Arquivo de Hipólito de Roma em Refutação de Todas as Heresias - VCirculi https://vcirculi.com/category/volumina/collectanea/hipolito-de-roma/hipolito-de-roma-em-refutacao-de-todas-as-heresias/ Corpus et Sanguis Christi Tue, 24 Mar 2026 22:53:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://vcirculi.com/wp-content/uploads/2025/07/cropped-et5t-Copia-32x32.png Arquivo de Hipólito de Roma em Refutação de Todas as Heresias - VCirculi https://vcirculi.com/category/volumina/collectanea/hipolito-de-roma/hipolito-de-roma-em-refutacao-de-todas-as-heresias/ 32 32 Hipólito de Roma em Refutação de Todas as Heresias https://vcirculi.com/hipolito-de-roma-em-refutacao-de-todas-as-heresias/ Tue, 24 Mar 2026 01:32:30 +0000 https://vcirculi.com/?p=40256 O post Hipólito de Roma em Refutação de Todas as Heresias apareceu primeiro em VCirculi.

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[1] Apeles, porém, discípulo desse herege, desagradou-se das afirmações apresentadas por seu mestre, como já declaramos antes.

[2] E, por outra teoria, supôs que há quatro deuses.

[3] E o primeiro destes, afirma ele, é o Ser Bom, a quem os profetas não conheceram, sendo Cristo o seu Filho.

[4] E o segundo Deus, diz ele, é o Criador do universo, a quem não deseja chamar de Deus.

[5] E o terceiro Deus, afirma, é o ser ígneo que se manifestou.

[6] E o quarto é um ser maligno.

[7] E Apeles chama estes de anjos.

[8] E, acrescentando Cristo ao número deles, fará dele também um quinto deus.

[9] Mas este herege costuma dedicar sua atenção a um livro que chama de Revelações de certa Filumena, a quem considera profetisa.

[10] E afirma que Cristo não recebeu sua carne da Virgem, mas da substância adjacente do mundo.

[11] Desta maneira compôs seus tratados contra a lei e os profetas.

[12] E tenta aboli-los como se tivessem falado falsidades e não tivessem conhecido a Deus.

[13] E Apeles, semelhantemente a Marcião, afirma que os diversos tipos de carne são destruídos.

[14] Cerinto, porém, tendo sido instruído no Egito, sustentou que o mundo não foi feito pelo primeiro Deus, mas por certo poder angélico.

[15] E esse poder estava muito separado e distante daquela soberania que está acima de todo o círculo da existência.

[16] E não conhece o Deus que está acima de todas as coisas.

[17] E ele diz que Jesus não nasceu de uma virgem.

[18] Mas que procedeu de José e Maria como filho deles, semelhante ao restante dos homens.

[19] E que excedia a todos os demais da humanidade em justiça, prudência e entendimento.

[20] E Cerinto sustenta que, após o batismo de Jesus, Cristo desceu sobre ele em forma de pomba, vindo da soberania que está acima de todo o círculo da existência.

[21] E que então passou a pregar o Pai desconhecido e a operar milagres.

[22] E ele afirma que, ao fim da paixão, Cristo voou para longe de Jesus.

[23] Mas que Jesus sofreu.

[24] E que Cristo permaneceu incapaz de sofrer, por ser espírito do Senhor.

[25] Os ebionitas, porém, afirmam que o mundo foi feito pelo verdadeiro Deus.

[26] E falam de Cristo de maneira semelhante a Cerinto.

[27] Vivem, contudo, em tudo de acordo com a lei de Moisés.

[28] Alegando que assim são justificados.

[29] Teódoto de Bizâncio, porém, introduziu uma heresia da seguinte espécie, afirmando que todas as coisas foram criadas pelo verdadeiro Deus.

[30] Quanto a Cristo, porém, declara, de modo semelhante ao sustentado pelos gnósticos já mencionados, que ele apareceu segundo certa modalidade como esta.

[31] E Teódoto afirma que Cristo é um homem de natureza semelhante à de todos os homens.

[32] Mas que os excede nisto: segundo o conselho de Deus, nasceu de uma virgem, e o Espírito Santo cobriu sua mãe com sua sombra.

[33] Este herege, porém, sustentava que Jesus não assumira carne no ventre da Virgem.

[34] Mas que depois Cristo desceu sobre Jesus no seu batismo em forma de pomba.

[35] E, a partir disso, os seguidores de Teódoto afirmam que, a princípio, os poderes miraculosos não operavam eficazmente no próprio Salvador.

[36] Teódoto, porém, decide negar a divindade de Cristo.

[37] Ora, opiniões desse tipo foram apresentadas por Teódoto.

[38] E outros também fazem todas as suas afirmações de modo semelhante às que já foram expostas.

[39] Introduzem uma única alteração, a saber, no que diz respeito a considerar Melquisedeque como certa potência.

[40] Mas afirmam que o próprio Melquisedeque é superior a todas as potências.

[41] E, conforme sua imagem, desejam sustentar que Cristo também foi gerado.

[42] Os frígios, porém, derivam os princípios de sua heresia de certo Montano, e de Priscila, e de Maximila.

[43] E consideram essas miseráveis mulheres como profetisas, e Montano como profeta.

[44] No que diz respeito, porém, à origem e à criação do universo, supõe-se que os frígios se expressem corretamente.

[45] E, nas doutrinas que enunciam acerca de Cristo, não formaram suas opiniões de modo totalmente impróprio.

[46] Mas são seduzidos ao erro em comum com os hereges antes mencionados.

[47] E dedicam sua atenção mais aos discursos desses do que aos evangelhos.

[48] Assim estabelecem regras acerca de jejuns novos e estranhos.

[49] Mas outros dentre eles, estando ligados à heresia dos noetianos, sustentam opiniões semelhantes às das tolas mulheres dos frígios e às de Montano.

[50] No que diz respeito, porém, às verdades relativas ao Pai de tudo o que existe, são culpados de blasfêmia.

[51] Porque afirmam que ele é Filho e Pai, visível e invisível, gerado e não gerado, mortal e imortal.

[52] Estes aproveitaram a ocasião oferecida por certo Noeto para apresentar sua heresia.

[53] Do mesmo modo, porém, também Noeto, natural de Esmirna por nascimento, homem dado a fala temerária e também astuto, introduziu entre nós esta heresia que teve origem em certo Epígono.

[54] Ela chegou a Roma.

[55] E foi adotada por Cleômenes.

[56] E assim continuou até hoje entre seus sucessores.

[57] Noeto afirma que há um só Pai e Deus do universo.

[58] E que ele fez todas as coisas.

[59] E que era imperceptível aos seres existentes quando assim o desejava.

[60] Noeto sustentava que o Pai então aparecia quando queria.

[61] E que é invisível quando não é visto, mas visível quando é visto.

[62] E este herege também afirma que o Pai é não gerado quando não é gerado.

[63] Mas gerado quando nasce de uma virgem.

[64] E também que não está sujeito ao sofrimento, e é imortal, quando não sofre nem morre.

[65] Quando, porém, sua paixão veio sobre ele, Noeto admite que o Pai sofre e morre.

[66] E os noetianos supõem que este mesmo Pai é chamado Filho, e vice-versa, em referência aos acontecimentos que sucedem a cada um deles em seus próprios tempos.

[67] Calisto corroborou a heresia desses noetianos.

[68] Mas já explicamos cuidadosamente os detalhes de sua vida.

[69] E o próprio Calisto também produziu uma heresia.

[70] E tirou seus pontos de partida desses noetianos.

[71] A saber, na medida em que reconhece que existe um só Pai e Deus, isto é, o Criador do universo.

[72] E que este Deus é mencionado e chamado pelo nome de Filho.

[73] Contudo, quanto à substância, ele é um só Espírito.

[74] Porque o Espírito, sendo a Divindade, diz ele, não é algum ser diferente do Logos, nem o Logos é diferente da Divindade.

[75] Portanto, essa única pessoa, segundo Calisto, é dividida nominalmente, mas não substancialmente.

[76] Ele supõe que esse único Logos é Deus.

[77] E afirma que houve, no caso da Palavra, uma encarnação.

[78] E está inclinado a sustentar que aquele que foi visto na carne e crucificado é o Filho.

[79] Mas que o Pai é aquele que habita nele.

[80] Assim Calisto, ora se desvia para a opinião de Noeto, ora para a de Teódoto.

[81] E não mantém doutrina segura.

[82] Estas, então, são as opiniões de Calisto.

[83] Mas certo Hermógenes também, desejando dizer algo, afirmou que Deus fez todas as coisas a partir de matéria coeterna consigo mesmo e sujeita ao seu desígnio.

[84] Pois Hermógenes sustentava ser impossível que Deus fizesse as coisas que foram feitas senão a partir de coisas já existentes.

[85] Mas certos outros, introduzindo por assim dizer algum ensinamento novo, apropriaram-se de partes do sistema de todas as heresias.

[86] E obtiveram um livro estranho, cujo título trazia o nome de um tal Elchasai.

[87] Estes, do mesmo modo, reconhecem que os princípios do universo tiveram origem na Divindade.

[88] Contudo, não confessam que há um só Cristo.

[89] Mas que há um que é superior aos demais.

[90] E que ele é frequentemente difundido em muitos corpos.

[91] E que agora estava em Jesus.

[92] E, do mesmo modo, esses hereges sustentam que, em certo tempo, Cristo foi gerado por Deus.

[93] E em outro tempo tornou-se Espírito.

[94] E em outro tempo nasceu de uma virgem.

[95] E em outro tempo, não.

[96] E afirmam que, semelhantemente, esse Jesus depois continuou sendo continuamente difundido em corpos.

[97] E manifestou-se em muitos corpos diferentes em tempos diferentes.

[98] E recorrem a encantamentos e batismos em sua confissão dos elementos.

[99] E ocupam-se com atividade agitada em relação à ciência astrológica e matemática, e às artes da feitiçaria.

[100] Mas também alegam possuir poderes de presciência.

[101] De Harã, cidade da Mesopotâmia, Abraão, por ordem de Deus, transferiu sua morada para a terra que agora é chamada Palestina e Judeia, mas que então era a região de Canaã.

[102] A respeito desse território já demos, em parte, mas não sem diligência, explicação em outros discursos.

[103] A partir dessa migração, portanto, pode-se rastrear o início do crescimento populacional na Judeia.

[104] Esta recebeu seu nome de Judá, o quarto filho de Jacó, cujo nome também foi chamado Israel, pelo fato de que dele descenderia uma raça de reis.

[105] Abraão saiu da Mesopotâmia aos setenta e cinco anos.

[106] E, aos cem anos, gerou Isaque.

[107] Isaque, porém, aos sessenta anos de idade, gerou Jacó.

[108] E Jacó, aos oitenta e seis anos, gerou Levi.

[109] E Levi, aos quarenta anos de idade, gerou Coate.

[110] E Coate tinha quatro anos de idade quando desceu com Jacó ao Egito.

[111] Portanto, todo o período durante o qual Abraão peregrinou, e toda a família que dele descendeu por meio de Isaque, na terra então chamada Canaã, foi de duzentos e quinze anos.

[112] Mas o pai desse Abraão é Terá.

[113] E de Terá o pai é Naor.

[114] E de Naor o pai é Serugue.

[115] E de Serugue o pai é Reú.

[116] E de Reú o pai é Pelegue.

[117] E de Pelegue, o pai é Héber.

[118] E assim aconteceu que os judeus foram denominados pelo nome de hebreus.

[119] No tempo de Pelegue, porém, ocorreu a dispersão das nações.

[120] Ora, essas nações eram setenta e duas, correspondendo ao número dos filhos de Abraão.

[121] E os nomes dessas nações também os registramos em outros livros, sem omitir esse ponto em seu devido lugar.

[122] E a razão de nosso cuidado detalhado é o desejo de manifestar aos que têm disposição estudiosa o amor que nutrimos para com a Divindade.

[123] E o conhecimento indubitável acerca da Verdade, do qual, no curso de nossos trabalhos, tomamos posse.

[124] Mas o pai desse Héber é Salá.

[125] E de Salá o pai é Cainã.

[126] E de Cainã o pai é Arfaxade.

[127] E o pai deste é Sem.

[128] E de Sem o pai é Noé.

[129] E no tempo de Noé ocorreu um dilúvio sobre o mundo inteiro.

[130] Dilúvio esse que nem egípcios, nem caldeus, nem gregos recordam.

[131] Pois as inundações que aconteceram nos tempos de Ogiges e Deucalião prevaleceram apenas nas regiões onde estes habitavam.

[132] Há, então, no caso desses patriarcas, isto é, de Noé até Héber inclusive, cinco gerações e quatrocentos e noventa e cinco anos.

[133] Este Noé, por ser homem extremamente piedoso e amante de Deus, sozinho, com sua esposa, seus filhos e as três esposas deles, escapou do dilúvio que sobreveio.

[134] E devia sua preservação a uma arca.

[135] E tanto as dimensões quanto os restos dessa arca, como explicamos, são mostrados até hoje nos montes chamados Ararate.

[136] Estes estão situados na direção da região dos adiabênios.

[137] É, então, possível para os que desejam investigar diligentemente o assunto perceber quão claramente foi demonstrada a existência de uma nação de adoradores do verdadeiro Deus mais antiga que todos os caldeus, egípcios e gregos.

[138] Que necessidade há, porém, no presente, de especificar aqueles que, antes de Noé, eram tanto homens piedosos quanto pessoas autorizadas a manter conversa com o verdadeiro Deus?

[139] Pois, quanto ao assunto em questão, este testemunho acerca da antiguidade do povo de Deus é suficiente.

[140] Mas, visto que não parece irracional provar que essas nações, cuja atenção esteve absorvida nas especulações da filosofia, são de data mais recente do que aquelas que habitualmente adoravam o verdadeiro Deus, é razoável que expliquemos tanto de onde se originou a família destes últimos quanto que, ao habitarem essas terras, não receberam nome dos próprios locais, mas tomaram para si nomes daqueles que nasceram primeiro e ali habitaram.

[141] Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafé.

[142] A partir destes, multiplicou-se toda a família humana.

[143] E cada região da terra deve seus habitantes, em primeira instância, a eles.

[144] Pois a palavra de Deus dirigida a eles prevaleceu, quando o Senhor disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra”.

[145] Tão grande eficácia teve essa única palavra, que dos três filhos de Noé nasceram, em sua descendência, setenta e dois filhos.

[146] De Sem, vinte e cinco.

[147] De Jafé, quinze.

[148] E de Cam, trinta e dois.

[149] A Cam, porém, nasceram esses trinta e dois filhos segundo o que antes foi declarado.

[150] E entre os filhos de Cam estão Canaã, de quem vieram os cananeus.

[151] Mizraim, de quem vieram os egípcios.

[152] Cuxe, de quem vieram os etíopes.

[153] E Pute, de quem vieram os líbios.

[154] Estes, segundo a língua usada entre eles, até o presente são chamados pelo nome de seus antepassados.

[155] Sim, até mesmo na língua grega são chamados pelos nomes pelos quais agora foram designados.

[156] Mas, ainda que se supusesse que essas regiões não tivessem sido previamente habitadas, nem se pudesse provar que nelas existiu uma raça de homens desde o princípio, ainda assim esses filhos de Noé, adorador de Deus, são plenamente suficientes para provar o ponto em debate.

[157] Pois é evidente que o próprio Noé deve ter sido discípulo de homens piedosos.

[158] E por essa razão escapou da tremenda, embora passageira, ameaça das águas.

[159] Como, então, não seriam os adoradores do verdadeiro Deus mais antigos do que todos os caldeus, egípcios e gregos?

[160] Pois devemos ter em mente que o pai desses gentios nasceu de Jafé.

[161] E recebeu o nome de Javã.

[162] E tornou-se progenitor dos gregos e dos jônios.

[163] Ora, se se mostra que as nações que se dedicaram às questões da filosofia pertencem a um período totalmente mais recente do que a linhagem dos adoradores de Deus, bem como do que o tempo do dilúvio, como não pareceriam as nações dos bárbaros, e tantas tribos quantas são conhecidas e desconhecidas no mundo, pertencer a época ainda mais recente do que estas?

[164] Portanto, vós gregos, egípcios, caldeus e toda a raça dos homens, tornai-vos discípulos desta doutrina.

[165] E aprendei conosco, que somos amigos de Deus, qual é a natureza de Deus e qual é a sua criação bem ordenada.

[166] E cultivamos este sistema, não nos expressando em mera linguagem pomposa.

[167] Mas compondo nossos tratados em termos que demonstram nosso conhecimento da verdade e nossa prática do bom senso.

[168] Sendo nosso objetivo a demonstração da Verdade.

[169] O primeiro e único Deus, tanto Criador quanto Senhor de tudo, nada tinha coeterno consigo mesmo.

[170] Nem caos infinito.

[171] Nem água imensurável.

[172] Nem terra sólida.

[173] Nem ar denso.

[174] Nem fogo quente.

[175] Nem espírito refinado.

[176] Nem a abóbada azul do estupendo firmamento.

[177] Mas Ele era Um, só em si mesmo.

[178] Pelo exercício de sua vontade, criou as coisas que existem, as quais antes não existiam, exceto enquanto Ele quis fazê-las.

[179] Pois Ele conhece perfeitamente tudo o que está prestes a acontecer.

[180] Porque também a presciência lhe está presente.

[181] Os diferentes princípios, porém, do que viria a existir, Ele primeiro fabricou, a saber: fogo e espírito, água e terra.

[182] E, a partir desses diversos elementos, passou a formar a sua própria criação.

[183] E alguns objetos Ele formou de uma só essência.

[184] Outros, porém, compôs de duas.

[185] Outros, de três.

[186] E outros, de quatro.

[187] E os que foram formados de uma só substância eram imortais.

[188] Pois, no caso deles, não se segue dissolução, porque aquilo que é uno nunca será dissolvido.

[189] Aqueles, por outro lado, que são formados de duas, ou três, ou quatro substâncias, são dissolúveis.

[190] Por isso também são chamados mortais.

[191] Pois isto foi denominado morte: a dissolução das substâncias ligadas entre si.

[192] Penso agora, portanto, que já respondi suficientemente àqueles dotados de mente sã.

[193] E, se desejarem instrução adicional e estiverem dispostos a investigar com precisão as substâncias dessas coisas e as causas da criação inteira, conhecerão esses pontos se lerem uma obra nossa intitulada Sobre a Substância do Universo.

[194] Considero, porém, que por ora basta esclarecer aquelas causas das quais os gregos, ignorando-as, glorificaram com linguagem pomposa as partes da criação, ao passo que permaneceram ignorantes quanto ao Criador.

[195] E desses os heresiarcas tomaram ocasião.

[196] E transformaram em doutrinas semelhantes as afirmações anteriormente feitas por aqueles gregos.

[197] E assim moldaram heresias ridículas.

[198] Portanto, esta Divindade solitária e suprema, por um ato de reflexão, gerou primeiro o Logos.

[199] Não a palavra no sentido de um som articulado pela voz, mas como a razão do universo, concebida e residente na mente divina.

[200] Somente a ele produziu a partir das coisas existentes.

[201] Pois o próprio Pai constituía a existência.

[202] E aquele que nasceu dele foi a causa de todas as coisas que são produzidas.

[203] O Logos estava no próprio Pai, trazendo em si a vontade de seu gerador.

[204] E não ignorando a mente do Pai.

[205] Pois, simultaneamente com seu sair de seu Gerador, visto que é o primogênito deste, possui em si, como voz, as ideias concebidas no Pai.

[206] E assim foi que, quando o Pai ordenou que o mundo viesse à existência, o Logos, um por um, completou cada objeto da criação, agradando assim a Deus.

[207] E as coisas que se multiplicam pela geração, ele as formou macho e fêmea.

[208] Mas todos os seres destinados ao serviço e à ministração, fê-los ou machos, ou sem necessidade de fêmeas, ou nem machos nem fêmeas.

[209] Pois até as substâncias primárias destes, que foram formadas a partir do não-ser, a saber, fogo e espírito, água e terra, não são nem masculinas nem femininas.

[210] Nem poderia macho ou fêmea proceder de qualquer uma dessas, a menos que Deus, que é a fonte de toda autoridade, quisesse que o Logos prestasse ajuda na realização de uma produção desse tipo.

[211] Confesso que os anjos são de fogo.

[212] E afirmo que não existem espíritos femininos entre eles.

[213] E sou de opinião que também sol, lua e estrelas são produzidos de fogo e espírito.

[214] E não são nem masculinos nem femininos.

[215] E a vontade do Criador é que os animais nadadores e os alados procedam da água, machos e fêmeas.

[216] Pois assim Deus, cuja vontade era essa, ordenou que existisse uma substância úmida dotada de poder reprodutivo.

[217] E semelhantemente Deus ordenou que da terra surgissem os répteis e os quadrúpedes, assim como machos e fêmeas de toda espécie de animais.

[218] Pois assim a natureza das coisas produzidas o admitia.

[219] Pois tudo quanto Ele quis, Deus fez em seu devido tempo.

[220] Estas coisas Ele criou por meio do Logos.

[221] Pois não era possível que as coisas fossem geradas de outro modo senão como foram produzidas.

[222] Mas quando, conforme quis, também formou esses objetos, chamou-os por nomes.

[223] E assim deu a conhecer sua obra criadora.

[224] E, fazendo estas coisas, formou o governante de tudo.

[225] E o modelou a partir de todas as substâncias compostas.

[226] O Criador não quis fazê-lo deus e falhou em seu intento.

[227] Nem quis fazê-lo anjo — não te deixes enganar.

[228] Mas homem.

[229] Pois, se quisesse fazer-te um deus, poderia tê-lo feito.

[230] Tens o exemplo do Logos.

[231] Sua vontade, porém, foi que fosses homem.

[232] E fez-te homem.

[233] Mas, se desejas também tornar-te deus, obedece àquele que te criou.

[234] E não resistas agora.

[235] Para que, sendo achado fiel no pouco, possas ser habilitado a receber também o muito.

[236] O Logos somente deste Deus procede do próprio Deus.

[237] Por isso também o Logos é Deus, sendo a substância de Deus.

[238] Ora, o mundo foi feito do nada.

[239] Portanto, não é Deus.

[240] Também porque este mundo admite dissolução sempre que o Criador assim o queira.

[241] Mas Deus, que o criou, não fez nem faz o mal.

[242] Ele faz o que é glorioso e excelente.

[243] Pois aquele que faz isso é bom.

[244] Ora, o homem, que foi trazido à existência, era uma criatura dotada de capacidade de autodeterminação.

[245] Contudo, não possuía intelecto soberano.

[246] Nem dominava todas as coisas por reflexão, autoridade e poder.

[247] Antes, era escravo de suas paixões.

[248] E compreendia em si todo tipo de contrariedades.

[249] Mas o homem, pelo fato de possuir capacidade de autodeterminação, produz o mal, isto é, acidentalmente.

[250] E esse mal não se consuma a menos que efetivamente pratiques alguma maldade.

[251] Pois é a respeito de desejarmos algo perverso, ou meditarmos sobre isso, que o mal recebe tal nome.

[252] O mal não existia desde o princípio.

[253] Mas veio a existir depois.

[254] Como o homem tem livre-arbítrio, uma lei foi definida pela Divindade para sua orientação, e não sem boa finalidade.

[255] Pois, se o homem não tivesse o poder de querer e de não querer, por que seria estabelecida uma lei?

[256] Pois a lei não será dada a um animal desprovido de razão, mas um freio e um chicote.

[257] Ao passo que ao homem foi dado um preceito e uma pena, para executar ou não executar o que foi ordenado.

[258] A esse homem assim constituído foi promulgada uma lei por homens justos nos tempos primitivos.

[259] Mais perto de nossos dias, foi estabelecida uma lei cheia de gravidade e justiça por Moisés, de quem já se falou, homem piedoso e amado de Deus.

[260] Ora, o Logos de Deus governa todas essas coisas.

[261] O Filho primogênito do Pai.

[262] A voz da Aurora antes da Estrela da Manhã.

[263] Depois nasceram homens justos, amigos de Deus.

[264] E estes foram chamados profetas, por terem anunciado antecipadamente acontecimentos futuros.

[265] E a palavra da profecia foi confiada a eles, não apenas para uma única era.

[266] Mas também os oráculos acerca de acontecimentos preditos para todas as gerações lhes foram concedidos com perfeita clareza.

[267] E isso não apenas no tempo em que os videntes davam resposta aos presentes.

[268] Mas também os acontecimentos que se dariam ao longo de todas as eras foram de antemão manifestados.

[269] Porque, falando de eventos passados, os profetas os trouxeram de volta à lembrança da humanidade.

[270] Ao mostrarem os acontecimentos presentes, procuraram persuadir os homens a não serem negligentes.

[271] E, ao predizerem eventos futuros, fizeram cada um de nós tremer ao ver eventos que tinham sido preditos muito tempo antes.

[272] E também ao esperar os eventos ainda futuros que foram preditos.

[273] Tal é a nossa fé, ó todos vós homens.

[274] Nossa, digo, nós que não somos persuadidos por expressões vazias.

[275] Nem arrebatados por impulsos súbitos do coração.

[276] Nem enganados pela plausibilidade de discursos eloquentes.

[277] E, contudo, não nos recusamos a obedecer às palavras que foram proferidas pelo poder divino.

[278] E essas injunções Deus deu ao Logos.

[279] Mas o Logos, ao declará-las, promulgou os mandamentos divinos.

[280] E assim desviou o homem da desobediência.

[281] Não o conduzindo à servidão por força de necessidade.

[282] Mas chamando-o à liberdade por meio de uma escolha que envolve espontaneidade.

[283] Este Logos o Pai enviou nos últimos dias, não mais para falar por meio de um profeta.

[284] E não querendo que a Palavra, proclamada obscuramente, fosse objeto de mera conjectura.

[285] Mas quis que ela fosse manifestada, para que pudéssemos vê-la com nossos próprios olhos.

[286] Este Logos, digo, o Pai enviou para que o mundo, ao contemplá-lo, reverenciasse aquele que entregava preceitos não por intermédio de profetas, nem aterrorizando a alma por meio de um anjo, mas sendo ele próprio, aquele que havia falado, corporalmente presente entre nós.

[287] Sabemos que este Logos recebeu um corpo de uma virgem.

[288] E que remodelou o homem antigo por uma nova criação.

[289] E cremos que o Logos passou por cada período desta vida.

[290] Para que ele mesmo servisse de lei para cada idade.

[291] E para que, estando presente entre nós, mostrasse sua própria humanidade como alvo para todos os homens.

[292] E para que, em sua própria pessoa, demonstrasse que Deus nada fez de mau.

[293] E que o homem possui capacidade de autodeterminação.

[294] Visto que pode querer e não querer.

[295] E está dotado de poder para fazer ambas as coisas.

[296] Sabemos que este Homem foi formado a partir do composto da nossa humanidade.

[297] Pois, se não fosse da mesma natureza que nós, em vão nos ordenaria imitar o Mestre.

[298] Porque, se aquele Homem fosse de substância diferente da nossa, por que me imporia mandamentos semelhantes aos que ele próprio recebeu, a mim que nasci fraco?

[299] E como isso seria ato de alguém bom e justo?

[300] Para que, porém, não se supusesse que ele fosse diferente de nós, submeteu-se até mesmo ao cansaço.

[301] E quis suportar a fome.

[302] E não recusou sentir sede.

[303] E entregou-se ao repouso do sono.

[304] Não resistiu à sua paixão.

[305] Mas tornou-se obediente até a morte.

[306] E manifestou sua ressurreição.

[307] Ora, em todos esses atos, ofereceu a sua própria humanidade como primícias.

[308] Para que tu, quando estiveres em tribulação, não desfaleças.

[309] Mas, confessando-te homem da mesma natureza que o Redentor, vivas na expectativa de também receberes aquilo que o Pai concedeu a este Filho.

[310] Tal é a verdadeira doutrina acerca da natureza divina, ó homens, gregos e bárbaros, caldeus e assírios, egípcios e líbios, indianos e etíopes, celtas, e vós latinos que conduzis exércitos, e todos vós que habitais a Europa, a Ásia e a Líbia.

[311] E a vós me tornei conselheiro, porque sou discípulo do Logos benigno e, por isso, humano.

[312] Para que vos apresseis e sejais por nós ensinados quanto a quem é o verdadeiro Deus e qual é a sua criação bem ordenada.

[313] Não dediqueis vossa atenção às falácias de discursos artificiais.

[314] Nem às vãs promessas de hereges plagiadores.

[315] Mas à venerável simplicidade da verdade sem ostentação.

[316] E, por meio deste conhecimento, escapareis da ameaça iminente do fogo do juízo.

[317] E da paisagem sem raios do escuro Tártaro.

[318] Onde jamais brilha um raio da voz irradiante do Logos.

[319] Escapareis da torrente fervente do lago eterno de fogo do inferno.

[320] E do olhar sempre fixo e ameaçador dos anjos caídos acorrentados no Tártaro como punição por seus pecados.

[321] E escapareis do verme que se enrosca sem cessar em busca de alimento ao redor do corpo cujo pus o gerou.

[322] Tais tormentos, então, evitareis, sendo instruídos no conhecimento do verdadeiro Deus.

[323] E possuireis um corpo imortal.

[324] Sim, um corpo colocado além da possibilidade de corrupção, assim como a alma.

[325] E recebereis o reino dos céus, vós que, enquanto peregrinastes nesta vida, conhecestes o Rei celestial.

[326] E sereis companheiros da Divindade e coerdeiros com Cristo.

[327] Já não escravizados por desejos ou paixões.

[328] E nunca mais consumidos pela doença.

[329] Pois vos tornastes deuses.

[330] Porque todos os sofrimentos que experimentastes enquanto homem, estes Ele vos deu.

[331] Porque éreis de matéria mortal.

[332] Mas tudo aquilo que convém a Deus conceder, isso Deus prometeu dar-vos.

[333] Porque fostes deificados e gerados para a imortalidade.

[334] Este é o sentido do provérbio: “Conhece-te a ti mesmo”.

[335] Isto é, descobre Deus em ti mesmo.

[336] Pois Ele te formou segundo a sua própria imagem.

[337] Porque com o conhecimento de si mesmo está unido o ser conhecido por Deus.

[338] Pois tu és chamado pelo próprio Deus.

[339] Portanto, não vos inflameis, ó homens, com inimizade uns contra os outros.

[340] Nem hesiteis em refazer com toda rapidez os vossos passos.

[341] Porque Cristo é o Deus acima de todos.

[342] E Ele providenciou apagar o pecado dos seres humanos, regenerando o homem antigo.

[343] E Deus chamou o homem, desde o princípio, de sua semelhança.

[344] E demonstrou em figura o seu amor por ti.

[345] E, se obedeceres às suas solenes injunções e te tornares fiel seguidor daquele que é bom, serás semelhante a Ele.

[346] Porque receberás honra concedida por Ele.

[347] Pois a Divindade, por condescendência, não diminui em nada a perfeição de sua divindade.

[348] Tendo-te feito até mesmo deus para sua glória.

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Hipólito de Roma em Refutação de Todas as Heresias 30 https://vcirculi.com/hipolito-de-roma-em-refutacao-de-todas-as-heresias-30/ Tue, 24 Mar 2026 01:14:22 +0000 https://vcirculi.com/?p=40490 Aviso ao leitor Este livro – Hipólito de Roma — “Refutação de Todas as Heresias”, frequentemente associado ao título Philosophumena – é apresentado aqui como literatura patrística (séc. III), de...

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[1] Depois de termos, não com violência, rompido o labirinto das heresias, mas antes desenredado suas intrincações apenas por meio da refutação, ou, em outras palavras, pela força da verdade, aproximamo-nos agora da própria demonstração da verdade.

[2] Pois então os sofismas artificiais do erro serão expostos em toda a sua inconsistência, quando conseguirmos estabelecer de onde foi derivada a definição da verdade.

[3] A verdade não tomou seus princípios da sabedoria dos gregos.

[4] Nem tomou emprestadas suas doutrinas, como mistérios secretos, dos ensinos dos egípcios, que, embora tolos, são entre eles reverenciados religiosamente como dignos de confiança.

[5] Nem foi formada a partir das falácias que enunciam as conclusões incoerentes da curiosidade dos caldeus.

[6] Nem a verdade deve sua existência ao espanto produzido pelas operações de demônios, segundo o frenesi irracional dos babilônios.

[7] Mas sua definição é constituída do modo como toda verdadeira definição deve ser, isto é, simples e sem adornos.

[8] Uma definição como essa, uma vez tornada manifesta, por si mesma refutará o erro.

[9] E, embora tenhamos muitas vezes apresentado demonstrações e elucidado com suficiente amplitude, para os que desejam aprender, a regra da verdade, ainda assim, depois de termos discutido todas as opiniões apresentadas pelos gregos e pelos hereges, decidimos não ser de todo irrazoável introduzir, como espécie de acabamento dos nove livros precedentes, esta demonstração ao longo do décimo livro.

[10] Tendo, portanto, abrangido em quatro livros as doutrinas de todos os sábios entre os gregos e em cinco as doutrinas propostas pelos heresiarcas, agora apresentaremos em um só livro a doutrina concernente à verdade, tendo primeiro exposto resumidamente as suposições sustentadas por cada um deles.

[11] Pois os dogmáticos entre os gregos, dividindo a filosofia em três partes, conceberam de tempos em tempos seus sistemas especulativos.

[12] Alguns chamaram o seu sistema de Filosofia Natural.

[13] Outros, de Filosofia Moral.

[14] Outros, porém, de Filosofia Dialética.

[15] E os antigos pensadores que chamaram sua ciência de Filosofia Natural são aqueles mencionados no livro primeiro.

[16] E a exposição que eles fizeram foi desta maneira.

[17] Alguns derivavam todas as coisas de um só princípio.

[18] Outros, porém, de mais de um princípio.

[19] E dentre os que derivavam todas as coisas de um só, alguns as derivavam daquilo que era destituído de qualidade.

[20] Outros, porém, daquilo que era dotado de qualidade.

[21] E dentre os que derivavam todas as coisas da qualidade, alguns as derivavam do fogo.

[22] Outros, do ar.

[23] Outros, da água.

[24] Outros, da terra.

[25] E dentre os que derivavam o universo de mais de um princípio, alguns o derivavam de quantidades numeráveis.

[26] Outros, porém, de quantidades infinitas.

[27] E dentre os que derivavam todas as coisas de quantidades numeráveis, alguns as derivavam de dois princípios.

[28] Outros, de quatro.

[29] Outros, de cinco.

[30] Outros, de seis.

[31] E dentre os que derivavam o universo de quantidades infinitas, alguns derivavam os entes de coisas semelhantes às que são geradas.

[32] Outros, porém, de coisas dessemelhantes.

[33] E dentre estes, alguns derivavam os entes de coisas incapazes de padecimento.

[34] Outros, de coisas capazes de padecimento.

[35] Os estoicos, então, explicavam a geração do universo a partir de um corpo destituído de qualidade, mas dotado de unidade.

[36] Pois, segundo eles, a matéria destituída de qualidade, e em todas as suas partes suscetível de mudança, constitui um princípio originário do universo.

[37] Porque, quando nela ocorre uma alteração, são gerados fogo, ar, água e terra.

[38] Os seguidores de Hípaso, de Anaximandro e de Tales de Mileto, porém, inclinam-se a pensar que todas as coisas foram geradas a partir de um único ente dotado de qualidade.

[39] Hípaso de Metaponto e Heráclito de Éfeso declararam que a origem das coisas provinha do fogo.

[40] Anaximandro, do ar.

[41] Mas Tales, da água.

[42] E Xenófanes, da terra.

[43] Pois da terra, diz ele, procedem todas as coisas, e todas as coisas terminam na terra.

[44] Mas dentre os que derivam todos os entes de mais de um princípio e de quantidades numeráveis, o poeta Homero afirma que o universo consiste em duas substâncias, a saber, terra e água.

[45] Em certa ocasião ele se expressa assim: “A fonte dos deuses era o Mar e a Mãe Terra”.

[46] E em outra assim: “Mas, de fato, todos vós poderíeis tornar-vos água e terra”.

[47] E Xenófanes de Colofão parece concordar com ele.

[48] Pois diz: “Todos nós procedemos da água e da terra”.

[49] Eurípides, porém, deriva o universo da terra e do ar.

[50] Como se pode perceber da seguinte afirmação sua: “Mãe de todos, eu canto o ar e a terra”.

[51] Empédocles, por sua vez, deriva o universo de quatro princípios.

[52] Expressa-se assim: “Ouve primeiro as quatro raízes de todas as coisas: o brilhante Zeus, e Juno vivificadora, e Aidoneu, e Nestis, que com lágrimas irriga a fonte mortal”.

[53] Ocelos, o lucano, e Aristóteles, porém, derivam o universo de cinco princípios.

[54] Pois, além dos quatro elementos, supõem a existência de um quinto.

[55] E afirmam que este é um corpo de movimento circular.

[56] E dizem que dele têm sua existência as coisas celestiais.

[57] Os discípulos de Empédocles, porém, supuseram que a geração do universo procede de seis princípios.

[58] Pois, na passagem em que ele diz: “Ouve primeiro as quatro raízes de todas as coisas”, ele produz a geração a partir de quatro princípios.

[59] Mas, quando acrescenta: “A ruinosa Discórdia separada delas, igual em todos os aspectos, e com elas a Amizade igual em comprimento e largura”, então também apresenta seis princípios do universo.

[60] Quatro deles são materiais: terra, água, fogo e ar.

[61] E dois são formativos: Amizade e Discórdia.

[62] Os seguidores de Anaxágoras de Clazômenas, de Demócrito, de Epicuro e de muitos outros deram como sua opinião que a geração do universo procede de um número infinito de átomos.

[63] E já fizemos antes menção parcial desses filósofos.

[64] Mas Anaxágoras deriva o universo de coisas semelhantes às que estão sendo produzidas.

[65] Ao passo que os seguidores de Demócrito e Epicuro derivam o universo de coisas tanto dessemelhantes aos entes produzidos quanto destituídas de padecimento, isto é, de átomos.

[66] Os seguidores de Heráclides do Ponto e de Asclepíades, porém, derivam o universo de coisas dessemelhantes aos entes produzidos e capazes de padecimento, como se fossem corpúsculos incongruentes.

[67] Os discípulos de Platão, entretanto, afirmam que os entes procedem de três princípios: Deus, Matéria e Modelo.

[68] Ele divide a matéria, porém, em quatro princípios: fogo, água, terra e ar.

[69] E diz que Deus é o Criador dessa matéria.

[70] E que a Mente é o seu modelo.

[71] Persuadidos, então, de que o princípio da fisiologia é confessadamente para todos esses filósofos um campo carregado de dificuldades, nós também declararemos sem temor como são os exemplos da verdade e conforme estamos persuadidos de que realmente são.

[72] Mas, antes, faremos uma exposição resumida das doutrinas dos heresiarcas.

[73] Para que, tendo colocado diante dos leitores os ensinos de todos, devidamente conhecidos por meio desse plano de tratamento, possamos expor a verdade de maneira clara e familiar.

[74] Mas, já que assim parece conveniente, comecemos primeiro pelos adoradores públicos da serpente.

[75] Os naassenos chamam o primeiro princípio do universo de Homem.

[76] E dizem que esse mesmo é também Filho do Homem.

[77] E dividem esse homem em três partes.

[78] Pois dizem que uma parte dele é racional.

[79] Outra, psíquica.

[80] E uma terceira, terrena.

[81] E lhe dão o nome de Adamas.

[82] E supõem que o conhecimento que lhe pertence é a causa originária da capacidade de conhecer a Deus.

[83] E o naasseno afirma que todas essas qualidades racionais, psíquicas e terrenas recolheram-se em Jesus.

[84] E que por meio dele essas três substâncias falaram simultaneamente aos três gêneros do universo.

[85] Eles alegam que há três tipos de existência: angélica, psíquica e terrena.

[86] E que há três igrejas: angélica, psíquica e terrena.

[87] E os nomes dessas são: escolhida, chamada e cativa.

[88] Estes são os pontos principais da doutrina apresentada por eles, na medida em que se pode compreendê-los brevemente.

[89] Eles afirmam que Tiago, irmão do Senhor, entregou esses ensinamentos a Mariamne, e com tal afirmação mentem a respeito de ambos.

[90] Os peratas, porém, a saber, Ademes, o carístio, e Eufrates, o perático, dizem que existe um certo mundo — esta é a denominação que usam — e afirmam que ele está dividido em três partes.

