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos também vivificará os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós” (Romanos 8:11).

[41] De modo que, ainda que alguém suponha que a alma seja o corpo mortal, ainda assim, como não pode negar que a carne também o é, será constrangido a reconhecer uma restauração até mesmo da carne, em consequência de sua participação na mesma condição.

[42] Além disso, pelas palavras seguintes você pode aprender que são as obras da carne que são condenadas, e não a carne em si mesma:

[43] “Assim, pois, irmãos, somos devedores, não à carne, para vivermos segundo a carne.”

[44] “Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, vivereis.”

[45] Ora, respondendo a cada ponto separadamente: visto que a salvação é prometida àqueles que vivem na carne, mas andam segundo o Espírito, já não é a carne a adversária da salvação, mas o operar da carne.

[46] Quando, porém, essa operosidade da carne é removida, a qual é a causa da morte, mostra-se que a carne está a salvo, porque foi libertada da causa da morte.

[47] “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” — isto é, certamente, aquilo que ele antes mencionou como habitando em nossos membros.

[48] Portanto, os nossos membros já não estarão sujeitos à lei da morte, porque deixaram de servir à lei do pecado, de ambas as quais foram libertos.

[49] “Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne do pecado, e por causa do pecado, condenou o pecado na carne” (Romanos 8:3) — não a carne no pecado, pois a casa não deve ser condenada juntamente com o seu habitante.

[50] Ele disse, de fato, que o pecado habita em nosso corpo (Romanos 7:20).

[51] Mas a condenação do pecado é a absolvição da carne, assim como a não condenação do pecado a sujeita à lei do pecado e da morte.

[52] Do mesmo modo, ele chamou o pendor carnal primeiro de morte (Romanos 8:6), e depois de inimizade contra Deus; mas nunca afirmou isso da carne em si mesma.

[53] “Mas, então”, você dirá, “a que deve ser atribuído o pendor carnal, se não à própria substância carnal?”

[54] Eu admitirei sua objeção, se você me provar que a carne possui algum discernimento próprio.

[55] Se, porém, ela nada concebe sem a alma, você deve entender que o pendor carnal deve ser atribuído à alma, embora às vezes seja referido à carne, pelo fato de que é servido para a carne e por meio da carne.

[56] E por isso o apóstolo diz que o pecado habita na carne, porque a alma, pela qual o pecado é provocado, tem sua morada temporária na carne, que, de fato, está destinada à morte, não por sua própria causa, mas por causa do pecado.

[57] Pois ele também diz em outra passagem: “Por que vos sujeitais ainda, como se vivêsseis no mundo?” (Colossenses 2:20), onde ele não escreve a pessoas mortas, mas àquelas que já deveriam ter deixado de viver segundo os modos do mundo.

[58] Porque viver segundo o mundo é aquilo que, como homem velho, ele declara ter sido crucificado com Cristo (Romanos 6:6), não como estrutura corporal, mas como comportamento moral.

[59] Além disso, se não entendermos isso nesse sentido, então não foi a nossa constituição corporal que foi crucificada, nem a nossa carne suportou a cruz de Cristo.

[60] Mas o sentido é o que ele acrescentou: “para que o corpo do pecado seja destruído”, por uma mudança de vida, e não por destruição da substância.

[61] E ele prossegue, dizendo: “para que não sirvamos mais ao pecado”.

[62] E ainda: que devemos considerar-nos mortos com Cristo, de tal maneira que também viveremos com ele.

[63] Pelo mesmo princípio ele diz: “Assim também considerai-vos mortos”.

[64] Mortos a quê?

[65] À carne?

[66] Não, mas ao pecado.

[67] Portanto, quanto à carne, eles serão salvos — vivos para Deus em Cristo Jesus, naturalmente por meio da carne, à qual não estarão mortos; pois é ao pecado, e não à carne, que estão mortos.

[68] Pois ele desenvolve ainda mais o argumento: “Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes.”

[69] “Nem ofereçais os vossos membros ao pecado como instrumentos de injustiça; mas oferecei-vos a Deus, como vivos dentre os mortos” — não simplesmente vivos, mas “como vivos dentre os mortos” — “e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.”

[70] E outra vez: “Assim como oferecestes os vossos membros para servirem à impureza e à iniquidade para a iniquidade, assim oferecei agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.”

[71] “Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres em relação à justiça.”

[72] “E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? Porque o fim delas é a morte.”

[73] “Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.”

[74] “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

[75] Assim, em toda essa série de passagens, ao afastar os nossos membros da injustiça e do pecado, e aplicá-los à justiça e à santidade, e ao transferi-los do salário da morte para o dom da vida eterna, ele sem dúvida promete à carne a recompensa da salvação.

[76] Ora, não teria sido de modo algum coerente que alguma norma de santidade e justiça fosse especialmente imposta à carne, se a recompensa de tal disciplina não estivesse também ao seu alcance.

[77] Nem mesmo o batismo poderia ser corretamente ordenado para a carne, se, pela sua regeneração, não fosse inaugurado um caminho que tendesse à sua restauração.