[91] Mas, dessa divisão tríplice, segundo eles, existe um só princípio, como uma fonte imensa, capaz de ser dividida, em razão, em segmentos infinitos.

[92] E o primeiro segmento, e o mais próximo, segundo eles, é a tríade.

[93] E é chamado bem perfeito e grandeza paternal.

[94] Mas a segunda porção da tríade é uma certa multidão de poderes, por assim dizer, infinitos.

[95] A terceira parte, porém, é formal.

[96] E a primeira é não gerada.

[97] De onde afirmam expressamente que existem três deuses, três logoi, três mentes e três homens.

[98] Pois, uma vez realizada a divisão, a cada parte do mundo atribuem deuses, logoi, homens e o restante.

[99] Mas do alto, da não geração e do primeiro segmento do mundo, depois que o mundo alcançou sua consumação, o perático afirma que desceu, nos dias de Herodes, um certo homem de natureza tríplice, corpo tríplice e poder tríplice, chamado Cristo.

[100] E que ele possui em si mesmo, a partir das três partes do mundo, todas as concreções e capacidades do mundo.

[101] E pensam que isso é o que foi declarado: “Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”.

[102] E afirmam que dos dois mundos situados acima, a saber, o não gerado e o auto-gerado, foram trazidos a este mundo em que estamos germes de toda sorte de poderes.

[103] E dizem que Cristo desceu do alto, da não geração, para que, por sua descida, todas as coisas que foram divididas em três partes fossem salvas.

[104] Pois, diz o perático, as coisas que foram trazidas de cima subirão por meio dele.

[105] E as coisas que conspiraram contra aquelas que foram trazidas de cima são rejeitadas imprudentemente e enviadas para punição.

[106] E o perático afirma que existem duas partes que são salvas, isto é, as que estão acima, por terem sido separadas da corrupção.

[107] E a terceira é destruída.

[108] E a isso ele chama mundo formal.

[109] Estas também são as doutrinas dos peratas.

[110] Mas aos sethianos parece que existem três princípios, definidos com exatidão.

[111] E cada um desses princípios é apto por natureza a poder gerar, assim como em uma alma humana toda arte capaz de ser aprendida se desenvolve.

[112] O resultado é o mesmo que quando uma criança, ao conviver longamente com um instrumento musical, se torna músico.

[113] Ou com a geometria, geômetra.

[114] Ou com qualquer outra arte, com resultado semelhante.

[115] E as essências dos princípios, dizem os sethianos, são luz e trevas.

[116] E no meio destas está o espírito puro.

[117] E o espírito, dizem eles, é o que está colocado entre as trevas, que estão abaixo, e a luz, que está acima.

[118] Não é espírito como corrente de vento ou como certa brisa suave que se possa sentir.

[119] Mas como se fosse certa fragrância de unguento ou de incenso feito de uma mistura refinada.

[120] Um poder que se difunde por certo impulso de perfume, inconcebível e superior ao que se pode exprimir.

[121] Visto, portanto, que a luz está acima e as trevas abaixo, e o espírito está entre ambas, a luz também, como um raio do sol, brilha de cima sobre as trevas subjacentes.

[122] E a fragrância do espírito é levada adiante, ocupando posição intermediária, e se derrama, assim como se espalha o odor das ofertas de incenso postas sobre o fogo.

[123] Ora, sendo desse tipo o poder das coisas divididas em três, o poder simultâneo do espírito e da luz está abaixo, nas trevas que se encontram embaixo.

[124] As trevas, porém, dizem eles, são uma água horrível, na qual a luz, juntamente com o espírito, é absorvida e assim transferida para uma natureza desse tipo.

[125] As trevas, então, tendo sido dotadas de inteligência, e sabendo que, quando a luz é retirada delas, permanecem desoladas, privadas de brilho e esplendor, poder e eficácia, bem como impotentes, fazem, por todo esforço de reflexão e raciocínio, um movimento para apreender em si mesmas o brilho, a cintilação da luz e também a fragrância do espírito.

[126] E para isso introduzem a seguinte imagem, exprimindo-se assim.

[127] Assim como a pupila do olho aparece escura sob os humores subjacentes, mas é iluminada pelo espírito, assim as trevas se esforçam intensamente em direção ao espírito e têm consigo todos os poderes que desejam retirar-se e retornar.

[128] Ora, estes são indefinidamente infinitos.

[129] E deles, quando misturados, todas as coisas são moldadas e geradas como selos.

[130] Pois assim como um selo, quando posto em contato com a cera, produz uma figura, e contudo ele mesmo permanece o que era, assim também os poderes, ao entrarem em comunhão uns com os outros, formam todas as espécies infinitas de animais.

[131] Os sethianos afirmam, portanto, que do primeiro concurso dos três princípios foi gerada uma imagem do grande selo, a saber, céu e terra.

[132] Tendo forma semelhante a um ventre e possuindo um umbigo no meio.

[133] E assim também as demais figuras de todas as coisas foram moldadas, como o céu e a terra, segundo semelhança de um ventre.

[134] E os sethianos dizem que da água foi produzido um primeiro princípio gerado, a saber, um vento impetuoso e tempestuoso.

[135] E que ele é a causa de toda geração, criando uma espécie de calor e movimento no mundo a partir do movimento das águas.

[136] E sustentam que esse vento foi modelado, como o sibilar de uma serpente, em uma imagem perfeita.

[137] E para essa imagem o mundo olha e se apressa para a geração, sendo inflamado como um ventre.

[138] E daí pensam que surgiu a geração do universo.

[139] E dizem que esse vento constitui um espírito.

[140] E que um Deus perfeito surgiu da fragrância das águas, do espírito e da luz brilhante.

[141] E afirmam que a mente existe segundo modo de geração a partir de uma fêmea.

[142] E, por mente, entendem a centelha superior.

[143] E dizem que, tendo-se misturado abaixo com os compostos do corpo, ela deseja ardentemente fugir.

[144] Para que, escapando, possa partir e não encontrar dissolução por causa da deficiência nas águas.

[145] Por isso tem o costume de clamar em alta voz do meio da mistura das águas, segundo o salmista, como eles dizem.

[146] Pois toda a ansiedade da luz superior é libertar da região inferior a centelha que está abaixo, vinda do Pai inferior, isto é, do vento.

[147] E o Pai cria calor e perturbação.

[148] E produz para si um Filho, a saber, a mente.

[149] A qual, como alegam, não é propriamente descendência dele.

[150] E esses hereges afirmam que o Filho, ao contemplar o Logos perfeito da luz superior, sofreu transformação.

[151] E, na forma de serpente, entrou em um ventre.

[152] A fim de poder recuperar aquela Mente que é a cintilação da luz.

[153] E dizem que isto é o que foi declarado: “O qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando forma de servo”.

[154] E os miseráveis e perniciosos sethianos pensam que essa é a forma servil mencionada pelo apóstolo.

[155] Estas, então, são as afirmações que também esses sethianos apresentam.

[156] Mas aquele supostamente sapientíssimo Simão faz sua declaração assim: que existe um poder indefinido, e que este é a raiz do universo.

[157] E esse poder indefinido, diz ele, que é fogo, em si mesmo não é algo simples, como a massa grosseira dos especuladores sustenta, quando afirmam que existem quatro elementos não compostos e supõem o fogo, como um deles, ser incombinado.

[158] Simão, ao contrário, alega que a natureza do fogo é dupla.

[159] E a uma parte dessa natureza dupla ele chama algo secreto.

[160] E à outra, algo manifesto.

[161] E afirma que o secreto está oculto nas partes manifestas do fogo.

[162] E que as partes manifestas do fogo foram produzidas a partir do secreto.

[163] E diz que todas as partes do fogo, visíveis e invisíveis, foram supostas possuir capacidade de percepção.

[164] O mundo, portanto, diz ele, que foi gerado, foi produzido a partir do fogo não gerado.

[165] E começou, diz ele, a existir deste modo.

[166] O Não Gerado tomou seis raízes primordiais do princípio da geração a partir do princípio daquele fogo.

[167] Pois sustenta que essas raízes foram geradas aos pares a partir do fogo.

[168] E a estas ele denomina Mente e Inteligência, Voz e Nome, Raciocínio e Reflexão.

[169] E afirma que nas seis raízes reside ao mesmo tempo o poder indefinido.

[170] O qual ele afirma ser Aquele que esteve, está e estará.

[171] E quando este tiver sido formado em figura, existirá, segundo esse herege, nas seis potências substancial e potencialmente.

[172] E será em magnitude e perfeição um e o mesmo com aquele poder não gerado e indefinido, não possuindo em aspecto algum atributo mais deficiente que aquele poder não gerado, imutável e indefinido.

[173] Se, porém, Aquele que esteve, está e estará continuar a existir apenas potencialmente nas seis potências e não assumir figura definida, então se torna, diz Simão, completamente evanescente e perece.

[174] E isso acontece do mesmo modo que a capacidade gramatical ou geométrica, que, embora tenha sido implantada na alma do homem, se extingue quando não recebe a assistência de um mestre dessas artes, que instruiria essa alma em seus princípios.

[175] Ora, Simão afirma que ele próprio é Aquele que esteve, está e estará.

[176] E que ele é um poder acima de todas as coisas.

[177] Até aqui, então, quanto às opiniões também de Simão.

[178] Valentim, porém, e os adeptos dessa escola, embora concordem em afirmar que o princípio originário do universo é o Pai, ainda assim são levados a adotar opinião contrária a respeito dele.

[179] Pois alguns sustentam que o Pai é solitário e gerador.

[180] Ao passo que outros defendem a impossibilidade da procriação sem uma fêmea.

[181] Por isso acrescentam Sigê como esposa desse Pai.

[182] E ao próprio Pai dão o nome de Bythos.

[183] Desse Pai e de sua esposa, alguns alegam que houve seis projeções, a saber, Nous e Aletheia, Logos e Zoe, Anthropos e Ecclesia.

[184] E que isso constitui a Ogdóade procriadora.

[185] E os valentinianos sustentam que estas são as primeiras projeções que ocorreram dentro do Limite.

[186] E novamente foram chamadas aquelas que estão dentro do Pléroma.

[187] E as segundas são as que estão fora do Pléroma.

[188] E as terceiras, as que estão fora do Limite.

[189] Ora, a geração dessas constitui a Histerema Acamote.

[190] E afirma que o que foi gerado de um Éon, e que existe no Histerema e foi projetado para além do Limite, é o Criador.

[191] Mas Valentim não está disposto a afirmar que aquilo que assim foi gerado seja a divindade primordial.

[192] Antes, fala depreciativamente tanto dele quanto das coisas feitas por ele.

[193] E afirma que Cristo desceu de dentro do Pléroma para a salvação do espírito que havia errado.

[194] Esse espírito, segundo os valentinianos, reside em nosso homem interior.

[195] E dizem que esse homem interior obtém salvação por causa desse espírito que habita nele.

[196] Valentim, porém, para sustentar a doutrina, determina que a carne não é salva.

[197] E a chama túnica de couro e porção perecível do homem.

[198] Já declarei essas doutrinas de modo resumido, uma vez que em seus sistemas há ampla matéria para discussão e variedade de opiniões.

[199] Desse modo, então, parece apropriado também à escola de Valentim expor suas opiniões.

[200] Mas também o próprio Basílides afirma que há um Deus não existente.

[201] O qual, não existindo, fez o mundo não existente, que foi formado a partir de coisas que não são, lançando certa semente, como um grão de mostarda, contendo em si haste, folhas, ramos e fruto.

[202] Ou essa semente é como um ovo de pavão, compreendendo em si a variada multidão de cores.

[203] E isso, dizem os basilidianos, constitui a semente do mundo, da qual todas as coisas foram produzidas.

[204] Pois sustentam que ela compreende em si todas as coisas, como se fossem aquelas que ainda não existem, mas que estava predeterminado serem trazidas à existência pela Divindade não existente.

[205] Havia, então, diz ele, na própria semente uma Filiação tríplice, em todos os aspectos da mesma substância do Deus não existente, que foi gerada a partir de coisas que não são.

[206] E dessa Filiação, dividida em três partes, uma porção era refinada.

[207] Outra, grosseira.

[208] E outra, necessitando de purificação.

[209] A parte refinada, quando primeiro foi realizado o lançamento inicial da semente pelo Deus não existente, imediatamente irrompeu, subiu para o alto e dirigiu-se para a Divindade não existente.

[210] Pois toda natureza anseia por esse Deus por causa do excesso de sua beleza, embora seres diferentes o desejem por razões diferentes.

[211] A porção mais grosseira, porém, ainda continua na semente.

[212] E, visto que é de certa natureza imitativa, não pôde elevar-se, porque era mais pesada que a parte sutil.

[213] Essa porção mais grosseira, porém, armou-se com o Espírito Santo como se fossem asas.

[214] Pois a Filiação, assim revestida, mostra bondade para com esse Espírito, e em troca recebe bondade.

[215] A terceira Filiação, porém, requer purificação.

[216] E por isso permaneceu na conglomerada massa de todos os germes.

[217] E ela manifesta bondade e recebe bondade.

[218] E Basílides afirma que há algo chamado mundo e algo mais chamado supramundano.

[219] Pois os entes são por ele distribuídos em duas divisões primárias.

[220] E o que está entre ambos ele chama de Espírito Santo limítrofe.

[221] E esse Espírito tem em si a fragrância da Filiação.

[222] Do conglomerado de todos os germes da semente cósmica irrompeu e foi gerado o Grande Arconte, cabeça do mundo, um Éon de inexprimível beleza e grandeza.

[223] Este Arconte, tendo-se erguido até o firmamento, supôs que não havia outro acima de si.

[224] E assim tornou-se mais brilhante e poderoso do que todos os Éons que estavam abaixo dele.

[225] Com exceção da Filiação que havia sido deixada abaixo, mas que ele não sabia ser mais sábia do que ele mesmo.

[226] Este, voltando sua atenção para a criação do mundo, primeiro gerou para si um filho superior a ele mesmo.

[227] E fez com que esse filho se assentasse à sua direita.

[228] E isso, alegam esses basilidianos, é a Ogdóade.

[229] O próprio Grande Arconte, então, produz toda a criação celeste.

[230] E outro Arconte se elevou do conglomerado de todos os germes, maior que todos os Éons inferiores, exceto a Filiação que havia sido deixada para trás, mas muito inferior ao primeiro.

[231] E dão a este segundo Arconte o nome de Hebdômada.

[232] Ele é o fazedor, criador e governador de tudo o que está abaixo dele.

[233] E esse Arconte produziu para si um Filho mais prudente e mais sábio do que ele mesmo.

[234] Ora, eles afirmam que todas essas coisas existem segundo a predeterminação daquele Deus não existente.

[235] E que existem também mundos e intervalos infinitos.

[236] E os basilidianos afirmam que sobre Jesus, que nasceu de Maria, veio o poder do evangelho.

[237] O qual desceu e iluminou tanto o Filho da Ogdóade quanto o da Hebdômada.

[238] E isso ocorreu com o propósito de iluminar e distinguir as diferentes ordens dos seres.

[239] E de purificar a Filiação que havia sido deixada para trás, para conferir benefícios às almas e receber benefícios em retorno.

[240] E dizem que eles próprios são filhos, que estão no mundo por essa causa.

[241] Para que, por meio do ensino, purifiquem as almas e, juntamente com a Filiação, subam ao Pai acima, de quem procedeu a primeira Filiação.

[242] E alegam que o mundo perdura até o tempo em que todas as almas tenham voltado para lá juntamente com a Filiação.

[243] Estas, porém, são as opiniões que Basílides, que as expôs como prodígios, não se envergonha de apresentar.

[244] Mas também o próprio Justino tentou estabelecer opiniões semelhantes a essas.

[245] E se exprime assim: que há três princípios não gerados do universo, dois masculinos e um feminino.

[246] E dentre os masculinos, um princípio é denominado Bom.

[247] Ora, apenas este é chamado desse modo e é dotado de presciência do universo.

[248] E o outro é Pai de todos os entes gerados, e é destituído de presciência, desconhecido e invisível, e é chamado Eloim.

[249] O princípio feminino é destituído de presciência, passional, de duas mentes e de duas naturezas inferiores, como já detalhamos minuciosamente nos discursos anteriores sobre o sistema desse herege.

[250] Esse princípio feminino, em suas partes superiores até a virilha, é, dizem os justinianos, uma virgem.

[251] Ao passo que da virilha para baixo é uma serpente.

[252] E tal princípio é denominado Edem e Israel.

[253] Esse herege alega que estes são os princípios do universo, dos quais todas as coisas foram produzidas.

[254] E afirma que Eloim, sem presciência, foi tomado por desejo desordenado pela meia virgem.

[255] E, tendo tido relações com ela, gerou doze anjos.

[256] E os nomes destes ele afirma serem aqueles já apresentados.

[257] E desses, os paternos estão ligados ao pai, e os maternos à mãe.

[258] E Justino sustenta que essas são as árvores do paraíso, acerca das quais Moisés falou em sentido alegórico nas coisas escritas na lei.

[259] E Justino afirma que todas as coisas foram feitas por Eloim e Edem.

[260] E que os animais, juntamente com as demais criaturas desse tipo, procedem da parte semelhante a besta.

[261] Ao passo que o homem procede das partes acima da virilha.

[262] E Edem, segundo Justino, depositou no próprio homem a alma, que era seu próprio poder.

[263] Mas Eloim, o espírito.

[264] E Justino alega que esse Eloim, depois de ter conhecido sua origem, subiu ao Ser Bom e abandonou Edem.

[265] E esse herege afirma que Edem, irada por causa desse tratamento, tramou toda essa conspiração contra o espírito de Eloim, que ele havia depositado no homem.

[266] E Justino nos informa que por essa razão o Pai enviou Baruque e deu instruções aos profetas.

[267] A fim de que o espírito de Eloim fosse libertado e que todos fossem seduzidos para longe de Edem.

[268] Mas esse herege alega até mesmo que Hércules foi profeta.

[269] E que ele foi vencido por Ônfale, isto é, Babel.

[270] E os justinianos chamam esta de Vênus.

[271] E dizem que depois, nos dias de Herodes, nasceu Jesus, filho de Maria e José, a quem, segundo ele, Baruque havia falado.

[272] E Justino afirma que Edem tramou contra esse Jesus, mas não pôde enganá-lo.

[273] E por essa razão fez com que fosse crucificado.

[274] E o espírito de Jesus, diz Justino, subiu ao Ser Bom.

[275] E os justinianos sustentam que os espíritos de todos os que assim obedecem a esses discursos tolos e fúteis serão salvos.

[276] E que o corpo e a alma de Edem foram deixados para trás.

[277] Mas o insensato Justino chama essa Edem de Terra.

[278] Ora, os docetas apresentam afirmações deste tipo: que a Divindade primordial é como uma semente de figueira.

[279] E que dela procederam três Éons, como o caule, as folhas e o fruto.

[280] E que estes projetaram trinta Éons, cada um deles em número de dez.

[281] E que todos eles foram unidos em décadas, embora diferissem apenas em posição, por estarem alguns antes de outros.

[282] E os docetas afirmam que Éons infinitos foram projetados indefinidamente.

[283] E que todos eles eram hermafroditas.

[284] E dizem que esses Éons conceberam um plano de irem simultaneamente juntos para dentro de um único Éon.

[285] E que deste e da Virgem Maria geraram um Salvador de todos.

[286] E esse Redentor era em todos os aspectos semelhante à primeira semente da figueira.

[287] Mas inferior neste ponto: pelo fato de ter sido gerado.

[288] Pois a semente de onde brota a figueira é não gerada.

[289] Esta, então, era a grande luz dos Éons.

[290] Era inteiramente radiância.

[291] Não recebia adorno algum.

[292] E compreendia em si as formas de todos os animais.

[293] E os docetas sustentam que essa luz, ao avançar para o caos subjacente, deu causa de existência às coisas que foram produzidas e às que realmente existem.

[294] E que, descendo do alto, imprimiu no caos abaixo as formas das espécies eternas.

[295] Pois o terceiro Éon, que se havia triplicado, ao perceber que todos os seus atributos característicos estavam sendo arrastados à força para as trevas inferiores, e não ignorando tanto o terror das trevas quanto a simplicidade da luz, começou a criar o céu.

[296] E, depois de tornar firme o que estava no meio, separou as trevas da luz.

[297] Como todas as espécies do terceiro Éon, diz ele, foram vencidas pelas trevas, também a própria figura desse Éon se tornou um fogo vivente, gerado da luz.

[298] E desta fonte, alegam eles, foi gerado o Grande Arconte.

[299] A respeito do qual Moisés fala, dizendo que ele é uma Divindade ígnea e Demiurgo, que continuamente altera as formas de todos os Éons em corpos.

[300] E os docetas alegam que essas são as almas por cuja causa o Salvador foi gerado.

[301] E que ele aponta o caminho pelo qual escaparão as almas que agora estão subjugadas pelas trevas.

[302] E os docetas sustentam que Jesus se revestiu daquele poder unigênito.

[303] E que por essa razão não podia ser visto por ninguém, por causa da excessiva grandeza de sua glória.

[304] E dizem que todas as ocorrências tiveram lugar com ele como está escrito nos evangelhos.

[305] Mas os seguidores de Monoímo, o árabe, afirmam que o princípio originário do universo é um homem primordial e filho do homem.

[306] E que, como Moisés diz, as coisas produzidas não foram produzidas pelo homem primordial, mas pelo Filho desse homem primordial.

[307] Contudo, não pelo Filho inteiro, mas por parte dele.

[308] E Monoímo afirma que o Filho do homem é o iota, que representa o número dez, número principal no qual reside a subsistência de todo número em geral, e por meio do qual consiste cada número em particular, bem como a geração do universo, do fogo, do ar, da água e da terra.

[309] Mas, visto que este é um só iota e um só traço, e que o perfeito procede do perfeito, ou, em outras palavras, um traço desce do alto contendo em si todas as coisas, então tudo o que o homem possui, o Pai do Filho do homem igualmente possui.

[310] Moisés, portanto, diz que o mundo foi feito em seis dias, isto é, por seis potências, das quais o mundo foi feito pelo único traço.

[311] Pois cubos, octaedros, pirâmides e todas as figuras semelhantes a estas, de superfícies iguais, de que consistem o fogo, o ar, a água e a terra, foram produzidos a partir dos números compreendidos naquele simples traço do iota, que é o Filho do homem.

[312] Quando, portanto, diz Monoímo, Moisés menciona o brandir da vara para trazer as pragas sobre o Egito, ele alude alegoricamente às transformações do mundo do iota.

[313] Nem moldou mais do que dez pragas.

[314] Se, porém, diz ele, desejas conhecer o universo, busca dentro de ti mesmo quem é que diz: “Minha alma, minha carne e minha mente”.

[315] E quem é que apropria cada uma dessas coisas para si, como outro o faria para si mesmo.

[316] Entende que este é um perfeito surgido de um perfeito.

[317] E que considera como suas tanto todas as assim chamadas não-entidades quanto todos os entes.

[318] Estas, então, são também as opiniões de Monoímo.

[319] Taciano, porém, semelhantemente a Valentim e aos outros, diz que existem certos Éons invisíveis.

[320] E que por algum destes foi criado o mundo inferior e as coisas existentes nele.

[321] E acostuma-se a um modo de vida profundamente cínico.

[322] E quase em nada difere de Marcião, tanto no que diz respeito às suas blasfêmias quanto às regras estabelecidas acerca do casamento.

[323] Mas Marcião, do Ponto, e Cerdão, seu mestre, também eles estabelecem que existem três princípios do universo: o bom, o justo e a matéria.

[324] Alguns discípulos destes, porém, acrescentam um quarto, dizendo: o bom, o justo, o mau e a matéria.

[325] Mas todos afirmam que o Ser bom nada fez absolutamente.

[326] Embora alguns também chamem o justo de mau.

[327] Ao passo que outros dizem que seu único título é o de justo.

[328] E alegam que o justo fez todas as coisas a partir da matéria subjacente.

[329] Pois dizem que ele não as fez bem, mas irracionalmente.

[330] Porque é necessário que as coisas feitas sejam semelhantes ao seu fazedor.

[331] Por isso também empregam assim as parábolas evangélicas, dizendo: “Uma boa árvore não pode produzir maus frutos”, e o restante da passagem.

[332] Ora, Marcião alega que as concepções mal elaboradas pelo próprio justo constituíam a alusão dessa passagem.

[333] E diz que Cristo é o Filho do Ser bom.

[334] E que foi enviado por ele para a salvação das almas, por aquele a quem chama homem interior.

[335] E afirma que ele apareceu como homem, embora não sendo homem.

[336] E como encarnado, embora não sendo encarnado.

[337] E sustenta que sua manifestação foi apenas fantasmática.

[338] E que ele não sofreu nem geração nem paixão, senão na aparência.

[339] E não admite que a carne ressuscite.

[340] Mas, ao afirmar que o casamento é destruição, conduz seus discípulos a uma vida profundamente cínica.

[341] E por esses meios imagina aborrecer o Criador, se se abstiver das coisas feitas ou instituídas por ele.

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Hipólito de Roma em Refutação de Todas as Heresias 29 https://vcirculi.com/hipolito-de-roma-em-refutacao-de-todas-as-heresias-29/ Tue, 24 Mar 2026 01:09:12 +0000 https://vcirculi.com/?p=40482 Aviso ao leitor Este livro – Hipólito de Roma — “Refutação de Todas as Heresias”, frequentemente associado ao título Philosophumena – é apresentado aqui como literatura patrística (séc. III), de...

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[1] Tendo sido divulgada por todo o mundo a doutrina desse Calisto, um homem astuto e cheio de desespero, chamado Alcibíades, que morava em Apameia, cidade da Síria, examinou cuidadosamente esse assunto.

[2] E, considerando-se personagem mais temível e mais engenhoso em tais artimanhas do que Calisto, dirigiu-se a Roma.

[3] E levou consigo certo livro, alegando que um homem justo, chamado Elchasai, o havia recebido de Serae, cidade da Pártia, e que o entregara a um homem chamado Sobiai.

[4] E afirmava que o conteúdo desse volume havia sido revelado por um anjo cuja altura era de vinte e quatro esquenos, o que equivale a noventa e seis milhas.

[5] E cuja largura era de quatro esquenos.

[6] E de ombro a ombro, seis esquenos.

[7] E as marcas de seus pés se estendiam por três esquenos e meio, equivalentes a quatorze milhas.

[8] Enquanto a largura era de um esqueno e meio.

[9] E a altura, de meio esqueno.

[10] E afirma também que havia com ele uma mulher, cuja medida, segundo diz, correspondia às proporções já mencionadas.

[11] E sustenta que o anjo masculino é o Filho de Deus.

[12] Mas que a mulher é chamada Espírito Santo.

[13] Ao descrever esses prodígios, imagina confundir os tolos.

[14] E, ao mesmo tempo, profere a seguinte sentença: que foi pregada aos homens uma nova remissão de pecados no terceiro ano do reinado de Trajano.

[15] E Elchasai determina a natureza do batismo.

[16] E também isto explicarei.

[17] Ele afirma que, quanto àqueles que estiveram envolvidos em toda espécie de lascívia, impureza e obras perversas, se apenas algum deles for crente, determina que tal pessoa, ao converter-se, obedecer ao livro e crer em seu conteúdo, deve receber por meio do batismo a remissão dos pecados.

[18] Elchasai, porém, ousou continuar essas velhacarias, aproveitando-se da doutrina acima mencionada, da qual Calisto se apresentava como defensor.

[19] Pois, percebendo que muitos se agradavam desse tipo de promessa, considerou que podia oportunamente fazer a tentativa já referida.

[20] E, ainda que tenhamos resistido a isso, não permitimos por muito tempo que muitos se tornassem vítimas do engano.

[21] Pois convencemos o povo ao declarar que isso era obra de um espírito espúrio e invenção de um coração inflado de orgulho.

[22] E que esse homem, como um lobo, havia se levantado contra muitas ovelhas desgarradas que Calisto, por suas artes de engano, espalhara.

[23] Mas, já que começamos, não nos calaremos quanto às opiniões desse homem.

[24] E, em primeiro lugar, exporemos sua vida.

[25] E provaremos que sua suposta disciplina é mera aparência.

[26] E, em seguida, apresentarei os pontos principais de suas afirmações.

[27] Para que o leitor, fitando atentamente os tratados desse Elchasai, possa perceber qual é e de que espécie é a heresia que esse homem ousadamente tentou introduzir.

[28] Este Elchasai propõe como isca um regime autorizado pela Lei, alegando que os fiéis devem ser circuncidados e viver segundo a Lei.

[29] E, ao mesmo tempo, arranca à força certos fragmentos das heresias anteriormente mencionadas.

[30] E afirma que Cristo nasceu homem do mesmo modo comum a todos.

[31] E que Cristo não apareceu pela primeira vez na terra ao nascer de uma virgem.

[32] Mas que antes disso já havia nascido, e muitas vezes voltaria a nascer.

[33] Assim, Cristo apareceria e existiria entre nós de tempos em tempos, passando por alterações de nascimento e tendo sua alma transferida de corpo em corpo.

[34] Ora, Elchasai adotou aquela doutrina de Pitágoras à qual já me referi anteriormente.

[35] Mas os elcasaítas chegaram a tal altura de soberba que até afirmam possuir poder de predizer o futuro.

[36] Usam como ponto de partida, evidentemente, as medidas e os números da já citada arte pitagórica.

[37] Estes também se dedicam às doutrinas dos matemáticos, astrólogos e mágicos, como se fossem verdadeiras.

[38] E recorrem a essas coisas para confundir os simplórios.

[39] Assim, esses são levados a supor que os hereges participam de uma doutrina de poder.

[40] E ensinam certos encantamentos e fórmulas para os que foram mordidos por cães, para os possuídos por demônios e para os acometidos por outras doenças.

[41] E não nos calaremos nem mesmo quanto a essas práticas dos hereges.

[42] Tendo, então, explicado suficientemente seus princípios e as causas de suas tentativas presunçosas, passarei a dar conta de seus escritos.

[43] Por meio deles, meus leitores conhecerão tanto a leviandade quanto a impiedade dos esforços desses elcasaítas.

[44] Àqueles, então, que foram oralmente instruídos por ele, ele administra o batismo desta maneira, dirigindo aos seus enganados palavras semelhantes às seguintes.

[45] Portanto, meus filhos, se alguém tiver se unido a qualquer espécie de animal, ou a um homem, ou a uma irmã, ou a uma filha, ou tiver cometido adultério, ou sido culpado de fornicação, e desejar obter remissão dos pecados, desde o momento em que der ouvidos a este livro, seja batizado uma segunda vez em nome do Deus Grande e Altíssimo, e em nome de seu Filho, o poderoso Rei.

[46] E, pelo batismo, seja purificado e limpo.

[47] E invoque em seu favor aquelas sete testemunhas que foram descritas neste livro: o céu, a água, os espíritos santos, os anjos da oração, o óleo, o sal e a terra.

[48] Estes constituem os espantosos mistérios de Elchasai.

[49] Estes são aqueles segredos inefáveis e poderosos que ele entrega aos discípulos considerados dignos.

[50] E esse homem sem lei não se contenta com isso.

[51] Mas, na presença de duas ou três testemunhas, ele sela suas próprias práticas perversas.

[52] Expressando-se novamente deste modo: outra vez digo, ó adúlteros e adúlteras, e falsos profetas, se desejais converter-vos para que vossos pecados vos sejam perdoados, assim que ouvirdes este livro e fordes batizados uma segunda vez juntamente com vossas vestes, tereis paz e vossa porção com os justos.

[53] Mas, já que dissemos que eles recorrem a encantamentos para os mordidos por cães e para outros infortúnios, explicaremos também isso.

[54] Ora, Elchasai usa a seguinte fórmula.

[55] Se um cão raivoso e enfurecido, no qual habita um espírito de destruição, morder algum homem, ou mulher, ou rapaz, ou moça, ou os atacar ou tocar, na mesma hora tal pessoa corra com todas as suas vestes.

[56] E desça a um rio ou a uma fonte, onde quer que haja um lugar profundo.

[57] E seja mergulhada com todas as suas roupas.

[58] E faça súplica ao Deus Grande e Altíssimo com fé no coração.

[59] E então invoque assim as sete testemunhas descritas neste livro.

[60] Eis que tomo por testemunhas o céu, a água, os espíritos santos, os anjos da oração, o óleo, o sal e a terra.

[61] Dou testemunho por estas sete testemunhas de que não tornarei a pecar, nem a cometer adultério, nem a furtar, nem a praticar injustiça, nem a ser cobiçoso, nem a ser movido por ódio, nem a ser escarnecedor, nem a ter prazer em obras perversas.

[62] Tendo, pois, pronunciado essas palavras, seja tal pessoa batizada com todas as suas vestes em nome do Deus poderoso e Altíssimo.

[63] Mas em muitos outros aspectos ele fala loucuras.

[64] Ensinando também o uso dessas fórmulas para os acometidos de tísica.

[65] E que estes sejam mergulhados em água fria quarenta vezes durante sete dias.

[66] E prescreve tratamento semelhante para os possuídos por demônios.

[67] Ó sabedoria inimitável e encantamentos abarrotados de poderes!

[68] Quem não se admirará de tamanha força de palavras?

[69] Mas, já que dissemos que eles também lançam mão do engano astrológico, provaremos isso por meio de suas próprias fórmulas.

[70] Pois Elchasai fala assim: existem estrelas ímpias e malignas.

[71] Essa declaração foi agora feita por nós, ó piedosos e discípulos.

[72] Acautelai-vos contra o poder dos dias em que essas estrelas exercem seu domínio.

[73] E não iniciei obra alguma nos dias em que elas reinam.

[74] E não batizeis homem nem mulher nos dias do poder dessas estrelas, quando a lua, saindo dentre elas, percorre o céu e caminha juntamente com elas.

[75] Guardai-vos até o próprio dia em que a lua sair dessas estrelas.

[76] E então batizai e dai início a toda obra vossa.

[77] Além disso, honrai o dia do sábado, porque esse dia é um daqueles em que prevalece o poder dessas estrelas.

[78] Tende, contudo, o cuidado de não iniciar vossas obras no terceiro dia a partir de um sábado.

[79] Pois quando se completarem novamente três anos do reinado do imperador Trajano desde o tempo em que ele submeteu os partos ao seu domínio, quando, digo, se completarem três anos, a guerra irrompe entre os anjos ímpios das constelações do norte.

[80] E por causa disso todos os reinos da impiedade ficam em confusão.

[81] Visto, então, que Elchasai considera que seria ofensa à razão que esses grandes e inefáveis mistérios fossem pisados ou entregues a muitos, aconselha que sejam guardados como pérolas preciosas.

[82] Expressando-se assim: não reciteis este relato a todos os homens.

[83] E guardai cuidadosamente estes preceitos.

[84] Porque nem todos os homens são fiéis, nem todas as mulheres são sinceras.

[85] Livros contendo essas doutrinas, porém, nem os sábios dos egípcios esconderam em santuários.

[86] Nem Pitágoras, sábio dos gregos, os ocultou ali.

[87] Pois, se naquele tempo Elchasai tivesse vivido, que necessidade haveria de Pitágoras, ou Tales, ou Sólon, ou o sábio Platão, ou mesmo os demais sábios dos gregos, tornarem-se discípulos dos sacerdotes egípcios?

[88] Pois poderiam obter tal sabedoria de Alcibíades, como o mais espantoso intérprete desse miserável Elchasai.

[89] As declarações feitas, portanto, com o objetivo de alcançar conhecimento da loucura desses homens, parecem suficientes para os que são dotados de mente sã.

[90] E assim, não pareceu conveniente citar mais de suas fórmulas, visto que são muito numerosas e ridículas.

[91] Porém, uma vez que não omitimos as práticas surgidas em nossos próprios dias e não silenciamos quanto às que prevaleceram antes do nosso tempo, parece apropriado, para que passemos por todos os seus sistemas e nada deixemos sem mencionar, declarar também quais são os costumes dos judeus.

[92] E quais são as divergências de opinião entre eles.

[93] Pois imagino que isso ainda resta para nossa consideração.

[94] Ora, depois de eu romper o silêncio sobre esses pontos, passarei à demonstração da Doutrina da Verdade.

[95] Para que, após a longa luta argumentativa contra todas as heresias, avancemos piedosamente para a coroa do reino e, crendo na verdade, não sejamos abalados.

[96] Originalmente prevalecia entre os judeus um único costume.

[97] Pois um só mestre lhes foi dado por Deus, a saber, Moisés.

[98] E uma só lei por esse mesmo Moisés.

[99] E havia uma só região desértica e um só monte Sinai.

[100] Pois um só Deus foi quem legislou para esses judeus.

[101] Mas, de novo, depois que atravessaram o rio Jordão e herdaram por sorteio a terra conquistada, de muitos modos rasgaram a lei de Deus.

[102] Cada um elaborando interpretação diferente das declarações feitas por Deus.

[103] E desse modo levantaram para si mesmos mestres.

[104] E inventaram doutrinas de natureza herética.

[105] E continuaram avançando em divisões sectárias.

[106] Ora, é a diversidade desses judeus que agora me proponho explicar.

[107] E embora por considerável tempo eles tenham sido divididos em muitas seitas, pretendo elucidar as mais principais delas.

[108] Enquanto os estudiosos facilmente poderão conhecer as demais.

[109] Pois há entre eles uma divisão em três grupos.

[110] E os adeptos do primeiro são os fariseus.

[111] Os do segundo, os saduceus.

[112] Enquanto os restantes são os essênios.

[113] Estes praticam vida mais devota, sendo cheios de amor mútuo e de temperança.

[114] E se afastam de todo ato de desejo desordenado.

[115] Sendo avessos até mesmo a ouvir falar dessas coisas.

[116] E renunciam ao matrimônio.

[117] Mas tomam para si os meninos de outros.

[118] E assim lhes é gerada uma descendência.

[119] E conduzem essas crianças adotadas à observância de seus próprios costumes particulares.

[120] E desse modo as criam e as impulsionam a aprender as ciências.

[121] Contudo, não lhes proíbem casar-se.

[122] Embora eles mesmos se abstenham do matrimônio.

[123] Mas não admitem mulheres, ainda que estas se disponham a seguir o mesmo gênero de vida.

[124] Porque, de modo nenhum, têm confiança nas mulheres.

[125] E desprezam a riqueza.

[126] E não se recusam a repartir seus bens com os necessitados.

[127] Contudo, ninguém entre eles desfruta de maior quantidade de riquezas do que outro.

[128] Pois há entre eles a regra de que quem deseja unir-se à seita deve vender seus bens e entregar o preço deles à comunidade.

[129] E, recebendo o dinheiro, o chefe da ordem o distribui a todos segundo as necessidades de cada um.

[130] Assim, não há entre eles pessoa alguma em aflição.

[131] E não usam óleo.

[132] Considerando contaminação ser ungido.

[133] E há supervisores designados para cuidar de tudo o que lhes pertence em comum.

[134] E todos aparecem sempre vestidos de branco.

[135] Mas não há apenas uma cidade deles.

[136] Muitos deles habitam em cada cidade.

[137] E, se algum adepto da seita vier de lugar estranho, consideram que tudo é comum para ele.

[138] E recebem como da própria casa e parentela aqueles que antes não conheciam.

[139] E percorrem sua terra natal.

[140] E, sempre que viajam, nada carregam além de armas.

[141] E em suas cidades têm também um presidente que administra os recursos reunidos para esse fim, providenciando-lhes roupa e alimento.

[142] E a veste deles e sua forma são modestas.

[143] E não possuem duas capas nem um segundo par de sandálias.

[144] E, quando as que estão em uso se tornam gastas, então adotam outras.

[145] E não compram nem vendem absolutamente nada.

[146] Mas o que qualquer um tem, dá àquele que não tem.

[147] E aquilo que um não tem, recebe do que possui o outro.

[148] E perseveram ordeiramente, e com constância oram desde o romper do dia.

[149] E não pronunciam palavra alguma antes de terem louvado a Deus com um hino.

[150] E assim cada um sai e se ocupa no trabalho que quiser.

[151] E, depois de trabalhar até a quinta hora, cessam.

[152] Então novamente se reúnem em um só lugar.

[153] E cingem-se com faixas de linho, com o propósito de ocultar as partes íntimas.

[154] E assim realizam abluções em água fria.

[155] E, depois de assim purificados, entram juntos em um aposento.

[156] Ora, ninguém que sustente opinião diferente da deles entra nessa casa.

[157] E passam então a tomar sua refeição.

[158] E, quando se assentam em silêncio, dispõem os pães em ordem.