[78] O próprio apóstolo sugere essa ideia: “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?”

[79] “Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida” (Romanos 6:3-4).

[80] E para que você não suponha que isso seja dito apenas daquela vida em cuja novidade devemos andar, por meio do batismo e da fé, o apóstolo, com notável previdência, acrescenta:

[81] “Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição.”

[82] Em figura morremos no batismo, mas em realidade ressuscitamos novamente na carne, assim como Cristo também ressuscitou, para que, assim como o pecado reinou na morte, assim também a graça reine pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor (Romanos 5:21).

[83] Mas como seria isso, senão igualmente na carne?

[84] Pois onde está a morte, ali também deve estar a vida depois da morte, porque a vida também esteve primeiro ali, onde depois esteve a morte.

[85] Ora, se o domínio da morte opera somente na dissolução da carne, do mesmo modo o contrário da morte, isto é, a vida, deve produzir o efeito contrário, a saber, a restauração da carne.

[86] Assim, tal como a morte a tragou em sua força, também, depois que este mortal for tragado pela imortalidade, ela poderá ouvir o desafio pronunciado contra si: “Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó sepulcro, a tua vitória?” (1 Coríntios 15:55).

[87] Pois, dessa maneira, a graça abundará muito mais onde outrora abundou o pecado (Romanos 5:20).

[88] Dessa maneira também o poder se aperfeiçoará na fraqueza (2 Coríntios 12:9) — salvando o que se perdeu, reanimando o que estava morto, curando o que foi ferido, restaurando o que enfraqueceu, redimindo o que se perdeu, libertando o que estava escravizado, trazendo de volta o que se desviou, levantando o que caiu.

[89] E isso, da terra para o céu, onde, como o apóstolo ensina aos filipenses, está a nossa cidadania, de onde também aguardamos o Salvador, Jesus Cristo, “que transformará o nosso corpo de humilhação, para ser conforme ao seu corpo glorioso” (Filipenses 3:20-21).

[90] Naturalmente, isso será após a ressurreição, porque o próprio Cristo não foi glorificado antes de sofrer.

[91] Esses devem ser os corpos que ele roga aos romanos que apresentem “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Romanos 12:1).

[92] Mas como seriam sacrifício vivo, se esses corpos estão destinados a perecer?

[93] Como seriam santos, se estão profanamente manchados?

[94] Como seriam agradáveis a Deus, se estão condenados?

[95] Venha, agora, diga-me como é entendida por nossos hereges aquela passagem da Epístola aos Tessalonicenses — que, por sua clareza, eu suponho ter sido escrita com um raio de sol —, esses que fogem da luz da Escritura:

[96] “E o próprio Deus da paz vos santifique em tudo.”

[97] E, como se isso não fosse suficientemente claro, prossegue dizendo:

[98] “E o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor” (1 Tessalonicenses 5:23).

[99] Aqui você tem a substância inteira do homem destinada à salvação, e isso em nenhum outro momento senão na vinda do Senhor, que é a chave da ressurreição.

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 19 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 18 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-18/ Wed, 18 Mar 2026 22:10:36 +0000 https://vcirculi.com/?p=38355 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 18 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] É essa transformação que eles hão de sofrer que ele explica aos coríntios, quando escreve: “Todos, na verdade, ressuscitaremos (embora nem todos passemos pela transformação), num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta” — pois ninguém experimentará essa mudança senão aqueles que forem encontrados ainda na carne.

[2] E, diz ele, “os mortos ressuscitarão, e nós seremos transformados.”

[3] Ora, após uma consideração cuidadosa dessa ordem estabelecida, você poderá ajustar o que vem a seguir ao sentido anterior.

[4] Pois, quando ele acrescenta: “Porque é necessário que este corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este mortal se revista da imortalidade” (1 Coríntios 15:51-53), isso certamente será aquela habitação celestial com a qual tanto desejamos ser revestidos, enquanto gememos neste nosso corpo presente.

[5] Ele quer dizer, naturalmente, esta carne na qual seremos surpreendidos por fim.

[6] Pois ele diz que gememos oprimidos neste tabernáculo, e que, na verdade, não desejamos ser despidos, mas antes revestidos por cima, de tal modo que a mortalidade seja absorvida pela vida.

[7] Isto é, ao sermos transformados, seremos cobertos por aquela veste que vem do céu.

[8] Pois quem há que, estando na carne, não deseje revestir-se da imortalidade e continuar sua vida por uma feliz fuga da morte, mediante a transformação que deve ser experimentada em lugar dela, sem ter ainda de enfrentar aquele Hades que exigirá o último centavo?

[9] Não obstante, aquele que já tiver atravessado o Hades está também destinado a obter a mudança após a ressurreição.

[10] É por essa razão que declaramos de modo definitivo que a carne, de toda maneira, ressuscitará e, pela transformação que há de vir sobre ela, assumirá a condição dos anjos.

[11] Ora, se a transformação tivesse de ocorrer apenas no caso daqueles que forem encontrados na carne, para que a mortalidade seja absorvida pela vida — em outras palavras, para que a carne seja coberta pela veste celestial e eterna — seguir-se-ia ou que aqueles que forem encontrados na morte não obteriam vida, privados como estariam então da matéria e, por assim dizer, do alimento da vida, isto é, a carne; ou então também estes necessariamente teriam de passar pela transformação, para que neles também a mortalidade fosse absorvida pela vida, visto que também a eles está determinado alcançar a vida.

[12] Mas você dirá: no caso dos mortos, a mortalidade já foi absorvida pela vida.

[13] Não, certamente não em todos os casos.

[14] Pois quantos homens provavelmente serão encontrados tendo acabado de morrer, tão recentemente colocados em seus túmulos, que nada neles pareceria estar decomposto?

[15] Porque você certamente não considera algo decomposto, a menos que tenha sido cortado, abolido e retirado da nossa percepção, de modo que, por todos os meios possíveis, tenha deixado de ser visível.

[16] Aí estão os cadáveres dos gigantes dos tempos antigos.

[17] Será bastante evidente que eles não estão absolutamente decompostos, pois seus esqueletos ainda permanecem.

[18] Já falamos disso em outro lugar.

[19] Por exemplo, ainda recentemente nesta mesma cidade, quando lançavam sacrilegamente os fundamentos do Odeão sobre muitos sepulcros antigos, as pessoas ficaram horrorizadas ao descobrir, depois de uns quinhentos anos, ossos que ainda conservavam sua umidade e cabelos que não haviam perdido o seu perfume.

[20] É certo não só que os ossos permanecem endurecidos, mas também que os dentes continuam sem se decompor por séculos — sendo ambos os germes duradouros daquele corpo que voltará a brotar para a vida na ressurreição.

[21] Por fim, ainda que tudo o que é mortal em todos os mortos então se ache decomposto — ao menos consumido pela morte, pelo tempo e pela velhice — não haverá nada que possa ser absorvido pela vida, sendo coberto e revestido com a veste da imortalidade?

[22] Ora, aquele que diz que a mortalidade será absorvida pela vida já admitiu que aquilo que está morto não é destruído por aqueles outros devoradores antes mencionados.

[23] E, na verdade, será extremamente apropriado que tudo seja consumado e realizado pelas operações de Deus, e não pelas leis da natureza.

[24] Portanto, visto que aquilo que é mortal deve ser absorvido pela vida, é necessário que seja trazido à vista para assim ser absorvido; e também é necessário que seja absorvido, para que passe pela transformação final.

[25] Se você dissesse que um fogo precisa ser aceso, não poderia de modo algum alegar que aquilo que deve ateá-lo às vezes é necessário e às vezes não.

[26] Do mesmo modo, quando ele introduz as palavras: “Se é que, estando despidos, não seremos achados nus” (2 Coríntios 5:3) — referindo-se, é claro, àqueles que não forem encontrados vivos e na carne no dia do Senhor — ele não disse que aqueles que acabara de descrever como despidos ou despojados estavam nus em qualquer outro sentido senão este: que se deve entender que serão revestidos novamente com a mesma substância da qual foram despojados.

[27] Pois, embora sejam encontrados nus quando sua carne tiver sido deixada de lado, ou em certa medida separada ou consumida — e essa condição bem pode ser chamada nudez —, depois a recobrarão novamente.

[28] E isso para que, sendo revestidos outra vez com a carne, possam também receber por cima dela a sobrevestimenta da imortalidade.

[29] Pois será impossível que a veste exterior se ajuste, a não ser sobre aquele que já esteja vestido.

[30] Da mesma forma, quando ele diz: “Portanto, estamos sempre confiantes, sabendo que, enquanto estamos em casa no corpo, estamos ausentes do Senhor; porque andamos por fé, e não pelo que vemos” (2 Coríntios 5:6-7), é manifesto que nessa afirmação não há intenção de depreciar a carne, como se ela nos separasse do Senhor.

[31] Pois há aqui uma exortação direta para desprezarmos esta vida presente, já que estamos ausentes do Senhor enquanto passamos por ela — andando por fé e não por visão; em outras palavras, em esperança e não em realidade.

[32] Por isso ele acrescenta: “Temos, porém, confiança e preferimos deixar o corpo e habitar com o Senhor.”

[33] Isto é, para que andemos por visão e não por fé, em realização e não em esperança.

[34] Observe como aqui também ele atribui à excelência do martírio um desprezo pelo corpo.

[35] Pois ninguém, ao ausentar-se do corpo, torna-se imediatamente habitante da presença do Senhor, exceto se, pelo privilégio do martírio, alcançar morada no Paraíso, e não nas regiões inferiores.

[36] Ora, estaria o apóstolo sem palavras para descrever a partida do corpo?

[37] Ou usa ele propositadamente uma linguagem nova?

[38] Pois, querendo expressar nossa ausência temporária do corpo, ele diz que somos estrangeiros, ausentes dele, porque um homem que vai para fora retorna depois de algum tempo à sua casa.