[159] E em seguida algum tipo de alimento para comer com o pão.

[160] E cada um recebe daí porção suficiente.

[161] Contudo, ninguém prova dessas coisas antes que o sacerdote pronuncie uma bênção e ore sobre a comida.

[162] E, depois da refeição, quando ele pela segunda vez oferece súplica, assim como no começo, também no fim da refeição louvam a Deus com hinos.

[163] Em seguida, depois de deporem como sagradas as vestes com que estavam vestidos enquanto tomavam a refeição juntos na casa, vestes estas de linho, e tendo retomado as roupas que haviam deixado no vestíbulo, apressam-se para ocupações agradáveis até a tarde.

[164] E tomam a ceia fazendo de modo semelhante o que já foi mencionado.

[165] E ninguém jamais grita.

[166] Nem se ouve qualquer voz tumultuosa.

[167] Mas cada um conversa tranquilamente e com decoro.

[168] E um cede a palavra ao outro.

[169] De modo que a quietude dos que estão dentro da casa parece um tipo de mistério aos que estão fora.

[170] E são invariavelmente sóbrios.

[171] Comendo e bebendo tudo com medida.

[172] Todos, então, prestam atenção ao presidente.

[173] E quaisquer instruções que ele der, obedecem como lei.

[174] Pois se empenham para que misericórdia e auxílio sejam estendidos aos que estão sobrecarregados de trabalho.

[175] E especialmente se abstêm da ira, da cólera e de todas essas paixões.

[176] Porque consideram essas coisas traiçoeiras para o homem.

[177] E ninguém entre eles tem o hábito de jurar.

[178] Mas tudo o que alguém diz é tido como mais vinculante do que um juramento.

[179] Se, porém, alguém jurar, é condenado como indigno de crédito.

[180] São também zelosos quanto às leituras da lei e dos profetas.

[181] E ainda, se houver algum tratado dos fiéis, também a respeito disso.

[182] E demonstram a maior curiosidade quanto às plantas e às pedras.

[183] Ocupando-se bastante com as virtudes operativas dessas coisas.

[184] Dizendo que essas coisas não foram criadas em vão.

[185] Mas àqueles que desejam tornar-se discípulos da seita, não lhes entregam imediatamente as regras.

[186] A menos que antes os tenham provado.

[187] Ora, pelo espaço de um ano, põem diante dos candidatos a mesma comida.

[188] Enquanto estes continuam a viver em outra casa, fora do lugar de reunião dos essênios.

[189] E entregam aos probacionários uma machadinha, um cinto de linho e uma veste branca.

[190] Quando, ao fim desse período, alguém dá prova de domínio próprio, aproxima-se mais do modo de vida da seita.

[191] E é lavado de maneira mais pura do que antes.

[192] Ainda assim, porém, não participa de alimento junto com os essênios.

[193] Pois, depois de ter fornecido prova de que é capaz de adquirir domínio próprio, por mais dois anos o hábito de vida de uma pessoa desse tipo é posto à prova.

[194] E, quando se mostra digno, é então contado entre os membros da seita.

[195] Contudo, antes que lhe seja permitido participar de uma refeição com eles, é vinculado por terríveis juramentos.

[196] Primeiro, que adorará a Divindade.

[197] Depois, que observará justiça no trato com os homens.

[198] E que de modo algum prejudicará pessoa alguma.

[199] E que não odiará quem o prejudicar ou for hostil a ele.

[200] Mas orará por eles.

[201] Do mesmo modo jura que sempre ajudará os justos.

[202] E guardará fidelidade para com todos, especialmente para com os que governam.

[203] Pois, argumentam eles, posição de autoridade não acontece a ninguém sem Deus.

[204] E, se o próprio essênio for governante, jura que nunca se conduzirá com arrogância no exercício do poder.

[205] Nem será pródigo.

[206] Nem recorrerá a adornos ou a maior magnificência do que o costume permite.

[207] Também jura ser amante da verdade.

[208] E repreender aquele que for culpado de falsidade.

[209] Nem furtar.

[210] Nem macular a consciência por causa de ganho injusto.

[211] Nem ocultar coisa alguma aos membros de sua seita.

[212] Nem divulgar nada aos outros, ainda que fosse torturado até a morte.

[213] E, além das promessas anteriores, jura não transmitir a ninguém o conhecimento das doutrinas de modo diferente daquele em que ele mesmo as recebeu.

[214] Com juramentos desse tipo, então, eles vinculam os que se apresentam.

[215] Se, porém, alguém for condenado por algum pecado, é expulso da ordem.

[216] Mas aquele que foi assim excomungado, por vezes perece de morte terrível.

[217] Pois, estando preso pelos juramentos e ritos da seita, não lhe é permitido participar da comida usada pelas demais pessoas.

[218] E assim, os excomungados às vezes destroem completamente o corpo pela fome.

[219] E por isso, quando chega ao extremo, os essênios às vezes têm piedade de muitos deles que estão à beira da morte.

[220] Pois consideram castigo suficiente a pena até a morte assim infligida a esses culpados.

[221] Mas, quanto às decisões judiciais, os essênios são extremamente exatos e imparciais.

[222] E emitem seus julgamentos quando se reúnem em conjunto, sendo no mínimo cem.

[223] E a sentença proferida por eles é irreversível.

[224] E honram o legislador logo depois de Deus.

[225] E, se alguém for culpado de blasfêmia contra esse formulador de leis, é punido.

[226] E são ensinados a obedecer aos governantes e aos anciãos.

[227] E, se dez estiverem sentados na mesma sala, um deles não falará, a menos que isso pareça conveniente aos outros nove.

[228] E cuidam para não cuspir no meio dos presentes nem para a direita.

[229] Mas são ainda mais zelosos em abster-se de trabalho no dia de sábado do que todos os outros judeus.

[230] Pois não somente preparam os alimentos no dia anterior, para não acender fogo no sábado.

[231] Mas nem mesmo movem um utensílio de um lugar para outro nesse dia.

[232] Nem aliviam as necessidades do corpo.

[233] Antes, alguns nem sequer se levantam de um leito.

[234] Contudo, nos outros dias, quando desejam aliviar a natureza, cavam um buraco de um pé de comprimento com a enxadinha.

[235] Pois desse tipo é a machadinha que o presidente, logo no início, entrega àqueles que se apresentam para ser recebidos como discípulos.

[236] E cobrem essa cavidade de todos os lados com a própria veste.

[237] Alegando que assim não insultam necessariamente os raios do sol.

[238] Depois lançam novamente a terra removida dentro do buraco.

[239] E essa é a sua prática, escolhendo os lugares mais solitários.

[240] Mas, depois de terem realizado essa operação, imediatamente se submetem a ablução, como se os excrementos os contaminassem.

[241] Os essênios, entretanto, com o passar do tempo, sofreram divisões.

[242] E não preservam seu sistema de formação do mesmo modo.

[243] Pois se dividiram em quatro partidos.

[244] Alguns deles impõem a si mesmos disciplina além das regras exigidas pela ordem.

[245] De modo que nem sequer tocam em moeda corrente do país.

[246] Dizendo que não devem nem carregar, nem contemplar, nem fabricar imagem.

[247] Por isso, nenhum desses entra em cidade alguma, para não passar por um portão em que haja estátuas erguidas.

[248] Considerando violação da lei passar debaixo de imagens.

[249] Mas os adeptos de outro grupo, se acaso ouvirem alguém discutindo sobre Deus e suas leis, supondo tratar-se de pessoa incircuncisa, passam a observá-la de perto.

[250] E, quando encontram alguém desse tipo sozinho em algum lugar, ameaçam matá-lo se ele se recusar a submeter-se ao rito da circuncisão.

[251] Ora, se essa pessoa não quiser atender ao pedido, o essênio não a poupa.

[252] Antes, chega mesmo a matá-la.

[253] E foi dessa ocorrência que receberam sua designação.

[254] Sendo chamados por alguns de zelotas e por outros de sicários.

[255] E os adeptos de outro grupo não chamam ninguém de senhor, exceto a Divindade.

[256] Ainda que alguém os torture ou até os mate.

[257] Mas há outros de período posterior que se desviaram a tal ponto da disciplina da ordem que, no que diz respeito aos que continuam nos costumes primitivos, estes nem sequer os tocam.

[258] E, se acontecer de entrarem em contato com eles, imediatamente recorrem a ablução.

[259] Como se tivessem tocado alguém pertencente a tribo estrangeira.

[260] E também entre estes há muitíssimos de tão grande longevidade que chegam a viver mais de cem anos.

[261] Afirmam, portanto, que a causa disso vem de sua extrema devoção à religião.

[262] E de sua condenação de todo excesso no que é servido como alimento.

[263] E de seu caráter temperante e incapaz de ira.

[264] E assim desprezam a morte.

[265] Alegrando-se quando podem terminar sua carreira com boa consciência.

[266] Se, porém, alguém torturar pessoas desse tipo para levá-las a blasfemar contra a lei ou a comer coisa oferecida em sacrifício a ídolo, não alcançará seu propósito.

[267] Pois alguém desse grupo submete-se à morte e suporta o tormento antes de violar a própria consciência.

[268] Ora, a doutrina da ressurreição também encontrou apoio entre eles.

[269] Pois reconhecem tanto que a carne ressuscitará como que ela será imortal.

[270] Da mesma maneira que a alma já é imperecível.

[271] E sustentam que a alma, quando separada na presente vida, parte para um lugar bem ventilado e luminoso.

[272] Onde, segundo dizem, repousa até o juízo.

[273] E essa região os gregos conheceram de ouvir falar.

[274] E a chamaram Ilhas dos Bem-aventurados.

[275] E há outras doutrinas deles que muitos gregos tomaram para si.

[276] E assim, de tempos em tempos, formaram as próprias opiniões.

[277] Pois o sistema disciplinar referente à Divindade, segundo esses grupos judaicos, é mais antigo do que o de todas as nações.

[278] E assim está à mão a prova de que todos aqueles gregos que ousaram fazer afirmações acerca de Deus ou da criação das coisas existentes derivaram seus princípios de nenhuma outra fonte senão da legislação judaica.

[279] E entre estes pode-se destacar particularmente Pitágoras e os estóicos.

[280] Os quais derivaram seus sistemas enquanto residiam entre os egípcios, ao se tornarem discípulos desses judeus.

[281] Ora, afirmam que haverá tanto juízo quanto conflagração do universo.

[282] E que os ímpios serão eternamente castigados.

[283] E entre eles é cultivada a prática da profecia e da predição de acontecimentos futuros.

[284] Há então outra ordem dos essênios que utiliza os mesmos costumes e o mesmo modo de vida prescrito que os anteriores.

[285] Mas faz alteração em um só ponto, a saber, o matrimônio.

[286] Ora, sustentam que os que aboliram o casamento cometem falta terrível, que tende à destruição da vida.

[287] E que não devem cortar a sucessão dos filhos.

[288] Pois, se todos pensassem assim, todo o gênero humano seria facilmente exterminado.

[289] Contudo, põem à prova as mulheres prometidas por um período de três anos.

[290] E, quando por três vezes foram purificadas, com o propósito de provar sua capacidade de gerar filhos, então se casam.

[291] Não coabitam, porém, com mulheres grávidas.

[292] Mostrando com isso que se casam não por motivo sensual, mas por causa dos filhos.

[293] E as mulheres também passam por ablução do mesmo modo que os maridos.

[294] E são igualmente vestidas com roupa de linho, assim como os homens com seus cintos.

[295] Estas, então, são as declarações que tenho a fazer a respeito dos essênios.

[296] Mas há também outros que praticam os costumes judaicos.

[297] E estes, tanto quanto à linhagem quanto às leis, são chamados fariseus.

[298] Ora, a maior parte destes se encontra em toda parte.

[299] Pois, embora todos sejam chamados judeus, por causa da peculiaridade das opiniões que defendem, foram designados com títulos próprios de cada grupo.

[300] Estes, então, sustentam firmemente a antiga tradição.

[301] E continuam a investigar de modo argumentativo as coisas consideradas pela Lei como puras e impuras.

[302] E interpretam os regulamentos da Lei.

[303] E estabelecem mestres, a quem habilitam para dar instrução nessas coisas.

[304] Estes fariseus afirmam a existência do destino.

[305] E que algumas coisas estão em nosso poder, enquanto outras estão sob o controle da fatalidade.

[306] Assim, sustentam que algumas ações dependem de nós mesmos, enquanto outras dependem do destino.

[307] Mas afirmam que Deus é a causa de todas as coisas.

[308] E que nada é governado nem acontece sem a sua vontade.

[309] Estes igualmente reconhecem que há ressurreição da carne.

[310] E que a alma é imortal.

[311] E que haverá juízo e conflagração.

[312] E que os justos serão imperecíveis.

[313] Mas os ímpios suportarão castigo eterno em fogo inextinguível.

[314] Estas, então, são as opiniões dos fariseus.

[315] Os saduceus, porém, querem abolir o destino.

[316] E reconhecem que Deus não faz coisa alguma má.

[317] Nem exerce providência sobre os assuntos terrenos.

[318] Mas afirmam que a escolha entre o bem e o mal está no poder dos homens.

[319] E negam que haja ressurreição não só da carne.

[320] Mas também julgam que a alma não continua após a morte.

[321] Consideram a alma nada mais que simples vitalidade.

[322] E que é por causa disso que o homem foi criado.

[323] Contudo, sustentam que a ideia da ressurreição se realiza plenamente neste único fato: que encerramos nossos dias depois de haver deixado filhos sobre a terra.

[324] Mas continuam afirmando que, depois da morte, ninguém deve esperar sofrer coisa alguma, seja má ou boa.

[325] Pois haverá dissolução tanto da alma quanto do corpo.

[326] E o homem passa à inexistência.

[327] Do mesmo modo que acontece com a matéria da criação animal.

[328] Mas, quanto à maldade que alguém tenha cometido em vida, contanto que se tenha reconciliado com a parte lesada, foi beneficiado por sua transgressão.

[329] Porque escapou do castigo que de outra forma lhe teria sido infligido pelos homens.

[330] E qualquer aquisição que alguém tenha feito, e em qualquer aspecto em que, tornando-se rico, tenha adquirido distinção, nisso foi beneficiado.

[331] Mas permanecem firmes em sua afirmação de que Deus não tem cuidado algum com os assuntos individuais aqui.

[332] E, enquanto os fariseus são cheios de afeição mútua, os saduceus, ao contrário, são movidos por amor-próprio.

[333] Essa seita tinha seu principal reduto especialmente na região em torno da Samaria.

[334] E estes também aderem aos costumes da Lei.

[335] Dizendo que é preciso viver de modo virtuoso e deixar filhos sobre a terra.

[336] Não dão, porém, atenção aos profetas.

[337] Nem tampouco a quaisquer outros sábios, exceto à lei de Moisés somente.

[338] A respeito da qual, no entanto, não formulam interpretações.

[339] Estas, então, são as opiniões que também os saduceus escolhem ensinar.

[340] Visto, portanto, que explicamos até mesmo as divergências entre os judeus, parece conveniente igualmente não passar em silêncio o sistema de sua religião.

[341] A doutrina, portanto, entre todos os judeus sobre a religião é quádrupla: teológica, natural, moral e cerimonial.

[342] E afirmam que há um só Deus.

[343] E que Ele é Criador e Senhor do universo.

[344] E que formou todas estas obras gloriosas que antes não existiam.

[345] E isto não a partir de alguma substância coeterna já pronta.

[346] Mas sua vontade, a causa eficiente, foi criar, e Ele criou.

[347] E sustentam que há anjos.

[348] E que estes foram trazidos à existência para servir à criação.

[349] Mas também que há um Espírito soberano que permanece sempre ao lado de Deus, para glória e louvor.

[350] E que todas as coisas na criação são dotadas de sensação.

[351] E que não existe nada inanimado.

[352] E se dedicam intensamente a hábitos sérios e a uma vida temperante, como se pode verificar por suas leis.

[353] Ora, essas matérias foram há muito tempo estritamente definidas por aqueles que antigamente receberam a lei divinamente ordenada.

[354] De modo que o leitor se verá admirado da quantidade de temperança e diligência empregada nos costumes legalmente estabelecidos com referência ao homem.

[355] O serviço cerimonial, porém, adaptado ao culto divino de maneira condizente com a dignidade da religião, foi praticado entre eles com o mais elevado grau de elaboração.

[356] A superioridade de seu ritual é fácil de ser conhecida por aqueles que o desejarem, contanto que leiam o livro que fornece informação sobre esses pontos.

[357] Perceberão assim com que solenidade e santidade os sacerdotes judeus oferecem a Deus as primícias dos dons por Ele concedidos para o sustento e o gozo dos homens.

[358] E como cumprem seus ministérios com regularidade e firmeza, em obediência aos seus mandamentos.

[359] Há, porém, alguns usos litúrgicos adotados por eles que os saduceus se recusam a reconhecer.

[360] Pois não estão dispostos a admitir a existência de anjos ou espíritos.

[361] Ainda assim, todos os grupos igualmente esperam o Messias.

[362] Pois certamente a Lei e os profetas anunciaram de antemão que Ele haveria de estar presente sobre a terra.

[363] Contudo, como os judeus não conheceram o tempo de sua vinda, permanece a suposição de que as declarações das escrituras sobre a sua vinda ainda não se cumpriram.

[364] E assim, até o dia de hoje, continuam esperando a futura vinda do Cristo.

[365] Pelo fato de não o terem reconhecido quando esteve presente no mundo.

[366] E, no entanto, não pode haver grande dúvida de que, ao verem os sinais dos tempos de que Ele já esteve entre nós, os judeus ficam perturbados.

[367] E se envergonham de confessar que Ele veio, visto que com suas próprias mãos o mataram.

[368] Porque foram feridos de indignação ao serem por Ele convencidos de não terem obedecido às leis.

[369] E afirmam que aquele que foi assim enviado por Deus não é este Cristo que aguardam.

[370] Mas confessam que outro Messias virá, o qual ainda não existe.

[371] E que ele introduzirá alguns dos sinais que a lei e os profetas anunciaram antecipadamente.

[372] Ao passo que, com respeito ao restante dessas indicações, supõem que houve engano.

[373] Pois dizem que sua geração será da linhagem de Davi.

[374] Mas não de uma virgem e do Espírito Santo.

[375] E sim de uma mulher e de um homem, conforme é a regra de todos os que são procriados a partir de semente.

[376] E alegam que esse Messias será rei sobre eles.

[377] Um homem guerreiro e poderoso.

[378] Que, depois de reunir todo o povo dos judeus e travar batalha com todas as nações, restaurará para eles Jerusalém, a cidade real.

[379] E para essa cidade reunirá toda a raça hebraica.

[380] E a reconduzirá uma vez mais aos antigos costumes.

[381] Para que desempenhe funções régias e sacerdotais.

[382] E habite em segurança por períodos de tempo suficientemente longos.

[383] Depois desse repouso, segundo a opinião deles, guerra seria novamente movida contra eles, depois de assim reunidos.

[384] E nesse conflito Cristo cairia ao fio da espada.

[385] E depois de não muito tempo viria a seguir-se o fim e a conflagração do universo.

[386] E desse modo suas opiniões acerca da ressurreição alcançariam cumprimento.

[387] E seria dada a cada homem retribuição segundo suas obras.

[388] Agora nos parece que as doutrinas tanto de todos os gregos quanto dos bárbaros foram suficientemente explicadas por nós.

[389] E que nada permaneceu sem refutação, nem dos pontos de que a filosofia se ocupou, nem das alegações apresentadas pelos hereges.

[390] E dessas próprias explicações é evidente a condenação dos hereges.

[391] Por terem ou furtado suas doutrinas ou recebido contribuições delas a partir de alguns daqueles princípios elaboradamente trabalhados pelos gregos.

[392] E por terem apresentado essas opiniões como se procedessem de Deus.

[393] Portanto, como percorremos apressadamente todos os seus sistemas e, com muito trabalho, proclamamos em nove livros todas as suas opiniões, deixamos para todos os homens um pequeno viático para a vida.

[394] E proporcionamos aos nossos contemporâneos, com grande alegria e deleite, desejo de aprender.

[395] Consideramos razoável, como toque final de toda a obra, introduzir o discurso já mencionado acerca da verdade.

[396] E apresentar a nossa exposição dessa verdade em um único livro, a saber, o décimo.

[397] Nosso objetivo é que o leitor, não apenas ao tomar conhecimento da ruína daqueles que presumiram estabelecer heresias, despreze suas vãs fantasias.

[398] Mas também, chegando a conhecer o poder da verdade, seja colocado no caminho da salvação.

[399] Depositando em Deus aquela fé que Ele tão dignamente merece.

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[1] Tendo nós, então, sustentado um longo combate contra todas as heresias, sem deixar nenhuma sem refutação, resta-nos ainda a maior luta: expor e refutar aquelas heresias que surgiram em nossos próprios dias, pelas quais certos homens ignorantes e presunçosos tentaram dispersar a Igreja e introduziram a maior confusão entre todos os fiéis no mundo inteiro.

[2] Pois parece conveniente que nós, investindo contra a opinião que constitui a principal fonte dos males contemporâneos, demonstremos quais são os princípios originários dessa doutrina, para que seus desdobramentos, tornando-se publicamente conhecidos, sejam objeto de desprezo universal.

[3] Surgiu, então, um homem chamado Noeto, natural de Esmirna por nascimento.

[4] Esse indivíduo introduziu uma heresia a partir dos princípios de Heráclito.

[5] Ora, um certo homem chamado Epígono tornou-se seu ministro e discípulo, e esse, durante sua permanência em Roma, difundiu sua opinião ímpia.

[6] Mas Cleômenes, que se tornara discípulo dele, estrangeiro tanto no modo de vida quanto nos costumes em relação à Igreja, costumava confirmar essa doutrina.

[7] Naquele tempo, Zeferino imaginava administrar os assuntos da Igreja, sendo um homem ignorante e vergonhosamente corrompido.

[8] E ele, persuadido pelo lucro oferecido, costumava favorecer aqueles que se aproximavam com o propósito de se tornarem discípulos de Cleômenes.

[9] E o próprio Zeferino, com o passar do tempo sendo seduzido, precipitou-se nessas mesmas opiniões, tendo Calisto como seu conselheiro e companheiro na defesa dessas doutrinas perversas.

[10] Mas a vida desse Calisto, e a heresia por ele inventada, explicarei daqui a pouco.

[11] A escola desses hereges, durante a sucessão de tais bispos, continuou a ganhar força e crescimento, pelo fato de Zeferino e Calisto os ajudarem a prevalecer.

[12] Nós, porém, jamais em tempo algum fomos culpados de conivência com eles.

[13] Pelo contrário, frequentemente lhes fizemos oposição, refutamo-los e os forçamos, ainda que contra a vontade, a reconhecer a verdade.

[14] E eles, envergonhados e constrangidos pela verdade, confessaram por breve tempo seus erros, mas logo depois voltaram a revolver-se na mesma lama.

[15] Mas, visto que já expusemos a sucessão de sua genealogia, parece conveniente agora explicar também o ensino perverso contido em suas doutrinas.

[16] Para isso, primeiro apresentaremos as opiniões de Heráclito, o Obscuro, e em seguida mostraremos quais partes dessas opiniões são de origem heraclitiana.

[17] Os atuais defensores desse sistema não sabem que tais elementos pertencem ao filósofo Obscuro, mas imaginam que pertencem a Cristo.

[18] E, se acaso se depararem com as observações seguintes, talvez assim sejam envergonhados e levados a desistir de sua blasfêmia ímpia.

[19] Ora, ainda que a opinião de Heráclito já tenha sido anteriormente exposta por nós no Philosophumena, parece conveniente agora também colocar lado a lado os dois sistemas, para que, por meio dessa refutação mais próxima, eles sejam evidentemente instruídos.

[20] Refiro-me aos seguidores desse herege, que imaginam ser discípulos de Cristo, quando na realidade não o são, mas discípulos do Obscuro.

[21] Heráclito, então, diz que o universo é um, divisível e indivisível, gerado e não gerado, mortal e imortal, razão, eternidade, Pai, Filho, justiça e Deus.

[22] “Para os que não me escutam, mas escutam a doutrina, é sábio reconhecer que todas as coisas são uma”, diz Heráclito.

[23] E porque nem todos sabem ou confessam isso, ele profere uma repreensão mais ou menos nestes termos: “Os homens não compreendem como o que diverge coincide consigo mesmo, assim como a harmonia inversa do arco e da lira”.

[24] E que essa Razão sempre existe, na medida em que constitui o universo e permeia todas as coisas, ele afirma desta maneira.

[25] “Mas, com respeito a essa Razão, que sempre existe, os homens permanecem continuamente sem entendimento, tanto antes de terem ouvido dela quanto ao ouvi-la pela primeira vez”.

[26] “Pois, ainda que todas as coisas aconteçam segundo essa Razão, parecem como pessoas sem experiência alguma a seu respeito”.

[27] “Ainda assim, tentam palavras e obras tais como as que descrevo, dividindo segundo a natureza e declarando como as coisas são”.

[28] E que um Filho é o universo e, ao longo dos séculos sem fim, um rei eterno de todas as coisas, ele assim afirma: “Uma criança brincando com dados é a eternidade; o reino pertence a uma criança”.

[29] E que o Pai de todas as coisas geradas é uma criatura não gerada, sendo criador, ouçamos Heráclito afirmando nestas palavras: “A contrariedade é geradora de todas as coisas e rei de todas; fez alguns deuses, outros homens, alguns escravos e outros livres”.

[30] E ele também afirma que há uma harmonia, como no arco e na lira.

[31] Que a harmonia obscura é melhor, embora desconhecida e invisível aos homens, ele afirma nestas palavras: “Uma harmonia obscura é preferível a uma evidente”.

[32] Ele elogia e admira, acima do que é conhecido, aquilo que é desconhecido e invisível em relação ao seu poder.

[33] E que a harmonia visível aos homens, e não impossível de ser descoberta, é melhor, ele afirma nestas palavras: “Tudo o que é objeto de visão, audição e inteligência, isto eu honro sobremaneira”.

[34] Isto é, ele prefere as coisas visíveis às invisíveis.

[35] A partir dessas expressões, é fácil compreender o espírito de sua filosofia.

[36] “Os homens”, diz ele, “enganam-se quanto ao conhecimento das coisas manifestas, do mesmo modo que Homero, que foi mais sábio que todos os gregos”.

[37] “Pois até mesmo crianças, matando piolhos, o enganaram quando disseram: ‘O que vimos e apanhamos, isso deixamos para trás; mas o que nem vimos nem apanhamos, isso levamos conosco’”.

[38] Dessa maneira Heráclito atribui ao visível igualdade de posição e honra com o invisível, como se o visível e o invisível fossem confessadamente uma mesma coisa.

[39] Pois ele diz: “Uma harmonia obscura é preferível a uma evidente”.

[40] E também: “Tudo quanto é objeto de visão, audição e inteligência”, isto é, dos órgãos corporais, “isso eu honro sobremaneira”.

[41] Não, nesta ocasião, embora antes, tendo honrado sobremaneira as coisas invisíveis.

[42] Portanto, nem as trevas, nem a luz, nem o mal, nem o bem, afirma Heráclito, são diferentes, mas são uma e a mesma coisa.

[43] De fato, ele censura Hesíodo, porque este não conhecia o dia e a noite.

[44] “Pois dia e noite são um”, diz ele, expressando-se mais ou menos assim.

[45] “O mestre de muito saber é Hesíodo, e as pessoas supõem que esse poeta possui imenso tesouro de conhecimento, e no entanto ele não conheceu a natureza do dia e da noite, porque eles são um”.

[46] Quanto ao bem e ao mal, segundo Heráclito, também são um.

[47] “Os médicos, sem dúvida”, diz Heráclito, “quando fazem incisões e cauterizam, embora torturem perversamente os doentes em todos os aspectos, queixam-se de que não recebem remuneração adequada de seus pacientes, ainda que realizem essas operações salutares sobre as doenças”.

[48] E tanto o reto quanto o torto, diz ele, são a mesma coisa.

[49] “O caminho é reto e curvo no instrumento dos cardadores de lã”.

[50] E o movimento circular de um instrumento na oficina do pisoeiro, chamado parafuso, é reto e curvo, pois gira ao mesmo tempo para cima e circularmente.

[51] “Portanto, o reto e o curvo são uma e a mesma coisa”, diz ele.

[52] E “o caminho para cima e o caminho para baixo são um e o mesmo”, diz ele.

[53] E também afirma que o que é imundo e o que é puro são um e o mesmo, e que o que é potável e o que não é próprio para beber são um e o mesmo.

[54] “O mar”, diz ele, “é água puríssima e impuríssima: potável e salutar para os peixes, mas imprópria para beber pelos homens e perniciosa para eles”.

[55] E, confessadamente, ele afirma que o que é imortal é mortal e que o que é mortal é imortal, nas seguintes expressões: “Os imortais são mortais, e os mortais são imortais”, isto é, quando uns recebem vida da morte e os outros morte da vida.

[56] E ele afirma também que há uma ressurreição desta carne palpável em que nascemos.

[57] E reconhece Deus como a causa dessa ressurreição, expressando-se desta maneira: “Aos que estão aqui, Deus permitirá levantar-se e tornar-se guardiões de vivos e mortos”.

[58] E afirma igualmente que o julgamento do mundo e de todas as coisas que nele há acontece por meio do fogo, expressando-se assim: “O trovão governa todas as coisas”, isto é, as dirige, querendo dizer, pelo trovão, o fogo eterno.

[59] Mas também afirma que esse fogo é dotado de inteligência e é causa do governo do universo, e o denomina desejo e saciedade.

[60] Ora, o desejo é, segundo ele, a ordenação do mundo, enquanto a saciedade é sua destruição.

[61] “Porque”, diz ele, “o fogo, vindo sobre a terra, julgará e tomará todas as coisas”.

[62] Mas neste ponto Heráclito ao mesmo tempo explica toda a peculiaridade de seu modo de pensar e, ao mesmo tempo, a característica da heresia de Noeto.

[63] E eu demonstrei brevemente que Noeto não é discípulo de Cristo, mas de Heráclito.

[64] Pois esse filósofo afirma que o mundo primordial é ele mesmo o Demiurgo e criador de si mesmo, na seguinte passagem: “Deus é dia, noite; inverno, verão; guerra, paz; fartura, fome”.

[65] “Todas as coisas são contrárias”, e esse parece ser o seu sentido.

[66] “Mas uma alteração ocorre, assim como se o incenso fosse misturado com outros tipos de incenso e recebesse nome segundo a sensação agradável produzida por cada espécie”.

[67] Ora, é evidente para todos que os tolos sucessores de Noeto, defensores de sua heresia, embora não tenham sido ouvintes dos discursos de Heráclito, quando adotam as opiniões de Noeto reconhecem abertamente esses princípios heraclitianos.

[68] Pois apresentam declarações deste tipo: que um e o mesmo Deus é o Criador e Pai de todas as coisas.

[69] E que, quando lhe agradou, ele apareceu, embora invisível, aos homens justos da antiguidade.

[70] Pois, quando não é visto, ele é invisível.

[71] E ele é incompreensível quando não quer ser compreendido, mas compreensível quando é compreendido.

[72] Daí decorre, segundo essa mesma explicação, que ele é invencível e vencível, não gerado e gerado, imortal e mortal.

[73] Como não se provará que pessoas que sustentam opiniões desse tipo são discípulas de Heráclito?

[74] Não foi Heráclito, o Obscuro, quem antecipou Noeto ao formular um sistema de filosofia com modos idênticos de expressão?

[75] Ora, ninguém ignora que Noeto afirma que o Filho e o Pai são o mesmo.

[76] Mas ele formula sua afirmação deste modo.

[77] “Quando, então, o Pai ainda não havia nascido, era justamente chamado Pai”.

[78] “E quando lhe agradou passar pela geração, tendo sido gerado, ele próprio tornou-se seu próprio Filho, e não o Filho de outro”.

[79] Pois assim ele pensa estabelecer a soberania de Deus, alegando que Pai e Filho, assim chamados, são uma e a mesma substância, não um indivíduo produzido a partir de outro distinto, mas ele próprio a partir de si mesmo.

[80] E que ele é chamado pelos nomes de Pai e Filho conforme a alternância dos tempos.

[81] Mas que é um só aquele que apareceu entre nós, tendo se submetido à geração a partir de uma virgem e tendo, como homem, convivido entre os homens.

[82] E, por causa do nascimento ocorrido, ele se declarou Filho àqueles que o contemplavam, sem dúvida.

[83] Todavia, àqueles que podiam compreendê-lo, não ocultou ser Pai.

[84] E que essa pessoa sofreu ao ser pregada no madeiro.

[85] E que entregou seu espírito a si mesmo, tendo morrido em aparência, e não estando realmente morto.

[86] E que ressuscitou a si mesmo no terceiro dia, depois de ter sido sepultado em um túmulo, ferido por uma lança e perfurado por cravos.

[87] Cleômenes afirma, juntamente com seu grupo de seguidores, que essa pessoa é Deus e Pai do universo.

[88] E assim introduz entre muitos uma obscuridade de pensamento semelhante à que encontramos na filosofia de Heráclito.

[89] Calisto, porém, tentou confirmar essa heresia.

[90] Era um homem astuto na maldade e sutil no que dizia respeito ao engano, movido por ambição inquieta de subir ao trono episcopal.

[91] Esse homem moldou Zeferino para seus próprios propósitos, sendo Zeferino um indivíduo ignorante, iletrado e sem instrução nas definições eclesiásticas.

[92] E, visto que Zeferino era acessível a subornos e cobiçoso, Calisto, atraindo-o com presentes e com exigências ilícitas, conseguiu seduzi-lo para qualquer caminho que quisesse.

[93] Assim, Calisto conseguiu induzir Zeferino a provocar continuamente perturbações entre os irmãos, enquanto ele próprio cuidava depois, por meio de palavras astutas, de prender ambas as facções à sua pessoa com boa vontade.

[94] E, em certa ocasião, àqueles que mantinham opiniões corretas, em particular alegava que eles sustentavam doutrinas semelhantes às dele, e assim os fazia de tolos.

[95] Em outra ocasião, fazia o mesmo com os que abraçavam as teses de Sabélio.

[96] Mas o próprio Calisto perverteu Sabélio, e isso mesmo tendo capacidade de corrigir o erro desse herege.

[97] Pois, em qualquer ocasião durante nossa admoestação, Sabélio não demonstrava dureza.

[98] Mas, enquanto permanecia a sós com Calisto, era levado a recair no sistema de Cleômenes por esse mesmo Calisto, que alegava sustentar opiniões semelhantes às de Cleômenes.

[99] Sabélio, porém, não percebeu então a astúcia de Calisto.

[100] Mas depois veio a percebê-la, como narrarei em seguida.

[101] Ora, Calisto trouxe o próprio Zeferino à frente e o induziu a professar publicamente os seguintes sentimentos: “Eu sei que há um só Deus, Jesus Cristo; e, exceto ele, não conheço outro que seja gerado e sujeito ao sofrimento”.

[102] E em outra ocasião, quando fazia a seguinte declaração: “O Pai não morreu, mas o Filho”, Zeferino desse modo continuava a manter perturbação incessante entre o povo.

[103] E nós, tomando conhecimento de seus sentimentos, não cedemos a ele, mas o repreendemos e resistimos por causa da verdade.

[104] E ele precipitou-se na loucura pelo fato de que todos consentiam com sua hipocrisia, mas nós não o fazíamos.

[105] E chamou-nos adoradores de dois deuses, vomitando, sem constrangimento, o veneno escondido dentro dele.

[106] Parece-nos desejável explicar a vida desse herege, visto que nasceu na mesma época que nós, para que, pela exposição dos hábitos de uma pessoa desse tipo, a heresia por ele tentada seja facilmente conhecida e talvez seja considerada tola pelos que são dotados de inteligência.

[107] Esse Calisto tornou-se mártir no tempo em que Fusciano era prefeito de Roma.

[108] E o modo de seu martírio foi o seguinte.

[109] Calisto era servo doméstico de um tal Carpóforo, homem da fé pertencente à casa de César.

[110] A esse Calisto, por ser da fé, Carpóforo confiou uma quantia nada pequena de dinheiro e ordenou-lhe que obtivesse lucros com negócios bancários.

[111] E ele, recebendo o dinheiro, montou um banco no lugar chamado Piscina Pública.

[112] E, com o passar do tempo, não poucos depósitos lhe foram confiados por viúvas e irmãos, sob o pretexto declarado de depositarem seu dinheiro com Carpóforo.

[113] Calisto, porém, fez desaparecer todo o dinheiro a ele confiado e se envolveu em dificuldades financeiras.

[114] E, tendo agido assim, não faltou alguém que informasse Carpóforo, e este declarou que exigiria dele prestação de contas.

[115] Calisto, percebendo essas coisas e suspeitando de perigo vindo de seu senhor, fugiu secretamente, dirigindo sua fuga para o mar.

[116] E encontrando em Porto um navio pronto para partir, embarcou, pretendendo navegar para onde quer que ele estivesse indo.

[117] Mas nem assim pôde evitar ser descoberto, pois não faltou quem levasse a Carpóforo a notícia do que havia acontecido.

[118] Carpóforo, de acordo com a informação recebida, dirigiu-se imediatamente ao porto e esforçou-se para entrar às pressas no navio atrás de Calisto.

[119] O barco, porém, estava ancorado no meio do porto.

[120] E como o barqueiro era lento em seus movimentos, Calisto, que estava no navio, teve tempo de avistar seu senhor à distância.

[121] E sabendo que seria inevitavelmente capturado, tornou-se imprudente em relação à própria vida.

[122] E, considerando seus negócios em estado desesperador, lançou-se ao mar.

[123] Mas os marinheiros saltaram em botes e o tiraram da água, ainda que ele não quisesse, enquanto os que estavam em terra levantavam grande clamor.

[124] E assim Calisto foi entregue ao seu senhor, levado para Roma, e seu senhor o colocou no Pistrino.

[125] Com o passar do tempo, porém, como costuma acontecer em tais casos, irmãos dirigiram-se a Carpóforo e lhe pediram que libertasse o servo fugitivo do castigo.

[126] Alegavam que Calisto reconhecia ter dinheiro a receber de certas pessoas.

[127] Carpóforo, porém, sendo homem devoto, disse que não se importava com a própria propriedade, mas se preocupava com os depósitos.

[128] Pois muitos choravam ao dizer-lhe que haviam confiado a Calisto aquilo que lhe entregaram sob o pretexto de depositarem o dinheiro com o próprio Carpóforo.

[129] E Carpóforo cedeu à persuasão deles e deu ordens para a libertação de Calisto.

[130] Este, porém, não tendo nada para pagar e não podendo fugir de novo, porque era vigiado, planejou um artifício pelo qual esperava encontrar a morte.

[131] Fingindo, então, que ia aos seus credores, correu no dia de sábado à sinagoga dos judeus, que ali estavam reunidos, e pôs-se de pé, causando perturbação entre eles.

[132] Eles, porém, perturbados por ele, insultaram-no, bateram nele e o arrastaram diante de Fusciano, prefeito da cidade.

[133] E, perguntados sobre a causa de tal tratamento, responderam nos seguintes termos: “Os romanos nos concederam o privilégio de ler publicamente as nossas leis transmitidas por nossos pais”.

[134] “Este homem, porém, ao entrar no nosso lugar de culto, impediu-nos de fazê-lo, causando perturbação entre nós e alegando ser cristão”.

[135] E Fusciano estava naquele momento no tribunal.

[136] E, ao demonstrar indignação contra Calisto por causa das declarações feitas pelos judeus, não faltou quem fosse informar Carpóforo sobre esses acontecimentos.

[137] E este, correndo ao tribunal do prefeito, exclamou: “Suplico-te, meu senhor Fusciano, não acredites nesse homem”.

[138] “Ele não é cristão, mas busca ocasião de morte, tendo feito desaparecer grande quantia do meu dinheiro, como provarei”.

[139] Os judeus, porém, supondo que isso fosse um artifício, como se Carpóforo procurasse sob esse pretexto libertar Calisto, clamaram ainda com mais hostilidade contra ele diante do prefeito.

[140] Fusciano, porém, influenciado por esses judeus, mandou açoitar Calisto e ordenou que fosse enviado para uma mina na Sardenha.

[141] Algum tempo depois, havendo ali outros mártires, Márcia, concubina de Cômodo, mulher temente a Deus e desejosa de realizar alguma boa obra, mandou chamar à sua presença o bem-aventurado Vítor, que naquele tempo era bispo da Igreja.

[142] E perguntou-lhe quais mártires estavam na Sardenha.

[143] E ele lhe entregou os nomes de todos, mas não deu o nome de Calisto, conhecendo os atos que este havia ousado praticar.

[144] Márcia, obtendo seu pedido de Cômodo, entregou a carta de libertação a um certo eunuco idoso chamado Jacinto.

[145] E este, recebendo-a, navegou para a Sardenha e, entregando a carta ao governador da região, conseguiu libertar os mártires, com exceção de Calisto.

[146] Mas o próprio Calisto, caindo de joelhos e chorando, suplicou que também ele obtivesse libertação.

[147] Jacinto, vencido pela insistência do prisioneiro, pediu ao governador que também lhe concedesse a liberdade, alegando que lhe fora dada autorização por Márcia para libertá-lo e que ele próprio garantiria que não houvesse risco nisso.

[148] O governador foi persuadido e libertou também Calisto.

[149] E quando este chegou a Roma, Vítor ficou muito contrariado com o ocorrido.

[150] Mas, como era homem compassivo, nada fez no caso.

[151] Contudo, para resguardar-se da censura de muitos, pois as tentativas de Calisto não eram coisas antigas, e porque Carpóforo ainda continuava hostil, Vítor enviou Calisto para morar em Âncio, fixando-lhe certa pensão mensal para alimento.

[152] E, após a morte de Vítor, Zeferino, tendo Calisto como colaborador na administração do clero, honrou-o para seu próprio prejuízo.

[153] E, trazendo-o de Âncio, colocou-o sobre o cemitério.

[154] Calisto, que costumava estar sempre junto de Zeferino e, como eu disse antes, prestar-lhe serviço hipócrita, revelou por contraste que Zeferino era pessoa incapaz de formar julgamento sobre as coisas ditas e incapaz de discernir o plano de Calisto, que costumava conversar com Zeferino sobre temas que agradavam a este.

[155] Assim, após a morte de Zeferino, supondo ter obtido o posto pelo qual tão avidamente se esforçava, excomungou Sabélio, acusando-o de não sustentar opiniões ortodoxas.

[156] Agiu assim por temor de mim, imaginando que, desse modo, poderia apagar entre as igrejas a acusação contra si, como se não sustentasse doutrinas estranhas.

[157] Era um impostor e um velhaco, e com o passar do tempo arrastou muitos consigo.

[158] E, tendo veneno entranhado no coração, sem formar opinião correta sobre qualquer assunto, e ainda assim envergonhado de dizer a verdade, esse Calisto, não apenas por nos dizer publicamente em tom de reprovação: “Vós sois diteístas”, mas também por ser frequentemente acusado por Sabélio como alguém que havia transgredido sua fé inicial, concebeu uma heresia semelhante à seguinte.

[159] Calisto afirma que o próprio Logos é o Filho e que ele próprio é o Pai.

[160] E que, embora seja denominado por título diferente, na realidade é um só espírito indivisível.

[161] E sustenta que o Pai não é uma pessoa e o Filho outra, mas que são um e o mesmo.

[162] E que todas as coisas estão cheias do Espírito divino, tanto as de cima quanto as de baixo.

[163] E afirma que o Espírito que se encarnou na virgem não é diferente do Pai, mas um e o mesmo.

[164] E acrescenta que isto é o que foi declarado pelo Salvador: “Não crês que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim?”.

[165] Pois aquilo que é visto, que é o homem, ele considera ser o Filho.

[166] Ao passo que o Espírito, que estava contido no Filho, considera ser o Pai.

[167] “Pois”, diz Calisto, “não professarei fé em dois deuses, Pai e Filho, mas em um só”.

[168] Pois o Pai, que subsistia no próprio Filho, depois de ter assumido nossa carne, elevou essa carne à natureza da divindade, unindo-a consigo mesmo, e fez dela uma só coisa.

[169] De modo que Pai e Filho devem ser chamados um só Deus.

[170] E essa pessoa, sendo uma, não pode ser duas.

[171] E assim Calisto sustenta que o Pai sofreu juntamente com o Filho.

[172] Pois ele não quer afirmar abertamente que o Pai sofreu e é uma única pessoa, cuidando de evitar blasfêmia contra o Pai.

[173] Quão cuidadoso ele é, homem insensato e enganador, que improvisa blasfêmias em todas as direções, apenas para não parecer falar contra a verdade, e não se envergonha de, ora ser traído pela doutrina de Sabélio, ora pela doutrina de Teódoto.

[174] O impostor Calisto, tendo ousado sustentar tais opiniões, estabeleceu uma escola de teologia em antagonismo à Igreja, adotando o sistema de ensino acima exposto.

[175] E ele foi o primeiro a inventar a prática de fechar os olhos à indulgência dos homens em prazeres sensuais, dizendo que todos tinham seus pecados perdoados por ele mesmo.

[176] Pois aquele que costumasse frequentar a congregação de qualquer outro e fosse chamado cristão, se cometesse alguma transgressão, o pecado, dizem eles, não lhe seria imputado, contanto apenas que corresse para se unir à escola de Calisto.

[177] E muitas pessoas se agradaram dessa regra, por estarem feridas na consciência e ao mesmo tempo terem sido rejeitadas por numerosas seitas.

[178] E algumas delas, em conformidade com nossa sentença condenatória, haviam sido por nós expulsas à força da Igreja.

[179] Ora, discípulos desse tipo passaram para esses seguidores de Calisto e serviram para encher sua escola.

[180] Este ensinava a opinião de que, se um bispo fosse culpado de qualquer pecado, mesmo um pecado para morte, não deveria ser deposto.

[181] Foi no tempo desse homem que bispos, presbíteros e diáconos, que haviam sido casados duas e três vezes, começaram a ser autorizados a conservar sua posição entre o clero.

[182] E se algum homem em ordens sagradas viesse também a casar-se, Calisto permitia que continuasse em ordens sagradas como se não tivesse pecado.

[183] E, para justificar isso, alega que o que o apóstolo disse foi falado acerca dessa pessoa: “Quem és tu que julgas o servo alheio?”.

[184] Mas ele afirmava igualmente que a parábola do joio foi pronunciada com referência a esse caso: “Deixai crescer o joio juntamente com o trigo”.

[185] Ou, em outras palavras, que os que na Igreja são culpados de pecado permaneçam nela.

[186] Também afirmava que a arca de Noé foi feita como símbolo da Igreja, na qual havia cães, lobos, corvos e todo tipo de animais limpos e imundos.

[187] E assim, alega ele, o caso deveria ser semelhante na Igreja.

[188] E tantas passagens da escritura quanto pôde recolher a favor dessa visão, ele as interpretava dessa maneira.

[189] E os ouvintes de Calisto, deleitados com seus ensinos, permanecem com ele, zombando assim de si mesmos e de muitos outros, e multidões desses enganados afluem à sua escola.

[190] Por isso também seus discípulos se multiplicam, e se vangloriam da quantidade de frequentadores por causa dos prazeres que Cristo não permitiu.

[191] Mas, desprezando a Cristo, eles não impõem freio a pecado algum, alegando perdoar os que consentem com as opiniões de Calisto.

[192] Pois ele permitia também às mulheres que, se não fossem casadas e ardessem de paixão numa idade certamente imprópria, ou se não estivessem dispostas a perder sua posição social por meio de um casamento legal, tivessem quem quisessem escolher como companheiro de leito, fosse escravo ou livre.

[193] E que uma mulher, embora não legalmente casada, pudesse considerar tal companheiro como marido.

[194] Daí, mulheres tidas como fiéis começaram a recorrer a drogas para produzir esterilidade e a apertar-se com cintas para expulsar o que havia sido concebido, por não desejarem ter um filho nem de um escravo nem de algum homem desprezível, por causa da família e da excessiva riqueza.

[195] Eis a quão grande impiedade esse homem sem lei chegou, ao ensinar ao mesmo tempo adultério e assassinato.

[196] E ainda assim, depois de tais atos audaciosos, eles, sem nenhuma vergonha, tentam chamar-se Igreja Católica.

[197] E alguns, supondo que assim alcançarão prosperidade, concordam com eles.

[198] Durante o episcopado desse homem, o segundo batismo foi pela primeira vez tentado presunçosamente por eles.

[199] Estas, então, são as práticas e opiniões que aquele espantoso Calisto estabeleceu.

[200] E sua escola continua, preservando seus costumes e sua tradição.

[201] Não discernem com quem devem manter comunhão, mas oferecem comunhão indiscriminadamente a todos.

[202] E dele derivaram a denominação de seu sobrenome.

[203] De modo que, por Calisto ter sido o principal defensor de tais práticas, devem ser chamados calistianos.

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[1] Visto que a grande massa dos hereges não emprega o conselho do Senhor, tendo uma trave no olho, e anunciam que veem quando na realidade labutam em cegueira, pareceu-nos conveniente de modo algum silenciar a respeito das doutrinas deles.

[2] Nosso objetivo é que, por meio da refutação realizada por nós, os hereges, envergonhando-se de si mesmos, sejam levados a conhecer como o Salvador aconselhou os homens primeiro a tirar a trave, e então ver claramente o argueiro que está no olho de seu irmão.

[3] Tendo, portanto, explicado de modo adequado e suficiente as doutrinas da maioria dos hereges nos sete livros anteriores, não nos calaremos agora quanto às opiniões heterodoxas que se seguem dessas.

[4] Por esse meio exibiremos a abundância da graça do Espírito Santo e refutaremos aqueles que supõem ter adquirido firmeza de doutrina, quando isso existe apenas na aparência.

[5] Estes chamaram a si mesmos Docetas e propõem as seguintes opiniões.

[6] Os Docetas sustentam que Deus é o ser primordial, como se fosse uma semente de figueira, inteiramente muito diminuta em tamanho, mas infinita em poder.

[7] Esta semente constitui, segundo os Docetas, uma magnitude humilde, incalculável em multidão, e sem carência alguma no que diz respeito à geração.

[8] Esta semente é refúgio dos aterrorizados, abrigo dos nus, véu para a modéstia e o fruto procurado, que Ele veio buscar, diz ele, três vezes, e não encontrou.

[9] Por isso, diz ele, amaldiçoou a figueira, porque não encontrou nela aquele fruto doce, o produto buscado.

[10] E visto que a Divindade é, segundo eles, para me expressar brevemente, dessa descrição e tão grande, isto é, pequena e diminuta, o mundo, ao que lhes parece, foi feito de alguma maneira semelhante à seguinte.

[11] Quando os ramos da figueira se tornaram tenros, primeiro brotaram folhas, como geralmente se pode ver, e em seguida veio o fruto.

[12] Ora, neste fruto fica preservada e guardada a semente infinita e incalculável da figueira.

[13] Pensamos, portanto, dizem os Docetas, que há três partes produzidas primeiramente pela semente da figueira: o caule, que constitui a figueira, as folhas e o fruto, a própria figa, como já declaramos anteriormente.

[14] Desta maneira, afirma o Doceta, foram produzidos três Éons, que são princípios procedentes da causa primordial originária do universo.

[15] E Moisés não se calou sobre esse ponto, quando diz que há três palavras de Deus: trevas, escuridão e tempestade, e nada acrescentou além disso.

[16] Pois o Doceta diz que Deus não acrescentou nada aos três Éons, mas estes, em todos os aspectos, foram suficientes para as exigências daqueles que foram gerados e bastam.

[17] O próprio Deus, porém, permanece consigo mesmo, muito separado dos três Éons.

[18] Quando cada um desses Éons obteve uma causa originária de geração, cresceu, como foi declarado, pouco a pouco, e em graus foi engrandecido, e finalmente tornou-se perfeito.

[19] Mas eles pensam que perfeito é aquilo que é contado em dez.

[20] Quando, portanto, os Éons se tornaram iguais em número e em perfeição, foram, segundo a opinião dos Docetas, constituídos ao todo trinta Éons, enquanto cada um atinge a perfeição plena numa década.

[21] E os três são mutuamente distintos e mantêm um grau de honra em relação uns aos outros, diferindo apenas em posição, porque um deles é primeiro, outro segundo e outro terceiro.

[22] A posição, contudo, lhes deu diversidade de poder.

[23] Pois aquele que obteve uma posição mais próxima da Divindade primordial, que é como uma semente, possuía um poder mais produtivo do que os demais, visto que ele próprio, sendo o incomensurável, mediu-se a si mesmo dez vezes em volume.

[24] Aquele, porém, que é o segundo em posição em relação à Divindade primordial, por ser o incompreensível, compreendeu-se a si mesmo seis vezes.

[25] Mas aquele que agora é o terceiro em posição é levado a uma distância infinita em consequência da dilatação de seus irmãos.

[26] E quando esse terceiro Éon se concebeu em pensamento por três vezes, cercou-se a si mesmo, por assim dizer, com alguma cadeia eterna de união.

[27] E estes hereges supõem que isto é o que foi dito pelo Salvador: “Um semeador saiu a semear”.

[28] E aquilo que caiu em boa e bela terra produziu, uma parte cem por um, outra sessenta por um, outra trinta por um.

[29] E por esta razão, diz o Doceta, o Salvador pronunciou as palavras: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, porque estas verdades não são meros rumores.

[30] Todos estes Éons, tanto os três como todos aqueles infinitos que deles procedem indefinidamente, são Éons hermafroditas.

[31] Todos estes, depois de terem crescido, sido engrandecidos e surgido daquela única semente primária, foram movidos por um espírito de concórdia e união, e todos se fundiram em um só Éon.

[32] E desta maneira geraram de uma única virgem, Maria, uma prole conjunta, que é Mediador, isto é, o Salvador de todos os que estão na aliança da mediação.

[33] E este Salvador é, em todos os aspectos, igual em poder à semente da figueira, exceto no fato de que foi gerado.

[34] Ao passo que aquela semente primária, da qual brotou a figueira, é não gerada.

[35] Quando, portanto, aqueles três Éons foram adornados com toda virtude e toda santidade, assim supõem esses mestres, bem como aquele filho unigênito, pois somente ele foi gerado por aqueles Éons infinitos, a partir dos três imediatamente envolvidos em seu nascimento, já que três Éons imensuráveis, estando unânimes, o geraram.

[36] Depois, digo, que os Éons e o Filho unigênito foram assim adornados, toda a natureza que é cognoscível pelo intelecto foi formada sem deficiência.

[37] Ora, todas essas entidades inteligíveis e eternas constituíam luz.

[38] A luz, porém, não era sem forma, nem inoperante, nem carente, por assim dizer, da assistência de qualquer outro poder.

[39] Mas a luz, proporcionalmente à multidão daqueles infinitos Éons gerados indefinidamente conforme o modelo da figueira, possui em si mesma infinitas espécies de vários animais próprios daquela região da criação e brilhou para baixo sobre o caos subjacente.

[40] E quando esse caos foi simultaneamente iluminado e recebeu forma por aquelas espécies diversificadas vindas de cima, daí derivou solidez e adquiriu todas aquelas espécies superiores do terceiro Éon, que havia feito de si mesmo algo tríplice.

[41] Este terceiro Éon, porém, vendo que todos os seus próprios atributos distintivos eram tomados coletivamente pelas trevas subjacentes abaixo, e não ignorando o poder das trevas, e ao mesmo tempo a segurança e abundância da luz, não permitiu que seus atributos brilhantes, que lhe vinham de cima, fossem por muito tempo arrebatados pelas trevas abaixo.

[42] Mas agiu de modo completamente contrário, pois sujeitou as trevas aos Éons.

[43] Depois, então, de ter formado o firmamento sobre o mundo inferior, dividiu as trevas da luz e chamou à luz que estava acima do firmamento dia, e às trevas chamou noite.

[44] Quando todas as infinitas espécies, então, como eu disse, do terceiro Éon foram interceptadas nestas trevas mais inferiores, a própria figura do Éon também, tal como foi descrita, ficou impressa nelas juntamente com os demais atributos.

[45] Ora, essa figura é um fogo vivificante, gerado da luz, de onde se originou o Grande Arconte.

[46] E a respeito deste Arconte Moisés observa: “No princípio Deus criou os céus e a terra”.

[47] Moisés menciona esse Deus ígneo como tendo falado da sarça, isto é, do ar escurecido.

[48] Pois toda a atmosfera que está por baixo das trevas é, segundo ele, um meio de transmissão da luz.

[49] Agora Moisés empregou, diz o Doceta, a expressão sarça, porque todas as espécies de luz passam de cima para baixo por meio da atmosfera como meio de transmissão.

[50] E em grau não menor pode ser reconhecida a Palavra de Jeová dirigida a nós a partir da sarça, isto é, de um meio atmosférico, pois a voz, enquanto significante em linguagem de um sentido, é uma reverberação do ar, e sem esta atmosfera a fala humana não pode ser reconhecida.

[51] E não somente a Palavra de Jeová dirigida a nós a partir da sarça, isto é, do ar, legisla e se torna concidadã conosco, mas faz ainda mais do que isso, pois também odores e cores manifestam a nós, por meio do ar, suas qualidades próprias.

[52] Esta divindade ígnea, então, depois de ter se tornado fogo procedente da luz, passou a criar o mundo da maneira que Moisés descreve.

[53] Ele próprio, entretanto, por ser destituído de subsistência, utiliza as trevas como sua substância e constantemente insulta aqueles atributos eternos de luz que, vindos de cima, haviam sido apanhados pelas trevas abaixo.

[54] Até o tempo, portanto, da manifestação do Salvador, prevaleceu, por causa da divindade de luz ígnea, isto é, do Demiurgo, uma ampla ilusão das almas.

[55] Pois as espécies são chamadas almas, porque são refrigerações vindas dos Éons superiores e permanecem nas trevas.

[56] Mas quando as almas são alteradas de corpos para corpos, permanecem sob a guarda do Demiurgo.

[57] E que estas coisas são assim, diz o Doceta, também é possível perceber em Jó, quando emprega as seguintes palavras: “Sou um errante, mudando tanto de lugar em lugar como de casa em casa”.

[58] E também, segundo os Docetas, aprendemos a mesma coisa das palavras do Salvador: “E, se o quereis receber, este é Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

[59] Mas pela instrumentalidade do Salvador essa transferência de almas de corpo em corpo foi feita cessar, e a fé é pregada para remissão dos pecados.

[60] De algum modo semelhante a esse, aquele Filho unigênito, ao contemplar as formas dos Éons superiores que haviam sido transferidas de cima para corpos tenebrosos, vindo para baixo, quis descer e libertá-las.

[61] Quando, porém, o Filho percebeu que os Éons, aqueles que subsistem coletivamente, são incapazes de contemplar o Pléroma de todos os Éons, mas que em estado de consternação temem sofrer corrupção por serem eles mesmos perecíveis e que são dominados pela magnitude e pelo esplendor do poder, então o Filho se contraiu.

[62] Contraiu-se, por assim dizer, como um grande clarão em um corpo muito pequeno, ou melhor, como um raio de visão condensado debaixo das pálpebras, e nessa condição avança até o céu e até as estrelas resplandecentes.

[63] E nesta região da criação Ele novamente se recolhe debaixo das pálpebras da visão conforme quer.

[64] Ora, a luz da visão realiza o mesmo efeito, pois embora esteja em toda parte e torne todas as coisas visíveis, ainda assim é imperceptível a nós.

[65] Nós, porém, vemos apenas as pálpebras da visão, enquanto os cantos do olho, um tecido largo, tortuoso e extremamente fibroso, a membrana da córnea e, sob esta, a pupila, que tem forma de bago, semelhante a uma rede e arredondada.

[66] E observamos quaisquer outras membranas que pertençam à luz do olho, e envolta nelas esta luz jaz escondida.

[67] Assim, diz o Doceta, o unigênito e eterno Filho vindo do alto revestiu-se de uma forma correspondente a cada Éon individual dos três Éons.

[68] E, estando ele dentro da trintena de Éons, entrou neste mundo exatamente como o descrevemos, sem ser notado, desconhecido, obscuro e sem receber fé.

[69] Portanto, para que ele se revestisse das trevas prevalecentes nas regiões mais distantes da criação, e por trevas ele entende a carne, um anjo viajou com ele desde o alto e anunciou as boas-novas a Maria, diz o Doceta, como foi escrito.

[70] E o filho dela nasceu, como foi escrito.

[71] E aquele que veio do alto vestiu aquilo que nasceu, e assim fez todas as coisas, como foi escrito a respeito dele nos evangelhos.

[72] Ele lavou-se no Jordão e, quando foi batizado, recebeu na água uma figura e um selo, além do corpo nascido da virgem, isto é, um outro despojo espiritual.

[73] E o objetivo disso era que, quando o Arconte condenasse seu próprio artifício particular de carne à morte, isto é, à cruz, aquela alma que havia sido nutrida no corpo nascido da virgem pudesse despir esse corpo e pregá-lo no madeiro maldito.

[74] Desta maneira a alma triunfaria por meio desse corpo sobre principados e potestades, e não seria encontrada nua, mas em lugar daquela carne assumiria o outro corpo que havia sido representado na água quando ele estava sendo batizado.

[75] Isto é, diz o Doceta, o que o Salvador afirma: “Se alguém não nascer da água e do Espírito, não entrará no reino dos céus, porque o que é nascido da carne é carne”.

[76] Dos trinta Éons, portanto, o Filho assumiu trinta formas.

[77] E por essa razão aquele Eterno existiu por trinta anos sobre a terra, porque cada Éon era manifestado de modo peculiar durante o seu próprio ano.

[78] E as almas são todas aquelas formas que foram apanhadas por cada um dos trinta Éons.

[79] E cada uma destas foi constituída de tal modo que pode discernir Jesus, que é de uma natureza semelhante à sua.

[80] E foi a natureza deste Jesus que aquele unigênito e eterno assumiu desde os lugares eternos.

[81] Estes lugares, porém, são diversos.

[82] Consequentemente, um número proporcional de heresias, com o maior zelo, procura Jesus.

[83] Ora, todas essas heresias têm o seu próprio Jesus, mas ele é visto de maneira diferente conforme diferente é o lugar para o qual, diz ele, cada alma é levada e se apressa.

[84] E cada alma supõe que o Jesus visto de seu lugar particular é o único que é seu parente e concidadão peculiar.

[85] E ao vê-lo pela primeira vez reconhece-o como seu próprio irmão, mas aos demais como bastardos.

[86] Aqueles, então, que derivam sua natureza das regiões inferiores não são capazes de ver as formas do Salvador que estão acima deles.

[87] Aqueles, porém, diz ele, que são do alto, da década intermediária e da excelentíssima ogdóada, de onde, dizem os Docetas, nós somos, conheceram eles mesmos Jesus Salvador não em parte, mas inteiramente.

[88] E aqueles que são do alto são os únicos perfeitos, mas todos os demais o são apenas parcialmente.

[89] Estas declarações, portanto, considero suficientes para mentes bem constituídas a fim de alcançarem o conhecimento da complicada e instável heresia dos Docetas.

[90] Mas aqueles que propuseram argumentos especulativos acerca da Matéria inacessível e incompreensível deram a si mesmos o nome de Docetas.

[91] Ora, consideramos que alguns desses agem tolamente, não diremos na aparência, mas na realidade.

[92] Em todo caso, demonstramos que uma trave proveniente de tal matéria é carregada no olho, para ver se por algum meio se tornam capazes de percebê-la.

[93] Se, porém, não a discernem, o nosso objetivo é que não tornem outros cegos.

[94] O fato é que os sofistas dos gregos, em tempos antigos, já haviam antes inventado, em muitos pontos, as doutrinas destes Docetas, como é possível aos meus leitores averiguarem, se se derem ao trabalho.

[95] Estas, então, são as opiniões propostas pelos Docetas.

[96] Quanto ao que também são os princípios de Monoímo, não nos calaremos.

[97] Monoímo, o árabe, estava muito distante da glória do poeta de linguagem retumbante.

[98] Pois Monoímo supõe que existe um homem como aquele que o poeta chama Oceano, exprimindo-se mais ou menos assim: “Oceano, fonte dos deuses e fonte dos homens”.

[99] Mudando esses pensamentos em outras palavras, Monoímo diz que o homem é o universo.

[100] Ora, o universo é a causa originária de todas as coisas, não gerado, incorruptível e eterno.

[101] E ele diz que o filho daquele homem previamente mencionado é gerado, sujeito à paixão e que é produzido independentemente do tempo, sem desígnio e sem ter sido predestinado.

[102] Pois tal, diz ele, é o poder daquele homem.

[103] E sendo ele assim constituído em poder, Monoímo alega que o filho nasceu mais depressa do que o pensamento e a vontade.

[104] E isto, diz ele, é o que foi falado nas escrituras: “Ele era, e foi gerado”.

[105] E o sentido disto é: o homem era, e seu filho foi gerado, assim como alguém poderia dizer: o fogo era, e independentemente do tempo, sem desígnio e sem predestinação, a luz foi gerada simultaneamente com a existência do fogo.

[106] E este homem constitui uma mônada única, que é não composta e indivisível e, ao mesmo tempo, composta e divisível.

[107] E esta mônada é em todos os aspectos amistosa, em todos os aspectos pacífica, em todos os aspectos brigadora e em todos os aspectos contenciosa consigo mesma, dessemelhante e semelhante.

[108] Esta mônada é também, por assim dizer, uma certa harmonia musical que compreende em si todas as coisas, tantas quantas alguém possa expressar e tantas quantas omita quando não as considera.

[109] E manifesta todas as coisas e gera todas as coisas.

[110] Esta é Mãe, esta é Pai, dois nomes imortais.

[111] Como ilustração, porém, considera, diz ele, como a maior imagem do homem perfeito, um único jota, um único pequeno traço.

[112] E este pequeno traço é uma mônada não composta, simples e pura, que não deriva sua composição de coisa alguma.

[113] E, contudo, este mesmo pequeno traço é também composto, multiforme, ramificando-se em muitas seções e consistindo de muitas partes.

[114] Este único traço indivisível é, diz ele, um pequeno traço da letra iota, com muitas faces, inumeráveis olhos e incontáveis nomes, e este traço é uma imagem daquele homem perfeito e invisível.

[115] A mônada, isto é, o pequeno traço único, é, portanto, diz ele, também uma década.

[116] Pois pelo poder efetivo deste único traço são produzidas a díade, a tríade, a tétrade, a pêntade, a héxade, a héptade, a ogdóada, a eneáde, até dez.

[117] Pois estes números, diz ele, são capazes de muitas divisões e residem nesse único e simples traço não composto do iota.

[118] E isto é o que foi declarado: “Aprouve a Deus que toda a plenitude habitasse corporalmente no Filho do homem”.

[119] Pois tais composições de números, a partir do simples e não composto pequeno traço do iota, tornam-se, diz ele, realidades corpóreas.

[120] O Filho do homem, portanto, diz ele, foi gerado a partir do homem perfeito, que ninguém conheceu.

[121] Toda criatura que ignora o Filho, porém, forma a ideia de que ele é descendência de mulher.

[122] E certos raios muito obscuros desse Filho que se aproximam deste mundo impedem e controlam a alteração e a geração.

[123] E a beleza daquele Filho do homem permanece até o presente incompreensível a todos os homens que são enganados quanto ao descendente da mulher.

[124] Portanto, diz ele, nada das coisas que estão em nossa região da criação foi produzido por aquele homem, nem jamais será gerado dele qualquer coisa dessas.

[125] Todas as coisas, entretanto, foram produzidas não da totalidade, mas de alguma parte daquele Filho do homem.

[126] Pois ele diz que o Filho do homem é um jota em um pequeno traço, que procede de cima, é pleno e enche completamente todos os raios que descem do alto.

[127] E compreende em si todas as coisas que o homem também possui, isto é, o Pai do Filho do homem.

[128] O mundo, então, como diz Moisés, foi feito em seis dias, isto é, por seis potências inerentes ao único pequeno traço do iota.

[129] Mas o sétimo dia, que é descanso e sábado, foi produzido a partir da héptade, que está sobre a terra, a água, o fogo e o ar.

[130] E a partir destes elementos o mundo foi formado pelo único pequeno traço.

[131] Pois cubos, octaedros, pirâmides e todas as figuras semelhantes a estas, das quais consistem o fogo, o ar, a água e a terra, surgiram dos números compreendidos naquele simples traço do iota.

[132] E este traço constitui um filho perfeito de um homem perfeito.

[133] Quando, portanto, diz ele, Moisés menciona que a vara foi brandida de modo mutável para a introdução das pragas por todo o Egito, e estas pragas, diz ele, são símbolos expressos alegoricamente da criação, não moldou a vara como símbolo para mais do que dez pragas.

[134] Ora, esta vara constitui um pequeno traço do iota e é ao mesmo tempo dupla e variada.

[135] Esta sucessão de dez pragas é, diz ele, a criação mundana.

[136] Pois todas as coisas, ao serem golpeadas, produzem e dão fruto, como as videiras.

[137] O homem, diz ele, irrompe e é violentamente separado do homem ao ser cortado por um certo golpe.

[138] E isto acontece para que o homem seja gerado e declare a lei que Moisés ordenou, a qual recebeu de Deus.

[139] Em conformidade com aquele único pequeno traço, a lei constitui a série dos dez mandamentos, que expressa alegoricamente os mistérios divinos daqueles preceitos.

[140] Pois, diz ele, todo o conhecimento do universo está contido no que se relaciona à sucessão das dez pragas e à série dos dez mandamentos.

[141] E ninguém conhece este conhecimento dentre aqueles que são enganados quanto ao descendente da mulher.

[142] Se, porém, disseres que o Pentateuco constitui toda a lei, ele deriva da pêntade que está compreendida naquele único pequeno traço.

[143] Mas o todo é, para aqueles que não foram de todo aperfeiçoados no entendimento de um mistério, uma festa nova e não antiquada, legal e eterna, uma páscoa do Senhor Deus celebrada por nossas gerações, por aqueles que são capazes de discernir este mistério, no começo do décimo quarto dia, que é o início de uma década a partir da qual, diz ele, eles contam.

[144] Pois a mônada, até quatorze, é o resumo daquele único traço do número perfeito.

[145] Pois um, dois, três e quatro tornam-se dez, e isto é o único pequeno traço.

[146] Mas de quatorze até vinte e um, ele sustenta que há uma héptade inerente ao único pequeno traço do mundo, e que constitui em tudo isso uma criatura sem fermento.

[147] Pois em que sentido, diz ele, necessitaria o único pequeno traço de alguma substância como fermento proveniente de fora para a páscoa do Senhor, a festa eterna, dada para geração após geração?

[148] Pois o mundo inteiro e todas as causas da criação constituem uma páscoa, isto é, uma festa do Senhor.

[149] Pois Deus se alegra na conversão da criação, e isto é realizado por dez golpes do único pequeno traço.

[150] E este traço é a vara de Moisés, dada por Deus à mão de Moisés.

[151] E com esta vara Moisés fere os egípcios, com o propósito de alterar os corpos, como, por exemplo, a água em sangue, e do mesmo modo as demais coisas materiais, como os gafanhotos, que são símbolo da erva.

[152] E por isto quer dizer a alteração dos elementos em carne, pois toda carne, diz ele, é erva.

[153] Estes homens, entretanto, recebem mesmo a lei inteira de algum modo semelhante a esse, adotando provavelmente, ao que penso, as opiniões daqueles gregos que afirmam haver substância, qualidade, quantidade, relação, lugar, tempo, posição, ação, posse e paixão.

[154] O próprio Monoímo, portanto, em sua carta a Teofrasto, faz expressamente a seguinte declaração.

[155] Deixando de procurar a Deus, a criação e coisas semelhantes a estas, procura-o a partir de ti mesmo.

[156] E aprende quem é aquele que absolutamente apropria para si todas as coisas em ti e diz: “Meu Deus é minha mente, meu entendimento, minha alma, meu corpo”.

[157] E aprende de onde vêm a tristeza, a alegria, o amor, o ódio, a vigília involuntária, a sonolência involuntária, a ira involuntária e a afeição involuntária.

[158] E, se, diz ele, investigares com exatidão estes pontos, descobrirás o próprio Deus, unidade e pluralidade, em ti mesmo, segundo aquele pequeno traço, e descobrirás que Ele encontra em ti mesmo a saída para a Divindade.

[159] Estes hereges, então, fizeram tais afirmações.

[160] Mas não temos necessidade de comparar tais doutrinas com aquelas que antes foram objeto de meditação por parte dos gregos, visto que as declarações avançadas por estes hereges evidentemente derivam sua origem da arte geométrica e aritmética.

[161] Os discípulos, porém, de Pitágoras expuseram essa arte de maneira mais excelente, como nossos leitores podem verificar consultando aquelas passagens de nossa obra nas quais anteriormente fornecemos exposições de toda a sabedoria dos gregos.

[162] Mas, visto que a heresia de Monoímo foi suficientemente refutada, vejamos quais são as doutrinas fictícias que os demais também inventam, em seu desejo de erguer para si um nome vazio.

[163] Taciano, porém, embora ele mesmo tenha sido discípulo de Justino Mártir, não sustentou opiniões semelhantes às de seu mestre.

[164] Mas tentou estabelecer certos princípios novos e afirmou que existiam certos Éons invisíveis.

[165] E elaborou um relato lendário acerca deles, semelhante ao dos que foram falados por Valentim.

[166] E, semelhantemente a Marcião, afirma que o casamento é destruição.

[167] Mas alega que Adão não é salvo por ter sido o autor da desobediência.

[168] E isto baste quanto às doutrinas de Taciano.

[169] Mas um certo Hermógenes, também ele imaginando que propunha alguma opinião nova, disse que Deus fez todas as coisas a partir de uma matéria coeterna e não gerada.

[170] Pois seria impossível, segundo ele, que Deus fizesse coisas geradas a partir de coisas que não existem.

[171] E que Deus é sempre Senhor e sempre Criador, e a matéria é sempre uma substância subordinada e aquilo que assume formas de existência, não, porém, a totalidade dela.

[172] Pois, quando a matéria estava sendo continuamente movida de forma rude e desordenada, Ele a reduziu à ordem pelo seguinte expediente.

[173] Ao contemplá-la em estado de ebulição, como o conteúdo de uma panela quando um fogo arde debaixo dela, efetuou uma separação parcial.

[174] E tomando uma porção do todo, submeteu-a, mas outra deixou ser revolvida de maneira desordenada.

[175] E afirma que aquilo que foi assim submetido é o mundo, mas que outra porção permanece selvagem e é denominada matéria caótica.

[176] Afirma que esta constitui a substância de todas as coisas, como se introduzisse um princípio novo para seus discípulos.

[177] Não percebe, porém, que isto coincide com o discurso socrático, que foi de fato desenvolvido mais elaboradamente por Platão do que por Hermógenes.

[178] Ele reconhece, entretanto, que Cristo é o Filho do Deus que criou todas as coisas.

[179] E juntamente com essa admissão, confessa que Cristo nasceu de uma virgem e do Espírito, segundo a voz dos evangelhos.

[180] E Hermógenes sustenta que Cristo, depois de sua paixão, foi levantado em um corpo, e que apareceu a seus discípulos, e que, ao subir ao céu, deixou seu corpo no sol, mas ele próprio prosseguiu até o Pai.

[181] Ora, Hermógenes recorre a um testemunho, pensando apoiar-se no que é dito, a saber, o que o salmista Davi diz: “No sol ele pôs o seu tabernáculo, e ele mesmo é como noivo que sai de seu aposento, e se alegrará como um gigante a percorrer seu caminho”.

[182] Estas, então, são as opiniões que Hermógenes também tentou estabelecer.

[183] E certos outros hereges, contenciosos por natureza e inteiramente sem instrução quanto ao conhecimento, além de mais briguentos do que o comum em seu modo de agir, unem-se em sustentar que a Páscoa deve ser guardada no décimo quarto dia do primeiro mês, segundo o mandamento da lei, em qualquer dia da semana em que ele caia.

[184] Nisto consideram apenas o que foi escrito na lei, que será amaldiçoado aquele que não a guardar assim como foi ordenado.

[185] Não atentam, porém, para o fato de que a ordenança legal foi feita para os judeus, que no futuro haveriam de matar a verdadeira Páscoa.

[186] E este sacrifício pascal, em sua eficácia, estendeu-se aos gentios, sendo discernido pela fé, e não agora observado apenas na letra.

[187] Eles se apegam a este único mandamento e não olham para o que foi falado pelo apóstolo: “Pois testifico a todo homem que se circuncida, que está obrigado a guardar toda a lei”.

[188] Em outros aspectos, porém, estes concordam com todas as tradições entregues à Igreja pelos apóstolos.

[189] Mas há outros que são ainda mais heréticos por natureza do que os anteriores e são frígios de nascimento.

[190] Estes se tornaram vítimas do erro por terem sido previamente cativados por duas miseráveis mulheres, chamadas Priscila e Maximila, as quais supuseram ser profetisas.

[191] E afirmam que nelas havia descido o Espírito Paráclito.

[192] E antes delas, do mesmo modo, consideram Montano como profeta.

[193] E, possuindo um número infinito de seus livros, os frígios estão dominados pelo engano.

[194] E não julgam as declarações feitas por elas segundo o critério da razão, nem dão ouvido aos que são competentes para decidir, mas são impensadamente arrastados pela confiança que depositam nessas impostoras.

[195] E alegam que aprenderam por meio delas algo mais do que pela lei, pelos profetas e pelos evangelhos.

[196] Mas exaltam estas miseráveis mulheres acima dos apóstolos e de todo dom da graça, de tal modo que alguns deles ousam afirmar que há nelas algo superior a Cristo.

[197] Estes reconhecem Deus como Pai do universo e Criador de todas as coisas, assim como a Igreja, e recebem tantas coisas quantas o evangelho testifica acerca de Cristo.

[198] Introduzem, porém, novidades de jejuns, festas, refeições de grãos tostados e repastos de rabanetes, alegando que foram instruídos por mulheres.

[199] E alguns destes aderem à heresia dos Noetianos e afirmam que o próprio Pai é o Filho, e que este mesmo foi submetido a geração, sofrimento e morte.

[200] A respeito destes darei novamente uma explicação de forma mais minuciosa, pois a heresia deles foi ocasião de males para muitos.

[201] Consideramos, portanto, que as afirmações feitas acerca desses hereges são suficientes, quando tivermos brevemente demonstrado a todos que a maioria de seus livros é tola, que suas tentativas de argumentação são fracas e dignas de nenhuma consideração.

[202] Pois não é necessário que aqueles que possuem mente sã deem atenção nem aos seus volumes nem aos seus argumentos.

[203] Outros, porém, chamando-se Encratitas, reconhecem algumas coisas acerca de Deus e de Cristo de modo semelhante à Igreja.

[204] No entanto, quanto ao seu modo de vida, passam os dias inchados de orgulho.

[205] Supõem que se engrandecem por meio dos alimentos, abstendo-se de comida animal, bebendo água, proibindo o casamento e dedicando-se durante o restante da vida a hábitos de ascetismo.

[206] Mas pessoas desse tipo são consideradas cínicos mais do que cristãos, já que não atentam para as palavras proferidas contra eles por meio do apóstolo Paulo.

[207] Ora, ele, predizendo as novidades que futuramente seriam inutilmente introduzidas por certos hereges, fez a seguinte declaração: “O Espírito diz expressamente que nos últimos tempos alguns apostatarão da sã doutrina, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, falando mentiras em hipocrisia, tendo cauterizada a própria consciência, proibindo casar, ordenando abster-se de alimentos, que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos fiéis e por aqueles que conhecem a verdade; porque toda criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado se for recebido com ações de graças, pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração”.

[208] Esta voz, então, do bem-aventurado Paulo, é suficiente para a refutação daqueles que vivem dessa maneira e se vangloriam de serem justos, e para provar também que este princípio dos Encratitas constitui uma heresia.

[209] Mas, embora também tenham sido denominadas certas outras heresias, quero dizer as dos Caimitas, dos Ofitas, dos Noaquitas e outras deste tipo, não considerei necessário explicar as coisas ditas ou feitas por estes, para que não se tenham por alguém ou dignos de consideração por causa disso.

[210] Visto, porém, que as declarações a respeito destes parecem suficientes, passemos à causa de males para todos, isto é, à heresia dos Noetianos.

[211] Agora, depois de havermos posto a descoberto a raiz dessa heresia e estigmatizado abertamente o veneno, por assim dizer, que nela se esconde, procuremos desviar deste erro aqueles que foram impelidos para ele por um espírito violento, como se por uma torrente impetuosa.

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[1] O evangelho, então, veio primeiro, diz ele, da Filiação por meio do Filho que estava assentado ao lado do Arconte, até o Arconte.