[39] Depois ele diz até a todos: “Por isso também nos empenhamos para lhe sermos agradáveis, quer presentes, quer ausentes; porque todos devemos comparecer perante o tribunal de Cristo Jesus” (2 Coríntios 5:9-10).

[40] Se todos nós, então todos nós por inteiro.

[41] Se por inteiro, então tanto o nosso homem interior quanto o exterior — isto é, nossos corpos não menos que nossas almas.

[42] “Para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem ou mal” (2 Coríntios 5:10).

[43] Agora eu pergunto: como você lê esta passagem?

[44] Você a entende como construída confusamente, com transposição de ideias?

[45] A questão é sobre quais coisas o corpo terá de receber, ou sobre as coisas que já foram feitas no corpo?

[46] Pois bem, se se trata das coisas que serão suportadas pelo corpo, então sem dúvida está implícita a ressurreição do corpo.

[47] E, se se refere às coisas que já foram feitas no corpo, a mesma conclusão se segue.

[48] Porque, evidentemente, a retribuição terá de ser paga pelo corpo, já que foi por meio do corpo que as ações foram praticadas.

[49] Assim, todo o argumento do apóstolo, desde o começo, se desdobra nesta cláusula final, na qual se expõe a ressurreição da carne.

[50] E ela deve ser entendida num sentido estritamente conforme a essa conclusão.

[51] Ora, se você examinar as palavras que precedem a passagem em que se faz menção do homem exterior e do interior, não descobrirá toda a verdade, tanto sobre a dignidade quanto sobre a esperança da carne?

[52] Pois, quando ele fala da luz que Deus ordenou que brilhasse em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória do Senhor na face de Jesus Cristo (2 Coríntios 4:6), e diz que temos esse tesouro em vasos de barro, querendo dizer, é claro, a carne, o que se quer significar?

[53] Que a carne será destruída porque é um vaso de barro, tendo sua origem no barro?

[54] Ou que ela será glorificada, por ser receptáculo de um tesouro divino?

[55] Ora, se aquela verdadeira luz, que está na pessoa de Cristo, contém em si a vida, e se essa vida com sua luz é confiada à carne, perecerá então aquilo a que a vida foi confiada?

[56] Então, é claro, o tesouro também perecerá.

[57] Pois coisas perecíveis são confiadas a coisas que também são perecíveis, o que seria como pôr vinho novo em odres velhos.

[58] Quando ele acrescenta ainda: “Trazendo sempre em nosso corpo o morrer do Senhor Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:10), que tipo de substância é essa que, depois de ser chamada templo de Deus, pode agora também ser designada como túmulo de Cristo?

[59] Mas por que trazemos no corpo o morrer do Senhor?

[60] Para que, como ele diz, também a sua vida se manifeste.

[61] Onde?

[62] No corpo.

[63] Em que corpo?

[64] Em nosso corpo mortal.

[65] Portanto, na carne, que é mortal por causa do pecado, mas viva pela graça.

[66] E quão grande é essa graça você pode ver quando o propósito é que a vida de Cristo seja manifestada nela.

[67] Será então numa coisa estranha à salvação, numa substância que se dissolve continuamente, que a vida de Cristo se manifestará — ela que é eterna, contínua, incorruptível, e já é a própria vida de Deus?

[68] Ou então, a que época pertence essa vida do Senhor que deve ser manifestada em nosso corpo?

[69] Certamente é a vida que ele viveu até sua paixão, a qual não foi apenas mostrada abertamente entre os judeus, mas agora foi exibida até mesmo a todas as nações.

[70] Portanto, trata-se daquela vida que quebrou as portas adamantinas da morte e as barras de bronze do mundo inferior — vida que, desde então, foi e será nossa.

[71] Por fim, ela deve ser manifestada no corpo.

[72] Quando?

[73] Depois da morte.

[74] Como?

[75] Ressuscitando em nosso corpo, assim como Cristo também ressuscitou no dele.

[76] Mas para que ninguém objete aqui que a vida de Jesus já deve agora manifestar-se em nosso corpo pela disciplina da santidade, da paciência, da justiça e da sabedoria, nas quais a vida do Senhor abundou, a sapientíssima prudência do apóstolo acrescenta este propósito: “Porque nós, os que vivemos, somos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nossa carne mortal” (2 Coríntios 4:11).

[77] Portanto, em nós, mesmo quando mortos, diz ele que isso deve acontecer em nós.

[78] E, sendo assim, como isso seria possível, senão em nosso corpo após a sua ressurreição?

[79] Por isso ele acrescenta na sentença final: “Sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com ele”, já ressuscitado como ele já está dentre os mortos.

[80] Mas talvez “com ele” queira dizer “como ele”.

[81] Pois bem, se for “como ele”, então certamente não será sem a carne.

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 18 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 17 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-17/ Wed, 18 Mar 2026 22:07:50 +0000 https://vcirculi.com/?p=38347 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 17 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] Também os Atos dos Apóstolos atestam a ressurreição.

[2] Ora, os apóstolos não tinham outra coisa a fazer, ao menos entre os judeus, senão explicar o Antigo Testamento e confirmar o Novo, e, acima de tudo, pregar Deus em Cristo.