[2] E o Arconte aprendeu que não era o Deus do universo, mas alguém gerado.

[3] Porém, ao descobrir que acima de si havia o tesouro depositado daquele Inefável, Inominável e Não-Existente, e também da Filiação, converteu-se e encheu-se de temor, quando veio a compreender em que ignorância estava envolvido.

[4] Isto, diz ele, é o que foi declarado: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”.

[5] Pois, sendo instruído oralmente por Cristo, que estava assentado perto dele, começou a adquirir sabedoria, aprendendo quem é o Não-Existente, o que é a Filiação, o que é o Espírito Santo, o que é a estrutura do universo e qual será a consumação de todas as coisas.

[6] Esta é a sabedoria falada em mistério, acerca da qual, diz Basílides, a escritura usa as seguintes expressões: “Não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas nas ensinadas pelo Espírito”.

[7] O Arconte, então, sendo instruído oralmente e ensinado, e por isso cheio de temor, passou a fazer confissão do pecado que havia cometido ao engrandecer a si mesmo.

[8] Isto, diz ele, é o que foi declarado: “Reconheci o meu pecado, e conheço a minha transgressão, e sobre isto confessarei para sempre”.

[9] Quando, portanto, o Grande Arconte foi instruído oralmente, e toda criatura da Ogdóade também foi instruída e ensinada, e o mistério se tornou conhecido das potestades celestes, foi igualmente necessário que depois o evangelho chegasse à Hebdômade, para que também o Arconte da Hebdômade fosse de modo semelhante instruído e catequizado no evangelho.

[10] O Filho do Grande Arconte, portanto, acendeu no Filho do Arconte da Hebdômade a luz que ele próprio possuía e havia recebido do alto, vinda da Filiação.

[11] E o Filho do Arconte da Hebdômade recebeu essa irradiância e proclamou o evangelho ao Arconte da Hebdômade.

[12] E da mesma maneira, segundo o relato anterior, ele próprio também foi tomado de temor e levado a fazer confissão.

[13] Quando, portanto, todos os seres da Hebdômade também foram iluminados e lhes foi anunciado o evangelho, pois nessas regiões do universo existem, segundo esses hereges, criaturas infinitas em número, isto é, Principados, Potestades e Governantes, acerca dos quais existe entre os basilidianos um tratado extremamente prolixo e verboso, no qual alegam que existem trezentos e sessenta e cinco céus.

[14] E afirmam que o grande Arconte deles é Abrasax, pelo fato de seu nome compreender o número calculado de 365.

[15] Assim, naturalmente, o cálculo do nome incluiria todas as coisas existentes, e por isso o ano teria esse mesmo número de dias.

[16] Mas quando, diz ele, esses acontecimentos, a saber, a iluminação da Hebdômade e a manifestação do evangelho, haviam ocorrido dessa forma, era igualmente necessário que depois a Informidade existente em nossa região da criação também recebesse irradiância, e que o mistério fosse revelado à Filiação que havia sido deixada para trás na Informidade, como um aborto.

[17] Ora, esse mistério não foi dado a conhecer às gerações anteriores.

[18] Como ele diz, está escrito: “Por revelação me foi dado a conhecer o mistério”.

[19] E também: “Ouvi palavras inefáveis, que ao homem não é lícito declarar”.

[20] A luz, portanto, que desceu da Ogdóade de cima até o Filho da Hebdômade, desceu da Hebdômade sobre Jesus, filho de Maria, e ele recebeu irradiância por ser iluminado pela luz que brilhou sobre ele.

[21] Isto, diz ele, é o que foi declarado: “O Espírito Santo virá sobre ti”.

[22] Quer dizer, aquilo que procedeu da Filiação por meio do espírito limítrofe sobre a Ogdóade e a Hebdômade, até Maria.

[23] E: “O poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”.

[24] Quer dizer, o poder da unção, que desceu da altura celeste acima, por meio do Demiurgo, até a criação, que alcança até o Filho.

[25] E até esse ponto, diz ele, o mundo subsistia assim.

[26] E até aqui, toda a Filiação que foi deixada para trás para beneficiar as almas na Informidade e também para receber benefícios, essa Filiação, digo, quando é transformada, seguiu Jesus, apressou-se para o alto e saiu purificada.

[27] E torna-se extremamente refinada, de modo que pode, como a primeira Filiação, apressar-se para cima por sua própria instrumentalidade.

[28] Pois ela possui toda a potência que, segundo a natureza, está firmemente ligada à luz que do alto brilhou para baixo sobre a terra.

[29] Quando, portanto, diz ele, toda a Filiação tiver vindo e estiver acima do espírito limítrofe, então a criatura se tornará objeto de misericórdia.

[30] Pois a criatura geme até agora, é atormentada e espera a manifestação dos filhos de Deus, para que todos os que são homens da Filiação subam dali.

[31] Quando isso acontecer, Deus, diz ele, lançará sobre o mundo inteiro uma ignorância imensa, para que todas as coisas continuem segundo a natureza e para que nada deseje desordenadamente algo contrário à natureza.

[32] Pois todas as almas desta região da criação, quantas possuem a natureza de permanecer imortais apenas nesta região, continuarão nela sem saber de nada superior ou melhor do que o seu estado presente.

[33] E não prevalecerá nas regiões inferiores nenhum rumor nem conhecimento a respeito dos seres cuja habitação está acima, para que as almas subjacentes não sejam torturadas pelo desejo do impossível.

[34] Seria como se um peixe desejasse pastar nas montanhas junto com as ovelhas.

[35] Um desejo dessa espécie seria, diz ele, a destruição dessas almas.

[36] Todas as coisas, portanto, que permanecem nesta região são incorruptíveis, mas tornam-se corruptíveis se se dispuserem a vaguear e atravessar para além das coisas que são segundo a natureza.

[37] Desse modo, o Arconte da Hebdômade nada saberá das entidades superiores.

[38] Pois a mesma ignorância imensa também se apoderará dele, para que tristeza, aflição e gemido se apartem dele.

[39] Assim, ele não desejará nada do que é impossível, nem será visitado por angústia.

[40] Da mesma forma, porém, essa mesma ignorância também se apoderará do Grande Arconte da Ogdóade, e igualmente de todas as criaturas que lhe estão sujeitas, para que de maneira nenhuma alguma coisa deseje as coisas contrárias à natureza e assim não seja submersa em tristeza.

[41] E assim haverá a restauração de todas as coisas que, em conformidade com a natureza, desde o princípio têm fundamento na semente do universo, mas que serão restauradas em seus próprios tempos apropriados.

[42] E que cada coisa, diz Basílides, tem seus tempos particulares, o Salvador é testemunha suficiente quando diz: “Ainda não é chegada a minha hora”.

[43] E os magos também dão testemunho semelhante quando contemplam atentamente a estrela do Salvador.

[44] Pois o próprio Jesus foi, diz ele, concebido mentalmente no tempo da geração das estrelas e do retorno completo das estações ao seu ponto de partida, na vasta agregação de todos os germes.

[45] Este é, segundo esses basilidianos, aquele que foi concebido como o homem espiritual interior no que é natural.

[46] Ora, esta é a Filiação que deixou ali a alma, não para que se tornasse mortal, mas para que permanecesse ali segundo a natureza, assim como a primeira Filiação deixou acima, em sua própria região, o Espírito Santo, isto é, o espírito limítrofe.

[47] Este, digo, é aquele que foi concebido como o homem espiritual interior e depois foi revestido de sua própria alma peculiar.

[48] Para que não omitamos nenhuma das doutrinas deste Basílides, explicarei também o que eles apresentam a respeito de um evangelho.

[49] Pois evangelho, entre eles, como já foi esclarecido, é o conhecimento das entidades supramundanas, conhecimento que o Grande Arconte não entendia.

[50] Então, ao ser-lhe manifestado que existiam também o Espírito Santo, isto é, o espírito limítrofe, e a Filiação, e o Deus Não-Existente, causa de todas essas coisas, ele se alegrou com essas comunicações e ficou cheio de exultação.

[51] Segundo eles, isto constitui o evangelho.

[52] Jesus, porém, nasceu, segundo esses hereges, como já declaramos.

[53] E quando ocorreu a geração que foi explicada anteriormente, todos os acontecimentos da vida de nosso Senhor aconteceram, segundo eles, da mesma maneira como foram descritos nos evangelhos.

[54] E essas coisas aconteceram, diz ele, para que Jesus se tornasse as primícias de uma distinção entre as diversas ordens de seres criados que haviam sido confundidas umas com as outras.

[55] Pois, quando o mundo havia sido dividido em uma Ogdóade, que é a cabeça do mundo inteiro, sendo o Grande Arconte a cabeça do mundo inteiro, e em uma Hebdômade, que é a cabeça da Hebdômade, o Demiurgo das entidades inferiores, e nesta ordem de criaturas que prevalece entre nós, onde existe a Informidade, era necessário que as várias ordens de seres criados, que haviam sido misturadas, fossem distinguidas por um processo de separação realizado por Jesus.

[56] Naquilo que era a parte corpórea de Jesus, essa parte sofreu, e era a parte pertencente à Informidade, e voltou para a Informidade.

[57] E foi ressuscitada aquela que era a parte psíquica dele, e esta era a parte da Hebdômade, e voltou para a Hebdômade.

[58] E ele reanimou aquele elemento de sua natureza que era propriedade peculiar da região elevada onde habita o Grande Arconte, e esse elemento permaneceu ao lado do Grande Arconte.

[59] E ele levou para cima, até aquilo que está acima, aquilo que era propriedade peculiar do espírito limítrofe, e isso permaneceu no espírito limítrofe.

[60] E por meio dele foi purificada a terceira Filiação, que havia sido deixada para conferir benefícios e recebê-los.

[61] E, por meio de Jesus, ela subiu em direção à bendita Filiação e atravessou todas essas regiões.

[62] Pois todo o propósito disso era a mistura conjunta, por assim dizer, da agregação de todos os germes, a distinção das várias ordens de seres criados e a restauração de coisas que haviam sido misturadas às suas partes componentes próprias.

[63] Jesus, portanto, tornou-se as primícias da distinção das várias ordens de seres criados.

[64] E sua paixão ocorreu por nenhuma outra razão senão a distinção que por meio dela foi produzida entre as várias ordens de seres criados que haviam sido confundidas.

[65] Pois desse modo, diz Basílides, toda a Filiação que havia sido deixada na Informidade com o propósito de conferir benefícios e recebê-los foi dividida em seus elementos componentes, do mesmo modo como a distinção das naturezas havia ocorrido em Jesus.

[66] Estas, então, são as lendas que Basílides também desenvolve depois de sua permanência no Egito.

[67] E, instruído pelos sábios desse país em tão grande sistema de sabedoria, o herege produziu frutos dessa espécie.

[68] Mas um certo Saturnilo, que floresceu aproximadamente na mesma época que Basílides, embora vivesse em Antioquia da Síria, propôs opiniões aparentadas com as teses de Menandro.

[69] Ele afirma que existe um só Pai, desconhecido de todos, o qual fez anjos, arcanjos, principados e potestades.

[70] E que por certos anjos, sete em número, foi feito o mundo e tudo o que nele existe.

[71] E Saturnilo afirma que o homem foi obra de anjos.

[72] Acima, a partir do Ser de soberania absoluta, apareceu uma imagem brilhante.

[73] E quando os anjos não puderam retê-la, por ela imediatamente, diz ele, retornar rapidamente para cima, exortaram-se uns aos outros, dizendo: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”.

[74] E quando a figura foi formada, mas não era capaz, diz ele, por causa da impotência dos anjos, de erguer-se, continuando a contorcer-se como um verme, o Poder do alto, compadecendo-se dele, por ter nascido à sua própria imagem, enviou uma centelha de vida, a qual levantou o homem e lhe deu vitalidade.

[75] Saturnilo afirma que essa centelha de vida retorna rapidamente, depois da morte, às coisas da mesma ordem de existência.

[76] E que o restante, do qual essas coisas foram geradas, se resolve novamente nelas.

[77] E ele supunha que o Salvador era não gerado, incorpóreo e destituído de figura.

[78] Saturnilo, porém, sustentava que Jesus se manifestou apenas em aparência como homem.

[79] E ele diz que o Deus dos judeus é um dos anjos.

[80] E que, porque o Pai desejava privar todos os Arcontes de sua soberania, Cristo veio para a ruína do Deus dos judeus e para a salvação daqueles que creem nele.

[81] E estes têm em si a centelha de vida.

[82] Pois ele afirmava que haviam sido formadas pelos anjos duas espécies de homens, uma má e outra boa.

[83] E, visto que os demônios de tempos em tempos assistiam os homens maus, Saturnilo afirma que o Salvador veio para a destruição dos homens perversos e dos demônios, mas para a salvação dos homens bons.

[84] E ele afirma que o casamento e a procriação procedem de Satanás.

[85] A maioria, porém, dos que pertencem a essa escola herege também se abstém de alimento animal.

[86] E, por essa afetação de ascetismo, enganam a muitos.

[87] E sustentam que as profecias foram pronunciadas em parte pelos anjos que fizeram o mundo e em parte por Satanás, que é também o próprio anjo que eles supõem agir em antagonismo aos anjos cósmicos, especialmente ao Deus dos judeus.

[88] Estes, então, são de fato os ensinamentos de Saturnilo.

[89] Mas Marcião, natural do Ponto, muito mais insano que esses hereges, deixando de lado a maioria das teses da maior parte dos especuladores e avançando para uma doutrina ainda mais descarada, supôs a existência de duas causas originárias do universo.

[90] Alegou que uma delas era um certo princípio bom e a outra um princípio mau.

[91] E imaginando que estava introduzindo alguma novidade, fundou uma escola cheia de tolice, frequentada por homens de vida sensual, visto que ele próprio era de inclinações lascivas.

[92] Esse herege, pensando que a multidão se esqueceria de que ele não era discípulo de Cristo, mas de Empédocles, que viveu muito antes dele, formulou e moldou as mesmas opiniões, a saber, que existem duas causas do universo: a discórdia e a amizade.

[93] Pois que diz Empédocles a respeito do plano do mundo.

[94] Ainda que já tenhamos falado anteriormente sobre isso, também agora, para comparar a heresia desse plagiador com sua fonte, não nos calaremos.

[95] Esse filósofo afirma que todos os elementos de que o mundo consiste e de que recebe o seu ser são seis.

[96] Dois deles são materiais, isto é, terra e água.

[97] E dois deles são instrumentos pelos quais as coisas materiais são ordenadas e modificadas, isto é, fogo e ar.

[98] E dois deles são os que, por meio dos instrumentos, operam sobre a matéria e lhe dão forma, a saber, a discórdia e a amizade.

[99] Empédocles se expressa mais ou menos assim: “Ouve primeiro as quatro raízes de todas as coisas: o brilhante Zeus, e Juno vivificadora, e Aidoneu, e Nestis, que com lágrimas irriga a fonte mortal”.

[100] Zeus é o fogo.

[101] E Juno vivificadora é a terra, que produz frutos para o sustento da vida.

[102] E Aidoneu é o ar, porque, embora por meio dele vejamos todas as coisas, ele próprio não é visto.

[103] Mas Nestis é a água, pois esta é o veículo único do alimento e assim se torna causa de sustento para todos os que são alimentados.

[104] Mas ela por si mesma não é capaz de fornecer nutrição àqueles que são nutridos.

[105] Pois, se tivesse o poder de nutrir, diz ele, a vida animal jamais poderia ser destruída pela fome, já que a água é sempre superabundante no mundo.

[106] Por essa razão ele chama a água de Nestis, porque, embora indiretamente seja causa de nutrição, não é, por si só, competente para alimentar os seres nutridos.

[107] Estes, portanto, para delineá-los de forma resumida, são os princípios que compõem toda a teoria do mundo em Empédocles.

[108] São eles a água e a terra, de que procedem os seres gerados, e o fogo e o espírito, que são instrumentos e causas eficientes, mas também a discórdia e a amizade, que são os princípios que artisticamente fabricam o universo.

[109] E a amizade é uma certa paz, unanimidade e amor, cujo esforço inteiro é que haja um só mundo acabado e completo.

[110] A discórdia, porém, sempre separa esse mundo uno, subdivide-o e faz muitas coisas a partir de uma só.

[111] Portanto, a discórdia é causa de toda a criação, a qual ele chama destrutiva.

[112] Pois a preocupação dessa discórdia é que em todas as eras a própria criação continue a preservar a condição em que existe.

[113] E a discórdia ruinosa tem sido a fabricadora e causa eficiente da produção de todos os seres gerados.

[114] Ao passo que a amizade é a causa da extração, da transformação e da restauração das coisas existentes para um só sistema.

[115] E acerca dessas causas, Empédocles afirma que são dois princípios imortais e não gerados, e que ainda não receberam uma causa originária de existência.

[116] Empédocles em algum lugar se expressa da seguinte maneira: “Pois se ambas uma vez foram, e serão, nunca, penso eu, haverá a era eterna vazia dessas duas”.

[117] E quais são essas duas.

[118] A discórdia e a amizade.

[119] Pois elas não começaram a vir a existir, mas preexistiam e sempre existirão, porque, sendo não geradas, não podem sofrer corrupção.

[120] Mas o fogo, a água, a terra e o ar são entidades que perecem e revivem.

[121] Pois, quando esses corpos gerados, por causa da Discórdia, deixam de existir, a Amizade, apoderando-se deles, os traz de volta, liga-os e os associa ao universo.

[122] E isso acontece para que o universo continue sendo um só, sempre ordenado pela Amizade do mesmo modo e com uniformidade ininterrupta.

[123] Quando, porém, a Amizade faz unidade a partir da pluralidade e associa à unidade os entes separados, a Discórdia novamente os arranca à força da unidade e os faz muitos, isto é, fogo, água, terra, ar, bem como os animais e plantas produzidos a partir deles, e quaisquer partes do mundo que observamos.

[124] E quanto à forma do mundo, de que tipo ele é, enquanto ordenado pela Amizade, Empédocles se expressa assim: “Pois não lhe nascem das costas dois braços, nem pés, nem joelhos ágeis, nem virilha genital, mas era uma esfera, e igual a si mesma”.

[125] Uma operação desse tipo é mantida pela Amizade, que faz a mais bela forma do mundo a partir da pluralidade.

[126] A Discórdia, porém, causa da disposição de cada uma das partes do universo, separa à força e faz muitas coisas daquele uno.

[127] E isso é o que Empédocles afirma a respeito de sua própria geração: “Também eu sou destes, um exilado errante da parte de Deus”.

[128] Com isso, Empédocles chama de Deus a unidade e unificação daquela forma una em que o mundo existia antes da separação e produção introduzidas pela Discórdia entre a maioria das coisas que subsistiam segundo a disposição efetuada por ela.

[129] Pois Empédocles afirma que a Discórdia é um Demiurgo furioso, perturbado e instável, chamando assim a Discórdia de criadora do mundo.

[130] Pois isto constitui a condenação e a necessidade das almas, as quais a Discórdia arranca à força da unidade e sobre as quais trabalha e opera.

[131] E Empédocles fala de algo assim: “Quem acumula perjúrio sobre pecado, enquanto os demônios obtêm uma vida prolongada”.

[132] Por demônios ele quer dizer almas longevas, porque são imortais e vivem por longas eras.

[133] E também: “Por três vezes dez mil anos banidos da bem-aventurança”.

[134] Chamando de bem-aventurados aqueles que foram reunidos pela Amizade a partir da multidão dos entes, no processo de unificação do mundo inteligível.

[135] Ele afirma que esses são exilados, e que “com o passar do tempo nascem todas as espécies de homens mortais, mudando os penosos caminhos da vida”.

[136] Ele chama de penosos caminhos as transformações e transfigurações das almas em corpos sucessivos.

[137] Isto é o que ele diz ao afirmar: “Mudando os penosos caminhos da vida”.

[138] Pois as almas mudam, sendo corpo após corpo alteradas e punidas pela Discórdia, e não lhes sendo permitido permanecer no mesmo invólucro.

[139] Mas as almas estão envolvidas em todo tipo de punição pela Discórdia, sendo mudadas de corpo em corpo.

[140] Ele diz: “A força etérea impele as almas ao oceano, e o oceano as lança sobre a extensão da terra, e a terra sobre os raios do sol ardente, que as arremessa às profundezas do éter, e cada uma recebe da outra um espírito, e todas ardem em ódio”.

[141] Este é o castigo que o Demiurgo inflige, como um ferreiro moldando um pedaço de ferro e mergulhando-o sucessivamente do fogo na água.

[142] Pois o fogo é o éter, de onde o Demiurgo transfere as almas ao mar.

[143] E a terra é o solo.

[144] Por isso ele usa as palavras “da água para a terra” e “da terra para o ar”.

[145] Isto é o que Empédocles diz: “E a terra sobre os raios do sol ardente, que arremessa as almas às profundezas do éter, e cada uma recebe da outra um espírito, e todas ardem em ódio”.

[146] As almas, então, assim odiadas, atormentadas e punidas neste mundo, são, segundo Empédocles, recolhidas pela Amizade como por uma certa potência boa, que se compadece dos gemidos delas e da desordem e artimanha perversa da furiosa Discórdia.

[147] E a Amizade também é diligente e trabalha para conduzir pouco a pouco as almas para fora do mundo e habituá-las à unidade, a fim de que todas as coisas, sendo guiadas por ela, cheguem à unificação.

[148] Portanto, por causa de tal arranjo da Discórdia destrutiva nesse mundo dividido, Empédocles admoesta seus discípulos a se absterem de toda espécie de alimento animal.

[149] Pois afirma que os corpos dos animais servem de moradas de almas castigadas.

[150] E ensina aos ouvintes de tais doutrinas que se abstenham de relações com mulheres.

[151] E ele emite esse preceito para que seus discípulos não cooperem nem auxiliem as obras que a Discórdia fabrica, sempre dissolvendo e separando à força a obra da Amizade.

[152] Empédocles afirma que esta é a grande lei do governo do universo, expressando-se mais ou menos assim: “Há algo governado pelo destino, a antiga e interminável lei dos deuses, selada por poderosos juramentos”.

[153] Assim ele chama de destino a mudança da unidade para a pluralidade segundo a Discórdia, e da pluralidade para a unidade segundo a Amizade.

[154] E, como eu disse, Empédocles afirma que há quatro deuses perecíveis, a saber, fogo, água, terra e ar.

[155] E sustenta, porém, que existem dois deuses imortais, não gerados e continuamente hostis um ao outro, a Discórdia e a Amizade.

[156] E afirma que a Discórdia é sempre culpada de injustiça, cobiça, rapto violento das coisas da Amizade e apropriação delas para si mesma.

[157] Afirma, porém, que a Amizade, sendo sempre e invariavelmente uma potência boa e inclinada à união, chama de volta, atrai para si e reduz à unidade as partes do universo que foram violentamente separadas, atormentadas e punidas na criação pelo Demiurgo.

[158] Um sistema filosófico como esse é apresentado por Empédocles acerca da geração do mundo, de sua destruição e de sua constituição, como algo composto de bem e mal.

[159] E ele diz que há também uma terceira potência, cognoscível pelo intelecto, a qual pode ser compreendida a partir dessas duas, a Discórdia e a Amizade.

[160] E ele se expressa mais ou menos assim: “Pois se fixares essas verdades sob corações de carvalho e as contemplares benignamente em meditações puras, cada uma delas te visitará com o passar do tempo, e muitas outras, nascidas delas, descerão. Pois crescerão em todo hábito, como a natureza as impele. Mas se suspirares por outras coisas, inumeráveis, que vagueiam manifestas entre os homens e embotam o fio do cuidado, com o passar dos anos elas te deixarão rapidamente, pois anseiam voltar à sua raça amada. Porque sabe que todas possuem percepção e uma parte de mente”.

[161] Quando, portanto, Marcião, ou algum de seus cães, ladra contra o Demiurgo e aduz razões a partir de uma comparação entre o bem e o mal, devemos dizer-lhes que nem Paulo, o apóstolo, nem Marcos, o do dedo mutilado, anunciaram tais doutrinas.

[162] Pois nenhuma dessas teses foi escrita no evangelho segundo Marcos.

[163] Mas o verdadeiro autor do sistema é Empédocles, filho de Meto, natural de Agrigento.

[164] E Marcião despojou esse filósofo e imaginou que, até o presente, passaria despercebida sua transposição, sob as mesmas expressões, de toda a disposição de sua heresia da Sicília para as narrativas evangélicas.

[165] Pois suporta-me, ó Marcião.

[166] Assim como instituíste uma comparação entre o bem e o mal, também eu hoje instituirei uma comparação seguindo as tuas próprias teses, como imaginas que elas sejam.

[167] Tu afirmas que o Demiurgo do mundo é mau.

[168] Por que então não escondes o teu rosto de vergonha, ensinando assim à igreja as doutrinas de Empédocles.

[169] Tu dizes que há uma divindade boa que destrói as obras do Demiurgo.

[170] Então não pregas claramente aos teus discípulos, como divindade boa, a Amizade de Empédocles.

[171] Proíbes o casamento, a geração de filhos e a abstinência de alimentos que Deus criou para participação dos fiéis e dos que conhecem a verdade.

[172] Julgas, então, que escaparás à detecção, enquanto prescreves os ritos purificatórios de Empédocles.

[173] Pois de fato segues em tudo esse filósofo pagão, enquanto instruis os teus discípulos a rejeitar alimentos, para que não comam qualquer corpo que possa ser remanescente de uma alma punida pelo Demiurgo.

[174] Tu dissolves casamentos que foram firmados pela divindade.

[175] E aqui novamente te conformas às teses de Empédocles, a fim de que para ti a obra da Amizade permaneça una e indivisível.

[176] Pois, segundo Empédocles, o matrimônio separa a unidade e produz dela a pluralidade, como demonstramos.

[177] A principal heresia de Marcião, e a que é mais livre de mistura com outras heresias, é a que tem seu sistema formado a partir da teoria do Deus bom e do Deus mau.

[178] Ora, mostramos que isso pertence a Empédocles.

[179] Mas visto que atualmente, em nossos tempos, um certo seguidor de Marcião, a saber, Prépon, um assírio, tentou introduzir algo mais novo e apresentou um relato de sua heresia numa obra dirigida a Bardesanes, um armênio, também sobre isso não me calarei.

[180] Ao alegar que o justo constitui um terceiro princípio e que está colocado entre aquilo que é bom e aquilo que é mau, Prépon, naturalmente, não pode evitar a imputação de ensinar a opinião de Empédocles.

[181] Pois Empédocles afirma que o mundo é governado pela ímpia Discórdia e que o outro mundo, governado pela Amizade, é cognoscível pelo intelecto.

[182] E ele afirma que esses são os dois princípios distintos do bem e do mal.

[183] E entre esses princípios diversos está a razão imparcial, segundo a qual se unem as coisas separadas pela Discórdia e que, conforme a influência da Amizade, se acomodam à unidade.

[184] A própria razão imparcial, que é auxiliar da Amizade, Empédocles denomina Musa.

[185] E ele mesmo lhe suplica auxílio, expressando-se mais ou menos assim: “Pois, se sobre mortais fugidios, ó Musa imortal, for teu cuidado aquilo que ocupa nossos pensamentos, Calíope, uma vez mais ajuda minha presente oração, enquanto exponho um relato puro dos deuses felizes”.

[186] Marcião, adotando esses sentimentos, rejeitou totalmente a geração de nosso Salvador.

[187] Considerava absurdo que, sob a categoria de criatura formada pela Discórdia destrutiva, estivesse o Logos, que era auxiliar da Amizade, isto é, a boa divindade.

[188] Sua doutrina, porém, era que o próprio Logos, independente de nascimento, desceu do alto no décimo quinto ano do reinado de Tibério César e que, por estar entre a boa e a má divindade, passou a ensinar nas sinagogas.

[189] Pois, se ele é Mediador, diz Marcião, foi libertado de toda a natureza da divindade má.

[190] Ora, como ele afirma, o Demiurgo é mau, e também suas obras.

[191] Por essa razão, diz ele, Jesus desceu não gerado, para que fosse libertado de toda mistura com o mal.

[192] E foi libertado também da natureza do Ser bom, para que pudesse ser Mediador, como Paulo afirma, e como ele mesmo reconhece: “Por que me chamas bom. Um só é bom”.

[193] Estas, então, são as opiniões de Marcião, por meio das quais enganou a muitos, empregando as conclusões de Empédocles.

[194] E transferiu para seu próprio sistema de pensamento a filosofia inventada por aquele antigo especulador e, a partir de Empédocles, construiu sua própria heresia ímpia.

[195] Considero, porém, que isso já foi suficientemente refutado por nós e que não omiti nenhuma opinião daqueles que furtam suas ideias dos gregos e tratam com desprezo os discípulos de Cristo, como se estes tivessem recebido deles tais doutrinas.

[196] Mas, visto que parece que explicamos suficientemente as doutrinas deste herege, vejamos agora o que diz Carpócrates.

[197] Carpócrates afirma que o mundo e as coisas que nele existem foram feitos por anjos muito inferiores ao Pai não gerado.

[198] E que Jesus foi gerado por José.

[199] E que, tendo nascido semelhante aos outros homens, era mais justo do que o restante do gênero humano.

[200] E Carpócrates sustenta que a alma de Jesus, por ser vigorosa e imaculada, lembrava-se das coisas que havia visto em sua convivência com o Deus não gerado.

[201] E, por isso, foi enviado sobre Jesus, por esse Deus, um poder para que, por meio dele, pudesse escapar dos anjos que fizeram o mundo.

[202] E diz que esse poder, tendo passado por todos e obtido liberdade em todos, novamente ascendeu ao próprio Deus.

[203] E alega que estão na mesma condição da alma de Jesus todas as almas que abraçam desejos semelhantes ao poder já mencionado.

[204] E afirmam que a alma de Jesus, embora segundo a lei tenha sido disciplinada nos costumes judaicos, na realidade os desprezou.

[205] E, por isso, dizem, Jesus recebeu poderes por meio dos quais anulou as paixões que sobrevêm aos homens para seu castigo.

[206] E argumenta, portanto, que a alma que, à semelhança da alma de Cristo, é capaz de desprezar os Arcontes que fizeram o mundo, recebe igualmente poder para realizar atos semelhantes.

[207] Por isso, segundo Carpócrates, há pessoas que chegaram a tal grau de soberba que afirmam ser alguns dentre eles iguais ao próprio Jesus, enquanto outros seriam até mais poderosos.

[208] E sustentam também que alguns possuem excelência acima dos discípulos daquele Redentor, por exemplo, Pedro, Paulo e os demais apóstolos.

[209] E que esses em nada são inferiores a Jesus.

[210] E Carpócrates afirma que as almas deles se originaram daquela potência superior e que, por isso, igualmente desprezando os anjos que fizeram o mundo, foram julgados dignos da mesma potência e do privilégio de subir ao mesmo lugar.

[211] Se, porém, alguém desprezasse as coisas terrenas mais do que o Salvador, diz Carpócrates, tal pessoa seria capaz de tornar-se superior a Jesus.

[212] Os seguidores desse herege praticam artes mágicas, encantamentos, feitiços e banquetes voluptuosos.

[213] E costumam invocar a ajuda de demônios subordinados e de enviados de sonhos, bem como recorrer ao restante dos truques da feitiçaria.

[214] Alegam possuir poder para adquirir domínio sobre os Arcontes e sobre os criadores deste mundo, e até mesmo sobre todas as obras que nele existem.

[215] Ora, esses hereges foram enviados por Satanás com o propósito de caluniar diante dos gentios o nome divino da igreja.

[216] E o objetivo do diabo é que os homens, ouvindo ora de um modo ora de outro as doutrinas desses hereges, e pensando que todos nós somos do mesmo tipo, desviem os ouvidos da pregação da verdade.

[217] Ou ainda que, contemplando sem renunciar a todas as doutrinas desses hereges, falem mal de nós.

[218] Os seguidores de Carpócrates alegam que as almas são transferidas de corpo em corpo até que completem a medida de todos os seus pecados.

[219] Quando, porém, nenhum desses pecados resta, afirmam os carpocratianos que a alma então é libertada e parte para aquele Deus que está acima dos anjos criadores do mundo.

[220] E que desse modo todas as almas serão salvas.

[221] Se, porém, algumas almas, durante a permanência num corpo em uma só vida, já antecipadamente se envolverem na plena medida das transgressões, elas, segundo esses hereges, já não passam por metempsicose.

[222] Almas desse tipo, tendo quitado de uma só vez todas as ofensas, serão, dizem os carpocratianos, libertadas de habitar novamente em corpo.

[223] Alguns deles, além disso, marcam os próprios discípulos na parte posterior do lóbulo da orelha direita.

[224] E fazem imagens falsificadas de Cristo, alegando que existiam no tempo em que nosso Senhor esteve sobre a terra e que foram feitas por Pilatos.

[225] Mas um certo Cerinto, tendo sido instruído na doutrina dos egípcios, afirmava que o mundo não foi feito pela divindade primordial, mas por certa potência que era um desdobramento daquele Poder que está acima de todas as coisas e que, no entanto, é ignorante do Deus que está acima de tudo.

[226] E sustentava que Jesus não foi gerado de uma virgem.

[227] Mas que nasceu filho de José e Maria, de maneira semelhante ao restante dos homens.

[228] E que Jesus era mais justo e mais sábio do que todo o gênero humano.

[229] E Cerinto alega que, depois do batismo de nosso Senhor, Cristo desceu sobre ele em forma de pomba, vindo daquela soberania absoluta que está acima de todas as coisas.

[230] E então, segundo esse herege, Jesus passou a pregar o Pai desconhecido e, em confirmação de sua missão, a operar milagres.

[231] Era, porém, opinião de Cerinto que, por fim, Cristo se retirou de Jesus.

[232] E que Jesus sofreu e ressuscitou.

[233] Enquanto Cristo, sendo espiritual, permaneceu além da possibilidade de sofrer.

[234] Os ebionitas, porém, reconhecem que o mundo foi feito por aquele que é verdadeiramente Deus.

[235] Mas propõem lendas a respeito do Cristo de modo semelhante ao de Cerinto e Carpócrates.

[236] Vivem em conformidade com os costumes dos judeus, alegando que são justificados segundo a lei.

[237] E dizem que Jesus foi justificado por cumprir a lei.

[238] E, portanto, foi por isso, segundo os ebionitas, que o Salvador foi chamado Cristo de Deus e Jesus, já que nenhum dos demais homens havia observado completamente a lei.

[239] Pois, se qualquer outro tivesse cumprido os mandamentos contidos na lei, teria sido aquele Cristo.

[240] E os ebionitas alegam que eles próprios também, se de modo semelhante cumprirem a lei, são capazes de tornar-se cristos.

[241] Pois afirmam que o próprio Senhor foi um homem no mesmo sentido que todos os demais da família humana.

[242] Houve, porém, um certo Teódoto, natural de Bizâncio, que introduziu uma nova heresia.

[243] Ele anuncia teses acerca da causa originária do universo que em parte concordam com as doutrinas da verdadeira igreja, na medida em que reconhece que todas as coisas foram criadas por Deus.

[244] Apropriando-se, porém, à força, de suas noções sobre Cristo da escola dos gnósticos, de Cerinto e de Ebion, alega que nosso Senhor apareceu de um modo que agora descreverei.

[245] Segundo isso, Teódoto sustenta que Jesus era um simples homem, nascido de uma virgem segundo o conselho do Pai.

[246] E que, depois de ter vivido em comum com todos os homens e de se tornar eminentemente religioso, recebeu posteriormente, no seu batismo no Jordão, o Cristo, que veio do alto e desceu sobre ele em forma de pomba.

[247] E essa foi a razão, segundo Teódoto, pela qual os poderes miraculosos não operavam nele antes da manifestação nele daquele Espírito que desceu e o proclamou como o Cristo.

[248] Mas entre os seguidores de Teódoto alguns são de opinião que jamais esse homem se tornou Deus, nem mesmo na descida do Espírito.

[249] Enquanto outros sustentam que ele se tornou Deus depois da ressurreição dentre os mortos.

[250] Enquanto isso, tendo surgido diferentes questões entre eles, um certo herege, que também se chamava Teódoto e que era banqueiro de profissão, tentou estabelecer a doutrina de que certo Melquisedeque constitui o maior poder.

[251] E que este é maior do que Cristo.

[252] E alegam que Cristo existe segundo a semelhança desse Melquisedeque.

[253] E eles próprios, do mesmo modo que aqueles de quem já falamos como seguidores de Teódoto, afirmam que Jesus é um simples homem.

[254] E que, em conformidade com o mesmo relato já dado, Cristo desceu sobre ele.

[255] Há, porém, entre os gnósticos diversas opiniões.

[256] Mas decidimos que não valeria a pena enumerar as doutrinas absurdas desses hereges, por serem numerosas demais, desprovidas de razão e cheias de blasfêmia.

[257] Ora, mesmo aqueles hereges que são mais sérios quanto à divindade e que derivaram seus sistemas de especulação dos gregos devem ser convictos dessas acusações.

[258] Mas Nicolau foi causa da ampla combinação desses homens perversos.

[259] Ele, sendo um dos sete escolhidos para o diaconato, foi designado pelos apóstolos.

[260] Mas Nicolau se afastou da doutrina correta e costumava inculcar indiferença quanto ao modo de vida e quanto ao alimento.

[261] E, quando os discípulos de Nicolau continuaram a insultar o Espírito Santo, João os repreendeu no Apocalipse como fornicadores e comedores de coisas sacrificadas aos ídolos.

[262] Mas um certo Cerdão, também ele aproveitando ocasião semelhante a partir desses hereges e de Simão, afirma que o Deus pregado por Moisés e pelos profetas não era o Pai de Jesus Cristo.

[263] Pois, segundo ele, esse pai era conhecido, enquanto o Pai de Cristo era desconhecido.

[264] E que o primeiro era justo, mas o segundo era bom.

[265] E Marcião confirmou o ensinamento desse herege na obra que tentou escrever e à qual deu o título de Antíteses.

[266] E nesse livro costumava proferir todas as calúnias que sua mente sugeria contra o Criador do universo.

[267] De modo semelhante agiu também Luciano, discípulo desse herege.

[268] Mas Apeles, surgido a partir desses, assim se expressa, dizendo que há uma certa divindade boa, como também Marcião supunha, e que aquele que criou todas as coisas é justo.

[269] Ora, esse, segundo Apeles, era o Demiurgo dos seres gerados.

[270] E esse herege também sustenta que existe uma terceira divindade, aquela que costumava falar com Moisés.

[271] E que esse deus era de natureza ígnea.

[272] E que havia ainda um quarto deus, causa dos males.

[273] Mas a esses ele chama anjos.

[274] Ele, porém, profere blasfêmias contra a lei e os profetas, alegando que as coisas que foram escritas são de origem humana e falsas.

[275] E Apeles seleciona dos evangelhos ou dos escritos do apóstolo Paulo tudo aquilo que lhe agrada.

[276] Mas se dedica aos discursos de certa Filumena como às revelações de uma profetisa.

[277] Afirma, porém, que Cristo desceu do poder do alto, isto é, da boa divindade, e que é filho dessa boa divindade.

[278] E sustenta que ele não nasceu de virgem.

[279] E que, quando de fato apareceu, não estava destituído de carne.

[280] Sustenta, porém, que Cristo formou seu corpo tomando partes da substância do universo, isto é, do quente e do frio, do úmido e do seco.

[281] E diz que Cristo, recebendo nesse corpo poderes cósmicos, viveu o tempo que viveu neste mundo.

[282] Mas sustentava que Jesus depois foi crucificado pelos judeus e expirou.

[283] E que, sendo ressuscitado após três dias, apareceu aos seus discípulos.

[284] E o Salvador lhes mostrou, assim ensinava Apeles, as marcas dos cravos e a ferida do lado, desejando persuadi-los de que verdadeiramente não era um fantasma, mas estava presente em carne.

[285] Depois, diz Apeles, de lhes ter mostrado sua carne, o Salvador a restituiu à terra, da qual essa substância havia sido derivada.

[286] E fez isso porque nada cobiçava daquilo que pertencia a outro.

[287] Embora de fato Jesus pudesse usar por um tempo aquilo que pertencia a outro, no devido curso devolveu a cada elemento aquilo que lhe pertencia propriamente.

[288] E assim aconteceu que, depois de ter afrouxado uma vez mais os vínculos do seu corpo, devolveu o calor ao que é quente, o frio ao que é frio, a umidade ao que é úmido e a secura ao que é seco.