[3] Consequentemente, nada introduziram de novo acerca da ressurreição, além de anunciá-la para a glória de Cristo; em todos os outros aspectos, ela já havia sido recebida em fé simples e inteligente, sem qualquer questionamento quanto a que tipo de ressurreição haveria de ser, e sem encontrar outros opositores além dos saduceus.

[4] Tão mais fácil era negar inteiramente a ressurreição do que entendê-la em sentido estranho ao verdadeiro.

[5] Vês Paulo confessando sua fé diante dos principais sacerdotes, sob a proteção do comandante, entre saduceus e fariseus: “Homens e irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu; pela esperança e ressurreição dos mortos sou hoje julgado por vós” (Atos 23:6), referindo-se, naturalmente, à esperança da nação; isso para evitar que, em sua condição presente, como aparente transgressor da lei, fosse tido como alguém que se aproximava dos saduceus em opinião sobre o mais importante artigo da fé — a própria ressurreição.

[6] Portanto, essa fé na ressurreição, que ele não queria parecer enfraquecer, na verdade a confirmou segundo a opinião dos fariseus, já que rejeitou as posições dos saduceus, que a negavam.

[7] Do mesmo modo, diante de Agripa, ele também diz que não anunciava nada além daquilo que os profetas haviam proclamado (Atos 26:22).

[8] Logo, sustentava precisamente a mesma ressurreição que os profetas haviam predito.

[9] Ele também menciona o que foi escrito por Moisés a respeito da ressurreição dos mortos; e, ao fazê-lo, devia saber que seria um levantar-se no corpo, uma vez que nele será requerida a prestação de contas pelo sangue do homem (Gênesis 9:5-6).

[10] Declarou, então, que ela era de tal natureza como os fariseus a admitiam, como o próprio Senhor a sustentou e como os saduceus se recusavam a crer nela — recusa essa que, de fato, os levava à rejeição absoluta de toda a verdade.

[11] Tampouco os atenienses haviam anteriormente entendido Paulo como anunciando alguma outra ressurreição (Atos 17:32).

[12] De fato, zombaram de seu anúncio; mas não teriam zombado assim se dele tivessem ouvido nada além da restauração da alma, pois isso teriam recebido como expectativa bastante comum da sua própria filosofia nativa.

[13] Mas quando a pregação da ressurreição, da qual antes não tinham ouvido falar, por sua absoluta novidade, despertou os gentios, e uma incredulidade nada estranha diante de assunto tão maravilhoso começou a inquietar a fé simples com muitas discussões, então o apóstolo cuidou, em quase todos os seus escritos, de fortalecer a crença dos homens nessa esperança cristã, mostrando que tal esperança existia, que ainda não havia sido realizada, e que seria no corpo — justamente o ponto especial da investigação — e, além disso, não em um corpo de tipo diferente do nosso.

[14] Ora, não é de admirar se argumentos são tomados capciosamente dos próprios escritos do apóstolo, visto que é necessário que haja heresias (1 Coríntios 11:19); mas elas não poderiam existir, se as Escrituras não fossem passíveis de falsa interpretação.

[15] Pois bem, as heresias, encontrando que o apóstolo havia mencionado dois homens — o homem interior, isto é, a alma, e o homem exterior, isto é, a carne — atribuíram a salvação à alma ou homem interior, e a destruição à carne ou homem exterior, porque está escrito na Epístola aos Coríntios: “Embora o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (2 Coríntios 4:16).

[16] Ora, nem a alma sozinha é o homem (ela foi posteriormente insuflada no molde de barro ao qual já havia sido dado o nome de homem), nem a carne sem a alma é o homem; pois, após a saída da alma dela, recebe o nome de cadáver.

[17] Assim, a designação “homem” é, em certo sentido, o vínculo entre as duas substâncias intimamente unidas, sob cuja designação elas não podem deixar de ser naturezas coerentes.

[18] Quanto ao homem interior, na verdade, o apóstolo prefere que ele seja entendido como a mente e o coração, mais do que como a alma; em outras palavras, não tanto a substância em si, mas a disposição da substância.

[19] Assim, quando, escrevendo aos efésios, falou de Cristo habitando no homem interior deles, quis dizer, sem dúvida, que o Senhor devia ser recebido em seus sentidos (Efésios 3:17).

[20] Então acrescentou: “em vossos corações, pela fé, arraigados e fundamentados em amor” — fazendo da fé e do amor não partes substanciais, mas apenas disposições da alma.

[21] Mas, quando usou a expressão “em vossos corações”, visto que estes são partes substanciais da carne, ele ao mesmo tempo atribuiu à carne o verdadeiro homem interior, o qual situou no coração.

[22] Considera agora em que sentido ele afirmou que o homem exterior se corrompe, enquanto o homem interior se renova de dia em dia.