[289] E nessa condição nosso Senhor partiu para o bom Pai, deixando no mundo a semente de vida para aqueles que, por meio de seus discípulos, viessem a crer nele.

[290] Parece-nos que essas teses foram suficientemente explicadas.

[291] Mas, visto que determinamos não deixar sem refutação nenhuma das opiniões apresentadas por quaisquer hereges, vejamos também qual sistema foi inventado pelos docetas.

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[1] Os discípulos desses homens, quando percebem que as doutrinas dos hereges são como o oceano quando é lançado em ondas pela violência dos ventos, devem navegar além delas em busca do porto tranquilo.

[2] Pois um mar dessa espécie é tanto infestado por feras quanto difícil de navegar, como, por assim dizer, o mar da Sicília, no qual a lenda relata haver os Ciclopes, Caríbdis, Cila e a rocha das Sereias.

[3] Ora, os poetas gregos afirmam que Ulisses navegou por esse estreito, usando com habilidade, em seu próprio benefício, o terror desses monstros estranhos.

[4] Porque a crueldade selvagem deles para com os que por ali navegavam era notável.

[5] As Sereias, porém, cantando doce e harmonicamente, enganavam os viajantes, atraindo, por causa de sua voz melodiosa, aqueles que a ouviam a dirigir seus navios para o promontório.

[6] Os poetas relatam que Ulisses, ao tomar conhecimento disso, untou com cera os ouvidos de seus companheiros e, amarrando-se ao mastro, navegou em segurança para além das Sereias, ouvindo distintamente o seu canto.

[7] E meu conselho aos meus leitores é que adotem expediente semelhante, isto é, ou por causa de sua fraqueza tapem os ouvidos com cera e naveguem diretamente através dos ensinos dos hereges, nem sequer ouvindo doutrinas que facilmente são capazes de seduzi-los ao prazer, como o canto delicioso das Sereias, ou, prendendo-se à Cruz de Cristo e ouvindo com fidelidade as suas palavras, não se deixem distrair, visto que depositaram sua confiança naquele a quem antes se ligaram firmemente, e perseverem com constância nessa fé.

[8] Portanto, visto que nos seis livros anteriores explicamos as opiniões heréticas precedentes, agora parece apropriado não silenciar a respeito das doutrinas de Basilides, que são os princípios de Aristóteles, o estagirita, e não de Cristo.

[9] E embora em ocasião anterior as opiniões formuladas por Aristóteles já tenham sido elucidadas, nem por isso hesitaremos agora em expô-las previamente em forma de síntese, a fim de capacitar meus leitores, por meio de uma comparação mais próxima entre os dois sistemas, a perceber com facilidade que as doutrinas propostas por Basilides são, na realidade, as engenhosas sutilezas de Aristóteles.

[10] Aristóteles, então, faz uma tripla divisão da substância.

[11] Pois uma parte dela é um certo gênero, outra uma certa espécie, como esse filósofo expressa, e uma terceira um certo indivíduo.

[12] O que é individual, porém, o é não por alguma pequenez de corpo, mas porque por natureza não admite divisão alguma.

[13] O gênero, por outro lado, é uma espécie de agregado, composto de muitos e diferentes germes.

[14] E desse gênero, como de um certo monte, todas as espécies dos seres existentes derivam suas distinções.

[15] E o gênero constitui uma causa suficiente para a produção de todos os entes gerados.

[16] Para que, contudo, a afirmação precedente fique clara, provarei meu ponto por meio de um exemplo.

[17] E por meio dele será possível refazer todo o caminho da especulação do sábio peripatético.

[18] Afirmamos a existência do animal em absoluto, e não de algum animal em particular.

[19] E esse animal não é boi, nem cavalo, nem homem, nem deus.

[20] Nem sequer designa qualquer um desses, mas é o animal em absoluto.

[21] Desse animal as espécies de todos os animais particulares derivam sua subsistência.

[22] E essa animalidade, sendo ela mesma o gênero supremo, constitui o princípio originante de todos os animais produzidos nessas espécies particulares, e, ainda assim, não é ela mesma nenhuma das coisas geradas.

[23] Pois o homem é um animal que deriva seu princípio de existência dessa animalidade, e o cavalo é um animal que deriva seu princípio de existência dessa animalidade.

[24] O cavalo, o boi, o cão e cada um dos demais animais derivam seu princípio de existência do animal absoluto, ao passo que a própria animalidade não é nenhum deles.

[25] Se, porém, essa animalidade não é nenhuma dessas espécies, então a subsistência, segundo Aristóteles, das coisas geradas deriva sua realidade de entidades não existentes.

[26] Pois a animalidade, da qual cada uma dessas deriva separadamente, não é nenhuma delas.

[27] E embora não seja nenhuma delas, ainda assim tornou-se um certo princípio originante das coisas existentes.

[28] Mas quem foi que estabeleceu essa substância como causa originante do que é posteriormente produzido, declararemos quando chegarmos ao lugar apropriado para tratar dessa discussão.

[29] Visto, porém, que, como eu disse, a substância é tríplice, a saber, gênero, espécie e indivíduo, e que estabelecemos a animalidade como sendo o gênero, e o homem como sendo a espécie, já distinta da maioria dos animais, mas ainda assim identificável com os animais de sua própria espécie, por ainda não ter sido moldado como espécie de substância realizada, quando dou forma sob um nome a um homem derivado do gênero, chamo-o Sócrates, Diógenes ou algum dos muitos nomes em uso.

[30] E visto que assim compreendo sob um nome o homem que constitui uma espécie gerada do gênero, denomino uma substância desse tipo de indivíduo.

[31] Pois o gênero foi dividido em espécies, e a espécie em indivíduo.

[32] Mas quanto ao indivíduo, como foi compreendido sob um nome, não é possível que, de acordo com sua própria natureza, possa ser dividido em qualquer outra coisa, como fizemos com cada um dos mencionados anteriormente, gênero e espécie.

[33] Aristóteles, primária, especial e eminentemente, chama isso de substância, visto que não pode nem ser predicado de um sujeito nem existir em um sujeito.

[34] Ele, porém, predica do sujeito, assim como no caso do gênero, aquilo que eu disse constituir a animalidade, e que é predicado por meio de um nome comum de todos os animais particulares, como boi, cavalo e os demais que estão colocados sob esse gênero.

[35] Pois é verdadeiro dizer que o homem é um animal, e o cavalo um animal, e que o boi é um animal, e o mesmo quanto a cada um dos demais.

[36] Ora, o sentido da expressão “predicado de um sujeito” é este: que, sendo uma só coisa, pode ser predicada do mesmo modo de muitos particulares, embora estes sejam diversificados em espécies.

[37] Pois nem o cavalo nem o boi diferem do homem na medida em que ele é animal, porque a definição de animal convém igualmente a todos os animais.

[38] Pois o que é um animal?

[39] Se o definirmos, uma definição geral abrangerá todos os animais.

[40] Porque animal é uma substância animada dotada de sensação.

[41] Assim são o boi, o homem, o cavalo e cada um dos demais do reino animal.

[42] Mas o sentido da expressão “em um sujeito” é este: que aquilo que é inerente a algo, não como parte, é impossível existir separadamente daquilo em que está.

[43] Mas isso constitui cada um dos acidentes residentes na substância, e é o que se chama qualidade.

[44] Ora, segundo isso, dizemos que certas pessoas são de tal qualidade, por exemplo, brancas, grisalhas, negras, justas, injustas, temperantes e outras características semelhantes a essas.

[45] Mas é impossível que qualquer uma dessas subsista por si mesma; deve, antes, inerir em alguma outra coisa.

[46] Se, contudo, nem o animal, que predico de todos os animais individuais, nem os acidentes, que se descobrem em todas as coisas das quais são qualidades não essenciais, podem subsistir por si mesmos, e se, ainda assim, os indivíduos são formados a partir deles, segue-se, portanto, que a substância tripartidamente dividida, que não é composta a partir de outras coisas, consiste de não-entes.

[47] Se, então, aquilo que é primária, eminentemente e particularmente denominado substância consiste nessas coisas, deriva sua existência de não-entes, segundo Aristóteles.

[48] Mas quanto à substância, bastará o que foi dito até agora.

[49] Contudo, não apenas a substância é chamada gênero, espécie e indivíduo, mas também matéria, forma e privação.

[50] Não há, entretanto, no que diz respeito à substância, diferença alguma entre essas coisas, mesmo que a divisão seja admitida.

[51] Ora, visto que a substância é dessa natureza, a disposição do mundo ocorreu segundo algum plano como o seguinte.

[52] O mundo é dividido, segundo Aristóteles, em partes muitíssimo numerosas e diversificadas.

[53] A porção do mundo que se estende da terra até a lua é desprovida de providência, sem direção, e está sob o domínio apenas da natureza que lhe pertence.

[54] Mas outra parte do mundo, que está além da lua e se estende até a superfície do céu, é organizada no meio de toda ordem, providência e governo.

[55] Ora, a superfície celeste constitui uma certa quinta substância, e está afastada de todos aqueles elementos naturais dos quais o sistema cósmico deriva sua consistência.

[56] E esta é, segundo Aristóteles, uma certa quinta substância, como que uma essência supramundana.

[57] E essa essência se tornou uma necessidade lógica em seu sistema, para concordar com a divisão peripatética do mundo.

[58] E o tema dessa quinta natureza constitui uma investigação distinta na filosofia.

[59] Pois existe uma certa dissertação intitulada “Lição sobre os Fenômenos Físicos”, na qual ele tratou detalhadamente das operações conduzidas pela natureza e não pela providência, na região do espaço que vai da terra até a lua.

[60] E existe também outro tratado peculiar dele sobre os princípios das coisas na região além da lua, que traz o título “Metafísica”.

[61] E outra dissertação particular foi escrita por ele, intitulada “Sobre uma Quinta Substância”, e nessa obra Aristóteles desenvolve suas opiniões teológicas.

[62] Existe, pois, tal divisão do universo como tentamos agora delinear em resumo, e a ela corresponde a divisão da filosofia aristotélica.

[63] Sua obra, porém, intitulada “Sobre a Alma”, é obscura.

[64] Porque em todos os três livros em que trata desse assunto não é possível dizer claramente qual é a opinião de Aristóteles acerca da alma.

[65] Pois, quanto à definição que ele fornece da alma, é suficientemente fácil enunciá-la, mas o que essa definição significa é difícil de descobrir.

[66] Pois a alma, diz ele, é uma enteléquia de um corpo natural orgânico.

[67] Mas explicar o que isso realmente é exigiria muitíssimos argumentos e uma investigação prolongada.

[68] Quanto à divindade, a causa originadora de todos os gloriosos objetos da criação, a natureza dessa causa primeira é ainda mais difícil de conhecer do que a própria alma, mesmo para alguém que conduza sua investigação com mais extensão do que a que se faz sobre a alma.

[69] A definição, contudo, que Aristóteles fornece da divindade não é difícil de identificar, mas é impossível compreender seu significado.

[70] Pois ele diz que a divindade é pensamento de pensamento.

[71] Mas isso é, ao todo, uma entidade inexistente.

[72] O mundo, porém, segundo Aristóteles, é incorruptível e eterno.

[73] Pois não tem em si nada de defeituoso, visto que é dirigido pela providência e pela natureza.

[74] E Aristóteles estabeleceu doutrinas não apenas acerca da natureza, do sistema cósmico, da providência e de Deus, mas escreveu mais do que isso.

[75] Pois também existe dele um certo tratado sobre assuntos éticos, e esses ele intitula “Livros de Ética”.

[76] Mas em todos eles ele visa tornar excelentes os hábitos de seus ouvintes, em vez de vis.

[77] Quando, portanto, se descobre que Basilides, não apenas em espírito, mas também nas próprias expressões e nomes, transfere os princípios de Aristóteles para nossa doutrina evangélica e salvadora, o que resta senão, restaurando aquilo que ele se apropriou de outros, provar aos discípulos desse herege que Cristo de modo algum lhes aproveitará, visto que são pagãos em suas ideias?

[78] Basilides, portanto, e Isidoro, o verdadeiro filho e discípulo de Basilides, dizem que Matias lhes comunicou discursos secretos, que ele, sendo especialmente instruído, ouviu do Salvador.

[79] Vejamos, então, quão claramente Basilides, juntamente com Isidoro e toda a turma desses hereges, não apenas desmente totalmente a Matias, mas até ao próprio Salvador.

[80] Houve um tempo, diz Basilides, em que não havia nada.

[81] Nem mesmo esse nada, contudo, constituía qualquer coisa dentre as coisas existentes.

[82] Mas, para me expressar sem disfarce, francamente e sem sofisma, isso era absolutamente nada.

[83] Mas quando, diz ele, emprego a expressão “havia”, não digo que de fato havia, mas falo assim para indicar o sentido do que quero esclarecer.

[84] Afirmo, então, diz ele, que era absolutamente nada.

[85] Pois aquilo que é nomeado não é absolutamente inefável, embora sem dúvida chamemos isso de inefável, mas aquilo que é não-inefável.

[86] Porque aquilo que é não-inefável não é denominado inefável, mas está, diz ele, acima de todo nome que é nomeado.

[87] Pois, diz ele, de modo algum esses nomes são suficientes para o mundo, mas tão múltiplas são as suas divisões que há falta de nomes.

[88] E eu não tomo para mim, diz ele, a tarefa de descobrir denominações próprias para todas as coisas.

[89] Sem dúvida, porém, convém conceber mentalmente, e não por meio de nomes, de maneira inefável, as peculiaridades das coisas assim denominadas.

[90] Pois uma terminologia equívoca, quando empregada por mestres, criou para seus discípulos confusão e fonte de erro acerca dos objetos.

[91] Os basilidianos, em primeiro lugar, apropriando-se dessa doutrina tomada de empréstimo e furtivamente derivada do sábio peripatético, brincam com a tolice daqueles que andam reunidos com eles.

[92] Pois Aristóteles, nascido muitas gerações antes de Basilides, foi o primeiro a estabelecer, em “As Categorias”, um sistema acerca de palavras homônimas.

[93] E esses hereges trazem isso à luz como se fosse peculiarmente deles, como se fosse alguma doutrina nova e alguma revelação secreta dos discursos de Matias.

[94] Visto, portanto, que nada existia, isto é, nem matéria, nem substância, nem o que é insubstancial, nem o que é simples, nem o que é composto, nem o que é concebível, nem o que é inconcebível, nem o que é sensível, nem o que é privado de sentidos, nem homem, nem anjo, nem deus, nem, em resumo, qualquer das coisas que têm nomes, ou que são apreendidas pelos sentidos, ou conhecidas pelo intelecto, mas, com ainda maior exatidão, todas as coisas tendo sido completamente removidas, desde que, digo eu, nada existia, Deus, não-existente, a quem Aristóteles chama “pensamento de pensamento”, mas a quem estes basilidianos chamam “não-existente”, de modo inconcebível, insensível, indeterminado, involuntário, impassível e sem ser movido por desejo, quis criar um mundo.

[95] Ora, emprego, diz ele, a expressão “quis” com o propósito de indicar que o fez involuntária, inconcebível e insensivelmente.

[96] E pela expressão “mundo” não entendo aquilo que depois foi formado segundo extensão e divisão, e que permaneceu separado.

[97] De modo nenhum.

[98] Pois entendo o germe de um mundo.

[99] O germe do mundo, porém, tinha todas as coisas em si.

[100] Assim como o grão de mostarda compreende simultaneamente todas as coisas, mantendo-as reunidas no menor espaço, isto é, raízes, haste, ramos, folhas e inúmeros grãos que são produzidos pela planta, como sementes, por sua vez, de outras plantas, e muitas vezes de outras ainda, produzidas a partir delas.

[101] Dessa maneira, o Deus não-existente fez o mundo a partir de não-entes, lançando e depositando uma semente que continha em si uma aglomeração dos germes do mundo.

[102] Mas, para tornar mais claro o que esses hereges afirmam, mencionarei a seguinte ilustração deles.

[103] Assim como um ovo de alguma ave de plumagem variada e multicolorida, por exemplo o pavão, ou alguma outra ave ainda mais variada e multicolorida, sendo um só na realidade, contém em si numerosas formas de substâncias múltiplas, multicoloridas e muito compostas, assim também, diz ele, a semente não-existente do mundo, depositada pelo Deus não-existente, constitui ao mesmo tempo o germe de uma multidão de formas e de uma multidão de substâncias.

[104] Todas as coisas, portanto, tudo quanto é possível declarar, e tudo quanto, por ainda não ter sido descoberto, é preciso omitir, estavam destinadas a receber adaptação ao mundo que estava para ser gerado a partir da semente.

[105] E essa semente, nas épocas oportunas, cresce em tamanho de uma maneira peculiar, segundo acréscimo, como por instrumentalidade de uma divindade tão grande e de tal natureza.

[106] Mas essa divindade a criatura não pode nem exprimir nem apreender pela percepção.

[107] Ora, todas essas coisas estavam inerentes e guardadas na semente, assim como depois observamos em uma criança recém-nascida o crescimento dos dentes, a substância paterna, o intelecto e tudo quanto, embora antes não existisse, vai se acrescentando ao homem, crescendo pouco a pouco desde a juventude.

[108] Mas, visto que seria absurdo dizer que alguma projeção de um Deus não-existente se tornou alguma coisa existente, pois Basilides evita e teme completamente a noção de substâncias geradas por via de projeção, porque, pergunta ele, de que tipo de projeção haveria necessidade, ou de que tipo de matéria deveríamos supor a existência prévia, para que Deus construísse um mundo, como a aranha constrói sua teia, ou como um homem mortal toma um pedaço de bronze, madeira ou alguma outra matéria para com ela trabalhar?

[109] Portanto, estando a projeção fora de questão, certamente, diz Basilides, Deus falou a palavra, e isso foi levado a efeito.

[110] E isto, como afirmam esses homens, é o que foi dito por Moisés: “Haja luz”, e houve luz.

[111] De onde, pergunta ele, veio a luz?

[112] Do nada.

[113] Pois não está escrito, diz ele, de onde ela veio, mas somente isto, que veio da voz daquele que pronunciou a palavra.

[114] E aquele que pronunciou a palavra, diz ele, era não-existente, e também não existia aquilo que estava sendo produzido.

[115] A semente do sistema cósmico foi gerada, diz ele, a partir de não-entes.

[116] E por semente entendo a palavra que foi pronunciada: “Haja luz”.

[117] E isto, diz ele, é o que foi dito nos Evangelhos: “Ele era a verdadeira luz, que ilumina a todo homem que vem ao mundo”.

[118] Ele deriva seus princípios originários daquela semente e obtém da mesma fonte seu poder iluminador.

[119] Essa é a semente que tem em si toda a aglomeração dos germes.

[120] E Aristóteles afirma que isso é o gênero, e por ele é distribuído em espécies infinitas, assim como do animal, que não é nenhum ser particular, se separam boi, cavalo e homem.

[121] Quando, portanto, a semente cósmica se torna a base de um desenvolvimento posterior, esses hereges afirmam, para citar as próprias palavras de Basilides: “Tudo quanto digo ter sido feito depois disso, não perguntes de onde veio”.

[122] Pois a semente tinha todos os germes guardados e repousando em si, como entidades não existentes, e que estavam destinadas a ser produzidas por uma divindade não-existente.

[123] Vejamos, então, o que eles dizem ser o primeiro, o segundo e o terceiro elemento no desenvolvimento do que foi gerado a partir da semente cósmica.

[124] Existia, diz ele, na própria semente, uma Filiação, tripla, em todos os aspectos da mesma substância que o Deus não-existente, gerada a partir de não-entes.

[125] Dessa Filiação, envolvendo assim uma divisão tríplice, uma parte era refinada, outra grosseira, e outra necessitada de purificação.

[126] A porção refinada, portanto, em primeiro lugar, simultaneamente com a primeira deposição da semente pelo não-existente, irrompeu imediatamente e subiu apressadamente de baixo para cima, usando uma espécie de rapidez descrita pela poesia como “rápida como asa ou pensamento”, e alcançou, diz ele, aquele que é não-existente.

[127] Pois toda natureza deseja esse não-existente por causa de uma superabundância de beleza e esplendor.

[128] Cada natureza, porém, o deseja de modo diferente.

[129] A porção mais grosseira da Filiação, porém, permanecendo ainda na semente e sendo uma espécie de princípio imitativo, não pôde apressar-se para cima.

[130] Pois essa porção era muito mais deficiente no refinamento que a Filiação possuía, a qual por si mesma se elevou, e assim a parte mais grosseira ficou para trás.

[131] Portanto, a Filiação mais grosseira equipou-se com alguma espécie de asa tal como Platão, mestre de Aristóteles, atribui à alma no “Fedro”.

[132] E Basilides chama isso, não de asa, mas de Espírito Santo.

[133] E a Filiação, revestida desse Espírito, confere benefícios e também os recebe em troca.

[134] Confere benefícios porque, assim como a asa de um pássaro, se removida do pássaro, não subiria por si mesma ao alto, e, por outro lado, um pássaro, se despojado de sua asa, jamais subiria ao alto, do mesmo modo a Filiação mantinha certa relação com o Espírito Santo, e o Espírito com a Filiação.

[135] Pois a Filiação, sendo levada para cima pelo Espírito como por uma asa, eleva por sua vez sua própria pena, isto é, o Espírito.

[136] E ela se aproxima da Filiação refinada e do Deus não-existente, isto é, daquele que fabricou o mundo a partir de não-entes.

[137] Contudo, ela não pôde manter esse Espírito consigo na própria Filiação, porque ele não era da mesma substância, nem tinha qualquer natureza em comum com a Filiação.

[138] Mas assim como o ar puro e seco é contrário à natureza dos peixes e destrutivo para eles, assim também aquele lugar da divindade não-existente e da Filiação era contrário à natureza do Espírito Santo, um lugar mais inefável do que as coisas inefáveis e mais elevado do que todos os nomes.

[139] A Filiação, portanto, deixou esse Espírito perto daquele lugar bendito, que não pode ser concebido nem representado por expressão alguma.

[140] Não o deixou, contudo, totalmente abandonado ou separado da Filiação.

[141] Longe disso.

[142] Pois é como quando se coloca um unguento muito perfumado em um vaso, e ainda que o vaso seja esvaziado dele com o máximo cuidado, permanece mesmo assim algum odor do unguento, e esse odor fica para trás, mesmo depois de o unguento ter sido separado do vaso.

[143] E o vaso retém o cheiro do unguento, embora não contenha mais o unguento em si.

[144] Assim também o Espírito Santo permaneceu sem participar da Filiação e separado dela, e tem em si, do mesmo modo que o unguento, seu próprio poder, um aroma de Filiação.

[145] E isso é o que foi declarado: “Como o óleo sobre a cabeça, que desceu para a barba de Arão”.

[146] Esse é o aroma vindo do Espírito Santo e trazido de cima até a informidade e ao intervalo de espaço próximo do nosso mundo.

[147] E a partir disso o Filho começou a subir, sustentado, por assim dizer, diz Basilides, sobre asas de águias e sobre o dorso.

[148] Pois, diz ele, todas as entidades se apressam de baixo para cima, das inferiores para as superiores.

[149] Pois nenhuma das coisas que estão entre as superiores é tão tola a ponto de descer para baixo.

[150] A terceira Filiação, porém, aquela que necessita de purificação, permaneceu, diz ele, na vasta aglomeração de todos os germes, conferindo benefícios e recebendo-os.

[151] Mas de que maneira essa terceira Filiação recebe benefícios e os confere, declararemos depois, quando chegarmos ao lugar apropriado para discutir essa questão.

[152] Quando, portanto, ocorreu uma primeira e uma segunda ascensão da Filiação, e o próprio Espírito Santo permaneceu também do modo mencionado, o firmamento foi colocado entre as regiões supramundanas e o mundo.

[153] Pois os seres existentes foram distribuídos por Basilides em duas divisões contínuas e principais, e são, segundo ele, denominados em certo sentido mundo, e em certo sentido regiões supramundanas.

[154] Mas o Espírito, linha de demarcação entre o mundo e as regiões supramundanas, é aquilo que é santo e tem em si o aroma da Filiação.

[155] Enquanto, portanto, o firmamento que está acima do céu vinha à existência, irrompeu e foi gerado da semente cósmica e da aglomeração de todos os germes o Grande Arconte e Cabeça do mundo, constituindo uma certa espécie de beleza, grandeza e poder indissolúvel.

[156] Pois, diz ele, ele é mais inefável do que as entidades inefáveis, mais poderoso do que as poderosas, mais sábio do que as sábias e superior a todas as coisas belas que se possa mencionar.

[157] Esse Arconte, ao ser gerado, ergueu-se e voou para cima, sendo levado inteiramente até o firmamento.

[158] E ali parou, supondo que o firmamento fosse o término de sua ascensão e elevação, e considerando que nada existia além dele.

[159] E entre todas as entidades que permaneciam abaixo e eram mundanas, tornou-se mais sábio, mais poderoso, mais belo, mais resplandecente e, de fato, preeminente em beleza acima de quaisquer entidades que se possa nomear, com exceção apenas da Filiação, que ainda permanecia na aglomeração de todos os germes.

[160] Pois ele não sabia que havia uma Filiação mais sábia, mais poderosa e melhor do que ele próprio.

[161] Portanto, imaginando-se Senhor, Governador e sábio Arquiteto, volta-se para a obra de criação de todo objeto no sistema cósmico.

[162] E primeiro julgou conveniente não ficar sozinho, mas fez para si e gerou, a partir das entidades adjacentes, um Filho muito superior a ele mesmo e mais sábio.

[163] Pois todas essas coisas haviam sido previamente determinadas pela divindade não-existente quando lançou a aglomeração de todos os germes.

[164] Ao contemplar, portanto, o Filho, foi tomado de assombro, amou-o e ficou maravilhado.

[165] Pois uma beleza dessa natureza pareceu ao Grande Arconte pertencer ao Filho, e o Arconte fez com que ele se assentasse à sua direita.

[166] Isso é, segundo esses hereges, o que se denomina Ogdóade, onde o Grande Arconte tem seu trono.

[167] Toda a criação celeste, então, isto é, o éter, foi formada por ele mesmo, o grande e sábio Demiurgo.

[168] O Filho, porém, gerado desse Arconte, opera nele e lhe oferece sugestões, sendo dotado de sabedoria muito maior do que a do próprio Demiurgo.

[169] Isto, então, constitui a enteléquia do corpo natural orgânico, segundo Aristóteles, isto é, uma alma operando no corpo, sem a qual o corpo não é capaz de realizar nada que seja maior, mais ilustre, mais poderoso e mais sábio do que o próprio corpo.

[170] A exposição, portanto, que Aristóteles anteriormente forneceu acerca da alma e do corpo, Basilides a aplica ao Grande Arconte e a seu Filho.

[171] Pois o Arconte gerou, segundo Basilides, um filho, e a alma, como operação e consumação, Aristóteles afirma ser uma enteléquia de um corpo natural orgânico.

[172] Assim, portanto, como a enteléquia governa o corpo, o Filho, segundo Basilides, governa o Deus que é mais inefável do que as entidades inefáveis.

[173] Todas as coisas, então, foram providas e governadas pela majestade do Grande Arconte, isto é, todos os objetos que existem na região etérea do espaço até a lua, porque a partir desse ponto o ar se separa do éter.

[174] Quando todas as coisas nas regiões etéreas foram assim ordenadas, novamente da aglomeração de todos os germes subiu outro Arconte, maior, evidentemente, do que todas as entidades abaixo dele, exceto, porém, a Filiação que tinha sido deixada para trás, mas muito inferior ao Primeiro Arconte.

[175] E esse segundo Arconte é chamado por eles de Reto.

[176] E esse lugar é chamado Hebdômada, e esse Arconte é o administrador e fabricante de todas as entidades que estão abaixo.

[177] E ele também fez para si, a partir da aglomeração de todos os germes, um filho mais prudente e sábio do que ele mesmo, semelhantemente ao que foi dito ter acontecido no caso do Primeiro Arconte.

[178] Aquilo que existe nessa região do universo constitui, diz ele, a verdadeira aglomeração e coleção de todas as sementes.

[179] E as coisas geradas são produzidas segundo a natureza, como já foi declarado por aquele que calcula as coisas futuras, quando elas devem existir, que tipo devem ser e como devem ser.

[180] E dessas coisas ninguém é chefe, guardião ou criador.

[181] Pois causa suficiente de existência para elas é aquele cálculo que o Não-Existente formou quando exerceu a função de criar.

[182] Quando, portanto, segundo esses hereges, o mundo inteiro e as entidades supramundanas foram concluídos, e nada mais existe em estado de carência, ainda resta na aglomeração de todos os germes a terceira Filiação, que tinha sido deixada na semente para conferir benefícios e recebê-los.

[183] E é necessário que a Filiação que havia sido deixada para trás também seja revelada e restabelecida acima.

[184] E o seu lugar deve ser acima do Espírito Limítrofe, perto da Filiação refinada e imitativa e do Não-Existente.

[185] Mas isso estaria de acordo com o que foi escrito, diz ele: “A própria criação geme juntamente e juntamente suporta dores de parto, esperando a manifestação dos filhos de Deus”.

[186] Ora, nós, que somos espirituais, somos esses filhos, diz ele, que foram deixados aqui para ordenar, moldar, corrigir e completar as almas que, segundo a natureza, são constituídas para permanecer nesta região do universo.

[187] O pecado, então, reinou desde Adão até Moisés, como está escrito.

[188] Pois o Grande Arconte exercia domínio e possuía um império cujos limites se estendiam até o firmamento.

[189] E ele imagina ser sozinho Deus, e que nada existe acima dele, pela razão de que todas as coisas foram guardadas por uma Silêncio não revelada.

[190] Esse, diz ele, é o mistério que não foi dado a conhecer às gerações anteriores.

[191] Mas naqueles dias o Grande Arconte, a Ogdóade, era rei e senhor, ao que parecia, do universo.

[192] Mas, na realidade, a Hebdômada era rei e senhor desta região do universo, e a Ogdóade é Arrhetus, ao passo que a Hebdômada é Rhetus.

[193] Esse, diz ele, é o Arconte da Hebdômada, aquele que falou a Moisés e disse: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, e não lhes manifestei o nome de Deus”, isto é, o Deus Arrhetus, Arconte da Ogdóade, pois assim querem que estivesse escrito.

[194] Todos os profetas, portanto, que vieram antes do Salvador, proferiram suas profecias, diz ele, a partir dessa fonte de inspiração.

[195] Visto, então, que era necessário, diz ele, que fôssemos revelados como filhos de Deus, aguardando cuja manifestação a criação habitualmente geme e sofre dores, o Evangelho veio ao mundo e passou através de todo principado, poder, domínio e todo nome que se nomeia.

[196] E o Evangelho veio de fato, embora nada tenha descido do alto.

[197] Nem a bendita Filiação se retirou daquele Deus inconcebível, bendito e não-existente.

[198] De modo nenhum.

[199] Pois assim como a nafta indiana, quando acesa meramente a uma longa distância, ainda assim atrai para si o fogo, do mesmo modo, desde baixo, a partir da informidade da aglomeração de todos os germes, os poderes sobem até a Filiação.

[200] Pois, segundo a ilustração da nafta indiana, o Filho do Grande Arconte da Ogdóade, como se fosse uma espécie de nafta, apreende e recebe concepções da Filiação Bendita, cuja morada está situada depois do Espírito Limítrofe.

[201] Porque o poder da Filiação que está no meio do Espírito Santo, isto é, no meio do Espírito Limítrofe, compartilha com o Filho do Grande Arconte os pensamentos que fluem e irrompem da Filiação.

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[1] Deixem, pois, esses hereges investigar entre si tais questões.

[2] E o mesmo façam outros, se porventura alguém achar agradável investigar esses pontos.

[3] Valentim, porém, acrescenta ainda a seguinte afirmação.

[4] Que as transgressões pertencentes aos Éons dentro do Pleroma haviam sido corrigidas.

[5] E igualmente haviam sido corrigidas as transgressões pertencentes à Ogdóade.

[6] Isto é, Sophia, fora do Pleroma.

[7] E também as transgressões pertencentes à Hebdômada haviam sido corrigidas.

[8] Pois o Demiurgo havia sido ensinado por Sophia que ele mesmo não era Deus sozinho, como imaginava.

[9] E que, fora dele, existia outra Divindade superior.

[10] E, quando instruído por Sophia, foi levado a reconhecer a Divindade superior.

[11] Pois foi por ela instruído.

[12] E iniciado.

[13] E doutrinado no grande mistério do Pai e dos Éons.

[14] E a ninguém revelou isso.

[15] Isto é, segundo ele, o que Deus declara a Moisés.

[16] “Eu sou o Deus de Abraão.”

[17] “E o Deus de Isaque.”

[18] “E o Deus de Jacó.”

[19] “E o meu nome não lhes anunciei.”

[20] Isto é, não declarei o mistério.

[21] Nem expliquei quem é Deus.

[22] Mas conservei em segredo dentro de mim o mistério que ouvi de Sophia.

[23] Quando, então, as transgressões dos que estavam acima haviam sido corrigidas, era necessário, segundo a mesma consequência, que também as transgressões daqui obtivessem correção.

[24] Por essa causa Jesus, o Salvador, nasceu de Maria.

[25] Para que corrigisse as transgressões cometidas aqui.

[26] Assim como o Cristo, que havia sido adicionalmente projetado do alto por Nous e Aletheia, corrigira as paixões de Sophia.

[27] Isto é, do aborto que estava fora do Pleroma.

[28] E, de novo, o Salvador que nasceu de Maria veio para corrigir as paixões da alma.

[29] Há, portanto, segundo esses hereges, três Cristos.

[30] Um, o adicionalmente projetado por Nous e Aletheia juntamente com o Espírito Santo.

[31] Outro, o Fruto Conjunto do Pleroma, esposo de Sophia, que estava fora do Pleroma.

[32] E a própria Sophia também é chamada Espírito Santo.

[33] Mas inferior ao primeiro.

[34] E o terceiro é aquele que nasceu de Maria para a restauração deste nosso mundo.

[35] Penso que a heresia de Valentim, de origem pitagórica, já foi suficientemente, ou antes, mais que suficientemente, delineada.

[36] Parece, portanto, conveniente que, tendo explicado suas opiniões, deixemos de lado uma refutação ainda mais prolongada de seu sistema.

[37] Platão, então, ao expor mistérios acerca do universo, escreve a Dionísio mais ou menos assim.

[38] “Devo falar-te por enigmas.”

[39] “Para que, se a carta vier a sofrer algum acidente em suas folhas por mar ou por terra, aquele que a ler não entenda o que caiu em suas mãos.”

[40] “Pois assim é.”

[41] “Todas as coisas estão em torno do Rei de tudo.”

[42] “E por causa dele são todas as coisas.”

[43] “E ele é causa de todos os objetos gloriosos da criação.”

[44] “O segundo está em torno das coisas segundas.”

[45] “E o terceiro em torno das terceiras.”

[46] “Mas em relação ao Rei não há nenhuma daquelas coisas de que falei.”

[47] “Depois disso, a alma deseja ardentemente aprender que espécie de coisas são estas.”

[48] “Contemplando as coisas que lhe são aparentadas.”

[49] “E nenhuma delas, em si mesma, é suficiente.”

[50] “Isto, ó filho de Dionísio e de Doris, é a tua questão.”

[51] “A qual é causa de todos os males.”

[52] “Ou melhor, a solicitude a respeito disso é inata na alma.”

[53] “E, se alguém não a remover, jamais alcançará realmente a verdade.”

[54] “Mas escuta o que há de admirável neste assunto.”

[55] “Pois há homens que ouviram estas coisas.”

[56] “Homens dotados de capacidade de aprender.”

[57] “Dotados de memória.”

[58] “E em tudo providos de aptidão para investigação e inferência.”

[59] “E esses são agora especuladores idosos.”

[60] “E afirmam que opiniões antes críveis agora são incríveis.”

[61] “E que coisas antes incríveis agora se tornaram o contrário.”

[62] “Portanto, ao lançares o olhar de exame sobre essas investigações, procede com cautela.”

[63] “Para que não venhas algum dia a arrepender-te em relação a essas coisas, caso aconteçam de modo indigno de tua posição.”

[64] “Por esta causa nada escrevi sobre esses pontos.”

[65] “Nem há tratado algum de Platão sobre eles.”

[66] “Nem jamais haverá.”

[67] “As observações agora feitas, porém, são de Sócrates.”

[68] “Conspícuo pela virtude ainda quando jovem.”

[69] Valentim, encontrando estas observações, fez delas um princípio fundamental de seu sistema.

[70] Tomou o Rei de tudo, de quem Platão falou.

[71] E esse herege o chama Pai.

[72] E Bythos.

[73] E Proarchê acima dos demais Éons.

[74] E quando Platão diz “o que é segundo em torno das coisas segundas”, Valentim supõe serem segundas todos os Éons dentro do limite.

[75] Bem como o próprio limite.

[76] E quando Platão diz “o que é terceiro em torno das terceiras”, Valentim constitui como terceiro todo o arranjo fora do limite e do Pleroma.

[77] E Valentim resumiu isso de maneira muito sucinta num salmo, começando de baixo e não de cima, como Platão.

[78] Expressando-se assim.

[79] “Vejo todas as coisas suspensas no ar pelo espírito.”

[80] “E percebo todas as coisas levadas pelo espírito.”

[81] “A carne vejo suspensa da alma.”

[82] “Mas a alma brilhando do ar.”

[83] “E o ar dependendo do Éter.”

[84] “E os frutos produzidos de Bythos.”

[85] “E o feto levado no ventre.”

[86] Assim Valentim formou sua opinião sobre estes pontos.

[87] Carne, segundo esses hereges, é matéria.

[88] E está suspensa da alma do Demiurgo.

[89] E a alma brilha do ar.

[90] Isto é, o Demiurgo emerge do espírito que está fora do Pleroma.

[91] Mas o ar procede do Éter.

[92] Isto é, Sophia fora do Pleroma foi projetada do Pleroma que está dentro do limite.

[93] E de todo o Pleroma em geral.

[94] E de Bythos são produzidos frutos.

[95] Isto é, toda a projeção dos Éons procede do Pai.

[96] As opiniões, então, de Valentim foram suficientemente declaradas.

[97] Resta-nos explicar as doutrinas daqueles que vieram de sua escola.

[98] Ainda que cada adepto de Valentim sustente opiniões diferentes.

[99] Certo herege chamado Secundo, nascido aproximadamente no tempo de Ptolemeu, expressa-se assim.

[100] Diz que existe uma tétrade direita e uma tétrade esquerda.

[101] A saber, luz e trevas.

[102] E afirma que o poder que se retirou e sofreu deficiência não foi produzido dos trinta Éons.

[103] Mas dos frutos destes.

[104] Outro, porém, Epífanes, mestre entre eles, expressa-se assim.

[105] O primeiro princípio originário era inconcebível.

[106] Inefável.

[107] E inominável.

[108] E ele chama isso Monotes.

[109] E sustenta que coexistia com isso uma potência que denomina Henotes.

[110] Esta Henotes e esta Monotes, não por projeção de si mesmas, enviaram um princípio sobre todos os inteligíveis.

[111] Não gerado.

[112] E invisível.

[113] E a isto ele chama Mônada.

[114] E com esta potência coexiste uma potência da mesma essência.

[115] A qual ele chama Unidade.

[116] Essas quatro potências enviaram o restante das projeções dos Éons.

[117] Outros, porém, chamam a principal e originária Ogdóade, quarta e invisível, pelos seguintes nomes.

[118] Primeiro Proarchê.

[119] Depois Anennoetos.

[120] Terceiro Arrhetos.

[121] E quarto Aoratos.

[122] E do primeiro, Proarchê, foi projetado no primeiro e quinto lugar Arche.

[123] E de Anennoetos, no segundo e sexto lugar, Acataleptos.

[124] E de Arrhetos, no terceiro e sétimo lugar, Anonomastos.

[125] E de Aoratos, Agennetos.

[126] Como complemento da primeira Ogdóade.

[127] Desejam que essas potências existam antes de Bythos e Sigê.

[128] Quanto ao próprio Bythos, porém, há muitas opiniões diversas.

[129] Alguns afirmam que ele não é casado.

[130] Nem masculino nem feminino.

[131] Mas outros sustentam que Sigê, sendo feminina, está presente com ele.

[132] E que isso constitui a primeira união conjugal.

[133] Os seguidores de Ptolemeu, porém, afirmam que Bythos tem duas esposas.

[134] Às quais também chamam disposições.

[135] A saber, Ennoia e Thelesis.