[23] Certamente não sustentarás que ele queria dizer aquela corrupção da carne pela qual ela passa a partir do momento da morte, em seu estado designado de contínua decomposição; mas o desgaste que, por causa do nome de Cristo, ela experimenta no curso da vida, antes e até a morte, em cuidados aflitivos e tribulações, bem como em tormentos e perseguições.

[24] Ora, o homem interior terá, evidentemente, de ser renovado pela inspiração do Espírito, avançando em fé e santidade dia após dia, aqui nesta vida, e não lá depois da ressurreição, onde nossa renovação não é um processo gradual de dia em dia, mas uma consumação completa, realizada de uma vez por todas.

[25] Também podes aprender isso pela passagem seguinte, onde o apóstolo diz: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação; não atentando nós nas coisas que se veem, isto é, nos nossos sofrimentos, mas nas que não se veem, isto é, nas nossas recompensas; porque as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas” (2 Coríntios 4:17-18).

[26] Pois as aflições e danos pelos quais o homem exterior se consome, ele afirma serem dignos apenas de nosso desprezo, por serem leves e temporários; preferindo aquelas recompensas eternas, também invisíveis, e aquele peso de glória que servirá de contrapeso aos labores em cuja perseverança a carne aqui sofre desgaste.

[27] De modo que o assunto desta passagem não é aquela corrupção que eles atribuem ao homem exterior na destruição total da carne, com o propósito de anular a ressurreição.

[28] Assim também ele diz em outro lugar: “Se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados; porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Romanos 8:17-18).

[29] Aqui novamente ele nos mostra que nossos sofrimentos são menores que suas recompensas.

[30] Ora, uma vez que é por meio da carne que sofremos com Cristo — pois é próprio da carne ser consumida pelos sofrimentos — à mesma carne pertence a recompensa prometida por sofrer com Cristo.

[31] Por isso, quando ele vai atribuir as aflições à carne como sua condição própria — conforme a declaração que já havia feito — diz: “Quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso” (2 Coríntios 7:5).

[32] Então, para fazer da alma coparticipante do sofrimento do corpo, acrescenta: “Em tudo fomos atribulados; por fora combates”, que evidentemente oprimiam a carne, “por dentro temores”, que afligiam a alma.

[33] Portanto, embora o homem exterior se corrompa — não no sentido de ficar sem a ressurreição, mas no de suportar tribulação — entender-se-á por esta Escritura que ele não está exposto ao seu sofrimento sem o homem interior.

[34] Ambos, portanto, serão glorificados juntamente, assim como sofreram juntamente.

[35] Paralelamente à participação comum nas tribulações, deve necessariamente correr também a associação comum nas recompensas.

[36] É ainda o mesmo pensamento que ele desenvolve na passagem em que põe a recompensa acima dos sofrimentos: “Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (2 Coríntios 5:1).

[37] Em outras palavras, pelo fato de nossa carne estar sendo desfeita por meio de seus sofrimentos, ser-nos-á provida uma morada no céu.

[38] Ele se lembrava da recompensa que o Senhor atribui no Evangelho: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5:10).

[39] Contudo, ao assim contrapor a recompensa ao sofrimento, não negou a restauração da carne, pois a recompensa é devida à mesma substância à qual se atribui a dissolução — isto é, naturalmente, à carne.

[40] Mas, porque havia chamado a carne de “casa”, quis usar elegantemente o mesmo termo em sua comparação da recompensa final, prometendo à própria casa que sofre dissolução por causa do sofrimento uma casa melhor por meio da ressurreição.

[41] Assim como o Senhor também nos promete muitas moradas, como de uma casa, na casa de seu Pai (João 14:2).

[42] Ainda que isso possa talvez ser entendido da morada deste mundo, cuja estrutura, ao se desfazer, dá lugar a uma habitação eterna prometida no céu, o contexto seguinte, tendo referência manifesta à carne, parece mostrar que aquelas palavras anteriores não têm tal sentido.

[43] Pois o apóstolo faz uma distinção, quando prossegue dizendo: “Porque, na verdade, neste tabernáculo gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial; se, todavia, formos encontrados vestidos e não nus” (2 Coríntios 5:2-3).

[44] Isso significa: antes de despirmos a veste da carne, desejamos ser revestidos da glória celeste da imortalidade.

[45] Ora, o privilégio desse favor aguarda aqueles que, na vinda do Senhor, forem encontrados na carne e que, por causa das opressões do tempo do Anticristo, merecerão, por uma morte instantânea, realizada mediante súbita transformação, tornar-se aptos para se juntar aos santos ressuscitados.

[46] Assim ele escreve aos tessalonicenses: “Dizemo-vos, pois, isto pela palavra do Senhor: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo nenhum precederemos os que dormem.”

[47] “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro.”

[48] “Depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares; e assim estaremos para sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:15-17).

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 17 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>
Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 16 https://vcirculi.com/livro-de-tertuliano-em-sobre-a-ressurreicao-da-carne-16/ Wed, 18 Mar 2026 22:03:44 +0000 https://vcirculi.com/?p=38339 Aviso ao leitor Este livro – Tertuliano — “Sobre a Ressurreição da Carne” / De Resurrectione Carnis – é apresentado aqui como literatura patrística e doutrinária da Igreja antiga (fim...