[136] Pois primeiro foi concebida a noção de projetar algo.

[137] Depois veio, como dizem, a vontade de fazê-lo.

[138] Donde também estas duas disposições e potências, Ennoia e Thelesis, misturando-se uma à outra, fizeram surgir Monogenes e Aletheia por meio de união conjugal.

[139] E a consequência foi que visíveis tipos e imagens dessas duas disposições do Pai saíram dos Éons invisíveis.

[140] A saber, de Thelema, Nous.

[141] E de Ennoia, Aletheia.

[142] E, por isso, a imagem de Thelema, posteriormente gerada, é masculina.

[143] Mas a imagem de Ennoia não gerada é feminina.

[144] Pois a vontade é, por assim dizer, uma potência de concepção.

[145] Porque a concepção sempre abrigava a ideia de uma projeção.

[146] Mas não era capaz de projetar-se por si mesma.

[147] Conservava apenas a ideia disso.

[148] Quando, porém, a potência da vontade se fazia presente, então projetava a ideia que havia sido concebida.

[149] Certo outro mestre entre eles, Marcos, perito em feitiçaria, operando em parte por prestidigitação e em parte por demônios, enganou muitos de tempos em tempos.

[150] Este herege afirmava que nele residia a mais poderosa energia proveniente de lugares invisíveis e inomináveis.

[151] E com muita frequência, tomando o cálice, como se fosse oferecer a oração eucarística.

[152] E prolongando mais do que o costume a fórmula de invocação.

[153] Fazia aparecer uma coloração púrpura.

[154] E às vezes vermelha.

[155] De modo que seus enganados imaginavam que certa Graça descia.

[156] E comunicava à bebida uma potência semelhante a sangue.

[157] O patife, porém, naquele tempo conseguiu escapar à detecção de muitos.

[158] Mas agora, sendo desmascarado, será forçado a cessar.

[159] Pois, introduzindo secretamente na mistura alguma droga capaz de produzir tal cor.

[160] E proferindo durante tempo considerável expressões sem sentido.

[161] Costumava esperar que a droga, ao receber umidade, se dissolvesse.

[162] E, misturada à bebida, lhe transmitisse a cor.

[163] As drogas, porém, que possuem essa qualidade, nós já mencionamos anteriormente no livro sobre os mágicos.

[164] E aqui aproveitamos a ocasião para explicar como eles enganam muitos.

[165] E os arruínam completamente.

[166] E, se parecer conveniente a eles atentar com mais exatidão ao que dissemos, perceberão o engano de Marcos.

[167] E este mesmo Marcos, introduzindo a mistura acima mencionada num cálice menor, costumava entregá-lo a uma mulher para que ela pronunciasse a oração eucarística.

[168] Enquanto ele próprio estava ao lado.

[169] E tinha na mão outro cálice vazio, maior do que aquele.

[170] E, depois de sua enganada ter pronunciado a fórmula de consagração, recebendo o cálice dela, ele começava a verter o conteúdo no maior.

[171] E, derramando muitas vezes de um cálice para o outro, pronunciava ao mesmo tempo a seguinte invocação.

[172] “Concede que a Graça inconcebível e inefável, que existia antes do universo, encha o teu homem interior.”

[173] “E faça abundar em ti o conhecimento dessa Graça.”

[174] “Assim como ela dissemina a semente da árvore de mostarda na boa terra.”

[175] E, pronunciando simultaneamente palavras desse tipo.

[176] E deixando admiradas tanto a sua enganada quanto as pessoas presentes.

[177] Era considerado alguém que realizava um milagre.

[178] Enquanto o maior cálice ia sendo enchido a partir do menor de tal maneira que o conteúdo, tornando-se superabundante, transbordava.

[179] O artifício desse embusteiro, porém, nós também já explicamos no livro quarto.

[180] Onde demonstramos que muitas drogas, quando misturadas assim a líquidos, possuem a capacidade de produzir aumento.

[181] Sobretudo quando diluídas em vinho.

[182] Ora, quando um desses impostores unge previamente e em segredo um cálice vazio com alguma dessas drogas.

[183] E o mostra aos espectadores como se nada contivesse.

[184] Ao verter nele o conteúdo do outro cálice e depois devolvê-lo.

[185] A droga, sendo de natureza flatulenta, dissolve-se ao misturar-se com o líquido.

[186] E o efeito disso é que se produz uma superabundância da mistura.

[187] E ela aumenta a tal ponto que aquilo que foi derramado entra em movimento.

[188] Tal é a natureza da droga.

[189] E, se alguém guardar o cálice depois de cheio, o que nele foi derramado voltará em pouco tempo às suas dimensões naturais.

[190] Porque a potência da droga se extingue devido à permanência da umidade.

[191] Por isso ele tinha o costume de apressadamente apresentar o cálice aos presentes para que bebessem.

[192] Eles, porém, horrorizados e ao mesmo tempo ávidos de provar o conteúdo do cálice, bebiam a mistura como se fosse algo divino.

[193] E preparado pela própria Divindade.

[194] Tais e outros truques esse impostor tentava executar.

[195] E assim era engrandecido por seus enganados.

[196] E às vezes julgavam que ele proferia predições.

[197] Mas às vezes ele tentava fazer que outros profetizassem.

[198] Em parte por demônios realizando essas operações.

[199] E em parte por prestidigitação.

[200] Como já afirmamos antes.

[201] Assim cegando multidões, arrastou a muitos desse tipo, já tornados seus discípulos, a excessos.

[202] Ensinando-lhes que eram de fato propensos ao pecado.

[203] Mas, ainda assim, fora de perigo.

[204] Em razão de pertencerem à potência perfeita.

[205] E de serem participantes da potência inconcebível.

[206] E, depois do primeiro batismo, prometem-lhes outro.

[207] Ao qual chamam Redenção.

[208] E por esse outro batismo subvertem impiamente aqueles que permanecem com eles na expectativa da redenção.

[209] Como se, depois de uma vez batizados, pudessem outra vez obter remissão.

[210] Ora, é por meio de tal velhacaria que parecem reter seus ouvintes.

[211] E, quando consideram que estes foram provados.

[212] E que são capazes de guardar os mistérios a eles confiados.

[213] Então os admitem a esse batismo.

[214] Eles, porém, não se contentam apenas com isso.

[215] Mas prometem aos seus adeptos algum outro benefício.

[216] Com o propósito de confirmá-los na esperança.

[217] A fim de que se tornem inseparáveis adeptos da seita.

[218] Pois pronunciam algo em tom de voz inefável.

[219] Depois de terem imposto as mãos sobre aquele que recebe a redenção.

[220] E alegam que não poderiam facilmente declarar a outro o que assim se pronuncia.

[221] A não ser que fosse alguém muito provado.

[222] Ou alguém na hora da morte.

[223] Quando o bispo vem.

[224] E o sussurra ao ouvido do moribundo.

[225] E esse ardil foi concebido para assegurar a contínua presença junto ao bispo dos discípulos de Marcos.

[226] Como pessoas ansiosamente ofegantes para aprender aquilo que se pronuncia por último.

[227] Pelo conhecimento do qual o discípulo será promovido à classe dos admitidos aos mistérios mais elevados.

[228] E a respeito dessas coisas conservei silêncio por esta razão.

[229] Para que ninguém suponha que eu estivesse agindo com desprezo para com eles.

[230] Pois isso não se encontra dentro do escopo de nossa obra presente.

[231] A não ser na medida em que pode contribuir para provar de que fonte os hereges derivaram o ponto de apoio a partir do qual introduziram suas doutrinas.

[232] Pois também o bem-aventurado presbítero Irineu, abordando o assunto da refutação com espírito mais solto, explicou tais lavagens e redenções.

[233] E declarou de modo mais resumido quais são suas práticas.

[234] E parece que alguns dos marcosianos, ao depararem com a obra de Irineu, negam que tenham recebido desse modo a palavra secreta.

[235] Mas aprenderam que devem sempre negar.

[236] Por isso nosso zelo foi investigar com mais exatidão.

[237] E descobrir minuciosamente quais são as instruções que transmitem acerca do primeiro banho.

[238] Que chamam por algum nome desse tipo.

[239] E acerca do segundo, que denominam Redenção.

[240] Nem mesmo, porém, esse segredo deles escapou ao nosso exame.

[241] Estas opiniões, contudo, consentimos em perdoar a Valentim e à sua escola.

[242] Marcos, porém, imitando seu mestre, também fingiu uma visão.

[243] Imaginando que assim seria engrandecido.

[244] Pois também Valentim alegava ter visto um menino recém-nascido.

[245] E, interrogando essa criança, procurou saber quem ela era.

[246] E a criança respondeu dizendo que ela mesma era o Logos.

[247] E então acrescentou uma espécie de narrativa trágica.

[248] E dela Valentim quis que se constituísse a heresia tentada por ele.

[249] Marcos, fazendo tentativa semelhante com esse herege, afirma que a Tétrade veio a ele em forma de mulher.

[250] Porque o mundo não poderia suportar, diz ele, a forma masculina dessa Tétrade.

[251] E ela revelou a Marcos quem era.

[252] E explicou somente a este a geração do universo.

[253] A qual nunca havia revelado a ninguém.

[254] Nem a deuses nem a homens.

[255] E falou desta maneira.

[256] “Quando primeiro o Pai autoexistente.”

[257] “Aquele que é inconcebível e sem substância.”

[258] “Que não é nem masculino nem feminino.”

[259] “Quis que sua própria inefabilidade se realizasse em algo pronunciado.”

[260] “E que sua invisibilidade se realizasse em forma.”

[261] “Abriu a boca.”

[262] “E emitiu um Logos semelhante a si mesmo.”

[263] “E este Logos permaneceu junto dele.”

[264] “E mostrou-lhe quem era.”

[265] “A saber, que ele mesmo havia sido manifestado como realização em forma do Invisível.”

[266] “E a pronúncia do nome foi do seguinte modo.”

[267] “Ele costumava pronunciar a primeira palavra do próprio nome.”

[268] “A qual era Arche.”

[269] “E a sílaba desta era composta de quatro letras.”

[270] “Depois acrescentou a segunda sílaba.”

[271] “E esta também era composta de quatro letras.”

[272] “Em seguida pronunciou a terceira.”

[273] “A qual era composta de dez letras.”

[274] “E pronunciou a quarta.”

[275] “E esta era composta de doze letras.”

[276] “Depois seguiu-se a pronúncia do nome inteiro.”

[277] “Composto de trinta letras.”

[278] “Mas de quatro sílabas.”

[279] “E cada um dos elementos tinha suas próprias letras.”

[280] “E sua própria forma.”

[281] “E sua própria pronúncia.”

[282] “Bem como figuras e imagens.”

[283] “E não havia nenhum deles que contemplasse a forma daquela letra da qual ele próprio era elemento.”

[284] “E, naturalmente, nenhum deles podia conhecer a pronúncia da letra seguinte.”

[285] “Mas apenas pronunciava a sua própria.”

[286] “De modo que, ao pronunciar o todo, supunha estar pronunciando o nome inteiro.”

[287] “Pois cada um desses elementos, sendo parte do todo, é designado segundo seu som peculiar como se fosse o todo.”

[288] “E ele não cessa de soar.”

[289] “Até chegar à última letra do último elemento.”

[290] “E pronunciá-la numa única articulação.”

[291] “Então, disse ela, seguiu-se a restauração do todo.”

[292] “Quando todos os elementos, descendo para uma só letra, emitiram uma e a mesma pronúncia.”

[293] “E a imagem dessa pronúncia existe quando pronunciamos simultaneamente a palavra Amém.”

[294] “E estes sons são aqueles que deram forma ao Éon sem substância e não gerado.”

[295] “E essas formas são aquilo que o Senhor declarou serem anjos.”

[296] “Os quais contemplam sem cessar o rosto do Pai.”

[297] Mas os nomes genéricos e expressos dos elementos ele chamou Éons.

[298] E Logoi.

[299] E Raízes.

[300] E Sementes.

[301] E Pleromas.

[302] E Frutos.

[303] E sustenta que cada um desses, e aquilo que é peculiar a cada um, está contido no nome de Ecclesia.

[304] E a letra final do último elemento enviou sua própria articulação peculiar.

[305] E o som desta letra saiu.

[306] E produziu, conforme imagens dos elementos, os seus próprios elementos particulares.

[307] E destes, diz ele, foram adornadas as coisas existentes aqui.

[308] E foram produzidas as coisas anteriores a estas.

[309] A própria letra, porém, cujo som desceu em conjunto com o som inferior, foi recebida de novo pela sua própria sílaba no complemento do inteiro nome.

[310] Mas o som, como se tivesse sido lançado para fora, permaneceu abaixo.

[311] E o próprio elemento do qual a letra desceu juntamente com a sua pronúncia, diz ele, compõe-se de trinta letras.

[312] E que cada uma dessas trinta letras contém em si outras letras.

[313] Pelas quais o título da letra é nomeado.

[314] E, de novo, as outras letras são nomeadas por letras diferentes.

[315] E o restante por outras ainda.

[316] De sorte que, se alguém escrevesse as letras individualmente, o número chegaria ao infinito.

[317] E assim se pode compreender mais claramente o que foi dito.

[318] O elemento Delta, diz ele, contém em si cinco letras.

[319] A saber, Delta.

[320] Epsilon.

[321] Lambda.

[322] Tau.

[323] E Alpha.

[324] E essas mesmas letras são escritas por meio de outras letras.

[325] Se, portanto, toda a substância do Delta desemboca no infinito.

[326] E letras diferentes invariavelmente produzem outras letras.

[327] E se sucedem umas às outras.

[328] Quanto maior do que esse elemento não será o mar ainda mais imenso das letras?

[329] E se uma única letra é assim infinita.

[330] Eis a profundidade do nome inteiro das letras.

[331] Da qual a diligência paciente, ou antes, a vã labuta de Marcos quer que consista o Progenitor de todas as coisas.

[332] Por isso, afirma ele, o Pai, sabendo que era inseparável de si mesmo, entregou essa profundidade aos elementos.

[333] Aos quais também chama Éons.

[334] E pronunciou em voz alta para cada um deles a sua própria pronúncia peculiar.

[335] Porque nenhum podia pronunciar o todo.

[336] E a Quaterna, depois de explicar essas coisas, falou da seguinte maneira.

[337] “Agora também desejo mostrar-te a própria Verdade.”

[338] “Pois a trouxe das mansões superiores.”

[339] “Para que a contemples nua.”

[340] “E conheças a sua beleza.”

[341] “E também ouças a sua voz.”

[342] “E te maravilhes com a sua sabedoria.”

[343] “Observa primeiro a cabeça acima, Alpha e Omega.”

[344] “O pescoço, B e Psi.”

[345] “Os ombros, juntamente com as mãos, G e Chi.”

[346] “Os seios, Delta e Phi.”

[347] “O diafragma, Eu.”

[348] “O ventre, Z e T.”

[349] “Os pudendos, Eta e S.”

[350] “As coxas, Th e R.”

[351] “Os joelhos, Ip.”

[352] “As pernas, Ko.”

[353] “Os tornozelos, Lx.”

[354] “Os pés, M e N.”

[355] Esta, segundo Marcos, é a constituição do corpo da Verdade.

[356] Esta é a figura do elemento.

[357] Este é o caráter da letra.

[358] E ele chama esse elemento Homem.

[359] E afirma que ele é a fonte de toda palavra.

[360] E o princípio originário de todo som.

[361] E a realização em fala de tudo o que é inefável.

[362] E uma boca do silêncio taciturno.

[363] E este é o corpo da própria Verdade.

[364] “Mas tu”, diz a Quaterna, “erguendo o poder de concepção do entendimento, ouve da boca da Verdade o Logos, que é auto-gerado e progenitor.”

[365] Depois de pronunciar essas palavras, Marcos relata que a Verdade, fitando-o e abrindo a boca, proferiu o discurso mencionado.

[366] E esse discurso tornou-se um nome.

[367] E o nome foi aquele que conhecemos e pronunciamos.

[368] A saber, Cristo Jesus.

[369] E, assim que ela pronunciou esse nome, permaneceu em silêncio.

[370] Marcos, porém, esperava que ela dissesse mais.

[371] A Quaterna então avança novamente para o meio.

[372] E fala assim.

[373] “Tu consideraste desprezível o discurso que ouviste da boca da Verdade.”

[374] “E, no entanto, isto que conheces e pareces possuir desde muito tempo não é o nome.”

[375] “Pois tens apenas o som dele.”

[376] “Mas ignoras a sua potência.”

[377] “Porque Jesus é um nome notável.”

[378] “Que possui seis letras.”

[379] “E é invocado por todos os que pertencem aos chamados de Cristo.”

[380] “Ao passo que o outro nome, isto é, Cristo, consiste de muitas partes.”

[381] “E está entre os cinco Éons do Pleroma.”

[382] “É de outra forma e de outro tipo.”

[383] “E é reconhecido por aquelas existências que lhe são conatas.”

[384] “E cujas magnitudes subsistem continuamente com ele.”

[385] “Sabe, portanto, que estas letras que entre vós são contadas como vinte e quatro são emanações das três potências.”

[386] “E representantes daquelas potências que abrangem o número inteiro dos elementos.”

[387] “Pois suponhamos que haja algumas letras mudas.”

[388] “Nove delas.”

[389] “As quais pertencem a Pater e Aletheia.”

[390] “Porque estas são mudas.”

[391] “Isto é, inefáveis e impronunciáveis.”

[392] “E suponhamos, de novo, que haja outras semi-vogais.”

[393] “Oito delas.”

[394] “De Logos e Zoe.”

[395] “Porque estão no meio entre consoantes e vogais.”

[396] “E recebem a emanação das letras que estão acima delas.”

[397] “Mas o refluxo das que estão abaixo.”

[398] “E ainda há vogais.”

[399] “Sete delas.”

[400] “De Anthropos e Ecclesia.”

[401] “Porque a voz de Anthropos saiu.”

[402] “E deu forma aos objetos do universo.”

[403] “Pois o som da voz produziu figura.”

[404] “E investiu as coisas com ela.”

[405] “Daqui segue que Logos e Zoe possuem oito semi-vogais.”

[406] “Anthropos e Ecclesia possuem sete vogais.”

[407] “E Pater e Aletheia possuem nove mudas.”

[408] “Mas do fato de Logos carecer de uma, para ser uma ogdóade, aquele que está no Pai foi removido de seu assento à direita de Deus.”

[409] “E desceu à terra.”

[410] “E foi enviado pelo Pai àquele de quem havia sido separado.”

[411] “Para corrigir os atos que haviam sido cometidos.”

[412] “A fim de que o processo unificador, inerente ao Bom do Pleroma, produzisse em todos a única potência que procede de todos.”

[413] “E assim aquele que é dos sete adquiriu a potência dos oito.”

[414] “E foram produzidos três topoi correspondentes aos três números.”

[415] “Nove, sete e oito.”

[416] “Esses topoi eram ogdóades.”

[417] “E estes três, adicionados entre si, exibiram o número vinte e quatro.”

[418] “E estes, diz ela, pertencem a Anonomastos.”

[419] “E são levados pelas seis potências a uma semelhança com Aoratus.”

[420] “E há seis letras duplas desses elementos.”

[421] “Imagens de imagens.”

[422] “As quais, contadas juntamente com as vinte e quatro letras, produzem, por potência analógica, o número trinta.”

[423] E ele diz que, como resultado desse cálculo e dessa proporção, apareceu em semelhança de uma imagem aquele que, depois de seis dias, subiu o monte como quarta pessoa.

[424] E se tornou sexto.

[425] E ele também desceu.

[426] E foi detido pela Hebdômada.

[427] E assim tornou-se uma ilustre Ogdóade.

[428] E contém em si, dos elementos, o número inteiro.

[429] O qual manifestou quando veio ao seu batismo.

[430] E o símbolo da manifestação foi a descida da pomba.

[431] A qual é Omega e Alpha.

[432] E segundo o número manifesta oitocentos e um.

[433] E, por essa razão, sustenta ele, Moisés diz que o homem foi criado no sexto dia.

[434] E que a dispensação da paixão ocorreu no sexto dia.

[435] Que é a preparação.

[436] E, assim, nesse dia apareceu o último homem.

[437] Para a regeneração do primeiro homem.

[438] E que o princípio e o fim dessa dispensação é a sexta hora.

[439] Na qual ele foi pregado na árvore.

[440] Pois, diz ele, o Nous perfeito, sabendo que o número seis possui potência de produção e regeneração, manifestou aos filhos da luz a regeneração introduzida nesse número por aquele ilustre que havia aparecido.

[441] Donde também, diz ele, as letras duplas envolvem o número notável.

[442] Pois o número ilustre, misturado com os vinte e quatro elementos, produziu o nome composto de trinta letras.

[443] E, porém, diz ele, utilizou a instrumentalidade do agregado dos sete números.

[444] Para que se manifestasse o resultado do conselho imaginado por ele mesmo.

[445] Entende, pois, diz ele, por agora esse número notável como aquele que foi formado pelo Ilustre.

[446] E que, por assim dizer, foi dividido.

[447] E permaneceu fora.

[448] E ele, por meio de seu próprio poder e sabedoria, por projeção de si mesmo, comunicou animação a este mundo em imitação das sete potências.

[449] De modo a fazê-lo consistir em sete potências.

[450] E constituiu esse mundo alma do universo visível.

[451] E, por isso, esse ser recorreu a toda operação como algo espontaneamente assumido por si mesmo.

[452] E estas sete potências ministram, enquanto imitações das coisas inimitáveis, ao entendimento da Mãe.

[453] E o primeiro céu emite Alpha.

[454] E o seguinte, Epsilon.

[455] E o terceiro, Eta.

[456] E o quarto, mesmo aquele que está no meio dos sete, a potência de Iota.

[457] E o quinto, Omicron.

[458] E o sexto, Upsilon.

[459] E o sétimo, e quarto a partir do central, Omega.

[460] E todas as potências, quando conectadas numa só, emitem um único som.

[461] E glorificam aquele Ser do qual foram projetadas.

[462] E a glória desse som é transmitida para cima ao Progenitor.

[463] E, além disso, ele diz que o som dessa atribuição de glória, sendo levado à terra, tornou-se criador e produtor dos objetos terrenos.

[464] E sustenta que a prova disso pode ser tirada do caso dos bebês recém-nascidos.

[465] Cuja alma, simultaneamente com a saída do ventre, emite som semelhante ao de cada um dos elementos.

[466] Como, então, diz ele, as sete potências glorificam o Logos.

[467] Assim também a alma sofredora nos bebês o magnifica.

[468] E por causa disso, diz ele, Davi igualmente declarou.

[469] “Da boca de pequeninos e lactentes aperfeiçoaste louvor.”

[470] E de novo.

[471] “Os céus declaram a glória de Deus.”

[472] Quando, porém, a alma se vê envolvida em dificuldades, não emite outra exclamação senão Omega.

[473] Porque está aflita.

[474] A fim de que a alma superior, percebendo aquilo que lhe é afim abaixo, envie alguém para auxiliar esta alma terrena.

[475] E isto basta quanto a esses pontos.

[476] Acerca, porém, da geração dos vinte e quatro elementos, ele se exprime assim.

[477] Que Henotes coexiste com Monotes.

[478] E que destas saem duas projeções.

[479] A saber, Monas e Hen.

[480] E que estas, somadas, tornam-se quatro.

[481] Pois duas vezes dois são quatro.

[482] E de novo, os dois e os quatro, somados, manifestam o número seis.

[483] E estes seis, quadruplicados, produzem as vinte e quatro formas.

[484] E estes são os nomes da primeira Tétrade.

[485] E são entendidos como Santo dos Santos.

[486] E não podem ser pronunciados.

[487] Sendo reconhecidos somente pelo Filho.

[488] Estes, diz ele, o Pai sabe quais são.

[489] Os nomes que são pronunciados com ele em silêncio e fé são Arrhetus e Sigê.

[490] Pater e Aletheia.

[491] E desta Tétrade o número inteiro é o de vinte e quatro letras.

[492] Pois Arrhetus tem sete elementos.

[493] Sigê, cinco.

[494] Pater, cinco.

[495] E Aletheia, sete.

[496] E do mesmo modo é também a segunda Tétrade.

[497] Pois Logos e Zoe.

[498] Anthropos e Ecclesia.

[499] exibem o mesmo número de elementos.

[500] E ele diz que o nome expresso do Salvador, isto é, Jesus, consiste de seis letras.

[501] Mas que seu nome inefável, segundo o número das letras tomadas uma a uma, consiste de vinte e quatro elementos.

[502] E que Cristo, sendo Filho, consiste de doze.

[503] E que o inefável nome em Cristo consiste de trinta letras.

[504] E isso existe de acordo com as letras que nele se encontram, os elementos sendo contados um a um.

[505] Pois o nome Cristo consiste de oito elementos.

[506] Porque Chi possui três.

[507] E Ro, duas.

[508] E Ei, duas.

[509] E Iota, quatro.

[510] Sigma, cinco.

[511] E Tau, três.

[512] E Ou, duas.

[513] E San, três.

[514] Assim, o nome inefável em Cristo consiste, segundo eles, de trinta letras.

[515] E afirmam que, por essa razão, ele profere as palavras.

[516] “Eu sou o Alpha e o Omega.”

[517] Exibindo a pomba.

[518] A qual possui esse número.

[519] Oitocentos e um.

[520] Agora Jesus possui essa geração inefável.

[521] Pois da Mãe do universo, quero dizer, da primeira Tétrade, procedeu, como uma filha, a segunda Tétrade.

[522] E ela tornou-se uma Ogdóade.

[523] Da qual saiu a Década.

[524] E assim foi produzida a dezena.

[525] E depois dezoito.

[526] A Década, então, vindo juntamente com a Ogdóade.

[527] E tornando-a dez vezes maior, produziu o número oitenta.

[528] E, novamente, tornando oitenta dez vezes maior, gerou o número oitocentos.

[529] E assim o número total de letras que procedeu da Ogdóade para a Década é oitocentos e oitenta e oito.

[530] O que é Jesus.

[531] Pois o nome Jesus, segundo o valor numérico das letras, é oitocentos e oitenta e oito.

[532] Ora, também o alfabeto grego possui oito mônadas.

[533] Oito dezenas.

[534] E oito centenas.

[535] E estas exibem a soma calculada de oitocentos e oitenta e oito.

[536] Isto é, Jesus.

[537] Que consiste de todos os números.

[538] E por essa razão, diz ele, é chamado Alpha.

[539] Indicando que sua geração procede de todos.

[540] Mas, acerca da criação desse Jesus, ele se expressa assim.

[541] Que potências emanadas da segunda Tétrade moldaram Jesus.

[542] Aquele que apareceu na terra.

[543] E que o anjo Gabriel ocupou o lugar do Logos.

[544] E o Espírito Santo o de Zoe.

[545] E o Poder do Altíssimo o de Anthropos.

[546] E a Virgem o de Ecclesia.

[547] E assim, no sistema de Marcos, o homem que apareceu segundo a dispensação nasceu por meio de Maria.

[548] E quando ele veio à água, diz ele, desceu sobre ele como pomba aquele que havia subido acima.

[549] E preencheu o décimo segundo número.

[550] E nele reside a semente destes.

[551] Isto é, daqueles que são semeados juntamente com ele.

[552] E que descem com ele.

[553] E sobem com ele.

[554] E essa potência que desceu sobre ele, diz Marcos, é a semente do Pleroma.

[555] A qual contém em si tanto o Pai quanto o Filho.

[556] E a potência inominável de Sigê.

[557] Reconhecida por meio destes e de todos os Éons.

[558] E que essa semente é o espírito que estava nele.

[559] E que falou nele pela boca do Filho.

[560] Na confissão de si mesmo como Filho do Homem.

[561] E de que era aquele que manifestaria o Pai.

[562] E quando esse espírito desceu sobre Jesus, ele se uniu a ele.

[563] O Salvador da dispensação, diz ele, destruiu a morte.

[564] Ao passo que Cristo Jesus manifestou o Pai.

[565] E diz que Jesus, portanto, é o nome do homem da dispensação.

[566] E que foi exposto para a assimilação e formação de Anthropos.

[567] O qual estava prestes a descer sobre ele.

[568] E que, ao recebê-lo em si, reteve a sua posse.

[569] E que ele era Anthropos.

[570] E que ele era Logos.

[571] E que ele era Pater.

[572] E Arrhetus.

[573] E Sigê.

[574] E Aletheia.

[575] E Ecclesia.

[576] E Zoe.

[577] Creio, portanto, que no tocante a essas doutrinas é evidente para todos os que possuem mente sã.

[578] Que esses ensinamentos carecem de autoridade.

[579] E estão muito distantes do conhecimento conforme à religião.

[580] E não passam de porções de descobertas astrológicas.

[581] E da arte aritmética dos pitagóricos.

[582] E esta afirmação, vós que desejais aprender, reconhecereis como verdadeira por referência aos livros anteriores.

[583] Onde, entre outras opiniões por nós elucidadas, explicamos também essas doutrinas.

[584] A fim, porém, de que possamos provar com maior clareza que esses marcosianos são discípulos não de Cristo, mas de Pitágoras, passarei a explicar as opiniões derivadas de Pitágoras concernentes aos fenômenos meteóricos das estrelas.

[585] Tanto quanto seja possível fazê-lo em resumo.

[586] Ora, os pitagóricos fazem as seguintes afirmações.

[587] Que o universo consiste de uma Mônada e de uma Díade.

[588] E que, contando da Mônada até quatro, assim geram uma Década.

[589] E, de novo, uma Díade, avançando até a letra notável.

[590] Por exemplo, dois e quatro e seis.

[591] Exibiu o número doze.

[592] E ainda, se contarmos da Díade até a Década, produz-se trinta.

[593] E nisso se compreendem a Ogdóade.

[594] E a Década.

[595] E a Dodecada.

[596] E, portanto, por ter a letra notável, a Dodecada traz consigo uma paixão notável.

[597] E por essa razão, sustentam eles, quando surgiu um erro relativo ao número doze, a ovelha saltou do rebanho e se perdeu.

[598] Pois dizem que assim também ocorreu a apostasia em relação à Década.

[599] E com semelhante referência à Dodecada falam da moeda que uma mulher perdeu.

[600] A qual, acendendo uma lâmpada, procurou diligentemente.

[601] E fazem aplicação semelhante da perda da ovelha entre as noventa e nove.

[602] E, adicionando uns números aos outros, compõem um relato fabuloso de números.

[603] E assim, afirmam, quando o onze é multiplicado por nove, produz o número noventa e nove.

[604] E por isso se diz que a palavra Amém abrange o número noventa e nove.

[605] E a respeito de outro número se expressam assim.

[606] Que a letra Eta, juntamente com a letra notável, constitui toda a Ogdóade.

[607] Porque está situada no oitavo lugar a partir de Alpha.

[608] E, novamente, computando o número desses elementos sem a letra notável.

[609] E somando-os até Eta.

[610] Exibem o número trinta.

[611] Pois qualquer um, começando de Alpha até Eta, depois de subtrair a letra notável, descobrirá que o número dos elementos é trinta.

[612] Portanto, visto que o número trinta é unificado a partir das três potências.

[613] Quando multiplicado três vezes por si mesmo, produziu noventa.

[614] Pois três vezes trinta são noventa.

[615] E essa tríade, multiplicada por si mesma, produziu nove.

[616] Desse modo a Ogdóade trouxe à luz o número noventa e nove a partir da primeira Ogdóade, Década e Dodecada.

[617] E, em certo momento, eles reúnem o número desse trio num todo.

[618] E produzem uma Triacôntade.

[619] Ao passo que, em outro momento, subtraem doze.

[620] E o contam como onze.

[621] E do mesmo modo subtraem dez.

[622] E o fazem nove.

[623] E conectando esses números uns aos outros.

[624] E multiplicando-os por dez.

[625] Completam o número noventa e nove.

[626] Visto, porém, que o décimo segundo Éon, deixando os onze Éons de cima e partindo para baixo, retirou-se.

[627] Alegam que até isso corresponde às letras.

[628] Pois a figura das letras, dizem, ensina o mesmo.

[629] Porque Lambda está colocado como o décimo primeiro das letras.

[630] E esse Lambda vale trinta.

[631] E isso, dizem, foi colocado segundo uma imagem da dispensação de cima.

[632] Pois de Alpha, excluída a letra notável, o número das próprias letras somadas até Lambda, de acordo com o aumento das letras juntamente com o próprio Lambda, produz o número noventa e nove.

[633] Mas que o Lambda, situado como o décimo primeiro do alfabeto, desceu para buscar o número semelhante a si.

[634] A fim de completar o décimo segundo número.

[635] E que, quando foi encontrado, o número foi completado.

[636] Isso, dizem, é manifesto pela própria forma da letra.

[637] Porque Lambda, quando chegou, por assim dizer, à investigação do seu semelhante.

[638] E o encontrou e o arrebatou.

[639] Preencheu o lugar do décimo segundo.

[640] A letra Mu.

[641] A qual é composta de dois Lambdas.

[642] E por isso esses adeptos de Marcos, por meio de seu conhecimento, evitam o lugar do noventa e nove.

[643] Isto é, o Hysterema.

[644] Tipo da mão esquerda.

[645] E seguem aquele um que, acrescentado a noventa e nove, dizem ter sido transferido para a sua própria direita.

[646] E por meio desses ensinos místicos moldam também a sua cosmogonia.

[647] E alegam que pela Mãe foram criados primeiro os quatro elementos.

[648] A saber, fogo.

[649] Água.

[650] Terra.

[651] E ar.

[652] E que estes foram projetados como imagem da Tétrade superior.

[653] E, computando também suas energias.

[654] Como quente.

[655] Frio.

[656] Úmido.

[657] E seco.

[658] Afirmam que elas retratam com exatidão a Ogdóade.

[659] E, em seguida, contam dez potências.

[660] Dizem que há sete corpos orbitais.

[661] Aos quais também chamam céus.

[662] E depois um círculo que os contém a todos.

[663] E a este também nomeiam oitavo céu.

[664] E, além disso, sustentam haver sol e lua.

[665] E estes, sendo dez em número, são imagens da Década invisível que emanou de Logos e Zoe.

[666] E sustentam que a Dodecada é indicada pelo círculo zodiacal.

[667] Pois esses doze signos zodiacais, dizem, prefiguram da maneira mais manifesta a filha de Anthropos e Ecclesia.

[668] A saber, a Dodecada.

[669] E visto que o céu superior foi unido a um movimento contrário à rotação rapidíssima do todo dos signos.

[670] E, por sua lentidão, retarda e contrabalança a velocidade deles.

[671] De modo que, em trinta anos, completa seu circuito de signo em signo.

[672] Afirmam, por isso, que esse céu é imagem de Horos.

[673] Que circunda a Mãe dos demais.

[674] E que possui trinta nomes.

[675] E, de novo, a lua, que percorre o céu em trinta dias.

[676] Retrata, segundo esses dias, o número dos Éons.

[677] E o sol, cumprindo o seu circuito.

[678] E terminando seu retorno exato à primeira posição da órbita em doze meses.

[679] Manifesta a Dodecada.

[680] E também, dizem, os próprios dias, contendo a medida de doze horas, constituem tipo da Dodecada vazia.

[681] E que a circunferência do círculo zodiacal atual consiste de trezentos e sessenta graus.

[682] E que cada signo possui trinta divisões.

[683] Assim, portanto, até mesmo por meio do círculo, sustentam que se preserva a imagem da conexão entre o doze e o trinta.

[684] Mais ainda, alegando que a terra foi dividida em doze regiões.

[685] E que, segundo cada região particular, ela recebe uma potência enviada do céu.

[686] E produz filhos correspondentes em semelhança à potência que lhes transmitiu a imagem por emanação.

[687] Por isso afirmam que a terra é tipo da Dodecada superior.

[688] E, além disso, estabelecem que o Demiurgo da Ogdóade superna, desejando imitar o ser indefinido.

[689] E eterno.

[690] E ilimitado.

[691] E não sujeito ao tempo.

[692] Mas não podendo representar a estabilidade e eternidade dessa Ogdóade.

[693] Por ser fruto do Hysterema.

[694] Para esse fim designou tempos.

[695] E estações.

[696] E números.

[697] Medindo muitos anos em referência à eternidade da Ogdóade.

[698] Pensando, pela multidão dos tempos, imitar sua indefinição.

[699] E então, dizem eles, quando a Verdade lhe escapou da busca, a Falsidade o seguiu de perto.

[700] E, por isso, quando os tempos se completaram, sua obra sofreu dissolução.

[701] Tais afirmações, então, fazem os pertencentes à escola de Valentim acerca da criação e do universo.

[702] E em cada caso propagam opiniões ainda mais vazias.

[703] E supõem que isso constitui produtividade em seu sistema.

[704] Se alguém, fazendo alguma descoberta ainda maior, parecer realizar prodígios.

[705] E, encontrando, como insinuam, que cada uma das passagens da escritura concorda com os números acima, procuram incriminar Moisés e os profetas.

[706] Alegando que eles falam alegoricamente das medidas dos Éons.

[707] E, visto que tais afirmações são fúteis e instáveis, não me parece conveniente apresentá-las de forma ainda mais extensa ao leitor.

[708] Sobretudo porque agora o bem-aventurado presbítero Irineu refutou com poder e amplitude as opiniões desses hereges.

[709] E a ele devemos o conhecimento de suas invenções.

[710] E por meio dele conseguimos provar que esses hereges, apropriando-se dessas opiniões da filosofia pitagórica e das teorias excessivamente forçadas dos astrólogos, lançaram imputação sobre Cristo.

[711] Como se ele tivesse transmitido tais doutrinas.

[712] Mas, visto que considero ter explicado suficientemente as opiniões desprezíveis desses homens.

[713] E que ficou claramente demonstrado de quem são discípulos Marcos e Colarbaso, sucessores da escola de Valentim.

[714] Vejamos agora também o que afirma Basilides.

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Hipólito de Roma em Refutação de Todas as Heresias 23 https://vcirculi.com/hipolito-de-roma-em-refutacao-de-todas-as-heresias-23/ Tue, 24 Mar 2026 00:22:08 +0000 https://vcirculi.com/?p=40434 Aviso ao leitor Este livro – Hipólito de Roma — “Refutação de Todas as Heresias”, frequentemente associado ao título Philosophumena – é apresentado aqui como literatura patrística (séc. III), de...

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[1] Os discípulos, então, desse mago celebram ritos mágicos.

[2] E recorrem a encantamentos.

[3] E professam transmitir tanto filtros de amor quanto feitiços.

[4] E também demônios que, segundo dizem, enviam sonhos.

[5] Com o propósito de perturbarem quem quer que desejem.

[6] Mas também empregam aqueles chamados Paredroi.

[7] E possuem uma imagem de Simão moldada na figura de Júpiter.

[8] E uma imagem de Helena na forma de Minerva.

[9] E prestam adoração a essas imagens.

[10] E chamam uma de Senhor.

[11] E a outra de Senhora.

[12] E, se algum dentre eles, ao ver as imagens de Simão ou de Helena, os chamar pelo nome, é expulso.

[13] Como alguém ignorante dos mistérios.

[14] Este Simão, enganando muitos na Samaria por suas feitiçarias, foi repreendido pelos apóstolos.

[15] E ficou debaixo de maldição.

[16] Como foi escrito em Atos.

[17] Depois, porém, ele renegou a fé.

[18] E tentou essas práticas já mencionadas.

[19] E, viajando até Roma, encontrou-se com os apóstolos.

[20] E a ele, que enganava muitos por suas feitiçarias, Pedro ofereceu repetida oposição.

[21] Este homem, afinal, dirigindo-se a certo lugar.

[22] E sentando-se debaixo de um plátano.

[23] Continuou a instruir em suas doutrinas.

[24] E, na verdade, ao final, quando a condenação parecia iminente caso demorasse mais, afirmou que, se fosse sepultado vivo, ressuscitaria ao terceiro dia.

[25] E assim, tendo ordenado a seus discípulos que cavassem uma vala, mandou que o enterrassem ali.

[26] Eles, então, executaram a ordem recebida.

[27] E ele permaneceu naquela sepultura até hoje.

[28] Pois ele não era o Cristo.

[29] Este constitui o sistema lendário apresentado por Simão.

[30] E foi a partir dele que Valentim tomou um ponto de partida para sua própria doutrina.

[31] Essa doutrina, na verdade, era a mesma simoniana.

[32] Embora Valentim a tenha denominado com títulos diferentes.

[33] Pois Nous, e Aletheia, e Logos, e Zoe, e Anthropos, e Ecclesia, e os Éons de Valentim, são confessadamente as seis raízes de Simão.

[34] A saber, Mente e Inteligência.

[35] Voz e Nome.

[36] Raciocínio e Reflexão.

[37] Mas, visto que nos parece ter sido suficientemente explicada a trama lendária de Simão, vejamos também o que afirma Valentim.

[38] A heresia de Valentim está certamente ligada à teoria pitagórica e platônica.

[39] Pois Platão, no Timeu, deriva inteiramente suas impressões de Pitágoras.

[40] E, por isso, o próprio Timeu é o estrangeiro pitagórico de Platão.

[41] Portanto, parece conveniente começarmos recordando ao leitor alguns pontos da teoria pitagórica e platônica.

[42] E então declarar as opiniões de Valentim.

[43] Pois, ainda que nos livros anteriormente concluídos por nós com tanto esforço estejam contidas as opiniões avançadas tanto por Pitágoras quanto por Platão, ainda assim não agirei de modo irrazoável ao trazê-las novamente à memória do leitor.

[44] Por meio de um resumo dos pontos principais de seus ensinamentos favoritos.

[45] E essa recapitulação facilitará o conhecimento das doutrinas de Valentim.

[46] Por meio de comparação mais próxima.

[47] E pela semelhança da composição dos dois sistemas.

[48] Pois Pitágoras e Platão derivaram esses princípios originalmente dos egípcios.

[49] E introduziram suas novas opiniões entre os gregos.

[50] Mas Valentim tomou suas opiniões deles.

[51] Porque, embora tenha suprimido a verdade a respeito de sua dívida para com os filósofos gregos.

[52] E, desse modo, tenha procurado construir uma doutrina como se fosse peculiarmente sua.

[53] Ainda assim, na realidade, ele alterou as doutrinas desses pensadores apenas nos nomes.

[54] E nos números.

[55] E adotou uma terminologia peculiar.

[56] Valentim formou suas definições por medidas.

[57] A fim de estabelecer uma heresia helênica.

[58] Sem dúvida diversificada.

[59] Mas instável.

[60] E sem vínculo com Cristo.

[61] A origem, então, da qual Platão derivou sua teoria no Timeu é a sabedoria dos egípcios.

[62] Pois dessa fonte, por alguma tradição antiga e profética, Sólon ensinou aos gregos todo o seu sistema acerca da geração e destruição do mundo.

[63] Como diz Platão.

[64] Os gregos, porém, eram crianças em conhecimento.

[65] E não conheciam doutrina teológica de maior antiguidade.

[66] Portanto, para que possamos traçar com exatidão os argumentos pelos quais Valentim estabeleceu seus princípios, explicarei agora quais são os fundamentos da filosofia de Pitágoras de Samos.

[67] Filosofia ligada àquele silêncio tão celebrado entre os gregos.

[68] E depois elucidarei do mesmo modo aquelas opiniões que Valentim deriva de Pitágoras e Platão.

[69] Mas que refere, com toda solenidade de linguagem, a Cristo.

[70] E, antes de Cristo, ao Pai do universo.

[71] E ao Silêncio unido ao Pai.

[72] Pitágoras, então, declarou que o princípio originário do universo é a mônada não gerada.

[73] E a díade gerada.

[74] E os demais números.

[75] E ele diz que a mônada é o pai da díade.

[76] E a díade, a mãe de todas as coisas que estão sendo geradas.

[77] Sendo a gerada a mãe das coisas geradas.

[78] E Zaratas, discípulo de Pitágoras, tinha o costume de denominar a unidade como pai.

[79] E a dualidade como mãe.

[80] Pois a díade foi gerada da mônada, segundo Pitágoras.

[81] E a mônada é masculina e primária.

[82] Mas a díade é feminina e secundária.

[83] E da díade, novamente, como afirma Pitágoras, são geradas a tríade e os números seguintes até dez.

[84] Pois Pitágoras sabe que este é o único número perfeito.

[85] Refiro-me à década.

[86] Porque onze e doze são um acréscimo e repetição da década.

[87] Não, contudo, de modo que aquilo que é acrescentado constitua a geração de outro número.

[88] E todos os corpos sólidos ele gera a partir de essências incorpóreas.

[89] Pois afirma que o elemento e princípio tanto das entidades corpóreas como das incorpóreas é o ponto indivisível.

[90] E do ponto, diz ele, é gerada uma linha.

[91] E da linha, uma superfície.

[92] E uma superfície, ao expandir-se em altura, torna-se, diz ele, um corpo sólido.

[93] Donde também os pitagóricos têm um certo objeto de juramento.

[94] A saber, a concordância dos quatro elementos.

[95] E juram nestas palavras.

[96] Por aquele que deu à nossa cabeça a quaterna.

[97] Fonte que tem as raízes da natureza eterna.

[98] Ora, a quaterna é o princípio originador dos corpos naturais e sólidos.

[99] Assim como a mônada o é dos inteligíveis.

[100] E ensinam que a quaterna também gera o número perfeito.

[101] Assim como a mônada, no caso dos inteligíveis, gera a década.

[102] E demonstram isso deste modo.

[103] Se alguém, começando a contar, disser um.

[104] E acrescentar dois.

[105] Depois semelhantemente três.

[106] Estas coisas juntas serão seis.

[107] E se a estas acrescentar ainda quatro, o total será dez.

[108] Pois um, dois, três e quatro tornam-se dez.

[109] O número perfeito.

[110] Assim, diz ele, a quaterna imitou em todos os aspectos a mônada inteligível.

[111] A qual era capaz de gerar um número perfeito.

[112] Há, então, segundo Pitágoras, dois mundos.

[113] Um inteligível, que tem a mônada como princípio originador.

[114] E outro sensível.

[115] Mas deste último o princípio é a quaterna, tendo o iota, o um til, como número perfeito.

[116] E também existe, segundo os pitagóricos, o i.

[117] O til único.

[118] O qual é principal e mais dominante.

[119] E nos capacita a apreender a substância daquelas entidades inteligíveis que podem ser compreendidas por meio do intelecto e do sentido.

[120] E nessa substância inerem os nove acidentes incorpóreos.

[121] Os quais não podem existir sem substância.

[122] A saber, qualidade.

[123] Quantidade.

[124] Relação.

[125] Onde.

[126] Quando.

[127] Posição.

[128] Posse.

[129] Ação.

[130] E paixão.

[131] Estes, então, são os nove acidentes inerentes à substância.

[132] E, quando contados juntamente com a substância, compõem o número perfeito, o i.

[133] Portanto, tendo o universo sido dividido, como dissemos, em mundo inteligível e sensível, temos também a razão a partir do mundo inteligível.

[134] A fim de que pela razão contemplemos a substância das coisas que são conhecidas pelo intelecto.

[135] E que são incorpóreas e divinas.

[136] Mas temos, diz ele, cinco sentidos.

[137] Olfato.

[138] Visão.

[139] Audição.

[140] Paladar.

[141] E tato.

[142] Ora, por estes chegamos ao conhecimento das coisas discernidas pelo sentido.

[143] E assim, diz ele, o sensível é dividido do mundo inteligível.

[144] E que temos para cada um desses um instrumento de conhecimento, percebemos pela consideração seguinte.

[145] Nada dos inteligíveis, diz ele, pode ser conhecido por nós mediante os sentidos.

[146] Pois, diz ele, nem o olho viu.

[147] Nem o ouvido ouviu.

[148] Nem qualquer dos outros sentidos conheceu aquilo que é apreendido pela mente.

[149] E, de novo, tampouco pela razão é possível chegar ao conhecimento de qualquer das coisas discerníveis pelo sentido.

[150] Mas é preciso ver que uma coisa é branca.

[151] E provar que ela é doce.

[152] E conhecer pela audição que algo é musical ou desafinado.

[153] E se algum odor é fragrante ou desagradável, isso é função do olfato.

[154] Não da razão.

[155] O mesmo ocorre com os objetos do tato.

[156] Pois qualquer coisa áspera.

[157] Ou macia.

[158] Ou quente.

[159] Ou fria.

[160] Não é possível conhecer pela audição.

[161] Mas o tato é o juiz dessas sensações.

[162] Estando assim constituídas as coisas, a disposição das coisas que foram feitas e estão sendo feitas é observada acontecer em conformidade com combinações numéricas.

[163] Pois, do mesmo modo como, começando da mônada, por acréscimo de mônadas ou tríades e por coleção dos números seguintes, fazemos algum grande todo complexo de número.

[164] E depois, de um número amontoado assim formado por adição, realizamos, por certa subtração e recalculação, a solução do conjunto total dos números agregados.

[165] Assim também, afirma ele, o mundo, ligado por certa cadeia aritmética e musical, é, por sua tensão e relaxamento, e por adição e subtração, sempre e para sempre preservado incorrupto.

[166] Os pitagóricos, portanto, declaram sua opinião acerca da continuidade do mundo em algo como isto.

[167] Pois outrora foi e será.

[168] Nunca, penso eu, esta era eterna será desprovida de ambos.

[169] E quais são esses dois?

[170] Discórdia e Amor.

[171] Ora, em seu sistema, o Amor forma o mundo incorruptível e eterno, como supõem.

[172] Pois substância e mundo são um.

[173] A Discórdia, porém, separa e põe à parte.

[174] E manifesta numerosas tentativas ao subdividir para formar o mundo.

[175] É como se alguém dividisse em pequenas partes e separasse aritmeticamente a miríade em milhares.

[176] E centenas.

[177] E dezenas.

[178] E dracmas em óbolos e pequenas frações.

[179] Dessa maneira, diz ele, a Discórdia separa a substância do mundo em animais.

[180] Plantas.

[181] Metais.

[182] E coisas semelhantes.

[183] E o artífice da geração de todas as coisas produzidas é, segundo eles, a Discórdia.

[184] Ao passo que o Amor, por outro lado, governa e provê ao universo de tal modo que ele goze permanência.

[185] E conduzindo à unidade as partes do universo que foram divididas e dispersas.

[186] E levando-as para fora de seu modo separado de existência.

[187] O Amor as une e acrescenta ao universo.

[188] Para que este desfrute permanência.

[189] E assim constitui um só sistema.

[190] Portanto, não cessarão.

[191] Nem a Discórdia de dividir o mundo.

[192] Nem o Amor de anexar ao mundo as partes divididas.

[193] De descrição semelhante a esta, ao que parece, é a distribuição do mundo segundo Pitágoras.

[194] Mas Pitágoras diz que as estrelas são fragmentos do sol.

[195] E que as almas dos animais são trazidas das estrelas.

[196] E que estas são mortais quando estão no corpo.

[197] Como se estivessem enterradas, por assim dizer, num túmulo.

[198] Ao passo que se levantam deste mundo e se tornam imortais quando somos separados dos corpos.

[199] Donde Platão, perguntado por alguém o que é filosofia, respondeu.

[200] É a separação da alma do corpo.

[201] Pitágoras, então, também se tornou estudante dessas doutrinas.

[202] Nas quais fala tanto por enigmas quanto por expressões como estas.

[203] Quando saíres do teu próprio tabernáculo, não voltes.

[204] Se, porém, não agires assim, as Fúrias, auxiliares da justiça, te alcançarão.

[205] Denominando o corpo como o próprio tabernáculo de cada um.

[206] E suas paixões como as Fúrias.

[207] Portanto, quando ele diz “quando saíres”, isto é, quando saíres do corpo, não desejes ardentemente isso.

[208] Mas, se fores ávido por essa partida, as paixões novamente te prenderão no corpo.

[209] Pois estes supõem que há uma transição das almas de um corpo para outro.

[210] Assim também Empédocles, adotando os princípios de Pitágoras, afirma.

[211] Pois, diz ele, as almas amantes do prazer, como Platão declara, se, quando estão sob a condição de sofrimento própria do homem, não elaboram teorias de filosofia, devem passar por todos os animais e plantas novamente até um corpo humano.

[212] E quando a alma puder formar um sistema de especulação três vezes no mesmo corpo, sustenta ele, então ela sobe à natureza de alguma estrela afim.

[213] Se, porém, a alma não filosofar, deve passar pela mesma sucessão de mudanças uma vez mais.

[214] Ele afirma, então, que a alma às vezes pode mesmo tornar-se mortal.

[215] Se for vencida pelas Fúrias.

[216] Isto é, pelas paixões do corpo.

[217] E imortal, se conseguir escapar às Fúrias.

[218] Que são as paixões.

[219] Mas, visto que também escolhemos mencionar os ditos expressos obscuramente por Pitágoras aos seus discípulos por meio de símbolos, parece igualmente conveniente recordar os demais.

[220] E tocamos neste assunto também por causa dos heresiarcas.

[221] Os quais tentam, por algum método desse tipo, conversar por meio de símbolos.

[222] E tais símbolos não são deles próprios.

[223] Mas, ao propô-los, tiraram proveito de expressões empregadas pelos pitagóricos.

[224] Pitágoras, então, instrui seus discípulos, dirigindo-se a eles assim.

[225] Amarrai o saco que leva a roupa de cama.

[226] Ora, visto que os que pretendem empreender uma viagem amarram suas roupas numa sacola para estarem prontos para a estrada, assim também ele quer que seus discípulos estejam preparados.

[227] Visto que a morte pode sobrevir-lhes de surpresa a qualquer momento.

[228] Desta maneira Pitágoras procurava fazer com que seus seguidores não padecessem de deficiência nas qualificações requeridas em seus discípulos.

[229] Por isso, necessariamente, ao romper do dia, ele costumava instruir os pitagóricos a exortarem-se mutuamente a amarrar o saco que leva a roupa de cama.

[230] Isto é, a estarem preparados para a morte.

[231] Não atires o fogo com a espada.

[232] Quer dizer, não, dirigindo-lhe palavras, disputes com um homem irado.

[233] Pois uma pessoa em paixão é como fogo.

[234] Enquanto a espada é a expressão proferida.

[235] Não pises sobre uma vassoura.

[236] Quer dizer, não desprezes coisa pequena.

[237] Não plantes uma palmeira em casa.

[238] Quer dizer, não fomentes discórdia numa família.

[239] Pois a palmeira é símbolo de combate e morticínio.

[240] Não comas de um banco.

[241] Quer dizer, não te entregues a ofício ignóbil.

[242] Para que não te tornes escravo do corpo, que é corruptível.

[243] Mas obtém teu sustento da literatura.

[244] Pois está ao teu alcance tanto nutrir o corpo quanto tornar melhor a alma.

[245] Não dês uma mordida em um pão não cortado.

[246] Quer dizer, não diminuas teus bens.

[247] Mas vive do lucro deles.

[248] E guarda tua substância como um pão inteiro.

[249] Não te alimentes de feijões.

[250] Quer dizer, não aceites o governo de uma cidade.

[251] Pois naquele tempo costumavam votar para magistrados por meio de feijões.

[252] Estes, então, e outros ditos semelhantes, os pitagóricos apresentam.

[253] E os hereges, imitando-os, são considerados por alguns como proferindo importantes verdades.

[254] O sistema pitagórico, porém, ensina que o Criador de todas as existências supostas é o Grande Geômetra e Calculador.

[255] Um sol.

[256] E que este foi fixado em todo o mundo.

[257] Assim como nas coisas corpóreas a alma.

[258] Segundo a declaração de Platão.

[259] Pois o sol, sendo da natureza do fogo, assemelha-se à alma.

[260] Mas a terra se assemelha ao corpo.

[261] E, separado do fogo, nada seria visível.

[262] Nem haveria qualquer objeto de tato sem algo sólido.

[263] Mas nenhum corpo sólido existe sem terra.

[264] Por isso a Divindade, colocando o ar no meio, formou o corpo do universo a partir de fogo e terra.

[265] E o Sol, diz ele, calcula e mede geometricamente o mundo de modo semelhante ao seguinte.

[266] O mundo é uma unidade cognoscível pelo sentido.

[267] E a respeito deste mundo agora fazemos estas afirmações.

[268] Mas aquele que é hábil na ciência dos números e geômetra o dividiu em doze partes.

[269] E os nomes dessas partes são os seguintes.

[270] Áries.

[271] Touro.

[272] Gêmeos.

[273] Câncer.

[274] Leão.

[275] Virgem.

[276] Libra.

[277] Escorpião.

[278] Sagitário.

[279] Capricórnio.

[280] Aquário.

[281] Peixes.

[282] Novamente, divide cada uma das doze partes em trinta partes.

[283] E estas são os dias do mês.

[284] Novamente, divide cada parte das trinta partes em sessenta pequenas divisões.

[285] E cada uma dessas pequenas divisões ele subdivide em porções diminutas.

[286] E estas novamente em porções ainda mais diminutas.

[287] E sempre fazendo isso.

[288] E sem interromper.

[289] Mas recolhendo dessas porções divididas um agregado.

[290] E constituindo-o em um ano.

[291] E novamente resolvendo e dividindo o composto.

[292] O sol completa inteiramente o grande e eterno mundo.

[293] De natureza semelhante a esta, como eu, que examinei com exatidão os seus sistemas, tentei declarar resumidamente, é a opinião de Pitágoras e Platão.

[294] E desse sistema, não dos evangelhos, Valentim, como demonstramos, recolheu os materiais de sua heresia.

[295] Refiro-me à sua própria heresia.

[296] E pode, portanto, com justiça ser considerado pitagórico e platonista, não cristão.

[297] Valentim, portanto, e Heracleão.

[298] E Ptolemeu.

[299] E toda a escola deles.

[300] Como discípulos de Pitágoras e Platão.

[301] E seguindo estes guias.

[302] Estabeleceram como princípio fundamental de sua doutrina o sistema aritmético.

[303] Pois, igualmente, segundo esses valentianianos, a causa originadora do universo é uma mônada.

[304] Não gerada.

[305] Imperecível.

[306] Incompreensível.

[307] Inconcebível.

[308] Produtiva.

[309] E causa da geração de todas as coisas existentes.

[310] E essa mônada é por eles chamada Pai.

[311] Há, porém, entre eles alguma considerável diversidade de opinião.

[312] Pois alguns deles, para que a doutrina pitagórica de Valentim fique totalmente livre de mistura com outras ideias, supõem que o Pai é sem feminino.

[313] E sem esposa.

[314] E solitário.

[315] Mas outros, imaginando ser impossível que de um macho apenas pudesse proceder geração alguma de qualquer das coisas que vieram à existência, necessariamente colocam juntamente com o Pai do universo, para que ele seja Pai, a Sigê como esposa.

[316] Mas quanto a Sigê, se alguma vez ela está unida em matrimônio com o Pai ou não, deixamos isso para que eles disputem entre si.

[317] Nós, por ora, mantendo o princípio pitagórico, que é uno.

[318] E sem esposa.

[319] E sem feminino.

[320] E carente de nada.

[321] Passaremos a dar conta de suas doutrinas como eles mesmos as ensinam.

[322] Não há, diz Valentim, absolutamente nada gerado.

[323] Mas o Pai sozinho é não gerado.

[324] Não sujeito à condição de lugar.

[325] Nem à de tempo.

[326] Não tendo conselheiro.

[327] E não sendo qualquer outra substância que pudesse ser percebida pelos métodos ordinários de percepção.

[328] O Pai, porém, era solitário.

[329] Subsistindo, como dizem, em estado de quietude.

[330] E repousando em isolamento dentro de si mesmo.

[331] Quando, porém, se tornou produtivo, pareceu-lhe conveniente em certo momento gerar e trazer à frente o mais belo e perfeito dos germes de existência que possuía dentro de si mesmo.

[332] Pois o Pai não era amante da solidão.

[333] Pois, diz ele, ele era todo amor.

[334] Mas amor não é amor se não houver algum objeto de afeição.

[335] O próprio Pai, então, como era solitário, projetou e produziu Nous e Aletheia.

[336] Isto é, uma díade que se tornou senhora.

[337] E origem.

[338] E mãe de todos os Éons contados por eles como existentes dentro do Pleroma.

[339] Nous e Aletheia, projetados do Pai, sendo um capaz de continuar a geração, derivando existência de um ser produtivo, Nous, ele mesmo, em imitação do Pai, projetou Logos e Zoe.

[340] E Logos e Zoe projetam Anthropos e Ecclesia.

[341] Mas Nous e Aletheia, quando contemplaram que sua própria descendência havia nascido produtiva, deram graças ao Pai do universo.

[342] E oferecem-lhe um número perfeito.

[343] A saber, dez Éons.

[344] Pois, diz ele, Nous e Aletheia não poderiam oferecer ao Pai número mais perfeito do que este.

[345] Pois o Pai, que é perfeito, devia ser celebrado por um número perfeito.

[346] E dez é um número perfeito.

[347] Porque este é o primeiro dos números formados pela pluralidade.

[348] E, portanto, perfeito.

[349] O Pai, porém, sendo ainda mais perfeito, porque sozinho não gerado, por meio da união conjugal primária única de Nous e Aletheia encontrou meio de projetar todas as raízes das coisas existentes.

[350] Logos mesmo, e Zoe, então, viram que Nous e Aletheia tinham celebrado o Pai do universo por um número perfeito.

[351] E Logos igualmente com Zoe quiseram magnificar seu próprio pai e mãe, Nous e Aletheia.

[352] Visto, porém, que Nous e Aletheia eram gerados e não possuíam a paternidade perfeita e incriada, Logos e Zoe não glorificam Nous, seu pai, com um número perfeito.

[353] Mas, longe disso, com um número imperfeito.

[354] Pois Logos e Zoe oferecem doze Éons a Nous e Aletheia.

[355] Pois, segundo Valentim, estes, a saber, Nous e Aletheia, Logos e Zoe, Anthropos e Ecclesia, foram as raízes primárias dos Éons.

[356] Mas há dez Éons procedentes de Nous e Aletheia.

[357] E doze de Logos e Zoe.

[358] Vinte e oito ao todo.

[359] E a estes dez atribuem as seguintes denominações.

[360] Bythus e Mixis.

[361] Ageratus e Henosis.

[362] Autophyes e Hedone.

[363] Acinetus e Syncrasis.

[364] Monogenes e Macaria.

[365] Estes são os dez Éons que alguns dizem terem sido projetados por Nous e Aletheia.

[366] Mas alguns, por Logos e Zoe.

[367] Outros, porém, afirmam que os doze Éons foram projetados por Anthropos e Ecclesia.

[368] Enquanto outros, por Logos e Zoe.

[369] E a estes dão os seguintes nomes.

[370] Paracletus e Pistis.

[371] Patricus e Elpis.

[372] Metricus e Agape.

[373] Aeinous e Synesis.

[374] Ecclesiasticus e Macariotes.

[375] Theletus e Sophia.

[376] Mas, dos doze, o décimo segundo e mais jovem de todos os vinte e oito Éons, sendo feminino e chamado Sophia, observou a multidão e o poder dos Éons que a cercavam.

[377] E precipitou-se de volta à profundidade do Pai.

[378] E percebeu que todos os demais Éons, por serem gerados, geram por união conjugal.

[379] O Pai, ao contrário, sozinho, sem cópula, produziu descendência.

[380] Ela quis imitar o Pai.

[381] E produzir por si mesma sem parceiro conjugal.

[382] Para realizar uma obra em nada inferior à do Pai.

[383] Sophia, porém, ignorava que somente o Não Gerado, sendo princípio originador do universo, bem como raiz, profundidade e abismo, possui sozinho o poder de autogeração.

[384] Mas Sophia, sendo gerada e nascida depois de muitos outros Éons, não é capaz de obter posse do poder inerente ao Não Gerado.

[385] Pois no Não Gerado, diz ele, todas as coisas existem simultaneamente.

[386] Mas nos Éons gerados, o feminino projeta a substância.

[387] E o masculino dá forma à substância projetada pelo feminino.

[388] Sophia, portanto, preparou-se para projetar somente aquilo que era capaz de projetar.

[389] A saber, uma substância sem forma e indigesta.

[390] E isso, diz ele, é o que Moisés afirma.

[391] “E a terra era invisível e informe.”

[392] Esta substância, diz ele, é a boa e celestial Jerusalém.

[393] Na qual Deus prometeu conduzir os filhos de Israel.

[394] Dizendo.

[395] “Eu vos levarei a uma terra que mana leite e mel.”

[396] Tendo surgido, portanto, dentro do Pleroma a ignorância em consequência de Sophia.

[397] E a informeza em consequência da prole de Sophia.

[398] Surgiu confusão no Pleroma.

[399] Pois todos os Éons gerados foram tomados de apreensão.

[400] Imaginando que, do mesmo modo, também descendências informes e incompletas dos Éons viriam a ser geradas.

[401] E que alguma destruição, num tempo não distante, por fim alcançaria os Éons.

[402] Todos os Éons, então, recorreram em súplica ao Pai.

[403] Para que ele tranquilizasse a chorosa Sophia.

[404] Pois ela continuava chorando e lamentando por causa do aborto produzido por ela.

[405] Pois assim o denominam.

[406] O Pai, então, compadecendo-se das lágrimas de Sophia.

[407] E aceitando a súplica dos Éons.

[408] Ordena uma nova projeção.

[409] Pois não projetou ele próprio.

[410] Mas Nous e Aletheia projetaram Cristo e o Espírito Santo.

[411] Para a restauração da forma.

[412] E a destruição do aborto.

[413] E para a consolação e cessação dos gemidos de Sophia.

[414] E trinta Éons vieram à existência juntamente com Cristo e o Espírito Santo.

[415] Alguns desses valentianianos querem que isto constitua uma triacôn­tade de Éons.

[416] Ao passo que outros desejam que Sigê exista juntamente com o Pai.

[417] E que os Éons sejam contados juntamente com eles.

[418] Cristo, portanto, sendo adicionalmente projetado, e o Espírito Santo, por Nous e Aletheia, imediatamente separam do conjunto dos Éons esse aborto de Sophia, que era sem forma.

[419] E nascido apenas dela mesma.

[420] E gerado sem união conjugal.

[421] Para que os Éons perfeitos, vendo isso, não fossem perturbados por causa de sua informeza.

[422] Portanto, para que a informeza do aborto não se manifestasse de modo algum aos Éons perfeitos, o Pai projeta ainda adicionalmente um Éon.

[423] A saber, Staurus.

[424] E ele, tendo sido gerado grande, como de um pai poderoso e perfeito.

[425] E sendo projetado para a guarda e defesa dos Éons, torna-se limite do Pleroma.

[426] Tendo dentro de si todos os trinta Éons reunidos.

[427] Pois estes são os que haviam sido projetados.

[428] Ora, este Éon é chamado Horos.

[429] Porque separa do Pleroma o Hysterema que está fora.

[430] E é chamado Metocheus.

[431] Porque também compartilha do Hysterema.

[432] E é denominado Staurus.

[433] Porque está fixado inflexivelmente e inexoravelmente.

[434] De modo que nada do Hysterema pode aproximar-se dos Éons que estão dentro do Pleroma.

[435] Fora, então, de Horos, ou Metocheus, ou Staurus, está a Ogdóade, como a chamam.

[436] E é aquela Sophia que está fora do Pleroma.

[437] A qual Cristo, que fora adicionalmente projetado por Nous e Aletheia, formou.

[438] E fez um Éon perfeito.

[439] Para que em nada ela fosse inferior em poder a qualquer dos Éons dentro do Pleroma.

[440] Visto, porém, que Sophia foi formada fora.

[441] E não era possível nem justo que Cristo e o Espírito Santo, que foram projetados de Nous e Aletheia, permanecessem fora do Pleroma.

[442] Cristo retirou-se apressadamente.

[443] E também o Espírito Santo.

[444] Daquela a quem haviam dado forma, para Nous e Aletheia dentro do Limite.

[445] Para que com os demais Éons glorificassem o Pai.

[446] Depois, então, de haver surgido certa paz e harmonia entre todos os Éons dentro do Pleroma, pareceu-lhes conveniente não apenas magnificar o Filho por meio de união conjugal.

[447] Mas também glorificar o Pai com uma oferta de frutos maduros.

[448] Então todos os trinta Éons consentiram em projetar um único Éon.

[449] Fruto conjunto do Pleroma.

[450] Para que ele fosse penhor de sua união.

[451] E unanimidade.

[452] E paz.

[453] E ele sozinho foi projetado por todos os Éons em honra do Pai.

[454] Este é chamado entre eles Fruto Conjunto do Pleroma.

[455] Estas coisas, então, ocorreram dentro do Pleroma desta maneira.

[456] E o Fruto Conjunto do Pleroma foi projetado.

[457] Isto é, Jesus.

[458] Pois este é o seu nome.

[459] O grande Sumo Sacerdote.

[460] Sophia, porém, que estava fora do Pleroma, buscando Cristo, que lhe dera forma, e o Espírito Santo, caiu em grande terror.

[461] Porque temia perecer se ele, que lhe dera forma e consistência, se separasse dela.

[462] E foi tomada de tristeza.

[463] E caiu em grande perplexidade.

[464] Enquanto refletia quem era aquele que lhe havia dado forma.

[465] E o que era o Espírito Santo.

[466] E para onde ele havia partido.

[467] E quem havia impedido que estivessem presentes.

[468] E quem invejara aquele espetáculo glorioso e bem-aventurado.

[469] Enquanto envolvida em sofrimentos assim, voltou-se em oração e súplica àquele que a havia deixado.

[470] Durante a expressão de suas preces, Cristo, que está dentro do Pleroma, compadeceu-se dela.

[471] E todos os demais Éons foram igualmente comovidos.

[472] E enviam para fora do Pleroma o Fruto Conjunto do Pleroma como esposo para Sophia, que estava fora.

[473] E como reparador daqueles sofrimentos que ela padeceu ao procurar Cristo.

[474] O Fruto, então, chegando fora do Pleroma.

[475] E encontrando Sophia no meio daquelas quatro paixões primárias.

[476] A saber, medo.

[477] E tristeza.

[478] E perplexidade.

[479] E súplica.

[480] Corrigiu-lhe as afeições.

[481] Corrigindo-as, porém, observou que não seria apropriado destruí-las.

[482] Visto que são eternas por natureza.

[483] E próprias de Sophia.

[484] E, contudo, também não era conveniente que Sophia existisse no meio de tais paixões.

[485] Em medo e tristeza.

[486] Súplica e perplexidade.

[487] Ele, portanto, sendo Éon tão grande.

[488] E fruto de todo o Pleroma.

[489] Fez com que as paixões se afastassem dela.

[490] E as tornou essências subsistentes.

[491] Transformou o medo em desejo anímico.

[492] E a tristeza em matéria.

[493] E fez da perplexidade a paixão dos demônios.

[494] Mas a conversão.

[495] E a súplica.

[496] E a petição.

[497] Constituiu como caminho para o arrependimento.

[498] E como poder sobre a essência anímica.

[499] A qual é denominada direita.

[500] O Criador agiu por medo.

[501] E é isso, diz ele, o que a escritura afirma.

[502] “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria.”

[503] Pois este é o princípio das afeições de Sophia.

[504] Porque ela foi tomada de medo.

[505] Depois de tristeza.

[506] Em seguida de perplexidade.

[507] E assim recorreu à súplica e à petição.

[508] E a essência anímica, diz ele, é de natureza ígnea.

[509] E também é chamada por eles de lugar superceleste.

[510] E Hebdômada.

[511] E Ancião de Dias.

[512] E quaisquer outras afirmações semelhantes que façam sobre este Éon, alegam que se aplicam ao anímico.

[513] O qual afirmam ser criador do mundo.

[514] Ora, ele é de aparência de fogo.

[515] Moisés também, diz ele, expressa-se assim.

[516] “O Senhor teu Deus é fogo ardente e consumidor.”

[517] Pois ele também quer pensar que isso foi assim escrito.

[518] Há, porém, diz ele, dupla potência do fogo.

[519] Pois o fogo é consumidor de tudo.

[520] E não pode ser apagado.

[521] Portanto, segundo esta divisão, existe certa alma sujeita à morte.

[522] A qual é uma espécie de mediadora.

[523] Pois é uma Hebdômada.

[524] E Cessação.

[525] Porque, abaixo da Ogdóade, onde está Sophia.

[526] Mas acima da Matéria, que é o Criador, foi formado um dia.

[527] E o Fruto Conjunto do Pleroma.

[528] Se a alma foi moldada à imagem das realidades superiores, isto é, da Ogdóade, tornou-se imortal.

[529] E foi para a Ogdóade.

[530] A qual, diz ele, é a Jerusalém celestial.

[531] Se, porém, foi moldada à imagem da Matéria, isto é, das paixões corpóreas, a alma é de natureza perecível.

[532] E, consequentemente, é destruída.

[533] Assim, portanto, tendo vindo à existência a primeira e maior potência da essência anímica, imagem do Filho unigênito, também o diabo, que é o príncipe deste mundo, constitui a potência da essência material.

[534] Assim como Belzebu o é da essência demoníaca que emana da ansiedade.

[535] Em consequência disso, Sophia do alto exerceu sua energia desde a Ogdóade até a Hebdômada.

[536] Pois o Demiurgo, dizem eles, nada sabe absolutamente.

[537] Mas é, segundo eles, destituído de entendimento.

[538] E tolo.

[539] E não tem consciência do que está fazendo ou produzindo.

[540] Mas nele, estando em tal estado de ignorância, até mesmo quanto ao fato de estar produzindo, Sophia operava toda sorte de energia.

[541] E infundia vigor.

[542] E, embora Sophia fosse realmente a causa operante, ele próprio imagina que tira de si a criação do mundo.

[543] Donde começou dizendo.

[544] “Eu sou Deus.”

[545] “E fora de mim não há outro.”

[546] A quaterna, então, defendida por Valentim, é uma fonte da natureza eterna.

[547] Tendo raízes.

[548] E Sophia é a potência de quem a criação anímica e material recebeu sua presente condição.

[549] Mas Sophia é chamada Espírito.

[550] E o Demiurgo, Alma.

[551] E o diabo, o príncipe deste mundo.

[552] E Belzebu, o príncipe dos demônios.

[553] Estas são as afirmações que eles apresentam.

[554] Mas, além disso, tornando, como anteriormente mencionei, todo o seu sistema doutrinário semelhante à arte aritmética, determinam que os trinta Éons dentro do Pleroma projetaram novamente outros Éons.

[555] Segundo a proporção numérica adotada pelos pitagóricos.

[556] A fim de que o Pleroma fosse formado em um agregado segundo um número perfeito.

[557] Pois como os pitagóricos dividiram a esfera celeste em doze, e trinta, e sessenta partes.

[558] E como têm partes mínimas de porções diminutas.

[559] Isso já foi tornado evidente.

[560] Deste modo esses valentianianos subdividem as partes dentro do Pleroma.

[561] Ora, do mesmo modo, as partes na Ogdóade foram subdivididas.

[562] E foi projetada Sophia.

[563] Que é, segundo eles, a mãe de todas as criaturas vivas.

[564] E o Fruto Conjunto do Pleroma.

[565] Que é o Logos.

[566] E outros Éons.

[567] Que são anjos celestes e têm sua cidadania na Jerusalém que está acima, isto é, no céu.

[568] Pois essa Jerusalém é Sophia.

[569] Ela, isto é, a que está fora do Pleroma.

[570] E seu esposo é o Fruto Conjunto do Pleroma.

[571] E o Demiurgo projetou almas.

[572] Pois esta Sophia é a essência das almas.

[573] Este Demiurgo, segundo eles, é Abraão.

[574] E essas almas são os filhos de Abraão.

[575] Da essência material e diabólica o Demiurgo formou corpos para as almas.

[576] Isto é o que foi declarado.

[577] “E Deus formou o homem, tomando barro da terra, e soprou em seu rosto o sopro da vida, e o homem tornou-se alma vivente.”

[578] Isto, segundo eles, é o homem interior.

[579] O homem natural.

[580] Habitando no corpo material.

[581] Ora, um homem material é perecível.

[582] Incompleto.

[583] E formado da essência diabólica.

[584] E este é o homem material.

[585] Como se fosse, segundo eles, uma hospedaria ou morada.

[586] Ora de alma somente.

[587] Ora de alma e demônios.

[588] Ora de alma e logoi.

[589] E estes são os logoi que foram dispersos de cima.

[590] Do Fruto Conjunto do Pleroma e de Sophia.

[591] Para este mundo.

[592] E habitam num corpo terreno com uma alma.

[593] Quando os demônios não tomam morada nessa alma.

[594] Isto, diz ele, é o que foi escrito na escritura.

[595] “Por essa causa dobro meus joelhos diante do Deus e Pai e Senhor de nosso Senhor Jesus Cristo.”

[596] “Para que Deus vos conceda ter Cristo habitando no homem interior.”

[597] Isto é, no homem natural.

[598] Não no corporal.

[599] “Para que possais compreender qual seja a profundidade.”

[600] A qual é o Pai do universo.

[601] “E qual a largura.”

[602] A qual é Staurus, o limite do Pleroma.

[603] “Ou qual o comprimento.”

[604] Isto é, o Pleroma dos Éons.

[605] Por isso, diz ele, o homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus.

[606] Pois elas lhe são loucura.

[607] Mas loucura, diz ele, é a potência do Demiurgo.

[608] Porque ele era tolo e destituído de entendimento.

[609] E imaginava que ele mesmo fabricava o mundo.

[610] Ignorando, porém, que Sophia, a Mãe, a Ogdóade, era na realidade a causa de todas as operações realizadas por ele, que não tinha consciência alguma acerca da criação do mundo.

[611] Todos os profetas, portanto, e a lei falaram por meio do Demiurgo.

[612] Um deus tolo, diz ele.

[613] E eles mesmos tolos, que nada sabiam.

[614] Por causa disso, diz ele, o Salvador observa.

[615] “Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores.”

[616] E o apóstolo usa estas palavras.

[617] “O mistério que não foi dado a conhecer às gerações anteriores.”

[618] Pois nenhum dos profetas, diz ele, disse coisa alguma acerca das coisas de que falamos.

[619] Porque o profeta não podia deixar de ignorar todas essas coisas.

[620] Visto que certamente haviam sido pronunciadas apenas pelo Demiurgo.

[621] Quando, portanto, a criação recebeu sua completude.

[622] E quando depois disso devia haver a revelação dos filhos de Deus.

[623] Isto é, do Demiurgo, o que até então tinha permanecido oculto.

[624] E na obscuridade do qual o homem natural estava escondido.

[625] E tinha um véu sobre o coração.

[626] Quando, então, era tempo de que o véu fosse removido.

[627] E esses mistérios fossem vistos.

[628] Jesus nasceu de Maria, a virgem.

[629] Segundo a declaração da escritura.

[630] “O Espírito Santo virá sobre ti.”

[631] Sophia é o Espírito.

[632] “E o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra.”

[633] O Altíssimo é o Demiurgo.

[634] “Por isso, o que nascer de ti será chamado santo.”

[635] Pois ele não foi gerado apenas do Altíssimo.

[636] Assim como os criados à semelhança de Adão foram criados apenas do Altíssimo.

[637] Isto é, de Sophia e do Demiurgo.

[638] Jesus, porém, o novo homem, foi gerado do Espírito Santo.

[639] Isto é, de Sophia e do Demiurgo.

[640] Para que o Demiurgo completasse a conformação e constituição de seu corpo.

[641] E o Espírito Santo fornecesse sua essência.

[642] E para que um Logos celestial procedesse da Ogdóade, nascendo de Maria.

[643] Acerca deste Logos eles têm grande questão entre si.

[644] Ocasião tanto de divisões quanto de dissensão.

[645] E, por isso, a doutrina deles se dividiu.

[646] E uma doutrina, segundo eles, é chamada Oriental.

[647] E a outra Italiana.

[648] Os da Itália, dentre os quais estão Heracleão e Ptolemeu, dizem que o corpo de Jesus era anímico.

[649] E, por causa disso, sustentam que em seu batismo o Espírito Santo, como pomba, desceu.

[650] Isto é, o Logos da Mãe de cima, quero dizer, Sophia.

[651] E veio sobre o homem anímico.

[652] E o ressuscitou dentre os mortos.

[653] Isto, diz ele, é o que foi declarado.

[654] “Aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também os vossos corpos mortais e naturais.”

[655] Pois o barro caiu sob maldição.

[656] Porque, diz ele, “pó és e ao pó tornarás.”

[657] Os orientais, por outro lado, dentre os quais estão Axiônico e Bardesanes, afirmam que o corpo do Salvador era espiritual.

[658] Pois veio sobre Maria o Espírito Santo.

[659] Isto é, Sophia e o poder do Altíssimo.

[660] Esta é a arte criadora.

[661] Concedida para que aquilo que foi dado a Maria pelo Espírito fosse moldado.

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