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 16 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>

[1] Vejamos agora se o Senhor não fortaleceu ainda mais a nossa doutrina ao desmontar a sutil objeção dos saduceus.

[2] O grande objetivo deles, ao que me parece, era abolir por completo a ressurreição, pois os saduceus, de fato, não admitiam salvação alguma nem para a alma nem para a carne.

[3] Por isso, tomando o caso mais forte que podiam para enfraquecer a credibilidade da ressurreição, adaptaram dele um argumento em apoio à questão que haviam levantado.

[4] Sua indagação capciosa dizia respeito à carne: se ela, após a ressurreição, estaria ou não sujeita ao casamento.

[5] E supuseram o caso de uma mulher que se casara com sete irmãos, de modo que ficava duvidoso a qual deles ela deveria ser restituída.

[6] Ora, se o sentido tanto da pergunta quanto da resposta for mantido firmemente em vista, a discussão se resolve de imediato.

[7] Pois, uma vez que os saduceus negavam a ressurreição, enquanto o Senhor a afirmava;

[8] e uma vez que, ao afirmá-la, Ele os repreendeu por serem ignorantes das Escrituras — isto é, daquelas que haviam declarado a ressurreição —

[9] bem como por não crerem no poder de Deus, certamente eficaz para ressuscitar os mortos;

[10] e, por fim, uma vez que Ele imediatamente acrescentou as palavras: “Ora, que os mortos hão de ressuscitar” (Lucas 20:37), falando sem hesitação e afirmando precisamente aquilo que estava sendo negado, a saber, a ressurreição dos mortos diante d’Aquele que é o Deus dos vivos —

[11] segue-se claramente que Ele afirmou essa verdade no exato sentido em que eles a negavam:

[12] que se tratava, de fato, da ressurreição das duas naturezas do homem.

[13] Nem se conclui, como eles gostariam, que, porque Cristo negou que os homens se casariam, tenha por isso provado que não ressuscitariam.

[14] Pelo contrário, Ele os chamou filhos da ressurreição, num certo sentido tendo, pela ressurreição, de passar por um nascimento.

[15] E depois disso não mais se casam, mas, em sua vida ressuscitada, são iguais aos anjos,

[16] visto que não se casarão, porque também não morrerão,

[17] mas estão destinados a passar ao estado angélico, revestindo-se da veste da incorruptibilidade,

[18] ainda que com mudança na substância que é restaurada à vida.

[19] Além disso, não se poderia levantar a questão de se havemos de casar de novo, ou de morrer novamente, sem pôr em dúvida principalmente a restauração daquela substância que possui relação particular tanto com a morte quanto com o casamento — isto é, a carne.

[20] Assim, pois, tens o Senhor afirmando contra os hereges judeus aquilo que agora encontra a negação dos saduceus cristãos: a ressurreição do homem inteiro.

[21] É verdade que Ele diz que a carne para nada aproveita (João 6:63);

[22] mas, como no caso anterior, o sentido deve ser regulado pelo assunto de que se fala.

[23] Ora, porque pensavam que Seu discurso era duro e intolerável, supondo que Ele realmente e literalmente lhes ordenara comer a Sua carne,

[24] Ele, querendo ordenar o estado da salvação como realidade espiritual, começou com o princípio: “O espírito é o que vivifica”;

[25] e então acrescentou: “A carne para nada aproveita”,

[26] querendo dizer, evidentemente, para conceder a vida.

[27] Ele também prossegue explicando o que queria que entendêssemos por espírito:

[28] “As palavras que eu vos digo são espírito e são vida.”

[29] Em sentido semelhante, Ele havia dito antes:

[30] “Quem ouve as minhas palavras e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24).

[31] Constituída, portanto, a Sua palavra como o princípio que dá vida, porque essa palavra é espírito e vida,

[32] Ele também chamou Sua carne por essa mesma designação;

[33] porque também o Verbo se fez carne (João 1:14),

[34] devemos, portanto, desejá-Lo para que tenhamos vida,

[35] e devorá-Lo com o ouvido,

[36] ruminá-Lo com o entendimento,

[37] e digeri-Lo pela fé.

[38] Ora, pouco antes desta passagem, Ele havia declarado que Sua carne é o pão que desce do céu (João 6:51),

[39] imprimindo constantemente em Seus ouvintes, sob a figura do alimento necessário, a memória de seus antepassados, que preferiram o pão e a carne do Egito ao seu chamado divino.

[40] Então, dirigindo o assunto às reflexões deles, porque percebeu que iriam dispersar-se e apartar-se d’Ele, disse:

[41] “A carne para nada aproveita.”

[42] Ora, que há nisso que destrua a ressurreição da carne?

[43] Como se não pudesse muito razoavelmente haver algo que, embora por si mesmo nada aproveite, ainda assim pudesse ser capaz de ser beneficiado por outra coisa.

[44] O espírito aproveita, porque comunica a vida.

[45] A carne para nada aproveita, porque está sujeita à morte.

[46] Portanto, Ele antes dispôs as duas proposições de modo favorável à nossa fé;

[47] pois, ao mostrar o que aproveita e o que não aproveita, lançou também luz sobre o objeto que recebe, assim como sobre o sujeito que concede o benefício.

[48] Assim, no presente caso, temos o Espírito dando vida à carne que foi subjugada pela morte;

[49] porque, diz Ele, “vem a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (João 5:25).

[50] Ora, que é o morto senão a carne?

[51] E que é a voz de Deus senão o Verbo?

[52] E que é o Verbo senão o Espírito,

[53] que com toda justiça ressuscitará a carne que Ele próprio um dia assumiu,

[54] e isto precisamente da morte, que Ele próprio sofreu,

[55] e do túmulo, no qual Ele próprio uma vez entrou?

[56] Então, de novo, quando Ele diz:

[57] “Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão:

[58] os que fizeram o bem, para a ressurreição da vida;

[59] e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação” (João 5:28-29) —

[60] ninguém, depois de tais palavras, poderá interpretar os mortos que estão nos sepulcros como sendo outros que não os corpos de carne,

[61] porque os próprios sepulcros nada mais são do que o lugar de repouso dos cadáveres.

[62] Pois é incontestável que até mesmo aqueles que participam do velho homem, isto é, os homens pecadores —

[63] em outras palavras, aqueles que estão mortos por sua ignorância de Deus

[64] (os quais nossos hereges, com efeito, insensatamente insistem em entender pela palavra “sepulcros”) —

[65] são aqui claramente descritos como tendo de sair de seus sepulcros para julgamento.

[66] Mas como sepulcros sairiam de sepulcros?

[67] Depois das palavras do Senhor, que devemos pensar do propósito de Suas ações, quando Ele levanta mortos de seus esquifes e de seus túmulos?

[68] Com que finalidade Ele o fez?

[69] Se foi apenas para a mera demonstração de Seu poder, ou para conceder o favor temporário de um retorno à vida, não era realmente grande coisa para Ele ressuscitar homens para morrerem outra vez.

[70] Se, porém, como era verdade, foi antes para guardar em segurança a fé dos homens numa futura ressurreição,

[71] então deve seguir-se, pela forma particular de Seus próprios exemplos, que a dita ressurreição será corporal.

[72] Jamais admitirei que se diga que a ressurreição futura, estando destinada somente à alma, tenha recebido então essas ilustrações preliminares por meio de um levantamento da carne,

[73] simplesmente porque teria sido impossível mostrar a ressurreição de uma alma invisível senão pela reanimação de uma substância visível.

[74] Têm conhecimento muito pobre de Deus aqueles que supõem que Ele só é capaz de fazer o que cabe dentro do alcance de seus próprios pensamentos;

[75] e, afinal, não podem deixar de saber muito bem qual sempre foi a Sua capacidade, se apenas se familiarizarem com os escritos de João.

[76] Pois, sem dúvida, aquele que mostrou à nossa vista as almas dos mártires, até então sem corpo, repousando debaixo do altar (Apocalipse 6:9-11),

[77] era plenamente capaz de mostrá-las diante de nossos olhos ressurgindo sem um corpo de carne.

[78] Eu, porém, de minha parte, prefiro crer que é impossível que Deus pratique engano

[79] (fraco como só poderia ser no tocante ao artifício),

[80] por medo de parecer ter dado provas preliminares de uma coisa de modo inconsistente com Sua real disposição dessa mesma coisa;

[81] mais ainda, por medo de que, não sendo poderoso o bastante para nos mostrar um modelo da ressurreição sem a carne,

[82] pudesse, com ainda maior fraqueza, ser incapaz de mostrar depois o cumprimento pleno do modelo nessa mesma substância da carne.

[83] Nenhum exemplo, de fato, é maior do que a coisa da qual é exemplo.

[84] Contudo, seria maior se almas com seus corpos fossem ressuscitadas como prova de sua ressurreição sem o corpo,

[85] de tal modo que a salvação inteira do homem, em alma e corpo, se tornasse garantia de apenas a metade, isto é, a alma;

[86] ao passo que a condição em todos os exemplos é que aquilo que seria considerado o menor —

[87] quero dizer, a ressurreição apenas da alma —

[88] devesse ser, por assim dizer, o antegosto da elevação da carne também, no tempo determinado para isso.

[89] E, portanto, segundo a nossa avaliação da verdade, aqueles exemplos de mortos que foram ressuscitados pelo Senhor eram, de fato, prova da ressurreição tanto da carne quanto da alma —

[90] prova, na verdade, de que esse dom não seria negado a nenhuma das duas substâncias.

[91] Considerados, porém, apenas como exemplos, eles expressavam significado menor —

[92] menor, de fato, do que Cristo expressará no fim —

[93] pois não foram ressuscitados para glória e imortalidade,

[94] mas apenas para outra morte.

O post Livro de Tertuliano em Sobre a Ressurreição da Carne 16 apareceu primeiro em VCirculi.

]]>